sábado, 11 de julho de 2015



12 de julho de 2015 | N° 18224
ANTONIO PRATA

Meia abdominal


Deito no banco de pedra, dobro as pernas, apoio os pés sobre o assento, entrelaço as mãos atrás da cabeça, vou erguendo o tronco, devagar, até que, no meio da abdominal, dou com o céu, lá no alto. É um desses céus de inverno, no campo: limpo, azul, uma ou outra nuvem indo, sem muita pressa, sabe-se lá pra onde, como as vacas no pasto, aqui embaixo.

É bonito, mas nem de longe é o céu mais espetacular que eu já vi. Lembro do sol se pondo no mar de Itaúnas, na adolescência. (A bola de fogo incendiando o Atlântico, e eu me remoendo, na areia: Beijo? Não beijo? Beijo? Não beijei, pra variar – terminei a noite bêbado, enquanto ela se atracava com o cara do violão.) Lembro de um azul quase escuro de tão claro, sem uma única caspinha branca, emoldurando as laranjeiras, depois o castelo e por fim um pico nevado, nos jardins da Alhambra, em Granada. (“Dê-lhe esmola, mulher/

Que não há nesta vida nada/ Como a pena de ser cego em Granada”, escreveu um poeta, em outro século, naquele mesmo jardim). Certas tardes paulistanas, até, com seu horizonte pós-apocalíptico (se fosse uma cor de esmalte, seria Abóbora Gotham City), são mais impactantes do que o céu que encontro, no meio da abdominal, mas é o céu, ainda assim, em toda a sua imponência: o mesmo céu que os gauleses temiam cair sobre suas cabeças e para o qual bilhões de homens e mulheres erguem as mãos, todos os dias.

Eu, que nasci num mundo sem Deus e, contudo, repleto de pecados – grelhados, assados, refogados, gratinados, flambados, condensados, fermentados, destilados – não ergo as mãos, mas o tronco, em busca da redenção corpórea, nessa manhã fria de julho. Ergo e logo desergo (se é que existe tal verbo): as costas tocam a pedra, a cabeça já lá nas nuvens.

Quando eu era pequeno, em férias como esta, na fazenda, gostava de deitar na grama, à noite, e olhar o céu estrelado até ter a impressão de que não era ele quem estava em cima e eu, embaixo, mas o contrário: com um frio na barriga, me sentia desabando no vazio. Deitado no banco, agora, olho o céu por um tempo e me volta a impressão.

A vertigem é até maior, hoje, pois sei que não se trata de uma impressão: estamos mesmo desabando no vazio. (“Assim será nossa vida:/ Uma tarde sempre a esquecer/ Uma estrela a se apagar na treva/ Um caminho entre dois túmulos”). Ah, mas não irei sem luta, poeta! Farei o que puder para estender o caminho, por isso o ridículo shortinho de dry-fit, esses hediondos tênis multicolores, essa quixotesca abdominal, no meio das férias.

Como eu disse, não é o céu mais bonito que já vi, mas deitado no banco, é só céu o que eu enxergo: nenhuma copa de árvore, nenhum cume de morro, nenhum fio de telefone, céu, céu, céu, de modo que não consigo pensar em mais nada. Quase posso me ver, lá do alto, minúsculo. “Gabriel, que que é aquilo, levantando e abaixando, ali pros lados de Piracaia? É um muçulmano?”. “Não, Senhor. Tá de barriga pra cima. Tem mais pinta é de abdominal”. “Ah, coitado”. “Coitado”.

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