sábado, 2 de janeiro de 2016



03 de janeiro de 2016 | N° 18403 
ANTONIO PRATA

2016


Eis então que, na noite da virada, me aparece em sonho uma figura toda estropiada, coberta de hematomas, seu corpinho esquálido mal dando conta de segurar os andrajos. Naquele furta-cor emocional dos sonhos, o pobre-diabo aparentava ao mesmo tempo velho amigo e desconhecido. “Quem é você?”. Com um fiapo de voz, ele sussurrou: “Sou 2016”.

“2016?! Que aconteceu? Você nem começou, já tá nessa situação?”. “É que eu venho de 2015, meu filho. Eu sou 2015! 2015 rebatizado. “Rebatizado”, ouviu bem? Não recauchutado, nem remasterizado: “re-ba-ti-za-do”!”. A euforia levou o ano a um acesso de tosse do qual pensei que não fosse sair vivo, mas saiu, vivo e sedento: “Será que você podia me arrumar um copo d’água?”. “Claro. Gelada ou natural?”. “Natural. Se eu pegar uma gripe, não chego a 2017. E se não for pedir muito, uma bebidinha ia cair bem.”.

Corri para a sala. Achei meia garrafa de uísque sobre a mesa, junto aos restos da ceia. 2016 surgiu capengando pelo corredor, botou seus olhos famintos no pernil e tive que lhe servir um prato. Depois de banquetear-se, tomar três doses e ouvir deste esforçado cronista algumas piadas ruins sobre a “voracidade do tempo” – eu só tava tentando descontrair... –, o ano desabafou.

“É muita pressão, meu filho. É expectativa demais nas minhas costas. O governo acha que eu vim salvá-lo. A oposição quer que eu venha redimi-la. E o PMDB?! Só se eu dedicasse meus 365 dias... Mas como eu poderia dedicar meus 365 dias ao PMDB, em ano de olimpíadas? O Dunga quer que eu faça o Brasil esquecer o 7 x 1. O COB quer que eu bata o recorde nacional de medalhas. Tudo na última hora. Tivessem falado comigo quando eu me chamava 2002, 2003, mas não. 

Chegam esbaforidos, agora: 2016, medalhas! 2016, crescimento! 2016, impeachment! 2016, sangue! 2016, paz! Ah, que ingênuos vocês são! Eu não posso nada disso, sabe por quê?”. “Por quê?”. “Porque eu não existo!”. “Bom, eu tô te vendo”. “Isso é um sonho!”. (De fato, mesmo sem existir, 2016 estava coberto de razão). “Eu sou um número no calendário. Rabiscos na areia da praia. Um post-it colado no vento. Veja só: às 11:59 de 2015 um sujeito jogou um moeda do alto do Martinelli. Quando deu o primeiro segundo de 2016, ela estava a meio caminho do chão. Sabe o que aconteceu com a moeda?”. “O quê?”. “Nada, pombas! Continuou caindo!”.

2016 se serviu de mais uísque. “Eu não entendo vocês. Quando vocês fazem aniversário, vocês ficam mais sábios? Vocês imediatamente se dão conta da finitude e da urgência e da inutilidade e da beleza de tudo?”. “Acho que não”. “Então por que vocês esperam tanto de mim? A Terra vai continuar girando, passando pelo mesmo lugar de sempre, em torno do mesmo sol. Posso pegar umas lichias?”. “Por favor”. 

“Outro dia, um grego disse que um homem nunca entra duas vezes no mesmo rio, porque da segunda vez já não é o mesmo homem, nem o mesmo rio”. “Heráclito”. “É. Esse aí. Uma besta quadrada! É sempre o mesmo homem, sempre o mesmo rio, sempre eu, igualzinho”. Dito isso, 2016 matou o uísque num gole, soltou um arroto formidável e saiu trôpego pela madrugada, rumo a fevereiro, já no ponto pro Carnaval.



03 de janeiro de 2016 | N° 18403 
MOISÉS MENDES

O fim do Brasil


A revista britânica The Economist pintou um quadro terrível para o Brasil em 2016. É uma análise profunda que remete, pelo conjunto de desgraças, para o fim sem volta. A imprensa brasileira repercutiu a informação nos últimos dias do ano.

A Economist é a revista do pensamento liberal, que só funciona na sua forma genuína como pensamento, com todas as suas variações. Funciona como aqueles videntes de turbante que jogam búzios no fim do ano: a maioria presta atenção no que eles dizem em entrevistas na TV, ouve respeitosamente, mas se pergunta: qual é o fundamento?

Os búzios da Economist afirmaram em 2008 que o Brasil escaparia da crise mundial dando cambalhotas. Mas, antes, não previram nada da crise de 2008, assim como ninguém da mesma turma previu que a economia quebraria junto com a quebra do banco Lehman Brothers.

O que uma previsão sobre o fim do Brasil significa? Que as forças internas destruidoras da política, que paralisaram o país, ganham o reforço das visões de fora. Internamente, que se fragilize o governo para que, pela consequente desorganização da economia, destruam-se demandas, expectativas e sonhos. Externamente, que se procure atender às necessidades mais imediatas dos “investidores”. É a visão financista do mundo, de um sistema que funciona apenas para si mesmo.

Enquanto isso, ações disruptivas (essa é a palavra agora) trituram modelos. Dos serviços de táxis à música, à saúde, às comunicações, à TV, ao cinema. Tudo, inclusive o jornalismo, é assombrado por inovações. O Uber, a Netflix, o Skype, o Facebook e o WhatsApp pulverizam, recriam e atingem todas as áreas. Menos o sistema financeiro.

Bancos, especuladores, derivativos, bolsas sem conexão com a economia real e os que falam por eles – tudo se mantém como está. Repete-se, em nome da manutenção do esquema, o que os escravistas diziam, no século 19, inclusive em Londres, sobre o possível fim de seus negócios: o mundo acabaria sem escravidão.

O mundo visto pela Economist nos convence de que não poderemos viver sem o sistema financeiro do jeito que existe. Os automóveis já andam sem motorista, daqui a pouco todos teremos um chip na cabeça, mas o modelo de transferência de renda para o sistema é intocável.

O tal sistema aperfeiçoou a capacidade de convencer os próprios usurpados de que assim avança o capitalismo e que a normalidade mundial depende das suas virtudes. Os submetidos ao garrote dos bancos avalizam a própria miséria e se deliciam com a economia liberal das revistas.

