Aqui voces encontrarão muitas figuras construídas em Fireworks, Flash MX, Swift 3D e outros aplicativos. Encontrarão, também, muitas crônicas de jornais diários, como as do Veríssimo, Martha Medeiros, Paulo Coelho, e de revistas semanais, como as da Veja, Isto É e Época. Espero que ele seja útil a você de alguma maneira, pois esta é uma das razões fundamentais dele existir.
sábado, 28 de dezembro de 2013
29
de dezembro de 2013 | N° 17658
MARTHA
MEDEIROS
Boa entrada
O
outro filme é o francês Confidências Muito Íntimas, de 2003. Um mulher está se
separando e procura um psiquiatra pela primeira vez. Entra sala adentro e já
começa a contar seu drama, sem dar tempo para o homem respirar. Ele fica
absolutamente envolvido pela história dela.
Mesmo
que você não tenha visto estes filmes, pode imaginar o que eles têm em comum.
No filme inglês, o homem se enganou de porta e bateu na casa de um engenheiro,
que ouve tudo quieto e só então avisa que o psiquiatra mora no apartamento ao
lado.
Mesmíssima
coisa no filme francês. A mulher se enganou de porta e invadiu o consultório de
um contabilista. Mesmo depois do engano desfeito, os dois seguem se vendo para
amenizar a solidão um do outro.
Ambos
os filmes demonstram que terapia é, basicamente, uma via de desabafo, de
investigação emocional, de elucidação de si mesmo, e tudo isso se dá quando estamos
dispostos a falar.
Então
qualquer amigo poderia substituir um profissional? Não. Conversar com amigos é
ótimo, porém eles estão comprometidos afetivamente conosco. Conhecem a nossa
história e já não prestam atenção nos detalhes. E tomam um tempo para falar
deles mesmos, o que é natural.
Além
disso, estes papos são frequentemente interrompidos pela chegada do garçom, por
um telefone que toca, por outras distrações. E, pra culminar, você não está
pagando. Faz diferença. Você não é o centro das atenções. É um encontro,
literalmente, gratuito. E, em terapia, o foco tem que estar todo em você.
Vigilância total para você não fugir de si mesmo.
Longe
de mim estimular alguém a bater na casa do vizinho para contar seus sonhos e
fantasias secretas. Ele mandará você plantar batatas, com razão. O que
interessa disso tudo é o crucial: o quanto é importante falar. E ser
profundamente escutado. E, mais profundamente ainda, escutar a si mesmo. Não é
fácil ouvir nossa própria voz verbalizando aquilo que sentimos de forma tão
confusa e irregular. É quando passamos a reconhecer abertamente nossas
inquietudes, medos, vergonhas. E a nos comprometer com o que está sendo dito. A
verdade ganha legitimação. Deixa de habitar apenas o silêncio, onde tudo fica
protegido demais.
Alguns
não acreditam em terapia e dizem que não é qualquer um que merece ouvir nossas
intimidades. Mas tem que ser qualquer um, no sentido de qualquer desconhecido,
qualquer pessoa que não tenha nada contra e nada a favor de você, que não lhe
conheça, para poder lhe ouvir sem uma opinião prévia sobre sua história. De
preferência qualquer um com um diploma na parede e competência para ajudá-lo a
se conhecer pra valer.
Que
lhe faça descobrir os efeitos terapêuticos de ouvir a própria voz assumindo
questões que até então não eram enfrentadas. Dá para fazer isso sozinho também,
mas com um interlocutor é mais fácil. Ou menos difícil. Tente. Nada como bater
na própria porta e entrar. Feliz 2014.
29
de dezembro de 2013 | N° 17658
FABRÍCIO
CARPINEJAR
Tática de guerrilha (para homens
distraídos)
Com
objetivo de salvar casamentos e namoros, encontrei a saída do labirinto.
O
homem deveria confessar que tem déficit de atenção já no primeiro encontro. Na
verdade, déficit de atenção é um outro nome para egoísmo - ele só escuta o que
quer e só faz o que deseja -, mas rebatizando o defeito terá uma nova vida sem
atribulações e julgamento, sem críticas e implicâncias.
Tente,
funciona perfeitamente.
Está
começando uma relação, chame sua garota para perto, faça o olhar triste do Gato
de Botas do Shrek, e puxe uma conversa séria:
—
Antes de tudo, preciso expor algo, você tem o direito de não ficar comigo, eu
entenderia, mas não desejo esconder nada: eu tenho déficit de atenção!
É
óbvio que ela aceitará, todo mundo admite qualquer coisa que é dita na primeira
semana de relacionamento (é a fase da tolerância e impunidade). Ela arregalará
os olhos, lamentará a dificuldade, prometerá ajuda e não terá mais como cobrar
absolutamente nada daqui por diante de seus lapsos e apagões. Será o paraíso
fiscal, a redefinição mágica de sua rotina.
Você
não reparou que ela cortou os cabelos, daí você diz:
—
Amor, você sabe que eu tenho déficit de atenção!
Você
não lembrou que completam um ano de relacionamento, não comprou presente e
flores.
—
Amor, você sabe que eu tenho déficit de atenção!
Você
saiu com os amigos para beber, e não avisou.
—
Amor, você sabe que eu tenho déficit de atenção!
Você
não gravou quando ela avisou que não gostava de azeitonas e buscou servi-la.
—
Amor, você sabe que eu tenho déficit de atenção!
Você
não reconheceu o sogro de sunga e a sogra de biquíni.
—
Amor, você sabe que eu tenho déficit de atenção!
Você
troca risos e bocas com uma estranha.
