segunda-feira, 6 de maio de 2024


06 DE MAIO DE 2024
CARPINEJAR

Sirvam nossas façanhas de modelo

Quando viajamos, quando estamos longe de nosso Estado, basta que alguém diga que é gaúcho para se criar uma súbita intimidade. Viramos melhores amigos simplesmente pela origem em comum. Não nos importamos com a profissão distinta, as opiniões contrárias. Porque um entende o que o outro já sofreu de revezes e reviravoltas na vida.

Mais do que o sotaque mútuo, a partilha da terra natal, ser gaúcho é um destino. Por onde andamos, sempre levamos o nosso apego, a nossa tradição, a nossa milonga, a nossa maneira peculiar de contar piadas, a nossa sinceridade tão direta e tão incompreendida.

Não há cobertor que não se transforme em poncho. Não há rédea curta. Não há tristeza que nos derrube. Somos veteranos no mate amargo. Nossa escola não é da doçura, das facilidades.

Perceba que tudo em nós grita belamente: a voz tonitruante de Elis, as cordas do violão de Yamandu, a gaita de Borghetti. Falamos gritado, pois já partimos do princípio de que não seremos ouvidos. E dificilmente nos escutam. Não é paranoia, mas lição da resiliência.

Não que a dor tenha nos ensinado alguma coisa, estamos longe de ostentar figuras masoquistas. Nossa esperança é que alfabetiza a dor desde o quadro verde da escola. Mesmo falidos, destruídos, devastados, temos esperança. Ninguém arranca a nossa esperança.

Se precisamos despertar às 6h, acordamos duas horas antes para mostrar que disposição não é sacrifício. As estrelas já nos garantem a luz fundamental. No momento em que o gaúcho põe algo na cabeça, o coração vai na garupa.

Existe uma força inacreditável dentro de nós. Uma resistência de agricultor, uma garra de colono, uma insônia daqueles que perdem lavouras inteiras e, no dia seguinte, recolhem os caules mortos e abrem os sulcos do chão para plantar tudo de novo.

Está em nossos genes, em nosso DNA, jamais desistir, das Reduções Jesuíticas à Revolução Farroupilha, da carta-testamento de Getúlio Vargas à Cadeia da Legalidade nos porões do Palácio Piratini. Somos derrotados, nunca aniquilados. A extinção não nos conhece.

Buscamos o que é justo, o que é justo é nosso. Quantas vezes perdemos o nosso rincão, quantas vezes o colocamos de pé? Estamos experimentando a pior crise ambiental do Estado. Cidades destruídas, estradas bloqueadas, barragens rompidas. São mais de 70 mortes, dezenas de desaparecidos.

Tudo poderia provocar a mais imensa desolação, a completa imobilidade. E não vejo ninguém parado. Ninguém inerte pelo pânico. Nós vamos mostrar como somos capazes de nos reinventarmos. Como somos capazes de nos ampararmos. Como somos uma família.

Quando um gaúcho sofre, todos os gaúchos sofrem junto. Faremos uma mobilização sem precedentes. Haverá gentileza no desespero. Haverá cuidado e unguento na ferida. Haverá igualdade nos recomeços.

Só no Rio Grande do Sul se canta o hino regional de cor e salteado. É melodia de arquibancada. É canto de torcida. Não fingimos com a boca. Berramos o que verdadeiramente sentimos.

Venha comigo?

"Mostremos valor, constância,

Nesta ímpia e injusta guerra.

Sirvam nossas façanhas

De modelo a toda terra,

De modelo a toda terra.

Sirvam nossas façanhas

De modelo a toda terra".

CARPINEJAR

06 DE MAIO DE 2024
ARTIGOS

HERÓIS ANÔNIMOS

Apenas sete meses após a última tragédia que assolou o Estado, novamente nos vemos diante do caos provocado pelas enchentes. A dor e a tristeza afetam famílias inteiras enlutadas e desabrigadas. A forte e atuante rede de solidariedade se reativa, mostrando a resiliência e a empatia do povo gaúcho frente ao caos. Mas solidariedade apenas ameniza as consequências, não combate as causas.

Fenômenos naturais devastadores não geram apenas destruições. Revelam, também, um brilho de esperança na escuridão: os heróis que enfrentam o desafio para salvar vidas. São indivíduos corajosos e altruístas que se tornam os verdadeiros pilares da comunidade.

Socorristas, bombeiros e equipes de resgate são os guardiões da segurança e da esperança quando as águas sobem. Arriscando suas próprias vidas, eles mergulham na tempestade para trazer conforto e salvação aos necessitados. Com gestos simples, mas repletos de significado, oferecem alimentos, roupas secas e, acima de tudo, o calor humano, tão vital nas horas mais sombrias. Esses cidadãos comuns se transformam em pilares de solidariedade e em exemplos vivos de empatia e compaixão. São esses heróis anônimos, com uniformes encharcados e olhos determinados, que enfrentam a fúria da natureza para resgatar os indefesos.

Neste momento crítico, a solidariedade e a união entre as pessoas são vitais. É preciso olhar para exemplos de cidades que souberam se reconstruir após a destruição e se inspirar em suas práticas para reerguer as áreas afetadas. A reconstrução não deve se limitar apenas à infraestrutura física, mas também incluir suporte psicossocial para as vítimas, ajudando-as a superar o trauma e a recuperar a esperança e a dignidade.

Nas enchentes e outras tragédias a que assistimos diariamente, os verdadeiros heróis não usam capas ou máscaras. Eles usam uniformes e enfrentam desafios em nome da segurança e do bem-estar coletivo. Aliás, é o que se espera das nossas lideranças, sendo necessário rever a governança e a gestão para amenizarmos as tragédias dessa dimensão. A responsabilidade de chamar a sociedade para encontrarmos soluções é das autoridades públicas. O pedido de ajuda não pode ser solicitado somente em meio ao caos, precisa ser trabalhado e articulado com mais inteligência e planejamento.


06 DE MAIO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

UM PASSO PARA A RECONSTRUÇÃO

Embora o Estado continue em situação de emergência, sem uma avaliação conclusiva da profundidade da tragédia, já é necessário planejar a reconstrução. Nesse contexto, foi de grande relevância a presença ontem em Porto Alegre da comitiva liderada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e integrada pelos chefes dos demais poderes e ministros do governo, além de representantes do Ministério Público, do Tribunal de Contas e das Forças Armadas. 

Num raro momento de união nacional e apartidarismo, as principais autoridades da República comprometeram-se publicamente em liberar recursos e remover entraves burocráticos para socorrer a população gaúcha e ajudar o Estado a superar com o máximo de celeridade as dificuldades impostas pelo pior desastre climático de sua história.

"O Brasil deve muito ao Rio Grande do Sul. Agora está devolvendo o que ele merece" - assegurou o primeiro mandatário da nação ao final de sua manifestação, dirigindo-se diretamente ao governador Eduardo Leite. A mobilização de autoridades formalizou a imediata execução de um plano de reconstrução do Estado.

