sábado, 28 de julho de 2012



28 de julho de 2012 | N° 17144
CLÁUDIA LAITANO

Todos dizem eu te amo

No tempo em que instantâneo era só o Nescafé, visitar um país pela primeira vez era como... visitar um país pela primeira vez. Novidades tecnológicas eram assimiladas em ritmos diferentes, e o intercâmbio de hábitos e gostos, quando acontecia, processava-se de forma muito mais lenta e irregular. Hoje é possível viajar boa parte do mundo comendo sempre os mesmos sanduíches, frequentando os mesmos shoppings e ouvindo as mesmas músicas nos mesmos aparelhinhos – como se morássemos todos na mesma gigantesca aldeia fofoqueira e previsível.

Eu tinha 19 anos e não conhecia nem São Paulo quando, em 1986, fui passar uma temporada estudando inglês e trabalhando como babá em San Francisco, na Califórnia. Meu saco de espantos transbordou já na primeira semana. Traquitanas que quase ninguém tinha por aqui já eram acessíveis para a classe média de lá (CD player, videocassete, computador...) e havia no ar um último sopro de guerra fria que dava a todos a sensação de que o mundo poderia acabar a qualquer momento – perigo que por aqui nunca tirou o sono de ninguém.

Como babá, meu primeiro estranhamento foi descobrir que as crianças americanas sentavam-se sempre no banco de trás do carro – presas, vejam só, por cintos de segurança. No Brasil, cinto de segurança era aquele negócio que todos os carros tinham e ninguém usava – e crianças não só sentavam no banco da frente do carro como, durante o veraneio, costumavam ocupar também o porta-malas, de preferência dividindo espaço com mais 12 primos.

Outra coisa que me chamava a atenção é que pais e filhos diziam-se “eu te amo” o tempo todo: antes de dormir, na hora de ir para a escola, ao telefone ou mesmo por motivo nenhum. Venho de uma família de origem italiana, barulhenta e afetuosa, e desfrutei de todos os mimos reservados para a única menina da casa, mas não lembro de ter ouvido sequer um “eu te amo” do meu pai ou da minha mãe enquanto eles viveram, nem nos momentos mais sagrados e solenes.

Nunca me ocorreu que eles me amassem mais ou menos por isso – provavelmente porque qualquer tipo de amor, e o de pais e filhos mais do que todos, aparece antes em gestos, pequenos cuidados e carinhos do que propriamente nas palavras. O “eu te amo” é um pleonasmo ou não é nada.

Mais de 25 anos se passaram desde aquela minha primeira e inesquecível viagem rumo à idade adulta. Nesse período, usar cinto de segurança e colocar as crianças no banco de trás virou hábito, o videocassete entrou e saiu das casas e até os brasileiros começaram a se preocupar com o fim do mundo (ainda que por outros motivos).

Mas uma das mudanças mais sutis de comportamento talvez tenha sido essa de, no intervalo de apenas uma geração, o “eu te amo” ter saltado dos filmes românticos para o dia a dia da maioria das famílias brasileiras. Crianças que passam o dia com babás ou em creches, falando ao celular com a mãe ou o pai no trabalho, são amadas com a urgência da confissão diária – e muitas delas crescem achando que o “eu te amo” é tão banal quanto um “bom-dia” ou um “obrigado”.

É bonitinho e não faz mal a ninguém, e talvez alivie mesmo um pouco a culpa e a saudade dos pais, mas continua valendo o que sempre valeu: o amor que se sente não é necessariamente aquele que se ouve.


28 de julho de 2012 | N° 17144
SÓ APOSTAS

Lotéricas fecham para contas

As lotéricas gaúchas devem fazer um protesto hoje e no próximo sábado, dia 4 de agosto. A ação é organizada pela Federação Brasileira das Empresas Lotéricas (Febralot), com o apoio dos sindicatos estaduais.

Com isso, as lotéricas não receberão pagamentos de contas de água, luz e telefone nesses dois dias. Os clientes que quiserem fazer apostas em loterias não serão afetados.

O protesto é contra o valor pago aos serviços pela Caixa Econômica Federal – que não estaria acompanhando a variação da inflação – e a instabilidade do sistema fornecido pela instituição.

Segundo Marco Antônio Kalikowski, vice-presidente do Sindicato dos Agentes Lotéricos, Correspondentes Bancários e Consignatários do RS (Sincoergs), o protesto não pretende prejudicar os clientes. Cartazes explicativos serão colocados nas agências.

– Esse movimento quer apenas chamar atenção sobre a situação dos lotéricos. As contas não vencem no final de semana com movimento menor nesses dias – afirmou Kalikowski.

A Caixa ainda não se manifestou sobre o protesto.

sexta-feira, 27 de julho de 2012



27 de julho de 2012 | N° 17143
ESCOLHA DA PRENDA

Beleza não põe mesa no galpão

Uma proposta polêmica sobre a escolha da Primeira Prenda do Estado será votada hoje pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). O concurso eliminaria a beleza como um dos critérios para a soberana dos galpões. Outra mudança: deslizes de português não vão ocasionar em perda de pontos

Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu? Se depender dos concursos de prenda do Estado, a rainha má do clássico dos irmãos Grimm pode ficar despreocupada: beleza não é o principal quesito para eleger a Primeira Prenda do Rio Grande do Sul. E, hoje, será votada pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) uma proposta que prevê eliminar a beleza como um dos critérios para a escolha das soberanas dos galpões.

Até o concurso passado, a planilha de notas contabilizava, no máximo, dois pontos e meio pela beleza das concorrentes. Pouco, se comparado aos 35 pontos da prova escrita e aos 18 referentes às habilidades artísticas. Ainda assim suficiente para que a 22ª Região Tradicionalista se sentisse incomodada. Para o coordenador José Roberto Fischborn, autor da proposição, o julgamento estético tende para a discriminação e foge às regras principais do concurso.

– Dentro desse contexto atual, como é que vamos dizer para uma prenda mirim e juvenil que ela é menos bonita do que a outra? Perdemos embasamento legal, não podemos dizer que uma prenda precisa melhorar a beleza. O que ela vai entender com isso, que vai ter que nascer de novo para ser mais bonita? – diz Fischborn, justificando que a ideia do Primeira Prenda é incentivar ao tradicionalismo e não gerar trauma.