—
Amor, você sabe que eu tenho déficit de atenção!
Você
não notou que a casa está tomada de velas e que sua mulher dança sensualmente,
e ligou a televisão no canal de esporte.
—
Amor, você sabe que eu tenho déficit de atenção!
Mas,
se ela se depilou e você não viu, por favor, não culpe o déficit de atenção, é
o único caso que ele não pode ser usado. Vai voar um tabefe na sua orelha para
voltar a ouvir. Ou para ensurdecê-lo de vez.
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de dezembro de 2013 | N° 17658
O
CÓDIGO DAVID | DAVID COIMBRA
TODA NUDEZ SERÁ
REDIMIDA
Houve
um toplessaço no Rio, semana passada. As mulheres desabotoaram as blusas e
ganharam as ruas literalmente de peito aberto, gritando que elas também têm o
direito de sair por aí sem camisa.
Concordo.
Sou
a favor de mulheres de torso nu. Se elas quiserem andar com-ple-ta-men-te nuas,
também não veria problema algum, desde que se resguardassem de resfriados. O
vento encanado, por exemplo, é um perigo, quem já teve avó sabe. Eu mesmo andaria
pelado, se não me ressentisse da falta de bolsos, bolso é coisa muito útil.
O
que é que tem em alguém andar nu? Na praia, para onde você vai agora nas
férias, na praia as mulheres tapam o cóccix, e quase nada mais. Se aquele
cóccix está tapado, ninguém se escandaliza. Mas a mesma mulher, quando na
cidade, pode expor o cóccix livremente, uma vez que cubra as nádegas. Qual é o
critério? Só pode um de cada vez?
Aqueles
caras que publicam fotos deles mesmos sem camisa nas redes sociais. É ridículo,
é patético, mas ninguém reclama. Agora vá uma menina fazer o mesmo. O Facebook
é capaz de cancelar a conta dela. O Facebook é muito moralista.
Aí
está: a moral. A moral é relativa. A Fernanda Lima, que apresenta exatamente um
programa sobre sexo na TV, pois a Fernanda Lima apareceu gloriosa na
transmissão do sorteio dos grupos da Copa do Mundo. Estava dentro de um vestido
justo como o caminho do bem, com um decote profundo como a filosofia de Kant,
estava sinuosa e dourada como a serpente que se enrolava na macieira do
Paraíso. Linda, linda, Fernandinha.
Ocorre
que, no distante Irã, o decote da Fernanda Lima provocou tal excitação que o
governo o censurou. Gravou o evento e o apresentou com o colo da Fernanda Lima
devida e pudicamente coberto.
Aquele
era um colo perigoso. No Irã, as mulheres estão lutando para sair à rua sem ter
que cobrir os cabelos. Imagina se vissem como se vestem as ocidentais. Imagina
se soubessem que, por aqui, a luta das mulheres é para sair à rua sem ter que
cobrir os seios.
O
vale do entresseios da Fernanda Lima abalou o governo do Irã e fez estremecer
os aiatolás. Era um vale do sacrilégio. Um vale do pecado.
Sim,
senhor, um pedaço de corpo de mulher, se bem usado, pode acender uma revolução.
10
livros para o verão
Leitores
pedem indicações de livros para as férias.
Certo.
Vou
listar 10 infalíveis. E, quando digo infalíveis, quero dizer infalíveis. Se
você ler qualquer um desses livros, terá uma experiência elevada no verão que
chega com suas mulheres de cóccix cobertos e nádegas expostas e, quiçá, seios
expostos também.
Não
cultivo preconceitos ideológicos. Admiro a civilização norte-americana e seus
autores vigorosos. Portanto, vou sugerir nove livros de escritores do Grande
Irmão do Norte e um do México. Faço tal deferência ao México não por acaso,
senão porque seu ex-presidente, o bigodudo Porfírio Diaz, um dia suspirou:
–
Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos.
Quer
dizer: minha indicação é um desagravo ao México tão oprimido. Ao mesmo tempo,
quando cito essa frase célebre, faço também uma concessão aos esquerdistas que
odeiam os ianques. Assim, com todos contentes, apresento minha lista:
1.
Ragtime
de
E. L. Doctorow.
Esse
livro... sinta o ritmo desse livro. Você vai dançar com Doctorow. Você vai dançar
o ragtime.
2.
As Vinhas da Ira
de
John Steinbeck.
Um
dos mais belos e comoventes finais de romance da história. Um livro poderoso,
convertido em um lindo filme estrelado pelo grande Henry Fonda.
3. O
Longo Adeus
de
Raymond Chandler.
Um
clássico do romance noir, com Phillip Marlowe, o maior dos detetives cínicos de
todos os tempos. Eu queria ser Phillip Marlowe.
4.
Um Bonde Chamado Desejo
de
Tennessee Williams.
É
uma peça de teatro. Um texto seco e forte. Marlon Brando interpretou o
protagonista da peça no cinema, e fez história, como sempre fazia Marlon
Brando.
5. Moby Dick
de Herman Melville.
Essa
é das mais rutilantes pedras preciosas da literatura ocidental. Também virou
filme, com Gregory Peck.
6.
Factótum
de
Charles Bukowski.
Dos
mais divertidos livros do Velho Buk. Quando o li, parecia estar lendo sobre um
trecho da minha vida.
7.
Bonequinha de Luxo
de
Truman Capote.
Aprendi
muito com este pequeno romance. Capote é autor da frase que, para mim, resume o
ato de escrever bem: “Eu quero construir uma frase maleável e resistente como
uma rede de pescar”.
8. Espere a Primavera, Bandini
de John Fante.
