quarta-feira, 15 de julho de 2015


15 de julho de 2015 | N° 18227 
DAVID COIMBRA

Quem está certo entre alemães e gregos

A dívida da Grécia virou batalha ideológica. Se os gregos conseguirem dar o calote, a esquerda vence; se os gregos tiverem de pagar, quem vence é a direita. É isso mesmo?

A Alemanha é de direita? Então, quero que o Brasil também seja de direita. Os alemães vivem bem. Trabalham pouco, ganham muito, divertem-se como vereadores participando de seminário na Bahia.

Mas talvez não baste ser de direita para ter riqueza nem baste ser de esquerda para ter igualdade. Talvez seja mais complexo.

Li o livro do Thomas Piketty, economista francês de esquerda. É um livro que faz uma análise profunda para chegar a uma conclusão rasa. A proposta de Piketty para diminuir a desigualdade é a criação de um imposto sobre fortunas no mundo inteiro. Ora, ele vive numa Europa parcamente unificada, que enfrenta, de um lado, a ameaça de desagregação, e, de outro, a da invasão dos refugiados de países miseráveis da África e do Oriente Médio. Criar qualquer coisa que seja universal, neste mundo, é improvável; uma taxa, impossível. O próprio Piketty reconhece que sua ideia é sonhadora em excesso, para não dizer ingênua, mas ainda assim prefere defendê-la a trabalhar com a realidade.

Agora, falando sobre a dívida da Grécia, Piketty defendeu o não pagamento, alegando que a Alemanha teve suas dívidas perdoadas depois das duas guerras mundiais.

Sério? Comparar indenizações e dívidas de guerra com empréstimos contraídos em tempos de normalidade?

Piketty lembrou que a dívida alemã da I Guerra foi perdoada. Verdade. Foi perdoada 15 anos depois do Tratado de Versalhes, que, entre outras cláusulas punitivas, tirou todas as colônias da Alemanha, além de grande parte do seu território, limitou seu exército e obrigou o país a pagar pensões para as viúvas e órfãos das nações vencedoras.

Já na II Guerra, a Alemanha foi bombardeada, invadida e virtualmente destruída. Durante a tomada de Berlim, 2 milhões de alemãs foram estupradas pelos russos. O que sobrou do país foi dividido entre as quatro potências invasoras: União Soviética mandava no Oriente; Estados Unidos, França e Inglaterra, no Ocidente.

Onde está a semelhança com a Grécia?

Será que os “torcedores” da Alemanha vão contra-argumentar que, até hoje, os gregos não indenizaram os troianos pela aniquilação de Troia, há 3,5 mil anos?

O debate ideológico, em geral, tem muitas ideias e pouca inteligência. Porque ser conduzido pela direita ou pela esquerda não é garantia de excelência em país algum. É verdade que a direita tem mais sucesso na condução da economia, mas uma nação não é uma empresa, seu objetivo não é o lucro: é o bem-estar dos cidadãos. 

É por isso que o Estado precisa tomar conta da educação das crianças, da segurança pública e de níveis da saúde e da infraestrutura que sejam inalcançáveis pelo financiamento privado. Ser mais à esquerda ou mais à direita vai depender da realidade de cada país e do momento que atravessa. Os Estados Unidos já foram mais à esquerda do que são hoje, no tempo de Roosevelt. E já foram mais à direita, no tempo de Reagan. Deu certo em ambos os casos. Mas Reagan falharia no tempo de Roosevelt, e Roosevelt falharia no tempo de Reagan.

Decerto que é preciso ter ideias para acertar, mas também é certo que não existe uma só ideia certa.

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