segunda-feira, 6 de janeiro de 2014


06 de janeiro de 2014 | N° 17665
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

Sangue e champanhe

Seus dias começavam com um longo relax na banheira do Lancaster Hotel, em Paris, durante o qual lia Simenon e os jornais da manhã. Ia em seguida fazer suas apostas em Longchamps ou almoçar em algum restaurante da moda, nunca sem a companhia de uma bela mulher e de uma garrafa de Borgonha. Às vezes levava suas garotas para uma esplêndida, antiga mansão dos Rothschilds providencialmente colocada a seu dispor. Ao entardecer empenhava-se em nova caçada no Hotel Crillon, seguida de um jantar que poderia ser no Alexandres’s da Av. George V, culminando tudo com mais amor e algum pôquer.

Estou falando de Robert Capa, o maior fotógrafo de guerra de todos os tempos. Uma notável biografia sua, Sangue e Champanhe, foi recém publicada no Brasil. O autor, Alex Kershaw, traça com maestria o fantástico perfil desse judeu húngaro, nascido André Friedmann e, como tantos de seus compatriotas, condenado desde o berço a inglório fim em um campo de concentração.

Só que ninguém tinha combinado isso com ele. Capa, iludindo seu destino, enfrentou por décadas a morte, primeiro vencendo a fome e a miséria extremas, e logo derrotando-a, com uma câmera na mão, em lugares tão diversos como a China, a Espanha, o norte da África, a Itália, a França, a Alemanha, Israel.

Para quem desafiava a morte, era preciso antes de tudo amar a vida. Robert Capa a queria de paixão, tanto que era um sedutor nato. “Ele era muito atraente, pela aparência, o estilo de vida de cigano, o glamour de seu trabalho, a fama de suas fotos e o perigo de sua vida” – disse uma de suas amadas. Mais há de ter dito a mais bela de todas. Essa atendia simplesmente por Ingrid Bergman e se entregou inteira a ele depois que passearam de mãos dadas num amanhecer de boemia pelas margens de Sena. Foi um affair que, inaugurado assim tão magnífico, duraria anos.

As outras foram inumeráveis, como incontáveis foram seus amigos, gente tipo Cartier-Bresson, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, John Steinbeck, John Huston, Irwin Shaw, Ali Khan, Gene Kelly e mais uma multidão. Como o recém citado Hemingway, David Niven e todo um exército de celebridades, Capa foi, alegadamente, o primeiro dos aliados a entrar em Paris em 1944.

Mas não estava preparado para entrar, 10 anos depois, num lugar chamado Indochina (depois mais conhecido como Vietnam), que foi onde se apagou sua estrela.


Leiam o livro de Kershaw, ainda que, em suas 349 páginas, não apareça uma só das fotografias que imortalizaram Capa. Na edição brasileira, o personagem vale suas imagens.

06 de janeiro de 2014 | N° 17665
LETICIA WIERZCHOWSKI

Porque prefiro a ficção

As pessoas sempre me perguntam se escrever ficção é difícil. Costumo responder que difícil mesmo é a realidade. A ficção é areia entre os dedos, massa que se molda segundo os meus mais voláteis desejos. Quando comete-se um erro num romance, volta-se atrás em 30, 40 páginas, e tudo é refeito sem danos maiores do que, talvez, algumas noites em claro. A vida real tem dimensões bem mais difusas...

A vida envolve outros egos e agendas, outros medos e sonhos, envolve outras pessoas. A vida real é barulhenta e furiosa como uma churrascaria num domingo, e a gente tem que seguir equilibrando as tarefas todas como um desses garçons que circulam graciosamente pelo salão com sua bandeja cheia de pratos sujos.

Dito isso, não tenho nada contra a vida real. Os amores, a maternidade, as esperas, os aprendizados, as viagens e os erros da vida real são uma aventura da qual eu não me furto. Não sou o tipo de escritora isolada do mundo, sozinha com a sua inspiração e os seus projetos. Sou pau para toda obra, como diz a minha mãe. No colégio dos meninos, na fila do cartório, no caixa do supermercado.

Mas adoro escapar rumo à ficção, e vou para ela sempre que posso, como quem corre em direção às férias. Por que eu escrevo tudo isso? Porque estou de mudança para o Rio de Janeiro, depois de 12 anos morando em Porto Alegre (sou porto-alegrense, mas já dei algumas voltinhas por aí quando casei com um gaúcho de olhos azuis que tinha se radicado em São Paulo), e mudar dá uma trabalheira danada. Quanta saudade dos fluxos de pensamento, das cenas e dos sumários!

Quanta saudade de um bom diálogo, da tela do computador e dos seus amistosos silêncios. Estou aqui cercada de coisas. Coisas, coisas, coisas, coisas... Coisas por todos os lados! Papéis e registros e contas e listas que se multiplicam feito aqueles bichinhos de iogurte que a minha mãe mantinha num pote sobre a geladeira. Sempre tive pavor daqueles iogurtes caseiros, assim como tenho das listas que ora ocupam a minha mesa sem deixar espaço para os personagens.


Dados cadastrais roubando meu sono. Caixas de papelão nominadas com pincel atômico acumulando-se feito vírus entre eu e os meus pensamentos. Armários com as suas bocas escancaradas, prontos para me engolir. Nãooo! Prefiro as palavras. As palavras são doces e macias e sumarentas... As palavras, estas pequenas frutas do meu paraíso.

06 de janeiro de 2014 | N° 17665
PAULO SANT’ANA | MOISÉS MENDES

Nelson Ned no Alegrete

Procuravam petróleo nas barrancas do Caverá no Alegrete do início dos anos 70. O professor Schneider reunia adolescentes no mezanino da Igreja Matriz para criar o maior coral do mundo. Eu fiz ensaios nesse coral. Mais tossia do que cantava.

As gurias faziam duelos no Colégio Emílio Zuñeda para ver quem usava as saias mais curtas. Estudava-se o conjunto vazio. Alegrete também se queixava de que Mario Quintana aparecia pouco por lá. Até que um dia, em 1972, apareceu Nelson Ned.

Nelson Ned tinha 25 anos e já brilhava com o sucesso de Tudo Passará. Eu tinha 19 anos, era repórter do Hélio Ricciardi e do Samuel Marques na Gazeta de Alegrete. Foi minha primeira entrevista com celebridade. A foto é de uma conversa no Cine Glória, onde ele se apresentaria à noite. Num determinado momento, que pode ter sido o registrado na foto, ele olhou minha calça de veludo estampado e perguntou:

– Você também é cantor?

O cantor da família, na linha do Agnaldo Rayol, era meu irmão Nelson Mendes. Eu era apenas um repórter que amava Jimi Hendrix e Candice Bergen. Nelson Ned, vamos admitir, era o nosso Tony Bennett, mas não fazia muito sucesso entre os jovens. Era cantor de gente de mais idade, de mais de 30 anos. Pessoas de mais de 30 anos eram maduras e geralmente caretas. Mas como cantava o Nelson Ned! Cantava tanto, que, depois de brilhar no Alegrete, foi cantar no Carnegie Hall, em Nova York.