Fante
era o ídolo de Bukowski. Certa feita, bêbado, como soía acontecer, o Velho Buk
gritava: “Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini!”
Eu
também sou. Sou Phillip Marlowe e Arturo Bandini.
9.
Fique Quieta, Por Favor
de
Raymond Carver.
Uma
vez, o cônsul do Japão me disse que eu escrevia parecido com Carver. Fiquei
todo bobo, porque todos queriam ser Raymond Carver. Ou Arturo Bandini. Ou
Phillip Marlowe.
10.
Festa no Covil
de
Juan Pablo Villalobos.
Eis
o mexicano da turma. Festa no Covil é uma novela pequena, de 80 páginas, que
você lê de uma única vez. É uma história bela e cruel que vai fazer com que
você esqueça até os melhores cóccix da orla.
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de dezembro de 2013 | N° 17658 VERISSIMO
As
aventuras da família Brasil
Vô sério
O
vovô era um homem sério. Não carrancudo, mas sério. Tanto que os netos fizeram
uma aposta: ganharia quem fizesse o vovô rir. O local da competição seria a
mesa do almoço, aos domingos, quando toda a família se reunia, com a vovó numa
cabeceira e o vovô na outra. Foram estabelecidas certas regras. Para ganhar,
seria preciso provocar uma gargalhada no vovô. Um sorriso não bastaria. O
objetivo era uma risada. Ou para não haver duvida do que se buscava uma BOA
risada.
Algumas
dúvidas tiveram que ser esclarecidas antes de começar a disputa.
—
Cócegas vale?
Ninguém
imaginava que o vovô sentisse cócegas, mas, de qualquer maneira, cócegas foram
vetadas. E anedota? Se o vovô risse de uma anedota, a vitória seria do contador
ou da anedota? Decidiram permitir anedotas. Quem soubesse contar uma anedota
tão bem que fizesse o vovô dar uma risada, uma BOA risada, mesmo que não fosse
seu autor, mereceria ganhar.
No
primeiro domingo depois da aposta o Marquinhos – segundo o consenso geral na
família o mais palhaço dos netos – sentou-se à mesa fantasiado de mico, fazendo
ruídos e gestos de mico e pedindo banana. Todos riram muito – menos o vovô. O
vovô disse: “muito engraçado, Marquinhos. Agora tire essa roupa e coma
direito”. Mais tarde o Marquinhos argumentaria que o vovô dizer “muito
engraçado” equivalia a uma risada, mas seu protesto foi ignorado.
No
domingo seguinte, o Eduardinho contou uma anedota.
—
Sabem aquela do cara que tirou uma radiografia e o médico disse que ele
precisava ser operado? O cara perguntou quanto custaria a operação e o médico
deu o preço. O cara achou muito e perguntou quanto custaria um tratamento sem
precisar operar. O médico deu o preço, que o cara também achou muito. Aí o
médico disse: “se o senhor preferir, pela metade do preço, eu retoco a
radiografia”.
Todos
riram muito - menos o vovô. O vovô disse que aquela história envolvia questões
muito sérias, como a saúde de um ser humano e a ética médica, e não era assunto
para ser tratado na mesa, na frente das outras crianças. O Eduardinho
protestou:
—
Era uma anedota, vovô.
—
Muito sem graça - disse o vovô.
Nas
semanas seguintes, todos os netos tentaram, de um jeito ou de outro, fazer o
vovô rir. Apelaram para mímica, imitações (o Tico fazia um Silvio Santos
impagável), números musicais, concurso de quem chupava o espaguete mais
ligeiro, tudo. E o vovô sério. Finalmente desistiram.
E no
último domingo aconteceu o seguinte: a vovó sentou-se na sua cadeira na
cabeceira, depois de trazer a travessa de frangos da cozinha e colocá-la sobre
a mesa - e caiu da cadeira. E o vovô explodiu numa gargalhada. Uma BOA risada
que não parava mais, enquanto a vovó era atendida e dizia que estava bem, que
não tinha se machucado, que não se incomodassem com ela.
Depois
houve controvérsia. Uns netos achavam que a vovó cair da cadeira tinha sido
mesmo um acidente, outros achavam que a vovó tinha caído de propósito. Depois
de tantos anos, sabia o que faria o vovô rir e dera uma mãozinha para os netos.
29
de dezembro de 2013 | N° 17658
PAULO
SANT’ANA | MOISÉS MENDES (Interino)
O valor de um
dedo-duro
Saiu
na Zero Hora, por informação de um juiz federal, que é preciso estar preparado
para uma decepção. É possível que alguns dos acusados pela fraude do Detran não
peguem cadeia. Eu, você, nós todos os mal-acostumados com o desfecho do
mensalão ficamos apreensivos com o alerta. Este é um caso exemplar para cadeia.
É
certo que julgamentos não são condenações sumárias. Mas ficou claro o que o
juiz quis dizer: gente graúda, apontada pela Polícia Federal e pelo Ministério
Público como integrante da quadrilha que movimentou mais de R$ 40 milhões, pode
se livrar por falta de provas ou por prescrição.
O
caso Detran pode ser emblemático da desconexão entre expectativas e prováveis
reparações pela Justiça. O escândalo teve repercussão em 2007, depois que a PF
grampeou meio mundo. Algumas das conversas mais patéticas envolvem professores
da Universidade Federal de Santa Maria estressados porque não conseguem juntar
o dinheiro que a quadrilha pedia. Mas como provar que o Saravá era mesmo o
chefe barbudo e que o Campeão era aquele empreiteiro?
