segunda-feira, 3 de junho de 2019


03 DE JUNHO DE 2019
CLÁUDIA LAITANO

Viés ideológico


Nenhuma opinião política é neutra do ponto de vista moral. Da reforma da Previdência à instalação de uma mina de carvão a 15 quilômetros de Porto Alegre, não há assunto que não seja filtrado por uma determinada visão de mundo - composta por noções de certo e errado, justo e injusto, moral e imoral.

Temas como a descriminalização do aborto e a legalização das drogas, porém, colocam o aspecto moral das nossas convicções em ainda mais evidência - o que explica, em parte, por que é tão difícil discutir racionalmente esses assuntos no Brasil. Enquanto a atrasada legislação brasileira em relação ao aborto não avança e ainda corre o risco de retroceder, a política de combate às drogas não pode ser deixada de lado tão facilmente - menos pela preocupação com a saúde dos usuários do que por estar associada com a segurança pública e o sistema prisional. 

Na última quarta-feira, o Senado aprovou um projeto de lei que altera - para pior - a política nacional de drogas como ela vinha sendo praticada no país desde o governo Fernando Henrique Cardoso. Entre as novidades mais criticadas, estão a possibilidade de internação involuntária dos dependentes químicos e a incorporação das comunidades terapêuticas ao Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (Sisnad).

Se o debate sobre o aborto esbarra em questões filosóficas e religiosas difíceis de gerar consenso (O que é uma vida humana e quando ela começa? Qual o direito do Estado sobre o corpo de uma mulher que espera um filho?), na discussão sobre drogas podemos quase sempre nos apoiar em evidências científicas. Há pesquisas, dados e estudos a serem considerados. Nada disso, porém, parece ter sido levado em conta pelo ex-deputado e agora ministro Osmar Terra, autor do projeto que vai na contramão das orientações da ONU sobre o assunto, reunidas em um relatório lançado no ano passado.

O projeto, que será encaminhado agora para a sanção do presidente, fortalece de forma inédita as controversas comunidades terapêuticas, entidades administradas em sua maioria por organizações religiosas e que nem sempre contam com equipes multidisciplinares ou são submetidas a avaliações técnicas regulares. Isso significa que, com o novo projeto, o governo federal se compromete a despejar grande quantidade de dinheiro público em entidades privadas sobre as quais não tem controle. O que se sabe é que o proselitismo religioso e a imposição de técnicas consideradas pouco eficientes e cruéis, como a abstinência forçada, são a base do tratamento em muitas delas.

Na semana passada, o ministro Osmar Terra desqualificou o Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas, realizado pela respeitada Fundação Osvaldo Cruz, alegando que a instituição teria "viés ideológico" de liberação das drogas. Isso porque o estudo não confirmou a existência de uma epidemia de drogas no país, tese defendida pelo ministro sem apoio de evidências. 

Osmar Terra está tão imerso em suas crenças, que parece não perceber o quanto sua própria visão sobre o assunto é afetada por inclinações morais - também conhecidas como "viés ideológico". Não sei vocês, mas, se eu estivesse doente, procuraria um tratamento baseado em ciência, e não em moralismo.

CLÁUDIA LAITANO

sábado, 1 de junho de 2019



01 DE JUNHO DE 2019
LEANDRO KARNAL

Carta ao bebê Archie Harrison

Querido Archie: você ainda não completou um mês. Desejo que sua vida seja longa e feliz, como desejo a todas as crianças do mundo. A roda da fortuna o fez nascer em um lar privilegiado e, como tudo, isso contém tudo de bom e tudo de ruim que possa vir a ocorrer na sua vida. Confio na inteligência dos seus pais para que transformem o privilégio em alavanca e não, como testemunhei muitas vezes, em obstáculo ao crescimento.

Quando você nasceu, muitos jornais disseram que era o "primeiro bebê inter-racial" da família real britânica. A ideia é estranha. Sua bisavó, a rainha, vem de uma família que acompanhou a história da Europa. Há uma chance de ela ter sangue celta, romano, anglo-saxão, viking e, com certeza, normando (francesa). Parentes distantes dela nasceram na atual Alemanha; há traços da Dinamarca na família real por casamento. Logo, sua bisavó é, como eu e como você, profundamente inter-racial. 

Em parte, esse é o legado da espécie humana: somos Sapiens, somos Neandertais, somos todos de matriz africana, nossa raiz comum. Sua avó Doria Ragland reforçou o que está em todos nós: a origem na África. Com o tempo e o aumento de melanomas, isso pode ser uma vantagem competitiva... Mas, como tudo contém sua dialética, afrodescendente dos EUA pode ter maior inclinação a pressão alta. A medicina crescerá ainda mais e pode ajudar a reforçar vantagens e diminuir desvantagens.

Expresso um desejo, meu querido bebê. Que essa explicação sobre raças pareça muito estranha quando você for adulto. Na verdade, sempre que estamos falando de raças, estamos introduzindo algum pensamento errático que mistura genética com caráter. Se o mundo de 2060, quando você tiver 41 anos e estiver no apogeu da sua vida, não discutir mais essas coisas, creia-me, você estará em uma sociedade mais feliz do que a de 2019.

Você é uma criança do século 21 e, segundo um autor de agora, Yuval Harari, terá chance enorme de chegar ao 22. Não concebo quais avanços técnicos acompanharão sua jornada nem quais desafios novos estarão presentes. Teletransporte? Falta de água? Energias renováveis? Novos fundamentalismos? Temos sido muito bons em aumentar nossa capacidade produtiva e inventiva ao lado de gestos de violência e imbecilidades variadas. Sempre fomos assim. A humanidade gloriosa e desgraçada é o equilibrista que Nietzsche previra, entre um homem superior e o nada do abismo. O equilíbrio é instável, porém existe.

Você olhará para esta época, espero, com certo distanciamento e alguma náusea. Nossas guerras, nossos atentados, nossos governos autoritários de direita e de esquerda: espero que tudo lhe provoque o sentimento que temos hoje ao olhar as guerras de religião dos séculos 16 e 17. Desejo mesmo que, em algum arquivo histórico, você veja alguém que foi morto por causa de um tênis e um celular e exclame: "Que gente atrasada!". Sim, somos muito atrasados, quase bárbaros, convivendo com violência e desigualdades impactantes e naturalizadas nas nossas sociedades.

Enfim, que você carregue a dignidade que admiro na sua bisavó, o senso de dever e de serviço. Que você adquira o melhor da sua avó paterna, lady Diana, que se dedicou a boas causas, como eliminar minas terrestres. Que você tenha o carinho da sua única avó viva, pois uma avó é algo fundamental na vida e na formação de uma personalidade. Os avós são remansos doces e tranquilos, são pais sem culpa, apenas com afeto. Seu pai talvez não fale muito, mas ele teve uma biografia de contravenções e isso pode tê-lo tornado uma excelente pessoa, pois não esposou a hipocrisia moralista. Quando ele lhe disser "não use drogas", dirá pelo melhor motivo possível: "Eu usei e não são boas". "Evite se vestir de nazista em alguma festa, não há nada a ser celebrado em regimes de morte. Eu errei." Sua mãe é famosa pela inteligência e pela personalidade. Que você seja muito beijado, de forma a desenvolver um lar e uma raiz. Quem possui pais amorosos tem uma resistência mais profunda ao mal e aos desgastes da existência.

Enfim, sua vida tão nova e tão bela enche o mundo de esperança. Toda nova criança é um dom extraordinário. Adultos que se incomodam com bebês que choram ou mães que amamentam deveriam ser tratados. É uma patologia sentir estranheza diante da vida. Que você viva mais de 120 anos, que ajude quem nasceu com menos condições, que tenha vida em abundância, que frutifique sobre a Terra.

Que sua passagem seja de tal magnitude que, ao falecer mais que centenário, possa pensar antes do fim: "Foi tudo tão rápido!". É o que deseja seu tio distante do Brasil, parente por parte de Eva, membro da mesma família genética, inter-racial como você, que teve o privilégio de pais amorosos e que nasceu com o mesmo sangue que o seu, o sangue vermelho da humanidade. Viva muito e feliz, chore, mame, corra e caia. Chore mais uma vez, aprenda, cresça, ame e seja amado. Bem-vindo, Archie! A sua aventura está começando. Viver é uma coisa fascinante! O trono britânico é uma hipótese, a vida é uma certeza. É preciso ter esperança!