Alguns oradores chegaram a mencionar como modelo o Plano Marshall, programa lançado pelos norte-americanos para a reconstrução da Europa depois da Segunda Guerra Mundial. É um bom exemplo. Porém, para ser igualmente bem-sucedido, o programa de recuperação do Rio Grande deve ter uma gestão profissional de excelência, compatível com o tamanho do desafio.

Ainda que o plano esteja atrelado ao governo federal, ao Congresso Nacional e ao Judiciário, cabe ao governador Eduardo Leite assumir a liderança dos trabalhos e mobilizar todos os setores da sociedade gaúcha para que também participem ativamente da reconstrução.

A tarefa é desafiadora. Evidentemente que a atenção maior do governo deve ser dispensada à preservação de vidas e à saúde das pessoas, mas aspectos aparentemente materiais também são importantes para que as vítimas do desastre retomem suas rotinas. As estradas precisam ser recuperadas para que não haja desabastecimento e para que os viajantes cheguem a seus destinos. Os hospitais e postos de saúde precisam funcionar para que os doentes sejam atendidos. As escolas precisam ser recuperadas para que as crianças e jovens tenham futuro. As empresas e estabelecimentos comerciais precisam movimentar a economia e manter empregos.

Compreende-se a preocupação pelo bom uso dos recursos públicos. Mas este plano emergencial, a exemplo do que foi lançado para combater os efeitos da pandemia da covid-19, exige flexibilização da legislação, boa vontade do Legislativo, compreensão dos órgãos fiscalizadores e atenção do Judiciário para que a burocracia legal não obstaculize nem retarde o trabalho. Nesse sentido, merece reconhecimento a disposição manifestada ontem por todos os chefes de poderes e que já começou a ser transformada em medida prática pelos ministros que acompanharam o presidente Lula na viagem a Porto Alegre.

A capital gaúcha recebeu esse alento no dia em que foi mais prejudicada pela enchente, com o extravasamento de um dique na Zona Norte, a expansão do alagamento em vários bairros e a extensão dos danos a locais até então resguardados, como o parque gráfico do Grupo RBS, nas proximidades do Aeroporto Salgado Filho, o que impôs restrições à entrega das edições impressas dos jornais Zero Hora, Diário Gaúcho e Pioneiro. Em decorrência disso, para atender a seus leitores, o Grupo RBS está disponibilizando o acesso gratuito à edição digital dos três jornais com a curadoria de seus profissionais das informações sobre a inundação.


06 DE MAIO DE 2024
DIÁRIOS DO PODER

Dilúvio toca Ponte da Azenha

O Arroio Dilúvio tocou, na tarde de ontem, a histórica Ponte da Azenha, na esquina da Ipiranga com a Avenida João Pessoa, em Porto Alegre. A foto acima foi tirada às 15h47min. O nível do curso d?agua aumenta a partir da Silva Só, no sentido bairro-Centro. Em um prédio próximo à Avenida da Azenha, moradores retiram água da garagem com uma mangueira. Essa água escorre até a esquina e se acumula na via, inundando parte da Azenha em frente às lojas de mecânica automotiva.

O arroio não está escoando por causa da altura do Guaíba, que acaba represando o Dilúvio. No trecho da Ponte da Azenha, a água supera os taludes e atinge a grama próximo à ciclovia.

A Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura informa que faz vistoria permanente das pontes ao longo da Ipiranga.

A Ponte da Azenha tem uma importância histórica. Foi ali que em 19 de setembro de 1835 os farrapos acamparam, vindos de Guaíba, para tentar invadir a cidade. O combate deu início à Revolução Farroupilha.

Madrugada de fake news

Catástrofes como a que o Rio Grande do Sul vive costumam evidenciar o melhor e o pior do ser humano. No meio da madrugada, enquanto o repórter Gustavo Gossen transmitia em som e imagens na Rádio Gaúcha e GZH a emocionante imagem da corrente humana no bairro Mathias Velho, em Canoas, para o salvamento de pessoas ilhadas em meio à escuridão, as redes sociais estavam impregnadas de mentiras.

A certa altura, ao microfone, a sensação era de que passávamos mais tempo desmentindo boatos do que trazendo novas informações. Uma das fake news que se espalhavam pela madrugada insone dos gaúchos era de que milhares de corpos boiavam em Canoas.

A informação foi desmentida pelo prefeito Jairo Jorge, que confirmou duas mortes. Outra das mentiras apareceu por volta das 4h30min: o Muro da Mauá teria se rompido, conforme dezenas de mensagens nos grupos de WhatsApp. A informação foi negada pelos bombeiros.

Não bastasse a desinformação nas redes, apareceram os aproveitadores. Quase no final da madrugada surgiu o alerta de que havia gente utilizando a imagem do card do governo do Estado e reescrevendo por cima outro número para desviar o dinheiro de doação financeira - preste atenção, o número correto é o CNPJ 92.958.800/0001-38. Confirma bem antes de ajudar.

Após circulação de boatos, o governo estadual reforçou que é falso que doações estariam sendo retidas em postos para cobrança de impostos. As doações estão passando com isenção de taxas.

Pela manhã, veio a informação de que criminosos tentavam furtar barcos e motos aquáticas de voluntários em Canoas e São Leopoldo. Infelizmente, por mais inacreditável que pudesse parecer, essa não era fake news.

RODRIGO LOPES

Autoridades falam em pacto nacional

Em Porto Alegre, chefes dos três poderes deram garantias de que burocracia não irá travar a chegada de socorro financeiro

Na segunda visita ao Rio Grande do Sul em três dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva testemunhou ontem o maior desastre climático já registrado em território gaúcho. Após sobrevoar áreas urbanas submersas ao lado das principais autoridades da República, Lula defendeu um pacto pela reconstrução do Estado, a partir de um regime jurídico diferenciado e de flexibilização no controle dos gastos públicos.

- Não haverá impedimento da burocracia para que a gente recupere a grandiosidade do Rio Grande do Sul - prometeu.

Lula desembarcou na Base Aérea de Canoas às 10h28min, acompanhado dos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco, da Câmara, Arthur Lira, do Tribunal de Contas da União (TCU), Bruno Dantas, e do vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, além de 13 ministros de Estado. No total, 72 pessoas formaram a comitiva presidencial.

Ainda na base aérea, Lula, o governador Eduardo Leite e os ministros embarcaram em três helicópteros para sobrevoar zonas alagadiças.

Em seguida, foram ao 3° Regimento de Cavalaria de Guarda, no bairro Partenon, na Capital, para onde foi levado o centro de operações depois que o Guaíba inundou o Comando Militar do Sul, no Centro Histórico.

No quartel, Lula conduziu rápida reunião, na qual discutiu as prioridades do Estado para resgates e emergências. Em seguida, em um auditório que reunia aliados políticos e opositores ferrenhos, como os deputados Marcel van Hattem (Novo) e Luciano Zucco (PL), Lula afirmou que o governo federal irá apoiar a reconstrução das rodovias estaduais destruídas, bem como a reconstrução de moradias e a retomada das atividades escolares.

- O Brasil deve muito ao Rio Grande do Sul. Nós vamos dar tudo que o Estado merece - disse.