Para
quem, afinal, os professores atormentados de Santa Maria juntavam tanto
dinheiro? Por que esse caso está tramitando há mais de cinco anos na Justiça
Federal?
O
crime do leite com formol, denunciado em maio, já foi julgado. Outros episódios
escabrosos, como esse do Detran, o do desvio da merenda escolar e o das
licenças ambientais, não podem andar mais depressa?
Enfim,
você pode discordar dos exageros de Joaquim Barbosa, desde que todos nós
passamos a ser juristas, ou concordar que era preciso enquadrar a turma do PT.
Mas não há como discordar de que a Justiça precisa fazer muito mais para que se
tenha pelo menos a sensação de menos impunidade.
Nem
tudo vai parar no Supremo, se sabe. Mas a expectativa generalizada é esta: os
juízes devem se inspirar na atuação incisiva do STF no julgamento dos
mensaleiros, ou a frustração será grande.
No
início do mês, o chefe da Controladoria-Geral da União, Jorge Hage, soletrou
esta frase, numa entrevista, sem nomear ninguém:
– Na
minha opinião, os símbolos da corrupção no Brasil, os emblemáticos, continuam
soltos.
Quais,
para você, são os emblemáticos? O senador Pedro Simon acha que os piores mesmo
são os corruptores, os que não mostram o rosto, não têm marca pessoal como um
Coringa, um João Bafo de Onça ou um Maluf.
O que
precisamos mesmo é de mais Robertos Jeffersons, de quadrilheiros insatisfeitos
com o seu pro labore na máfia. Como os executivos da Siemens, que certamente
denunciaram o cartel acomodado nos governos de São Paulo, para fraudar
licitações do metrô, porque estavam sendo logrados pelos parceiros.
Seria
bom se aparecessem os logrados pelos esquemas do Detran, da merenda escolar,
das licenças ambientais fajutas, da licitação dos pardais. Ou já apareceram? Os
professores constrangidos como tarefeiros da máfia do Detran não podem indicar
os chefes da quadrilha, como fez Jefferson?
Jefferson
é o amoral perfeito. Dedurou os comparsas e posou de mocinho, foi condenado e
requereu o direito de cumprir a pena em casa. Quer comer salmão e tomar água de
coco sem incomodações.
Eu
me ofereço para arrecadar fundos e garantir salmão e caviar aos quadrilheiros
que ficaram pobres, se eles fizerem como Jefferson e dedurarem os comparsas das
fraudes gaúchas à espera de julgamento.
WALCYR
CARRASCO
26/12/2013
21h10
Que será, que
será?
Pessoalmente,
me tornarei mais burro. Minha capacidade de adaptação ficará ainda menor
Uma
certeza já tenho para o ano que entra: haverá um contínuo desfile de caras
feias. Teremos horário eleitoral. Alguém já viu político bonito? Existem
alguns, mas são raros. Em novelas e séries de televisão, o elenco é importante
para atrair o público. Os políticos têm a vantagem do horário obrigatório,
portanto não têm de se esforçar em relação à aparência. Serei obrigado a ver um
por um.
Óbvio,
político não tem de ser belo. O ideal é que seja honesto, não corrupto,
empreendedor, cheio de projetos, bom gestor etc. Mas me pergunto: não sobra
dinheiro para comprar um creminho? A própria presidente Dilma anda engordando.
Em campanha, será mais difícil emagrecer, pois será obrigada a comer de tudo,
para não ofender os eleitores.
Dilma engordará ainda mais. E ficará mais
impaciente durante a campanha, se for obrigada a deglutir buchada de bode, como
ocorreu com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, num episódio
inesquecível. Aguarde a balança, presidenta!
De
maneira geral, não importa muito o que os políticos, sem me referir a nenhum,
terão de engolir na campanha. Eles nos farão engolir mais coisas, depois de
eleitos, e essa é uma previsão que já fica para 2015.
Pessoalmente,
me tornarei mais burro. À medida que os anos passam, minha capacidade de
adaptação à realidade se torna menor. Brinco chamando de burrice, porque a
questão é mais profunda. Sou da geração que está com 60 anos. É quase
impossível acompanhar o mundo. Já nem sei quantas reformas ortográficas
ocorreram durante meu tempo de vida. Foram algumas, e eu teria me adaptado, se
não houvesse exceções em todas elas. Caem acentos, mas em alguns casos
permanecem. Hifens sobrevivem.
E
assim por diante. Já me conformei, nunca mais escreverei de maneira tão
perfeita quanto antes. Já não consigo nem guardar a data de aniversário dos
amigos. Também aposto, e isso já é uma certeza, que surgirão inovações
tecnológicas que não absorverei. Gente, sou da época da máquina de escrever.
Não tenho saudades, o computador é mais prático. Mas tudo faz tanta coisa, que
já não sei como me virar. São programas e mais programas capazes de resolver
minha vida, se eu soubesse lidar com eles. Basicamente, continuo usando a
máquina para escrever textos, enviar e-mails.
Há
mais ou menos 30 anos, quando o computador doméstico começou a ser usado no
país, eu me orgulhava de ser um precursor. Entre meus amigos, fui o primeiro a
comprar um. Passava as noites decifrando programas. Cheguei até a pensar em dar
um golpe financeiro pela internet, mas não achei cúmplice. (Sempre penso em
golpes, mas acabo deixando para meus personagens.) Hoje surge uma novidade por
minuto.
Abro
meu computador, e algum programa deixou o silêncio do HD para invadir minha
tela. Passo horas tentando reprimi-lo para voltar a escrever. Estou falando no
celular e, de repente, entra um programa diferente, que interfere na ligação.