Eram mágicos aqueles anos 70 no Alegrete, e é uma pena que só os que moravam lá soubessem disso. Apareciam na cidade, além do Nelson Ned, o teatro Gira-Gira, um ciclista boliviano que pretendia bater o recorde mundial pedalando sem parar na Praça Getúlio Vargas e um circo, sempre o mesmo, que ia embora e deixava o boato de que uma guria da cidade tinha ido junto com o tratador dos elefantes.

Poucos dos meus amigos queriam cantar no coral do professor Schneider, porque isso seria coisa de guri mole. Paulo Renato Rodrigues pretendia jogar no Flamengo (o do Rio, não o do Alegrete). José Roberto Ramos organizava uma turma de estudantes que iria conhecer a freguesia do Alegrete em Portugal, Elvio Vargas fazia versos alexandrinos para ganhar as gurias, mas as gurias queriam sonetos, e José Airam fotografava paisagens, passarinhos e crepúsculos.

Nelson Ned apareceu nesse ambiente com camisa de seda e correntão no pescoço. Confrontado com o que existe hoje, seria mais do que Tony Bennet, seria um Frank Sinatra. Na foto, feita pelo Salim, o cara do meio é o empresário de Nelson Ned. Quando abri no computador a foto que meu amigo Heitor Schmidt me enviara, porque tinha arquivada em casa, uma turma foi se juntando em torno da minha mesa aqui na Redação.

Riam, gargalhavam, do cabelo e da calça. Um grupo de gente séria. Gustavo Roth, Diego Araujo, Jones Lopes da Silva, Carlos Etchichury, Marcelo Ermel e Vivian Eichler se divertiram tanto, que nem perguntaram sobre o que mais Nelson Ned me disse. Eu conto agora. Quando se fixou na minha figura, como se vê na foto, o gigante quis saber:


– Onde compro aqui no Alegrete uma calça igual a essa tua?

06 de janeiro de 2014 | N° 17665
L.F. VERISSIMO

Carisma

Eu estava vendo o ditador norte-coreano Kim Jong-un na TV e pensei no Jango Goulart. Não que houvesse qualquer semelhança física ou política entre os dois, mas tanto Kim quanto Jango nos fazem especular sobre essa coisa misteriosa chamada carisma – que Jango não tinha e o pequeno e rechonchudo Kim tem muito menos.

Claro, Kim herdou a ditadura do seu pai, que herdou do seu avô. Não precisava de carisma para chegar aonde chegou, bastava o nome. Mas Jango fez uma carreira política importante que culminou na Presidência da República, apesar da evidência de não ter muito gosto pela política ou pelo poder, e nenhum carisma. Também teve um pai político – Getúlio Vargas –, mas conquistou sua liderança no embate e no voto, mesmo com zero de carisma.

Até hoje se especula se a história do Brasil teria sido diferente se a personalidade do Jango fosse diferente, e ele tivesse vontade suficiente para chefiar uma resistência ao golpe de 64. Muito se falou, no rescaldo do golpe, num inexistente “esquema do Jango” que deteria os golpistas. Hoje se sabe que o “esquema” pode até ter existido, o que faltou foi a decisão do Jango de inspirar uma reação, com o risco de deflagrar uma guerra civil. Foi o momento em que um pouco de carisma teria mudado tudo.

Outro caso notório de um político que foi longe sem carisma é o de Richard Nixon, que chegou à presidência dos Estados Unidos, e à reeleição, apesar do seu ar soturno e da sua absoluta falta de atrativos pessoais. Nixon fez a sua carreira como caçador de comunistas durante a Guerra Fria e ganhou o apelido de “Tricky Dick” e uma reputação que justificava o apelido de pouco confiável.

Mesmo assim, só não completou dois mandatos na presidência porque foi derrubado pelo escândalo de Watergate. Faltava a Nixon o que sobrava, por exemplo, a John Kennedy. Houve um famoso debate eleitoral entre os dois em que, na opinião de todos, Kennedy arrasou com Nixon.

Revendo-se a gravação do debate, depois, chegou-se à conclusão de que Nixon, na verdade, vencera. O que convencera as pessoas da vitória de Kennedy fora sua aura de juventude e capacidade de liderança, além da cara limpa em contraste com a cara sombria do adversário. Ganhou o debate o carisma do Kennedy, não o Kennedy.


O que é, afinal, carisma? O Aurélio diz que é a atribuição a alguém de qualidades específicas de liderança, derivada de sanção divina, mágica ou diabólica. Em suma, um mistério. Você nem sempre sabe quem tem, mas sabe imediatamente quem não tem.

domingo, 5 de janeiro de 2014


Lindo domingo pra você





Dificuldades superadas

"O êxito da vida não se mede apenas pelas
conquistas, mas também pelas
dificuldades superadas no caminho."
Abraham Lincoln
__By Keyla

BOM DOMINGO



Gota de água

Por vezes sentimos que aquilo que fazemos
não é senão uma gota de água no mar.
Mas o mar seria menor
se lhe faltasse uma gota.
Madre T. de Calcutá
__By Keyla

BOM DIA

BERNARDO MELLO FRANCO DO RIO

Minha História Ana Paula Nogueira, 34
    
Cadê as outras?

Única mulher a participar de 'toplessaço', produtora diz que reivindicação não é 'guerra de sexos' e que quer convidar a mulher do prefeito para a campanha
 
RESUMO A produtora de cinema Ana Paula Nogueira, 34, foi uma das 8.000 mulheres que confirmaram presença no "toplessaço", convocado pelo Facebook para acontecer no último dia 21, no Rio. Ao chegar à areia, teve uma surpresa: a imprensa estava lá, mas quase ninguém apareceu. "Infelizmente, o carioca tem mania de confirmar e não ir. Todo mundo diz Passa lá em casa', mas não dá o endereço", resigna-se.

Gosto muito do mar. Nasci em Piedade, no subúrbio, mas vou à praia desde criança. Eram dois ônibus e duas horas até chegar a Ipanema. Isso nunca me incomodou.

Passei dez anos fora do Rio. Um dia, decidi largar tudo e voltar. Deixei um emprego em que ganhava bem para fazer cinema, sem saber se no dia seguinte iria receber ou não.

Às vezes faço topless na praia, discretamente. Quando estou em Portugal ou na França, é normal. Ninguém vem tirar foto dos meus peitos. É uma questão cultural.

Fiquei sabendo da manifestação por acaso. Faço aula de circo e um professor comentou que estava rolando um movimento para liberar o topless na praia.

Fucei no Facebook e vi a página da Ana Rios [organizadora do protesto]. Achei ótimo. Até que enfim!

Na noite anterior, participei da gravação de um clipe. Filmamos até as cinco da manhã, só dormi uma horinha. Quando meu iPhone apitou, peguei qualquer biquíni e fui.