Cobranças

No início da apresentação, o general Hertz Nascimento, vice- chefe do Estado Maior do Exército, disse que há 3,6 mil homens das Forças Armadas atuando nos 332 municípios atingidos.

A escalada do desastre elevou a cobrança por maior disponibilidade de equipamentos de resgate.

- Falta barcos, botes e coletes. Isso não pode esperar, tem de ser hoje, tem de ser agora - alertou o prefeito Sebastião Melo.

Ao fazer um balanço do caos, Leite reforçou a necessidade de um plano robusto para recuperação da infraestrutura urbana:

- Nós estamos em uma guerra, e em uma guerra não há restrições legais de tempos comuns.

Na sequência, Bruno Dantas prometeu empenho na flexibilização das regras sobre gastos públicos, enquanto Lira e Pacheco prometeram votar medidas no Congresso para ajudar o Estado.

Na passagem anterior de Lula pelo Estado, na quinta-feira, o governo federal instalou uma Sala da Situação no Palácio do Planalto. Em Porto Alegre, foi montado um comando avançado na sede da Federação dos Municípios do RS (Famurs), de onde despacharão nos próximos dias os ministros Waldez Góes (Integração Nacional), Paulo Pimenta (Comunicação), Renan Filho (Transportes) e Nísia Trindade (Saúde).

Ao final, Lula pediu à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, a elaboração de um plano de prevenção a desastres climáticos:

- É preciso que a gente pare de correr atrás da desgraça.

Baixa da inundação deve ocorrer "vagarosamente"

Dois cenários principais se apresentam como prognósticos para os próximos dias em relação à cheia do Guaíba. Um deles, elaborado neste sábado e qualificado como moderado pelos pesquisadores do Instituto de Pesquisa Hidráulicas (IPH) da UFRGS, indica a estabilização dos níveis de água elevados em torno de cinco metros por pelo menos mais três dias, sem redução da cota de inundação de três metros nesta semana.

- A análise tem sido realizada diariamente por grupo de pesquisadores. Todas as manhãs, levantamos dados, discutimos cenários, rodamos modelos. O último relatório (deste sábado) considera a previsão de precipitação nos próximos dias e o maior represamento das águas na foz da Lagoa dos Patos - destaca o professor do IPH Fernando Mainardi Fan.

O cenário mais pessimista, no entanto, aponta para o aumento do nível até 5m50cm metros. Essa perspectiva vem se mostrando precisa desde a manhã de sexta-feira, quando foi prevista a superação da cota de cinco metros.

- O que ocorre neste momento está dentro do esperado. O nível estabilizou. Foi de 5m10cm, entre meio-dia e 14h, para 5m16cm às 16h. E para 5m19cm, às 18h (de sábado). Nosso prognóstico é que esse comportamento será mantido pelos próximos dois dias, oscilando em torno desta medição - afirma o professor.

O pesquisador diz que, após estabilidade e pequenas oscilações, o nível do Guaíba deve começar a diminuir "vagarosamente". A cheia, contudo, poderá se manter acima de quatro metros por até 10 dias.

FÁBIO SCHAFFNER


06 DE MAIO DE 2024
TRAGÉDIA NO RS

Cheia devasta dois terços de Canoas

Enchente atingiu todo o lado oeste do município metropolitano, deixando 15 mil desabrigados e danificando 80 mil casas

Depois de devastar regiões como a Serra e o Vale do Taquari, o borbotão de água lamacenta que espalhou mortes, estraçalhou estradas, pontes e casas no Interior chegou à Região Metropolitana no final de semana com a mesma fúria que demonstrou ao longo do trajeto.

O município de Canoas foi um dos mais castigados no sábado e no domingo pelo tsunami de água doce que fez submergir 60% dos 131 quilômetros quadrados de área da cidade - o equivalente a uma extensão de quase 11 mil campos de futebol engolidos pela enchente. Ao avançar palmo a palmo sobre esse terreno, a onda de cheia atingiu em algum grau metade da população, provocou desespero e boatos infundados, exigiu resgates heroicos madrugada adentro e resultou em cerca de 15 mil desabrigados até a tarde de ontem.

- Em dois terços da cidade, a destruição foi praticamente total. São cerca de 80 mil casas atingidas, além de empresas, fábricas e equipamentos públicos como escolas e unidades de saúde. Será preciso um grande esforço para reconstruir a cidade - lamenta o prefeito Jairo Jorge.

A inundação transformou o oeste canoense em uma extensão dos rios e arroios próximos, como o Jacuí e o Sinos. Duas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e o Pronto Socorro foram alagados. Expulsos pela água, milhares de moradores de bairros como Mathias Velho, Fátima, Rio Branco e Harmonia se puseram em marcha forçada para regiões mais distantes e elevadas, primeiro a pé, depois em embarcações ou, no caso de famílias refugiadas em telhados quando a correnteza já tomava as ruas, até por meio de aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB).

Um dos salvamentos mais dramáticos ocorreu no Rio Branco, onde um helicóptero içou sete pessoas que aguardavam auxílio por meio de uma ação conjunta entre FAB e Corpo de Bombeiros. Um a um, abraçados aos militares, os sobreviventes foram puxados para segurança e conduzidos até o Hospital Universitário. Sete aeronaves de diferentes forças de segurança foram deslocadas para auxiliar a cidade.

Resgates

Cenas como essa se repetiram ao longo de todo o final de semana. Segundo a prefeitura, foram recebidos 63,8 mil pedidos de socorro por telefone ou mensagem de celular. Isso equivale a um apelo dirigido às autoridades a cada grupo de cinco moradores do município, que conta com 348 mil habitantes. O cerco armado pelos rios, impulsionados pela maior cheia já registrada na região, sobrecarregou os serviços oficiais de salvamento e resultou em cenas dramáticas na noite de sábado para domingo.

Na entrada do Mathias Velho, onde vivem cerca de 50 mil pessoas, imagens de um cordão humano formado por voluntários para puxar embarcações com sobreviventes provocaram comoção. Dezenas de pessoas se deram os braços nas proximidades da estação da Trensurb, formando uma linha desde o asfalto até os primeiros metros de inundação. Sempre que chegava um novo barco com refugiados da cheia, ouviam-se gritos de "puxa, puxa!", e todo o cordão se deslocava na direção oposta à água até arrastar as vítimas para terra firme.

A demanda por socorro era tão grande que mobilizou um contingente de mais de mil pessoas, entre profissionais e voluntários, como os moradores que enfrentaram a escuridão do Mathias Velho para salvar gente. Ontem à tarde, ainda havia resgates sendo feitos.

O viaduto localizado junto à estação do trem se transformou em um corredor por onde mais barcos eram trazidos por voluntários para navegar nas ruas e avenidas alagadas, e por onde desembarcavam sobreviventes de volta à segurança.

- Estamos com casas com quase seis metros de altura, tudo embaixo d?água - lamentou o morador Juarez Silva à rádio Gaúcha.

