sábado, 26 de dezembro de 2009


Diogo Mainardi

A chapa cabocla

"Uma chapa formada por José Serra e Marina Silva embaralharia a campanha de 2010, pegando o PT no contrapé e enterrando de vez a desastrada candidatura de Dilma Rousseff"

Os dois juntos, na mesma chapa. Quem? José Serra e Marina Silva. Isso mesmo: José Serra, presidente, e Marina Silva, vice-presidente.

A ideia ainda é embrionária. Só é debatida no interior de um grupelho do PSDB. Mas ganhou impulso na semana passada, depois que Aécio Neves renunciou à candidatura presidencial e assoprou para a imprensa petista que rejeita terminantemente uma vaga de vice-presidente na chapa de José Serra - a chamada chapa puro-sangue.

Apesar de todos os apelos do PSDB, Aécio Neves repetiu aos seus interlocutores que pretende candidatar-se ao Senado e dedicar-se integralmente à campanha para eleger seu sucessor em Minas Gerais, Antonio Anastasia.

Uma chapa presidencial formada por José Serra e Marina Silva - a chapa cabocla ou, melhor ainda, a chapa mameluca - embaralharia a campanha de 2010, pegando o PT no contrapé e enterrando de vez a desastrada candidatura de Dilma Rousseff.

O plano petista de contrapor Lula a Fernando Henrique Cardoso - o único atributo que, depois de muito empenho, os marqueteiros conseguiram arrumar para Dilma Rousseff - iria para o beleléu, considerando que Marina Silva, por mais de cinco anos, também fez parte do governo Lula.

E a impostura bolivariana de que o PSDB defende o interesse dos ricos e o PT defende o interesse dos pobres seria imediatamente desmascarada. Em matéria de pobreza, ninguém pode competir com Marina Silva.

José Serra e Marina Silva saíram do armário duas semanas atrás, em Copenhague, na COP15. Um elogiou o outro, um apoiou as propostas do outro. Eles conseguiram até deter o aquecimento global, congelando o Hemisfério Norte e matando de frio algumas dezenas de poloneses. José Serra já está com a campanha presidencial pronta. O que ele representa é a "continuidade sem continuísmo".

Para o eleitorado, ele manterá as conquistas de Fernando Henrique Cardoso e de Lula, e ainda poderá dar um passinho adiante. Apesar de atemorizar os banqueiros, José Serra é capaz de sossegar o lulista mais conservador. Se Marina Silva concordasse em se unir a ele, sua candidatura ganharia também um aspecto mais moderno, um caráter mais inovador.

Marina Silva, por outro lado, como candidata a vice-presidente poderia dar um sentido prático à sua plataforma ambiental, coordenando essa área no futuro governo José Serra. Reinaldo Azevedo, em seu blog na Veja on-line, disse que Marina Silva, mais do que candidata a presidente, é candidata a santa. Cruzei com ela recentemente e confirmo: ela levita.

Elegendo-se na chapa de José Serra, ela teria a possibilidade de, finalmente, voltar a pisar no chão.


O valor do patrimônio finito

O uso dos recursos da natureza começa a entrar na contabilidade real das companhias

Renata Moraes e Carlos Eduardo Freitas
Divulgação
CORREDORES ECOLÓGICOS



A Suzano planta vegetação nativa entre os eucaliptos de modo a resolver o problema da monocultura

Desde meados do século XVIII, com a máquina a vapor que extraía água das minas de ferro e carvão na aurora da Revolução Industrial, o crescimento econômico sempre esteve atrelado à transformação de recursos naturais em matéria-prima para a manufatura dos produtos.

A exploração indiscriminada desses recursos, no entanto, deixou de ser a solução para o avanço tecnológico para tornar-se um problema de ordem prática. Como o capital natural – os recursos obtidos na natureza e usados para a produção de bens de consumo – é esgotável, preservá-lo passou a ser prioridade para as empresas que dependem dele para sobreviver.

"O capitalismo produz riqueza a partir da estrutura disponível na natureza, que nem sempre pode ser reposta pelo homem", definiu o ambientalista americano Paul Hawken, um dos primeiros a tratar do tema na década de 90, em seu livro Capitalismo Natural, Criando a Próxima Revolução Industrial. "Destruir a natureza significa inviabilizar o desenvolvimento econômico da humanidade." Para ele, o capitalismo industrial é uma aberração temporária. "Não por ser capitalismo, evidentemente, mas por destruir sua fonte de recursos."

A preservação do capital natural virou regra nas empresas ecologicamente responsáveis. Todo novo empreendimento passa antes pelo crivo de seu potencial poder de destruição do estoque de recursos naturais. Tratá-los com respeito, e incluí-los no planejamento fi-nanceiro, é compulsório. Os limites para o desenvolvimento econômico neste século provavelmente serão ditados pela disponibilidade dos recursos naturais.

De que servirão as melhores tecnologias para a pesca sem os cardumes? Ou as refinarias sem o petróleo? O panorama é ruim. A Avaliação Ecossistêmica do Milênio, projeto coordenado pela Organização das Nações Unidas entre 2001 e 2005, revelou o péssimo estado em que se encontram as principais reservas de recursos naturais do planeta. Entre os 23 itens analisados – como qualidade do ar, oferta de alimentos, diversidade de remédios naturais, regulação hídrica e climática –, 60% estão sendo deteriorados.

Conservar o meio ambiente significa preservar a viabilidade do próprio negócio. Uma pesquisa realizada com executivos de 200 corporações associadas ao World Business Council for Sustainable Development, em 35 países, revelou que esses profissionais já de-monstram alguma preocupação com o impacto que as mudanças climáticas podem ter sobre seu negócio. De acordo com a pesquisa, 13% temem a escassez de matérias-primas e 17% se assustam com o impacto de novas regulamentações ambientais.

A longevidade de uma empresa está intimamente relacionada à sua capacidade técnica para usufruir a natureza sem esgotá-la. "O impacto ambiental deve ser incluído no cálculo do custo das operações", afirma Rachel Biderman, pesquisadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas. Um dos exemplos mais emblemáticos da filosofia do "preservar para produzir mais" é a Natura, a líder brasileira no mercado de cosméticos, fragrâncias e higiene pessoal.

Quando ela foi criada, há quarenta anos, seu modelo de gestão já associava crescimento econômico e consciência ambiental e social. Alguns anos mais tarde, essa passou a ser a marca indelével dos produtos vendidos pela empresa.

A rede de cosméticos O Boticário, fundada na década de 70, aposta na mesma direção e também é outra referência no uso responsável de insumos naturais. As espécies raras de flor selecionadas para a composição das fragrâncias são envolvidas por uma cúpula de vidro e os componentes do aroma captado são então analisados e reproduzidos sinteticamente.

Outra de suas estratégias para diminuir o impacto ambiental foi a redução do emprego de matérias naturais na composição dos produtos. Atualmente, 80% da matéria-prima que a empresa utiliza é de origem sintética, uma forma de reduzir os danos a espécies nativas.

Estar próximo da natureza impõe atenção. A Suzano, o principal fabricante de papel do país, adotou medidas de proteção ao capital natural que utiliza. Com um estoque de mais de 500 000 hectares de floresta, ela produz 2,5 milhões de toneladas de papel e celulose.

Para recuperar características da mata nativa, prejudicada pela monocultura de eucalipto (árvore que fornece matéria-prima para a produção de papel), a empresa criou corredores ecológicos. A técnica consiste em plantar vegetação nativa entre os eucaliptos. Com isso, o microclima local melhora, enquanto a evasão dos animais silvestres e o risco de pragas diminuem.

A empresa controla também a diversidade dos pássaros que habitam as planta-ções. As aves são um bom indicador de mudanças de temperatura e umidade que afetam a produção dos eucaliptos. "A qualidade do meio ambiente é um termômetro da saúde do nosso negócio", explica Luiz Cornacchioni, gerente de relações institucionais da Suzano. Trata-se, no jargão da contabilidade, de equiparar o capital natural aos outros três de qualquer empresa – o financeiro, o humano e o imobilizado.

A face mais visível do cuidado com o capital natural é a preocupação com os recursos extraídos da natureza, como os minérios (veja o quadro abaixo). Mas cresce o interesse pelos chamados "serviços ambientais", como a água das nascentes, as chuvas e a estabilidade climática produzida pelas florestas.

Atribui-se, hoje, valor a isso, de modo que o preço dos produtos embuta o custo desses serviços. A receita amealhada pelos fabricantes que bebem dessas fontes é usada para preservar o ambiente. Um exemplo é a cobrança pelo uso da água, já em vigor em algumas regiões do Brasil.

