sábado, 4 de janeiro de 2014


04 de janeiro de 2014 | N° 17663
NÍLSON SOUZA

A vendedora de jornais

Sua estratégia de vendas é um sonoro “Bom dia!”. Ela caminha na calçada, ao lado dos carros que esperam o sinal verde e, como se estivesse desfilando numa passarela, presenteia cada motorista com um sorriso desfalcado, mas autêntico:

– Bom dia! – canta com igual alegria, para condutores sonolentos e vidros fechados.

Nem oferece o produto que carrega nas mãos e na bolsa a tiracolo. Economia de palavras e de gestos que me faz lembrar uma célebre e sábia lição de síntese. Aquela do feirante que colocou um cartaz na frente de sua banca: “Vende-se peixe fresco aqui”. Passou um especialista e criticou o excesso de obviedades. Se o feirante estava vendendo peixe, só podia ser naquele lugar. Lime-se o “aqui”.

Como não podia vender peixe estragado, só podia ser fresco. Na feira, ninguém doa mercadorias: fora com o “vende-se”. Em alguns desfechos, sobra o “peixe”. Em outros, nem o substantivo fica, pois a única mercadoria exposta era visível demais para que precisasse ser denominada. Todos que contam e recontam essa história dizem que, sem o cartaz, o feirante vendeu tudo.

Mas a jornaleira que amanhece numa das esquinas mais movimentadas da minha cidade não parece ter a mesma sorte. A maioria sequer se digna a olhá-la, poucos retribuem o afável cumprimento, e raríssimos estendem a mão com cédulas ou moedas em troca da sua oferta diária. É o que percebo no breve instante em que a observo, pois, quando o sinal abre, também sigo adiante, cheio de dúvidas: Será que ela vende todos os jornais? Será que sabe que sua atividade está ameaçada de extinção? Será que está mesmo?

Recolhi outro dia de um assinante de ZH um interessante raciocínio sobre essa questão. Ele está muito mais convicto do que os próprios jornalistas a respeito da sobrevivência dos jornais de papel. Seu argumento: os portais de internet vivem de cliques, por isso colocam em destaque celebridades, catástrofes e bizarrices, na compreensível tentativa de atrair a atenção dos internautas. Muitas notícias relevantes ficam escondidas.

Como o leitor de internet não tem o hábito de sair procurando, acaba deixando de ler coisas importantes. Já o jornal de papel inclui tudo no mesmo pacote, as chamadas de capa (que também buscam atrair a atenção dos leitores) e as demais nas páginas internas. Então, o leitor que compra a capa também recebe um complemento de boa qualidade. Até para não desperdiçar o que comprou, acaba dando uma volta pela edição e, quase sempre, sai lucrando em informação.

Gostei da argumentação.

Bem que a vendedora de jornais podia acrescentar uma frase ao seu “bom dia”.

– Aqui tem o que você não encontra na internet...


Pensando bem, é melhor seguir a lição do homem dos peixes. E confiar na inteligência dos leitores.

04 de janeiro de 2014 | N° 17663
PAULO SANT’ANA | MOISÉS MENDES (Interino)

Vamos para Marte

Essa história de que mandarão 24 pessoas a Marte. Você acredita? Quem vê a cápsula da Apolo 11, com três banquinhos apertados num funil de três metros de diâmetro, não acredita que aquilo possa ter ido à Lua.

A cápsula está no Museu Aeroespacial de Washington. É um monte de ferro chamuscado. Armstrong, Aldrin e Collins ficavam espremidos em meio a um monte de fios e painéis de comando com essas chaves antigas de liga-desliga que faziam “clic”.

Você olha os banquinhos, como eu olhei, e examina a cápsula por dentro e por fora e sai dali se perguntando: como pôde? Eles ficaram nove dias dentro daquilo. E em 1969.

Já foi dito que a Apolo 11 tinha recursos eletrônicos e de informática inferiores aos que cabem hoje num celular comum. Mas não é a questão tecnológica que impressiona, porque tudo passou a ser possível.

O que inquieta numa aventura desse tamanho é o comportamento humano. Como alguém fica nove dias, sob tensão extrema, sentado entre dois homens, como ficou Armstrong, o comandante?

Agora, pense na viagem a Marte organizada pela empresa holandesa Mars One. Mais de 200 mil pessoas se inscreveram, mil passaram na primeira etapa e só 24 serão mandadas para colonizar o planeta.