Socorristas ouvidos pela repórter da Rádio Gaúcha Lisielle Zanchettin informaram a ocorrência de ameaças e assaltos à mão armada nos fundos do Mathias Velho. Em nota, a prefeitura comunicou que "não é verdadeira a informação de que os resgates com barcos na região do bairro Mathias Velho estão sendo suspensos por falta de segurança", e que equipes estariam "deixando de atuar naquela região por que não há mais pessoas necessitadas". A Brigada Militar (BM) confirmou que um homem foi preso na noite de sábado ao tentar roubar um barco na região, além do furto de outras duas embarcações no bairro.

Boatos

Além dos prejuízos reais, a população precisou enfrentar profusão de boatos como informações sobre rompimentos de diques e supostos corpos à deriva. Em entrevista a ZH, Jairo Jorge afirmou que, de forma extraoficial, foi informado pela BM sobre a localização de duas vítimas. Nenhuma equipe de resgate havia confirmado, até o final da tarde de ontem, possíveis mortes em larga escala.

- Sobrevoei a cidade e não avistei nada desse tipo - diz Jairo.

Relatos de nove mortos na UTI do Pronto Socorro também foram descartados - a prefeitura confirma duas mortes no final de semana em um universo de 13 pacientes graves, sem relação direta com a cheia. Ao todo, 80 doentes foram removidos para locais seguros.

Conforme o prefeito, o trabalho de reconstrução exigirá a elaboração de um plano conjunto com os governos estadual e federal. Será preciso recuperar ou erguer novas casas para a população, além de reestruturar unidades de saúde, escolas e outros serviços públicos:

- Precisaremos também ter algum apoio para as famílias afetadas, seja na forma de subsídio, crédito, liberação de FGTS, além de outros mecanismos que nos permitam reconstruir Canoas.

MARCELO GONZATTO


06 DE MAIO DE 2024
INFORME ESPECIAL

A mais rica, desde que de pé

O momento não poderia ser mais emblemático. Conhecida por destacar as maiores fortunas do planeta, a capa da revista Forbes da última semana, no Brasil (ao lado), elegeu a Amazônia como "a mais rica do mundo", em uma ação da Natura - marca brasileira que virou referência em bioinovação.

Avaliado pelo Banco Mundial em US$ 317 bilhões, o patrimônio da floresta amazônica de pé (que fique bem claro) ultrapassa o de qualquer bilionário, graças a sua biodiversidade (25% da riqueza biológica terrestre).

Em tempos de emergência climática e de catástrofes sem precedentes, como a que vivemos no Rio Grande do Sul, vale a reflexão.

Precisamos pensar e cuidar mais das nossas áreas verdes, e não só na Amazônia.

O processo de desenvolvimento tem de caminhar junto com a conservação. Isso vale, inclusive, para as nossas cidades. Plantar mais árvores e preservar a vegetação que ainda resiste é um bom começo.

Olhar de agradecimento

Transformado em abrigo para pessoas salvas da enchente no Guaíba, o ginásio da Academia de Polícia Militar, em Porto Alegre, também recebeu animais resgatados da inundação. Muitos deles chegaram com os tutores. Outros, sem ninguém.

Quando o soldado Diego Pires Maia, do Comando de Polícia de Choque da BM, entrou no espaço destinado aos bichos, o cão cor de caramelo das fotos acima latiu em cumprimento, como se agradecesse - o momento foi registrado pelo fotógrafo Rodrigo Ziebell, que também é soldado da BM.

Maia e os colegas estavam entregando sacos de ração e outros itens doados por voluntários, movidos pela onda de solidariedade que tomou o Rio Grande do Sul.

- Tenho quatro cães, gosto muito de cachorros. Ele me olhou e percebeu isso. Latiu e estendeu a pata. Eu não resisti. As pessoas nos veem fardados e pensam que, por atuar na Polícia de Choque, somos truculentos, mas atrás da farda tem um ser humano - diz Maia.

Caramelo estava sozinho no local. O soldado pretende voltar a vê-lo. Se não for possível encontrar a família do cão, sem lar Caramelo não vai ficar.

JULIANA BUBLITZ

sábado, 4 de maio de 2024


04 DE MAIO DE 2024
MARTHA MEDEIROS

A viuvez dos separados

Meu amigo Fabricio Carpinejar antecipou o assunto, numa bela crônica publicada em 26 de abril, onde discorreu sobre a sensação de ser viúvo/a de uma pessoa com quem já não se é casada. No dia anterior, eu havia enterrado meu ex-marido, e li as palavras do Fabricio com a alma ainda quente. Ele mais uma vez foi certeiro em sua percepção. Estava escrevendo sobre minha história com o pai das minhas filhas.

Foram 21 anos juntos e 18 anos separados, numa relação que nunca terminou, apenas mudou de status: de cônjuges para amigos. Muitos ao redor destacavam nossa civilidade, o que para nós soava esquisito, qual o estranhamento? 

Depois de uma relação de amor e de uma família construída, como poderia restar apenas frieza e distância? Sei que traições, brigas, disputas financeiras e tantos outros fatores podem conduzir a um fim radical, mas houve uma época em que o casal se amou de tal forma que investiu na eternidade do relacionamento. Se, mais adiante, a separação foi o caminho encontrado para aliviar desavenças, nem por isso a eternidade precisa ser cancelada. 

Separações podem ser atos de amor. Ao constatar que já não pensam parecido e o desejo se bifurcou, toma-se a atitude prévia de se separar, antes de se tornarem grosseiros e secos. Afastam-se parcialmente, sem desfazerem o vínculo por completo. Óbvio que não precisam sair para um chope toda semana, talvez fiquem sem se ver por anos, mas preservam o respeito e a amizade. Sabem que poderão contar um com o outro para sempre, o verdadeiro "para sempre" a ser considerado.

Até que a morte os separe, dizem os padres em cerimônias religiosas de casamento. Dias atrás, esta frase ainda me parecia um ultimato obsoleto. Duração não é um valor em si, as pessoas têm o direito de amar e desamar, elas se transformam e ninguém garante que quem está ao lado acompanhará as mudanças, portanto, que se separem quando forem esgotadas as possibilidades de ser feliz junto. As crianças sofrerão, mas um dia irão compreender que a paz é preferível a um ambiente contaminado por frustrações.

No entanto, "até que a morte separe" ganhou novo sentido para mim, me parece uma frase simpática inclusive para uso numa audiência de divórcio. Matrimônios acabam e o que se faz com a antiga intimidade? Reaproveita-se para iniciar uma relação de desapego, mas intacta em sua essência amorosa - até o fim.

Meu estado civil virou uma abstração, já não me sinto divorciada, mas viúva não sou, ao menos não a única: outros amores ele teve, importantes também. O que resta agora é o orgulho de ter feito parte da vida de um homem especial que se foi. De bônus, confirmei que finitude é um conceito relativo. Às vezes, nem a morte encerra tudo.

MARTHA MEDEIROS

04 DE MAIO DE 2024
DRAUZIO VARELLA

A PRÓXIMA PANDEMIA

Será fundamental estarmos preparados, sem repetir os erros que cometemos com a covid-19. Haverá uma nova pandemia, só não sabemos como virá nem de onde. Será fundamental estarmos preparados para enfrentá-la, sem repetir os erros que cometemos quando o vírus da covid-19 chegou até nós.