Nessa mesma direção, brotou uma nova expressão – a "externalidade", no jargão da economia. Isso ocorre quando, devido a imperfeições do mercado, uma empresa deixa de considerar em seus custos certos fatores sem preço definido nem propriedade clara, e eles acabam transferidos para toda a sociedade, ou mesmo para as futuras gerações. Funciona assim com o lixo.

Desde que os clientes estejam dispostos a pagar pelo custo da embalagem, o fato de a mercadoria implicar maior ou menor produção de lixo não acarreta impacto algum para a economia do fabricante, e os gastos com resíduos – embalagens usadas, por exemplo – são transportados para o bolso do consumidor.

No Uruguai, já existem projetos de lei que taxam os fabricantes cujas peças, depois de usadas, produzem detritos, anulando assim a externalidade. São as novas regras do mercado ético.
Lee Jin-Man/AP
VAI ACABAR?



Minerais como o tântalo, usado em celulares, ainda têm um século de sobrevida


O Natal da avó deste garoto

por Paulo Nogueira | Amanda Knox, O.J.Simpson, sean goldman

Um menino amado e disputado

VI A COBERTURA enviesada e patriótica que a mídia dos Estados Unidos deu ao caso do garoto Sean Goldman, amado e consequentemente disputado na justiça pelos dois lados de sua família, representados pelo pai americano e pela avó brasileira.

Descarto aqui o padrasto brasileiro, peça relevante no tabuleiro legal mas secundária na rede de afetos de Sean. Foi a segunda vez, em pouco tempo, que me chamou a atenção a parcialidade nacionalista dos jornalistas americanos.

A outra foi a maneira como cobriram o julgamento, em Perúgia, da estudante americana Amanda Knox, 22 anos. Bonita como uma estrela, cínica a ponto de rir durante o julgamento e ao perceber as câmaras fingir choro e compunção, Amanda foi condenada a 26 anos de cadeia pela morte da estudante inglesa Meredith Kercher, 21 anos.

Elas rachavam, com outras duas estudantes, o aluguel de uma casa em Perúgia, um centro universitário de alto nível ao qual acorrem jovens do mundo inteiro. Eram múltiplas as evidências contra Amanda, de seu DNA no cabo da faca ensanguentada encontrada ao lado do corpo de Meredith às múltiplas mentiras que ela contou, entre elas a incriminação do dono do bar em que ela trabalhava, para não falar numa confissão que depois ela desautorizou.

O momento mais cômico e trágico da cobertura americana se deu num programa de televisão em que uma dupla de jornalistas chamou, para reforçar seu ponto, uma juíza, e ela, para surpresa indignada de ambos, defendeu a lógica da sentença contra Amanda.

Não percebi no amplo espaço dedicado ao tema pela mídia americana uma única menção de lamento pela morte tão cedo e tão violenta de Meredith, objeto de estupro e de facadas que a deixaram com o pescoço aberto e a fizeram agonizar por pelo menos duas horas, segundo os legistas. Amanda, na mídia americana, parece mais vítima que Meredith.

O comentário mais inteligente que vi sobre a patriotada americana nessa caso foi o de um leitor na Inglaterra que notou que, no fundo, Amanda teve sorte em ser julgada na Itália, a começar pela razão de que em 15 estados americanos vigora a pena de morte.

Mais uma vez, o patrotismo exacerbado derrotou o jornalismo sóbrio no tom geral que se deu nos Estados Unidos ao caso de Sean, afinal entregue ao pai biológico. A justiça brasileira foi desqualificada como suspeita no decorrer do processo e acusada de se vergar à influência do padrasto de Sean, um homem oriundo de uma família tradicional nos meios jurídicos nacionais. Também a justiça italiana fora ridicularizada no julgamento de Amanda.

Como se a único reduto da ética jurídica fossem os Estados Unidos, o berço dos advogados espertalhões e dos processos irracionais, e também a terra onde foi dado o veredito de inocente a O.J. Simpson. Ora, era legítimo e natural que os familiares brasileiros quisessem ficar com o garoto que cresceu entre eles, longe do pai. Estranho seria se, morta a mãe, o menino fosse despachado para os Estados Unidos no primeiro avião.

Quem teria agido de forma muito diferente, ainda mais considerada a visão sobre o pai, oriunda da mulher que se separou dele? Não se sabe o quanto distorcida ou não a versão dela pode ter sido, mas era ela a fonte de informação que a família tinha. De resto, sou pai e teria feito tudo pela guarda desde o primeiro dia. Não espanta que a história tenha ido parar na justiça.

O.J. Simpson recebeu da justiça americana o veredito de inocente

É um caso de amor incondicional, e assim deve ser entendido. Que tenha se arrastado tanto tempo é sinal da complexidade da decisão e do empenho posto pelas duas partes em ficar com Sean, por abundância e não escassez de amor. Confio também que afinal tenha sido tomada a decisão mais acertada.

(É possível ver no Youtube o julgamento no canal do Supremo Tribunal Federal.) Carimbar o episódio como sequestro é um absurdo, tanto quando descrever a avó como uma vilã, ou uma granfina manipuladora e fria. Ela é, sim, vítima do amor, das perdas e do desespero. E, provavelmente, da convicão de que o neto ficaria melhor no Brasil. Lutou não por dinheiro, não por bens materiais, mas pelo neto.

E perdeu. Sean é muito amado, e isso vai ajudá-lo a superar não apenas a orfandade tão precoce mas, mais que isso, a divisão que se estabeleceu entre os dois lados da família em torno dele. Tem, além do mais, o vigor copioso da juventude para se restabelecer no correr dos longos dias. Não é o caso da avó, que perdeu a filha numa ocasião que deveria representar festa, um parto, e agora vê o neto partir para longe.

Se a causa fosse apreciada por Salomão, as duas partes renunciariam à guarda, é minha sensação, tal o zelo amoroso por Sean que emana de ambas, mesmo em meio à saraivada de acusações recíprocas. Não será um Natal feliz para a avó e a perspectiva de que seu ânimo melhore no ano novo ou depois é remota, agora que lhe foi arrancado — legalmente, é verdade — mais um pedaço.

Mas nada que mereça uma palavra de simpatia, compaixão ou simples compreensão da mídia americana. Se a família brasileira fosse tão influente assim, e a justiça brasileira tão suscetível a isso, a sentença teria sido outra. Ponto.


26 de dezembro de 2009 | N° 16197
NILSON SOUZA


Trabalho e prazer

Quando fomos sentenciados a suar pelo pão nosso de cada dia, não estava previsto que muitos de nós nos apaixonaríamos por nossas profissões. Para quem ama o que faz, trabalhar nunca foi e nem será uma maldição.

Ao contrário, será sempre um desafio prazeroso e uma alegria renovada. É pelo trabalho que expressamos o nosso poder de construir e modificar o mundo, seja com a habilidade de nossas mãos ou com as luzes de nosso intelecto. Neste sentido, todos os ofícios são dignos e gratificantes. Nada é mais compensador do que a certeza de um trabalho bem feito.

Vale para o pedreiro, que transforma tijolos em moradias. Vale para a professora, que abre as portas do conhecimento para seus alunos. Vale para o médico, que salva vidas. E vale para o jornalista, que extrai do cotidiano sua matéria-prima para contar histórias.

Um dos maiores desses contadores, o colombiano Gabriel García Márquez, definiu o jornalismo como a melhor profissão do mundo. Descontando-se o exagero, que também faz parte do nosso ofício, o autor de Cem Anos de Solidão acerta na mosca quando diz que “ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte”.

Amo minha profissão, acima de tudo, porque ela me permite viver cada dia como se fosse único. Só para exemplificar: nas asas do meu ofício, já tive a oportunidade de desfilar na boleia de um calhambeque de cem anos pelas ruas de Paris e de percorrer os haras de Bagé numa reportagem sobre criação de cavalos;

tive a chance de cobrir duas Copas do Mundo e de acompanhar, sob o sol incandescente do litoral gaúcho, campeonatos de futebol de praia; pude testemunhar o trabalho anônimo de professores de escola pública numa comunidade carente e de compartilhar solenidades em palácios presidenciais.

Vi muito, mas, logicamente, não vi tudo. Nesta semana que está terminando, o jornalismo me ofereceu uma nova experiência – a de desempenhar durante alguns minutos o papel de Papai Noel de shopping.

“É um mico”, me advertiram alguns colegas mais céticos. Foi uma aventura muito especial. Valeu pelo que aprendi com os verdadeiros Papais Noéis (sim, eles são de verdade, amam o que fazem e devem achar que é a melhor profissão do mundo), valeu pelo que aprendi com as crianças e valeu, principalmente, pela gratificante certeza de que fiz o meu trabalho com amor e entusiasmo.

Dá para chamar de trabalho?