Otimistas com a ruptura chegam a antever que teremos, em breve, a destruição disso tudo. Estaríamos próximos da economia colaborativa, que só se viabilizaria sem a intermediação medieval que os bancos ainda exercem, sendo privados ou estatais.

Aguardemos, porque capitalistas mesmo, no sentido de que correm riscos, submetem-se a mercados, disputam consumidores (e enfrentam os bancos), são os donos de padarias, lavouras, mercadinhos, ferragens, restaurantes.

Todos somos reféns dos bancos. Se quebrarem, todos quebram junto, como aconteceu em 2008. Espera- se que um dia, quem sabe, os acionadores de processos, produtos e mentes disruptivas os desafiem. Mas os profetas londrinos estariam preocupados? Os búzios dizem que não.


03 de janeiro de 2016 | N° 18403 
L. F. VERISSIMO

Criadores

O doutor Victor Frankenstein finalmente procurou um advogado. Que o recebeu com surpresa, e depois se desculpou:

– É que eu vi o nome “Frankenstein” na minha agenda e pensei...

– Que eu era o monstro, não é? Todo mundo se engana. Frankenstein sou eu, não o monstro que eu criei. Ele não tem nome, mas se apresenta como “Frankenstein”, e está fazendo uma carreira artística de sucesso, ganhando muito dinheiro. Com o meu nome! É sobre isso que vim consultá-lo.

– O senhor quer que...

– Que ele pare de usar o nome “Frankenstein”. E me pague por ter usado o nome sem minha permissão, todos esses anos. Quero meus direitos de criador! Fui eu que juntei e costurei as partes do seu corpo, fui eu que dei vida ao monstro. Tudo sem receber um tostão! Ou ao menos um “muito obrigado”.

– Vamos ver o que se pode fazer – disse o advogado.

Semanas depois, o dr. Frankenstein foi chamado ao escritório do advogado. Que lhe deu a notícia:

– A questão da sua ação contra o Frank... Digo, contra o monstro que usa o seu nome, se complicou.

– Como? – Apareceu outra pessoa que se diz criadora do monstro. Aliás, ela alega que criou o senhor também.

– O quê? Quem é essa impostora?

– O nome dela é Mary Shelley. Escritora. Ela diz que inventou o senhor e que o senhor inventou o monstro, portanto ela se considera criadora dele também. E também reclama que nunca recebeu nada dele.

– Não podemos fazer um acordo com ela? Dividir os direitos de criação, qualquer coisa assim?

– Vamos ver o que se pode fazer – disse o advogado. Foi feito o acordo com Mary Shelley. Mas...

– Surgiu outro que se diz criador – disse o advogado. – Quem? – perguntaram o dr. Frankenstein e Mary Shelley, em uníssono.

– Deus. – Deus Nosso Senhor? Criador do céu e da terra?

– O mesmo. Ele diz que guiou a mão de Mary Shelley quando ela escreveu o livro. Que guia a mão de todos os artistas. E que dá vida a todas as criaturas, monstruosas ou não.

– E Ele quer receber os direitos de criação também?

– Quer, mas está disposto a conversar. O que vocês acham?

– Sei não... – disse Mary Shelley.

E o dr. Frankenstein: – Não se estaria criando um precedente?



03 de janeiro de 2016 | N° 18403
CLÁUDIO MORENO*

OUTRA VISÃO SOBRE O ACORDO

Ao soar a última badalada da meia-noite do dia 31, o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa passou a ser obrigatório em todo o território nacional. E o que isso muda em nossa vida – na minha e na sua –, caro leitor? Eu mesmo respondo: “Nada”. Por um açodamento de nossas incultas autoridades, o Brasil já havia “queimado a largada” e determinado, quase três anos antes do prazo combinado com os demais acordantes, que nós outros deveríamos começar a observar as poucas alterações introduzidas. Meio a contragosto, fomos nos acostumando a elas, que são poucas e brandas.

Em primeiro lugar, nenhuma palavra teve letra suprimida ou acrescentada (no Brasil). Quanto à acentuação, (1) não se usa mais o trema; (2) não se acentuam os hiatos êe, ôo (agora se escreve voo, zoo, veem, leem); (3) os ditongos abertos éi, éu, ói só levam acento nas oxítonas (anéis, herói, mas heroico e ideia); (4) dos acentos diferenciais, só restaram pôde, pôr (v.) e fôrma (opcional), além dos plurais têm e vêm. 

Os vocábulos compostos que tinham hífen continuam a ter (cachorro- quente, obra-prima etc.); a mudança importante (e para melhor!) foi com os prefixos: usa-se sempre o hífen antes do H (anti-herói, super-homem) e no encontro de vogais ou consoantes iguais (contra-ataque, mas contraordem, contragolpe; super-resistente, mas contrarrevolução).

O único problema é que esses três anos adicionais, concedidos pela presidente Dilma, deveriam ter sido empregados por alguma comissão especializada em revisar e aprimorar as regras da redação original. Jacaré revisou? Não. Nem eles – o que deixa ainda perigosamente instável o nosso sistema ortográfico.

O futuro dirá.

Professor e escritor*


03 de janeiro de 2016 | N° 18403
ARTIGOS - DIANA LICHTENSTEIN CORSO*

UM CONSOLO A CADA ESQUINA

Não sei se é só Porto Alegre que vive uma invasão de farmácias. Edificações vêm abaixo ou se transformam para dar lugar a esses bem iluminados, coloridos e amplos negócios. Lá há substâncias que dão conta de cabelos e pele irretocáveis, dores no corpo e na alma, síndromes que nossos avós nem sequer suspeitavam que fossem possíveis. Você pode adquirir uma variedade de vitaminas que fariam Popeye dominar o mundo e até, se fizer questão, remédios realmente necessários.

Não estou aqui para olhar de fora, sou hipocondríaca profissional e adoro pílulas milagrosas para meus males. Também sou capaz de perder bastante tempo escolhendo produtos de higiene que tornem meus dentes alvos, minha pele uma seda e meus cabelos esvoaçantes. Porém, com a chegada dos 50 anos, há o perigo de sair com os cabelos alvos, os dentes esvoaçantes, mas...