O Brasil é o único entre os países mais desenvolvidos que não conta com uma instituição especializada na gestão de emergências em saúde pública e no controle de doenças, como são as dos países europeus e os Centers for Diseases Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, por exemplo.

Assim que surgirem os primeiros casos de uma doença desconhecida em nosso território, será necessário detectá-los de imediato, isolar o agente causador, sequenciar seu genoma e caracterizar os modos de transmissão e o padrão de disseminação entre seres humanos e animais. Esses conhecimentos são fundamentais para a elaboração de vacinas e demais estratégias de combate.

O mesmo vale para doenças conhecidas que podem reemergir num dado momento. Veja a epidemia de dengue que estamos vivendo. Se contássemos com uma estrutura especializada em responder de forma emergencial, capaz de aplicar modelos epidemiológicos para avaliar a extensão e a gravidade dos surtos com antecedência, o SUS teria tido tempo de se mobilizar com mais eficácia para evitar tanta morbidade.

Com as mudanças climáticas atuais, a pobreza e as condições de moradia da nossa população, é impossível acabar com a proliferação do Aedes e com a dengue, mas as mortes podem ser evitadas com uma medida simples: a hidratação.

A dificuldade não é saber como tratar, mas como organizar as redes formadas pelo programa Estratégia Saúde da Família, pelas Unidades Básicas de Saúde, pelas Unidades de Pronto Atendimento e pelos hospitais de forma racional para garantir o acesso irrestrito ao atendimento, num país das dimensões do nosso.

É um desafio gigantesco, que não pode depender de iniciativas isoladas das prefeituras. Emergências em saúde pública exigem coleta de dados confiáveis, respostas rápidas e coordenação nacional e internacional.

Precisamos de um órgão técnico supervisionado pelo Ministério da Saúde, integrado ao SUS, para assessorá-lo com autonomia e estabilidade funcional, independente do voluntarismo dos governantes da ocasião. Não podemos repetir absurdos recentes, como o de depender da imprensa para checar os números da epidemia uma vez que os oficiais não eram confiáveis.

Não é preciso reinventar a roda. Apesar das dificuldades e dos descasos, a ciência brasileira dispõe de cientistas da melhor qualidade, distribuídos em universidades e institutos de pesquisas respeitados internacionalmente, como o Butantan, a Fiocruz e o Instituto Evandro Chagas, entre vários outros.

Temos também cientistas altamente capacitados que trabalham nos maiores centros de pesquisa americanos e europeus. São brasileiros dispostos a voltar para o país assim que lhes forem oferecidas condições decentes para prosseguir com suas pesquisas. Não é sensato desperdiçar talentos que nos fazem falta.

As mudanças do clima, o desmatamento, o crescimento desordenado das cidades, a superpopulação em algumas áreas e a desigualdade econômica formam o caldo de cultura ideal para a disseminação de doenças infecciosas e de outros agravos.

As ameaças à saúde da população no mundo atual estão cada vez mais complexas. Não há mais espaço para improvisações. As políticas públicas devem ser adotadas pelo SUS depois de análises de dados e avaliações técnicas baseadas nas melhores evidências científicas.

O Brasil tem um dos sistemas de saúde mais abrangentes do mundo, o SUS, mas não é fácil oferecer assistência para 200 milhões de habitantes espalhados numa extensão continental, com grandes massas populacionais vulneráveis.

A próxima emergência em saúde pública não pode provocar tragédia semelhante à da covid-19. Faz falta um órgão técnico adaptado à nossa realidade, com recursos financeiros, gestão moderna, livre de interferências políticas e com agilidade administrativa para contratar profissionais, desenvolver estudos colaborativos com as universidades e os institutos de pesquisa, integrado ao SUS com o objetivo de assessorá-lo e fortalecê-lo.

Perderam a vida mais de 700 mil brasileiros na última pandemia. Não podemos ser pegos de surpresa outra vez. Não vamos repetir os mesmos erros, não é possível que não tenhamos aprendido nada.

DRAUZIO VARELLA

04 DE MAIO DE 2024
J.J. CAMARGO

O TEMPO DA DESCONFIANÇA

Por inércia ou comodismo, permitimos que valores básicos fossem fraudados, gerando uma náusea engatilhada e um resmungo permanente

"Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, eles simplesmente serão governados pelos que gostam." (Platão)

É certo que ninguém escolheria viver num mundo marcado pela desconfiança. Se estamos vivendo esse tempo, significa que temos enorme parcela de culpa por termos permitido, por inércia ou comodismo, que os valores básicos fossem fraudados, gerando em grande parte esse desconforto que não desgruda e que nem conseguimos explicar, mas mantém uma náusea engatilhada e um resmungo permanente, única evidência de que estamos infelizes. Ainda que sigamos fazendo de conta que está tudo bem, mesmo com a consciência grunhindo que não.

A primeira função comprometida por esse estado de coisas é o sono, que some sem causa aparente, alongando as madrugadas nesse tempo de solidão fisiológica em que a realidade, que está ruim, prenuncia-se ainda pior.

Há poucas décadas, em sinal de preocupação com o bem-estar coletivo, eram frequentes as pesquisas de opinião, para saber, numa atitude proativa, qual setor da sociedade era melhor cotado perante a população. Lembro de Correios, Justiça, imprensa e médicos, estes liderando a pesquisa. Tempos depois, os Correios, provavelmente constrangidos pela distância que os separava dos outros objetos de pesquisa, tiveram uma piora impressionante, atribuída a um sinal dos tempos modernos, vertiginosamente acelerados pela tecnologia da informação. Mas coincidência ou não, o topo daquela lista despencou a seguir. Em solidariedade?

Políticas que fracassaram em todos os lugares do mundo em que houve quem acreditasse nelas foram sacudidas do mofo que as cobria e apresentadas como novidades. E outra vez estabeleceu-se a supremacia do discurso vazio sobre os fatos indiscutíveis.

E a desconfiança generalizou-se porque quase nada era como parecia ser, e cresceu a percepção de que só teria certeza de alguma coisa quem estivesse mal-informado.

A Justiça tornou-se fluida, e o brado "isso é inconstitucional!" passou a ser repetido com tal frequência que, depois de um tempo, ninguém mais sabia o que aquilo queria, de fato, dizer. Talvez clamassem pela memória da dona Constituição, uma senhora originalmente bonita, mas que passou por tantos acréscimos e remendos que é evocada somente quando vítima de outro atropelamento, ainda mais desfigurante.

A imprensa, outrora formadora de opinião, fragmentou-se como representante de uma sociedade ideologicamente dividida, em que cada um lê ou ouve só o que coincida com sua opinião, fugindo do contraditório, que sempre foi o mais poderoso antídoto da ignorância, individual ou coletiva.

A medicina, historicamente vista como elite social nos países desenvolvidos (provavelmente porque os poderosos sempre tiveram medo de morrer de uma doença tratável), passou a ser ostensivamente aviltada na sua origem, com cursos caça-níquel sem nenhuma preocupação com qualidade, vitimando de morte a quem nunca pode escolher.

