quinta-feira, 23 de setembro de 2010



Primavera começa com temporais

Frente fria vinda do Paraguai que estacionou sobre o Rio Grande do Sul causou destruição em diferentes regiões do Estado

Começa com tempo instável a estação marcada pelo clima ameno. A previsão para hoje é de chuva em todo o Estado, com possibilidade de temporais em pontos isolados. É o reflexo de uma frente fria que veio do Paraguai e estacionou sobre o Rio Grande do Sul nos três últimos dias.

São 72 horas de prejuízos no Estado. As regiões Noroeste e Missões foram as mais afetadas, com danos registrados em Ijuí, Panambi e Santo Ângelo. No Vale do Rio Pardo, o temporal danificou lavouras de tabaco.

Em Santo Ângelo, a força do vento derrubou quatro postes de energia elétrica no bairro Cristal, que ficaram presos nas grades das residências. As rajadas destelharam parcialmente 13 casas, e os bombeiros tiveram de ajudar a colocar lonas nos telhados das residências.

Não há registro de feridos. Desde a noite de segunda-feira até o meio-dia de ontem, choveu 123 milímetros na cidade, o que representa 68% da média do mês.

Além da chuva e do vento, houve queda de granizo na noite de terça-feira em parte da área central. As pedras não provocaram estragos. A mesma situação foi verificada em São Luiz Gonzaga, Bossoroca, Porto Xavier e Roque Gonzales.

Em Panambi, na propriedade da família Trentini, onde vivem cinco pessoas, quatro vacas leiteiras morreram em decorrência de um raio, por volta das 7h de ontem. Daniela Trentini, 27 anos, calcula que a perda com cada um dos animais é de R$ 7 mil. Duas delas estavam prenhas.

– Mas se contabilizarmos que elas rendiam 50 litros de leite por dia cada uma, o prejuízo beira os R$ 50 mil – lamenta.

O Rio Fiúza está dois metros acima do nível normal, saiu do leito e está prestes a atingir casas nos bairros Fátima e Wolgien. A Defesa Civil monitora 10 famílias, que poderão ser retiradas de suas casas caso o rio continue subindo.

Em Ijuí, choveu entre terça e ontem mais do que a média histórica de setembro, que é de 167 mm. Segundo a Cooperativa Agropecuária & Industrial (Cotrijuí), em 24h foram 185 mm. O posto de Estratégia da Saúde da Família do bairro Pindorama, ontem, amanheceu alagado, e as consultas tiveram de ser reagendadas.

Força do vento arrancou telhados

A Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) recebeu 40 comunicados de estragos provocados por granizo nas lavouras de fumo. As áreas mais atingidas foram localidades de Venâncio Aires. Também há registros de prejuízos em Santa Cruz do Sul, Sobradinho e Cachoeira do Sul.

Em Colinas, no Vale do Taquari, quatro casas ficaram parcialmente danificadas pelo temporal que atingiu o município na madrugada de ontem. Em uma das residências no Centro, parte do telhado chegou a ser arrancado pela força do vento. Algumas árvores também tombaram com a ventania.

Ontem à noite, a RGE tinha cerca de 10 mil unidades consumidores sem energia, concentrados na Região Metropolitana, nas Missões e no Noroeste.

Ainda que com todas essas noticias ruins nesse início, que possamos ter uma primavera linda, já que continua sendo a mais bonita de todas as estações.


23 de setembro de 2010 | N° 16467
CLAUDIA TAJES


Cofrinhos ao léu

A moda da cintura baixa para mulheres e homens trouxe à tona, literalmente, uma particularidade corporal até então mantida sob o esconderijo das calças: a divisão que separa as nádegas em dois hemisférios distintos, o de cá e o de lá, e que, em linguagem médica, é chamada de sulco interglúteo.

Sulco interglúteo. Não há texto que resista à feiúra de uma expressão assim. Em uma breve pesquisa, não encontrei nenhuma forma inspiradora para denominar a parte em questão, sendo o termo mais usado o que é de conhecimento geral, rego, no sentido de canal e vala, entre outros significados que deixam tudo pior a cada letra.

Consultei um especialista (no vernáculo), o professor Cláudio Moreno, Doutor em Língua Portuguesa, que citou também regada, regueira e prega glútea.

Deve ser pela falta de uma palavra ao mesmo tempo educada e popular para designar a região que, hoje, ela é chamada de cofrinho. Por que cofrinho? A intuição do professor Moreno diz que é pela semelhança com a fenda do clássico cofre de porquinho. O caso é que a moda da cintura baixa deixou a população com o cofrinho de fora. Jovens e maduros, todos agora revelam o próprio cofrinho ao mundo não por exibicionismo, mas por falta de tecido.

O cofrinho não escolhe onde vai aparecer, podendo ser visto em ambientes mais formais ou nos cafés da cidade, em chás e jantares, nos encontros de amigos. Este cofrinho social, digamos, atualmente é tão exposto quanto o cofrinho prestador de serviço, aquele dos profissionais do encanamento, da eletricidade, da jardinagem e da construção, tradicionalmente à mostra durante as jornadas de seus donos.

Para evitar constrangimentos, a estilista americana Kimberly Brewer criou uma espécie de escudo para o local. Feito de material antialérgico e decorado com bijuterias e cristais, o escudo protetor tem um adesivo no verso para grudar no cofrinho e escondê-lo da curiosidade alheia. Embora este pareça um típico caso de emenda pior que o soneto.

Já que a moda da cintura alta não vingou por aqui, até porque a calça santropeito é danada mesmo, seguiremos observando os cofrinhos ao nosso redor, alguns deles cofrões, outros verdadeiras caixas fortes. Alguns pilosos, outros com dermatite. Alguns bem rústicos, outros mais delicados. É magnético: o cofrinho do vizinho sempre atrai o olhar.

Nada que uma boa puxada na camiseta não consiga evitar.


23 de setembro de 2010 | N° 16467
PAULO SANT’ANA


O rei careca

Enquanto fazia a barba com o cabeleireiro Martins, ontem, criei uma parábola que serve para definir a extensão de perversidade que deriva dos poderes de um governante autoritário.

Eis a parábola: um rei mandou chamar o seu cabeleireiro e ordenou-lhe que raspasse inteiramente a sua cabeleira, não podia restar um só fio de cabelo na cabeça do rei.

O cabeleireiro, assustado, disse ao rei que não seria capaz de raspar-lhe o coco. Isso significaria uma injúria à Sua Majestade, expondo-lhe ao ridículo em uma época característica de grandes cabeleiras.

O rei respondeu ao cabeleireiro: “Acho que você não me entendeu. Eu não estava lhe concedendo o direito de recusar a me raspar a cabeça. Eu estou ordenando que você me raspe a cabeça. Ou me raspa a cabeça ou eu mando matá-lo”.

O cabeleireiro, tremendo de medo, raspou a cabeça do soberano. O rei olhou-se no espelho e se achou ridículo com a cabeça raspada.