Além das farmácias, são também endêmicos os salões de beleza, agora rebatizados de estéticas, assim como as lojas especializadas em animais domésticos, as pet shops. As primeiras, no passado recente, cuidavam dos cabelos, unhas e ocasionalmente uma maquiagem para festas. Hoje estendem seus serviços muito além do enfeite: pele, gorduras e todo tipo de supostas irregularidades encontram ali alívio e correção. Já as pets são lugares totais. Mistura de cuidados de saúde, estética, creche e loja, oferecem atendimento imediato, doutores 24 horas. Do jeito que andam as emergências dos nossos hospitais, ando invejando minha gata.

O que isso diz de nós?

Que acreditamos em substâncias mágicas: os remédios. Eles de fato são maravilhosos ao combaterem a dor e a morte. Porém, os usamos também para males menores, bastante vagos, assim como esperamos deles proteção e vitalidade. Sem dúvida, nas farmácias encontra-se a alquimia das soluções imediatistas, basta engolir.

Que cuidamos dos animais porque nos oferecem um afeto tranquilo e previsível. Para eles, toda forma de amor vale a pena, são fiéis e devotados, raramente pedem divórcio e, ao contrário dos filhos, moldam-se às expectativas dos “pais”. As pessoas nos cansam com suas exigências e neuroses, nunca sabemos o que esperar de um amor entre humanos.

Já as estéticas são como uma mãe de aluguel que cuida, massageia, nos alisa, elogia, colore e enfeita. Até porque as mães descuidam, esquecem, acreditam que crescemos. Pagando, o mimo é garantido e vitalício.

Por isso, consumimos banhos e tosas, esmaltes, cremes, drenagens e luz pulsada, perlimpimpim, vitaminas, analgésicos e calmantes. Como não ter uma pet shop, uma estética e uma farmácia a cada esquina? A conclusão é inevitável: tornamo-nos uma civilização preguiçosa, imediatista e carente. Dá uma vergonha, né?

Psicanalista - zhora.co/DianaCorso

Recessão brasileira pode comprometer economia por dez anos


No período entre 2011 e 2020 o Brasil avançará quase nada. Por que ficamos parados?

Observador da economia  (Foto: Época )

Na história e na memória de muitos brasileiros, os anos 1980ficaram registrados como a década perdida. Após o período do milagre econômico e um ano de crescimento espetacular, 1980, o Brasil entrou numa fase dramática de estagnação social e econômica. A tristeza daquele momento podia ser observada na falta de expectativas dos cidadãos: o sonho típico do jovem brasileiro instruído e de classe média era deixar o país. Pois aconteceu de novo.

Após outro período de robusto crescimento, desta vez com progresso social, e outro ano redondo de crescimento espetacular, 2010, caímos na mesma armadilha de que parecíamos ter escapado. O ano que termina dá sinais claros de que estamos, novamente, no meio de uma década perdida. As projeções, mesmo as mais otimistas, indicam que o brasileiro chegará a 2020 mais pobre do que estava em 2011. A renda não conseguirá vencer a inflação, nem a produção conseguirá superar a pobreza. Haverá como escapar, de novo, da armadilha?

A resposta que a presidente Dilma Rousseff deu a essa pergunta foi asubstituição de Joaquim Levy por Nelson Barbosa no Ministério da Fazenda. Ao longo do ano de 2015, Barbosa manteve uma disputa surda com Levy dentro da área econômica do governo. O último capítulo dessa disputa se deu em torno do valor que o setor público brasileiro se propõe a poupar em 2016 – a recomendação dos economistas era 2% do Produto Interno Bruto (PIB), dada a situação de caos da dívida pública brasileira. Joaquim Levy propôs um valor bem mais tímido, 0,7%. Barbosa queria poupar ainda menos, 0,5% – e foi sua opinião que prevaleceu. Numa situação em que os principais problemas do país – inflação, desemprego, falta de confiança dos investidores – decorrem do excesso de gastos públicos, Nelson Barbosa é o nome certo para a Fazenda? Por esse episódio, e por seu retrospecto, há dúvidas.

A nomeação de Barbosa se deu numa semana recheada de notícias ruins naeconomia. Uma segunda grande agência global de classificação de risco, a Fitch, tirou do Brasil o selo de destino seguro para empréstimos, o “grau de investimento”. Ao menos 18 grandes empresas brasileiras foram rebaixadas na mesma leva, incluindo Bradesco, Itaú e Petrobras. A terceira grande agência, a Moody’s, é a única a ainda manter o “grau de investimento”, mas é questão de tempo para que o país perca essa nota. Para coroar o momento tenebroso, o banco central dos Estados Unidos, o Fed, a fim de conter uma inflação nascente, começou a elevar os juros no país, após nove anos de taxas estáveis ou em baixa. Isso atrai dólares para lá. As novidades ruins significam menos dinheiro disponível no Brasil, ou seja, menos negócios, menos investimento e menos empregos. A situação é séria a ponto de ninguém esperar reversão em menos de dois anos. “O Brasil dá sinais de fraqueza e piora do ambiente econômico desde 2012 e não vejo chance de recuperação antes de 2019”, afirma Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria e ex-presidente do Banco Central. “Vamos passar aí quase uma década com crescimento muito baixo.”

Antever uma década perdida deixou de ser vaticínio pessimista. Mesmo que o país volte a crescer nos anos à frente e se encontre num bom momento ao fechar a década – o que é perfeitamente possível –, deveremos chegar a 2020 em condições econômicas e sociais parecidas com as de 2011 (leia nos gráficos).

Juros e inflação, no Brasil, mantêm-se em níveis muito acima dos razoáveis para o mundo desenvolvido. No fim da década, continuarão assim. Um dos indicadores mais fundamentais de desenvolvimento é o PIB (Produto Interno Bruto) per capita, ou a produção total do país dividida por seu número de habitantes. Não se trata de um indicador perfeito, mas dá uma ideia bem razoável do nível de bem-estar da população. Nos bons anos 2000, o PIB per capita brasileiro, em dólar, avançou da casa dos US$ 3 mil para mais de US$ 10 mil. Nos anos à frente, esse indicador rolará ladeira abaixo. “O assalariado ganha hoje 35% menos que no início do primeiro mandato da presidente Dilma”, diz o consultor Roberto Luis Troster, ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). 