Com os valores básicos em franca degradação, ninguém mais tem ânimo para promover uma pesquisa que apurasse, por pura curiosidade, em qual setor da República o povo confia menos. E por quê? Porque ninguém está interessado no que o povo pensa, desde que siga pagando os impostos, claro, e guarde para si sua modesta opinião.

J.J. CAMARGO

04 DE MAIO DE 2024
CONSELHO EDITORIAL

JORNALISMO EM TEMPOS DE CATÁSTROFE

Para que serve o jornalismo em uma emergência climática extrema?

Em momentos agudos como o da tragédia que infelizmente assola o Rio Grande do Sul mais uma vez, em primeiro lugar, serve para ajudar as pessoas a sobreviverem: para onde ligar se precisar ser resgatado. Quais estradas estão interrompidas. Qual a probabilidade de os rios subirem em determinados lugares e quando a evacuação deve ocorrer.

Em momentos como este, a diretriz nas redações segue esta prioridade: primeiro, o que chamamos de "serviço e alertas": tudo o que ajudará as pessoas a sobreviverem e a passarem melhor pela emergência, como neste momento dramático como nunca se viu no Estado.

A segunda prioridade é mobilizar pela solidariedade e pela reconstrução. O tamanho desta tragédia ainda não permitiu que se entrasse de vez nesta frente, porque a situação ainda está muito crítica. Mas, assim como fizemos nos últimos eventos climáticos graves, o Grupo RBS novamente vai ajudar de todas as maneiras para que o Rio Grande do Sul se una em esforços para, mais uma vez, recuperar as cidades, as estradas, as pontes, as casas, o comércio etc. E isso se faz com o clamor pelas doações, nos locais adequados, sempre em compasso com a Defesa Civil. Fazemos isso por meio da campanha e dos programas Ajuda Rio Grande.

Nos últimos dias, RBS TV, Gaúcha, GZH, Zero Hora, Diário Gaúcho, Pioneiro voltaram 100% dos seus esforços para informar, informar, informar. Derrubamos programações normais para, em todos os espaços possíveis, levar ao público o máximo de informações. Autoridades não têm como fazer chegar à população imediatamente, salvo por meio dos veículos de comunicação de jornalismo profissional, as mensagens que precisam ser transmitidas.

Foram centenas de repórteres, apresentadores, editores, cinegrafistas, fotógrafos, comunicadores, em dezenas de cidades diferentes do Estado, para trazer o quadro completo, minuto a minuto.

Por mais que nos esforcemos, com todas as nossas equipes junto à população, numa catástrofe como esta nunca parece ser suficiente. A sensação de impotência e o pesar pelas perdas de vidas são gigantescos. Mas seguiremos trabalhando duro, no que é nosso papel, de tentar informar e mobilizar ao máximo, para que o jornalismo cumpra seu papel em mais este desafio extremo do Rio Grande do Sul.

?Leia a Carta da Editora Dione Kuhn à página 4 com depoimentos de nossos repórteres e comunicadores.

MARTA GLEICH

04 DE MAIO DE 2024
FLÁVIO TAVARES

SOMOS TODOS CULPADOS?

Dois episódios da Bíblia - o Dilúvio e o Apocalipse - parecem reunir-se com as enchentes de agora. É como se as portas do céu se abrissem e as chuvas despencassem das nuvens sem piedade. Daí pergunto: na seca de meses atrás, as chuvas se esconderam nas nuvens?

Ou as secas também são obra das nuvens, que, arrependidas, se desculpam após nos castigar e, assim, fazem chover como no Dilúvio?

Essas indagações, mesmo sem sentido, levam à conclusão da ciência: os fenômenos ou mudanças na natureza são obra nossa.

Basta acompanhar os relatos deste jornal e da RBS TV para avaliar os estragos provocados pela chuvarada. Na zona de mineração em Arroio dos Ratos, os diques (construídos para explorar carvão) retiveram a água inundando a cidade. Na enchente anterior, moradores acionaram o Ministério Público, mas o alerta não venceu a lentidão burocrática e o horror cresceu agora.

A crise do clima, alternando secas e enchentes, exige ações preventivas. Os governantes, porém, limitam-se a gestos formais, como fez o governador ao decretar agora "estado de calamidade pública". Nada foi feito de antemão para, pelo menos, atenuar a catástrofe.

É absurdo resolver as calamidades por decreto. Ou crer que as chuvas matam e destroem por serem "assassinas" e "más".

As calamidades são obra do ser humano e dos governantes. As mudanças climáticas, desenvolvidas por séculos, se agravaram, chegando à crise atual. O grande vilão são os combustíveis fósseis, como petróleo e carvão mineral.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, referiu-se ao carvão e advertiu: "Basta de financiar a morte".

Tampouco basta que o presidente da República venha ao Estado e sobrevoe as zonas afetadas ou nelas permaneça algumas horas. Faltam planos e projetos para enfrentar a crise climática. No Estado, permanece a ameaça de abrir uma mina de carvão a 12 quilômetros da Capital, às margens de um rio que chega ao Guaíba, que, assim, se transformará em cloaca mineral.

Nada se faz de concreto para evitar esse Apocalipse.

FLÁVIO TAVARES

04 DE MAIO DE 2024
OPINIÃO DA RBS

COMPROMISSO COM O ESTADO

Zero Hora completa 60 anos de existência neste sábado com uma história singular e muitos motivos para celebrar, mas nenhuma celebração pode ser mais significativa do que a reafirmação diária de seu compromisso com a informação, com a prestação de serviços e com os interesses do povo gaúcho. Por isso, o Grupo RBS decidiu registrar este aniversário com a discrição e a responsabilidade que o momento exige, ao mesmo tempo que, num processo natural de sua operação, mantém a mobilização de seus profissionais e de seus veículos na ampla cobertura da tragédia que se abate sobre o Estado. 

O Rio Grande do Sul passa por uma calamidade climática sem precedentes. Em diversas áreas de seu território, há pessoas morrendo, há desaparecidos, há comunidades inteiras desabrigadas e há a necessidade de muita informação para orientar a população, potencializar a ação das autoridades e ajudar na preservação de vidas humanas. 

Nada pode ser mais importante do que isso neste momento. O Grupo RBS está consciente desta realidade. Não vamos ignorar o aniversário do jornal, nem deixar de apresentar, em breve, uma edição impressa reformulada e várias outras novidades na sua versão digital. Estamos preparados para anunciar produtos e serviços inovadores, que se estendem também à plataforma GZH, à Rádio Gaúcha e aos demais veículos do grupo, numa conexão planejada para atender a todos os segmentos dos nossos públicos. 

O evento de lançamento deste pacote de inovações para parceiros e clientes será reagendado em data oportuna, assim como a veiculação da edição reformulada de Zero Hora. Acreditamos - e continuaremos trabalhando muito nesse sentido - que logo o Estado terá superado o momento mais agudo da atual crise. 