LEANDRO KARNAL




01 DE JUNHO DE 2019
COM A PALAVRA

"Não seremos capazes de sobreviver sem expandir a compaixão"

ENTREVISTA | Christopher Germer, PSICÓLOGO, 66 ANOS, Norte-americano, especialista em autocompaixão e mindfulness, esteve em Porto Alegre para lançar um livro.

Autocompaixão não é um sinônimo de autopiedade. Em relação a nós mesmos, a primeira se refere a cuidado, enquanto a segunda designa pena, dó, comiseração. Foi para esclarecer o que está implicado nessa diferença, além de falar de um tema da moda - mindfulness, palavra utilizada por aqui também na versão original em inglês -, que o psicólogo norte-americano Christopher Germer esteve em Porto Alegre para ministrar um curso e lançar o livro Manual de Mindfulness e Autocompaixão - Um Guia para Construir Forças Internas e Prosperar na Arte de Ser Seu Melhor Amigo, escrito em parceria com Kristin Neff. Para Germer, a maneira mais fácil de desenvolver compaixão pelos outros é despertar o sentimento em relação a si próprio.

- Todos já fomos machucados, de alguma maneira. Isso provoca dor. A razão pela qual não temos, como humanos, tanta compaixão é porque já fomos machucados - explicou o autor, em entrevista concedida na sede da Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs).

MINDFULNESS É UM TERMO MUITO USADO HOJE EM DIA, AINDA QUE O CONCEITO NÃO SEJA NOVO. O QUE SIGNIFICA?

Há muitos significados para mindfulness. Se você quiser ver dois monges budistas brigando, é só perguntar para eles qual é a definição dessa palavra. Mindulfness se refere a um estado de ser e estar para o qual não há palavras. Não é nem um estado de pensamento; é um estado de consciência. É um tipo de consciência que não é pensamento. Particularmente, é um tipo de consciência equilibrada, ampla, calorosa, amorosa. Mindfulness tem as qualidades de espaço e calor. Mas também é a consciência da experiência do momento presente, aqui e agora. Podemos estar nesse estado o tempo todo. Por exemplo, podemos estar brabos e conscientes de que estamos brabos de uma maneira ampla e calorosa. Aí, estaremos, de fato, conscientes da raiva. Tudo, potencialmente, é um objeto de mindfulness, qualquer fenômeno. Mas uma definição simples é: saber o que estamos experimentando enquanto estamos experimentando ou ter consciência do momento presente.

OUVI O SENHOR DANDO UMA EXPLICAÇÃO MUITO BONITA SOBRE COMPAIXÃO: TRATA-SE DE AMOR DIANTE DO SOFRIMENTO. O QUE MAIS ACRESCENTARIA A ESSA DEFINIÇÃO?

A compaixão se divide em quatro partes: a primeira é o reconhecimento cognitivo de que existe sofrimento. A segunda é um tipo de ressonância emocional ou empática com o sofrimento: nós sentimos o sofrimento, seja o nosso ou o dos outros, e não apenas pensamos nisso. A terceira é quando temos o desejo de aliviar o sofrimento, ou seja, há sempre boa vontade. E a quarta parte é a ação. Então as quatro são: ver, sentir, desejar e agir. Podemos partir para a ação por meio de nossas palavras, de nossos pensamentos, de nosso comportamento, alguma forma de ação para aliviar o sofrimento.

O SENHOR LUTOU CONTRA UMA ANSIEDADE PARA FALAR EM PÚBLICO POR DUAS DÉCADAS. COMO RESOLVEU ESSE PROBLEMA EM SUA VIDA? LI QUE NADA FUNCIONOU ATÉ QUE APRENDEU O QUE ERA A AUTOCOMPAIXÃO.

É verdade. Durante esses 20 anos, tentei aliviar essa ansiedade de falar em público de várias maneiras. Se você perde uma chave à noite, procura por ela onde a perdeu ou procura por um poste de iluminação? Eu estava sempre procurando pelo poste. Estava sempre focado na ansiedade em vez de descobrir o que estava por trás disso.

QUE TIPO DE SINTOMAS APRESENTAVA?

Suava, não conseguia pensar, não conseguia falar. Ficava paralisado. Meu coração acelerava, minhas mãos tremiam. Certa vez, eu não conseguia falar, e alguém, lá do fundo da plateia, gritou para mim: "Respire!". Tentei tudo o que pude para superar isso, incluindo aceitar todas as oportunidades que tive para falar em público, mas nada funcionou. Como psicólogo clínico, eu era especialista em transtornos de ansiedade. Escrevi uma dissertação sobre isso, era considerado um expert, mas não conseguia resolver a minha própria ansiedade. 

O problema não é a ansiedade, mas a vergonha. Até eu conseguir focar nessa vergonha, o que aconteceu apenas 20 anos depois, não consegui fazer com que essa ansiedade fosse embora. O interessante é que, com a autocompaixão, tratei da vergonha sem nem ao menos saber que era isso. Em outras palavras, tratei-a sendo gentil comigo, mesmo que eu estivesse quebrado, mesmo que fosse uma pessoa com falhas, imperfeito. Ao ser gentil comigo simplesmente por ser quem eu era, a vergonha desapareceu, e eu me tornei capaz de falar em público. Autocompaixão é a capacidade que temos de nos abraçar, com gentileza, como humanos imperfeitos, especialmente quando sofremos ou falhamos.

ANTES DA FALTA DE AUTOCOMPAIXÃO, ME PARECE HAVER UMA FALTA DE COMPAIXÃO... NÃO SEI SE O SENHOR CONCORDA COM ISSO.

Como seres humanos, quase todos nós temos a capacidade de sentir compaixão. Mas a questão é: qual é o tamanho do meu círculo de compaixão? É compaixão apenas por minha família? Por pessoas que se parecem comigo? Ou consigo sentir compaixão por pessoas que parecem ser, de fato, o outro? Essa é a parte difícil. Como expandir a compaixão de forma a incluir aqueles com os quais não necessariamente nos identificamos?

POR EXEMPLO?

Como homem, tenho igual compaixão por mulheres? Como branco, tenho compaixão por pessoas de cor? Como heterossexual, tenho compaixão por homossexuais ou transexuais? Como norte-americano, tenho compaixão por pessoas provenientes de outros países? Podemos ter compaixão por aqueles que não se enquadram nos nossos traços de identidade mais fortes? Essa é a principal necessidade. À medida que o mundo se torna mais globalizado, não seremos capazes de sobreviver sem expandir o círculo de nossa compaixão.

O SENHOR COMENTOU QUE QUASE TODOS CONSEGUIMOS TER COMPAIXÃO. COMO SE PODE CRIÁ-LA OU DESENVOLVÊ-LA? QUAIS SÃO OS MAIORES DESAFIOS?

Acredito que o jeito mais fácil de desenvolver compaixão pelos outros é desenvolver compaixão por nós mesmos. A maior parte das pessoas pensa que já tem muita compaixão ou até mesmo compaixão demais. Se você perguntar "você gostaria de ter mais compaixão?", a maioria vai dizer "não", mas essas pessoas gostariam que outras pessoas tivessem mais compaixão. 

Se quisermos aumentar nossa compaixão, precisamos, em geral, ter mais compaixão por nós mesmos. E, muito rapidamente, quando temos compaixão por nós mesmos, passamos a ter compaixão pelos outros. A primeira vez que falei em público depois de descobrir a autocompaixão, enquanto eu levantava para me dirigir a esse grupo, apareceu uma nova voz na minha cabeça dizendo que seria algo seguro, tranquilo, feliz. Olhei para a plateia. Antes, a plateia era o inimigo porque podia me criticar. E dessa vez eu estava amando a plateia. Na primeira vez em que testei minha autocompaixão, descobri muito rapidamente que a autocompaixão se transforma em compaixão.