Numa projeção com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), Troster afirma que um cenário ruim, porém realista, é que o país volte a crescer em ritmo forte e sustentável, acima dos 3% ao ano por anos seguidos, somente em 2024. É difícil o país reduzir seus níveis de pobreza com crescimento inferior a 2,5% ao ano – a média de crescimento global, neste ano, será 3%. Crescer em ritmo forte daqui a cinco ou dez anos será, provavelmente, mais difícil para o Brasil, porque a população estará estável e envelhecendo. Por isso, a perda de uma década significa uma tragédia social.
Década perdida - Renda do cidadão (Foto: Época)
Década perdida - Juros altos (Foto: Época)
A década perdida - Inflação (Foto: Época)
Podem-se ler variações do mesmo prognóstico ruim a respeito do Brasil em relatórios do FMI, das grandes consultorias e dos maiores bancos. Na avaliação do Bradesco, o PIB per capita recuará da casa dos US$ 13 mil para perto de US$ 10 mil ao longo da década. E o PIB crescerá, na média, 1,5% ao ano, abaixo do necessário para abrir postos de trabalho suficientes. “Não conseguimos ainda enxergar uma estabilização da economia”, afirma Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco e ex-diretor de Política Econômica do Banco Central. Varia a forma de apresentar o problema. “Acho um exagero falar que já estamos no rumo de uma década perdida – embora os riscos de que isso aconteça não sejam pequenos”, afirma Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda. Mas o economista não deposita suas esperanças no futuro próximo. “O Brasil começou a viver, nos últimos dois anos, o que pode ser o mais longo período de baixo crescimento de sua história. Uma possível reversão só se dará a partir de 2019 e com uma renovação de lideranças”, diz.

Num momento de mais sorte, o Brasil talvez pudesse contar com um puxão de forças externas, como uma forte expansão da economia dos Estados Unidos ou da China. Não há no horizonte sinal desse tipo de alento. O crescimento nos Estados Unidos deverá continuar tímido e o da China em desaceleração. A Argentina, sob o novo governo de Mauricio Macri, tem boas perspectivas. Mas demorará a resolver a própria crise e se tornar novamente um parceiro comercial promissor para o Brasil.

O governo, usualmente fonte das projeções mais otimistas, reconhece obstáculos sérios no caminho. Levy afirmou que o Brasil retomará sua expansão no fim de 2016, contrariando a maioria das projeções do mercado, que aguardam esse fenômeno apenas em 2017. Mas admite que o país não está pronto para sustentar esse crescimento. “Precisamos estar preparados para que daqui um ano, quando a economia voltar a crescer, a gente tenha enfrentado essas questões da oferta”, disse ele, em outubro. “Questões de oferta” significa conseguir gerar produtos e serviços em volume que atenda à demanda, sem que haja estrangulamentos de energia, estradas ou crédito. 

Corrigir ao menos alguns desses aspectos exige que o governo inspire confiança no mercado – algo que parece impossível neste momento. Muitas medidas para corrigir as distorções não exigem dinheiro. Simplificação de regras e um rumo claro poderiam fazer muito para facilitar a abertura de empresas, atrair capital externo e incentivar a oferta de crédito privado de longo prazo no país. Mas nada disso está sendo feito. Com as crises econômica e política alimentando uma à outra, nada indica que essas peças, fundamentais para o desenvolvimento, estarão no lugar, à espera do crescimento, venha ele em 2016 ou 2017.

Diante de uma década perdida, o que fazer? Por mais desanimador que soe o prognóstico de médio prazo, deve-se lembrar de que o crescimento e o desenvolvimento não serão retomados por simples gravidade, nem no longo prazo, nem nunca. Não há lei cósmica a empurrar sociedades no rumo da prosperidade. Se os brasileiros quiserem que a próxima década seja diferente da atual, será necessário construir as condições para que isso ocorra. Parte do avanço talvez esteja no nascedouro. Se chegarmos à próxima eleição presidencial com corruptos mais receosos de roubar e candidatos mais receosos de mentir, estaremos no rumo certo.
Google car, carro sem motorista do Google, primeiro protótipo a rodar sem volante pelas ruas (Foto: Divulgação)
As consequências de um acidente de trânsito não expressam a visão de mundo do motorista do carro. Suas reações são fruto de decisões tomadas num instante de pânico, com pouca informação ou reflexão, e executadas sem a destreza de um piloto de corrida. Discute-se a prudência do motorista – se estava embriagado ou acima da velocidade permitida –, mas não suas escolhas. Atropelar um pedestre, machucar o bebê que dorme no banco de trás ou bater em um poste são consequências atribuídas à fatalidade. O que ocorrerá quando entrarmos na era dos veículos autônomos, como o Google Car, da imagem acima? Eis um dilema ético que começa a ser estudado pelos filósofos. 

Diante de um acidente inevitável, a máquina não sente pânico nem improvisa. Apenas faz mais uma manobra. Como sempre, obedece às linhas de código programadas por seu criador. Engenheiros, advogados e psicólogos contratados por montadoras discutem o que até agora foi resultado fortuito de atos reflexos: quem salvar – e quem matar – em primeiro lugar? “Se dissermos ‘a máquina decidiu, não eu’, não estaremos sendo honestos”, diz a ÉPOCA Michael Sandel, professor de filosofia na Universidade Harvard, popular por suas aulas sobre julgamentos morais. “Algum humano desenhou aquela máquina, escreveu aquele programa e fez aquela escolha.”

Imune a imprudência, cansaço e distrações, o veículo-robô poderá evitar quase todos os acidentes de trânsito. Mas não todos. E, em alguns casos, uma ou algumas mortes serão o mal menor. Conforme a circunstância, a fim de causar o mal menor, robôs terão de saber tomar decisões de vida e morte. Em 1967, a filósofa inglesa Philippa Foot propôs o “dilema do trenzinho”, que exige uma escolha entre seguir no mesmo trilho e matar cinco operários que estão adiante ou tomar um desvio e matar um operário só. 

Nas ruas dos Estados Unidos desde maio e com lançamento previsto para meados de 2020, o Google Car – um carro sem volante, em que o passageiro pode apenas apertar um interruptor de emergência – transforma o exercício meramente teórico em um problema real, para o qual haverá uma resposta. Ao mesmo tempo, expõe o limite das leis da robótica propostas pelo escritor de ficção científica Isaac Asimov, segundo as quais um robô não pode ferir um humano. Em certas circunstâncias, ferir ou matar é inevitável. Resta escolher quem.