Independentemente dessa previsão, porém, nos comprometemos a continuar acompanhando com total atenção os fatos relacionados à catástrofe ambiental, como estamos fazendo exaustivamente nesses dias angustiantes de chuva e lama. Em cumprimento ao compromisso de parceria que mantém com a população gaúcha, o Grupo RBS decidiu ampliar os espaços noticiosos de seus veículos para acompanhar melhor o atual evento climático e as demandas das comunidades por ele afetadas. 

Consideramos que essa proximidade com o público é essencial para alcançarmos o nosso propósito de prestar um bom serviço de comunicação por meio de informações úteis e opiniões construtivas e responsáveis. Por tudo isso, ao completar sua sexta década de existência, Zero Hora adia a celebração de seu aniversário, mas aproveita a data emblemática para registrar sua gratidão aos leitores, assinantes, anunciantes e profissionais que, ao longo dos anos e diariamente, vêm ajudando a escrever a história deste jornal comprometido com o Estado e com a sua população. 

Esta parceria com o público nos fortalece e nos desafia. Somos gratos aos leitores pela escolha, mas também pelas sugestões, pelas críticas e pelos incentivos. O retorno valoriza nosso trabalho e nos estimula a melhorar. Por isso acreditamos que, juntos, haveremos de superar as dificuldades do presente para continuarmos construindo um futuro digno para todos nós.



04 DE MAIO DE 2024
+ ECONOMIA

Siderúrgica promete "toda ajuda"

Também afetada pela enxurrada, a Gerdau decidiu parar a produção na usina de Charqueadas, focada na produção de aços especiais, destinados ao mercado automotivo.

Segundo o CEO da siderúrgica, Gustavo Werneck, a decisão foi tomada no momento em que a cidade está passando por sérios problemas e permite concentrar o foco nessa solução. A atual capacidade de produção na usina, a antiga Aços Finos Piratini, é de 450 mil toneladas por ano.

A expectativa é de que a retomada em Charqueadas ocorra nos próximos dias, assim que a água refluir. Em Sapucaia do Sul, onde a Gerdau acabou de inaugurar obras de modernização, a atividade continua normal.

À coluna, Werneck afirmou que está em contato permanente com o governador Eduardo Leite para garantir "todos os recursos que puder disponibilizar".

- Vamos dar toda a ajuda possível. Isso tanto agora, que os esforços estão mais focados no resgate, quanto em um segundo momento, o da reconstrução. Estamos nos solidarizando com todos os gaúchos e acompanhando de perto a situação da chuva no Estado.

A parada em Charqueadas só deve se estender no final de semana, tranquilizou Werneck. Não deve provocar impacto no mercado, uma vez que a empresa tem estoques para suportar a demanda no período em que se considera necessária a interrupção das atividades.

Uma ideia para reconstruir o Estado

A coluna recebeu uma ideia para viabilizar a enorme quantidade de recursos que será necessária para recontruir o Estado: negociar com a União a suspensão temporária do pagamento da dívida pública, condicionada à demonstração de aplicação de recursos na recuperação econômica e social do Rio Grande do Sul.

O autor é o ex-secretário da Fazenda Aod Cunha. É bom lembrar que não se trata de um economista que relativiza a necessidade de pagar dívidas, sejam públicas ou privadas.

- Jamais proporia algo assim, mas há justificativa econômica e legal para isso, uma calamidade pública de grandes proporções. A própria legislação federal prevê isso e já foi usada na pandemia. E por que só para o RS? Bom, é autoexplicativo - argumenta.

Uma possibilidade seria direcionar boa parte da aplicação a soluções de longo prazo frente à mudança climática.

- Poderia ser um projeto-piloto da União que provavelmente terá de ser utilizado em outras regiões, pelo que estamos observando das mudanças no clima - justifica.

Aod pondera que a extrema necessidade do RS não será só de recursos financeiros, mas materiais e humanos, porque será preciso fazer muita coisa em pouco tempo, o que sempre foi um desafio para o Estado e para o país. Alerta também que a projeção dos custos não pode ser feita com base nos preços da infraestrutura antiga:

- Precisamos de um novo modelo de ocupação do solo e cidades. Tudo indica que irá acontecer novamente, infelizmente.


04 DE MAIO DE 2024
TRAGÉDIA NO RS

"Não há motivo para pânico"

Segundo os supermercados, a falta de alguns produtos ocorre mais pela procura excessiva dos clientes do que por questões de abastecimento. Redes com atuação no Interior garantem os estoques para mais de 10 dias.

É o caso do Grupo Peruzzo, que também inclui o atacarejo Ecomix, com mais de 25 unidades espalhadas por cidades como Santa Maria, Candiota, Dom Pedrito, Caçapava do Sul, Alegrete e São Borja. Lindonor Peruzzo Junior, vice-presidente da rede, informa que a matriz, em Bagé, conta com dois centros de distribuição.

Os hortifrúti, explica, chegam de Cachoerinha e já faltam algumas frutas e ovos, o que deve permanecer ao longo do final de semana. Açúcar, óleo de soja e leite começam a dar mostras de que podem faltar a partir de terça-feira. Ele verifica que a alta procura e a grande quantidade de compras, "em níveis fora do comum", por papel higiênico e água, fazem com que esses itens estejam mais escassos no momento. Mas diz que não há problema relacionado a alimentos como leite e carnes.

- A previsão é regularizar algumas coisas na semana que vem. Pode faltar um ou outro, que pode ser substituído, mas não há motivo para pânico - reforça.

Dificuldade

A UnidaSul, holding que administra as marcas Rissul e o Macromix, informa, por nota, que as mais de 40 lojas localizadas em Porto Alegre e Região Metropolitana, Vale do Sinos, Vale do Paranhana e Serra Gaúcha estão com dificuldades momentâneas no abastecimento, já que os caminhões estão sem acesso a esses municípios. A previsão é de que o abastecimento seja normalizado assim que a situação das estradas permitir.

04 DE MAIO DE 2024
TRAGÉDIA NO RS

INUNDADA

Chuvas que castigam o Estado fizeram o nível do Guaíba ultrapassar a marca de 1941. Água avançou sobre o Centro Histórico e o 4º Distrito

Porto Alegre está ferida no orgulho, na alma e no brilho. O 3 de maio de 2024 entra para a história como o dia em que parte da cidade, incluindo regiões populosas e icônicas, foram engolidas pelo Guaíba, que passou de cartão- postal a ameaça. O sistema de proteção de enchentes foi dobrado pela fúria da natureza, que despeja intensa chuva sobre o Rio Grande do Sul desde a última semana de abril.

O prefeito Sebastião Melo orientou moradores e comerciantes das regiões mais afetadas, como Centro Histórico e 4º Distrito, a deixarem os locais, enquanto hidrólogos sugeriram um plano de evacuação para o caso de o Muro da Mauá não resistir à pressão.

Próximo do meio-dia de sexta- feira, o portão 14 do sistema de contenção de cheias, defronte à antiga ponte do Guaíba, rompeu parcialmente. A estrutura é de grande porte, com largura de cerca de um palmo, e apresenta pigmentos de ferrugem. A comporta é fechada em situações de alta para brecar o fluxo, mas acabou severamente vergada. O Guaíba rugiu por entre os largos vãos. Com bruta correnteza, cruzou por debaixo da Avenida Castelo Branco e, do outro lado, alcançou a Avenida Voluntários da Pátria. Dali, correu para a Zona Norte.