Já cheguei atrasada, mas não encontrei uma alma viva. Tinha um reboliço no calçadão, mas nada na areia. Era só homem e jornalista. Aí eu pensei: "Cadê as outras?"

Não tinha a ilusão de que as 8.000 mulheres que confirmaram presença estariam lá, mas achei que seria mais uma entre cem.

Outra menina chegou, meio sem graça, sem saber o que fazer. Uma repórter veio falar comigo, desesperada: "Minha pauta vai cair. Você aceita ser a primeira a tirar o biquíni?" Eu estava lá para isso, não vi problema.

Tinha uns 200 jornalistas no calçadão. Era o primeiro fim de semana do verão, lógico que eles iam estar lá.

Quando me viram na areia, desceram correndo. Aí começou o deboche. Todo mundo perguntava: "Mas por que as outras não vieram?"

MATE DO PEITINHO

Era todo mundo debochando. "Quero ver os peitinhos! Vira os peitinhos para cá!".Teve gente que disse ter ouvido gracinha até de policial.

As organizadoras ficaram muito incomodadas com o assédio dos homens. Eu preferi responder às grosserias com brincadeiras, porque isso deixa eles sem graça.

Um vendedor passou dizendo: "Olha o mate do peitinho! Sem biquíni é mais barato". Eu respondi: "Poxa, que bom, porque o mate tá inflacionado aqui na praia."

Isso não é uma guerra de sexos. Quero o meu direito de ir à praia da forma mais cômoda, sem ferir ninguém. Se você não assume uma postura sexual, pode ficar naturalmente com os peitos de fora.

Sou contra a ditadura de que a mulher precisa da marquinha de biquíni para ficar mais sensual. Acho uma coisa brega, horrorosa.

Além disso, é gostoso tomar banho de mar sem a parte de cima. O biquíni fica caindo a toda hora. Ainda mais o meu, já que uso tomara que caia.

Cuba é uma ditadura, um comunismo ferrado, e fazem topless numa boa. O Rio se diz tão moderno e quando uma mulher mostra os peitos é um escândalo. A gente está dando uma de caipira.

Ninguém quer ficar na praia se exibindo, fazendo a dança da Anitta. A causa é para ficar na areia de topless, dar um mergulho. Só isso.

No dia seguinte, eu estava na capa dos jornais. Meu pai, português, ficou chateado. "Pô, é só a minha filha que aparece?" Se a imagem fosse de cem mulheres, teriam liberado rapidamente.

Mandei um email para o prefeito, que não respondeu. Vou convidar a mulher dele para a campanha. No carnaval, ninguém reprime peito de fora. Ficam lá sambando com as mulatas, tirando foto. Por que na praia não pode?

Nos anos 60, era atentado ao pudor uma grávida mostrar a barriga na areia. A Leila Diniz perdeu contrato na Globo por causa disso. Daqui a uns anos, espero que vejam a gente como ela é vista.


ANTONIO PRATA

A fuga do cativeiro egípcio

Fui empurrando o carrinho e pensando que seria tão mais simples se nos ignorássemos mutuamente

"Pequeno pânico" talvez soe incongruente, algo como "gigantinho" ou "leve furacão", mas foi exatamente o que senti ao vê-lo próximo à esteira de bagagens, acenando. Não, não somos inimigos, longe disso. Namoramos duas primas, lá por 96, dividimos a mesa em Pessachs, Rosh Hashanahs e Yom Kippurs, na casa da avó delas.

Os dois góis --ele cristão e estudante de engenharia, eu ateu e aspirante a escritor--, procurávamos terrenos comuns para escorar nosso deslocamento: eu lhe narrava a ideia de um conto, ele dissertava sobre as maravilhas do concreto armado e, assim, ficava mais fácil equilibrar as adolescências sob aqueles quipás. Dezoito anos e 11 horas de viagem depois, contudo, às seis da manhã...

Fui empurrando o carrinho e arrastando meu pequeno pânico, pensando que seria tão mais simples se, num acordo de cavalheiros, nos ignorássemos mutuamente. Bastava monitorar o posicionamento do outro com a visão periférica e ficar de lado ou de costas, conforme a situação.

Já não namorávamos as primas, não nos sentíamos perdidos entre contraparentes e rituais milenares, éramos apenas dois homens cansados, querendo ir logo pra casa. Agora, porém, era tarde: ele havia feito contato visual e estávamos irremediavelmente atados até que chegassem as malas, condenados a uma escavação arqueológica em busca de gefilte fishes, vergalhões enferrujados e contos nunca terminados.

Eu dei oi, apertamos as mãos. A conversa começou protocolar, "Poxa, quanto tempo", "Quinze anos? Mais?!?", "Tá vindo de onde?". Aos poucos, contudo, o papo engrenou: mesmo cansado, às seis da manhã, ele investia alguma energia pra que a coisa fluísse --energia que, momentos antes, eu preferia gastar metendo o nariz no iPhone. Das viagens fomos pras primas (uma se casou com um austríaco, a outra faz massagem Ayurvédica), das primas pros jantares, dos jantares pras profissões.

Eu falei do meu último livro, perguntei o que ele fazia, me contou que "desentortava prédios". Eu ri, curioso, ele disse que era sério, esses prédios que afundam, como os de Santos, são mais comuns do que se imagina.

Então, enquanto à nossa volta olhos sonados amaldiçoavam as malas alheias, deslizando como leões-marinhos pela esteira, eu ouvi atento o relato sobre tal milagre da engenharia: cavam um buraco embaixo do prédio, constroem uma espécie de piscina, enchem de água e congelam com nitrogênio. "A água, como você sabe, se expande ao congelar" --eu não sabia-- "o gelo empurra o prédio pra cima, aí é só escorar com uns pilares."


Quando nos despedimos, o pequeno pânico havia dado lugar a uma pequena culpa e a uma sincera admiração. Ali estava um sujeito generoso, não um sujeito que via o mundo sob a ótica do cálculo e do interesse. Ora, se na década de 90 havíamos concluído a fuga do Egito, mais de uma vez, tranquilos, o mínimo que deveríamos fazer ao nos encontrarmos no aeroporto, no mercado ou no Azerbaijão era apertar as mãos e investir algum esforço para sermos agradáveis. Me senti uma besta. Paciência: uns nascem para desentortar edifícios, outros para embrulhar o remorso numa folha de jornal.
VINICIUS TORRES FREIRE

"Não vai ter Copa"

Manifestações marcadas para começar no dia 25 podem embaralhar previsões para este 2014

"NÃO VAI TER COPA" é o mote de protestos marcados para o dia 25 de janeiro, em todas as capitais, ou pelo menos nas "capitais da Copa". Seria um ensaio da reestreia dos protestos, iniciativa de alguns daqueles grupos que desencadearam as manifestações de 2013.