26 de dezembro de 2009 | N° 16197
PAULO SANT’ANA


A mesma sensação

Onde passo nas ruas, as pessoas me falam da coluna que escrevi pela morte da minha cadelinha Pink.

As mesmas emoções, mesmíssimas, são sentidas por todos que são donos de cães. Eles se referem à afeição que se instala entre pessoa e cachorro, de tal sorte que o cão passa a ser uma pessoa na relação do lar, passa a compor de forma importante a família.

E todas as pessoas que me escrevem a respeito levantam exatamente as mesmas sensações decorridas no relacionamento com seus cães, a mesma festa que eles fazem pela presença do dono, a angústia do animal quando o dono se afasta.

Resta pelos cães que morreram a mesma infinita saudade, as recordações do cotidiano repleto de ternura entre o dono e o animal, cenas que jamais vão sair de nossa lembrança.

Foi assim que revivi todos os momentos que usufruí com a Pink quando li a mensagem abaixo transcrita. Em tudo o poema que a dona de um cãozinho que morreu se parece com a coluna que fiz à ocasião:

“Sant’Ana, sei o que estás sentindo, só quem tem o amor de um cão pode entender.

Também perdi meu Dinho, tinha 12 anos, era um poodle branquinho e pesava menos de três quilos.

Era o bebê da casa, e ainda sinto a presença dele comigo, mesmo tendo se passado nove meses.

De repente a Pink e o Dinho se encontraram lá no Céu. Porque, se existe o Céu, os cães com certeza são os maiores merecedores dele.

Veja o que escrevi no dia em que ele se foi:

Ao cão Dinho

(14/04/1997-14/03/2009)

Era você a primeira figura que eu

Enxergava ao acordar de manhã.

E que figura!

Era você que me amava

Incondicionalmente, sem se

Importar com meus gestos,

Atitudes ou caráter.

Era você que abanava o rabinho

Quando eu abria a porta e vinha

Me encontrar tão feliz que não

Conseguia conter o resto do

Corpo já debilitado pela doença

E cansado pelo tempo...

Era você que me proporcionava

Tanta alegria que muitas vezes

Eu chegava a renunciar

Passeios, viagens, etc... Só para

Cuidar de você.

Era você um exemplo de amigo

Que só quem tem um cão pode

Entender.

Descanse em paz meu

Amiguinho!

Deus foi generoso porque deu

A você uma família que o

Amou e o cuidou como se você

Fosse um membro dela.

Deu-lhe uma vida longa e feliz e

Uma morte tranquila e assistida.

Nunca vou esquecer você meu

Cachorrinho!

(As.) Vera Pereira (veraecp@hotmail.com)


26 de dezembro de 2009 | N° 16197
CLÁUDIA LAITANO


Paternidade à brasileira

Histórias de família são sempre mais complexas do que as aparências sugerem. Nenhuma análise externa é capaz de esgotar todas as sutilezas de uma relação entre pais e filhos, marido e mulher, irmãos, avós. Quando a tragédia de uma família vira notícia de jornal, facilmente somos tentados a transformar pessoas reais, e portanto contraditórias, em personagens como os de novela – esquemáticos, previsíveis e movidos por sentimentos bons ou maus, certos ou errados.

Em um caso como o do menino Sean Goldman, que envolve não apenas duas famílias, mas dois países disputando a guarda de uma criança, multiplicaram-se as tolices ditas com a tranquilidade de quem comenta o último capítulo de Viver a Vida – emboladas, em alguns casos, com estapafúrdios argumentos nacionalistas de um lado e de outro e até com questões de comércio internacional (o Senado americano teria aprovado a extensão do programa de isenção tarifária que beneficia as exportações brasileiras depois que o Supremo Tribunal Federal determinou a entrega de Sean ao pai, o americano David Goldman, na última terça-feira).

Existem leis, costumes, palpites, mas nada disso, infelizmente, garante que uma criança seja mais feliz com uma família do que com a outra. Não sabemos que tipo de pai é o americano David Goldman ou que tipo de avó é a brasileira Silvana Bianchi. A única evidência inquestionável nessa história toda é o sofrimento de um menino que perdeu a mãe aos sete anos e aos nove enfrenta uma disputa familiar dilacerante e exageradamente pública.

Mas, para além de todo o sofrimento real de um menino de verdade, o episódio tem um significado simbólico: recolocar a figura paterna no lugar que é seu de direito. O que para algumas pessoas parece óbvio, que pai e mãe deveriam ter direitos iguais na hora de decidir o destino do filho, permanece, para outras, contaminado por uma visão culturalmente afetada que coloca o homem em uma posição de “sócio minoritário” – não apenas em relação à mãe, mas até mesmo em relação à avó materna.

Na carta aberta que dirigiu ao presidente Lula, Silvana Bianchi, em meio a todo o compreensível sofrimento da situação, revelou parte da visão de mundo que dá origem a disputas como essa: “Nossa formação valoriza o papel da mãe. Na ausência da mãe, a criação incumbe a avó. Assim é em todo o Brasil, de Norte a Sul, independentemente de raça, cor, religião ou classe social. É natural que estrangeiros, com formação diferente, não entendam esses sentimentos tão autenticamente brasileiros”.

Esses sentimentos “autenticamente brasileiros” estão mudando, felizmente. Muitas mulheres brasileiras gostariam que os pais lutassem pelo direito de criar seus filhos com a mesma paixão que se costuma associar às mães – que não abrem mão de seus filhos mesmo quando as circunstâncias sociais, políticas ou culturais são adversas.

Queremos os Pais da Praça de Maio, os pais que vão ao presídio visitar os filhos, os pais que passam a noite velando a saúde de uma criança, os pais que orientam, sustentam, apoiam – e, quando a família se dissolve, exigem a guarda compartilhada.

Se tantos homens, no Brasil, abandonam os filhos (o pai do presidente Lula é um caso típico), talvez seja porque o país ainda não tenha conseguido fundar uma paternidade “autenticamente brasileira”, baseada na convicção de que um homem e uma mulher são igualmente responsáveis pela criança que geram, e que isso é ao mesmo tempo um direito e um dever.

Não conheço David Goldman e não imagino como ele vai ajudar Sean a superar o trauma dessa disputa judicial, mas sei, sim, que tipo de pai ele é: o tipo que luta para ficar ao lado do filho.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009


CARLOS HEITOR CONY

A lucidez do Natal

No início da tarde, ele atravessa a avenida ensolarada e nota que ficou sozinho na cidade

É VÉSPERA de Natal e o homem de repente descobre que está sozinho e lúcido. Até o meio-dia ele teve os colegas, recebeu e distribuiu abraços, viu amigos e inimigos levarem embrulhos e alegrias.

Ouviu queixas sobre o preço do presunto e a qualidade dos figos e soube que os vinhos nacionais andavam bons, muita gente deixou de comprar o Grandjó e o Médoc para prestigiar a vinicultura pátria.

Mas ele nem tinha do que se queixar. Tanto lhe fazia o preço do peru ou da salsicha em lata, do Chateauneuf-du-Pape ou do rascante de Nova Iguaçu. Seu Natal seria frugal e denso, como uma passa. Talvez fosse assistir a saída da Missa do Galo e depois, se fizesse calor, tomava mesmo uma Coca-Cola.

E no início da tarde, ele atravessa a avenida ensolarada e nota que ficou sozinho na imensa cidade. Duas horas antes e a multidão ali estava, histérica e feliz, sobraçando embrulhos iguais e desiguais. Foram todos para casa agora, gozar o Natal do mundo, e deixaram ao homem sozinho a tarefa de guardar a cidade e defendê-la -como um cruzado- da solidão e do vazio.

Um ou outro ônibus retardatário passa ainda, lá dentro há embrulhos e homens, mais embrulhos que homens, ou tantos homens quanto embrulhos, e ele é uma coisa só na tarde de Natal que está chegando, e vão todos para outros bairros e casas, homens se misturarão com outros homens, embrulhos serão misturados a outros embrulhos e os sinos tocarão em breve, abençoando a festa dos homens de boa vontade.

As casas comerciais estão cerrando as portas, o ferro enrugado cobre as vitrines e os cartazes com Papais Noéis gorduchos que riem, as bochechas em tecnicolor, a barba mais que branca dos velhinhos bem-intencionados. Dos bares que se fecham, saem os últimos fregueses, trocando pernas e saudações.

São quatro horas e ele não encontra quatro amigos na tarde para repartir o pão de sua solidão e o vinho de sua vontade de amar alguém.

Vai atravessar a rua pela faixa, mas para. A avenida está deserta e ele se dá ao luxo de ir pelo meio da rua, pisando confiante e impune o chão da cidade que lhe sobrou, cidade que é seu presépio, seu Natal.