Mandou trazer o cabeleireiro à sua presença e lhe disse: “Você cometeu um crime de lesa-majestade ao me raspar a cabeça e me deixar neste estado lastimoso de não poder me mostrar nos atos públicos do meu mandato. Por isso vou mandar matá-lo, você próprio admitiu que iria cometer uma injúria contra mim se me raspasse a cabeça. Ou seja, o seu crime foi acompanhado de sua própria confissão. Guardas, cortem o pescoço desse criminoso”.

E assim foi executado o pobre cabeleireiro do rei.

Com os governantes autoritários, com os reis despóticos, dá-se o seguinte: seus governados ou súditos nunca têm razão, embora lhes sobrem razões.

E é imperioso (ou imperial) castigá-los.

Essa parábola que criei no barbeiro, fi-lo para passar o tempo. Meu barbeiro é para mim um homem de 1001 utilidades.

Ele primeiro me tosa a barba com a máquina. Depois escanhoa meu rosto inteiro com espuma oriunda de água quente.

A seguir, dá-me a primeira passada de lâmina, meio que superficial. Vem com a segunda passada de lâmina, esta mais detalhada, cuida com meticulosidade dos vincos, das ondulações da pele e das rugas.

O danado do barbeiro ainda tem o cuidado de dar uma terceira passada, quando então não restam nem mais vestígios dos meus pelos.

Não terminou ainda o meu barbeiro: ele me emparelha com a lâmina as sobrancelhas, depois de cortá-las na altura com tesoura auxiliada por um pente nivelador.

Vai em seguida para as orelhas, onde usa uma máquina que arranca os pelos do trago, aquela crista da orelha, sem qualquer dor.

Não contente com essa operação arranca-pelos, meu barbeiro parte para meu nariz. Com auxílio de outra maquininha, uma suave cortadeira, ele tira com o batiscafo todos os excessos de altura dos meus pelos das duas narinas.

Não sei como aquele homem consegue cumprir toda essa mão de obra em apenas 30 minutos.

Quando não crio parábolas nessa meia hora paciente de submissão, durmo.

E, quando finaliza, o meu barbeiro me acorda e vai buscar uma toalha quente, que ele põe em cima de meu rosto besuntado de creme hidratante.

Como está barata a vida no Brasil. A tabela de preço para essa barba toda e derivados é de apenas R$ 10 no Salão Dia e Noite, da Rua Andrade Neves.

Pago R$ 15 e saio desconfiado de que deveria pagar R$ 20.


23 de setembro de 2010 | N° 16467
L. F. VERISSIMO


Corrida de 10 dias

De hoje à data da eleição, teremos 10 dias de manchetes nos jornais e duas edições da Veja.

Não sei até quando podem ser publicadas as pesquisas sobre intenção de voto, mas até a última publicação – aquela que, segundo os céticos, é a mais confiável, pois é a que garante a credibilidade e o futuro dos pesquisadores – veremos uma corrida emocionante: o noticiário perseguindo os índices da Dilma para tentar derrubá-los antes da chegada, no dia 3. O prêmio, se conseguirem, será um segundo turno. Se não conseguirem, a única dúvida que restará será: se diz a presidente ou a presidenta?

Até agora, as notícias de corrupção na Casa Civil não afetaram os índices da Dilma. Estou escrevendo na terça, talvez as últimas pesquisas mostrem um efeito retardado. Mas ainda faltam 10 dias de manchetes e duas edições da Veja, quem sabe o que virá por aí?

O governo Lula tem um bom retrospecto na sua competição com o noticiário. A popularidade do Lula não só resistiu a tudo, inclusive às mancadas e aos impropérios do próprio Lula, como cresceu com os oito anos de denúncias e noticiário negativo.

Desde UDN x Getúlio, nenhum presidente brasileiro foi tão atacado e denunciado quanto Lula. Desde sempre, nenhum presidente brasileiro acabou seu mandato tão bem cotado. Acrescente-se ao paradoxo o fato de que o eleitorado brasileiro é, tradicionalmente, às vezes simplisticamente, moralista.

Elegeu Jânio para varrer a sujeira do governo Juscelino, elegeu Collor para acabar com os marajás, aplaudiu a queda do Collor por corrupção presumida e houve até quem pedisse o impedimento do Itamar por proximidade temerária com calcinha transparente.

Mas o moralismo tornou-se politicamente irrelevante com Lula e, por tabela, para os índices da Dilma . É improvável que volte a ser decisivo em 10 dias. Mas nunca se sabe. O que talvez precise ser revisado, depois dos oito anos do Lula e depois destas eleições, quando a poeira baixar, seja o conceito da imprensa como formadora de opiniões.

Mas a corrida dos 10 dias começa hoje e seu resultado ninguém pode prever com certeza. Virá alguma bomba de fragmentação de última hora ou tudo que poderia explodir já explodiu? O que prevalecerá no final, os índices inalterados da Dilma ou o noticiário? Faça a sua aposta.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010



22 de setembro de 2010 | N° 16466
MARTHA MEDEIROS


Coisas que não servem pra nada

De outubro a dezembro, Porto Alegre receberá a maior exposição de arte urbana do mundo, a Cow Parade. Dezenas de vacas de fibra de vidro, em tamanho natural, ficarão espalhadas pela cidade, todas decoradas por artistas plásticos, diretores de arte, designers e cartunistas.

Um nonsense mais que bem-vindo, uma intervenção no nosso olhar acostumado. Ao passar por ruas, parques e viadutos, seremos surpreendidos por elas, vacas enormes, coloridas, profanas, insólitas. Para quê? Para nada de especial, apenas para espantar o tédio, inspirar loucuras, lembrar que as coisas não precisam ser sempre iguais.

Um descrente não se convenceria: “Se não serve para nada, então qual o sentido?”.

Convocarei a poesia para tentar explicar.

Ela, a poesia, serve para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calçada de uma agitada metrópole. Para alterar o curso do nosso andar, para interromper um hábito, para provocar um estranhamento, para nos fazer pensar, para nos resgatar do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento.

Ainda ouço o sujeito resmungando: “Ou seja, também não serve pra nada”.

Hoje em dia, quando se quer elogiar alguma coisa, costuma-se dizer: “Fulano é tudo”, “O filme é tudo”. Quanta consistência, quanta importância. Tudo!

Diante da soberania do tudo, defendo o nada e sua valiosa despretensão. Flores não servem para nada, mas não abro mão de tê-las por perto, me fazendo companhia dentro de casa. Velas não servem para nada (quando se tem energia elétrica), mas eu as acendo mesmo assim, para que atraiam bons espíritos. Para que serve viajar, havendo cartões-postais?

Os cartões ao menos podem ser grudados na parede, mas lembranças, se faz o que com elas? Para que serve comer um prato caro e elaborado se, horas mais tarde, ele terá o mesmo fim que um reles feijão com arroz? Para que serve a arte? Para que serve a paixão? Para que serve mergulhar, escalar uma montanha, saltar de paraquedas?

Contaminados pela síndrome da utilidade, estamos perdendo o hábito de reverenciar a nobreza daquilo que serve apenas para ser contemplado, daquilo que desperta um prazer sensitivo e nada mais.

O tudo (tecnologia, religião, política, família) nos incute metas, ritos, obrigações, distraindo-nos assim da ideia da morte. Mas é o nada que, em sua extrema pureza, dá o verdadeiro sentido à vida.