Como tais grupos são desarticulados e dispersos, é difícil saber o que articulam. Muito menos é possível saber se vai haver repeteco da articulação esdrúxula, acidental e mesmo indesejada entre pequenos grupos de esquerda e massas indignadas mas apolíticas, o grosso de quem foi às ruas.

A Copa é, óbvio, um prato cheio de desperdício, politicagem autoritária, incompetência e outros acintes. A depender do gosto do freguês manifestante, não vai ser difícil contrastar essa despesa perdulária e arbitrária com algum motivo de revolta com a selvageria social e a inércia política brasileiras.

Vai colar? O 25 de janeiro pode ser um fiasco, ao menos em termos midiáticos, pois os ponta de lança da onda inicial de junho, os estudantes, ainda estarão de férias. Mas não convém especular com hipóteses fáceis.

Junho de 2013 não apenas começou como se desenvolveu e terminou de modo imprevisto, com ondas de choque se espraiando em direções diversas, um miniBig Bang político-social.

Houve os notórios, midiáticos e então subitamente submersos Black Blocs, mas muito mais. Houve revoltas contra a violência polícial em bairros paulistanos de "classe média baixa", um dia bastiões de voto conservador. Houve séries de protestos de associações de gente deserdada da periferia, a bloquear estradas e avenidas nos fundões da cidade. Não há como saber se mesmo um 25 de janeiro fraco vai reanimar brasas dormidas ou revelar novas organizações.

Pode haver fastio: muita gente pode ter se desencantado com a inconsequência prática dos protestos; de resto, revolução permanente não é o estado habitual de gente alguma, exceto em cataclismos históricos raros, seculares. A tentativa de repeteco de 2013 pode, assim, não colar.

Pode haver oportunismos: as manifestações fizeram estrago sério no prestígio de governos. O tumulto nas ruas pode ser obviamente um instrumento para avariar, ao menos, o prestígio de quem quer que esteja no poder, mas de petistas em especial. Repetir 2013 pode ser arma eleitoral.

O leitor, que é perspicaz, pode refutar tudo isso com um "especulativo, protesto", como se diz em filme de tribunal americano. Mas há de concordar que são demasiadamente ricas para não serem exploradas as oportunidades políticas e politiqueiras de um ano de Copa com eleição e eventual tumulto de rua transmitido pelo mundo inteiro.

Enfim, o caldo socioeconômico pode estar mais azedo e contribuir para os protestos; ou os protestos podem azedar o caldo.

A tendência básica do ano é de tudo crescendo mais devagar ou na mesma: renda, emprego, consumo, inflação. Há riscos de tumultos no câmbio, de o Congresso aprovar coisas como renegociação de dívidas de Estados e municípios ou de o Supremo dar uma tunda nos bancos no caso dos reajustes das poupanças dos planos econômicos velhos. Tudo isso intoxicaria o ambiente econômico e, assim, ânimos políticos, ao menos entre as elites.


vinit@uol.com.br
ELIO GASPARI

O exemplo de Michael Bloomberg

Prefeito de Nova York gastou US$ 650 milhões do próprio bolso e a mulher de Volcker alugava quarto em casa

Depois de governar a cidade de Nova York por 12 anos, o bilionário Michael Bloomberg pegou o metrô e foi para casa. Além de uma grande administração, deixou um exemplo. Durante o tempo em que ocupou a prefeitura gastou US$ 650 milhões

do próprio bolso. Sabia-se que voava em jatinhos e helicópteros de sua propriedade (alô, Sérgio Cabral). Sabe-se agora que seu gosto por aquários no gabinete custou-lhe US$ 62,4 mil. O café da manhã e almoços frugais para a equipe saíram por US$ 890 mil. Uma viagem ao exterior custou US$ 500 mil (alô, Cid Gomes). Seu salário na prefeitura era de um dólar por ano.

Com uma fortuna avaliada em US$ 31 bilhões, Bloomberg gasta como quer. Já deu um bilhão à universidade onde estudou. (No ano seguinte à sua formatura, quando era um duro, deu cinco dólares.) Começou a vida no papelório, deixou a Salomon Brothers com US$ 10 milhões e fundou o império de meios de comunicação que leva seu nome.

Para quem gosta de depreciar o Brasil, ele seria um exemplo de políticos que faltam por aqui. É verdade, mas o casal Clinton está milionário e suas origens são semelhantes às de Bloomberg, sem que tenham produzido um só parafuso. Lyndon Johnson endinheirou-se na política e seus mensalões fariam corar o comissariado petista.

A diferença entre o serviço público americano e o brasileiro está no exemplo. Indo-se para o século 19, Dolley Madison, mulher do presidente James Madison, a primeira locomotiva social de Washington, morreu em absoluta pobreza, eventualmente ajudada por um escravo liberto que trabalhara para ela na Casa Branca. Em 1979, quando Paul Volcker foi nomeado presidente do Federal Reserve Bank, perdeu 50% de sua receita e foi morar numa quitinete de estudante em Washington. Sua mulher ficou em Nova York e equilibrou as contas alugando um quarto de seu apartamento.

No Brasil foram muitos os milionários que passaram por governos. Nenhum soltou a bolsa da Viúva. Em muitos casos as fortunas foram acumuladas por inexplicáveis multiplicações ocorridas durante o exercício dos cargos. Exemplo como o de Bloomberg, nem pensar.

CASA CIVIL

Está dura a competição dentro do comissariado pela substituição de Gleisi Hoffmann na chefia da Casa Civil.

A doutora Dilma tem dois nomes sobre a mesa: Carlos Gabas, ministro interino da Previdência Social, e Aloizio Mercadante, titular da Educação.

Um ascendeu dentro da máquina do serviço público para a qual entrou em 1985, por concurso. O outro emergiu do aparelho partidário, tendo sido fundador do PT, elegendo-se deputado e senador.

Se um dos dois for escolhido, a decisão terá dado o tom de um eventual segundo mandato da doutora Dilma.

O PENTE DE RENAN

O senador Renan Calheiros pagou R$ 27,4 mil à FAB pelo uso indevido do jatinho que o levou de Brasília ao Recife para um implante de 10.118 fios de cabelo. Isso dá R$ 2,70 por fio, deixando-se de lado os serviços médicos do procedimento.

Toda vez que o doutor ajeitar a cabeleira, deverá contar os tufos que saírem no pente. A cada 268 fios que caírem, terá perdido o equivalente a um salário mínimo.

INFRAERO INVICTA

A Infraero é invencível. Em dezembro de 2012, quando os aeroportos do Rio viraram umas saunas, ela dizia que o sistema de ar-refrigerado seria consertado no dia seguinte.

Agora que o Galeão passou pelo mesmo problema, ela informou que o ar-refrigerado funcionava normalmente, salvo nas áreas onde há obras, pois lá ele está desligado.

Tem solução. Basta desligar a refrigeração do presidente da Infraero quando há passageiros que pagam suas taxas no calor.