Durante um mês, milhares de pessoas mais ou menos iguais a ele prepararam uma festa nas ruas e na hora do Natal foram para suas casas, gozar avaramente a felicidade lambuzada de rabanadas e doces. Ele não tem mais casa, não tem mais família, gastará sozinho e lúcido o Natal que os outros lhe abandonaram, não sabe se por castigo ou prêmio.

Vê a igreja perto de seu trabalho. Passa por ali todos os dias e nunca reparara na igreja. Mas há muito perdera a vontade de entrar nas igrejas e rezar. Perdera a fé também, quando começara a perder as coisas da vida: os pais, os irmãos, o resto.

De qualquer forma, a igreja existia ali, independente dele e de seu Natal. Tendo ou não tendo fé, pouco importava, importava é que a igreja fazia seu Natal de pedra e ele já não fazia Natal nenhum.

Mais tarde, o povo entraria para as missas da meia-noite, Mas a nave agora estará escura e o altar sem flores desnudo como sepultura. Mais tarde haverá povo e órgão tocando o "Noite Feliz", e ele poderia se misturar aos outros e gozar o Natal de luzes e dos cânticos.

Não queria, porém, gozar o Natal das igrejas. Ele velaria, sem lágrimas, até acreditar que a noite seria igual a todas as noites. Da torre batem o sino. Ele se esquecera pela cidade e aí estava, seis horas já. Breve viria a noite, noite de Natal imensa e boa agasalhando os homens de boa ou má vontade. Só ele não tinha vontade alguma e não merecia Natal.

De outras igrejas, outros sinos confundem seus ecos na tarde e nos seus olhos. Desde o meio-dia gastara seu Natal à toa. E agora, para ele, os sinos fazem seu festival anunciando que a noite chegou. É Natal no mundo. Em outros anos, era a noite das noites, as filhas botando na vitrolinha laqueada o "Adeste Fideles" de que ele tanto gostava.

E ainda está ouvindo um último sino quando entra no bar e procura esquecer o Natal, esquecer os outros e, sobretudo, esquecer-se de si mesmo.


Socuerro! Eu engoli um zoológico!

Rescaldo da ceia: peru até no café! Quero passar um ano sem ver peru. Inclusive o meu!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Socuerro! Eu engoli um zoológico: peru, porco, galinha!
E tô com a mesma azia do ano passado. Tomei um espumante que espuma até em Sonrisal!

E sobreviventes do peru, sobreviveram ao dito cujo?! E uma amiga descreveu assim a ceia de natal na casa dela: bolo prum lado, brigadeiro pro outro, sanduíches voando e Coca derramando.

Passou o Natal na zona de turbulência! Tem que apertar os cintos pra passar o natal na casa dela! Pior, uma outra amiga: o peru apitou e ela foi atender o celular.

E um amigo me disse que o peru da sogra deve ter tomado viagra: de tão duro. Era um pedaço de peru e um uiscão por cima. Pra poder descer! E o rescaldo da ceia: esse maldito peru que não acaba.

Cada pedaço que você corta, parece que o peru aumenta. Peru até no café da manhã! Eu quero passar um ano sem ver peru. Inclusive o meu!

E diz que as praias estão tão cheias que tem fila de espera pra entrar no mar! Tem que pegar senha na prefeitura!

E tá provado mesmo: o Papai Noel é gay: vive rodeado de viadinhos, usa as botinhas da Carla Perez, dá presente pros meninos e nos Estados Unidos é chamado de SANTA!

E o Papa não sai da janela. Por isso que ele vive gripado. Rarará. Aliás, sabe qual a diferença entre transar com o papa e transar com o marido? É que transar com o papa é pecado. E transar com o marido é milagre.

E depois da ceia? Passeata de Tupperware: tupperware de rabanada, tupperware de peru, tupperware de maionese!

E uma amiga disse que teve o pior natal da vida dela: peru mole e papai noel duro! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês.

É que em São Miguel Gostoso, no Rio Grande do Norte, tem um casa de shows chamada Trazeirão Casa Show. Ueba! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Internado": companheiro que passou a ceia de terno. E foi internado. O lulês é mais fácil que o ingreis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.

simao@uol.com.br

GERALDO LYRIO ROCHA

Natal: uma luz resplandeceu

Jesus é a própria encarnação do amor. A festa do Natal deve ser alegre anúncio da salvação e da libertação integral do ser humano

OS EVANGELHOS e demais escritos do Novo Testamento não informam a data em que nasceu Jesus. O dia 25 de dezembro foi escolhido pela igreja de Roma para celebrar o nascimento de Jesus Cristo, a fim de suplantar a festa pagã que nesse dia comemorava o nascimento do Sol.

Por volta do século quarto, o culto ao Sol estava muito em voga no paganismo decadente do Império Romano. No solstício do inverno, faziam-se solenes celebrações em honra do Sol, adorado como divindade.

Para afastar os fiéis daquelas festas idolátricas, a igreja convidou os cristãos a celebrar naquele dia o nascimento de Cristo, verdadeira luz que "ilumina todo ser humano que vem a este mundo".

Na solene liturgia da noite santa do Natal, ecoam as palavras do profeta Isaías: "O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu" (Is 9,1).

Depois de ter evocado a triste situação do exílio, onde o povo de Deus experimentou as trevas da escravidão, Isaías faz um anúncio cheio de esperança: "Nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; ele traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: conselheiro admirável, Deus forte, pai dos tempos futuros, príncipe da paz" (Is 9,5).

Nessa extraordinária coleção de títulos, o profeta aplica ao menino os grandes atributos e as extraordinárias virtudes dos heróis de Israel: Ele tem a sabedoria de Salomão, a força e a coragem de Davi, a piedade dos patriarcas e de Moisés. Ele é o Emanuel, que quer dizer Deus-conosco.

Deus veio ao mundo como uma criança pobre, pequena e frágil. Assumindo nossa condição, ele se solidariza com a humanidade e se comunica conosco falando nossa linguagem.

Deus se fez gente e veio habitar entre nós (cf. Jo 1, 14). É esse fato extraordinário, que ultrapassa os limites da inteligência humana, que nós cristãos celebramos no Natal: Deus entra em nossa história, revestido de nossa humanidade. O eterno irrompe no tempo.
Em Cristo, tudo renasce e se refaz.

Nele surge uma nova criação. O ser humano é elevado à condição de filho de Deus. A relação do gênero humano com Deus, rompida pelo pecado, é restabelecida. Em Jesus de Nazaré, revela-se a grandeza e a transcendência do ser humano. Nele descobre-se a profundidade e a altura da existência humana. O frágil menino da manjedoura é o salvador do mundo. Nele contemplamos "a face divina do homem e a face humana de Deus".

Jesus é a própria encarnação do amor. Passou pela terra fazendo o bem a todos. "Sempre se mostrou cheio de misericórdia pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados. Com a vida e a palavra, anunciou ao mundo que Deus é pai e cuida de todos como filhos e filhas", proclama a liturgia da Igreja Católica.

A festa do Natal deve ser, portanto, alegre anúncio da salvação e da libertação integral do ser humano. O nascimento do Salvador abre uma perspectiva nova de vida digna para todos, propõe um caminho seguro que leva à comunhão e à solidariedade, convida a vivermos na paz, fruto da justiça, e impulsiona-nos a defender e promover a vida.

A festa do nascimento de Jesus desperta sentimentos de bondade, de solidariedade e de fraternidade que se manifestam nos belos gestos de comunhão e partilha. Lamentavelmente, muitas vezes, o balbucio do menino na manjedoura de Belém é sufocado, e a luz que vem do presépio não brilha com todo o seu esplendor para a humanidade que ainda anda na escuridão.

A sociedade que se paganiza e esquece suas raízes cristãs vai perdendo o verdadeiro sentido do Natal, transformando-o na grande festa do consumo, do esbanjamento, da desigualdade e da ostentação.

A mensagem que ecoa na gruta de Belém aponta-nos os caminhos para a construção de uma nova sociedade, sem ódio e rancor, sem barreiras e divisões, sem discriminação e exclusão, sem violência e guerra, sem "botas de tropa de assalto e trajes manchados de sangue" (Is 9, 4). Jesus é o príncipe da paz, e "grande será o seu reino e a paz não há de ter fim" (Is. 9,6). Por isso, com júbilo natalino, proclamamos: "uma luz resplandeceu" (Is 9,1).

DOM GERALDO LYRIO ROCHA , mestre em filosofia pela Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino, em Roma (Itália), é arcebispo de Mariana (MG) e presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Luzes de Natal

SÃO PAULO - A cidade está bastante iluminada desde o início do mês. Há luzes de vários tipos, decorações para todos os gostos, mas, pelo menos nos bairros mais afortunados, onde mora a classe média rica, as calçadas estão tomadas pelas luzinhas brancas que envolvem os troncos das árvores. São lampadinhas "made in China", que já há muitos anos enfeitam nosso Natal.