Já me explicaram que o problema não está no aparelho, mas na forma como o
coloco na orelha. Existe combinação perfeita para orelha e celular, meu Deus?
Sonho com um celular que faça e receba ligações, apenas isso. Um computador que
sirva para criar e enviar textos, não mais. Aparelhos simples, em que eu possa
mexer sem correr o risco de danos cerebrais.
Mas
o mundo caminha noutra direção – e isso não é uma aposta. É uma certeza. Conto
os dias para o lançamento do robô doméstico. Vai chegar, e não falta muito. As
grandes montadoras do Japão estão de olho nesse mercado. Há anos apostam no
produto. Já cheguei a ver um que serve cafezinho, em Tóquio. Alguns robôs
específicos já fritam hambúrgueres. Há um aspirador de pó robotizado. Pensa-se
em “cuidadores”, que acompanhem e deem medicação a pessoas inválidas.
Entre
minha dificuldade para acompanhar toda essa tecnologia e as surpresas que ela
oferecerá, fica uma última aposta. Há alguns anos, numa conferência no Japão,
conheci o trabalho de um gênio que tentava criar robôs capazes de agir em grupo
e de reagir ao meio ambiente.
Mas...
isso não é mais ou menos o que somos? Não se tratará, de fato, de uma nova
espécie?
Isso
me assusta um pouco, mas não mais que o jeitão dos políticos. São eles que
decidirão como usar a revolução tecnológica em larga escala. Se você apostar no
que vai acontecer, perderá. Será sempre algo pior. Penso no que virá com os
saltos da tecnologia em suas mãos.
28
de dezembro de 2013 | N° 17657
NILSON
SOUZA
A virada dos
céticos
Adivinhos
de todos os signos e de todos os credos já fazem aquecimento para a virada do
ano. Sou cético de nascença, mas também me arrisco a fazer uma previsão: eles
vão errar quase tudo. Claro que, com tantos chutes na Lua, alguém sempre pode
tirar a Mega Sena da adivinhação e fazer o seu nome em cima disso. E tem
aquelas que são pule de 10: um ator de novela vai morrer, um político ilustre
não vai se eleger, um cantor de rock vai se envolver com drogas, um jogador de
futebol ficará fora da Copa por lesão... Isso até eu sou capaz de prever.
Quero
ver é o cara dizer que o Papa vai renunciar e que um argentino assumirá o seu
lugar. Quero ver o sujeito jogar os búzios e alertar para as manifestações de
rua que explodiram em junho pelas ruas do Brasil. Ou um desses estudiosos das
estrelas avisar que no dia 15 de fevereiro um meteoro de 10 toneladas cruzará
os céus da Rússia, quebrará vidraças e provocará ferimentos em cerca de mil
pessoas. Como se vê, nem mesmo as previsões de cunho científico são precisas –
que o diga o Cléo Kuhn, porta-voz diário da inconstância das nuvens.
Não
faltará alguém para alegar que acertou a morte do Mandela (que tinha 95 anos)
ou do Hugo Chávez (já doente). E a quebra do Eike Batista? E as denúncias do Snowden
sobre a espionagem americana? Se olharmos para as retrospectivas do ano, que
estão sendo apresentadas pelos veículos de comunicação, dificilmente
perceberemos algum desses oráculos.
Os
melhores (e talvez os únicos) visionários são aqueles que colocam o futuro na
ponta da ferramenta. Se não podemos prever o futuro, podemos construí-lo. Mas
isso, com todo respeito aos defensores das ciências esotéricas, se faz muito
mais com trabalho do que com bola de cristal. Não estou condenando quem faz
previsões ou quem acredita nelas. É humano acreditar, como é humano rezar para
que aconteça aquilo que a gente deseja. Só condeno quem explora a boa-fé dos
crentes e utiliza a enganação em benefício próprio.
Também
reconheço que tentar adivinhar o amanhã não é só uma brincadeira. Apostadores,
políticos, economistas, investidores e cientistas, entre outros, dedicam-se a
exercícios de futurologia com a maior seriedade, muitos deles arriscando
fortunas e carreiras. Normalmente se saem melhor aqueles que dão uma forcinha
para o futuro, preparando-se para sua chegada.
Que
2014 seja um ano maravilhoso para todos – mas, por favor, não esqueçam de viver
cada dia como se não houvesse calendário. Quem não luta pelo futuro que quer
acaba tendo que aceitar o que vier.
28
de dezembro de 2013 | N° 17657
EDITORIAIS
A IMPUNIDADE
NOCAUTEADA
Ninguém
acreditava, nem os próprios condenados, mas o processo judicial conhecido como
mensalão resultou na prisão de personagens importantes da vida nacional, entre
os quais um ex-ministro, vários parlamentares, empresários e banqueiros.
Reconhecido como um dos maiores escândalos de corrupção da história do país, a
compra de apoio parlamentar pelo governo demorou mais de oito anos para ser
julgada pelo Supremo Tribunal Federal, mas acabou se transformando num golpe
real na impunidade: dos 38 investigados pelo caso, 25 foram condenados em
dezembro de 2012 e nove tiveram seus últimos recursos avaliados pela Corte em
novembro último. Até a metade de dezembro, 17 condenados já estavam na cadeia e
um, foragido no Exterior.
O
julgamento ainda suscita controvérsias, especialmente por parte de dirigentes e
militantes do Partido dos Trabalhadores, que sofreu um abalo na sua reputação
em decorrência do envolvimento de figuras proeminentes da agremiação no
pagamento de propinas a políticos. Mas a maioria da população brasileira apoiou
integralmente a decisão colegiada da Suprema Corte, composta por 11 ministros,
oito deles indicados por governantes petistas.