Fabricantes de carros autônomos relutam em revelar os critérios de julgamento de seus carros. Reduzir o potencial gasto com indenizações é uma estratégia racional – mas talvez uma péssima escolha de mercado. “Mulheres e crianças em primeiro lugar”, como se recomenda em situações de emergência, a exemplo de naufrágios, pode não ser um bom argumento de vendas entre homens adultos. 

Um carro disposto a preservar pedestres, acima de compradores, poderia encalhar nas lojas. Salvar a própria pele, uma opção biologicamente justificada quando o motorista é um humano, torna-se impopular para carros autônomos. O programador do carro estaria salvando não a si mesmo, mas a seu cliente. “Privilegiar quem pagou é moralmente inaceitável”, afirma Sandel. Tornar a escolha aleatória pouco serviria para aliviar a pressão sobre os fabricantes. Para Sandel, isso também é fazer uma escolha. 

Montadoras e universidades estão em busca de um padrão de conduta. “Queremos discutir protocolos comuns”, diz Thomas Lukaszewicz, gerente de direção autônoma da Ford, em entrevista a ÉPOCA. Além de impedir campanhas contra uma ou outra empresa, o acordo geral serviria para unificar as regras de trânsito no mundo inteiro. Regras locais tornariam o desenvolvimento caro.

Enquanto não firmam um acordo sobre como reagir a um acidente com vítimas – e com a nobre intenção de jamais precisar recorrer a ele –, montadoras buscam duas formas de evitar acidentes. Uma é isolar os carros autônomos. “Queremos faixas exclusivas”, diz Lukaszewicz.

 “Não sabemos se os motoristas ao redor vão respeitar os carros autônomos ou provocá-los.” Fundador da marca de carros elétricos Tesla, o empresário Elon Musk teve uma amostra da curiosidade irresponsável do público. No mês passado, Musk liberou uma atualização de software que tornou o sedã Tesla S capaz de andar sozinho em parte da viagem – é, portanto, o primeiro carro parcialmente autônomo do mercado (no vídeo, a demonstração de um protótipo parcialmente autônomo), de nível 3 dentro da classificação do departamento de trânsito dos Estados Unidos (leia no quadro abaixo)

No Brasil, carros como Ford Focus e VW Golf podem estacionar sozinhos, com nível 2 de automação. Em menos de uma semana, já pululavam na internet vídeos com carros da Tesla flertando com o perigo, por falhas de funcionamento em vias mal sinalizadas ou por irresponsabilidade de seus motoristas. Musk ameaçou pôr de castigo os clientes malcomportados. “Há uns vídeos bem malucos no YouTube”, disse. “Isso não é bom. Vamos restringir as condições em que o piloto automático pode ser ativado, para minimizar a possibilidade de pessoas fazerem loucuras.”

No funcionamento e na aparência, que lembra um coala, o carro do Google tenta seguir o mantra da empresa: “Não seja mau”. Feito para o trânsito nas cidades, onde a proximidade com pedestres e outros carros torna o convívio mais difícil, sua velocidade é limitada a 40 quilômetros por hora. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o risco de um acidente – e a gravidade de suas consequências – aumenta exponencialmente em função da velocidade. 

Um pedestre atropelado por um carro a 30 quilômetros por hora tem 90% de chances de sobreviver. A 45 quilômetros por hora, as chances caem quase à metade. A chance de um passageiro morrer numa batida a 80 quilômetros por hora é 20 vezes maior do que a 30 quilômetros por hora. Ao andar devagar na cidade e isolado nas estradas (ou em comboios, liderados por um piloto profissional), os carros autônomos poderão evitar para sempre acidentes fatais. Mas isso não mudará uma realidade: desde o primeiro dia, eles estarão programados para matar.
Níveis de automação de automóveis (Foto: Departamento de Trânsito dos Estados Unidos (NTHSA))


RUTH DE AQUINO
23/12/2015 - 21h15 - Atualizado 23/12/2015 21h15

O papa Francisco e o falso Natal

Imagino quanto os políticos brasileiros teriam a aprender com o papa em humildade e dignidade


Num ano em que o Brasil fez mal ao fígado e o mundo foi atacado com crueldade pelo terror islâmico, um hermano argentino de quase 80 anos nos encheu de esperança na humanidade. O papa Francisco pode até dizer, a cardeais e bispos, que continuará a “reforma da Igreja”. Modéstia. Francisco é um revolucionário. E por isso elegeu a corrupção como um dos maiores males a combater. Não só a corrupção alheia. Ele substituiu o conselho do Banco do Vaticano. Enquanto viver, não quer mais testemunhar desvios do dinheiro destinado à caridade.

Francisco sabe o que diz. Sabe como dizer. Sem papas na língua, amedronta os “duros” no Vaticano. Aqueles que se agarram a uma “autoridade divina” para manter regalias e continuar acima do bem e do mal. Nosso papa sabe como conquistar católicos e não católicos para sua cruzada utópica. Porque sua palavra é a palavra da paz, da tolerância, do diálogo entre opostos, mas também do combate às guerras. E, por tudo isso, é reeleito Personagem Mundial e Líder do Mundo por diferentes organizações em diversos países.

O papa Francisco jogou por terra a imagem dúbia e conservadora que o Vaticano muitas vezes projetou sobre o mundo, ao cobrar a punição de todos os religiosos que cometeram pedofilia. O papa é pop e tem um sorriso contagiante. Sua falta de medo deriva de sua bondade e de sua confiança no outro. E também de uma profunda perspicácia da diplomacia internacional e dos grandes temas que nos afligem, dentro e fora de nossas casas.

Escreveu uma encíclica sobre o meio ambiente, algo que jamais moveu os sumos pontífices anteriores a um mero pronunciamento. Sua palavra de amor e compreensão a todos que não se encaixam nas regras, sejam homossexuais, transexuais ou mulheres que se submeteram a um aborto, causou ondas de espanto no Vaticano e no mundo. Aí está, pensamos nós, um ser extraordinário.

“Temos de derrubar muros e construir pontes.” Essa é uma frase favorita do papa Francisco – o primeiro na História a convidar um imã (líder religioso muçulmano) a subir com ele em seu papamóvel.