Elas inundam as ruas, que à noite parecem apaziguadas e acolhedoras, nos lançando numa atmosfera de irrealidade. Mas a palavra que não me sai da cabeça é "trégua".
A cidade iluminada refletiria um desejo de suspender alguma guerra disseminada e sem fim. Uma ideia meio besta então me ocorre: e se deixássemos a cidade assim o ano inteiro? Sim, foi só um devaneio...

A sensação de trégua, na verdade, mal consegue se sustentar ao longo do mês. Conforme passam os dias, o encantamento vai se misturando ao que há de mecânico e opressivo nos preparativos natalinos. Não é apenas a gincana de caça aos presentes, não são apenas as maratonas gastronômicas, as bebedeiras da "firma", o trânsito ou o calor infernais.

O que oprime, antes deste corre-corre frenético, é a ideia mesma de uma bondade compulsória, a esperança impositiva, o pastiche da harmonia que o Natal com suas ruas iluminadas afinal nos anuncia.

Quando chega enfim a festa, as luzinhas chinesas já não parecem estar ali para sinalizar uma trégua possível, mas, antes, para nos fazer companhia, confortando a tristeza que invariavelmente nos visita.

Tudo isso é muito subjetivo e talvez represente apenas um desvio do que deva ser o verdadeiro espírito natalino. Mas hoje, 25, veja se já não experimentamos uma certa ressaca do longo ritual em que negociamos promessas de felicidade.

Olhemos as luzinhas mais uma vez. Talvez elas nos digam apenas que a cidade não pode ser assim sempre, como nós não conseguimos ser bons o ano inteiro -nem melhores do que nós mesmos.

Um brinde à vida. E Feliz Natal!


24/12/2009 e 25/12/2009 | N° 16196
NO TRONO DO PAPAI NOEL


Um aprendiz e dois mestres

Quatro colunistas do Grupo RBS foram desvendar como é a vida de um Papai Noel de shopping. A responsável pelo Informe Econômico, Maria Isabel Hammes, o comentarista Wianey Carlet, o colunista e editor de Opinião de ZH, Nílson Souza, e o narrador da Rádio Gaúcha Pedro Ernesto Denardin sentaram no trono do personagem do Natal para contar como é receber beijos, abraços e pedidos dos que sonham com a noite de 24 de dezembro.

Entre sustos e carinhos, relatos emocionantes.

Agora eu acredito em Papai Noel.Tive que fazer um estágio rápido com dois deles para me habilitar ao cumprimento de uma pauta tão desafiadora quanto gratificante nesta véspera de Natal.

Durante 40 minutos da tarde quente da última segunda-feira, sentei no trono do Papai Noel do Praia de Belas Shopping Center para receber pedidos e cartinhas, e também para administrar os medos e os sonhos das crianças.

Na véspera, preocupado em aprender os macetes do ofício, procurei o barbudo de plantão. Romeo Inácio Ramos Pereira da Costa, 61 anos, 16 de serviço no mesmo shopping, me recebeu com simpatia e foi logo avisando:

– Nosso trabalho é conquistar as crianças, sem forçar. Eu procuro fazer o que um pai ou um avô deveria fazer sempre: dar atenção. Se fizeres isso, não tem erro. Qualquer um pode ser Papai Noel.

Bem animador.

No dia seguinte, como combinado com a supervisora Rosana Rocha de Almeida, lá estava eu com um saco vermelho nas mãos, pronto para substituir o velhinho da hora, que já era outro.

O turno era de Laércio Roca, 66 anos, 42 de ofício, os 11 últimos no mesmo shopping. Ele me recebeu com a afetividade de um vizinho – e, na realidade, por total coincidência, é mesmo meu vizinho de bairro na zona sul da Capital –, prontificou-se a ceder-me o lugar e procurou me tranquilizar quando lhe disse que estava desatualizado em relação aos brinquedos infantis:

– Eles pedem muito carrinho Hot Wheels, Barbie Três Mechas, relógio Ben 10, essas coisas. Alguns falam até em inglês – me advertiu.

Fui me vestir no camarim do Papai Noel e das noeletes, que é como são chamadas as moças designadas para ajudar o velhinho. Elas fazem a parte mais delicada, acalmam os pequenos mais assustados, conduzem meninos e meninas até o trono e os colocam no colo do homem de barbas brancas, evitando que ele force demais a idosa coluna.

Quando eu já havia ajeitado a barriga falsa (necessária para os meus 64 quilos) e a barba postiça, Laércio chegou e me fez uma última advertência:

– Papai Noel nunca anda sozinho.

Dei o braço para a noelete Caroline Rocha Souza de Almeida, a Carol, 18 anos, estudante de Educação Física, e lá nos fomos escada rolante acima para a aventura da substituição. Ainda estava me sentindo um farsante quando passamos pela primeira criança que exclamou:

– Oi, Papai Noel!

Era comigo. Abanei timidamente com as minhas luvas brancas e armei um sorriso suado, que ninguém percebeu por baixo do bigode de algodão. Carol me levou até o trono e disse:

– Pode deixar que eu alcanço os pirulitos.

Jully Lima, de um ano e 10 meses, vestidinho rosa e faixa na cabeça, me olhava desconfiada do outro lado da fita que demarca os domínios do Papai Noel. Abanei para ela, fiz sinal para que se aproximasse, mas tudo o que ela fez foi agarrar-se nas pernas da mãe, a designer Alessandra Brandt Lima, de 38 anos. Acenei, então, com o pirulito.

Com o estímulo da mãe, ela se aproximou o suficiente para pegar o doce com a pontinha dos dedos, fazendo o possível para não tocar na assustadora luva branca. Em seguida, recuou rapidamente e me deu tchau.

“Não prometi brinquedo”

Minha primeira visita foi silenciosa. Depois, soube pela mãe que também fui o seu primeiro Papai Noel.

Veio Eduardo, um menino magro de quatro anos, sem medo algum. Sentou no meu colo e foi logo falando sobre sua vida, sua escola, respondendo com desenvoltura tudo o que eu perguntava. Perguntei-lhe se gostava de futebol e para que clube torcia:

– Sou vermelho! – ele me disse.

João Victor, de cinco, também passou pelo meu colo. Quase não falou. Só dizia sim e não. Uma menina loirinha de Serafina Corrêa me disse um nome que não cheguei a entender. Aí apareceram as irmãs Victoria, de sete anos, e Laysla, de cinco, para me entregar suas cartinhas e seus desenhos. Um deles mostrava um Papai Noel colorido sobre um trenó, com um sino nas mãos, duas crianças brincando na neve e uma legenda no verso: “Ro-rou”.

Me fez lembrar que eu não havia usado nenhuma vez as expressões tradicionais do Papai Noel. Ouvi os pedidos de outras crianças e, seguindo a orientação dos meus mestres, não prometi brinquedo para ninguém.

– A gente nunca sabe a condição social dos pais – me advertiu Romeo, um Papai Noel tão dedicado e sensível que chega a chorar quando fala de sua atividade.

Laércio, quando recebe pedidos de crianças carentes, leva as cartinhas para casa e procura atendê-las, arrecadando brinquedos e material escolar na loja maçônica de que faz parte.

Eles, com suas barbas naturais e extrema consciência do que representam para as crianças, são verdadeiros Papais Noéis.

Fiquei muito orgulhoso por me permitirem que ocupasse o seu trono por alguns minutos.

nilson.souza@zerohora.com.br

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009



4/12/2009 e 25/12/2009 | N° 16196
LETICIA WIERZCHOWSKI


Meu papai nem tão noel

Eu já disse que meu avô polonês foi o primeiro personagem que conheci. Pois, meu pai foi o segundo. Um sujeito engraçado, bon vivant, feito para tempos em que não existia o politicamente correto e seu exaustivo manual de comportamento, eu poderia dedicar várias crônicas ao pai e suas histórias, porém temo que ele viria a público, todo sério, negá-las uma a uma. Mas vou contar aqui uma história do “meu velho”.

Às vésperas de um natal, festa que meu pai adora, saímos para comprar uma árvore.

Naquele tempo, vendiam-se pinheiros de verdade nas esquinas de Porto Alegre. Ainda não se falava em aquecimento global (porém, prescindíamos do uso de sacolas plásticas). No banco traseiro do carro, minhas duas irmãs e eu vibrávamos, e o pai guiava cantando músicas natalinas – ele sempre foi muito bom em “criar um clima”. Chegamos, enfim, na esquina onde exibiam os mais bonitos pinheiros.