 Mas há tantos obstáculos à autocompaixão... alguns são conceituais. Há pessoas que pensam que é autopiedade, ou autoindulgência, ou egoísmo, ou baixa motivação, ou preguiça. Pesquisas mostram completamente o contrário. Autocompaixão tem a ver com aumento da motivação, mais compaixão pelos outros. Pessoas que aumentam sua autocompaixão aumentam sua compaixão. Não há relação com o narcisismo. Nós, enquanto pessoas, temos bloqueios pessoais. Todos já fomos machucados, de alguma maneira, ao procurarmos alguém e sermos rejeitados. E isso provoca dor. Todo ser humano tem isso. 

A razão pela qual não temos, como humanos, tanta compaixão é porque já fomos machucados. O que acontece é que, quando você se dá compaixão, quando você começa a se dar amor incondicional, você descobrirá as condições sob as quais você não é amado. O amor revela tudo o que não é amor. Então, qual é o principal impedimento para a autocompaixão? É o ressurgimento dessas feridas antigas quando passamos a ser gentis conosco. Temos que esperar que isso aconteça e temos que ter uma maneira de trabalhar com essas feridas do passado. Do contrário, pararemos de praticar a compaixão.

COMO PODEMOS DAR AMOR E GENTILEZA A NÓS MESMOS?

Há algumas abordagens simples. Digamos que você esteja em uma situação difícil. Imagine que você teve um amigo próximo nessa mesma situação. O que você diria ao seu amigo? O que você faria pelo seu amigo? Como você o trataria? Outro exemplo: quando estiver em dificuldade, pergunte-se: "Do que eu preciso agora?". As pessoas raramente nos perguntam isso. Portanto, nos fazer essa pergunta é algo muito poderoso. É preciso lembrar de fazer essa pergunta. Mas, com frequência, não conseguimos respondê-la. Não sabemos do que precisamos. Então podemos torná-la um pouco mais específica: do que preciso para me confortar? 

Para me acalmar, para me validar, para me proteger? O que preciso me dar? Do que preciso para me motivar? E também se pergunte sobre como você já vem se cuidando. Pode ser com música, passando tempo com seu bicho de estimação, bebendo algo de que goste muito... Quando estivermos sofrendo, devemos fazer essas coisas por nós. Há técnicas simples que as pessoas podem usar. Pelo mundo, há três maneiras, compreensíveis em qualquer cultura, pelas quais as pessoas identificam a compaixão. Uma delas é tocar alguém de leve, de uma forma que transmita conforto. Podemos sentir a compaixão nesse ato e podemos tocar nós mesmos, nos oferecendo suporte. 

Outra forma é a vocalização gentil: quando alguém está nos demonstrando compaixão, essa pessoa fala de uma maneira muito particular. Também podemos identificar a compaixão do outro pelo olhar, um olhar suave. É difícil fazer isso em relação a nós mesmos, mas podemos nos imaginar olhando para nós mesmos com um olhar gentil. Também diga palavras gentis para você mesmo de uma maneira delicada. Essas são maneiras fáceis e comuns de se trazer a compaixão para dentro de nossas vidas.

QUAL É O EFEITO FÍSICO E EMOCIONAL DA AUTOCOMPAIXÃO NAS PESSOAS?

Passamos muito tempo nos motivando com um empurrão, com autocrítica, em vez de um beijo. Muito do nosso diálogo interior instintivo é crítico ou desdenhoso, particularmente quando estamos sob estresse. Com a autocompaixão, saímos de um estado de ameaça para um estado de cuidado, e então a linguagem e o pensamento se tornam mais carinhosos. Emocionalmente, nos movemos das emoções negativas para as emoções positivas. Fisicamente, carregamos o estresse em nossos corpos, o que gera tensão. Mas quando estamos sendo cuidadosos... Sabe quando alguém nos abraça e nosso corpo relaxa e meio que "derrete"? Isso de fato acontece conosco. Fisicamente, o corpo se torna mais leve, ficamos mais tranquilos.

CERTA VEZ ME VI DIANTE DE UMA TAREFA MUITO DIFÍCIL, QUE TOMARIA MESES DE TRABALHO, EM UM AMBIENTE COMPLETAMENTE NOVO. NUNCA ESQUECI DE ALGO QUE OUVI À ÉPOCA: SEJA LEGAL COM VOCÊ MESMA. COSTUMAMOS SER MUITO DUROS COM A GENTE?

Pesquisas mostram que 78% das pessoas são mais gentis com os outros do que com elas próprias. Cerca de 6% são mais gentis consigo mesmas do que com os outros e, para 16%, os comportamentos se equivalem. Quando temos um desafio, como nos tratamos? Nos tratamos de forma encorajadora, crítica? A maioria das pessoas é crítica quando as coisas dão errado. A resposta para a sua pergunta é sim, somos muito duros conosco, porque as ameaças hoje em dia são, frequentemente, à nossa autoestima, ao nosso "eu". Uma pessoa diz algo rude, eu me comparo com alguém e me sinto desfavorecido... Nosso sistema que responde a ameaças está sendo continuamente ativado por conta de coisas que não se relacionam a nossa sobrevivência. Isso é muito instintivo. Essas ameaças ao nosso "eu" podem acontecer a qualquer momento. Nosso sistema nervoso foi treinado para ter essa resposta rápida a ameaças externas, como, por exemplo, quando um tigre está vindo em nossa direção. Temos um sistema nervoso muito sensível a ameaças que agora está sendo disparado por coisas que não são de fato ameaçadoras. Esse é o problema. E a autocompaixão é autocuidado, o oposto - fisiológico, emocional e cognitivo - da resposta que temos quando estamos sob ameaça.

RECLAMAMOS DEMAIS? SENTIMOS PENA DE NÓS MESMOS COM MUITA FREQUÊNCIA?

Na verdade, essa pergunta significa "qual é a diferença entre autopiedade e autocompaixão?". Essas duas coisas são diferentes. Autopiedade é a sensação de estar enrolado em si mesmo, ruminando muito e não tendo perspectivas para a resolução dos seus problemas. Com a autocompaixão, temos perspectivas para nossos problemas e ainda nos sentimos parte da humanidade. Entretanto, para certos tipos de pessoas, muito combativas, elas precisam ter autopiedade como um primeiro passo rumo à autocompaixão. Elas precisam se tornar capazes de dizer algo como: "Coitado de mim, isso é realmente muito ruim". Autocompaixão significa "coitado de mim, isso realmente é muito ruim" e "você consegue". Mas autopiedade não é autocompaixão, via de regra.

AS REDES SOCIAIS ESTÃO MUITO PRESENTES EM NOSSAS VIDAS HOJE EM DIA. COMO ESSES ESPAÇOS INTERFEREM NA COMPAIXÃO E NA AUTOCOMPAIXÃO?

É uma questão muito relevante e há várias respostas para ela. Um elemento-chave da autocompaixão tem a ver com humanidade. O bonito da autocompaixão é que você consegue encontrar pessoas como você e não se sentir tão sozinho. Isso é enormemente útil para pessoas marginalizadas, pessoas cujas identidades não são aceitas pela sociedade ou por suas famílias. Isso é algo bom, que aumenta a autocompaixão. O aspecto negativo é que, como seres humanos, fomos treinados a sentir, em diferentes níveis físicos e emocionais, gentileza. 

E se, na maior parte do tempo, nossas interações são mediadas pela tecnologia, não experienciamos as relações como eu e você estamos fazendo agora, com a beleza de dois seres humanos em conexão. Portanto, as redes sociais permitem alguma conexão, mas não exatamente a experiência completa de que necessitamos. Uma coisa perigosa sobre a autocompaixão é o bullying. É muito fácil sofrer bullying na internet por parte de pessoas que não conhecem você e não se importam com você. Elas não fariam essas coisas se estivessem sentadas frente a frente com você. Então, se passamos muito tempo nas mídias sociais, não vamos conseguir obter o impacto do cuidado genuíno e estaremos nos expondo ao bullying e a outras ameaças a nossa autoestima. Mas a boa notícia é que a autocompaixão é, em determinadas situações, uma proteção, um antídoto contra essas ameaças. 