A prenda precisa ter cultura, diz Nilza Lessa

A avaliação da proposta de mudança no regulamento do concurso ocorrerá durante a convenção anual do MTG, que se inicia hoje em Guaporé. Se aprovado, os dois pontos e meio serão incorporados a critérios considerados menos subjetivos, como o vestido, a maquiagem e a maneira como se comunicam com os jurados. A permanência ou retirada do quesito beleza será julgada por 250 tradicionalistas.

Dentro do movimento, as respostas preliminares se mostram favoráveis à mudança. A patrona dos Festejos Farroupilhas, Nilza Lessa – viúva de Barbosa Lessa, artífice do MTG – explica que a prenda precisa ter cultura e entender da tradição gaúcha, o critério beleza seria secundário e, por isso, não precisa ser julgado. O presidente do Movimento Tradicionalista, Erivaldo Bertolini, diz que a beleza é um quesito sem valor.

– Esse é um item que nunca deveria ter existido. Não existe fórmula para explicar quem é bela e quem não é – conclui o presidente do MTG, Erivaldo Bertolini.

joice.bacelo@zerohora.com.br marielise.ferreira@zerohora.com.br

JOICE BACELO E MARIELISE FERREIRA


27 de julho de 2012 | N° 17143
EDITORIAIS

PROPOSTA DE ALTO RISCO

Às vésperas de ser examinada por comissão especial do Senado, a proposta formulada por um grupo de juristas defendendo a descriminalização do plantio e do porte de drogas para consumo pessoal merecia uma reação contrária à altura, pelo alto risco que implica ampliar ainda mais o número de dependentes.

Por isso, vem em boa hora o manifesto contra essa intenção descabida, assinado por líderes políticos, médicos e religiosos. A mudança pretendida no Código Penal, pautada mais por preocupações de quem procura parecer politicamente correto do que em fatos objetivos, ignora o desastre causado pela iniciativa em países como Portugal, onde o consumo e a criminalidade aumentaram depois da liberação. E nem sequer leva em conta o fato de que as consequências tendem a ser menores quando há ênfase na prevenção e rigor contra o tráfico.

Além de ter sido endossada por juristas, a defesa da descriminalização ganhou o apoio de artistas conhecidos do grande público, que questionam se “é justo isso” – ou seja, se a sociedade vai continuar assistindo a usuários sendo encarcerados como traficantes, mesmo quando presos portando pequena quantidade de entorpecente. Obviamente, não é.

Mas a alternativa para livrar mais pessoas da droga é a ênfase na prevenção, não na repressão, muito menos na prisão de usuários com profissionais do crime, num ambiente propício a condená-los a viver para sempre no mundo da violência. Por isso, o combate às drogas precisa evitar que mais pessoas se tornem vítimas da dependência e das constantes recaídas, não na repressão e muito menos em alternativas inaceitáveis como a liberação do consumo.

Como bem lembra o manifesto contra a proposta dos juristas, onde já foi adotada, a descriminalização tende a ampliar o consumo. E mais consumo significa maior oferta – portanto, mais traficantes em ação em busca de clientes. É justamente essa a situação que o poder público e a sociedade de maneira geral precisam evitar.

O consumo de narcóticos, como demonstram hoje os exércitos de dependentes de crack espalhados pelo país, tende a escravizar os usuários, a destruir-lhes a saúde, a atormentar familiares e amigos, a extinguir valores e a ampliar as estatísticas de danos a seres humanos. Na imensa maioria dos casos, a droga está presente tanto em ações criminosas quanto em acidentes de trânsito. E é responsável direta por uma grande parcela de mortos e feridos nessas circunstâncias.

O poder público precisa ser cobrado a agir com mais rigor contra o tráfico e a pôr mais ações em prática para evitar que tantas pessoas continuem se subjugando à droga. Tem também o dever de auxiliar de forma efetiva quem já se tornou dependente. Alternativas como a proposta pelos juristas só contribuem para potencializar ainda mais os efeitos dizimadores dessa ameaça crescente para a sociedade.


27 de julho de 2012 | N° 17143
ARTIGOS - Maria Berenice Dias*

O dilema dos filhos

Reportagem especial da Zero Hora, do dia 24 de julho, mostra o dilema das mulheres para conciliar maternidade e realização profissional. De um lado, há toda uma cultura sexista que enaltece a maternidade como o mais importante ponto de gratificação da mulher. Foi o que sempre lhe ensinaram. Ela precisava querer e gostar de ser mãe. Algo tão sublime que deveria ser o seu único sonho, sua realização plena.

Ainda assim o movimento feminista conseguiu mostrar – não só para as mulheres, mas para a própria sociedade – que o espaço da mulher não se restringe ao reduto do seu lar, doce lar, do qual sempre foi considerada a rainha. Com isso, a mulher se permitiu buscar outros pontos de gratificação. Alcançou o espaço público, entrou no mercado de trabalho e passou a participar dos encargos domésticos como provedora.

Este movimento levou – ou deveria – o homem a contribuir de forma mais efetiva do cuidado com os filhos e compromissos com a administração da casa. Passou-se a falar em paternidade responsável, e tal é a expectativa de serem pais que os próprios homens se dizem “grávidos”. Descobriram as delícias da paternidade e dela não abrem mão quando da separação. Foi o que levou ao surgimento da guarda compartilhada e à lei da alienação parental.

A Constituição Federal além de proclamar a absoluta igualdade do homem e da mulher (art. 5º, I) reconhece a família como a base da sociedade (art. 226) e afirma que os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher (art. 226, § 5º). Diz mais. Impõe ao Estado o dever de assegurar assistência à família na pessoa de cada um dos seus integrantes (226, § 8º).

Ainda assim é concedida à mulher licença-maternidade de quatro meses e, ao homem, escassos cinco dias a título de licença-paternidade. Será que esta disparidade atende ao princípio da igualdade e ao atual formato da família? Não será esta diferença de tratamento que faz as mulheres terem menores salários, inibe sua ascensão profissional e as afasta das posições mais destacadas?

Mas há peculiaridades outras. Quando o homem assume com exclusividade o encargo com os filhos, quer por morte ou incapacidade da mãe, quer por ter adotado um filho. Também há que se atentar às uniões homoafetivas. Se o casal é formados por dois homens, nenhum tem direito à “licença-maternidade”? E quando forem duas as mães, possibilidade cada vez mais presente em face das modernas técnicas de reprodução assistidas? Ambas desfrutam de igual período de licença?

Para contornar todas essas situações, tramita no Congresso Nacional a Proposta de Emenda Constitucional – PEC 110/2010 que prevê a “licença-natalidade” pelo prazo de 180 dias. Nos primeiros 15 dias a licença seria usufruída por ambos os genitores e, no período seguinte, por qualquer deles, fracionado da forma que desejarem.

