sábado, 19 de dezembro de 2015



20 de dezembro de 2015 | N° 18391 
ANTONIO PRATA

Arkhipov, Dr. Pacheco, chocotones


Se você está lendo esta crônica, improvável leitor, é porque em 27 de outubro de 1962 um marinheiro russo chamado Vasili Arkhipov teve um momento de iluminação. Naquele dia, o submarino B-59 no qual Vasili servia, no mar do Caribe, foi torpedeado por um navio americano. O clima não era dos melhores entre Washington e Moscou, em 62. Auge da Crise dos Mísseis, a terceira guerra mundial parecia iminente, o capitão do submarino não conseguia contato com a URSS, concluiu que a hecatombe nuclear já havia começado lá na superfície e ordenou que Vasili executasse a parte que lhes cabia naquela barafunda: disparar algumas ogivas atômicas contra os EUA. 

Vasili Arkhipov discordou, bateu boca com o capitão e o convenceu a esperar mais um pouquinho, razão pela qual todos nós estamos aqui, agora, neste final de 2015, brindando em infinitos happy-hours, parcelando compras no cartão e nos entupindo de chocotone, em vez de comermos baratas fluorescentes e gafanhotos com três cabeças no fundo de uma caverna radioativa. (No próximo happy-hour, por favor, lembre-se de fazer um brinde ao Vasili).

Se eu estou escrevendo esta crônica, improvável leitor, é porque um dentista pernambucano chamado Dr. Pacheco encheu a lata em 11 de fevereiro de 1943. Naquela tarde, Dr. Pacheco estava indo de Lins a Bauru, de trem, quando conheceu um jovem estudante de medicina. Os dois ficaram batendo papo no bar, o estudante tomando café, o Dr. Pacheco, cerveja. Tanta cerveja que, a certa altura, trancou-se no banheiro masculino, abraçou a privada e dali não saiu mais. 

Uma hora depois, o futuro médico, que era muito ordeiro, mas estava muito apertado, acabou indo no banheiro feminino. Ao sair, foi espinafrado pela garota que esperava na porta. Era uma garota tão linda, ele dizia, que não lhe pareceu má ideia passar o resto dos seus dias sendo espinafrado por ela: tiveram sete filhos, 15 netos (entre os quais eu me incluo) e 23 bisnetos. (Nunca mais souberam do Dr. Pacheco, embora até hoje seja um costume, nos natais da nossa família, erguer um brinde a ele).

Lembrei do dentista pernambucano nesta semana, ao ler numa revista sobre o marinheiro russo. Lembrei do meu colegial, da fase epifânica em que me dei conta de que a vida não era uma sucessão lógica e justa de causas e efeitos razoavelmente planejáveis, bastando organizar tudo direitinho para chegar aonde a gente quisesse. Se alguma lógica havia, era não haver lógica nenhuma: absurdo o Big Bang, absurdas as mitocôndrias, absurda a arte do encontro, em meio a tanto desencontro.

Depois cresci, o holerite eclipsou o espanto e parei de pensar tanto no assunto. Às vezes, no entanto, ele volta, feito um soluço. Penso: cazzo, Deus não existe, isso tudo não tem o menor sentido e não fosse o porre de um desconhecido, 72 anos atrás, meu filho não estaria agora batendo esta Galinha Pintadinha contra o taco do assoalho.

Não sei bem porque tô escrevendo essas coisas. Acho que é porque é natal (meu filho atira longe a Galinha Pintadinha e gargalha) e sinto um impulso meio hippie de dizer valeu, Vasili, valeu, Pachecão, valeu, Big Bang, valeu mitocôndrias, valeu, leitor. Comamos chocotones, comamos chocotones porque não há mais metafísica no mundo senão chocotones.

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