NO MURO

A entrada do PSDB no governo de Eduardo Campos é um fato maior do que parece. O tucanato pernambucano é liderado por Sérgio Guerra, ex-presidente do partido, e há algum desconforto no PSDB nordestino com a disposição mostrada por Aécio Neves em relação à sua candidatura.

TARSO XIAOPING

O comissário Tarso Genro produziu um interessante artigo intitulado "Uma Perspectiva de Esquerda para o Quinto Lugar". É uma reflexão em torno da sua visão para o futuro do Brasil, com ambiciosas referências ao modelo político e econômico da China. Espremendo, resulta no seguinte: "O 'levantar âncoras' poderá ser uma nova Assembleia Nacional Constituinte, no bojo de um amplo movimento político -por dentro e por fora do Parlamento- inspirado pelas jornadas de junho: com partidos à frente sem aceitar a manipulação dos cronistas do neoliberalismo, abrigados na grande mídia".

O doutor diz que "se quiséssemos enquadrar nas categorias do marxismo tradicional o que ocorreu na China após os anos sessenta, poder-se-ia dizer que a Revolução Cultural como forma específica de revolução política 'permanente' foi sucedida por uma 'Nova Política Econômica' (a NEP leninista), de longo prazo, que tende a se tornar economia 'permanente'." Comparar a revolução do companheiro Deng Xiaoping com a NEP de Lênin é uma licença poética.

Uma, houve. A outra, teria havido. Lênin lançou-a em 1921, sofreu o primeiro derrame em maio de 1922, saiu do ar sete meses depois e morreu em 1924. Em 1928 a NEP foi abandonada, e o Estado leninista marchou para a "revolução cultural" de Stálin.

MORENGUEIRA NO PLANALTO

Em ano de campanha acontecem coisas estranhas. No lusco-fusco das festas de fim de ano acontecem coisas ainda mais estranhas. O repórter André Borges revelou que o Ministério dos Transportes alterou o edital do leilão de 2.100 linhas de ônibus interestaduais. Na sua versão inicial, cada consórcio deveria ser liderado por empresas experimentadas no setor, podendo agregar fundos de investimento ou mesmo empresas estrangeiros. A mudança, permitida pelo Planalto, mudou a canção. Nela entrou "Piston de Gafieira", imortalizada pelo velho Moreira da Silva:

"Quem está fora não entra

Quem está dentro não sai"

Engessaram o leilão, cristalizando o oligopólio do sistema de transportes interestaduais. Bloquearam a entrada de estrangeiros e impediram que o setor seja oxigenado por capitalizações do mercado financeiro (com suas auditorias). Os transportecas justificam a mudança dizendo que ela privilegia as empresas com experiência.

Nada mais verdadeiro. Em matéria de experiência, a crônica desse setor confunde-se com as trevas das concessões de serviços públicos. Em 1994, o deputado Camilo Cola, dono da Itapemirim, tinha patrimônio de US$ 154 milhões e declarava R$ 10 mil de renda mensal.


Desde 1993 o governo promete leiloar as concessões de linhas de transportes interestaduais. Passaram-se 21 anos e nada. As empresas, felizes, rodam com autorizações especiais do governo. Vale lembrar que os concessionários de transportes públicos lidam com grandes pacotes de dinheiro vivo.

ELIANE CANTANHÊDE

O caldeirão dos 'nervosinhos'

BRASÍLIA - O ano começou fervendo, com sensação de 50 graus no Rio, previsões tórridas na economia e borbulhas na política. Caldeirão perfeito para Copa e eleições.

Mantega tratou de jogar água na fervura anunciando na primeira semana do ano que, ufa!, o governo deve fechar 2013 superando a meta do superavit fiscal em R$ 2 bilhões.

Segundo ele, o anúncio, que costuma ser no final de janeiro, foi antecipado para "acalmar os nervosinhos". Cá para nós, também foi para contrabalançar outros resultados: o Brasil teve o menor saldo comercial em 13 anos; o melhor investimento de 2013 foi o dólar, que entrou 2014 em forte alta; e, segundo manchete do UOL na sexta, o valor da Petrobras encolheu pela metade desde 2010.

E vem aí o anúncio do pibinho, com agentes do governo, e de fora do governo, tremendo diante da perspectiva de rebaixamento do Brasil nas agências de risco. Sem falar nas críticas sobre os jeitinhos e as plataformas de petróleo para reduzir o estrago (inclusive político) do resultado da balança comercial.

Na política, o PMDB ataca o parceiro PT, repetindo um script manjado em ano eleitoral. Os ministérios do PT seguram as emendas peemedebistas, os do PMDB ameaçam retaliar com a mesma moeda, todos se xingam em público. Tudo isso no calor das disputas estaduais. Aliados em Brasília, os partidos de Dilma e do seu vice Temer estão em guerra em Estados como Rio, Bahia, Rio Grande do Sul, Ceará, Maranhão e Amazonas.

E vem aí a reforma ministerial, ateando fogo à base aliada e com os palanques desmontando o tripé feminino do Palácio do Planalto: Gleisi Hoffmann concorre ao governo no Paraná, Ideli Salvatti vai para o Senado em Santa Catarina. Os substitutos deverão ser homens e do PT. Mas a guerra com o PMDB continua.

Dilma e Mantega vão precisar de bem mais que RS 2 bilhões a mais de superavit para acalmar tantos e tão esquentados "nervosinhos".


elianec@uol.com.br

sábado, 4 de janeiro de 2014


05 de janeiro de 2014 | N° 17664
MARTHA MEDEIROS

À flor da pele

Quando tento buscar na memória a menina que fui, não consigo me ver chorando. No colégio? Nunca. Em casa? Só de forma muito reservada e profunda no silêncio do meu quarto, jamais por fricotes infantis. Mesmo adolescente, com os hormônios em curto-circuito, tampouco lembro de abrir as torneiras. Era durona, não chorava nem quando havia sério motivo para tal aliás, bastava que algum parente distante tivesse morrido para me dar uma vontade louca de rir. Tinha vergonha de me emocionar.

Depois veio a idade dos namoros, e aprendi a chorar por dor de cotovelo e também por autopiedade. Meu choro era tão sentido, vinha de zonas tão secretas em mim que, mesmo quando o motivo do choro já havia se dissipado, eu continuava chorando pela simples emoção de estar testemunhando a minha tristeza reprimida que finalmente desaguava — eu chorava pela comoção que eu mesma me causava.

Chorei por amor e ainda vou chorar, porque é da natureza do amor despertar nossas fragilidades. Chorei no momento em que minhas filhas nasceram, porque o esforço e a intensidade da emoção do parto faz tudo vazar sem barragem que represe. E chorei de raiva nas poucas vezes em que me senti injustiçada. E só. Tudo choro emocional, mas com razão conhecida.