Este é o exemplo que vem de muitos países. Afinal, se está diante de uma nova realidade. O modelo patriarcal da família desapareceu. Vive-se o império da igualdade e prevalece o princípio da afetividade na própria definição da família e na identificação dos vínculos parentais.

*Advogada


27 de julho de 2012 | N° 17143
PAULO SANT’ANA

O SUS estadual

A senhora Lourdes Lucena, com 93 anos de idade, mãe do compositor Joaquim Lucena, manda dizer que lê esta coluna há quase 41 anos, todos os dias.

Obrigado a essa nonagenária que tem os cabelos da cor do algodão por essa fidelidade inexpugnável a esta coluna.

O secretário municipal da Saúde, Marcelo Bosio, responde depressa a esta coluna: “Prezado Paulo Sant’Ana. Não entendemos como se poderia interpretar que estamos semiorgulhosos em divulgar que metade das pessoas não comparece às consultas especializadas pelo SUS em Porto Alegre. Seguramente, não há motivo para orgulho. Tampouco queremos nos valer da ausência dos pacientes para justificar dificuldades que precisam ser vencidas...

Quando divulgamos o índice de 50% de falta às consultas especializadas, nosso objetivo é buscar o apoio da nossa qualificada imprensa para que, num simples ato de cidadania, nos ajude a conscientizar os usuários sobre a importância do comparecimento, tanto para o seu próprio benefício como para não desperdiçar atendimentos que poderiam ser utilizados por outras pessoas que também aguardam sua vez... Não são consultas marcadas há um ano ou mais.

Trata-se de consultas com médicos especialistas, encaminhadas pelas Unidades Básicas de Saúde e pelas Unidades de Saúde da Família. Para resolver os casos da fila que se formou na época em que ainda não havia o sistema informatizado, estamos trabalhando intensamente na redução do tempo de espera. Já conseguimos isso, por exemplo, nas especialidades de cardiologia e dermatologia”.

Agora fala este colunista: secretário Bosio, quando eu me refiro ao SUS não estou falando no SUS de Porto Alegre, que deve ser afeto ao senhor. Estou me referindo ao SUS de todo o Rio Grande.

No Rio Grande do Sul inteiro, a marcação de consultas é uma tragédia. Que o diga a leitora Luzia Netto (mailto:luzia netto@hotmail.com), que manda revelar que “aqui em Xangrilá, nós temos cadastradas consultas na área de traumato há mais de anos sem retorno, isto é, sem marcação. Esta é uma das piores especialidades que temos a dificuldade de conseguir. Como também na área de urologia, temos muita gente tentando conseguir agendamento para neurocirurgião e nada...

Tentamos há 30 dias agendar com um especialista em oncologia e nada... São inúmeras, aqui em Xangrilá, as especializações sobre as quais não temos retorno do SUS. Aqui a Saúde é boa no que concerne às atribuições do município e trágica no que se refere ao SUS. No entanto, um vereador daqui, que é amigo e do mesmo partido do secretário estadual da Saúde, Ciro Simone, como num passe de mágica, marcou um neurocirurgião para um eleitor seu”.

Além dessa reclamação exposta acima, tenho aqui um maço de outros protestos quanto às consultas, que me chegam do Interior. Imaginem o que não têm para reclamar com relação às cirurgias!

E me vem o secretário municipal da Saúde falar nas coisas da Capital, quando o jornal em que escrevo compreende todo o Estado!

Ora, por favor, não tergiverse, secretário!


27 de julho de 2012 | N° 17143
DAVID COIMBRA

Quem precisa de heróis
De Londres

Estava passando agora mesmo num canal da BBC um alentado documentário sobre Churchill. Um senhor inglês de fala pausada e cabelos brancos percorria a residência da família do velho Winston, mostrava os objetos por ele usados em sua longa vida e pontuava a narrativa com evidente admiração.

Ontem, o noticiário londrino explorou a indignação de “sir” Paul McCartney com o corte de David Beckham da seleção olímpica da Grã-Bretanha. Alegava, o antigo beatle, que Beckham é um dos heróis nacionais. Que, mesmo aos 37 anos de idade e já na ladeira descendente da atividade, sua convocação daria outra estatura ao English Team.

A relação entre os dois fatos pode parecer escusa. Não é. Porque ambos, Winston Churchill e David Beckham, são heróis da Inglaterra. E agora, nesta semana olímpica de 2012, mesmo com Beckham já abandonando o futebol, mesmo Churchill já tendo sido sepultado com toda pompa, mesmo assim eles são lembrados.

Os ingleses devem saber tudo de Churchill, o que não impede uma emissora de realizar um documentário sobre sua vida e sua família. Beckham já jogou o que devia na seleção, mas ninguém senão Paul McCartney se levanta para defendê-lo no time, e o faz com rudeza.

Por que isso?

Porque os ingleses cultuam os seus heróis. Você circula por Londres e vê as marcas deles por toda parte. Os leões do Almirante Nelson. Os versos de Shakespeare. Tudo está impresso na pedra ou no bronze. O passado não passa, na Ilha. Está sempre sendo repetido, como exemplo para o futuro.

E é aí que penso nos heróis brasileiros. Onde eles estão? O que é feito da memória de um Getúlio Vargas, de um Santos Dumont, de um Garrincha?

Os heróis do presente, como um Pelé, são menoscabados por inveja. Os do passado, como João Cândido, o almirante negro, são esquecidos por ignorância.

É claro que os heróis, como qualquer ser humano, cometeram seus erros. Mas cabe à posteridade ressaltar suas falhas ou suas façanhas. O Brasil fica sempre com os erros, e joga fora os acertos. Fica sempre com o ruim, e dispensa o bom. Isso não diz nada a respeito dos heróis do Brasil, mas diz muito a respeito dos brasileiros.

quinta-feira, 26 de julho de 2012



26 de julho de 2012 | N° 17142
GASTRONOMIA

Café para aquecer os dias gelados

Batizado com o nome do vento mais famoso dos pampas, o Minuano, com pasta de avelã e vodca, é vedete do cardápio do Solar

Os dias frios do inverno pedem uma bebida quente e saborosa. E para isso, que tal um café especial, com toque de vodca, avelã e amêndoas?

Essa é a proposta apresentada pelo Solar Café, com o Minuano. A receita, especialmente criada para aquecer o inverno dos porto-alegrenses, faz sucesso no estabelecimento pertinho do bairro Rio Branco.