Seu nome de batismo é Jorge Bergoglio. Imagino quanto os políticos brasileiros, que gostam de ser fotografados nas missas e nos cultos, teriam a aprender com este papa! Em humildade e em dignidade. Ele rezou uma missa nas Filipinas no meio de um tufão – protegia-se com uma capa amarela, como se fosse mais um na multidão de fiéis. Quando foi aos Estados Unidos, andou num carro Fiat 500. Sempre, nos lugares mais perigosos ou em momentos conturbados, aproveitou para se misturar aos pobres, carentes e desassistidos. Aos deficientes físicos, às crianças, aos velhos.

O papa não para. Suas viagens em 2015 o levaram a 11 países de quatro continentes. Países em conflito ou simplesmente países esquecidos. “Por favor, não temos direito a permitir mais outro fracasso neste caminho de paz e reconciliação”, disse ele, sobre as negociações para um acordo de paz na Colômbia, entre as Farc (Forças Armadas Revolucionárias) e o governo. Seu voo histórico entre Santiago de Cuba e Washington mostrou sua fibra, a fibra de um homem comum – em toda a santidade embutida nesta expressão: “Um homem comum”.

No dia de seu aniversário de 79 anos, 17 de dezembro, o papa decidiu canonizar madre Teresa de Calcutá, a quem se atribui a cura milagrosa de um engenheiro brasileiro que sofria de um câncer terminal no cérebro e hoje vive com saúde, aos 42 anos. Madre Teresa é um símbolo da Igreja que o papa Francisco defende, mais comprometida com os pobres e com os que sofrem.

Madre Teresa foi até as “periferias da existência”, uma expressão usada por Francisco para se referir a todos os abandonados, que sobrevivem à margem das sociedades. Na periferia material, estão seres humanos sem casa, sem educação, sem saúde, sem dignidade. Na periferia afetiva, estão os drogados, os deprimidos, os sós. Quantas vezes passamos por doentes da alma sem um olhar de mero reconhecimento de sua existência. Sejam eles de nossa família ou estranhos.

Francisco foi o primeiro papa a ter a coragem, no mês passado, de denunciar o falso espírito do Natal num mundo em guerra. “Teremos luzes, festas, árvores luminosas e presépio. Tudo falso: o mundo continua fazendo guerras. O mundo não entendeu o caminho da paz. Em todo lugar existe guerra hoje, existe ódio. O que permanece de uma guerra? Ruínas, milhares de crianças sem educação, vários mortos inocentes e muito dinheiro no bolso dos traficantes de armas.”

Vida longa ao papa! Que o Brasil passe a honrar sua população e não deixe grávidas e doentes sem assistência, barrados nos hospitais, numa crueldade sem nome. Que sejamos todos melhores no próximo ano.


02 de janeiro de 2016 | N° 18402
JJ CAMARGO | Palavra de Médico

A BENGALA DIVINA


QUANTO MAIS EDUCADO, MENOS PROPENSO ESTARÁ A CRER EM AJUDAS CELESTIAIS 

O sentimento de purificação que toma conta das pessoas de alguma maneira estimuladas a inventariar o que fizeram se repete a cada final de ano e se traduz no aumento de mortes violentas, crises de depressão e taxas de suicídio. Deflagrado o processo de depuração ordenado pelo calendário, a rotina é sempre a mesma: identificam-se os maiores erros e fracassos e, em seguida, buscam-se os culpados, que invariavelmente são os outros.

Nem a paliação mercantilista do Natal consegue amordaçar o protesto interior pelo pouco que fizemos e o contraste humilhante com o muito que poderíamos ter feito.

É quase comovente observar as mesmas pessoas que, durante o ano inteiro, foram incapazes de ajudar alguém, agora de mãos dadas a entoar cânticos de solidariedade e a pedir ajuda a um Deus que, imagino, deve se dobrar de rir. Ou não é cômico ver alguém que passou o ano improvisando desculpas para não trabalhar se vestir de branco e se empanturrar de lentilha, para ter ventura no Ano-Novo?

Atribuir sorte aos que conseguem alguma coisa é a maneira mais simplista de justificar o desencanto dos que nada conseguem. A nossa formação religiosa de dependência divina contribuiu em muito para o modelo que não pode prescindir de ajuda externa para alcançar o que quer que seja. E muito poucos têm perspicácia para perceber que esta pseudonecessidade foi solertemente produzida por uma casta poderosa que comandou o mundo por séculos e séculos, fazendo-nos acreditar em promessas de céu e castigos de inferno. E, para não deixar dúvida de quem comandava quem, ainda impunha aos crentes que confessassem seus pecados.

Por este modelo singelo, o que conquistamos é generosidade divina, e o que perdemos é punição por termos sido menos submissos. Convenientemente ignorando que céu e inferno são construídos e desfrutados enquanto vivemos, para serem curtidos ou penitenciados aqui mesmo, sem exigência de senhas para um hipotético Juízo Final.

Todo mundo quer ser feliz, mas tem dificuldade de aceitar com naturalidade que determinadas conquistas têm pré-requisitos, que envolvem estudo, sacrifício, treinamento e determinação. Quanto mais educado o indivíduo, menos propenso estará a crer em ajudas celestiais para se impor no mundo dos que constroem a vida que mereceram pelo suor que derramaram. 

Sem desprezar a sorte, que virá se tiver de vir. Mas certamente sem esperar que Deus lhe dê, como simples prova de afeto recíproco, o que não fez por merecer. Fora desta lógica se enquadram todos os devotos por necessidade e os pregadores por conveniência.

Mas como a solidão é a doença do século e sempre há quem acredite em milagres, os intermediários de fé duvidosa vão prosperando às custas da ingenuidade dos incautos, para os quais nunca é valorizada a importância de fazer, confiando-se sempre na suficiência de acreditar.

Sei que nunca serei convocado, mas, se tivesse de redigir um desses sermões, eu diria que a meritocracia precisa ser entendida assim: o que se ganha na colheita é sempre proporcional ao quanto se empenhou na plantação. Não precisamos professar religião para descobrir que o esforço para fazer a diferença na vida das pessoas eliminará o espaço para a inveja, a picuinha e o supérfluo, e estenderá o tapete para esta entidade protetora que tantos chamam de Deus.

