quarta-feira, 21 de abril de 2010



21 de abril de 2010 | N° 16312
JOSÉ PEDRO GOULART


A flor

Dia desses eu vi um mendigo oferecendo uma flor para uma moça defronte uma vitrina. Mas a moça recusou o gesto. Eu estava longe, atravessando a rua, desviando dos carros que vinham pelo lado direito. Mesmo assim garanto que vi um mendigo; uma moça, bonita e bem vestida; e uma flor que ela, surpresa com a abordagem, recusou gentilmente.

A recusa daquela forma delicada era estranha. Pus-me a pensar então que ela não quisesse nutrir uma esperança sem sentido, que a vida, afinal, não é um filme e que aquilo não ia acabar bem: daquela flor poderiam vir outras, o que poderia gerar uma mágoa no futuro.

(E então pensei na minha vida. E de como que a gente não faz aquilo que a gente sabe que devia fazer. E que tudo que a gente adia vicia.)

Por outro lado imaginei que talvez ela pudesse ter aceitado a flor. Como forma de coragem. Porque é preciso ter coragem para aceitar uma flor de um arruinado; fácil é quando vem de um príncipe. Esse então não era nenhum Chaplin, um vagabundo de cinema.

Esse tinha um aspecto repugnante, ranho no nariz, dentes podres. Contudo ele tinha uma flor. Um passaporte de afeto. Um clichê amoroso da natureza.

Diante disso, talvez ela pudesse chorar. Choraria não por ele, mas por ela. Veria a tristeza que é ter que negar. Porque negar é da vida. Mas ela não poderia conter a repulsa e o nojo que viria junto com a piedade. Ao mesmo tempo saberia que o mendigo, que segura aquela flor na mão suja e trêmula, é um homem. Um ser humano. Ou pelo menos um borrão de um. Se é um homem, um dia foi menino, uma criança, teve mãe, pai, e provavelmente irmãos. Uma família.

O que o teria feito o mendigo para se tornar mendigo? Loucura, bebida ou excesso de lucidez? Amor perdido, raiva ou desvalia? Incompreensão, solidão, abandono?

Ao par das razões, mendigo é o que ele era. Imagino que dormisse com um cachorro sobre uma caixa de papelão em algum canto perdido da cidade. Que catasse lixo e tivesse um dedo roído por um rato numa noite de bebedeira. Que não lembrava de nada e nada importava.

Exceto a moça da vitrina e o que ela provocou quando ele a viu pela primeira vez. Foi então que, ao encontrar uma flor, correu apressado. Quis entregar. Mas ela infelizmente não pôde aceitar.

Essa foi a cena que eu vi. Não inventei, asseguro. E descrevo isso porque a tristeza precisa de testemunhas. A tristeza dá sentido à vida.

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