O café da Avenida Neusa Goulart Brizola encanta os clientes pelo clima intimista e o tratamento diferenciado. São os próprios donos – Luís Antônio Bergamo e Adriana Cunha – que atendem os visitantes. É a dupla que pensa, também, todo os detalhes do espaço: do mural com fotos dos visitantes mais frequentes até a prateleira com livros, passando pela escolha de produtos feitos de forma caseira.

– Queremos manter esse clima familiar, de proximidade com a vizinhança – explica Adriana.

Eles adquiriram o espaço em abril e, durante esse período, fizeram adaptações primando pelo bem-estar dos clientes. Alguns quitutes são feitos, inclusive, na própria cozinha do café, como algumas quiches. Para ampliar as opções aos clientes foram incluídos, recentemente, pratos quentes.

– Com o diferencial que essas refeições são servidas a qualquer hora do dia – salienta Bergamo.

Vizinhos empreendedores

A dupla resolveu se arriscar na área da gastronomia recentemente. Os dois, professores, mantinham o desejo de ter um café e pesquisaram bastante pela região, até se decidir pelo espaço do antigo Chili Café.

– Nos apaixonamos pelo lugar, aqui é muito aconchegante – conta Adriana.

O mezanino do segundo piso é ideal para conversas mais sossegadas ou até para reuniões de negócio. Já a área em frente ao café pode ser muito agradável nos dias mais quentes. O ambiente interno é todo climatizado.

SERVIÇO:
Solar Café
- Onde: Avenida Neusa Goulart Brizola, 414
- Telefone: 3237-3850
- Horário de funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h. Aos sábados, das 11h30min às 17h30min



26 de julho de 2012 | N° 17142
CLAUDIA TAJES

Para os que ficam

Alguém me falou de uma senhora que costumava usar as melhores louças, cozinhar os melhores pratos e servir os melhores doces não para as visitas, mas para a própria família. As visitas eram sempre muito bem tratadas pela anfitriã, mas a nata ficava reservada para os moradores da casa.

Sempre lembro disso quando ouço os candidatos à prefeitura projetando uma Porto Alegre mais moderna e mais eficiente para receber a Copa. O trânsito, a saúde, as comunicações, a segurança, os transportes, o atendimento ao público, a infraestrutura inteirinha, tudo será diferente quando a Copa chegar.

Nesses dois anos que ainda faltam, parece que resta aos nativos esperar pela cidade ideal que os visitantes ganharão de presente. Se a senhora aquela que priorizava os moradores concorresse à prefeita, era nela que eu iria votar.

Para quem nasce em Porto Alegre, o bairrismo não é um risco, é um carma. O que mais explicaria a gente considerar que tudo aqui é o máximo, mesmo quando não é? Nosso eterno pôr do sol mais bonito do planeta conta até com argumentação científica, algo a ver com a angulação dos raios, as partículas de poeira, a água do Guaíba – tem que ser a água do Guaíba para se conseguir o efeito – e outras felizes conjunções. Não encontrei no Google a tese que um dia li sobre isso.

Em compensação, achei vários xingamentos de outros povos, todos brasileiros, inconformados por apregoarmos como maior atração algo que não foi feito por nós. Como se fosse culpa nossa vir ao mundo em condições quase ideais. Pessoalmente, não sou muito bairrista, mas ando sentimental. Pela primeira vez na vida, vou passar um tempo fora, enxergar Porto Alegre pelos relatos alheios e pelas notícias na internet.

Estudando e trabalhando de longe, sei que vai dar saudade até do que não é bom, menos da minha operadora de celular. Os amigos prometeram não esquecer, os chefes prometeram guardar o lugar, o Sarau Elétrico prometeu não me substituir, o namorado prometeu visitar, o editor prometeu publicar e tomara que os leitores não desistam de ler, porque, daqui a pouco, eu volto. Talvez não muito melhor, como a Porto Alegre do futuro. Mas um pouquinho menos pior.


26 de julho de 2012 | N° 17142
PAULO SANT’ANA

Diálogo no banheiro

Quando me perguntam como vai a minha vida, sempre respondo com um conglomerado de ditados gauchescos que eu mesmo reuni: “Minha vida atualmente é a seguinte: estou nadando de poncho contra a correnteza, rezando para encontrar em meio à água do rio qualquer coisa que sirva de apoio, um tronco por exemplo, e pode ser até, na situação desesperada em que me encontro, algo parecido com um tronco, nem que seja um crocodilo. Além disso, estou batendo em retirada com pouca munição, tudo porque não podêmo se entregá pros hôme”.

O otorrinolaringologista Luiz Lavinsky, que além disso é um filósofo, disse-me ontem que a “coragem nasce da ignorância”.

Como não tive tempo de conversar com ele sobre isso e só fui refletir a respeito mais tarde, vou agora aqui tentar decifrar o seu raciocínio.

O que talvez Lavinsky quis me dizer é que quem não é ignorante tem medo. Ou seja, que o medo é um sentimento racional.

Deve também ter querido me dizer que os heróis são pouco sábios, para não dizer ignorantes, pois só atingem o heroísmo por não terem medo.

Foi aí então que entendi por que me chamam de gênio, de expoente da raça, de luminar, mas nunca ninguém me chamou de herói.

Como é que poderiam me chamar de herói se tenho medo até de dentista?

Parafraseando Groucho Marx, quero declarar que não confio no bom gosto musical das pessoas que me apreciam como cantor.

O chargista Marco Aurélio me citou em sua charge de anteontem em Zero Hora, desenhando a solenidade de abertura da Olimpíada, quando o atleta que teria de acender a pira, tendo se esquecido do fogo, pergunta aos circunstantes se alguém fumava, ao que alguém no meio da multidão respondeu que sim, e o atleta disse que só pode ser o Paulo Sant’Ana.

Admiro a coragem do Marco Aurélio que violou uma regra consensual entre os colunistas de Zero Hora: não me citar. Eles não me citam por um desses três motivos: 1)me invejam; 2)não querem me dar a colher de chá de ser mais conhecido do que já sou, o que os ofende; 3)querem me irritar porque sabem que adoro ser citado. E dá pra riscar, no caso, um triplo.

Entrei ontem no banheiro de Zero Hora e encontrei, na frente do espelho, o companheiro Luiz Araújo, que estava usando o fio dental diante do espelho.

Eu observei a ele: “Estás utilizando o fio dental, um dos três maiores inventos da humanidade, junto com o crédito e a masturbação”.

Ele me respondeu: “Diferentemente do crédito e da masturbação, o fio dental é uma coisa extremamente desagradável”.