Assim entendidos, poderemos ser felizes ou não no ano que se inicia, mas teremos feito a nossa parte. Então, que venha 2016. E com a força que quiser!



02 de janeiro de 2016 | N° 18402 
NÍLSON SOUZA

FELIZ DIA NOVO

O ano bissexto já virou a esquina do primeiro dia e segue lépido e faceiro para mais 365, contando este sábado ensolarado ou chuvoso, quente ou frio, dependendo do lugar do planeta em que você me lê. O calendário é só uma convenção, todos sabemos, mas os dias e noites são reais e ditam o ritmo da vida. Contamos em anos para a nossa existência parecer mais longa, mas a verdade é que cada dia deveria ser saudado como uma bênção e uma oportunidade. É excitante pensar que o dia de hoje nunca existiu, é novo, exclusivo, podemos fazer dele o que quisermos.

Carpe diem, escreveu em latim o filósofo e poeta Horácio, que viveu antes de Cristo. A frase completa do poema é “carpe diem quam minimum credula postero”, algo assim como “aproveite o dia quanto menos confia no amanhã”. O amanhã é um sonho. Podemos imaginar o amanhã, podemos planejar o amanhã, talvez possamos até mesmo construir o amanhã, mas não sabemos o que o dia seguinte nos reserva. Fiquemos, portanto, com o hoje. Como torná-lo um dia feliz?

– Com sorrisos! – assopra o grilo falante das boas intenções, que ocupa meu ombro esquerdo desde que nasci num ano bissexto do século passado. (Contar em séculos amplia ainda mais a existência.)

– Rir de que, numa hora dessas? – contrapõe o mal-humorado capetinha do ombro direito.

Recorro à ciência para dirimir a dúvida. Estudos divulgados pela revista Superinteressante na reportagem O Poder do Sorriso, de 2013, sugerem que os movimentos musculares da face na hora do sorriso ajudam a baixar a temperatura do cérebro e proporcionam bem-estar espiritual. Além de proteger o equilíbrio físico e mental, o sorriso suaviza debates e deixa a impressão de que estamos em sintonia com o nosso interlocutor, o que ajuda a desarmá-lo. Ponto para o grilo do bem.

Sorriso atrai sorriso, assim como gentileza gera gentileza. Quanto mais espontâneo, mais eficiente. O sorriso integral, segundo os neurobiólogos, envolve 28 músculos, inclusive o orbicular. Pode-se sorrir com os olhos. Um psiquiatra francês citado na reportagem mencionou de forma poética o movimento da região ocular: “É a pequena nota muscular que dá sentido à melodia”.

O sorriso, portanto, é uma canção silenciosa que se ouve com os olhos e o coração. (Olha eu poetando também). Tudo o que quero dizer, neste primeiro texto do ano olímpico, é que podemos tornar nossos dias mais agradáveis e até mais felizes com esse gesto simples. Tente. Experimente.

Feliz dia novo.



02 de janeiro de 2016 | N° 18402 
PAULO GERMANO

Quando a culpa é da vítima


Já adianto que não é um texto sobre estupro nem sobre abuso, mas preciso fazer um preâmbulo sobre isso para chegar aonde quero. Bem rapidinho.

Com a explosão desse novo feminismo nas redes sociais, aprendemos em 2015 palavras até então meio estranhas. E nenhum desses neologismos – como sororidade (o pacto de união entre as mulheres), empoderamento (aumento da participação política e social) ou objetificação (ato de tratar alguém como objeto) – me pareceu mais oportuno do que culpabilização.

A culpabilização da vítima, você deve saber, ocorre quando uma mulher é responsabilizada pelo abuso que sofreu. Quer dizer: se ela for estuprada, alguns dirão que, ora ora, ninguém mandou usar roupa curta, ninguém mandou andar na rua tão tarde, ninguém mandou se portar como vadia. Caso apanhe do marido, bem, talvez ela até goste, ou teria pensado nisso antes de casar. Uma estupidez, claro.

Mas quando a expressão foi criada em inglês pelo sociólogo William J. Ryan, em 1971, culpabilização da vítima nada tinha a ver com feminismo. No livro Blaming the Victim, Ryan analisou como a classe média americana enxergava os negros pobres. E concluiu que enxergava assim: como responsáveis pela própria pobreza. Poucos, na classe média, reconheciam os 250 anos de escravidão ou a posterior segregação racial como fatores determinantes para a desigualdade econômica – a maioria apontava a preguiça, a vagabundagem, a bebedeira e outras escolhas pessoais como causas da desgraça alheia.

Ou seja, culpa da vítima: o pobre era pobre porque queria.

Condenar quem se deu mal sempre foi uma prática habitual na história da humanidade. Há uma abundância de bons exemplos no Antigo Testamento, que bota catástrofes naturais e tragédias de todo tipo na conta das vítimas pecadoras.

Embora o feminismo tenha se apropriado do termo para falar de estupro, essa culpabilização apareceu em outros tristes episódios de 2015. Depois dos atentados em Paris, importantes líderes de toda a Europa, além de 25 governadores dos Estados Unidos, exigiram a suspensão da entrada de refugiados em seus países por receio de ataques terroristas. Na prática, jogaram a culpa sobre as maiores vítimas do terrorismo – gente sem casa, sem comida e sem dignidade que se viu comparada, por esses líderes, aos assassinos de suas próprias famílias.

Aqui no Rio Grande Sul, quando 10 pessoas – eu disse 10 pessoas – foram mortas em Porto Alegre e Alvorada em um intervalo de 13 horas – eu disse 13 horas –, o secretário estadual da Segurança Pública, Wantuir Jacini, respondeu assim:

– Olha só, a maioria dessas vítimas tinha antecedentes criminais.

Traduzindo: não é do governo a culpa pela insegurança, é de quem morreu.

Falando em governo, o voto foi o assunto que mais rendeu culpabilizações de vítimas no ano que passou.

– Votou na Dilma e quer reclamar? Agora aguenta! – Parabéns a quem votou no Sartori: a culpa é sua!

Que chatice, parem com isso. Quem votou em um mau governo é tão vítima dele quanto quem votou em outro candidato: todos sofrem igualmente com os embustes de uma má administração. Na verdade, o eleitor de um mau governo talvez seja a maior de todas as vítimas, porque confiou e acabou tapeado pelos culpados de verdade.