Apesar
do inconformismo dos militantes do PT, os réus tiveram amplo direito de defesa
e o julgamento não poderia ter sido mais transparente, pois todas as sessões da
Corte tiveram cobertura permanente da imprensa. Durante várias semanas, o país
acompanhou atento os debates entre os magistrados, as acusações do procurador-geral
da República e as defesas dos advogados.
Nesse
período, entraram para o vocabulário nacional termos jurídicos como a Teoria do
Domínio do Fato – pela qual é considerado autor de um crime a pessoa que, mesmo
não tendo participado diretamente do ato infracional, decidiu, ordenou ou
facilitou a sua efetivação – e embargos infringentes, que são recursos cabíveis
contra decisões não unânimes de segunda instância, desfavoráveis aos réus. O
julgamento também transformou em celebridade o relator do processo e atual
presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, que se mostrou inflexível nas
condenações.
Habituada
a ver delinquentes poderosos escaparem impunes, parcela expressiva da população
brasileira celebrou no último dia 15 de novembro, quando o Supremo decretou a
prisão imediata de 12 réus condenados no processo. É exagero dizer que o
desfecho da Ação Penal 470 assinala o fim da impunidade no país, até mesmo
porque há processos semelhantes inconclusos, entre os quais o chamado mensalão
tucano, que envolve um ex-governador mineiro. Mas não há dúvida de que foi o
fato mais marcante de 2013 e tende a se transformar numa referência de
moralidade para a política brasileira.
Ainda
é cedo para se saber se a condenação dos réus do mensalão realmente inaugurará
um novo tempo e contribuirá efetivamente para reduzir os casos de corrupção na
administração pública do país. Porém, a partir da ampla exposição do episódio,
já se percebe um significativo resgate da confiança dos brasileiros nas
instituições democráticas e no poder dos cidadãos para exigir honestidade e
integridade de seus representantes.
28
de dezembro de 2013 | N° 17657
MOISÉS
MENDES (INTERINO)
Arriba,
Uruguai!
Só
os muito atrevidos fumavam maconha no Uruguai dos anos 70. Conheci brasileiros
que desafiavam os guardinhas de azul da polícia militar em Rivera e até tomavam
chá de cogumelo dentro dos carros estacionados aos domingos à noite na Avenida
Sarandi.
O
país estava sob a ditadura feroz de Bordaberry. Recomendava-se aos sensatos que
não se envolvessem em acidentes de trânsito, não encarassem os guardinhas e não
assediassem as gurias uruguaias. Ouvia-se muito esta frase naquela época: sair
da cadeia é um milagre no Uruguai.
Carros
lotados de guris subiam e desciam a Sarandi nos fins de semana. Ninguém pegava
ninguém. Mas se salvava o mundo no Enterprise até a meia-noite, depois
descia-se as escadas da Cueva, o restaurante-buraco da boemia, tudo na Sarandi.
Bebia-se Patricia, comia-se chivito. A noite era mais comprida em Rivera do que
em Livramento.
O
Brasil vivia o milagre econômico, o Uruguai estava na pior. Os guardinhas de
azul viam qualquer barbudo como tupamaro. Morei no Uruguai quebrado e sufocado,
num hotelzinho da Rua Agraciada. Admirava os estudantes de gravata, as gurias
com saias plissadas de normalistas, os velhos empobrecidos, mas vestidos sempre
com elegância. E os temidos guardas com as fardas puídas, calças remendadas
entre as pernas e bainhas esfarrapadas.
Quando
passo pela mesa do colega Léo Gerchmann, sinto um ciúme bom. Léo entrevistou o
presidente Mujica há pouco. Eu e o editor de fotografia Jefferson Botega nos
provocamos por anos: vamos tomar mate com o Mujica e depois comer morcilha no
Mercado del Puerto. Léo e o fotógrafo Félix Zucco não ficaram só planejando.
Foram lá e conversaram com Mujica.
Conheci
o presidente uruguaio há três anos, quando Lula veio a Livramento. O brasileiro
escapou da imprensa, Mujica encarou os jornalistas na saída do encontro. Eu,
desinformado, esperava ouvir uma caricatura de governante latino, com a fala de
personagem de García Márquez. Que nada. Ouvi um Mujica articulado, complexo,
passando mais informação do que discurso. Falou em pé, não foi retórico e não
disse um chavão durante a entrevista.
Este
é o Mujica que impressiona europeus e americanos. O Uruguai merece um
presidente que tenha a cara desse país cordial, tão parecido e tão diferente de
nós – os gaúchos mesmo, não os brasileiros.
Os
uruguaios estão entre os povos que mais têm armas em casa, mas vivem com
índices de violência europeus. Há ali algo que nenhum outro país latino tem. Há
uma fidalguia, uma delicadeza em extinção. Os uruguaios são finos e estão mais
próximos de todo tipo de civilização do que nós.
Pegue
uma semana das férias e vá ao Uruguai experimentar os ares dessa terra que está
na moda. Não precisa ser para fumar maconha, mas para andar a pé por
Montevidéu, sentar-se na amurada da praia de Piriápolis ao entardecer ou beber
uma Patricia embaixo de uma árvore de um restaurante charmoso de Colonia.
E
dizer que nós, aqui tão perto, pouco aprendemos com eles. Eu decidi agora,
escrevendo este texto, que vou torcer para o Uruguai na Copa.
28
de dezembro de 2013 | N° 17657
CAROL
BENSIMON
Na rua ou no
mundo?