Eu retruquei: “Tu dizes que o crédito é agradável porque não és inadimplente como eu”.

Fez-se uma pausa e eu acrescentei: “Por sinal, na masturbação há muito tempo que também venho sendo inadimplente”.

É lamentavelmente injusta a legislação eleitoral brasileira no que se refere à aparição gratuita dos candidatos durante a campanha na televisão e no rádio.

Os partidos nanicos e seus candidatos não aparecem ou aparecem pouquíssimo no rádio e na tevê para teoricamente difundirem as suas ideias.

Assim, concedendo privilégios da aparição aos grandes ou maiores partidos, a legislação eleitoral, por sinal feita pelos grandes no Congresso, não dá chances aos pequenos partidos e seus candidatos de crescerem. E as casas legislativas, assim, nunca deixam de ser as mesmas.

Isso é uma vergonha e um privilégio odioso.

E o princípio fundamental de qualquer disputa, desde o turfe até uma eleição, é a igualdade de chances.


26 de julho de 2012 | N° 17142
L. F. VERISSIMO

Romona

Para comprar armas no comércio tradicional, um americano se submete a algumas formalidades, tão inócuas quanto hipócritas. Há várias maneiras de driblar as formalidades. Nas feiras de armas onde os fabricantes expõem seus produtos, você pode sair com uma bazuca embaixo do braço sem nenhuma restrição.

E - como mostrou o último maluco a entrar atirando - hoje não há material bélico que você não possa comprar pela internet, sem qualquer controle. Tanto o Barack Obama quanto o Mitt Romney se manifestaram, no passado, contra esta liberalidade insana, mas agora se limitam a lamentar os mortos. Nenhuma palavra dos dois que pudesse contrariar o lóbi das armas, a poderosa National Rifle Association, seus membros e simpatizantes, ainda mais num ano eleitoral.

Os filmes que Hollywood deixa para lançar nas férias de verão da garotada são chamados de “block-busters”, arrasa-quarteirões. São feitos para render o máximo na semana de estreia, o que garantirá ótima bilheteria no resto da temporada. Ainda não deu para saber como a chacina em Aurora afetará a renda do último Batman, que pode se tornar um filme maldito.

Há muitos anos, um filme chamado “Romona” (ou era “Ramona”?) ganhou notoriedade porque alegavam que ele dava azar. Um cinema tinha ruído numa projeção de “Romona” e logo se espalhou o boato que outros cinemas que exibiam “Romona” também tinham caído, que qualquer cinema que exibisse “Romona” estava ameaçado de cair. Tornou-se comum bater na madeira toda vez que se mencionasse o título do filme. Não sei do que se tratava “Romona”. Não sou supersticioso, mas nunca entrei num cinema para ver.

Reencontro

Seria ótimo que existisse um céu para ateístas e comunistas. Assim daria para imaginar o encontro no além de Alexander Woodcock – que morreu há dias – e Cristopher Hitchens, que morreu não faz muito. Os dois concordavam em algumas coisas e discordavam em outras, e seus desacordos eram muito mais divertidos. Woodcock era irlandês, Hitchens era inglês, mas os dois fizeram carreira como ensaístas e críticos nos Estados Unidos.

Ambos surpreenderam com algumas posições tomadas: Hitchens defendeu até o fim a invasão do Iraque, Woodcock mantinha que o movimento ecológico e a campanha contra o aquecimento global eram coisas do lóbi nuclear. Mas estavam certos na maioria das suas causas e escreviam muito bem. Talvez a perspectiva de terem que conviver pela eternidade amenize o reencontro, e os dois se dediquem a nos gozar do alto. Ou de baixo: quem sabe para onde vão os ateístas e os comunistas?

quarta-feira, 25 de julho de 2012



25 de julho de 2012 | N° 17141
MARTHA MEDEIROS

Os solitários

Mateus Meira, que disparou contra a plateia de um cinema de São Paulo, em 1999, era um cara sem amigos, não frequentava grupos. Wellington Moreira, que matou alunos de um colégio em Realengo, não tinha namorada e quase nunca saía de casa. Anders Breivik, o norueguês que matou 77 jovens na Ilha de Utoya, só se relacionava com alguns poucos fanáticos como ele, pela internet. James Holmes, que semana passada matou 12 pessoas durante a exibição do novo filme do Batman, nos Estados Unidos, era considerado um sujeito recluso.

Não significa que cada garoto trancado em seu quarto vá amanhã ter seu dia de psicopata, mas coincidência não é. Estudos revelam que grande parte dos que cometem essas atrocidades são depressivos e, por consequência, se isolam da sociedade. Muitos não buscam tratamento, consideram-se apenas “na deles”.

E os pais acabam por respeitar seu jeito de ser. E os colegas não os chamam para as festas. E as garotas os rejeitam e namoram meninos mais populares. Apartados de todos, eles vão se confinando num cativeiro mental e social, passando a levar mais em conta a fantasia do que a realidade. Mas sofrem com a exclusão, ou não desenvolveriam uma personalidade tão vingadora.

Não se mata para brincar. Quem atira está atirando em inimigos imaginários, oriundos da conhecida “oficina do diabo”.

São tragédias de exceção, não acontecem todo dia, mas há solitários que, em grau bem menor de maluquice, também se transferem para universos paralelos e alimentam ideias absurdas que, por não serem discutidas com amigos e parentes, acabam fermentando e levando a desastres. No máximo, buscam na internet pessoas tão isoladas quanto eles, que confirmam suas sandices.

Se discutissem com quem realmente os conhece, com quem os ama, seriam questionados e viveriam a experiência da troca de ideias e da orientação. Mas sozinhos, entre quatro paredes, correm atrás da veneração garantida de outros outsiders.

Sempre que um filho nosso está com algum problema (ou sofrendo porque uma garota não quis sentar a seu lado na aula, ou com notas baixas, ou com espinhas, sei lá), é preciso se perguntar: ele tem amigos? Ele é convidado para aniversários, viagens, churrascos, jogos esportivos? Ou ele é um esquisitão que não quer saber de ninguém e ninguém dele? Porque se ele tem amigos de fato, os problemas provavelmente são típicos da idade, e não sintomas de uma desadaptação crônica.

Ter um ídolo não é ter um amigo. Conhecidos virtuais tampouco formam uma turma de amigos. Dizer “oi, tudo bom?” é só um cumprimento. Relacionar-se é outra coisa: exige tempo, dedicação e abertura para conviver com pessoas variadas e diversas, o que ajuda a formar uma identidade saudável.