O que é muito particular da autocompaixão é o nosso sentido de "eu", que depende de como nos comparamos com os outros e do tipo de aprovação ou desaprovação que recebemos. Mas o valor de cada um e a autoestima também podem derivar do quão gentis somos conosco. A autocompaixão é uma fonte de valorização pessoal, que é mais estável porque é interna, e é uma resposta gentil e compreensiva ao sofrimento. E, então, quando nos sentimos mal, não importa o que esteja acontecendo lá fora, se somos aceitos ou rejeitados, nós poderemos sempre ser gentis conosco quando sofremos bullying ou quando nos sentimos sozinhos. É uma fonte mais segura de autoestima. Assim, isso serve como uma importante proteção contra algumas das vulnerabilidades que surgem com as redes sociais.

LARISSA ROSO

01 DE JUNHO DE 2019
CHRISTIAN DUNKER

O DINHEIRO QUE DESTRÓI CASAMENTOS

Independentemente de como a chamemos, amasiamento, união estável ou casamento, a vida comum vem com certos problemas regulares. Entre eles, o segundo que mais tipicamente destrói ligações é a forma como lidamos com o dinheiro. Isso acontece porque uma forma de vida envolve sempre uma certa equação entre desejo, linguagem e trabalho. 

Ocorre que, nestes novos tempos neoliberais, as regras que interiorizamos em nossa vida laboral expandem-se para dentro da vida do casal, que se torna assim cada vez mais contratualizada e regida por apreciações do tipo custo-benefício. Isso não é uma absoluta novidade desde que o casamento é um dispositivo jurídico, mas também uma unidade econômica. Muitos casais persistem ao longo do tempo porque sentem, cada qual, que as realizações do parceiro, que tanto sacrifício demandam dos dois, são também sucessos compartilhados mutuamente.

Ainda assim, o assunto é pouco discutido entre os casais, fora da crise. Crise, aliás, para a qual a ausência de conversa sobre o assunto costuma nos levar, cedo ou tarde. Freud dizia que cada qual se relaciona com o dinheiro de forma análoga ao modo como lida com sua sexualidade. Há os sovinas e os generosos, os que estão sempre em dívida e os que não resistem aos impulsos. Alguns escondem tudo embaixo do colchão, outros gostam de viver no risco da bolsa de valores e os que optam pela poupança. 

Usualmente cada um tem sua política nessa matéria e imagina que esta é a melhor e única e que o outro, cedo ou tarde, acabará reconhecendo isso. Mas a Lei Universal do Mútuo Merecimento dos Casais mostra que isso é um engodo que acaba custando caro. Geralmente escolhemos um parceiro que tem uma política diferente da nossa. Isso acontece porque, se fosse para ficar em família, no que já sabemos e conhecemos, para que casar?

Aqui temos uma interveniência muito interessante e bem-vinda junto com os novos tempos. Os casais raramente têm ganhos realmente equivalentes, e o problema aumenta ainda mais quando consideramos trajetórias mais longas, feitas de desempregos sazonais, ascensões e reveses profissionais. 

A matéria tem suas fórmulas consagradas no passado, que ainda nos assombram, por exemplo: o marido dedica-se ao trabalho, e a mulher, aos cuidados da casa. Ele galga reconhecimento público, ela aparece como um suplemento privado e dependente, tantas vezes mentiroso, como nos mostra o filme A Esposa. Essa montagem comporta muitas variantes: a mulher que administra o dinheiro da casa, a conta conjunta, o que domina e governa pelo dinheiro, a troca tácita ou explícita entre dinheiro e sexo.

Ainda que consideremos os casais homoafetivos, persiste o problema de que muitas vezes um ganha mais do que o outro. Como fazer com essa diferença? Quem ganha mais paga mais? Quem ganha menos veta o restaurante? Dada a conexão entre sexualidade e dinheiro, associada ao histórico de desigualdade, muitas vezes casamentos não conseguem sobreviver ao fato de que a mulher ganhe mais do que o homem. 

Como se isso ofendesse a virilidade mortalmente, ou do outro lado, a vergonha latente de que estar sustentando o outro, como que a comprar seu amor e daí torná-lo inautêntico. De toda forma o assunto do dinheiro é urgente, e colocá-lo na pauta das políticas íntimas deveria fazer parte do seguro-saúde de qualquer casamento.

CHRISTIAN DUNKER


01 DE JUNHO DE 2019
LYA LUFT

Amigos à parte

De todas as relações que temos no mundo, na vida, ainda mais se for longa, possivelmente esta seja a mais essencial: a amizade.

Pois mesmo entre pais e filhos, e marido e mulher ou amantes, a amizade deve ser um traço de confiabilidade. Confio nele, nela, porque há entre nós, além de laços de sangue e amor, uma amizade que inclui respeito, entendimento, paciência, compreensão, alegria, bom humor. Amigo não tem ciúme, amigo não abandona, amigo não ofende conscientemente, amigo também procura não mentir ainda que doa, a não ser que a verdade fosse demais mortal.

- Que qualidade primeira a gente deve esperar de alguém com quem pretende um relacionamento? - perguntou o jovem jornalista, e respondi: aquelas que se esperaria no melhor amigo. O resto, é claro, seriam os ingredientes da paixão, que vão além da amizade. Pode ser um bom critério. Não digo de escolha - pois amor é instinto e intuição -, mas uma dessas opções mais profundas, arcaicas, que a gente faz até sem saber, para ser feliz ou para se destruir.

Eu não quereria como parceiro de vida quem não pudesse querer como amigo. E amigos fazem parte de meus alicerces emocionais: são um dos ganhos que a passagem do tempo me concedeu.

Falo daquela pessoa para quem posso telefonar não importa onde ela esteja, nem a hora do dia ou da madrugada, e dizer: "Estou mal, preciso de você". E ele ou ela estará comigo pegando um carro, um avião, correndo alguns quarteirões a pé, ou simplesmente ficando ao telefone o tempo necessário para que eu me recupere, me reencontre, me reaprume, não me mate, seja lá o que for.

Mais reservada do que expansiva num primeiro momento, mais para tímida, tive sempre muitos conhecidos e poucas - mas reais - amizades de verdade, dessas que formam, com a família, o chão sobre o qual a gente sabe que pode caminhar.

Falo de pessoas para as quais eu sou apenas eu, uma pessoa com manias e brincadeiras, eventuais tristezas, erros e acertos, os anos de chumbo e uma generosa parte de ganhos nesta vida. Não uma escritora conhecida: sou gente. Com uma dessas amizades posso fazer graça ou fazer fiasco, chorar, eventualmente dizer palavrão quando me irrito ou quando esmago o dedo na porta. (Ou sempre que me der vontade, aliás.)

A amizade é um meio-amor sem o ônus do ciúme - bela vantagem. Ser amigo é rir junto, é dar o ombro pra chorar, é poder criticar (com carinho, por favor), é poder apresentar novo amor ainda que meio esquisito, é poder até brigar e voltar um minuto depois, sem ter de dar explicação.

Quando mais uma vez o destino tirou de baixo de mim todos os tapetes e perdi o prumo, o rumo, o sentido de tudo, foram amigos, amigas - e meus filhos, jovens adultos já revelados amigos -, que seguraram as pontas - pontas ásperas aquelas.

Com amigos, sem grandes conversas nem palavras explícitas, aprendemos solidariedade, simplicidade, honestidade, e carinho. Com eles a gente pode simplesmente ser: que alívio, neste mundo complicado e desanimador, deslumbrante e terrível, fantástico e cansativo.

LYA LUFT


01 DE JUNHO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Em busca de um diagnóstico


Em um espaço de um mês, minha mãe foi internada duas vezes no mesmo hospital e recebeu alta em ambas sem saber direito o que teve, mesmo estando sob o cuidado de excelentes médicos e enfermeiros, e de ter sido minuciosamente examinada. Na falta de um diagnóstico preciso, passei a refletir a respeito desse universo com que tinha pouca familiaridade.

Do ponto de vista do paciente, é uma chatice, claro. Hospital, na maior parte das vezes, está relacionado à doença. A pessoa entra fragilizada, com dor, sem saber se sairá viva e a mercê das escolhas de estranhos - que remédios tomar, de quantas em quantas horas, se pode levantar, o que deve comer: o oposto do livre arbítrio. 