Eu
tinha um desses telefones celulares muito simples e muito antigos, com uma
parte que deslizava sobre a outra, uma pequena tela, e nada de internet. Saía
para jantar. Todos os amigos vidrados em seus iPhones. Não preciso listar aqui
as vantagens de se ter um celular com 3G. Um dia, nós queríamos saber o nome
daquela música do Simply Red, e de repente lá estava ela.
Então,
já não era o bastante. Assistimos ao clipe. Uma mulher gigante debruçada sobre
dunas, aquela sobreposição bizarra de imagens, e finalmente alguma coisa preta
grudada em um dos caninos do vocalista, Mick Hucknall. Ver aquele vídeo foi o
pico da noite.
Dá
pra dizer que virou quase uma luta de gerações, baby boomers x geração Y, você
pode ficar com sua estética duvidosa, Mick, com seu céu de estrelas falsas,
porque nós temos os celulares, o Facebook, nós temos o Lulu e os abusos da PM
em tempo real. Nós temos Aline (vamos chamá-la de Aline) desfiando memórias
escolares e, ao mesmo tempo, levando às últimas consequências uma discussão com
o namorado via WhatsApp. Lide com isso, Mick.
O.k.,
vamos ser sinceros agora. Eu nunca engoli muito bem essa coisa de estar em dois
lugares ao mesmo tempo, não fosse como uma maneira de aumentar exponencialmente
minha já preocupante ansiedade. Sei que o sintoma não tem nada de pessoal (ou
ao menos não só): é um reflexo do mundo de hoje como o era, no século 19, a
histeria das mulheres vienenses. Você sabe exatamente do que eu estou falando.
A ansiedade que vem da espera do próximo e-mail ou da próxima mensagem. A
frustração quando não há nenhum e-mail e nenhuma mensagem.
Se
todo mundo sente, significa que está tudo bem? Não necessariamente. Minha
maneira de lidar com isso foi apelar para uma solução pessoal e irredutível:
não me permitir estar conectada o tempo todo. Nada de celulares com 3G,
portanto. Radical como colocar pimenta nas unhas de quem está habituado a
roê-las? Talvez. Tenho certeza, no entanto, de que não sou a única e de que os
mais corajosos optaram por abolir o uso dos celulares (neste preciso instante,
aliás, gargalham com minha solução paliativa, hesitante, parcial, vergonhosa).
A
propósito: aquele meu celular jurássico estragou. Semana passada, comprei um
outro que me promete acesso ao mundo, mas declinei o convite e, quando saio na
rua, é na rua que estou. Simples assim.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
___Na
grande peça da vida mudam-se os anos___
mudam-se os capítulos, alguns atores são substituídos,
mas a verdadeira beleza desta história está nos personagens
que permanecem nas cenas mais queridas.
A todas os personagens que participaram,
que participam e participarão dos capítulos de minha vida...
Desejo...
"Boas Festas"
Um Próspero Ano Novo."
Tocar na alma de alguém é virtude de poucos.
Exige destreza, sensibilidade,
amabilidade e extrema delicadeza.
BOM DIA MEU ANJO!
BJOSSSSSSSS
27
de dezembro de 2013 | N° 17656
DAVID
COIMBRA
Me ensina a
esquecer
Meu
filho já deveria ter largado o bico. Seis anos de idade, francamente. Ele sabe
disso, tanto que, neste ano, decidiu que entregaria o bico para o Papai Noel.
Desde novembro vem falando:
No
Natal, vou dar o bico para o Papai Noel. Eu vou.
Noel.
Eu vou. Bem. Contratei um Papai Noel. Um ótimo Papai Noel. Eu mesmo quase
acreditei que fosse o próprio, vindo direto do Polo Norte com seu trenó voador.
Quando ele chegou à porta, batendo sino, meu guri saiu correndo pela casa:
O
bico! Tenho que achar o bico! De fato, mal o Papai Noel entrou, ele lhe
estendeu o bico: – Ó.
Depois,
encheu o Papai Noel de perguntas. Sobre o clima da Lapônia, sobre a velocidade
das renas, sobre o salário dos duendes que trabalham na fábrica de brinquedos.
A festa prosseguiu, depois que o Papai Noel se foi, e o meu guri se distraiu
com os brinquedos novos, sobretudo com um mínion, ele adora os mínions. Então,
chegou a hora de dormir.A hora do bico. Nesse momento, acometeu-o uma violenta
síndrome de abstinência.
– O
bico! – implorava, aos prantos.
–
Quero o bico! Liga pro Papai Noel! Liga pro celular dele! Tentei consolá-lo
sugerindo que pensasse nos brinquedos que havia recebido. Que tentasse esquecer
do bico.
–
Mas eu não consigo esquecer! – Ele gritava.
–
Não consigo esquecer! – E, olhando para mim com os olhos rasos d’água, pediu:
–
Pai, me ensina a esquecer! Me ensina a esquecer.
Suspirei.
Disse
que ia tentar. Que aprender a esquecer talvez seja o mais importante da vida,
porque a vida é feita de perdas. Que, às vezes, é fundamental deixar de lutar,
aceitar a derrota e seguir em frente, porque lá adiante tudo será novo e
diferente e, decerto, melhor.
– Em
certas ocasiões, a gente tem que desistir, meu filho. Simplesmente desistir.
Porque, depois que a gente desiste, começa a esquecer, e vai esquecendo, vai
esquecendo, até que um dia aquilo não faz mais falta e a gente olha e nem quer
mais.
Ele
esfregou os olhos.Aprumou-se na cama: - Eu vou desistir do bico, pai. – Isso.