Aproveite a quarta-feira. Tenha um ótimo dia.


22 de setembro de 2010 | N° 16466
DAVID COIMBRA


A Grande Festa

Posso muito bem ficar rico qualquer hora dessas. Tanta gente fica, por tantas razões. Se ficasse, você sabe o que faria.

Faria A Grande Festa.

Reuniria todas as pessoas de quem gosto, eu disse TODAS, inclusive as que a vida apartou de mim, inclusive as que moram longe, inclusive as que não gostam mais de mim, que continuo a gostar delas, pois reuniria todas, eu disse TODAS, n’A Grande Festa.

A ideia de A Grande Festa seria afirmar a essas pessoas o quanto gosto delas. Diria isso de um jeito prático: realizando-lhes os desejos. Mas tão-somente desejos que pudessem ser pagos com o dinheiro da minha nova fortuna e que fossem consumidos por inteiro durante A Grande Festa. Assim:

O Ivan Pinheiro Machado anseia em ver o flamingo cor de rosa que a Megan Fox tatuou numa parte recôndita do corpo? Contratarei Meguinha para um strip particular, ela tirando a roupa com torturante parcimônia, peça por peça, ao som do tema da Pantera Cor-de-Rosa.

A Deca Soares quer se empanzinar com um banquete do chef Ferran Adrià? Cá estão meus Euros. Tragam-me o catalão e sua equipe, bem como as iguarias que ele possa imaginar, e que as prepare diante da Deca, dando-lhe de provar da própria colher com que mexe e remexe o molho denso.

O Cagê Lisboa sonha em assistir aos Stones beeem de perto? Introduzirei Mick et caterva DENTRO de seu quarto, e ele os verá a metro e meio de distância, deitado na cama, mãos cruzadas atrás da nuca, de pijama de guarda-chuvinha, o dedão do pé nu marcando o ritmo de It’s only rock’n roll, but I like it.

Faria tudo para mostrar às pessoas de quem gosto como gosto delas.

Se você é uma delas, se você teve passagem emocional pela minha vida, torça para que eu enriqueça.

No caso improvável de que tal não ocorra, preciso achar outra forma de homenagear as pessoas do meu afeto. Há premência de fazer isso, porque algumas já se foram. Essas fico a lamentar que lhes tenha reservado pouca atenção.

Há quem me acosse a memória em datas especiais, infalivelmente. O velho Salim Nigri, por exemplo, não há como não lembrar dele num 22 de setembro.

Durante anos, a cada 19 ou 20 de setembro, o Salim me ligava para falar do 22 que se avizinhava. Referia-se ao célebre Gre-Nal Farroupilha.

– Vai publicar alguma coisa a respeito? – perguntava com sua voz grave e tenra.

Eu contava que já tinha publicado em anos anteriores, que para apurar aquela história havia bebido direto na fonte: ouvira-a do herói do clássico, Oswaldo Rolla, o Foguinho. Foi em seu apartamento na Senhor dos Passos que Foguinho me contou como foi emblemático aquele título em comemoração ao centenário da Revolução Farroupilha.

No Gre-Nal anterior, o ponta-esquerda do Grêmio, Castilho, havia marcado um gol histórico e talvez único no futebol mundial. O Inter vencia por 1 a 0 quando um aviãozinho sobrevoou os Eucaliptos. Objetos voadores, identificados ou não, eram novidade absoluta naquele 1935. A defesa colorada parou, olhando para cima, boquiaberta, e gritando como o anão Tatu, da Ilha da Fantasia:

– O avião! O avião!

Do que se valeu o matreiro Castilho: chutou. O goleiro Penha, fascinado com o invento de Santos Dumont, nem viu a bola entrando. Gol do Grêmio.

Depois da façanha aeroesportiva, Castilho... sumiu. Ninguém sabe, ninguém viu, o atacante só foi reaparecer no ano seguinte, contratado pelo Inter. Um dos primeiros casos de sequestro de jogador do Rio Grande do Sul.

No Gre-Nal subsequente ao do “Gol do Avião”, o Grêmio, portanto, estava desfalcado de Castilho. Pior: o empate dava o título ao Inter.

Era 22 de setembro.

Tudo ia mal para o Grêmio. O Inter jogava melhor e atacava com urgência. Só não marcou porque o Grêmio tinha uma lenda debaixo do travessão de madeira: Eurico Lara. Mas, no intervalo, Lara sentiu-se mal. Teve de ser levado para a Beneficência Portuguesa de onde sairia da vida para entrar na história.

Sem seu goleiro mítico, o Grêmio não encontrava forças para suplantar o eterno rival. A torcida do Inter, em maioria nos pavilhões da Baixada, já festejava o título. Até que, aos 42 do segundo tempo, o juiz apitou falta na intermediária. Foguinho colheu a bola da grama e disse para Mascarenhas:

– Levanta na área. O Risada vai tirar de cabeça e eu vou pegar o rebote.

Foi como se estivesse no script. Mascarenhas ergueu à altura do pênalti, Risada cabeceou, a bola voou para a meia-lua e lá estava Foguinho com sua canhota de bazuca, CATUMBLA!!!, 1 a 0. Na saída de bola, Foguinho retomou-a ainda no grande círculo e foi driblando todo um Inter perplexo e foi avançando e foi e foi e, já dentro da área, escorou para Laci fazer o 2 a 0 definitivo. Uma vitória tão retumbante que os gremistas decidiram festejá-la por cem anos com um jantar em 22 de setembro, o “Jantar Farroupilha”.

Nesse primeiro 22 de setembro sem Salim Nigri, tinha de lhe prestar essa homenagem. Tinha de dizer, de alguma forma, como sinto saudades dele. As outras tantas pessoas de quem gosto vão ter que aguardar por outras colunas. Ou, talvez, até que eu fique rico.


22 de setembro de 2010 | N° 16466
PAULO SANT’ANA


Caduquice lúcida

Cada vez mais dou razão à expressão latina: “O homem é lobo do homem”.

Pois o Fidel Castro declarou esses dias que se arrepende de ter demitido homossexuais do governo e ao mesmo tempo ter feito recolher a campos de trabalho os gays e as lésbicas.

Passou 50 anos perseguindo os gays e as lésbicas e agora declarou: “Aqueles foram momentos de grande injustiça, grande injustiça!”.

Fidel acrescentou: “Estou tentando limitar minha responsabilidade nisso tudo, porque, é óbvio, pessoalmente não tenho esse tipo de preconceito”.

Barbaridade. Permitiu que os gays e as lésbicas fossem escorraçados, maltratados, desempregados, assinou os decretos que os amaldiçoou e agora vem declarar que tudo foi feito sem a sua convicção e talvez vontade!

Foram 50 anos de injustiças, de perseguições, de maus-tratos e presume-se que até de tortura.

E, agora que Fidel Castro prepara-se para morrer, quer fazer média com os gerentes da vida eterna dizendo-se arrependido. Mais que arrependido, Fidel declara-se sem culpa ao dizer que pessoalmente ele não tem preconceito contra os gays e as lésbicas.