Tem que dar adeus ao pudor também. Seu corpo não lhe pertence mais. Será apalpado, investigado, perfurado. Seu sono será interrompido no meio da noite para que colham seu sangue, tirem sua temperatura, questionem sobre seu cocô. Parece ruim, mas é o paraíso, pois é evidente que o paciente em questão tem um plano de saúde que cobre um quarto individual. Bem diferente da maioria da população, que leva meses ou anos para ser atendida, muitas vezes no corredor mesmo, por falta de leito.

Voltemos ao hospital em sua versão idílica. Um ambiente silencioso, higienizado e distanciado de tudo o que se conhece como realidade, aquela constituída de hábitos, rotinas e compromissos. Dentro de um hospital, não existe sexta à noite, terça de manhã, Dia dos Namorados. É um exílio sem calendário. Um território neutro, ativo 24 horas, onde plantonistas se revezam, médicos entram e saem, doentes se curam ou falecem. Uma amostra condensada da dinâmica da vida.

Sobre a experiência do paciente, acabo de especular. Sobre a experiência do acompanhante, falo com mais propriedade, já que passei muitos dias lá dentro. A questão é que não estamos doentes e há um turbilhão de tarefas aguardando por nós lá fora, além da nossa cama macia. Mas nossa mãe adoeceu. Ou nosso pai. Nosso irmão. Um filho. Você não está acompanhando um desconhecido, mas alguém por quem possui um sentimento grandioso - e com quem quase não conversava mais por falta de tempo.

Era onde eu queria chegar: nunca conversei tanto com minha mãe, nunca rimos tanto, nunca estivemos tão juntas durante os dias que se arrastaram naquele quarto impessoal. Um hospital pode ser um calvário, mas pode ser também o local em que você se liberta de papéis cumpridos mecanicamente e resgata a sensibilidade e a humildade diante da dor alheia. O diagnóstico, no fim das contas, às vezes é apenas este: ausência. E o remédio, presença.

MARTHA MEDEIROS

01 DE JUNHO DE 2019
CARPINEJAR

Apego misterioso


Não menospreze os objetos do outro. Nem julgue pela aparência. Podem ser de estimação. O valor emocional nunca está explícito na etiqueta. Assim, um tênis velho talvez seja o mais confortável. Um chinelo indigente talvez represente a liberdade do lar.

Não são objetos de méritos ostensivos, como relógio antigo e um colar de prata. Mas objetos quebrados, machucados, sofridos, enferrujados.

Meu avô Leônida, por exemplo, entrava em pânico quando não achava a sua tesourinha de aparar bigode, da época de sua adolescência na Itália. Ainda que tivesse uma crise nacional, greve geral, alta do dólar, ele não seguia a sua vida se não localizasse o seu apetrecho da barba. Não importava se o mundo estava em armas ou desalmado, se as trombetas de Jericó já haviam sido tocadas, só desejava desvendar o paradeiro de seu talismã. Suspendia a sua noção de realidade pela fixação da ideia. Não conseguia conversar e se relacionar antes de resolver o enigma.

Na raiva, falava em esperanto. Misturava as línguas e as pátrias, e ninguém decifrava o que dizia.

- Dove é la tesoura de podar bicote?

Às vezes, ele nem queria a tesourinha para usar na hora, era somente para se certificar de que permanecia no mesmo lugar que deixou.

Sua maior indignação foi quando desapareceu o seu pulôver amarelo, gola V, que repousava eternamente na cadeira de espaldar. Tamanho o apego, nem corria o risco de colocá-lo para lavar. Vestia a malha para cortar lenha de manhã, espécie de uniforme da neblina. Qualquer um o enxergava de longe rachando as achas de madeira com a machadinha no quintal.

Depois de procurar incansavelmente nas gavetas e armários, de esculhambar a casa como um assaltante apressado, de revirar o quarto sem compaixão, guardou o orgulho no bolso e teve que pedir ajuda em português soletrado. Chegou perto da nonna que encerava o piso e perguntou se ela não se enganou e pegou a peça por engano (mesmo ciente de que não há engano em casamento de mais de vinte anos). Ela nem necessitou responder.

Leônida enxergou o pulôver amarelo nos pés de sua esposa. De tão velho, havia sido aposentado à força e lustrava agora o chão.

CARPINEJAR

01 DE JUNHO DE 2019
PIANGERS

Escrever é fácil


Estava no corredor número oito do supermercado do bairro assistindo a minha filha pequena fazer um glorioso escarcéu anunciando para todos os clientes o quanto queria ganhar doces e o quanto o seu pai (o papai pop!) era péssimo ao não satisfazer suas vontades chocólatras. Ela gritava coisas do tipo "mas eu queeeeeeeerroooooooooooo" e eu me lembrava que, antes de ter filhos, jurava que jamais aceitaria que filho meu fizesse cena no supermercado, ele iria levar um tapa tão bem dado que ficaria desnorteado e jamais pediria nada nunca mais, pelo contrário, decidiria ali mesmo começar a trabalhar e se formaria em Medicina antes dos 18 anos. 

Pobre ilusão, o fato é que minhas filhas vieram e acabei incapaz de agredi-las, que bom que todas as pesquisas científicas comprovam que palmada é a pior atitude mesmo e o certo é explicar as coisas para a criança. Ufa.

Para piorar, toda vez que minhas filhas dão vexame, tem alguma pessoa que me reconhece por perto, todas as pessoas que leem esta coluna, e meus livros, e veem meus vídeos e palestras e esperam que eu seja o pai perfeito e minhas filhas tenham comportamento impecável. Óbvio que isso não acontece, primeiro porque não sou pai perfeito, pergunte à minha esposa, e segundo porque não existe criança que não faça algum tipo de drama quando quer ganhar alguma coisa.

Lá estava eu no corredor número oito do supermercado e um cidadão de bigode e óculos passou com seu carrinho, percebeu a cena que minha filha estava fazendo e disse: "Escrever é fácil, né?", enquanto eu tentava acalmar minha filha. Alguns leitores são muito desagradáveis, como podem ver. Tenho certeza de que não é o seu caso, mas foi o caso daquele senhor de bigode e óculos, que, se eu não me engano levava papel higiênico no carrinho e não era nem da marca mais cara.

Não tenho vergonha de dizer que aqui em casa minha filha de seis anos lava a louça de vez em quando, já preparou sua própria comida (fez arroz, fritou o bife e o ovo) e sempre que acaba de se alimentar coloca o prato na pia. Ela também escova os dentes e dorme cedo, faz a tarefa de casa e arruma o quarto sempre que pedimos. Considero-a uma menina muito obediente mas, como já disse, de vez em quando dá um show de indisciplina, geralmente em lugares públicos e quando alguém que me considera o melhor pai do mundo está vendo. 

Quando ela não quer ir embora da casa de uma amiguinha, por exemplo, lá estou eu ajoelhado implorando para que ela venha comigo enquanto peço desculpas aos donos da casa. Ou pior, quando estamos em algum restaurante e ela fica chateada de não ganhar sobremesa, todas as pessoas sentadas perto da nossa mesa ouvem os gritos e pensam: "Jamais permitiremos esta algazarra quando formos pais!". Rá, penso comigo mesmo. Faço votos de fertilidade.

Quando uma repórter me perguntou "como criar crianças perfeitas?" e eu respondi, rapidamente: "Não sei!". Não conheço crianças perfeitas, não conheço pais perfeitos e, certamente, não conheço adultos perfeitos. Conheço apenas aqueles que tentam acertar e que aprendem com os erros. Crianças farão pirraça, como fizemos eu e você. Em lugares públicos, minhas filhas colocarão em xeque minha fama de bom pai. Mas elas são comportadas quando ninguém está olhando. Eu juro que são.

PIANGERS


01 DE JUNHO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

MENSTRUAÇÃO

Ciclo biológico sempre foi cercado de tabus que dificultaram a realização de estudos dos transtornos causados por ele

Menstruar é uma característica humana, raríssima entre os mamíferos. Menstruam as mulheres, as chimpanzés, as fêmeas de algumas espécies de morcegos e do musaranho-elefante, animal africano do tamanho de um rato.

Enquanto nas demais espécies a camada que reveste a parte interna do útero (endométrio) é absorvida no fim de cada ciclo, e a fase fértil exibida por meio de inchaço dos genitais externos, de alterações comportamentais e de odores que atraem os machos, nas mulheres a ovulação é mantida em segredo. O único sinal visível de fertilidade é o sangramento vaginal, estrategicamente exposto nos dias em que não há óvulos a fecundar.