Numa excursão, numa viagem de grupo, em qualquer situação em que exista uma turma desconhecida, você começa a olhar os parceiros em volta antes de entrar no ônibus ou no avião. Examina a fala, os gestos, as risadas e se pergunta: quem será a mala dessa excursão?

A excursão a Marte tem um detalhe, um pequeno detalhe: você vai e não volta. Você vai ficar em Marte para sempre com outras 23 pessoas, e certamente haverá malas entre elas. Imagine uma TPM em Marte. Pense que você pode dividir um quarto em Marte com alguém que fala sem parar, ou que fica com a TV ligada no programa do Ratinho, ou que lê e comenta livros de autoajuda sobre como sobreviver em Marte.

Você fica uma semana encerrado na sala aí na firma e torce para que o sábado chegue logo. Pense que não há fins de semana em Marte, que não há como fugir para um parque, um shopping, um cinema. Em Marte, até um jogo com esse time do Grêmio que não faz gols seria um programa fantástico. Mas lá não haverá futebol, nem futebol de quinta categoria.

-

Eu só me mudaria para Marte se a Tânia Carvalho estivesse no grupo. Iríamos rir das desgraças, da falta de erva para o chimarrão, do tempo sempre nublado. Ficaríamos comentando os vários tons de cinza daquela paisagem belíssima e, aos domingos, sairíamos a procurar marcianos nos anéis de Saturno, porque já se sabe que não há marcianos em Marte.

Anuncia-se que o grupo de 24 colonizadores terá pelo menos um médico, um psicólogo, um jornalista, um cozinheiro, um marqueteiro e um empreiteiro. O chefe da delegação, mesmo que não tenha futebol em Marte, será um dirigente da Fifa. Não estão previstos políticos. Os políticos surgirão lá, porque político viceja nos lugares mais inóspitos.


É uma excursão arriscada, como essas de ônibus para a praia da Ferrugem no Carnaval. Tem tudo para dar errado.

04 de janeiro de 2014 | N° 17663
CAROL BENSIMON (Interina)

Filosofia retrô

Saí do cinema impressionada com Álbum de Família. Uma grande peça filmada com Meryl Streep no papel da mãe maluca. Há outros pirados em cena, mas ninguém tão desestabilizante e complexo quanto ela. Fique atento ao momento, aparentemente banal, em que ela conta às filhas uma história de infância envolvendo um par de botas de caubói.

Verdade, tinha gente rindo na sala de cinema em horas inadequadas, e isso quebrou o encanto da tela algumas vezes, mas tudo bem. Alguns vão passar pela vida sem entender muita coisa. Aceite, se acostume, e vá em frente.

Naquela noite, cheguei em casa com vontade de ler teatro. Abri um livro de peças do Tennessee Williams e comecei com The Glass Menagerie. O filho Tom tem um emprego em uma loja de sapatos, uma mãe dominadora e uma irmã que vive no mundo da lua, gastando boa parte de seus dias a cuidar de uma coleção de animaizinhos de cristal. Tom, para escapar da realidade opressora, vai ao cinema quase todos os dias. A certa altura, diz pra mãe que está buscando na ficção a aventura que não encontra na vida.

Já conhecemos essa história. Dom Quixote partiu porque adorava os rocambolescos romances de cavalaria. Madame Bovary estava infeliz no papel de esposa burguesa porque lia demais. Todos queriam aventura. Todos seguem querendo aventura. Um professor meu costumava dizer “façam uma transgressão por dia”, o que talvez fosse só uma outra maneira de abordar a necessidade de aventura em nossas vidas.

Então, esse é meu primeiro desejo para 2014: aventura. Ainda que hoje parte dela esteja domesticada, prevista, roteirizada, podendo inclusive ser parcelada em seis vezes no cartão. Tente fugir das aventuras prontas e do compartilhamento instantâneo de aventuras. Dê preferência para a aventura sob medida. Menos Facebook, mais intimidade.

Meu outro desejo é que a gente possa levar essa longa narrativa de nossas vidas balizados por uma ética pessoal, uma coerência interna. De nada adianta vestir branco na virada e se comportar de forma agressiva no trânsito todos os dias do ano. A sociedade brasileira é imoral? Não se junte a ela. Subverta a lógica, comece uma pequena revolução interna, espalhe gentileza em todo o seu raio de alcance.