Mas se ele, que era o dono absoluto do poder, parecendo que ainda o é, não tem culpa, quem é que tem culpa? O Papa ou o Bush?

Outra declaração do Fidel na semana passada: “O modelo econômico cubano não funciona mais, nem pra nós”.

É incrível o que vem dizendo Fidel Castro, parece que a sua caduquice o trouxe à lucidez.

Ou seja, o povo cubano teve azar, a revolução tinha de ter acontecido agora e não quando Fidel era moço e só cometia ações e ideias erradas.

Só a egiptologia pode explicar como podem conceituados colunistas de jornal escreverem hieroglifos todos os dias em seus espaços.

Há dias em que pagaria R$ 100 por um só merengue que me fosse alcançado.

Como há dias em que eu daria tudo o que tivesse para que me alcançassem uma goiaba rósea.

Como há dias em que trocaria todos os meus pertences com quem me oferecesse um prato de polenta mole com carne de panela.

Só no feriado é que fui saber que sou tradicionalista e conservador.

Porque ao ver aquela multidão de gremistas correr para inaugurar o espaço da nova Arena, senti que sou uma pessoa ultrapassada ao ter entendido que o Estádio Olímpico é a morada eterna de todos os gremistas.

Foi comovente ver aquela massa gremista dirigir-se ao Humaitá e perfilar-se no cordão da esperança.

No dia em que a Arena for inaugurada, daqui a poucos anos, eu planejo estar no ato solene e declarar, como Fidel Castro, que eu estava errado.

E que estavam certos os que apostaram com fé num novo estádio.


22 de setembro de 2010 | N° 16466
JOSÉ PEDRO GOULART


Outro lado

Há uma onda de filmes espíritas lançados no cinema. Parece que a demanda por informações do outro lado tem sido grande. Alem de conforto, o pessoal daqui anda querendo umas dicas, enfim, se preparar. Mais ou menos como alguém que chegou antes na praia, no fim de semana, e nos liga para dizer se está frio, se é para levar um casaco extra.

Sempre pode facilitar alguma coisa. E há também a possibilidade do sujeito dizer o seguinte: não vem. Explicar que está chovendo, ruas alagadas, mar com ressaca. De maneira que a gente pode ficar em casa, no conforto, lendo um livro, se achando esperto por não ter entrado naquela fria. Não vou.

Li agora na Folha que no próximo filme do Woody Allen há uma cartomante que acessa o sobrenatural para ajudar um casal em crise.

Ele banaliza o tema: “Não existe diferença entre uma cartomante, um biscoito da sorte e qualquer uma das religiões organizadas”; mas acredita “que é preciso alguma ilusão para se seguir em frente, e as pessoas que conseguem alguma fé parecem ser mais felizes”. Ele, porém, não se inclui nesse clube: “Para mim, o que vemos é aquilo que existe”.

O Pulso é um curta que fiz há mais de 10 anos. Conta a história de um rapaz, que mesmo depois de morto guarda um restinho de sentimento. Uma vez no necrotério, o morto se apaixona pela médica legista – e, consciente que não pode voltar, percebe que só lhe resta uma chance, a de que “ela” cruze a fronteira e encontre com ele do lado de lá.

Um pouco depois de o filme ficar pronto, estive em Nova York. Certa noite, caminhando na rua, notei um alvoroço em torno de um bar no Village, Woody Allen estava por lá, filmando. E eu, hospedado bem perto dali, tinha uma cópia em inglês do Pulso. Era uma chance, uma tentação, quem sabe um sinal.

Não me pergunte como, mas o filme acabou naquelas mãos que psicografaram Zelig, Annie Hall, Crimes e Pecados e outros. E ainda deixei meu telefone, endereço, e-mail, número da sepultura, qualquer coisa que me desse uma pista do que, afinal, o grande Woody Allen tinha achado do meu pequeno filme. Mas ele nunca retornou. Ingrato.

Na entrevista da Folha ele diz que acorda à noite, já se pegou tendo calafrios, pensando a respeito da morte. Eis a busca de todos, explicações. Dos que frequentam centros espíritas que prometem uma conexão com o além, aos que submergem no escuro do cinema. No fim, todos buscam a mesma resposta: devo levar um casaquinho a mais?

terça-feira, 21 de setembro de 2010



21 de setembro de 2010 | N° 16465
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


O custo da felicidade

A felicidade já é cotada nas bolsas de valores? Sou inclinado a supor que não. Mas uma reportagem de Giuliano Guandalini, publicada na Veja, informa que uma pesquisa do Gallup, feita com base na análise de 400 mil pessoas, dá uma pista a respeito. Segundo esse levantamento, o preço de uma vida feliz gira ao redor de 75 mil dólares por ano e por família de classe média, o bastante para ter uma casa confortável, um carro novo e a educação dos filhos.

Me permito pôr aqui minha colher torta no assunto, para concluir que 75 mil dólares são insuficientes para uma inscrição naquele fechado clube que Stendhal chamava de “the happy few.”

Pois mister é que, além das notas verdes, hoje tão anêmicas mesmo ante um euro debilitado, você seja agraciado com uma boa dose de serenidade. É preciso que seja abençoado com uma razoável porção de paz, bem posicionada entre você e sua circunstância.

Eu não desaconselharia uma qualidade especial e única: o amor por você mesmo.

Não deixaria de lado o apreço por seus amigos, aqueles com que você precisa contar sempre, nas horas sombrias, mas, muito especialmente, nos momentos alegres.

Não esqueceria de recomendar que você vivesse em estado de paixão, por suas amadas passadas e presentes e, particularmente, por aquelas cujo coração você quiser conquistar.

Não desdenharia uma sadia tendência por sua profissão ou seu ofício, pois somos o que nos dá prazer de fazer.

Amaria meus filhos e meus netos com essa devoção de que só a partilha é capaz.

Acalentaria meus sonhos, mesmo os mais impossíveis, com essa confiança que só a fé e a imaginação nos dão.

Colecionaria as partituras de todos os grandes músicos, as frases de todos os melhores escritores, as telas de todos os grandes pintores.

Viveria em uma morada que fosse o retrato perfeito de todos os meus devaneios, de todos os meus anseios – e ainda refletisse minha inteira fisionomia.

E a cada dia e a cada instante agradeceria a mim mesmo pelo simples ato de estar vivo.

Aproveite o Dia da Árvore. Uma linda terça-feira.


21 de setembro de 2010 | N° 16465
CLÁUDIO MORENO


A cólera dos Deuses

Para deixar bem clara a diferença entre o nosso mundo e o mundo divino, a imaginação dos gregos situou a morada dos deuses num lugar sagrado, inatingível até para os pássaros, que ficava além do mais alto cume do Olimpo, acima mesmo das nuvens, quase perdido no céu. Enquanto a parte humana da montanha era às vezes fustigada pela neve ou batida pela fúria dos ventos, a parte divina era tão serena e tranquila que, dizem, as letras escritas com o dedo nas cinzas dos sacrifícios demoravam um ano inteiro para se desfazer.

Caso algum mortal pudesse sobrevoar a cidadela divina, ouviria, cortando o silêncio daquela altitude, o canto maravilhoso das Musas e o riso inextinguível dos deuses, reunidos no seu eterno festim. Debaixo de um céu sempre azul, o Olimpo não conhecia a tristeza, pois os seus moradores estavam livres do sofrimento e da morte.