Virginia Sole-Smith faz uma revisão na revista Scientific American, na qual explica que o endométrio se espessa no decorrer do ciclo, em preparação para aninhar os óvulos fecundados. Mantê-lo nutrido indefinidamente em condições ideais para a nidação exigiria gastos metabólicos permanentes, evitados ao eliminá-lo para reconstruí-lo no ciclo seguinte.

A menstruação sempre foi cercada de tabus que dificultaram a realização de estudos dos transtornos causados por ela.

Publicada em 2018, uma pesquisa com 738 mulheres da Arábia Saudita revelou que 91% delas referiam pelo menos uma queixa menstrual: irregularidade, interrupção, dores, sangramento abundante.

Levantamentos conduzidos em outros países mostraram que: 1) uma em cada cinco mulheres tem cólicas menstruais fortes, a ponto de limitar as tarefas diárias; 2) uma em cada 16 mulheres sofrem as dores intensas da endometriose, doença em que sangue menstrual e restos de endométrio migram para o interior da cavidade abdominal, instalando-se nos órgãos pélvicos, nos intestinos e no peritônio; 3) uma em cada 10 mulheres apresenta a síndrome do ovário policístico, capaz de provocar irregularidades nos ciclos, problemas dermatológicos e infertilidade; 4) cerca de 80% das mulheres se queixam de sintomas do transtorno disfórico pré-menstrual (TPM) - irritabilidade, depressão, ansiedade - na semana anterior à menstruação, que persistem até o segundo ou terceiro dia depois que o sangramento se instala.

Menstruar 12 vezes por ano, durante anos consecutivos, é fenômeno moderno. Antes da segunda metade do século 20, as mulheres engravidavam cedo e as taxas de natalidade eram altas. Somados aos nove meses de gravidez os períodos de amamentação, cada filho significava dois a três anos de amenorreia. Estima-se que durante a vida fértil uma mulher do passado menstruasse cerca de 100 vezes, número incomparável à média de 400 menstruações atuais.

Além da tendência moderna de engravidar mais tarde e de dar à luz menos vezes, as meninas de hoje menstruam mais cedo. No Brasil e em muitos países, a menarca ocorre em média aos 12 anos de idade. Há apenas 20 ou 30 anos, acontecia seis meses mais tarde; no início do século 20, aos 14 anos.

Dietas com densidade calórica alta, obesidade infantil, sedentarismo, estresse e até fatores ambientais, como a exposição aos bisfenois e ftalatos contidos nos plásticos, explicariam essa precocidade.

O tabu da menstruação vem de longe. Em 1920, o húngaro Béla Shick assegurou ter observado que buquês de flores murchavam mais depressa em mãos de mulheres menstruadas. Concluiu que o sangue menstrual conteria uma espécie de veneno. Na Amazônia, há quem jure que o boto cor de rosa ataca as canoas que transportam mulheres "naqueles dias".

Nos anos 1950, pesquisadores da Universidade Harvard injetaram sangue menstrual em animais. As mortes ocorridas não foram interpretadas como resultantes de infecções bacterianas, mas provocadas por improváveis substâncias tóxicas, às quais deram o nome de menotoxinas.

Associar a menstruação às impurezas é crença presente em diversas culturas. O mesmo preconceito está por trás da dificuldade que as mulheres têm em tocar nesse assunto, em geral restrito à intimidade entre elas.

A falta de pesquisas para desvendar a natureza de um fenômeno biológico que interfere com o cotidiano de metade da população mundial, durante décadas, é reflexo do valor que a sociedade atribui ao sofrimento das mulheres e do comportamento autoritário que os homens insistem em manter para subjugar os desígnios do corpo feminino.

Se sofrêssemos, prezado leitor, as cólicas e os desconfortos comportamentais do período menstrual, aceitaríamos com passividade a justificativa de que "isso é coisa de homem"?

DRAUZIO VARELLA

01 DE JUNHO DE 2019
JJ CAMARGO


PERDÃO, O MELHOR COMEÇO DO FIM

As feridas da alma, tão avivadas com a proximidade da morte, precisam mais do que drogas injetáveis para serem atenuadas

O Alfredo era um homem velho, como são quase todos os Alfredos, e estava doente e escalado para ser um dos 800 mil brasileiros que naquele ano morreriam de morte anunciada. Do desfecho que se acercava, não havia nada que pudesse ser feito para evitar. Quando o soube viúvo, comecei a entender a sua solidão, mas ainda assim surpreendia a falta total de familiares, e me dei conta que o horário de visitas acentuava seu sofrimento solitário e silencioso, em contraste com a enfermaria ruidosa pela presença de numerosos visitantes dos outros pacientes.

Durante três dias, na mesma semana, aproveitei aqueles intervalos para conversar com ele e perguntar se havia algum parente a quem gostaria que avisássemos da sua condição de enfermo. Ele, meio acabrunhado, confessou que parentes ele tinha, mas os que viviam mais perto nunca vieram visitá-lo enquanto estava saudável e, então:

- Agora eu não preciso que venham só para descobrir como ficou minha pele encostada no osso! E o meu irmão Osmar, com quem eu precisava muito conversar antes de partir, mora lá pra cima, nesse Estado novo, que tem nome de rio!

Alfredo me entregou um papel meio surrado com um número de telefone e o DDD 63, que indicava a cidade de Palmas, no Tocantins. Naquela noite, fiz a ligação, confirmei que o Osmar atendia àquele número e me despedi depois que ele rejeitou a minha oferta de telemarketing propondo uma troca de operadora.

No dia seguinte, emprestei a Alfredo meu celular com o número do Osmar no visor. Uma hora depois, quando voltei, o Alfredo chorava, mas as lágrimas que escorriam não pareciam de sofrimento.

Quando cheguei, ele abriu um enorme sorriso e confessou:

- Acho que aquele filho da mãe não acreditou muito quando disse que tô alinhavado, mas o importante é que a gente se acertemos!

A impressionante redução das doses de analgésicos depois daquele dia em que ele, do seu jeito tosco, resolvera uma rusga estúpida, deixou claro que as feridas da alma, tão avivadas com a proximidade da morte, precisam mais do que drogas injetáveis para serem atenuadas. E que, no fim da vida, o perdão substitui qualquer sedativo.

Dias depois, com a serenidade de quem está pronto, ele me chamou para dizer:

- Ah, Dr. quase me esqueço de lhe agradecer por ter-me emprestado o celular, aquilo foi muito bonito.

- Que bobagem Alfredo, a ligação pra aquele Estado que tem nome de rio nem é cara! - respondi.

- Mas e o quanto custa aquelas visitas que o senhor me fez só para que eu não me sentisse sozinho com a enfermaria cheia de parentes dos meus colegas?

Nunca soube se o Osmar, de fato, planejara vir como o Alfredo disse que ele prometera. O certo é que jamais apareceu. Talvez ele pretendesse mesmo, mas vivia longe demais para saber o quanto a pele do irmão já se aproximara do osso.

JJ CAMARGO


01 DE JUNHO DE 2019
DAVID COIMBRA

Por delicadeza, perdi minha vida

Os americanos comem manteiga de amendoim. Eles adoram isso. Esta semana mesmo, a Gail, vizinha do térreo, saiu do apartamento dela levando, nos braços, um pote de manteiga de amendoim do tamanho de um balde. Eu estava no saguão, abrindo inocentemente a caixa de correspondência. Ela parou bem na minha frente com aquele pote na mão e disse:

- Trago manteiga de amendoim para ti e para tua família.

Tive vontade de dizer que prefiro um tratamento de canal a manteiga de amendoim, mas olhei para a Gail e vi que ela estava radiante por me dar o presente. Ela é uma senhora de uns 60 anos, embora pareça menos. Tem cabelos curtos, pintados de loiro. É muito simpática.

Gail foi casada a vida inteira com um homem bem mais velho do que ela. Eram felizes, tinham vida social intensa e um grupo de bons amigos, mas, quando ele entrou na casa dos 90 anos, entrou também em acentuada decadência física. De uma hora para outra, o velhinho não conseguia mais caminhar. Aos poucos, suas energias foram se esvaindo, até que só mexia, de fato, a cabeça, nem falar falava direito. Gail passou quatro anos cuidando dele com devoção. Nos Estados Unidos, serviços profissionais são muito caros. Então, ela mesma era enfermeira do marido. Trabalho pesado.