Eu sei, isso está lembrando um Sartre mastigado. Meu binômio “aventura” e “ética pessoal” bem poderia se chamar “liberdade” e “responsabilidade”. Você me pegou, eu sou existencialista. Disse isso para uma amiga ontem, que reagiu com uma bufada meio francesa, meio pouco-caso, e retrucou: “O existencialismo tá fora de moda”.

Hoje, muitas bandas apostam na sonoridade de décadas atrás, os móveis voltaram a ter pezinhos, e nós aplicamos filtros envelhecidos nas fotos.


Filosofia retrô, eu espero, é o próximo passo.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Jaimecimenti

Receita de Ano-Novo

Pretensão ficar dando receita para Ano-Novo. Cada um deve ter a sua, não é? Mas o cronista, depois das orgias natalinas, das comidas, das bebidas, das roupas brancas, dos fogos de artifício, da ressaca ou não e dos votos de feliz Ano-Novo, tem de fazer sua parte, seguir escrevendo, ao menos tentando colocar alguma ordem no caos através das palavras, mesmo que precárias.

O último dia do ano, como sempre, não foi o último dia do tempo e, igual a todo mundo, o cronista ficou olhando para as pessoas, as águas, o mar, os céus, os matos e tudo mais e refletiu que a vida continua, que o sol segue se levantando. Que tal fazer de conta que o Ano-Novo é uma tela em branco, de computador ou de tecido, ou mesmo de papel. Aí a gente escolhe a receita.

Primeira opção: planejar bem tudo o que colocar na tela, antes de começar o preenchimento. Faz uns esboços, uns desenhos, escolhe umas cores, pensa total antes no que vai fazer com a brancura da tela. Segunda receita: planeja uma parte, faz alguns estudos e aí parte para o espaço em branco da tela, dando chance para algum improviso, algum imprevisto, para o acaso e tal. É o meio-termo, o equilíbrio, como quiser.

A terceira via é simplesmente ir direto para a tela e pintar, escrevendo, preenchendo o espaço com o que surgir na hora, sem pensamentos, planos e estudos anteriores. Digamos que é um caminho mais “inconsciente, algo mais surrealista, por aí. Alguma estrada situada entre o estado de sono e de sonho e estar acordado. Tipo assim deixa a vida me levar. Tipo assim uma receita que dispensa receitas, regras, ingredientes e modo de fazer.

Cada um pode pegar, também, o que quiser do ano passado para preencher a tela do Ano-Novo. Bom, aí a tela não vai ser totalmente em branco. Sem problema. É meio difícil imaginar um novo ano totalmente novo, uma tela totalmente livre de coisas passadas, vá lá. Pois é, planos, acasos, lições decoradas, improvisos, e, ao final, quem sabe a gente não pinta a tela de 2014 com base em normas compostas por um  improviso decorado.

Bom, vamos pensando, depois das festas, do Carnaval e da Páscoa, a gente senta para conversar melhor e definir o que vai fazer com o Ano-Novo. Bom, quem sabe a gente pensa depois do primeiro feriadão depois da Páscoa, sem “stress. Feliz Ano-Novo! Do jeito que você quiser, planejar ou não.


Jaime Cimenti

Pessoas em situações-limite

Se alguém ainda duvida que o jornalismo é a melhor profissão do mundo, como disse o escritor e jornalista Gabriel Garcia Márquez, é só ler Em terreno minado - aventuras de um repórter brasileiro em áreas de guerra e conflito, de Humberto Trezzi, jornalista mais premiado de 2013 e  vencedor do Prêmio Esso de 2013. Trezzi é especialista em coberturas de risco. Sua obra revela bastidores de reportagens em áreas de risco que ele fez em quase 30 anos de profissão.

“Crime e guerra são a minha ‘praia’ desde que comecei na profissão, lá no longínquo 1984”, diz o autor. No livro, o repórter apresenta detalhes de arrepiar, conflitos, rebeliões e catástrofes em vários pontos do mundo, como Angola, Bolívia, Chile, Colômbia, Haiti, Líbia, México, Paraguai, Timor e também em Porto Alegre, Rio e Santa Catarina. “É apenas um balanço daquilo que mais me impactou nesses anos de estrada. Um ajuste de contas com a profissão”, conta Trezzi, modesto, sobre o livro.