Porém acabou o tempo de estio, quando eu chorava tão de vez em quando que podia lembrar a data. Nos tempos que correm, as lágrimas também correm — muito! E se antes chorava por alguma emoção irreprimível como o nascimento de um filho ou por um sofrimento doloroso como a partida de um grande amor, ando chorando agora durante a Dança dos Famosos. Quando o Gabiru fez o gol que deu ao Inter o Campeonato Mundial de Clubes, chorei. Quando uma criança canta na festinha da creche: “Quero ver você não chorar/Não olhar pra trás...”, me debulho. Choro em formatura.

Choro em discurso de família. Chorei quando os Stones entraram no palco no Hyde Park e quando Paul McCartney cantou My Love no Beira-Rio. Choro com os fogos de artifício do Réveillon. Choro no trânsito. Choro quando os caixões são fechados, mesmo que eu não conheça quem esteja dentro. Choro ao ver qualquer pessoa chorando. Choro em apresentação de dança da Dullius. Choro em aeroporto. Choro no banho. E quando ouço Chão de Giz, do Zé Ramalho, daí não são apenas olhos marejados: transbordo. Essa música toca em alguma coisa que me cala fundo e ainda não sei o que é.

Dizem que ficamos mais amolecidos com a idade, mas eu achava que estavam se referindo às dobrinhas nos joelhos. Pelo visto, os sentimentos, com o tempo, também afrouxam. Melhor assim: deixam de empedrar e de nos enrijecer por dentro. Deslizam pela face e nos purificam: ficamos banhados, limpos, batizados. 

05 de janeiro de 2014 | N° 17664
PAULO SANT’ANA | MOISÉS MENDES (INTERINO)

Gato ou cachorro?

A vida e suas escolhas. Você acha que uma das grandes decisões da humanidade é esta que deve tomar agora, no vestibular, por exemplo, entre Engenharia e Medicina.

Outra escolha: você tem que optar entre pegar logo aquela bolsa e ir para Paris, ou ficar por aqui mesmo, porque a Sorbonne já não tem tanto charme e a Bruna pode arranjar outro. Imagine: você vai estudar o fim da pós-modernidade em Paris, volta insuportável e ainda perde a Bruna.

Ou fica aqui, não evolui profissionalmente nem como pessoa e perde a Bruna de qualquer jeito. Ou esquece a Bruna e se inscreve como candidato a colonizar Marte, com passagem só de ida.

No fim, as grandes decisões mesmo são as cotidianas, que podem mudar muito mais a vida de alguém do que dois anos na Sorbonne. Uma decisão grave, que o mundo ocidental toma diariamente, é esta: gato ou cachorro?

A família chega à pet, decidida a levar um cachorro, mas acaba levando um gato. É a grande dúvida do começo do século. As estatísticas ampliaram o dilema. Dizem que, quanto mais desenvolvido o país, mais tem gato.

Há mais gatos na Alemanha, nos Estados Unidos, na França. Tem mais cachorro na Colômbia, no Brasil, na China. Quando o mundo todo for rico, inclusive a Coreia do Norte, teremos bilhões de gatos e meia dúzia de linguicinhas. Uma das vantagens é que terminarão com os pitbulls.

Metade dos prêmios Nobel de Literatura aparecem em fotos com gatos no colo. Gatos conferem mistério ao dono. Há uma foto em que Jorge Luis Borges (que não ganhou o Nobel) aparece sentado, e Beppo, seu gato, está estirado no chão ao lado da poltrona. Borges já estava cego quando aquela foto foi feita. E ele olha para Beppo.

Gatos são femininos, cachorros são masculinos. Mas os gatos olham uma mão e não conseguem ver que a mão está ligada a um braço. Cachorros são holísticos: enxergam os dedos, a mão, o braço, o dono.

Cachorros, com certeza, sorriem. Gatos são impassíveis, mas intuitivos. Dizem que os gatos previram, por agitação noturna, a crise de 2008 que quebrou o Lehmann Brothers e as bolsas. Um cachorro, menos apegado a bens materiais, não entende nada de capitalismo.

Mas, enfim, questões práticas dividem e unem gateiros e cachorreiros. Ouvi colegas. Clóvis Malta gosta da ideia de que um cão e um gato possam compartilhar o mesmo espaço e ser presença importante um para o outro. Suzete Braun diz que gato a faz pensar em alergia. E gatos sobem nas mesas, vasculham panelas, quebram bibelôs. Gatos miam por nada. Mas Henrique Erni Gräwer gosta da autonomia dos gatos. E, na comparação, relembra um trauma da infância: cachorro morde.

Gatos são metidos e se chamam Lucky, Sary, Harumi, Nikita, Zhara, Dimmy, Dorothy, Miuki, Judy. Cachorros são Bola, Lobo, Batata, Xica, Duque, Princesa, Pitoco, Tarzan. Cachorro abana o rabo quando está alegre; o gato, quando está irritado.


Eu prefiro cachorro. Desculpem, mas estou falando disso tudo aqui porque não tenho Facebook.

05 de janeiro de 2014 | N° 17664
FABRÍCIO CARPINEJAR

Amor-sequestro e amor-remanso

Se você se afastou dos amigos, dos filhos, da família, é bem possível que esteja vivendo um amor-sequestro.

Não está numa relação, mas num cativeiro, sem contato com o mundo externo e apartado de uma segunda opinião.

Seu paradeiro é desconhecido, não sai do quartinho escuro, não troca ideias com a roda de colegas, não avalia sua condição, apenas se alimenta das sombras do passado e do pensamento.

Ficará tão sozinho, tão distanciado de sua rotina anterior, que não terá mais uma vivalma para pagar o resgate.

O isolamento é o termômetro da falta de felicidade.

O amor-sequestro consiste em devotar suas energias exclusivamente para sua companhia e esquecer o elo das demais amizades. É criar uma simbiose com o sequestrador (namorada ou namorado), a ponto de discutir por qualquer coisa, por qualquer problema.

Você passará mais tempo tentando salvar o relacionamento do que aproveitando o relacionamento. Enfrentará uma situação de pânico, contando os dias, angustiado com a ausência de perspectiva e de estabilidade. Só falará do mesmo assunto: o tratamento injusto que recebe.

Não há como amadurecer com o amor-sequestro. Ninguém cresce pressionado. Ninguém cresce emparedado. Ninguém cresce cobrado. Ninguém cresce ameaçado do fim.

No amor-sequestro, nada é suficiente. Pode oferecer seu máximo de ternura, que será pouco, o máximo de gentileza e será pouco, o máximo de entrega e intensidade e será pouco.

Quando os pedidos são insaciáveis, você não está sendo amado, demonstra que seu par apenas espera sua falha para humilhar e expor a superioridade.

Tornou-se refém das brigas e da insatisfação do outro. Buscará agradar, e decepcionará com frequência. Buscará reverter a situação, e somente agredirá de volta.

No amor-sequestro, deixa-se de ser inteiro para ser fragmentado, parcial, com dificuldades de resolver o trabalho e dar continuidade para a vida social. Nunca sobra folêgo para novas tarefas e compromissos.