O pai estacionou e deixou-nos no carro (além das sacolas plásticas, vivíamos também sem assaltos). O pai voltou, alguns minutos mais tarde, seguido por um prestimoso vendedor que carregava um enorme pinheiro, e a quem ele cumprimentou com rara seriedade, agradecendo o “presente”. Depois de alguns salamaleques, o tal voltou para sua floresta decepada. E nós seguimos para casa com a nossa árvore sem entender aquela conversinha estranha.

A mãe recebeu-nos alegremente e pousou seus olhos sobre o enorme pinheiro que vicejava no meio da nossa sala. O pai sorria do seu butim, e a mãe quis saber: “Quanto pagaste por ela?”. A resposta paterna nos desconcertou: “Nada, nadinha”, disse ele, sorrindo meio sem jeito. “Eu falei que era fiscal do Ibama, e ele me deu a árvore correndo. Vai ver, não tinha licença. Fiquei com vergonha de desmentir minha brincadeira.”

A mãe zangou-se; frequentemente, tinha ela de educar as três meninas e o marido pela mesma régua. Vimos o pai capitular perante os justos argumentos maternos, levando nosso colossal pinheiro de volta para o carro. Meia hora depois, voltou com um pinheiro que poderia ser filho do anterior. Naquele ano, tivemos que nos contentar com aquela singela árvore.

E o pai? O pai seguiu em frente, ora ouvindo os conselhos da nossa mãe, ora trilhando a vida do seu jeito. Aquele pinheirinho há muito que secou: virou lenha, adubo e depois nada.

Mas o Cecílio segue fagueiro, enfileirando natais e boas histórias. Uma parte dele é um senhor de mui distintos cabelos grisalhos, a outra é um garotinho indócil que viveu sua segunda infância junto conosco. Curtindo sua terceira meninice ao lado dos netos, ele agora enfeita sua árvore de plástico.

Feliz Natal - Que o Papai Noel seja generoso com vc realizando todos os seus desejos.


24/12/2009 e 25/12/2009 | N° 16196
PAULO SANT’ANA


Cinquenta anos de perucas

Uma vez escrevi que a vida era a arte do passatempo. Sob certo aspecto, o passatempo é uma forma de driblar a paciência.

Chego agora à conclusão de que a vida é a arte da paciência. A paciência de esperar o elevador, por exemplo, pode existir algo mais cruciante? Talvez só a paciência do desempregado para esperar emprego.

A paciência infinita que se tem de ter, outro exemplo, para esperar no engarrafamento. E a inveja que se tem, com aqueles carros todos parados, da fila do lado, que anda enquanto a fila em que se está emperra...

Não existe paciência mais resignada do que a da fila do engarrafamento. Porque é a paciência de quem não tem outra coisa a fazer, a não ser esperar que desengarrafe o trânsito.

O pior do engarrafamento é que, quando se chegar ao fim da fila, vai se entrar noutra rua ou avenida onde nos esperará outro engarrafamento.

E a ausência de alternativa é massacrante. Não dá para ir pelos ares, não dá para se enfiar no fundo da terra, não adianta querer deixar de dirigir e optar pelo transporte coletivo ou seletivo, estão ali ao lado da gente os táxis e as lotações também engarrafados.

A solução seria mudar-se de cidade. Mas como fugir da vida que se leva aqui, o trabalho e a família estão aqui, o engarrafamento é o destino desesperado, sem solução?

Esses dias, ouvi um empresário executivo dizer que a maior parte do seu tempo de trabalho é ocupada escrevendo ou lendo no computador, enquanto está se deslocando pelo trânsito de São Paulo como passageiro de táxi.

Vejam que chegou ao ponto de as pessoas passarem a maior parte do tempo dentro dos táxis.

Exatamente como esses pobres e infelizes empregados humildes que levam tanto tempo sendo transportados pelos ônibus quanto o tempo que levam trabalhando: quatro horas para ir ao trabalho, mais quatro horas para voltar do trabalho, um tempo inútil, um vazio, a vida se desenrolando lá fora e a pessoa vendo-a consumir-se nas filas dos engarrafamentos.

É preciso ter paciência. Devia haver cursos para se adquirir paciência. Esperar pela sorte, esperar pelo transporte, esperar pela consulta, depois esperar pela cirurgia, esperar que a vida mude, esperar pelo fim de semana, esperar na vida pela morte.

Haja paciência para esperar por tudo.

Ora, se me lembro, faz mais de 50 anos que eu era guri ali na esquina da Barão do Triunfo com a 20 de Setembro, entre todos nós adolescentes agitados que não sabíamos que éramos pobres e não tínhamos tempo para sermos infelizes, sobressaía o Joel Silveira.

Eu ia chamar agora o Dilamar Machado para que ele recordasse comigo o Joel Silveira ali da esquina da Barão. Mas o Dilamar também morreu, como o Joel. Talvez eu chame o Francisco Teles, o Chiquinho há de lembrar melhor.

E o Joel casou-se com a Jurema e fundaram um salão de beleza. E a semente daquele salão virou a empresa Perucas Jurema.

Vamos deixar que o filho do Joel fale:

“Prezado Paulo Sant’Ana. É com imensa alegria que a Perucas Jurema, após 50 anos de atividades, realiza o desejo de patrocinar a sua prestigiada coluna.

A partir da próxima quinta-feira, dia 24/12 (esta edição), estaremos no rodapé da página mais lida do veículo de informação mais importante do sul do país.

Nossa história, tu bem sabes como começou, pois estavas próximo da pessoa que a idealizou.

Meu pai. Teu amigo e companheiro de juventude Joel Silveira, que, se vivo estivesse, estaria muito feliz e orgulhoso.

Desejo a ti e a tua família muita saúde e felicidades, um bom Natal e um grande 2010.
(As.) Emílio Silveira (emiliosilveira@terra.com.br).


24/12/2009 e 25/12/2009 | N° 16196
DAVID COIMBRA


Eles não têm amor

Meu pai não foi um bom pai. Eu acho que sou. Ou pelo menos me empenho para ser. Dia desses estava contando uma história do meu pai para alguns amigos. Eu era bem pequeno, uns cinco ou seis anos de idade, e brincava com meu amigo Míti, nós dois armados de bisnaguinhas d’água.

Lembro que caminhamos rindo até a calçada da frente e vimos que o vizinho adubava as plantas no jardim dele. Olhamos para aquele monte de esterco, apertamos as bisnaguinhas e lançamos ali uns três ou quatro jatos d’água, tudo muito inocente. Mas o vizinho não gostou. Virou-se e ralhou:

– Se atirarem água de novo, vou jogar esterco em vocês!

Corremos para o pátio, assustados. Meu pai percebeu que havia algo errado e me segurou pelos ombros:

– O que foi, David?

Contei. Ele se enfureceu. Tomou-me pela mão e me levou até a frente da casa, até o jardim do vizinho. Estacou sobre a grama.

– Tu disse que ia jogar esterco no meu filho? – gritou para o homem, que apoiou no chão a pá com que trabalhava e ficou olhando para ele, mudo.

– Tu disse que ia jogar esterco no meu filho? – repetiu meu pai, desafiador.

O homem não respondeu.

– Pois quero que tu jogue agora! – falou meu pai entre dentes, apontando para mim. – Joga! Joga, que eu quero ver se tu é homem de jogar esterco no meu filho!

O vizinho largou a pá no chão, deu-nos as costas e deslizou para dentro de casa, acuado.

Foi uma atitude de valentia física do meu pai, obviamente, mas não posso dizer que tenha sido algo que me agradou, nem me deixou orgulhoso à época. Criança não aprecia violência.

Terminei essa história, e um dos meus amigos disse:

– Pelo menos o teu pai se importava contigo. O meu nem isso.

Foi então que me dei conta de que muitos dos meus amigos não tiveram bons pais, mas que eles, agora, são bons pais. Como tenho a pretensão de ser. O que mudou entre uma geração e outra?

Sei o que foi. E para falar a respeito me valho de outra lembrança, da qual o protagonista é o homem que, de certa forma, ocupou o lugar do meu pai na minha criação: o meu avô. Quando se referia a pessoas que considerava de má índole, meu avô sempre usava a mesma frase para defini-las:

– Elas não têm amor.

Sempre dizia isso. Um dia perguntei a ele se não queria dizer que aquelas pessoas não “sentiam” amor. Ele balançou a cabeça:

– Não, David. Eles não têm. Porque nunca receberam.

Então compreendi. Elas até poderiam sentir amor, mas não tinham para dar. Os bons pais de hoje, que não tiveram pais tão bons assim, eles certamente receberam amor de outras pessoas.

Já os pais que cometem selvagerias com as crianças, essas coisas grotescas que temos lido nos últimos dias, gente que suplicia nenês com agulhas ou joga-os de janelas, esses sei bem o que há com eles.

Eles não têm amor.