Zeus, o soberano supremo, com seu riso fácil e generoso, tinha um bom-humor contagiante – quando estava alegre. Quando estava irado, porém, tornava-se uma figura formidável, sombria, assustadora mesmo para os outros deuses; furioso, o senhor das nuvens abalava todo o firmamento com seus raios e trovões, e a um simples franzir de seu cenho a terra toda tremia.

Quase todos os pensadores da Antiguidade – naquela época, nem mesmo os deuses estavam livres de críticas – condenaram esta imagem impulsiva que os poetas e artistas atribuíam a Zeus. Pois o caminho da sabedoria não passava necessariamente pelo controle desses impulsos, dessas paixões que dominavam o homem vulgar?

Não vinha a tranquilidade da alma da moderação do prazer, da impassibilidade diante dos sofrimentos da existência? Com algumas raras (e notáveis) exceções, o filósofo devia ser sério e imperturbável, como Anaxágoras, do qual se dizia jamais ter rido em toda a sua vida. Ora, se era impossível conceber um sábio rindo às gargalhadas ou cedendo a um ataque de cólera, o mesmo valia para o senhor dos deuses, que deveria ter o decoro e a austeridade compatíveis com sua importância.

Para Cioran, nosso contemporâneo, há um grande risco nesta sabedoria que faz tudo para nos apaziguar e reconciliar com o mundo: ela pode servir simplesmente para matar nossos desejos e paixões, sem nos livrar do tormento de lamentar o que deixamos de dizer ou de fazer.

A tradição pode considerar ridículo e degradante o espetáculo público de nossas raivas, mas às vezes é necessário mandar às favas essa sensatez esterilizante e gritar a plenos pulmões a nossa indignação pelo que sofremos ou nossa dor pelo que estamos perdendo. Afinal, uma boa raiva, um ódio bem alimentado pode tornar mais vivos nossos dias e nossas noites.


21 de setembro de 2010 | N° 16465
PAULO SANT’ANA


Elogio a Kroeff

Como foi feliz a direção gremista em contratar Renato Portaluppi!

E olhem que experiências anteriores em Grêmio e Inter, contratando treinadores que foram grandes jogadores no passado, redundaram em fracasso total, como foi o caso de Figueroa no Inter, e outros.

Acertou em cheio a direção gremista. E o momento em que escolheu e contratou Renato era delicadíssimo, o que poderia confundir as mentes dos dirigentes gremistas. Eles acertaram na mosca.

Tinha razão o Carlos Fehlberg, gremista e vascaíno, que me pedia insistentemente lá de Florianópolis que eu recomendasse a contratação de Renato.

Está aí o time de Renato com 14 pontos ganhos nos últimos 21 disputados.

Está aí o Grêmio, que desde a sua fundação, acredito, não ganhava duas partidas seguidas fora de casa, batendo o Corinthians em São Paulo e o Avaí em Florianópolis, duas fora sem tirar de dentro, quem diria, Grêmio amado, tu que esses dias, poucos dias, estavas firme na zona de rebaixamento.

Esta direção atual do Grêmio desenvolveu esforços heroicos para manter o goleiro Victor, recontratando-o. Esta direção do Grêmio evitou que Jonas fosse embora, depois de um ruído sério acontecido na relação com o jogador.

Esta direção do Grêmio merece este elogio exclusivo da minha coluna.

Se eu fosse rancoroso, não elogiava Duda Kroeff. Respondendo a uma crítica minha nos tempos duros de derrotas, Duda Kroeff atingiu-me com uma injúria nos microfones.

Mas eu tenho de ser justo e digno como jornalista, não devo ocupar-me com vinditas. Tenho certeza de que, ao ler este elogio apropriado que estou fazendo a ele, o presidente Duda Kroeff vai se arrepender amargamente de ter-me ofendido.

Por sinal, sobre a relação ora cordial, ora conflituosa com os presidentes do Grêmio, historicamente, eu estava presente numa solenidade em que discursava o deputado Paulo Odone, naquela ocasião também ex-presidente do Grêmio.

Paulo Odone, vendo-me na plateia, disse o seguinte no microfone: “Já que estás aqui, Paulo Sant’Ana, quero te dar um depoimento de quem já foi presidente do Grêmio, além de eu já ter exercido outros cargos em outras direções. O que quero te dizer, Sant’Ana, é que todo dirigente do Grêmio que senta na cadeira presidencial do clube sente por ti, por vezes ódio, e por vezes amor”.

Fiquei emocionado com esse discurso de Odone. E quero dizer que são esses exemplos que me trazem orgulho no jornalismo.

Se eu só elogiasse os dirigentes do Grêmio, seria um sabujo. Então, não raras vezes, os critico. Até porque os torcedores do Grêmio imploram a mim que os critique.

Mas, quando estou para elogiar pelo que de exitoso e profícuo eles realizam, então elogio e aí é que eles saboreiam a doçura inesquecível do meu elogio.

Por isso é que, tomado de vibração pelas últimas atuações do Grêmio, estou elogiando Duda Kroeff.

A mão que afaga é a mesma que apedreja. Hoje estou para afagar.

Porque aqueles dois gols do Jonas, o segundo com passe magistral de Douglas, amoleceram de euforia o meu coração.


21 de setembro de 2010 | N° 16465
MOACYR SCLIAR


Arte ou terrorismo?

A arte moderna, ou aquilo que é denominado de arte moderna, por vezes toma rumos surpreendentes, como é o caso das chamadas “instalações”, que muitas vezes intrigam e deixam perplexas as pessoas: será que aquela coleção de objetos ou de materiais configura-se realmente como produção artística? Ou será que aquilo que artistas mostram em seus quadros pode ser considerado arte?

Tomem o caso do artista Gil Vicente, que, na 29ª Bienal de São Paulo, a ser inaugurada no próximo sábado, mostrará a coleção “Inimigos”, uma série de quadros que o mostram “assassinando” personalidades nacionais e mundiais: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (que busca a reeleição), o ex-presidente americano George W. Bush, o papa Bento XVI, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, o ex-primeiro-ministro israelense Ariel Sharon, a rainha Elizabeth e o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan são algumas das vítimas do artista, que, como se vê, é absolutamente imparcial em termos de ideologia ou de países.

Todos são “executados” com tiros na cabeça, exceto o presidente Lula, que é degolado, uma exceção que Gil Vicente atribuiu à “casualidade”. Diz ele que esta é a forma de expressar sua “indignação”: “O mundo é o que é porque todos os dirigentes políticos roubam”. Declara-se um defensor da “justiça social”.

A Ordem dos Advogados do Brasil pediu a retirada das obras, sustentando que elas incitam à violência; a organização da Bienal não concorda com isso, invocando a liberdade de expressão. Provavelmente os quadros ficarão lá, mas pode-se tirar disso uma boa lição. O fato de que alguém desenha bem, ou escreve bem, ou toca bem um instrumento, não torna necessariamente essa pessoa melhor.