O ideal é o amor-remanso. Ter paz para errar, pensar no erro e retribuir com atitudes afirmativas. Experimentar um relacionamento com a sensação de contar com todo o tempo para alinhar os passos (entender para aprender). Pois a solução dos problemas não acontece com hora marcada.

Os amigos e a familiares se manterão próximos, aconselhando, amparando, valorizando o enlace. Tem chance de sentir saudade, não estará sufocado e asfixiado num mesmo lugar, não se enxergará culpado ou em desvalia. Será admirado pela sua lealdade, por aquilo que você é. Por mais que não esteja certo, sua namorada ou seu namorado estará com você, ao lado, esperando que perceba a verdade, respeitando seu ritmo.

Não há maior liberdade do que a tranquilidade. Desfrutar de calma para se conhecer e assim se doar melhor.


A eternidade está no presente, não no futuro. Que seja eterno porque confiamos.

05 de janeiro de 2014 | N° 17664 VERISSIMO
As aventuras da família Brasil

Em Úbeda

John Barth é um escritor americano com um gosto pela literatura experimental, autoreflexiva e metafórica, que, acho eu, pode ser chamada de pós-moderna embora quase tudo, hoje, possa ser chamado de pós-moderno. Entre os seus ídolos literários estão Jorge Luiz Borges. Italo Calvino, Vladimir Nabokov, Samuel Becket e, surpreendentemente, Machado de Assis. Escrevi é e fiquei na duvida. Seria era? Consultei o Google para saber se Barth está vivo. Ou o Google está desatualizado ou ele, com 83 anos, ainda respira.

Eu tinha lido alguns romances dele e há pouco encontrei uma coleção dos seus ensaios e palestras, recém publicada. Numa das palestras, Barth lembra a história do cerco das tropas do rei Alfonso VI pelos mouros aos pés da Sierra Morena, Andaluzia, no século 11, e a chegada tardia do legendário El Cid a frente de reforços, para salvá-las. Irritado, o rei teria perguntado a El Cid a razão da sua demora, ao que o Campeador teria respondido: “Andava pelas colinas de Úbeda”. Desde então a frase incorporou-se ao idioma espanhol, e diz-se de quem se desvia do seu objetivo, esquece seu propósito ou se distrai, que “se marcha por los cerros de Úbeda”. Barth inclui nesta definição a digressão de palestrantes que abandonam o assunto da sua palestra como quem divaga pelas colinas de Úbeda.

Na mesma palestra Barth lembra a historia de Calipso, a ninfa do mar que atrasa a volta de Ulisses para casa e o detém por sete anos, na Odisseia de Homero. O nome “Calipso” vem da mesma raiz grega de “kalupsein”, que quer dizer “encobrir” (e também é da raiz de “apocalipse”, o inverso de encobrir, “revelação”, como sabe qualquer leitor da Bíblia). Calipso encobre, com seu encanto, o objetivo de Ulisses, que é voltar das ruinas de Troia para os braços de Penelope. Segundo Barth, ela pode ser chamada de Deusa da Digressão. Nos seus braços o herói da Odisseia encontra a sua Úbeda, e nela fica por sete anos.

Todos nós conhecemos “los cerros de Úbeda”, por onde andamos em devaneios, ou quando é absolutamente necessário mudar de assunto. Em Úbeda adiamos tudo o que precisa ser feito, não pensamos no que nos atormentaria e desfrutamos do doce prazer da indefinição: em Úbeda só se passeia, nada se decide. Ou, como nos casos de El Cid e de Ulisses, Úbeda é onde se perde tempo. Há quem nasça e passe toda a vida na sua Úbeda particular, longe da realidade, sem se dar conta. E há os que escolhem ficar em Úbeda em vez de encarar as durezas da vida.


El Cid, apesar do bucólico desvio que atrasou sua chegada, acabou chegando, e pondo os mouros a correr. Ulisses, no fim de sete anos nos braços de Calipso, finalmente decidiu que era hora de ir para casa. Tanto El Cid quanto Ulisses teriam chegado vigorados ao seu destino depois da sua passagem por Úbeda, El Cid no campo de batalha para salvar o rei, Ulisses na cama da paciente Penelope. O que serviria de exemplo para cronistas que passam longas temporadas em Úbeda, dedicando-se a frivolidades inconsequentes, para vez que outra acabar com a digressão, dar um mergulho na realidade e escrever para valer.
IVAN MARTINS
01/01/2014 08h54

Destino se inventa

Por que esperar passivamente que um romance caia do céu e dê sentido à sua vida?

Se eu fosse mulher, tivesse 30 anos e não estivesse num relacionamento sério, minha lista de planos para 2014 começaria com quatro palavras: arrumar uma relação legal.

Imagino, claro, que a mulher de 30 se parece comigo na idade dela: meio carente, um tanto romântico e cheio de planos para o futuro. Planos, que, no meu caso, incluíam alguém para partilhar a vida.

Há muitas pessoas que não sentem assim, evidentemente. Há caras e garotas que vivem bem sozinhos. Tão bem, na verdade, que não desejam juntar os trapos e se comprometer. Eles transam quando querem, ficam bem sozinhos e extraem da sedução frequente aquela satisfação que outras pessoas só encontram na intimidade duradoura com uma mesma pessoa – por mais que ela traga seus próprios problemas.

Não é raro que se tenha inveja desses sedutores solitários, mas suspeito que eles, de vez em quando, também gostariam de ser diferente do que são.

Mas, se você sente que não nasceu para circular de forma autônoma, se você, no fundo da sua alminha inquieta, percebe aquele desejo ancestral de acasalar e (quem sabe?) fazer família, temo que a única solução para 2014 seja procurar um par.

Parece absurdamente óbvio o que estou dizendo, mas, acreditem, não é.

Estou cansado de conversar com mulheres de 30 anos que parecem ter desistido do projeto casal. Falam em adotar sozinhas uma criança, congelar óvulos ou viver avulsas para sempre, navegando entre um casinho e outro, entre um e outro site de relacionamento. Estão jogando a toalha, como se dizia antigamente – embora sejam jovens, atraentes, interessantes, bem sucedidas no trabalho. Um paradoxo de saias.

O que elas contam é que chegaram a uma idade em que é preciso tomar decisões, mas não há em volta delas sujeitos que queiram dar um passo adiante – ou, frequentemente, sujeitos com quem elas gostariam de dar o tal passo. Homem sempre existe, diz uma amiga minha. Mas cadê o homem que a faça sentir apaixonada? Ou que, tendo penetrado a couracinha afetiva dela, não se mostre mais interessado em seguir livre, rompendo outras couraças por aí?

A vida não é simples, naturalmente. Frequentemente, porém, ela tem solução. Que, neste caso, pode estar na atitude.