O autor aprendeu a escrever reportagens em estilo literário na leitura de grandes mestres como Ernest Hemingway, Joseph Conrad e Gabriel Garcia Márquez. Matadores de aluguel, traficantes, assaltantes, entrevistados em seus esconderijos, tentativas de golpe de Estado e situações em que o autor esteve sob risco de vida estão na obra, que retrata bem nosso conturbado mundo contemporâneo.

Em abril de 1996, o repórter esteve a perigo nos arredores do aeroporto de Kuito, em Angola. Em 2011, esteve em meio a disparos de artilharia da Líbia. No interior da Bolívia, em 2008, Trezzi e um fotógrafo foram detidos por índios revoltados que os consideraram americanos.

Em 2008, Trezzi fez uma reportagem sobre mafiosos mexicanos em Ciudad Juarez, onde em sua primeira noite houve 17 mortes. Guerra civil no Haiti, terremoto no Chile, caçadores de veículos roubados no Paraguai, meandros do tráfico de drogas no Rio e em Porto Alegre e outros acontecimentos estão nas páginas do livro, que revela o fascínio das reportagens e um repórter nada super-homem e demasiadamente humano, como o classificou Andrei Netto, correspondente de O Estado de S. Paulo na França.

Na parte final do livro, com título Reportagem Policial, Trezzi oferece um texto vibrante sobre o tempo dos policiais-repórteres, quando alguns jornalistas (especialmente os policiais-jornalistas) portavam armas e o relacionamento da imprensa com os criminosos era, por vezes, bem diferente do que o da atualidade.


Enfim, quem gosta de emoção, aventura, jornalismo e literatura, leia o livro. Não se arrependerá. Geração Editorial, 344 páginas.

03 de janeiro de 2014 | N° 17662PÁGINA 10 |
ROSANE DE OLIVEIRA

Como se caísse um avião com 379 pessoas a bordo

De tanto contar mortos em acidentes ou em crimes de trânsito , os brasileiros parecem anestesiados. Entre o dia 20 de dezembro e a manhã de ontem, morreram 379 pessoas nas estradas federais e nós temos que nos dar por satisfeitos, porque esse número é 9,7% inferior ao do mesmo período do ano passado. A ele somam-se os acidentes nas estradas estaduais e nas vias urbanas (até o fechamento desta edição, a estatística completa ainda não estava disponível). Só nas rodovias estaduais gaúchas foram 11 mortos no mesmo período.

Fiquemos, pois, com os 379 mortos nas rodovias federais. É como se caísse uma das maiores aeronaves em operação no mundo e quase ninguém desse atenção. Porque o avião é um dos meios de transporte mais seguros, um acidente choca, comove e desencadeia uma investigação profunda para identificar as causas e impedir que o problema se repita.

Os mortos no trânsito não resultam em uma foto de caixões enfileirados – exceto quando o acidente envolve ônibus – e acabam sendo tratados com a frieza das estatísticas: são 6.651 acidentes com 379 mortos, o que dá 41 vítimas fatais a menos do que em 2012.

Somos induzidos a achar que o número é bom, porque, afinal, a curva é decrescente. Além da redução em números absolutos, houve queda proporcional em relação aos veículos emplacados. Em 2012, foram 97,13 acidentes por milhão de veículos. Em 2013, baixou para 81,4 por milhão. Poderia ter sido pior, é verdade, mas os números são péssimos. Só nas estradas federais, 4.352 pessoas ficaram feridas. Isso é coisa que se comemore?

Desse batalhão de feridos, parte ainda corre o risco de morrer em consequência das lesões, outros ficarão incapacitados para o trabalho ou terão projetos interrompidos.

Quando se abrem os dados, fica claro que boa parte das mortes ocorreu por imperícia ou imprudência. Foram 83 em colisões frontais, 30 em saídas de pista, 24 por atropelamento, 17 em colisão transversal e 14 em capotamentos. O número de motoristas flagrados alcoolizados ou sem habilitação sugere que o caminho para reduzir os acidentes passa pela fiscalização e pela aplicação de multas, como fazem os países que conseguiram vencer a guerra do trânsito.

Impacto de R$ 1,8 bilhão


O reajuste de 6,78% no salário mínimo, que agora é de R$ 724, fará com que as prefeituras gastem R$ 1,8 bilhão a mais em 2014. O cálculo foi divulgado ontem pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM). Segundo o estudo, mais de 2 milhões de funcionários têm o salário vinculado ao piso. Prefeitos reclamam de que os aumentos concedidos pelo governo não vêm acompanhados de novas receitas.