Artistas não faltaram à Alemanha nazista e à União Soviética estalinista. Louis Ferdinand Céline, grande escritor, apoiou a ocupação nazi na França, e bem assim o poeta americano Ezra Pound. Na arte de Gil Vicente, podemos inclusive enxergar o germe do terrorismo, que começa com uma visão distorcida e maluca da realidade para a seguir se transformar em atentados.

É isso que as pessoas precisam discutir. Ou seja, as pessoas precisam desenvolver seu senso crítico, o que é, afinal, o objetivo da verdadeira arte. Não basta o rótulo, não basta a habilidade; a mensagem é fundamental. E neste caso trata-se de uma mensagem perturbada, para dizer o mínimo.

Detalhe curioso: o autor dos quadros tem o mesmo nome do primeiro grande dramaturgo português, que viveu nos séculos 15 e 16 e é considerado o pai do teatro luso. O coitado deve estar se revirando no túmulo.
Na próxima segunda, dia 27, às 20h, estarei na Livraria Cultura do Bourbon conversando sobre meu livro Eu vos Abraço, Milhões. Se milhões virão, não sei, mas abraços haverá (e autógrafos, inclusive em livros que a editora sorteará).

segunda-feira, 20 de setembro de 2010


FERNANDO DE BARROS E SILVA

Lulismo e ferida aberta

SÃO PAULO - O cientista político André Singer publicou ontem na Ilustríssima o ensaio "A História e seus Ardis: o lulismo posto à prova em 2010". Como indica o subtítulo, trata-se de uma tentativa de entender a eleição em curso a partir deste fenômeno, o lulismo.

O texto funciona como adendo ao artigo que Singer publicou em 2009, na revista do Cebrap, sobre as "Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo".

O cerne da análise (e a sua força) está na identificação do realinhamento sociopolítico que foi gestado no primeiro mandato e veio à luz na campanha da reeleição.

Lula venceu em 2002 na esteira do desgaste do segundo governo FHC, ancorado no apoio de camadas médias historicamente associadas ao PT. Em 2006, quem elegeu Lula foi sobretudo o eleitorado de baixíssima renda, beneficiado por uma política social (Bolsa Família, crédito consignado, salário mínimo etc.) cuja eficácia até então não tinha sido bem dimensionada.

Enquanto a crise do mensalão dava combustível à ojeriza ao PT nas classes médias, o lulismo surgia nos braços do povo, em grande medida descolado do petismo. A ligação com o getulismo é evidente.

Quando, diz Singer, "um governo põe em marcha mecanismos de ascensão social como os que se deram no New Deal, e como estamos assistindo hoje, determina o andamento da política por um longo período".

Nessa configuração de forças, a escandalização da campanha funciona como último suspiro de uma oposição que não consegue falar aos mais pobres, mas que encontra acolhida nas camadas intermediárias da sociedade (sobretudo entre os mais conservadores).

O lulismo sairá vitorioso das urnas, mas é uma incógnita saber como se comportará na ausência de seu criador. Ainda mais agora, após as revelações da traficância na Casa Civil envolvendo personagens diretamente ligados à candidata oficial. O caso Erenice abre uma ferida que a provável vitória de Dilma não será suficiente para cicatrizar.

MOACYR SCLIAR

Dançando no baile dos feios

Ele queria lealdade, não beleza; as namoradas o trocavam como quem troca de roupa ou maquiagem

Britânicos ganham rede social só para pessoas feias. O mais novo site de relacionamentos do Reino Unido, "The ugly bug ball" (TUBB) ou o Baile dos Insetos Feios (título de uma música do americano Burl Ives), garante: "Pessoas feias tendem a ser mais compreensivas e leais. Quando se tem um parceiro feio, é improvável que alguém tente roubá-lo". O site só permite o cadastro de quem não seja "reconhecidamente atraente". FOLHA.COM

NAMORADAS ELE tivera muitas, moças lindas, inteligentes. Mas as ligações duravam pouco tempo, porque, tão volúveis quanto belas, as parceiras trocavam-no por outro com a mesma facilidade com que trocavam de roupa ou de maquiagem. Tudo isso o deixava deprimido, frustrado. Ansiava por encontrar a mulher de sua vida, a companheira que ficaria sempre a seu lado. Mas onde estaria ela?

Achou que tinha encontrado a resposta quanto entrou no site conhecido como Baile dos Insetos Feios, que vetava de maneira explícita aqueles que fossem "reconhecidamente atraentes". De fato, os rostos que ali apareciam eram de uma feiura lamentável, patética. Mas o que o atraiu foi a promessa da fidelidade, da lealdade, coisa que o site garantia de maneira veemente. Lealdade era o que ele queria, não beleza.

Uma foto chamou-lhe a atenção: era de uma garota gorda, espinhenta, medonha, que, contudo, sorria candidamente. E foi esse sorriso, por ele visto como uma comovente demonstração de confiança na vida e no amor, que o fez decidir: namoraria aquela moça.

Havia um problema. Segundo o site, teria de mandar a sua própria foto, que certamente seria rejeitada: feio ele não era, estava longe de sê-lo. Procurou um amigo que trabalhava com Photoshop, e pediu-lhe que retocasse sua foto.

Foi um sucesso: seu rosto ficou medonho, o que possibilitou uma imediata aceitação pelo site. Fez então contato com a jovem. Como esperava, ela aceitou a proposta; marcaram encontro num bar.

Ela informou que iria com um vestido vermelho, uma echarpe amarela e uma flor no cabelo, detalhes que a ele pareceram inúteis: com aquela feiura ela seria facilmente identificável.

Ele, não. Tinha mudado o seu rosto no Photoshop, mas não poderia fazê-lo na realidade. Nem era o que ele queria; seu plano era apresentar-se à feia, confessar o truque e dizer que queria namorá-la assim mesmo, porque estava em busca da fidelidade. Mesmo porque, ele agora o sentia, o fascínio pela feiura dera lugar a um sentimento que nada tinha de sádico nem de piedoso; era... amor? É. Amor. Inesperado, como costuma ser o amor.

Na noite marcada, lá estava ele, sentado em uma das mesas do bar, aguardando-a. E de repente surgiu na porta uma moça, lindíssima, usando um vestido vermelho, uma echarpe amarela e uma flor no cabelo. Ele estremeceu. Seria coincidência?

Não. Não era coincidência. A moça tinha feito a mesma coisa que ele: mandara um retrato deformado pelo Photoshop para também viver uma aventura com um feio. Um feio fiel, um feio que não a abandonasse.

Com um aperto no coração, teve de reconhecer: fiel seguramente seria, mas feio não. Em silêncio, levantou-se e foi para casa. Ia em busca de um site que lhe revelasse a sua verdadeira paixão. Ia em busca do Baile do Amor.

MOACYR SCLIAR escreve nesta coluna, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas no jornal.
Hino Riograndense

Como aurora precursora
Do farol da divindade
Foi o vinte de setembro
O precursor da liberdade

Refrão

Mostremos valor e constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra
De modelo a toda terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra
II.
Mas não basta pra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo
Refrão
Mostremos valor e constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra
De modelo a toda terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra
[Trecho suprimido

Em 1966, durante o Regime Militar a segunda estrofe foi retirada oficialmente.