24/12/2009 e 25/12/2009 | N° 16196
L. F. VERISSIMO


Quem falou pelas vacas?

É difícil tratar com a seriedade que ela merece, uma questão como os efeitos da flatulência na biosfera. E, no entanto, pum de vaca é responsável por boa parte da emissão de gases que ameaçam nosso equilíbrio ecológico e provocam o aquecimento global.

Há mesmo quem diga que o pum é a principal contribuição de países como o Brasil, com seus grandes rebanhos bovinos e ovinos, para o problema. Mas falou-se pouco em flatulência em Copenhague.

E ninguém falou pelos bovinos e ovinos. Se tivessem um porta-voz atuante na reunião, as vacas poderiam ter dado um subsídio valioso à defesa dos países ricos que resistem a mudanças nos seus hábitos poluidores. A defesa das vacas seria a Natureza. É da sua natureza darem puns.

Não podem se conter. Se pudessem controlar a própria flatulência, não seriam vacas, seriam damas da sociedade. Da mesma maneira, é da natureza dos países industrializados sacrificarem tudo à sua volta, inclusive a própria saúde, por índices sempre maiores de crescimento e lucro. Se contrariassem a sua natureza, não seriam o que são.

Vacas e países desenvolvidos teriam o mesmo argumento em Copenhague: não poluímos por falta de caráter, mas porque é assim que fomos feitos.


Tem gente que não acredita no tal aquecimento global provocado pelo homem e a vaca. Há os que dizem que não há provas científicas suficientes ou convincentes disto e há os que simplesmente negam as provas, como fazem os que negam o Holocausto ou a evolução.

Mas alguns ecocéticos surpreendem com sua posição. Por exemplo: Alexander Cockburn, que escreve regularmente na revista The Nation e diz que toda essa campanha contra as emanações de combustíveis fósseis que causariam o efeito estufa tem por trás o lóbi da indústria nuclear, pois o que está em jogo é quem dominará a energia do planeta no futuro.

Como todas as teorias conspiratórias, esta depende, para ser aceita, de uma certa suspensão do bom senso. Cockburn tem sólidas credenciais como crítico do capitalismo e seus detritos e em nada se parece com fantasiosos negadores do genocídio nazista ou criacionistas anti-Darwin, mas para acreditar na sua tese é preciso ignorar todas as evidências de mudança climática que, literalmente, caem sobre a nossa cabeça, e atribuir ao lóbi nuclear um poder colossal.

De qualquer maneira, a dúvida está no ar. Junto com outros poluentes.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009



23 de dezembro de 2009 | N° 16195
MARTHA MEDEIROS


E se tivesse sido diferente?

Quem leu o perturbador Precisamos Falar sobre Kevin sabe que sua autora, Lionel Shriver, é craque em esmiuçar as razões psicológicas que motivam todos os nossos atos, mesmo os mais tolos, e em demonstrar o quanto esses atos geram consequências previsíveis e imprevisíveis.

Em seu novo livro, O Mundo Pós-Aniversário, ela conta a história de Irina, uma mulher instalada num sólido casamento de 10 anos, que um dia sente um incontrolável desejo de beijar outro homem. Pra complicar, esse homem é um amigo do casal. A partir daí, a autora desmembra o livro em duas histórias que correm paralelas: a vida de Irina caso consumasse seu impulso erótico, e a vida de Irina caso reprimisse seu desejo.

A autora poderia ter se contentado em escrever sobre o poder transformador de um primeiro beijo em alguém, mas foi mais inteligente e abordou também o poder transformador de mantermos tudo como está.

É comum pensarmos que, ao ficarmos parados no mesmo lugar, sem agir, sem mudar nada, estamos assegurando um destino tranquilo. Engessados na mesma situação, é como se estivéssemos protegidos de qualquer possível ebulição que nos inquiete. Sssshh. Quietos. Ninguém se mexe pra não acordar o demônio.

Não deixa de ser uma estratégia, mas falta combinar com o resto da população. As pessoas que nos cercam sempre interferirão no nosso destino. Se dermos uma guinada brusca ou permanecermos na rotina, não importa: o mundo se encarregará de trocar as peças de lugar nesse imenso tabuleiro chamado dia a dia.

Ao fazer algo socialmente condenável (como ser casada e dar um beijo em outro homem, pra dar o exemplo do livro), tudo poderá acontecer – inclusive nada. Você poderá se apaixonar, abandonar seu marido e viver uma tórrida história de amor, e essa história de amor se revelar uma furada e você se arrepender, e você voltar pro seu marido que a essa altura já estará apaixonado pela vizinha.

Ou você beijará e em vez de iniciar um romance tórrido, voltará pra casa bocejando e nada, nadinha será alterado. Foi só uma pequena estupidez momentânea e sem consequências. Mas das consequências de continuar viva você não escapa.

Dezembro é um período em que costumamos fazer planos para o futuro, ainda mais que 2010 promete ser bom: ano do tigre no horóscopo chinês, ano de Vênus no horóscopo ocidental.

Quem entende do assunto, diz que teremos um aquecimento global do tipo que ninguém tem nada contra. Emoções calientes! Mas adianta fazer planos?

Seja qual for o caminho que optarmos seguir, haverá altos e baixos. E isso é tudo. Se fizermos uma auditoria em nossas vidas, em algum momento questionaremos: “E se eu tivesse feito diferente?”.

Pode ter certeza de que o diferente teria sido melhor e teria sido pior. Então, o jeito é curtir nossas escolhas e abandoná-las se for preciso, mexer e remexer na nossa trajetória, alegrar-se e sofrer, acreditar e descrer, que lá adiante tudo se justificará, tudo dará certo.

Algumas vidas até podem ser tristes, outras são desperdiçadas, mas, num sentido mais absoluto, não existe vida errada.


23 de dezembro de 2009 | N° 16195
DIANA CORSO


Os homens e sua “Caixa do Nada”

Nunca acreditei que os homens fossem de Marte e as mulheres de Vênus. Devido à minha natureza beligerante, acho que sou mais Marte. Se tivesse que escolher planetas para os sexos, destinaria toda a espécie feminina a Marte, graças à agressividade intrínseca e velada da relação entre nós mulheres.

Quanto aos homens, não os identificaria com Vênus, porque nas questões do amor nunca serão nativos de planeta nenhum. Talvez os destinasse - por que não - à própria Terra, afinal andam tão desinteressados de grandes transcendências.

Como nós, eles também se estranham entre si quando algum tenta sobressair-se aos outros, justamente porque são uns exibidos profissionais. Além disso, há a disputa pelo cargo de chefe da matilha, que inclui vários rituais, que podem envolver objetos corpóreos e incorpóreos, que serão exibidos, medidos, compartilhados e permutados, conforme a necessidade do momento.

Da diferença entre os sexos, cada vez mais sei que pouco sei. Mas encontrei no YouTube alguma resposta para tranquilizar minhas inquietações: pode ser acessado digitando “cérebro masculino e feminino” ou http://www.youtube.com/watch?v=RLbOuHX8rMA.

Trata-se da apresentação de um humorista americano que explica como a cabeça do homem é composta de caixinhas cuidadosamente separadas, onde tudo está classificado, nada se toca, nem se mistura; enquanto a das mulheres mais se parece com a internet, onde tudo se comunica, se interpenetra, e nada se hierarquiza.

Por isso as mulheres podem executar várias tarefas eficientemente ao mesmo tempo, além de tratar todos os assuntos simultaneamente sem perder o fio, para desespero completo de seus parceiros.

Essa classificação é interessante, mas fiquei mesmo encantada com aquela que o humorista declarou ser a caixa predileta dos homens: a “caixa do nada”. Ela é vazia, óbvio, e é em seu interior que eles se refugiam quando exaustos, lá eles zapeiam, assistem futebol, pescam, leem jornal, bebem cerveja ou consertam coisas.

Quando contei dessa caixa a uma amiga, ela exclamou: “que inveja do pênis que nada, eu tenho inveja é da caixa do nada!”. Olhando de perto, na verdade não existe contradição entre essas duas invejas: é justamente porque os homens têm um lugar no mundo há milênios que eles podem se dar ao luxo de reduzir-se a nada.

Quanto a nós, inquietas e inseguras de ocupar os lugares visíveis, novatas da ribalta, ainda alienígenas no mundo externo ao lar, não podemos dar-nos ao luxo de desaparecer. De natal, eu quero uma “caixa do nada”!


3 de dezembro de 2009 | N° 16195
PAULO SANT’ANA


Libelo à Infraero

Dezenas de pessoas me têm reclamado de que o aeroporto Salgado Filho está fechado para voos de chegada e saída, todos os dias, das 24h às 6h15min. Mas quando se trata de salvar vidas, não tem explicação que o aeroporto não abra naquele espaço de tempo. Tal o libelo que se depreende da eloquente correspondência que recebi de um cirurgião que salva vidas:

“Naquela terça-feira, 11 de setembro de 2001, quando os muçulmanos ensandecidos puseram as torres gêmeas para dançar e fizeram um grande rombo no Pentágono, houve a maior paralisia aérea na história americana de todos os tempos.