03 de janeiro de 2014 | N° 17662
PAULO SANTANA | MOISÉS MENDES - INTERINO

O barulho ao redor

Batista atormentou minha vida de gremista naquele Internacional imbatível dos anos 70. Mas eu não desejaria nunca como vingança o tormento da barulheira que persegue Batista em Ipanema, na zona sul de Porto Alegre.

O comentarista é morador da beira do Guaíba, onde a turma do som automotivo se reúne aos domingos. Estacionam, abrem o porta-malas (alguns carros nem porta-malas têm, mas só as caixas com alto-falantes) e fazem um duelo de ruídos.

Toda a barulheira produzida pela música dançante brasileira desfila por Ipanema. Eles aparecem mais nos domingos à tarde. O objetivo é impressionar as gurias pela ostentação da breguice.

Liguei para Batista na tarde do primeiro do ano para saber como estava o ambiente, porque queria escrever sobre a bagunça na área em que ele mora. Batista estava num café na beira do rio. Me contou sobre o que presenciara pouco antes na Avenida Guaíba, perto da imagem de Oxum. Um rapaz estacionou, abriu a tampa traseira e deu um show:

– Ele ficou por uma hora e meia tocando bate-estaca. Foi embora há uns cinco minutos.

A região ao redor da imagem de Oxum é a preferida. Não pense que os bárbaros são pobres ou remediados. Tem gente fina, em carro bom. São moradores de Porto Alegre e da Região Metropolitana. Ipanema é o point.

Batista me contou que ultimamente a situação até que melhorou um pouco, mas só um pouco, com a presença da Brigada. Mas, se a Brigada some, como sumiu no primeiro do ano, eles voltam.

Estou falando de Ipanema, mas o barulho é generalizado. Chegamos ao descontrole total, por falta de fiscalização e de leis. Mas o que falta mesmo é vergonha, inclusive dos governantes.

Em São Paulo, vigora uma nova lei, que multa em R$ 1 mil os donos de carros que estiverem com som alto. Em algumas praias de Santa Catarina, há avisos nos postes de que não é permitido som em carros. Aqui mesmo, em Porto Alegre, uma praia particular ao lado da reserva de Itapuã tem uma enorme placa na entrada avisando que ninguém pode ouvir música nos carros.

Mas e os nossos vizinhos, que nos torturam todos os fins de semana? E o caminhão do gás com aquela música chata (eu prefiro um sino), que gruda na cabeça da gente sábado e domingo?

Os vereadores vão dizer que existem leis. Mas quem fiscaliza e reprime? Batista sabe que o incomodado deve denunciar, fornecer seu nome e endereço e ser exposto à bagaceira. Em São Paulo, era assim, mas a nova lei não permite mais a divulgação do nome de quem se queixa.


Somos todos moles demais com os desaforados do som alto em carro, em casa, nas praias. Nessa terra sem lei, a tática poderia ser esta: vizinho que atacar de bate-estaca e assemelhados teria como resposta, na porta da casa, as valquírias do Wagner em versão sertaneja. Depois da meia-noite.

03 de janeiro de 2014 | N° 17662
FÁBIO PRIKLADNICKI (Interino)

Intolerância na ponta do pé

Um homem com a camisa do Internacional está abraçado sensualmente com outro homem com fardamento do Grêmio, em uma cena de claro teor homoerótico. Esta imagem fez parte do espetáculo Os Bárbaros – Extreme Fashion Show, que esteve em cartaz, em maio, em Porto Alegre, no 8º Festival Palco Giratório Sesc-POA. Para criar a performance, o coletivo La Pocha Nostra, liderado pelo mexicano Guillermo Gómez-Peña, trabalhou em colaboração com artistas do Rio Grande do Sul.

Assim, puderam chegar a temas que são tabus em nossa sociedade. Fico imaginando a repercussão da imagem do casal gay com camisas da dupla Gre-Nal caso fosse exposta em outdoors ou compartilhada nas redes sociais.

O futebol é uma das poucas arenas públicas em que a homofobia é tacitamente tolerada. Exemplo disso foi a repercussão do selinho que o jogador corintiano Emerson Sheik deu em um amigo, em agosto de 2013, para celebrar uma vitória de seu clube. Sheik postou a foto do beijo em uma rede social, acompanhada de um texto. Um trecho: “Tem que ser muito valente para celebrar a amizade sem medo do que os preconceituosos vão dizer”.