Que entre nós, reviva Atenas
para assombro dos tiranos
Sejamos gregos na glória
e na virtude, romanos



Parabéns para os gaúchos e gaúchas de todas as querencias - Ótimo feriado


20 de setembro de 2010 | N° 16464
KLEDIR RAMIL


Engenheiro (da série “Profissões”)

Engenharia é uma profissão muito fácil, basta saber usar uma máquina de calcular. Máquina de calcular é um instrumento que serve para isso mesmo, fazer cálculos por você. É só digitar a operação e ela dá o resultado. Claro, é preciso conhecer alguns fundamentos básicos da matemática, como os números naturais e as quatro operações: somar, diminuir, multiplicar e dividir.

Somar é aquilo que se faz quando não se quer diminuir, e vice-versa. Multiplicar é o contrário de dividir. Pronto, se você não sabia isso, já aprendeu. Só falta decorar os números. Vamos lá. Olhe o seu dedo indicador, também conhecido como “fura bolo”: esse é o número 1. O furador de bolo em dupla com o “pai de todos” forma o número 2. Se você acrescentar o “seu vizinho”, teremos o 3. E assim por diante. Quando terminarem os dedos das mãos, peça ajuda para os universitários.

Na prática, o dia a dia da profissão é uma barbada. Ciência exata não tem erro: 2 mais 2 vai ser sempre 4. Ao mandar o pedreiro virar uma massa é só dizer: 2 de areia, 2 de terra, 1 de cimento e 1 balde d’água. Com isso você já poderia trabalhar mas, por via das dúvidas, é bom fazer a faculdade.

Você pode não acreditar, mas eu sou formado em Engenharia Mecânica e, para alívio da humanidade, virei artista. Ou seja, meus comentários podem estar equivocados. No meu tempo, no século passado, tinha que decorar a tabuada e fazer contas de cabeça. Ou usar um instrumento medieval chamado régua de cálculo. Não dá pra explicar aqui o que era uma régua de cálculo, só vou dizer que era necessário um QI de 150.

Engenharia é uma linda profissão. É ela que faz o mundo girar, no sentido metafórico, é claro. Ela está por trás de cada movimento seu. Quando você liga a TV, abre uma cerveja ou puxa a descarga do banheiro, pode ter certeza, ali tem a mão de um engenheiro.

Se você seguir essa carreira, tenha como objetivo chegar a chefe de departamento. A partir desse ponto, você passa a ter à disposição uma equipe de técnicos, assistentes e, o melhor de tudo, um estagiário.

Toda empresa hoje em dia tem um estagiário, que é aquele cara que carrega o piano para os outros tocarem. Então, se tiver que construir um ponte, é só chamar o pobre coitado e mandar ele pesquisar no Google. Aí ele apresenta o projeto, você repassa pra equipe e pronto. Minha única sugestão é que você não assine a obra, pois se a ponte cair quem vai pra cadeia é você.


20 de setembro de 2010 | N° 16464
PAULO SANT’ANA


Passeio no parque

Não tenho certeza se esta frase é minha: “Os psiquiatras não acreditam em Deus porque têm medo da concorrência”.

Se não for minha esta frase, conste que a adotei, tão fadada ao brilhantismo ela foi construída.

Quando eu previ que Dilma Rousseff iria ser eleita, ela estava 16 pontos atrás nas pesquisas.

Previ porque calculei que o efeito Lula era tão intenso, que acabaria catapultando Dilma para a faixa presidencial, embora Dilma carregue méritos insofismáveis como organizadora de governos.

Algum leitor ou leitora inteligente deve ter intuído que, se Lula elegeria Dilma, fatalmente no mesmo dia Tarso Genro seria eleito governador.

O efeito Lula é arrasador.

E se adensa mais o compromisso de Tarso Genro: porque consta que ele assumirá um governo com as finanças ditas saneadas.

Yeda Crusius saneou as finanças, em caos há décadas, está pagando até mesmo os precatórios mais modestos e incluiu ou vai incluir 6 mil novos brigadianos.

Se Tarso confirmar os bons auspícios que obteve no Ministério da Justiça, com grande atenção, cuidado e ação com a segurança pública, teremos um ótimo governo.

Decidi ontem passear com meu cãozinho Kunga, da raça lhasa, escolhi o Parque Germânia, ao lado do Shopping Iguatemi, para apanhar um sol abundante que se derramava sobre a cidade.

O Parque Germânia é sem dúvida a grande praça da cidade, foi construído pela Goldsztein e entregue à prefeitura municipal para administrá-lo.

Uma típica realização público-privada. Eu desconfio muito das realizações público-privadas porque a parte pública costuma falhar com o tempo.

Pois bem, lá estávamos eu e meu Kunga a ingressar no Parque Germânia.

Na entrada, um cartaz que pedia que os frequentadores recolhessem os dejetos dos seus cães e conservassem os animais presos por uma guia.

Em menos de 30 segundos que havíamos eu e meu cão ingressado e já vieram em nossa direção dois enormes cães, soltos.

Fiquei aterrorizado, iam esmigalhar o meu cãozinho, pensei.

Felizmente, não aconteceu, mas tive de me incomodar com o dono dos cães grandes, um idiota que pensa que o parque é dele e pode soltar os seus cães onde bem entender.

Procurei durante 30 minutos um guarda municipal para fazer queixa de que eram inúmeros os cães soltos sem guia no parque.

Não havia, pasmem, qualquer guarda nos vários portões do notável parque.

Saí de lá frustrado, não consegui encontrar nenhum guarda, prefeito Fortunati, isto é uma lastimosa barbaridade.

Mas vale a pena visitar o Parque Germânia. Porque ele é inteiramente cercado, o que o preserva dos vândalos à noite e abrem-se seus portões durante o dia para a entrada livre do público.

É um monumento ecológico-urbano o Parque Germânia. Sob certo aspecto, cabe na idealização que fiz durante anos para um parque: cercado, gramado e arborizado.

E as gentes gozando de tudo isso lá dentro.

As gentes e os cães, mas estes últimos têm de ser presos a guias, senhor prefeito.

Parque sem policiamento é o mesmo que gafieira sem cerveja.


20 de setembro de 2010 | N° 16464
L. F. VERISSIMO


A volta de Gekko

Gordon Gekko era o vilão do filme Wall Street, do Oliver Stone. Ou era para ser o vilão. Acabou sendo o personagem mais admirado do filme. Como Michael Douglas o retratou, Gekko era um bandido atraente, com bom gosto, que sabia apreciar tanto o que seu dinheiro comprava quanto um belo pôr de sol na praia.

E incorporava com elegância impecável a ganância sem remorsos da era. Lembro de outro filme sobre o mercado de capitais em que um grupo de corretores se reúne para ver o Wall Street e vibrar com Gekko e suas artimanhas. Ele era tudo o que eles queriam ser, da gravata à falta de escrúpulos. Para seus torcedores, a lição final que Gekko recebia no filme do Stone não passava de uma concessão à moral dos trouxas.