Isso...
–
Porque é bom esquecer. Eis a verdade. É bom esquecer
Jaime
Cimenti
O ano de 2013 foi
jornalístico
Esse
ano foi um prato cheio para jornalistas e estudantes de Jornalismo. Só faltou
os postes da Padre Chagas fazerem xixi nos cachorros das madames e elas
morderem os cãezinhos. Sobraram fatos esquisitos, notícias incríveis. Em
fevereiro, o Papa Bento XVI, quem diria, pediu o boné, ops, o solidéu, e foi
substituído pelo modesto e franciscano argentino Francisco, o primeiro
latino-americano Papa e o primeiro portenho humilde.
Na
Grécia, viu-se que, se filosofia realmente funcionasse, as coisas por lá não
estariam tão crespas, com a economia arrasada. No Brasil, os protestos,
incrivelmente resultaram em diminuição do preço da passagem e fizeram os
poderosos colocarem as barbas de molho, como se dizia no tempo em que se
amarrava cachorro com linguiça. Será que os protestos surpreenderam até os
marqueteiros de plantão ou não foi bem assim?
O
Supremo Tribunal Federal surpreendeu. Julgou o mensalão com rigor e decretou as
prisões. Quem diria, o Messi apareceu de smoking de bolinhas, parecendo um
pijaminha ou o ratinho Stuart Little. Falando em jogadores, quem esperava o
selinho que o Emerson Sheik tascou no Izac?
Antigamente,
diziam que futebol era coisa para homem, hoje melhor dizer, então, que é para
pessoas? Quem diria o Inter quase campeão da segundona, o único título que
falta para o campeão de tudo, e o Grêmio fazendo aquela campanha? Vice para o
Grêmio não surpreende, mas a campanha... No ano incrível uma contista, Alice
Munro, levou o Nobel de Literatura. Em 112 anos, é a primeira vez. A academia
sueca disse que ela ganhou pela clareza e realismo psicológico. Dizia uma
antiga lenda que contistas só ganhariam no quarto milênio. Pois é.
Quase
no fim do ano, o comportado Obama ficou de quiquiqui com a ministra loira, e aí
a Michelle teve que botar ordem na mansão. No apagar das luzes, o jovem
Mandela, imortal em vida, se foi com apenas 95 anos e surpreendeu mais uma vez.
Dizem que nos últimos momentos de vida, uns líderes foram pedir para sucedê-lo
e ele disse: tudo bem, mas vocês vão precisar, primeiro, cumprir 27 anos de
cadeia. Aí os caras arrepiaram e mudaram de assunto, passando a falar de
futebol e tal.
E a
viagem de 20 horas de avião da presidente Dilma com Collor, Sarney, Lula e FHC?
E a foto, todos de sorriso Colgate, dentro do avião que os levou para o funeral
de Mandela? Nem tão incrível a foto e a notícia, nesse país onde até o incrível
passado é, tipo assim, imprevisível.
Jaime
Cimenti
Romance sobre
preconceitos
Sociedade
dos meninos gênios, do jovem escritor nova-iorquino Lev AC Rosen é, acima de
tudo, um grande romance sobre preconceitos de qualquer espécie e, em especial,
uma reflexão bem-humorada sobre a questão do gênero. Lev cresceu em Manhattan,
é mestre em redação criativa pelo Sarah Lawrence College e tem sido destaque na
revista Esopus e em vários blogs internacionais.
Continua
morando em Manhattan, onde leciona escrita criativa. Sociedade dos meninos
gênios tem como cenário a austera Londres do século XIX, mas com um clima
futurista. Ambientado no passado, mas fortemente ligado à tecnologia, é
considerado um romance do gênero steampunk.
O
texto nos transporta para um mundo no qual a ciência torna possível o
impossível: perfumes que só são sentidos quando o usuário transpira; bolsas de
mão que se tornam carrinhos de bebê; transplantes de órgãos entre animais e
seres humanos; um portão macabro cheio de monstros, e isto tudo no século
passado, em uma conhecida - e machista - escola de cientistas fundada por um
parente do famoso Lord Byron: a Academia de Ciências de Illyria. Violet Adams é
uma menina. Em Illyria, só podem ingressar meninos.
Seu
pai, um astrônomo viúvo, viaja para uma convenção científica na América. Violet
resolve se disfarçar de menino, trocando de lugar com seu irmão gêmeo, Ashton,
e se inscreve na respeitável Universidade de Illyria, frequentada por meninos
geniais. Manter segredo sobre sua identidade sexual é complicado, ainda mais
quando Cecily, jovem protegida pelo duque e reitor de Illyria, se apaixona por
ela.
Sociedade
dos meninos gênios é uma comédia vitoriana sobre boas maneiras e uma crítica
ardilosa aos preconceitos de gênero, que se somam a uma grande dose de
divertimento. É uma história de garotos em uma escola onde tudo acontece.
Violet passa a ser vítima de chantagem e a ser atacada por misteriosos
autômatos assassinos e, ainda por cima, ela sente sua pulsação acelerar quando
vê o jovem duque-reitor.
A
obra foi inspirada em clássicos como Noite de reis, de Shakespeare, e A
importância de ser honesto, de Oscar Wilde. Com sua linguagem elaborada, o
autor construiu um mundo de sonhos, totalmente original, mas misteriosamente
familiar. A obra é um retrato pitoresco e provocativo da aristocracia vitoriana
e coloca o autor como um dos escritores mais brilhantes e emocionantes de sua
geração. Novo Conceito Editora, 544
páginas, tradução de Henrique Monteiro,
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