Quem não se relaciona com os outros, pensa que se basta sozinho, mas não se basta: dentro da cabeça, dá trela a seus demônios, os únicos a quem escuta.



25 de julho de 2012 | N° 17141
EDITORIAIS ZH

O impasse do ensino superior

Tudo indica que a queda de braço entre o governo federal e as entidades representativas dos professores das universidades em greve se prolongará até as vésperas do envio, pelo Executivo, do projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) ao Congresso.

Como o prazo para entrada do texto no protocolo do Legislativo se encerra em 30 de agosto, são grandes as chances de que o início do segundo semestre letivo sofra atraso. Se essa hipótese pessimista se confirmar, não será o único prejuízo imposto pelo movimento aos estudantes, uma vez que a greve docente já atingia 57 das 59 universidades federais e 34 dos 38 institutos federais de educação tecnológica ao término do primeiro semestre.

Num cenário mundial em que o ensino superior é um dos terrenos decisivos da disputa entre os países que buscam um lugar ao sol no novo mundo globalizado, não se pode ignorar o impacto nefasto que a suspensão das atividades nas universidades por tanto tempo representará para as aspirações brasileiras.

Entre as exigências dos grevistas, estão reajustes salariais e mudanças no plano de carreira. O Ministério da Educação sustenta, por sua vez, que não é possível conceder reajustes sem comprometer o equilíbrio da gangorra orçamentária, aumentando ainda mais o abismo entre os gastos com o ensino superior, de um lado, e com o ensino fundamental e médio, de outro.

Esse raciocínio encontra apoio em pesquisa do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), segundo a qual o custo por aluno nas universidades públicas é quase seis vezes maior do que o governo gasta na educação básica.

Independentemente das razões esgrimidas pelos dois lados no atual impasse, é preciso que seja encontrada uma solução de emergência que evite mais danos à vida acadêmica, especialmente a seu polo mais fraco, o dos alunos. É também chegada a hora de o Brasil corrigir o equívoco histórico de, em meio à escassez orçamentária, carrear o grosso dos recursos alocados na educação para o ensino superior em detrimento da educação básica.


25 de julho de 2012 | N° 17141
JOSÉ PEDRO GOULART

Culpa do Homer

Na TV Globo, Pedro Cardoso reclama da perseguição dos paparazzi aos artistas que, como ele, não deveriam ser alvo da curiosidade, “afinal são iguais aos outros, apenas com um ofício público”. Pedro elege o satã: o empresário que compra o material e depois o dispara em sites e revistas, pondo fogo no circo das notícias bizarras.

O fotógrafo, segundo ele, é somente alguém que faz o trabalho sujo. Ao lado de Pedro, no mesmo programa, um paparazzo diz que “a situação vai piorar”, pois esse é um mercado em expansão no mundo todo: o público “quer”, os “artistas”estimulam. Nem todos são discretos como Pedro Cardoso.

Há algum tempo, William Bonner disse que, quando pensa na edição do Jornal Nacional, procura fazer a cabeça do Homer (Simpson), o cara que, segundo ele, simboliza o cidadão médio. Segundo Bonner, não adianta sofisticar as matérias, o Homer não iria entender, o que terminaria em rejeição.

O sucesso de Os Simpsons – há mais de 20 anos em cartaz – não é porque o desenho se posiciona contra o sistema, ou emite uma lenga-lenga crítica contra a sociedade – embora pareça, e muito, que é isso que a série faz. A sacada mordaz dos realizadores é a de justamente mostrar como vive um sujeito comum; tirar dele qualquer pretensão ou culpa (culpa e pretensão são sinônimos) e devolvê-lo enredado por questões cotidianas as quais todos conhecemos. Homer Simpson é um simpático idiota.

O Woody Allen, neste filme que se passa em Roma, traz um personagem comum, um Homer, que subitamente é incensado à celebridade. Isso acontece do nada, como do nada a fama desaparece, sem explicação.

A gente ri, claro. Mas, assim como do Homer, rimos pela distância que acreditamos estar. Embora não seja bem assim. Poucos resistem à fama – dar opinião no que não entendem, tentar ser visto como importante, postar no Facebook frases ou citações de livros que nunca foram lidos, exibir fotos da família como se fosse um elenco, mostrar o que se come, se bebe, se consome. Somos os paparazzi da nossa própria vida, exibindo-nos compulsivamente.

Ainda sobre a entrevista do Pedro Cardoso, o paparazzo acaba revelando que o maior cliente das fotos, que bate espiando artistas contra a vontade, é o portal Globo.com, das Organizações Globo, em cuja emissora de TV o ator trabalha. A resposta causou um certo desconforto nos dois Pedros, o Cardoso, e o Bial, que conduzia a entrevista.

Vale destacar que a entrevista continuou e, mesmo não sendo ao vivo, mas gravada, foi exibida. O sistema dita as regras, produz e reproduz. E as regras são claras, vale até falar mal de si de vez em quando, desde que, no final, tudo permaneça como está. A gostosa pagando calcinha, uma declaração ordinária mas picante em destaque, o Pedro na novela. E o Homer no sofá.


25 de julho de 2012 | N° 17141
PAULO SANT’ANA

Coluna cervical do colunista

Vi de refilão na televisão que 50% das pessoas que são chamadas pelo SUS para consultarem com ortopedistas e cardiologistas não comparecem nos dias marcados.

Visivelmente, a informação partiu do SUS, e os órgãos de comunicação a detectaram.

É incompleta a informação, e eu pediria, por gentileza, ao comando do SUS que me completasse a notícia.

Eu preciso saber quanto tempo decorreu entre o dia em que o segurado do SUS marcou a consulta e o dia em que foi chamado para ser atendido.

Porque a notícia que se tem sobre o SUS – e nós jornalistas temos o vezo de sempre achar que as más notícias são melhores que as boas – diz que às vezes demoram anos para serem atendidos nas consultas os segurados.

E se demoram anos para consultarem, embora estejam na fila, então podem os segurados, por demora de atendimento, morrer na fila. E, como se sabe, quem morre na fila falta no dia marcado para a consulta.

E há também outros motivos, por certo, para que 50% dos inscritos não compareçam às consultas, como dizem semiorgulhosamente os dirigentes do SUS.

Pois, então, apelo ao SUS para que me mande pesquisa sobre os motivos por que a metade dos que pedem consulta não comparece nos dias em que as obtêm.

Aguardo.