Dilúvio

Inóspita, como se recortada de um filme de cataclismo, era a cena na Avenida Sertório. Do trecho entre a antiga ponte do Guaíba até a Avenida Farrapos, a Sertório, um corredor de veículos, estava completamente alagada. Havia ondas na via e, nos pontos mais críticos, a água batia na cintura.

Do meio do aguaceiro saiu Antônio Xavier, 31 anos, trazendo um cachorro no colo.

Ele reside na região das Ilhas, mas viu a casa ser invadida pela manhã. Junto de três familiares e oito cães, tomou carona de barco com um amigo até a ponte do Guaíba. Dali, seguiu a pé e atravessou o dilúvio da Sertório. Ele tinha outros oito cães, mas não havia como carregar todos. Teve de tomar a dilacerante decisão de deixá-los sobre o telhado da casa.

- Já peguei tudo quanto foi enchente, mas essa foi a maior que vi na vida. Hoje pensei que não sairia vivo - contou Xavier.

No meio da tarde, a água já beliscava a Avenida Farrapos, onde fiscais de trânsito tentavam controlar o caos. Havia congestionamento, infrações, pessoas nervosas e com olhar atônito. A incredulidade era justificável.

Algo parecido havia acontecido lá em 1941, quando o nível do Guaíba, antes da construção do sistema de contenção, alcançou 4m76cm.

Neste 3 de maio, a marcação apontou, às 23h, 4m80cm, com chance de novas subidas. Já é a maior enchente da história de Porto Alegre.

Aeroporto

Ainda na Farrapos, retirantes estavam por toda parte, carregando mochilas e aparelhos de TV.

Na Avenida Castelo Branco, com trânsito próximo de zero, jovens observavam o espetáculo dantesco. Um deles gritava:

- Porto Alegre já era.

A rodoviária foi invadida pela manhã e as operações acabaram reduzidas a 5%. O aeroporto Salgado Filho foi fechado temporariamente à noite. Ficaria por 24 horas sem operação.

No Centro Histórico, o Mercado Público, o Paço Municipal e a Praça Montevidéu estavam cercados. A água, ali, vertia pelos bueiros. O sistema pluvial não deu conta e tudo voltou a superfície, expulsando do subsolo baratas que maculavam as paredes do Mercado Público.

Havia muita gente nas ruas fotografando e filmando a surpreendente tragédia.

Na Praça da Alfândega, onde acontece anualmente a tradicional Feira do Livro, o Guaíba avançou até a metade. O governador Eduardo Leite surgiu por ali no meio da tarde e conversou com populares. Na verdade, fez apelos. Afirmou entender a curiosidade pelo fato histórico, mas pediu que todos se afastassem porque o Muro da Mauá estava sendo testado como nunca antes. Não era seguro ficar ali, alertou. Eventual rompimento poderia levar uma onda perigosa em direção à Alfândega.

Não surtiu o efeito esperado. Minutos depois, uma senhora posou para uma foto sorridente no mesmo ponto, erguendo os dois polegares em sinal de positivo, tendo um ilhado Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) como pano de fundo.

Orla

Os alagamentos tomaram a orla do Guaíba e o Centro de Treinamento do Inter. Na Avenida Diário de Notícias, encobriram os campos da escolinha de futebol do Grêmio e, mais adiante, os clubes náuticos. Na Praia de Ipanema, lambaris chegaram a ser lançados pela água sobre o calçadão. A água redefiniu a Orla, ultrapassou a ciclovia e, em alguns trechos, tomou pátios das residências do bairro de classe média-alta da Zona Sul.

- A natureza está desequilibrada. Tudo está desorientado - refletiu o produtor rural Paulo Maciel, 53 anos. O aposentado Vitor Bassani, 72 anos, tem o hábito de ir diariamente ao Centro. Ele discorda do brado "Porto Alegre já era". Idealiza um ponto de virada.

- Quem sabe isso leve as pessoas a valorizarem mais a cidade, a natureza, os jovens e os idosos. As pessoas se aproximam na calamidade - pregou Bassani.

CARLOS ROLLSING

04 DE MAIO DE 2024
CARTA DA EDITORA

CARTA DA EDITORA Relatos de uma tragédia

Na Carta anterior, eu havia anunciado a estreia, nesta edição, de uma nova Zero Hora para marcar os 60 anos do jornal. Porém, como afirma o editorial da RBS na página 22, o momento não é para celebrações e novidades, e sim de reforçar o nosso compromisso de informar, de estar ao lado da população do Rio Grande do Sul. Usarei este espaço para reproduzir alguns dos relatos dos nossos repórteres e comunicadores que estão acompanhando de perto a tragédia provocada pelas chuvas:

"Mais uma vez, foi preciso sair do estúdio, calçar as galochas e segurar a emoção para informar os gaúchos sobre uma tragédia climática. Agora, ainda pior? e, de novo, só buscar e transmitir notícias não bastou, foi preciso abraçar, consolar, dar forças e incentivar a fé em dias melhores."

"Participar de uma cobertura como esta é estar próxima ao lado mais vulnerável do ser humano. Uma das coisas que mais me marcaram até agora foi o relato de uma mulher de São Vendelino que perdeu um filho e o marido soterrados. A angústia e o sofrimento eram nítidos, ao mesmo tempo que projetava um futuro incerto e a assistência aos outros três filhos."

"Impressionou-me o choro das pessoas. A prefeita de Sinimbu chorou enquanto eu a entrevistava. O mesmo aconteceu com uma agricultora que viu as vaquinhas, todas com nome, serem levadas pela água. As vítimas não sabem como recomeçar a vida, não veem perspectiva. É uma tristeza sem fim."

"Em Candelária, o que mais dói é ver o drama daqueles que não possuem notícias de seus familiares, daqueles que permanecem de plantão no local onde pousa o helicóptero, esperando para que o resgate chegue até seus familiares. Uma cidade sitiada e clamando por ajuda, mas que encontra esperança na força do seu povo."

"Às vezes tenho a sensação de que o tempo parou. Nada que veio antes e nada que ainda virá parecem fazer sentido. Estamos vivendo um minuto após o outro. Tudo muda a todo momento! Nesse momento de tanta dor, só nos resta não perder a esperança de que um dia isso tudo vai passar. E essa tragédia vai ficar para a história."

"O pavor de ter testemunhado uma mulher sendo levada pelo Rio Pardo, a alegria de saber que ela se salvou, poder lhe dar um abraço depois e ver o empenho do trabalho de bombeiros voluntários, da comunidade e de autoridades foram as coisas que mais me marcaram nesta cobertura em Candelária."

Todos os conteúdos produzidos sobre as enchentes estão disponibilizados de forma gratuita em GZH. Reportagens, colunas, vídeos, alertas e a cobertura em tempo real do maior desastre climático da história do RS permanecem abertos a não assinantes.

DIONE KUHN