Com o Capitólio e a Casa Branca ainda intactos, e os inimigos lambendo os beiços, ninguém podia decolar, ninguém podia pousar, e a ordem era abater, sem questionar, qualquer coisa que voasse e parecesse maior do que uma gaivota.

Pois nesse clima de pânico absoluto, com medo e paranoia servidos em grandes bandejas de terror, um único voo foi autorizado em todo o território americano: um Lear Jet decolou de Los Angeles, no meio da tarde, a caminho de Miami. Por que a exceção? Porque duas pessoas na Flórida dependiam, para continuarem vivendo, de órgãos doados na Califórnia.

Como se percebe, em lugares civilizados, mesmo em tempos de guerra, a preservação da vida é prioritária.

Uma outra terça-feira, 15 de dezembro de 2009, anoitece em Porto Alegre, tudo parece estar em paz, e a única briga no espaço aéreo estava reduzida a um pequeno conflito de quero-queros que disputam território na cabeceira de uma das pistas do aeroporto local.

Uma chamada da Central de Transplantes de Santa Catarina, que tem sido uma parceira exemplar dos gaúchos oferecendo ao RS todos os órgãos que lá não são utilizados, e a informação de que dois pulmões perfeitos estavam à disposição da Santa Casa, o hospital onde foram feitos até agora dois terços dos transplantes de pulmão do Brasil.

A retirada estava programada para se iniciar às 22h em Caçador (SC) e isto significava tempo hábil para o deslocamento das equipes no avião gentilmente disponibilizado pelo governo do Estado.

E aí começaram os problemas: o voo de volta se faria entre 2h e 3h da madrugada, e fomos informados de que isso seria impossível porque o aeroporto está fechado, por conta de obras de ampliação da pista, das 24h às 6h15min.

Depois de argumentarmos que para um avião pequeno não precisaríamos de toda a pista e que já pousamos em pistas laterais em outras ocasiões, ainda tentamos sensibilizar os interlocutores com a informação verdadeira de que provavelmente os pobres candidatos ao transplante, pela gravidade de suas condições, não teriam uma segunda oportunidade, mas nada disso funcionou.

Havia em cada negativa aquela prepotência pré-orgásmica que caracteriza o anencéfalo no exercício máximo do poder.

Desesperados à procura de uma solução, tentamos identificar alguém que pudesse dar a ordem mágica que restabelecesse a racionalidade, mas descobrimos que, se essa pessoa existe, ela está completamente blindada pela quase comovedora descerebração dos seus súditos.

Como última alternativa, apelamos para o coordenador da Secretaria de Saúde de Santa Catarina, para que tentasse atrasar o início da retirada dos órgãos. Essa decisão é de risco, porque se parasse o coração do doador todos os outros órgãos estariam perdidos.

Como o doador parecia estável, a retirada foi perigosamente transferida para as 2h da madrugada para que, completada até as 5h, pudéssemos voltar a Porto Alegre, em condições de cumprir as normas burocráticas que determinam que os pousos só sejam liberados depois das 6h15min.

A pista parecia limpa, nenhum indício de bom senso ou de sensibilidade na faixa recém pintada do acostamento. Até os quero-queros se recolheram. Acho que de vergonha!

A Olga e o Mario, que tantas vezes flertaram com a morte nos últimos meses, estão felizes com seus pulmões novos, e nem imaginam o quanto os seus sonhos de renascimento foram ameaçados pela burocracia insensível, desumana e abjeta! (as.) José J. Camargo, médico e professor universitário”.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009



22 de dezembro de 2009 | N° 16194
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Entre ilhas dispersas

Quando comprei meu primeiro celular – mais por sua aparência do que por suas virtudes ocultas –,- o vendedor recitou uma longa lista de suas proezas. Mal o escutei. A certa altura o interrompi e lhe disse que só tinha duas perguntas: o aparelho falava? Recebia ligações?

Pois isso é tudo que peço de um telefone celular. Leio agora na Veja que há 100 mil usos para o inteligente engenho. Um dos modelos, por exemplo, traça rotas em cidades e estradas; faz todas as operações de uma calculadora financeira; contém 50 mil verbetes e 30 mil expressões de um dicionário médio; produz cópias como qualquer scanner;

apita quando detecta um radar nas ruas e estradas do país; cria cardápios saudáveis; permite abrir e editar arquivos; providencia uma agenda eletrônica; apresenta um game com cenário espacial; reúne as principais leis brasileiras.

São qualidades prodigiosas. Mas eu me pergunto se com tudo isso o celular não terá esquecido sua principal finalidade.

É bom conhecer os caminhos onde estamos e para onde vamos. É excelente fazer contas sem um milhão de cálculos aleatórios. É útil manter-se à distância do Houaiss e do Aurelião. É agradável rever pessoas e imagens que prezamos. É sensato verificar se estamos dirigindo devagar ou depressa demais. É ótimo consumir alimentos saudáveis. É uma vantagem dominar os segredos dos arquivos. Nunca desdenharia a importância de uma agenda eletrônica. Pouca coisa desperta mais o sonho do que um game especial. E nenhuma lei é descartável.

Tudo isso é muito bom. Mas eu torno a me indagar se, a todas essas, o telefone portátil não terá se desviado de seu objetivo maior, o da simples operação de estabelecer pontes entre ilhas dispersas do arquipélago humano.

Pois não é diversa a sua missão. O que quero de meu trivial aparelho é que ele me ponha em contato com outras criaturas, que ele transmita um simples, elementar recado.

O que desejo de suas múltiplas dezenas de aplicativos é me comunicar com pessoas, é estabelecer vínculos com meus semelhantes, é passar um pedido, uma súplica, uma mensagem. Para traçar rotas, tenho mapas; para produzir cardápios, conheço restaurantes; para percorrer códigos, recorro à minha biblioteca.

Mas jamais encontrarei melhor invenção do que o celular para transmitir uma singela declaração de amor.

Dia de folga de uma pessoinha linda. Uma ótima terça-feira para todos nós.


22 de dezembro de 2009 | N° 16194
LUÍS AUGUSTO FISCHER


Os 10 da década

Não costumo fazer essas listas de balanço, melhores do ano, muito menos da década, que, por sinal, tecnicamente não termina neste fim de ano. Mas acabou que fui convidado por um jornal carioca a opinar, a oferecer a minha lista dos 10 maiores livros de ficção de autor brasileiro publicados nos anos 2000.

Gastei um tempão recorrendo arquivos das resenhas que escrevi neste tempo já longo, botei o banquinho e sentei diante da estante com os livros brasileiros recentes, repassando as lombadas, abrindo volumes, comparando, e por fim, cheio de dúvidas ainda, lasquei os meus 10 mais.

Cabe anotar que não entrava crônica na parada; se entrasse, eu colocaria, ao lado de Banquete dos Deuses, do Luis Fernando Verissimo, um outro livro, sublime, superior, que eu vou resenhar neste espaço brevemente: se chama Eles Foram para Petrópolis e foi escrito por Ivan Lessa, meu modelo inatingível de texto, e Mário Sérgio Conti.

Aí vão os meus 10, sem ordem de valoração entre si, separados por gênero.

Romance

1 – Dois Irmãos, Milton Hatoum

2 – Mamma, Son Tanto Felice (e o projeto integral do Inferno Provisório), Luiz Rufatto

3 – O Filho Eterno, Cristóvão Tezza

4 – Budapeste, Chico Buarque

5 – A Chave de Casa, Tatiana Salem Levy

6 – A Arte de Produzir Efeito sem Causa, Lourenço Mutarelli

Conto

7 – Os Lados do Círculo, Amílcar Bettega Barbosa

Poesia

8 – Elefante, Francisco Alvim

9 – Viagem, Espera, Paulo Neves

10 – O Mundo como Ideia, Bruno Tolentino

Era isso, mas com persistentes dúvidas da minha parte. Tirei do meu cenário de escolha escritores já consagrados antes de 1990/2000, como João Ubaldo, Moacyr Scliar, Lya Luft, Carlos Heitor Cony e Luiz Antônio de Assis Brasil, por exemplo; me concentrei em livros de alta qualidade que eu releria agora com gosto e proveito.

Fiquei infeliz por não colocar algum livro do Fernando Bonassi, que é excelente mas não tem “o” livro ainda, e nem colocar o Fabrício Carpinejar, que tem vários livros de poesia ótimos mas não alcançou ainda, talvez, uma síntese.