Mas os preconceituosos riram por último. O gesto foi mal recebido pelas torcidas organizadas do Corinthians, e alguns de seus integrantes protestaram no centro de treinamento. “Viado não”, dizia uma faixa. Outra estampava: “Vai beijar a P.Q.P., aqui é lugar de homem”.

Parecia uma minoria, mas a pressão foi tão grande, que o jogador veio a público se justificar. Novamente em uma rede social, declarou: “Peço desculpas aos que se sentiram ofendidos pela brincadeira que fiz com um amigo”. Aqui com meus botões, fico pensando o seguinte: não quero viver em um país que tem sua moral ditada pelas torcidas de futebol.

O que explica nosso interesse mórbido pela vida íntima dos ídolos? Ronaldo, o Fenômeno, teria se envolvido com três travestis em 2008. Negou que tenha tido relações com elas e afirmou que foi extorquido. Romário teria se relacionado com uma pessoa que passou por uma cirurgia de mudança de sexo, no final de 2013. Também negou. E daí, se fosse verdade, em ambos os casos? No fundo, não estamos julgando a sexualidade dos ídolos, mas a nossa própria moral.

Aqui está a questão: o futebol não é um mundo à parte; é um espelho da sociedade. Quando a notícia do beijo de Emerson Sheik foi publicada no Facebook por Zero Hora, as manifestações de apoio ao gesto foram “raras” na seção de comentários, segundo uma outra notícia no jornal que tratava da repercussão do caso.


E não é apenas a homofobia. Gritos racistas com jogadores negros ocorrem, volta e meia, em estádios na Europa. Os especialistas em futebol tratam dessas questões como exceções. Mas, convenhamos, são exceções que têm se repetido mais do que gostaríamos. E as penas aplicadas pelas autoridades não têm sido suficientes ou adequadas para coibir esse tipo de atitude. Precisamos cuidar do futebol para que seja um espelho do que há de melhor, e não de pior, em nós. Desejo que, neste ano de Copa do Mundo no Brasil, nós, torcedores, sejamos menos intolerantes.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014



BoM DiA!

Saber que Deus cuida de nós é muito bom!
É muito bom saber que alguém cuida de nós,
pois quando passamos por esta experiência de sermos amados,
somos encorajados por aquele que nos ama.
Se pelas dificuldades vamos para 'debaixo da mesa', quando
percebemos que Deus nos ama, saímos e nos sentimos amados.
.
FABIO DE MELOBy Keyla

FELIZ ANO NOVO, MUITAS BENÇÃOS PRA VCS,
E SEJA UM ANO DE REALIZAÇÕES EM SUAS VIDAS! 



BoM DiA!

Saímos pelo mundo em busca
de nossos sonhos e ideais.
Muitas vezes, colocamos nos lugares
inacessíveis, o que está ao alcance
das mãos.
A linguagem de seu coração é que irá
determinar a maneira correta de descobrir
e manejar a sua existencia.
Onde está seu coração alí estará também
o seu tesouro.
.
Paulo Coelho
By Keyla




BoM DiA!

Quando me amei de verdade, desisti de ficar
revivendo o passado e de preocupar com o
futuro. Agora, me mantenho no presente,que
é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.
Quando me amei de verdade, percebi que
minha mente pode me atormentar e me decepcionar.
Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela
se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é... Saber viver!!!
.
Charles Chaplin
By Keyla


02 de janeiro de 2014 | N° 17661
EDITORIAIS ZH

APERTO NO CONTRIBUINTE

A tática adotada pelo governo, com o arrocho do Imposto de Renda para pessoas físicas, tem efeitos generalizados, mas é particularmente cruel com assalariados que tiveram melhorias em seus ganhos nos últimos anos. A correção na tabela do IR ficou, pela 18ª vez consecutiva, abaixo da inflação. Na prática, significa que a defasagem chegou agora a 66%, fazendo com que quem já pagava acabe por desembolsar mais e, quem se achava isento, esteja cada vez mais sendo chamado a contribuir para o Fisco.

Em 1996, quando a tabela do Imposto de Renda foi congelada por um período que se estendeu até 2001, a isenção do tributo beneficiava quem recebia até 6,55 salários mínimos, conforme levantamento da consultoria Ernst & Young. Hoje, a faixa de isenção está em apenas 2,47 mínimos. O truque da Receita é condenável. A tabela é corrigida sempre abaixo da inflação, e pessoas que não pagavam IR passam a pagar, não só porque melhoraram suas rendas, mas por- que a não atualização atinge quem antes era isento.