Gordon Gekko, claro, não é o primeiro bandido de sucesso no cinema. Não só os papéis de vilão costumam dar as melhores interpretações – a calhordice é sempre mais divertida do que a virtude, e Gekko valeu um Oscar para o Michael Douglas –, como há uma longa tradição cinematográfica de glamorizar criminosos, cujo exemplo mais recente é a série de filmes sobre os “Ocean’s Eleven”, George Clooney e seu simpático bando de ladrões.

Um personagem reincidente na ficção da americana Patrícia Highsmith que também já apareceu no cinema é Tom Ripley, trambiqueiro e assassino, outro anti-herói com público certo.

E não vamos esquecer nosso herói sem nenhum caráter, Macunaíma, o francês Arsène Lupin e o conhecido fora da lei e assaltante de estrada Robin Hood. (Se não é difícil entender a atração desses vilões pitorescos e fotogênicos, vá entender a popularidade de Hannibal Lecter, o psicopata comedor de caras que também já voltou mais de uma vez, atendendo a pedidos.)

Gordon Gekko está de volta no novo filme de Stone, continuação do outro. Ainda não vi o filme, estou chutando. Gekko sai da cadeia, onde, presumivelmente, aprendeu a lição de que ganância é bom, mas sem exageros – o que no fundo é o que o governo americano vem tentando dizer a Wall Street desde a crise –, ou então continua o mesmo Gordon Gekko, mas um que teve tempo na prisão para pensar em novas artimanhas, e não vê a hora de se reencontrar com suas gravatas.

sábado, 18 de setembro de 2010



19 de setembro de 2010 | N° 16463
MARTHA MEDEIROS


Na terra do se

Se quem luta por um mundo melhor soubesse que toda revolução começa por revolucionar antes a si próprio.

Se aqueles que vivem intoxicando sua família e seus amigos com reclamações fechassem um pouco a boca e abrissem suas cabeças, reconhecendo que são responsáveis por tudo o que lhes acontece.

Se as diferenças fossem aceitas naturalmente e só nos defendêssemos contra quem nos faz mal.

Se todas as religiões fossem fiéis a seus preceitos, enaltecendo apenas o amor e a paz, sem se envolver com as escolhas particulares de seus devotos.

Se a gente percebesse que tudo o que é feito em nome do amor (e isso não inclui o ciúme e a posse) tem 100% de gerar boas reações e resultados positivos.

Se as pessoas fossem seguras o suficiente para tolerar opiniões contrárias às suas sem precisar agredir e despejar sua raiva.

Se fôssemos mais divertidos para nos vestir e mobiliar nossa casa, e menos reféns de convencionalismos.

Se não tivéssemos tanto medo da solidão e não fizéssemos tanta besteira para evitá-la.

Se todos lessem bons livros.

Se as pessoas soubessem que quase sempre vale mais a pena gastar dinheiro com coisas que não vão para dentro dos armários, como viagens, filmes e festas para celebrar a vida.

Se valorizássemos o cachorro-quente tanto quanto o caviar.

Se mudássemos o foco e concluíssemos que infelicidade não existe, o que existe são apenas momentos infelizes.

Se percebêssemos a diferença entre ter uma vida sensacional e uma vida sensacionalista.

Se acreditássemos que uma pessoa é sempre mais valiosa do que uma instituição: é a instituição que deve servir a ela, e não o contrário.

Se quem não tem bom humor reconhecesse sua falta e fizesse dessa busca a mais importante da sua vida.

Se as pessoas não se manifestassem agressivamente contra tudo só para tentar provar que são inteligentes.

Se em vez de lutar para não envelhecer, lutássemos para não emburrecer.

Se.

Ótimo domingo para você e um ótimo feriado para os gaúchos e gaúchas tche.


19 de setembro de 2010 | N° 16463
VERISSIMO


Os clarinetes

Um conjunto só de clarinetes de São Paulo tem um nome ótimo: Sujeito a guincho. Não, nenhum membro do quinteto corre o risco de ser guinchado e levado para um depósito de músicos faltosos até pagar uma multa, caso errar uma nota. É que o clarinete é um instrumento notoriamente perigoso: a qualquer momento pode dar um guincho extemporâneo. Não há nada para o clarinetista fazer a respeito, salvo rezar para que não aconteça.

O guincho não depende de embocadura errada, palheta ruim ou má execução. Acontece mesmo para os melhores. Uma vez vi o Benny Goodman tocando na TV e no meio do seu solo o clarinete deu um guincho. Benny Goodman, o mais festejado virtuoso do instrumento do seu tempo, o cara que tocava jazz e Mozart com a mesma maestria, deu um guincho ouvido por milhares de espectadores.

Em matéria de majestade lesada foi como se o príncipe Phillip pisasse na cauda do vestido da rainha Elizabeth e ela entrasse no parlamento só de combinação. Goodman manteve sua empáfia e continuou Rei do Swing mas imagino que a lembrança daquele guincho tenha atormentado seus últimos anos

Clarinetistas contemporâneos de Benny Goodman lideraram grandes orquestras, como ele. As bandas de Artie Shaw, Jimmy Dorsey e Woody Herman também foram famosas. Artie Shaw é um ídolo para clarinetistas, não tanto pelas suas qualidades como músico e como pessoa (era judeu, como Goodman e, como este, também ajudou a derrubar barreiras raciais no mundo da música, além de ter problemas com a inquisição anticomunista da época pelas suas ideias de esquerda) ou pela sua versatilidade (também foi escritor) mas por ter sido casado, entre outras, com a Ava Gardner.

O clarinete dá guinchos malucos porque é um instrumento esquizofrênico.

Em nenhum outro instrumento de sopro a diferença entre os registros é tão marcada. Um clarinete tocado no registro alto é um instrumento, nos registros médio e baixo é outro. No seu registro alto o clarinete é esganiçado, estridente e até um pouco histérico. Já seu registro médio e baixo é, na minha opinião, o som mais bonito produzido no mundo. Os registros baixo e o alto do clarinete nem se conhecem.

No jazz de Nova Orleans ou no Dixieland o clarinete ia costurando pelo alto enquanto o trompete atacava pelo meio e o trombone sustentava por baixo. Nas bandas de swing como as lideradas por Goodman e os outros o clarinete raramente descia do registro mais alto, para não ser soterrado pelo volume do conjunto.

O choro brasileiro costuma usar o clarinete de cima a baixo mas concentra-se mais nos registros alto e médio. Mas lá pelos anos 40 o saxofonista americano Lester Young, inventor do cool, que segurava seu sax tenor na horizontal e tocava sem vibrato, expelindo quase mais sopro do que som, começou a tocar o clarinete do mesmo jeito. E apareceu outro instrumento. Um terceiro clarinete.

Anos depois Jimmy Giuffre, saxofonista como Young, também aderiu ao clarinete e adotou o seu som quase sussurrado. No timbre em que Giuffre tocava, chamado de “chalumeau”, o nome da flauta doce primitiva que deu origem ao clarinete, este se transformava num instrumento pastoral. Além de lindo, conveniente. Um guincho neste estilo soaria como a imitação de um pássaro do campo.

(Dedicado ao Paulo Moura)

Em nenhum outro instrumento de sopro a diferença entre os registros é tão marcada.