Um dia, eu entrei no prédio e a Gail veio correndo em minha direção, gritando:

- Me ajuda! Me ajuda! Meu marido caiu!

Corri ao apartamento dela. O velhinho havia escorregado da cadeira e jazia no chão da sala, imóvel. "Será que morreu?", pensei. Mas ele estava vivo. Levantei-o com alguma dificuldade e o acomodei em uma poltrona. Ele agradeceu bem baixinho, só uma réstia de voz. Falei para a Gail que, qualquer coisa, me chamasse. E me fui, sentindo pena dela.

Pouco tempo depois dessa ocorrência, nós nos preparávamos para viajar para o Brasil. Ficaríamos um mês fora. A Marcinha estava com um grande buquê de rosas em casa (sou um romântico, você sabe) e não queria pô-las no lixo. Decidiu dá-las para a Gail. Desceu até o térreo e bateu na porta do apartamento dela com o buquê nas mãos. A Gail abriu, viu as rosas, sorriu de lado e disse:

- Que delicado da sua parte?

O marido dela morrera naquele dia.

Lamentei pela Gail, mas ela reagiu bem. Começou a viajar de vez em quando e retomou a vida social. Volta e meia, passo pela frente de sua casa e vejo-a bebericando drinques com as amigas na varanda. Às vezes, ela vai aos convescotes do Jim, aquele meu vizinho que é louco pelo Bob Dylan e que faz churrasco todos os dias, depois que acaba o longo inverno bostoniano. O Jim é solteiro e deve ter a mesma idade que ela. Por que os dois não se juntam? Sempre cogitei isso (romântico, romântico).

Agora que a Gail estava me oferecendo aquele pote gigante de manteiga de amendoim, eu pensava: por que ela não entrega esse troço para o Jim? Ele é americano, ele decerto gosta de manteiga de amendoim. Porque eu, confesso, eu odeio. Manteiga de amendoim é uma pasta doce, mas DOCE, que você come uma colherada e se arrepia todo.

- Vocês gostam de manteiga de amendoim? - perguntou-me a Gail, toda animada.

- Claro? - respondi, tentando sorrir. 

Ela empurrou aquele pote na minha direção. Peguei. Era pesado.

- Quando visitar vocês, vamos comer sanduíches de manteiga de amendoim.

Senti um calafrio na espinha só de pensar naquela possibilidade. Agora estou com um maldito pote de manteiga de amendoim em casa. Não posso me desfazer dele. Vai que a Gail invente de bater aqui com um jarro de limonada, propondo um lanche com sanduíche de manteiga de amendoim. Lembrei-me de Rimbaud, que chorava:

"Por delicadeza, Perdi minha vida".

Ah, as convenções sociais! Ah, a noblesse oblige! O que temos de suportar para viver em civilização! Certas estão as novas lideranças mundiais, que trabalham para o Ocidente voltar à barbárie. Com mais um pouco da nova política, o baixo calão será elevado às alturas, ninguém terá de ir à escola e você não precisará fazer coisas como comer manteiga de amendoim para ser gentil com a vizinhança. Que a nova política salve o mundo da boa educação!

DAVID COIMBRA

01 DE JUNHO DE 2019
MÁRIO CORSO

Delícias da violência


Explicar o sucesso da série Guerra dos Tronos requer o mesmo número de páginas dessa obra enciclopédica. Vou pinçar uma das razões pelas quais essa história cativou tanto público: a violência maiúscula e onipresente do começo ao fim. Não há trégua para as mortes, torturas, decapitações, mutilações, estupros, castrações, assassinatos - inclusive de crianças. É uma série em que o mal impera e escancara suas possibilidades.

Falaria alegoricamente do nosso tempo? O senso comum pensa o século 20 e o começo do nosso como épocas bestiais. Afinal, tivemos duas guerras mundiais, bomba atômica, genocídios, totalitarismos brutais. Porém, se examinarmos dados sobre o conjunto de atos considerados crime, e o total de vítimas, estamos em declínio desde a Idade Média. O mundo está se pacificando. Não parece, mas é assim. Sugiro aos descrentes um livro de Steven Pinker: Os Anjos Bons da Nossa Natureza. Ele analisa o lento declínio da violência como um todo e o paradoxo de não acreditarmos no nosso progresso civilizatório.

O que mudou foi a sensibilidade para com a violência, agora mais aguçada. Hoje, qualquer manifestação dela é condenada terminantemente. O problema é que algumas boas almas, não satisfeitas em suprimir a agressividade real, julgam necessário exterminá-la também na virtualidade.

Para um raciocínio caricatural do politicamente correto, a violência ficcional, virtual, lúdica, onírica, enfim, de qualquer forma, seria igualmente nefasta. O ideal seria extirpar qualquer resquício de maldade. Só assim seríamos virtuosos. Falo dessas pessoas que condenam os videogames violentos, filmes de terror, são contra que as crianças brinquem com armas, como se esses produtos educassem para a violência.

Talvez essa boa vontade do higienismo da agressividade funcione em algum povo venusiano, mas certamente não em humanos. Nossa história foi imersa em violência e ainda estamos impregnados dela. Não sai na primeira lavada. Por sorte, progredimos, mas sonhamos com vinganças, na imaginação destroçamos quem nos atrapalha. É contraproducente negar o que resta em nós de primatas briguentos e nos forçar a parecer com anjos que não somos. A audiência da série é a desforra dessa tolice.

Ficções como Guerra dos Tronos espelham nossa selvageria íntima, como se a tirássemos de dentro para lhe conhecer a cara, ou melhor, as garras. Só depois de olharmos nosso chimpanzé interior nos olhos podemos domesticá-lo. É o cão que late e não morde.

Enquanto os reinos do escritor George Martin rosnam entre si, nosso lobo essencial uiva suas maldades. Depois de purgadas, esvai-se a vontade de morder os semelhantes. É difícil encontrar fórmulas para diminuir a violência, mas fazer de conta que ela não nos constitui apenas fecha a possibilidade de a arte sublimar parte dela.

MÁRIO CORSO

01 DE JUNHO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

O CAIS ENCALHADO


É fato que o atual ocupante do Piratini, ao avocar a si o protagonismo do anúncio do rompimento, aposta seu capital político na busca de uma solução eficaz para o impasse.

É louvável a preocupação do governador Eduardo Leite com a retidão jurídica no cumprimento das exigências do contrato que previa a revitalização do Cais Mauá, área privilegiada da capital gaúcha alçada a personagem principal de uma novela que se arrasta há décadas. 

O mais recente capítulo desse dramalhão foi o anúncio do rompimento da parceria com a empresa que tentava, outra vez, levar a cabo a empreitada de devolver as margens do Guaíba à convivência plena da população de Porto Alegre. Com base em um relatório da Procuradoria-Geral do Estado, o governador apontou pelo menos seis pontos que vinham sendo descumpridos pela concessionária.

Se tem inquestionável base jurídica, a posição do Piratini não encerra a celeuma. Os advogados da empresa, que se sente prejudicada, já emitiram sinais claros de que devem iniciar, em breve, uma batalha jurídica ao redor do controverso contrato. Seria injusto não registrar que o imbróglio não foi criado pelo atual governo. É mais uma das incômodas heranças cuja origem se perde no tempo e nas responsabilidades, não por acaso, difusas. Mas também é fato que o atual ocupante do Piratini, ao avocar a si o protagonismo do anúncio do rompimento, aposta seu capital político na busca de uma solução eficaz para o impasse.

A disputa judicial, que parece inevitável, não deverá se esgotar no curto prazo. Seu desfecho, a julgar pelos prazos e miríades de recursos à disposição dos litigantes, provavelmente não encontrará mais Eduardo Leite no Piratini.

Espera-se que, até lá, o Cais Mauá seja resgatado do naufrágio ocasionado pela omissão, pela ganância e pela incompetência de atores incapazes de exercer com o mínimo de talento e profissionalismo seus verdadeiros papéis.