Acho que nós, homens e mulheres do século XXI, ainda temos um olhar adolescente para as relações afetivas. Queremos que nos caia do céu um romance arrebatador, pronto e completo, sem contradições ou dúvidas. Sem defeitos constrangedores também. Exigimos ser amados pelo que somos, mas estabelecemos condições elevadas para amar. Tendemos, de forma tola, a nos apaixonar pela beleza, pelo charme, pelo riso. Apostamos no clichê e na superfície, mas aspiramos ser tratados de outro jeito: queremos ser apreciados pela profundidade dos nossos sentimentos e por nosso caráter.

Outro tipo de atitude é possível, porém.

Outro dia, conversando com uma amiga sobre o casamento dela – que já tem 10 anos – ouvi algo surpreendente. “Eu tive muita sorte”, ela me disse. “Meu marido é um cara maravilhoso, mas eu poderia ter amado alguém muito pior.” Vocês percebem como é generosa essa última frase? “Eu poderia ter amado alguém muito pior” significa, essencialmente, que ela estava pronta quando o sujeito apareceu. Ele não precisava ser rico, lindo, heróico. Seria suficiente que a encantasse – e ela, lindamente, admite que não teria sido difícil. Um bom homem bastaria.

Acho que há nessa história ainda mais do que parece.

Nela se manifesta a disposição da mulher – embora pudesse ser do homem – de inventar o seu próprio destino. Acho que o romantismo pueril disseminado à nossa volta (em conversas, filmes, novelas, livros e até colunas da internet) nos transforma em criaturas passivas diante da nossa própria vida.

Agimos como se o amor fosse um evento externo à realidade. Partilhamos a convicção estranha de que diante do amor não temos nada a fazer. Acreditamos que a única atitude frente ao afeto é esperar que ela apareça. Não entendemos esse aspecto da existência como algo sob nosso controle - embora ele seja mais uma etapa da existência, outra experiência essencial da qual não faz sentido abdicar, mas diante da qual não deveríamos apenas sentar de boca aberta, embasbacados e passivos.

  Em outras palavras, me ocorre que construir uma relação estável é como terminar o colégio, escolher a faculdade, lançar-se a uma profissão, sair da casa dos pais: uma experiência que precisa ser praticada, tentada, pensada e, de vez em quando, improvisada e remendada. Ao final, talvez, aceita da forma como apareça.

Logo, se eu fosse uma mulher de 30 anos sem uma relação estável - ou um homem da mesma idade e na mesma situação –  olharia em volta neste primeiro dia do ano da graça de 2014, seja na praia chuvarenta ou na rua ensolarada da cidade, em busca de alguém com que eu quisesse passar os próximos dez anos.

Ele ou ela pode estar pertinho. Ou não. Mas é certo que essa pessoa existe, porque não se trata de um semideus ou de uma criatura engendrada pela Providência. É um homem ou uma mulher comum, como tantos, a quem você concederá, de forma particular e única, embora não irrefutável, o privilégio do amor.


A quem você oferecerá o direito a partilhar alguns dos momentos mais importantes da sua vida – e que receberá, atônito ou comovida, a honra do seu amor. Estar com ele ou com ela será infinitamente melhor do que jogar as mãos para o alto e desistir. Aliás, como regra não se desiste da vida, nem das coisas que a tornam importante.
RUTH DE AQUINO
30/12/2013 09h26 - Atualizado em 30/12/2013 09h31

Nossos votos

Nossos desejos são nossos votos, na urna e numa ideia fixa: uma sociedade mais educada e sadia

Confesso ter problema com a palavra “aposta”. Todos os significados dela me incomodam. O significado mais comum implica ganhar ou perder dinheiro. Ou se aposta num cavalo ou numa certeza. Quando se aposta – com um amigo ou num vício – , arrisca-se muito. Grana ou reputação. Às vezes ambas.

Prefiro os desejos às apostas. Podemos ser mais livres e delirantes ao desejar. Podemos ser utópicos. No ano de 2014, de eleição e Copa, nossos desejos são, mais do que qualquer troféu, nossos votos. Votos na urna e numa ideia fixa: uma sociedade mais educada, mais sadia, mais responsável, mais ética e menos violenta.

1. Que o próximo presidente ouça a voz das ruas e, antes de investir US$ 4,5 bilhões em caças suecos, escolha suas prioridades de emergência, entre elas a Saúde, evitando que pacientes morram na fila da rua ou da cirurgia, por negligência e omissão.

2. Que o próximo presidente entenda a expressão “mobilidade urbana” e, em vez de inundar as ruas de carros particulares, invista em trens e transporte público de qualidade, com integração real entre rodoviárias, aeroportos, metrôs e ônibus. Que invista também em rodovias mais seguras, porque nossas estradas hoje são de quinta categoria.

3. Que o próximo presidente, consciente de que quase 40% das famílias brasileiras são hoje chefiadas por mulheres, invista numa política nacional de creches, em quantidade e qualidade, permitindo assim que possamos conciliar com um mínimo de tranquilidade e competência nossas funções de mãe e trabalhadora.

4. Que o próximo presidente remunere direito os professores e aumente a carga horária das escolas no Brasil, do ensino fundamental às universidades, para que crianças e adolescentes não fiquem apenas cinco horas por dia em instituições de ensino, enquanto os pais trabalham em tempo integral.

5. Que o próximo presidente ataque de frente o deficit profundo de habitação popular, poupando as famílias brasileiras de viver indignamente em barracos e favelas sem esgoto, sem segurança nem saneamento, com perigo de desmoronamento ou risco de tuberculose, junto a áreas de elite nos grandes centros urbanos ou nos rincões remotos e abandonados.

6. Que o próximo presidente tenha ética, determinação, apoio e moral suficientes para tirar a política brasileira desse pântano de corrupção e privilégios, acabando com supersalários e supermordomias num dos Congressos mais caros e menos eficientes do mundo. Que sejam punidos exemplarmente todos que tirarem proveito particular de seus cargos públicos.

7. Que o próximo presidente ajude os Estados a ter uma política consequente de segurança. Temos visto apenas iniciativas isoladas e criativas, como as UPPs no Rio. Sem uma contrapartida maciça de serviços públicos e sociais, elas acabam torpedeadas por bandidos com e sem farda. O risco é viver, cada vez mais, em cidades sem lei, onde se corre o risco de ser assaltado e morto ao andar na rua, ir à praia, pegar um ônibus, comer num restaurante, pegar dinheiro num caixa eletrônico de banco, chegar a sua garagem ou parar num engarrafamento.

8. Que o próximo presidente leve a sério o meio ambiente e o destino do lixo com campanhas de educação. E que não apenas multe, mas prenda os especuladores criminosos que destroem nossos parques, lagoas, praias e reservas.

9. Que o próximo presidente revele à população como são gastos os impostos, num país onde a arrecadação tributária bate recordes. E que os impostos sejam transformados em benefício dos contribuintes.

10. Que o próximo presidente não escamoteie os índices de  inflação e não minta sobre o real estado da economia do Brasil.


Aí sim, o Brasil seria campeão em 2014.