Por isso, são oportunas as intenções como a da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que prepara uma ofensiva judicial pela correção da tabela. Não se trata de pedir indexação automática de correções, mas de reivindicar atualizações mais condizentes com a evolução da inflação. O governo acaba por penalizar os que são apresentados pelo próprio Planalto como novos beneficiários das políticas que contribuem para a ascensão econômica e social das famílias de baixa renda.

Agregam-se a essa ganância tributária o histórico arrocho sobre as empresas e medidas pontuais recentes, como a retirada gradual da redução do IPI dos automóveis e o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras, que atinge quem viaja para o Exterior. Nesse caso, é enganoso argumentar que se trata de medida seletiva, porque turistas em viagem a outros países fariam parte de uma elite. Na verdade, viajar é cada vez mais uma conquista da mesma classe média assalariada arrochada pelas falsas correções da tabela do IR.


A fúria arrecadatória tem o mesmo ímpeto do descontrole das contas públicas. Quanto mais gasta, e de forma descontrolada, mais a União quer arrecadar. As classes ascendentes são as mesmas que se manifestaram com vigor nas ruas, em meados do ano passado. O Planalto deve estar atento ao fato de que o Imposto de Renda mexe no bolso de pessoas cada vez mais críticas, que se reafirmam como cidadãos, e não só como consumidores.

02 de janeiro de 2014 | N° 17661
PEDRO GONZAGA

Lista de desejos

E eis que com a mesma devoção que a erguemos, começamos a dinamitar nossa lista de desejos para 2014, pois um dia bastou para percebermos vã a esperança daqueles quilos a menos (e não tendo caído no domingo sequer contamos com cinismo das segundas), já mal um dia avança e vai botando água na nossa intenção de sermos mais tolerantes com as publicações alheias (em especial as com jogos da velha), não é fácil,

vocês sabem disso, e ainda precisamos andar mais de bicicleta, deixar de reclamar do calor, da Copa, das eleições, superar os calos de tantas outras listas fracassadas, e eu pergunto a vocês, por que seguir com isso, o que há em nós que nos quer tão espartanos, tão estoicos, que nos quer culpados por não termos dado conta das pilhas de filmes (quase todos à espera), das pilhas de discos (para quem ainda os compra, abraços aos amigos Paulo Moreira e Marcito Pinheiro), das pilhas de livros que aguardam por leitura aqui desde 1994,

confesso, e confesso mais: cada um de nós tem um ponto fraco para escoar seus suados dinheiros, os meus são os livros (havia uma filipina cujo nome agora me foge que adorava colecionar sapatos), livros sempre comprados em P.G., para uma potência de leitura que mal sustenta uma P.A.,

triste isso, mas me permitam (agora quase íntimos) um lampejo de gorduroso orgulho: nunca escrevi em lista, “prometo só adquirir novos livros depois de ter lido os que foram comprados”, ora pois, por que cercear essa alegria, afinal, uma lista deveria ser sobre o possível, não sobre o desejável,

e é por isso que não à toa, à medida que caem as mais nobres resoluções, restam-nos somente as melancólicas (em geral, a partir da sétima – confiram aí), aquelas que denotam o efeito do tempo sobre nossas pretensões, e logo rebrilha a cota de autoflagelo e de tantas nítidas saudades que mais do que a ressaca vêm nos cegar aos primeiros dias de janeiro, mas não cedamos, não fraquejemos, lembremos do Paulinho da Viola no documentário Meu Tempo


É Hoje, quando ele sabiamente diz não ceder à tentação da nostalgia, a que eu acresceria, não ceder à tentação de planejar o futuro, o que por fim abriria uma possibilidade de reduzir a esses dois únicos itens a minha lista de 2015, ciente, desde já, de não ser forte o bastante para não me impor alguma espécie de obrigação.

02 de janeiro de 2014 | N° 17661
PAULO SANT’ANA | MOISÉS MENDES (Interino)

Por que plantamos árvores

Uma história de ano novo, para a reentrada na atmosfera depois das festas. Começo com Chico Mendes. Poucos sabiam quem era Chico Mendes quando ele foi assassinado em 1988. O caboclo ambientalista de Xapuri que aparecia no The New York Times sempre foi ignorado pelos políticos, pelos governos e pela imprensa no Brasil.