Há seguramente 12 médicos que me atendem em Porto Alegre. E todos eles me indicam outros médicos quando o que necessito com urgência não pertence às suas especialidades.

Ontem telefonei desesperado para o dr. Matias Kronfeld para que ele me indicasse um médico para cuidar de minha coluna.

Como se sabe, tive um câncer de rinofaringe há um ano. Por sinal, é a primeira vez que um jornalista teve um câncer e não deixou de publicar sua coluna todos os dias em ZH, eu sou de uma têmpera especial.

O cirurgião Nédio Steffen, que me operou com sucesso do câncer, já fez nos últimos três meses três revisões no local do meu câncer e afirma que a doença foi-se embora com a cirurgia.

No entanto, venho tendo a mesma dor de garganta que lá atrás me levou a descobrir o câncer que tive. Mas só tenho dor de garganta quando me acordo e vejo que dormi com quatro travesseiros altos, isto é, vendo televisão. Então eu engulo e sinto a dor de garganta.

Só que quando me levanto, desaparece por completo a dor quando engulo. Estranho, estranhíssimo, só pode ser pela coluna, que se espreme quando durmo com quatro travesseiros.

Vai daí que Matias Kronfeld ontem me indicou o seu craque de plantão em coluna cervical: o neurologista Nélson Pires Ferreira, para quem telefonei angustiado.

Narrei pelo telefone para o dr. Nélson e ele forneceu-me as primícias do diagnóstico: “Deve ser por secura da boca”. Bingo!!!

Como é que ele descobriu que a radioterapia me surripiou a saliva?

Hoje à tarde o dr. Nélson vai me ver pessoalmente. Torço, tenso, para que sua profecia telefônica esteja correta.

terça-feira, 24 de julho de 2012



24 de julho de 2012 | N° 17140PÁGINA 10 |
ROSANE DE OLIVEIRA

Polêmica do início ao fim

Desde que foram criados, no governo de Antônio Britto, os polos rodoviários alimentaram polêmicas. Não haveria de ser diferente no encerramento dos contratos, questão de honra para o governador Tarso Genro e, pode-se garantir, sem medo de errar, tema da campanha eleitoral deste ano e, principalmente, da de 2014.

A imagem que será produzida hoje no palácio Piratini, com a assinatura da notificação às concessionárias sobre a decisão do governo de não prorrogar nem renovar os contratos vale por mil discursos. Era uma promessa de campanha e será cumprida. O desafio de Tarso e de seu secretário de Infraestrutura, Beto Albuquerque, é garantir que a qualidade das estradas melhore, ou, no mínimo, que não piore com o fim das concessões privadas.

O que mais se ouve dos usuários é que os pedágios no Rio Grande do Sul são caros demais para o tipo de contrapartida oferecido pelas concessionárias – apenas a manutenção, o socorro mecânico e o atendimento médico. Nenhuma obra de peso em um Estado que tem raríssimas estradas duplicadas e que transporta praticamente toda a sua produção por caminhões. As empresas que exploram os pedágios não fazem obras porque os contratos assinados em 1998 não exigem. Se exigissem, o Estado poderia ter denunciado os contratos por descumprimento.

Pelo menos em um primeiro momento, as rodovias federais, que concentram maior tráfego, ficarão livres de pedágios. Mesmo que a responsabilidade pela conservação seja do governo federal, caberá ao Estado pressionar o Ministério dos Transportes para que não voltem a ser o que eram antes das concessões: esburacadas, mal sinalizadas e ainda mais perigosas do que hoje.

As estradas estaduais continuarão a ter pedágio, mas eles serão mais baratos e administrados pela Empresa Gaúcha de Rodovias ainda no primeiro semestre de 2013. A manutenção será terceirizada, o que exige rapidez na contratação dos prestadores de serviços para que não fiquem sem conservação por problemas burocráticos.



24 de julho de 2012 | N° 17140
CLÁUDIO MORENO

Homens e mulheres (17)

Quem frequenta a mitologia grega sabe que os incontáveis filhos que Zeus trouxe ao mundo só vieram melhorar a vida de todos, fossem deuses ou mortais. Preocupado em tornar o mundo mais cheio de justiça e de beleza, o rei do Olimpo visitou, por nove noites sucessivas, o leito de Mnemósine, a deusa da Memória; nove meses depois, nasceram as nove Musas, a quem devemos dons maravilhosos como a música, a dança, a poesia e todas as outras artes, bem como o talento, a intuição e a capacidade de aprender e lembrar.

Eram jovens alegres e sorridentes; acompanhadas pela lira de Apolo, a quem obedeciam, dançavam e cantavam com extrema doçura e leveza, enchendo de graça e encantamento o eterno banquete do Olimpo. As roupas diáfanas e esvoaçantes que usavam mal e mal ocultavam o seu corpo escultural, e, para o ódio de suas rivais e inimigas, tinham sido aquinhoadas com belíssimos olhos cor de violeta.

Sendo mulheres exemplares, tudo nelas estava voltado para a preservação da vida. Embora o sacrifício de animais fosse comum nos altares gregos, as Musas rejeitavam qualquer derramamento de sangue e só aceitavam oferendas de água fresca, leite ou mel. Além disso, amavam a paz, e jamais escultor ou pintor ousou representá-las armadas, como costumavam fazer com Atenas ou Artêmis, deusas guerreiras.

Sim, eram delicadas, pacíficas e benfazejas, mas tolo seria quem pensasse que isso era sinal de fraqueza. Que o digam as nove Piérides, filhas do rei Pieros, que se julgavam tão boas cantoras que desafiaram as Musas para um concurso “musical” (eram tão presunçosas essas princesas que não perceberam o absurdo etimológico que estavam cometendo). Como era de esperar, as Musas as derrotaram e, para que servissem de exemplo, transformaram-nas num bando de gralhas de voz estridente.

As sereias, que tinham corpo de ave e rosto de mulher (as outras, com cauda de peixe, são da mitologia celta), deveriam ter entendido o aviso, mas, induzidas por Hera, a esposa de Zeus, que vivia perseguindo os filhos extraconjugais do marido, caíram no mesmo erro e foram procurar encrenca.

Não deu outra: nunca mais puderam voar, pois foram literalmente depenadas pelas musas, que usaram suas penas mais coloridas para fazer adereços para o cabelo. Assim eram elas, e sempre o serão, as nossas musas: doces e suaves de nascença, foram feitas para trazer beleza e paz para o mundo, mas - é essa a clara lição deste mito - não mexam com elas, se não quiserem sofrer as terríveis consequências.