Vencida a eventual disputa na Justiça, a iniciativa de revitalizar o Cais Mauá deve partir para sua concretização.

Passaram-se oito anos e cinco meses desde a assinatura com a empresa que agora tem o contrato rescindido. Espera-se que, a próxima, seja a tentativa derradeira. E bem mais célere, apesar da burocracia que teima em impor barreiras ao empreendedorismo no Estado. Envolver o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na construção do novo modelo pretendido pelo governo tem o mérito de trazer mais segurança, pela expertise da instituição na formatação de propostas do gênero. Os porto-alegrenses merecem uma reconciliação definitiva e uma convivência prazerosa com esse ponto de beleza ímpar e marco do nascimento e do desenvolvimento da Capital.

OPINIÃO DA RBS

01 DE JUNHO DE 2019
+ ECONOMIA

A BUSCA DO ANTÍDOTO PARA O DESEMPREGO

Não é só o já espantoso número de 13,2 milhões de desempregados até abril que assombram a crise sem fim da economia brasileira. Além dos que buscam trabalho, outros 28,4 milhões estão subaproveitados: querem trabalhar mais, mas não conseguem, e gostariam de encontrar uma vaga mas nem tentam diante da óbvia dificuldade. Esse contingente é o maior já registrado pelo IBGE desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad), em 2012.

Como o dado da Pnad foi atualizado um dia depois de o Brasil confirmar que andou para trás na economia entre janeiro e março, fica mais evidente a relação entre os números e o círculo vicioso em que o país está mergulhado. Com medo do desemprego, os brasileiros não gastam. Sem consumo, o comércio não faz encomendas. Sem pedidos, a indústria não eleva a produção. Sem perspectivas de fabricar mais, não há contratações, fechando a porta da armadilha da estagnação.

Desde que ficou claro que 2019 cumpriria a sina dos dois anos anteriores - um início cheio de expectativas, que foram definhando ao longo do período -, cresce o debate sobre o antídoto para a anemia econômica do Brasil. No governo, há uma combinação de falta de instrumentos e de crença no papel do Estado como indutor de desenvolvimento.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, acenou com liberação de recursos de PIS/Pasep e FGTS, advertindo que será apenas uma "chupeta de bateria", ou seja, não dura se o motor não pegar e voltar a alimentar em seguida. Economistas discutem desde a hipótese de uma depressão econômica até se instrumentos clássicos, como a redução no juro básico, ainda funcionam. Não é só o Planalto que bate cabeça.

A pressão por cortes no menor juro básico que o Brasil já teve, os atuais 6,5%, vai se intensificar. Até nos Estados Unidos essa expectativa aumenta, o que facilita a vida do Banco Central. Mas cortar a Selic da mesma forma como foi ocorreu até agora, sem que o efeito chegue na ponta também não vai funcionar.

=== MAIO TEM MÁ FAMA NO CALENDÁRIO DOS INVESTIDORES. NA HISTÓRIA RECENTE DO BRASIL, MARCA A EXPOSIÇÃO DA RELAÇÃO DO ENTÃO PRESIDENTE MICHEL TEMER COM A JBS E A GREVE DOS CAMINHEIROS.E QUAL FOI O MAIO DE 2019? MAIA.

OU MELHOR, O CONFLITO ABERTO ENTRE O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, JAIR BOLSONARO, E O DA CÂMARA, RODRIGO MAIA. MESMO ASSIM, A BOLSA FECHOU O MÊS NO POSITIVO PELA PRIMEIRA VEZ EM 10 ANOS.MAS FOI POR UM TRIZ: 0,7%.

=== A gaúcha Omega Engenharia atuou como consultora de uma empresa suíça no leilão de geração de energia para eliminar a dependência de Roraima da Venezuela. Ajudou a emplacar quatro usinas a biomassa de madeira com 10 megawatts cada, que deverão ser instaladas em Boa Vista. A Omega também tem um projeto no Estado, a UTE Cambará, já com licença de instalação.

MARTA SFREDO

01 DE JUNHO DE 2019
CARTA DO EDITOR

Um RS que inspira

Um grupo de estudantes está agitado na Escola Estadual Maranhão, em São Marcos.

- Pega o capacete! - Quem leva o foguete?

- Pega óculos de proteção pra mim? 

Feito o checklist, a turma sai da escola, em uma tarde de outono, em direção a um descampado, distante cerca de três quadras do colégio. Sob a orientação do professor Marcos Grizzon, é lá que eles costumam complementar as aulas de matemática e de física construindo e lançando... foguetes!

A história do talentoso professor Grizzon e de seus alunos, contada pelo repórter Guilherme Justino e pelo fotógrafo Jefferson Botega em três páginas do caderno DOC desta edição, ilustra a nova etapa da seção RS que Inspira, publicada desde o início do ano. O foco agora são iniciativas na área da educação.

As reportagens abrangem desde a educação básica até a universitária. Justino visitará instituições públicas e privadas para conversar com alunos e professores sobre ações inspiradoras.

Um dos principais critérios desta nova fase do RS que Inspira é a capacidade de os projetos serem reproduzidos: serão valorizados aqueles que possam ser replicados em outras cidades, outras escolas, outras universidades.

- Já estivemos em quatro cidades da Serra e do Norte, conhecendo iniciativas envolvendo tecnologia, inclusão, sustentabilidade. Ainda vamos a outras regiões conhecer projetos sobre leitura, robótica, música, economia. O leque é amplo - diz Justino.

Na primeira fase do RS que Inspira, a repórter Aline Custódio contou 15 histórias de pessoas que fazem a diferença em suas comunidades. Confira o impacto social das reportagens de Aline, apresentadas em ZH, em GaúchaZH, na RBS TV e na Rádio Gaúcha:

* Projeto criado por Nara Sonallio, a rede de solidariedade Criança Mais Feliz ganhou 40 novos 1397124194voluntários e mais de 700 seguidores no1397645907Facebook.

* Com mais doações, aumentaram em 30% as arrecadações da professora Rejane Rech, que junta, recicla e vende tampas plásticas para ajudar na defesa de animais em Caxias do Sul. O projeto ganhou 301397645907novos pontos de coleta.

* Voluntários se ofereceram para pagar o aluguel da casa onde funciona a ONG de Pelotas que atende jovens e aposta na música para evitar 1397124194o caminho da violência. Um professor de música 1397124194de Alvorada se ofereceu para doar instrumentos. 1397124194

* Pelo menos outras 15 cidades gaúchas 1397124194estão se organizando para criar o projeto que transforma caixa de leite em isolante térmico. 1397124194

* O físico de Sapiranga Cesar Eduardo Schmitt, que se transforma em Darth Vader para ensinar astronomia a crianças, ficou com a agenda lotada 1397124194de palestras este ano após a reportagem. 13971241941397124194Conheça todas as histórias da primeira fase do 1397124194RS que Inspira em bit.ly/GZHsingular

CARLOS ETCHICHURY

01 DE JUNHO DE 2019
INFORME ESPECIAL

REVOLUÇÃO NO TRANSPORTE URBANO DA CAPITAL


Cerca de 80% dos ônibus da Capital já estão com seus GPS instalados pela ATP, entidade que agrega as empresas do setor. A expectativa é que, até setembro desse ano, o sistema entre em operação. Quando estiver funcionando, mudará radicalmente a relação dos passageiros com os cerca de 1,5 mil ônibus que transitam pelas ruas de Porto Alegre.

Por meio de um aplicativo, qualquer cidadão poderá acompanhar, em tempo real, o deslocamento dos coletivos em uma tela parecida com a do Uber e a do Waze, o que reduzirá o tempo de espera nas paradas.

Também será possível programar alertas e ser informado, instantaneamente, se houver algum imprevisto com o veículo. O salto da qualidade do transporte público da Capital será gigantesco. É a maneira de enfrentar a concorrência dos aplicativos de transporte, que vem se popularizando nos últimos anos.

Com a informação exata da hora em que o ônibus passará, os usuários ficarão menos expostos ao calor, à chuva e ao frio, além de mais protegidos contra assaltos. Nesse item, as ações recentes da polícia, com auxílio da EPTC, reduziram em cerca de 70% as ocorrências nos últimos meses.

TULIO MILMAN