Uma vítima sempre vai precisar de apoio, nunca de um dedo na cara – seja uma mulher violentada, um refugiado em pânico ou um eleitor frustrado. Se 2015 foi o ano da culpabilização, esse neologismo esquisito, que 2016 seja o daquela palavrinha mais fácil, que a mãe nos ensina desde pequenos:

– Desculpa. Desculpa por ter te culpado.


02 de janeiro de 2016 | N° 18402 
CLÁUDIA LAITANO

O sábio e o bobo


“Não devias ter envelhecido antes de ficares sábio”, diz o Bobo ao velho, porém bobalhão, Lear. Shakespeare, que mal havia chegado aos 40 quando escreveu Rei Lear, morreu antes de ficar velho (no mesmo dia do seu aniversário de 52, há 400 anos), mas já havia percebido que há basicamente dois jeitos de envelhecer: piorando ou melhorando.

Quanto mais envelheço, mais penso e me inquieto com isso – por motivos óbvios. Na vizinhança dos 50, não é preciso ser (ou ler) Shakespeare para conhecer uma variedade respeitável de tipos humanos. Amigos de infância ou da primeira juventude, parentes e mesmo celebridades com os quais a gente parece ter convivido desde sempre envelhecem diante dos nossos olhos, muitas vezes de forma surpreendente. 

O garoto brincalhão que era o piadista da turma pode virar o mal-humorado do grupo. A menina que não saía de casa sem maquiagem se transforma na velha dos gatos. O executivo estressado se muda para o Interior e vira guru da vida alternativa. Uns vão ficando amargos, tristes ou apáticos com a passagem do tempo, outros tornam-se joviais, calorosos, otimistas. E nem sempre somos capazes de prever, pela juventude que tiveram, quem será sábio como o Bobo ou bobo como Lear.

Algumas mudanças são lentas, outras abruptas, e a diferença entre “piorar” e “melhorar” é obviamente subjetiva e depende dos significados que escolhemos emprestar para o termo sabedoria. Para isso, também nos vale o velho Shakespeare. Seu Lear nos ensina que a vaidade excessiva torna o homem velho patético. 

Porque não há nada mais triste do que envelhecer agindo da mesma forma que um menino de dois anos, convencido de que o dia anoitece para que ele durma, e o sol nasce para que ele possa brincar na rua. Sábio é aquele que aprende todos os dias a ser um pouco menos autocentrado, porque esse é o aprendizado mais difícil de todos e pode demorar uma vida.

Outro sinal de que faltou sabedoria na velhice é negar as mudanças precipitadas pela passagem do tempo. O velho chato, aquele que ninguém quer ter por perto, é o que apenas cobra e se lamenta – e nunca lembra de oferecer ajuda. Já o sábio é o que refaz seus cálculos o tempo todo porque sabe que qualquer estabilidade desfrutada no passado (dinheiro, trabalho, amor, família...) é passageira – e não culpa ninguém pelo que mudou ou ruiu no caminho.

Neste dia em que ainda nos move alguma vaga intenção de mudança e a sempre renovada esperança de que o universo conspire a nosso favor nos próximos 365 dias, que Shakespeare nos inspire a trabalharmos duro, todos os dias, pela sabedoria possível. Enquanto há tempo.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016






 - Atualizado em 01/01/2016 7h13

ICMS aumenta, e postos da Capital já vendem gasolina a R$ 3,99 o litro

Novas alíquotas de ICMS, aprovadas em setembro pela Assembleia Legislativa, entraram em vigor nesta sexta-feira




Postos consultamos nesta manhã cobravam R$ 3,99 pelo litro da gasolina

Foto: Eduardo Cardozo /Gaúcha

Diversos postos de combustíveis de Porto Alegre já vendem o litro da gasolina por cerca R$ 4 na manhã desta sexta-feira (1º). O aumento acontece em razão das novas alíquotas de ICMS que foram aprovadas na Assembleia Legislativa em setembro de 2015 e que entram em vigor hoje.

O imposto sobre o valor da gasolina passou de 25% para 30%. Segundo estudo da Fecomércio, o valor do litro combustível deverá ficar em torno dos R$ 3,95 na Capital gaúcha.

Diversos postos consultados pela reportagem da Rádio Gaúcha já estão cobrando R$ 3,99 pela gasolina. Nos estabelecimentos que ainda não abriram, as placas anunciam valor médio de R$ 3,69.

Para o estudante Ricardo Moreira, de Porto Alegre, o reajuste vai gerar alterações na rotina. "Sempre usei o carro para ir até a faculdade, mas vou ter que alterar. Vou utilizar o transporte coletivo agora", afirmou.

Com o aumento do ICMS, a Secretaria da Fazenda projeta incrementar a receita líquida do Estado em quase R$ 1,9 bilhão por ano. A medida faz parte das ações de ajuste fiscal do governo para tentar cobrir o déficit financeiro previsto para este ano.
 - Atualizado em 01/01/2016 6h00

Seis apostas vão dividir o prêmio de R$ 246 milhões da Mega da Virada

Cada bilhete premiado irá receber mais de R$ 41 milhões


Foto: Glaicon Covre, BD, 2009

O concurso da Mega da Virada de 2015 foi sorteado na noite desta quinta-feira (31), e o prêmio principal será dividido entre seis apostas. Uma é de Alagoas, outra de São Paulo e as quatro demais apostas são do Espirito Santo. Cada um dos seis bilhetes irá receber pouco mais de R$ 41 milhões.

A Caixa Econômica Federal informou que uma das apostas premiadas foi de um bolão de 15 cotas e, nesta divisão, cada participante irá receber R$ 2.739.261,27.

A quina deste concurso saiu para 827 apostas que vão receber R$ 43.913,49 cada. A quadra pagará R$ 826,55 para cada um dos 62.767 bilhetes. 
As dezenas sorteadas foram 02 - 18 - 31 - 42 - 51 - 56.
A arrecadação total deste concursou foi de R$ 620.312.112,00. 
A Mega da Virada, neste formato especial, teve seu primeiro sorteio em 2009, quando dois ganhadores dividiram R$ 144,9 milhões. Em 2014, o prêmio de R$ 263 milhões saiu para quatro ganhadores, um de Brasília (DF), dois de São Paulo e um de Santa Rita do Trivelato (MT).