Lembrete – Em agosto, começa na Casa de Ideias meu curso “Introdução à Mitologia 2 – Os Heróis”. Todos os detalhes no site www.casadeideias.com ou no fone (51) 3018-7740.


24 de julho de 2012 | N° 17140
PAULO SANT’ANA

Os agiotas

Há uma crise financeira que se transferiu da Europa para o Brasil em pouco mais de um mês.

Já tenho falado aqui da alta vertiginosa nos preços dos alimentos que adquirimos nos supermercados.

E a inadimplência em todas as aquisições a crédito tem subido a níveis assustadores.

Sendo assim, esses dias eu estava em um restaurante, e o garçom me disse reservadamente que naquele momento havia no restaurante exatamente 33 pessoas, que representavam por suas condições todos os brasileiros.

Disse-me o garçom que havia no restaurante três senhorios (pessoas que alugam prédios) e 23 inquilinos.

Quando eu me disse impressionado com o conhecimento que o garçom tinha de sua clientela, ele me falou: “Revelo ao senhor mais ainda: aqui neste restaurante, praticamente, só existem dois tipos de pessoas, as que pedem dinheiro a juros e os agiotas. Para cada 100 clientes que pedem dinheiro a juros, dois agiotas.

E saiba o senhor Pablo Sant’Ana que atualmente para cada 100 clientes que tomam empréstimos dos agiotas, 95 estão inadimplentes. E ainda acrescento: quando ficam devendo para os agiotas, recorrem a outros agiotas para socorrê-los. É uma ciranda financeira, tipo vertigem, que não deixa que os inadimplentes consigam conciliar-se com o sono à noite. Que crise, seu Sant’Ana! Já passei por muitas, mas esta dos dias de hoje é uma das piores.”

Estava eu cismando no fim de semana sobre quantas vezes escrevi em minha coluna que o ser humano é o pior vivente entre os seres que têm vida na face da Terra. Mas reconheci depressa a minha injustiça: os humanos são piores que os animais, mas também são os seres vivos melhores que existem no planeta, tantos são os exemplos de grandiosidade de homens destacados.

Ou seja, a humanidade já produziu um Calígula mas também já viu nascer no seu seio um Jesus Cristo. A mesma humanidade que viu nascer um Gengis Khan revelou para o mundo um Mahatma Gandhi.

A banca paga e recebe. Átila foi o tirano que mais cometeu atrocidades nas guerras que travou, mas a sociedade dos homens já teve a bondade e a compaixão piedosas de uma Madre Tereza de Calcutá.

Então nós, os humanos, somos ao mesmo tempo os melhores e os piores espécimes vivos.

O radiologista Jurandi Bettio me disse que esteve este mês em Barcelona e achou impressionante, nos bares e restaurantes que frequentou por lá, o número de gaúchos residentes na Espanha que todos os dias pagam pela Internet US$ 1,99 para lerem minha coluna em Zero Hora. Ele diz que é a maneira que encontram para matar a saudade do pago.

Nos três últimos jogos ganhos pelo Grêmio no Brasileirão, Marcelo Moreno fez quatro gols como centroavante.

Vocês se lembram de quando Luxemburgo decidiu contra o Palmeiras a Copa do Brasil no Olímpico? Perdemos de 2 a 0 e eu botei a boca no trombone contra Luxemburgo por ter deixado no banco – é incrível – os dois centroavantes que tinha: Moreno e André Lima.

Mas tem mais: Luxemburgo também jogou sem centroavantes contra o Santos, quando perdemos de 4 a 2, Moreno estava no banco e só entrou quando era tarde demais.

Parece que, alertado por mim, Luxemburgo passou agora a sair jogando sempre com Moreno e o Grêmio assim acaba de ingressar no G4.

Futebol é uma ciência que não tem mistérios.


24 de julho de 2012 | N° 17140
FABRÍCIO CARPINEJAR

Cinco coisas que preciso fazer antes dos 40 anos

Por um golpe do acaso, reencontrei minha agenda de estudante da 8ª série. Estava dentro da caixa dos troféus e medalhas de futebol, na garagem.

Cometi o erro de abri-la. Não se mexe em arquivos impunemente. Não dá para passar os olhos e deixar por isso mesmo. Somos absorvidos, tragados pela curiosidade da comparação. Os cinco minutinhos destinados ao assunto se transformam em dez horas. Nem notamos o dia migrar para a noite. Interrompemos uma encomenda urgente, apagamos reuniões, desaparecemos para a família, seduzidos pela nossa caligrafia desgovernada e antiga.

O que me espantou é que havia uma cartinha presa com clipe nas costas do volume: Cinco coisas que desejo fazer antes dos 40 anos.

(Em tempo, completo 40 anos em outubro. Não duvido que não tenha programado meu corpo a procurar a agenda perto do aniversário. Foi um alarme posto na memória para soar num prazo de vinte e sete anos.)

Mas por que 40, e não 30? Juntei as pontas e identifiquei que era a idade de meus pais na época.

Eu gargalhei quando li o que esperava de mim em 2012:

1) Saltar de paraquedas.

2) Não casar.

3) Conhecer Tóquio.

4) Aprender francês e italiano.

5) Ser milionário com a indústria de cinema.

Tive 100% de fracasso. Não cumpri nenhuma das alternativas. Assinei o atestado de incompetência perante aquele adolescente disposto a ganhar o mundo.

E me deu orgulho. Fiquei orgulhoso da decepção. Ri emocionado de minha invalidez estratégica, da minha nulidade profética.

Foi um sinal de saúde. Quem cumpre objetivos é neurótico.

É bobagem elaborar metas para atingir em determinada idade. Felicidade não se planeja, felicidade se descobre.

Ingenuidade congelar lista de intenções como se a vida não nos transformasse dia a dia.

O que vale alcançar objetivos como uma maratona turística? Para quê?

Nosso legado é o que falamos aos outros, não o que aparentamos ser. Todos os desejos terminam, no fundo, iguais porque não temos a coragem da simplicidade.

Amigos não admitem morrer sem visitar as pirâmides, por exemplo. Eu não quero morrer sem visitar meu pai ou minha mãe.

Ainda que eu tivesse apenas uma semana de vida não mudaria meu temperamento. Felicidade é improvisar, é estar disposto não sabendo o que vai acontecer.

Não troco em nada o inventário do que realizei nestas quatro décadas.

(X) Dois filhos

(X) Casado

(X) Vinte livros

(X) Lê espanhol e desenha inglês

(X) Apartamento financiado.

Não é mais verdadeiro?