Era visionário demais para quem vive nas bolhas das cidades. Enquanto Chico já protegia a Amazônia, nos anos 70, eu matava passarinho com bodoque no Caverá, em Alegrete. Hoje, nossos gestos pela natureza são também um desagravo por Chico.

Penso nele, em Luís Roessler, padre Balduíno Rambo, Lutzenberger e me pergunto sobre o que faço de consequente inspirado na bravura desses caras. Não faço quase nada.

Minha amiga Rosane Tremea já comprou luvas de gari e vai se engajar a mutirões para limpar praias do Guaíba. Eu decidi que serei um mero espalhador de mudas de pitangueiras. Em junho, plantei uma pitangueira especial com meu neto Joaquim numa pracinha da zona sul de Porto Alegre, entre a Juca Batista e a Estrada da Serraria.

Joaquim, com dois anos e meio, despejava água de uma garrafa na mudinha e narrava para os pais, Bernardo e Lisiane, e para a avó Virgínia:

– É mucho água, é mucho água.

Foi a primeira vez que o vi soletrando uma frase com tanta convicção – e “muita” virou um castelhano mucho, que não sei de onde ele tirou.

A pitangueira gostou da água e do lugar. Agora, na estiagem, eu e Virgínia fomos socorrê-la. Estava abatida. Na segunda regada, na terça-feira pela manhã, último dia do ano, matamos a sede da pitangueira do Joaquim e eu falei alto para as mudas vizinhas:

– Eu prometo: amanhã, se não chover, vamos trazer água para vocês.

Quando nos preparamos para ir embora, um carro estacionou atrás. Uma senhora carregava uma garrafa de água até a muda ao lado da pitangueira.

Nos apresentamos. A pediatra Neila Daiello ia regar uma acácia que plantou há dois anos. A pracinha tem o nome de seu pai, o desembargador Maurílio Alves Daiello.

Quando retornamos ao carro para ir embora, olhei pelo retrovisor e tive a sensação de que uma fila de automóveis se formara no mormaço daquele lugar deserto, com gente descendo em direção a outras mudas com garrafas de água. Como estou cada vez mais emotivo (ou, se quiserem, piegas mesmo), olhei então a pitangueira e a acácia, a uns três metros uma da outra, e pensei que as duas já eram amigas. Saímos dali e caiu um aguaceiro purificador.

Minha missão como pitangueirista continuará em fevereiro. Plantaremos com o outro neto, Murilo, e os pais dele, Artur e Karine, uma muda em Balneário Camboriú. Vamos fazendo a nossa parte nesse latifúndio.


Neila Daiello plantou a acácia porque deseja o bem do mundo e assim fica também mais perto da memória do pai. Nós plantamos pitangueiras para que Joaquim e Murilo façam um dia o que deixamos de fazer. Ou isso é só um pretexto bom para que também a gente se fortaleça desde agora na memória deles.

02 de janeiro de 2014 | N° 17661
L.F. VERISSIMO

Desforra

Deve ter gente estudando a tabela – e os astros, e os búzios e as entranhas de pássaros – para saber se há possibilidade da final da Copa deste ano ser entre Brasil e Uruguai, como em 1950. As duas seleções se enfrentaram muitas vezes depois daquela derrota do Brasil que ficou atravessada na garganta de uma geração, mas desta vez as condições para uma desforra seriam perfeitas: 64 anos depois, valendo outra Copa do Mundo, no Maracanã, o local do crime.

O time do Uruguai não está mal. Vários dos seus jogadores brilham na Europa. O Forlán, melhor jogador da última Copa, parece ter esquecido seu futebol num quarto de hotel da África do Sul, mas pode muito bem só estar esperando esta Copa para voltar a ser o que foi. Enfim, estaria tudo pronto para uma catarse coletiva. Ou para outra tragédia, claro.

Injustiça
O pessoal está sendo injusto com o Renan Calheiros. Todo esse falatório sobre a sua ida num jato da FAB para fazer um implante de cabelos em Recife, e desperdício de dinheiro público e blá- blá-blá, e ninguém se lembrou de fazer a pergunta que realmente interessa: o implante foi bem-sucedido? Li que o resultado só começará a aparecer com o tempo. Quer dizer, vamos pelo menos esperar para ver como fica o homem, antes de falar em desperdício.

Papo vovô
Nossa neta Lucinda, com cinco anos, muitas vezes dorme na nossa cama. No outro dia, ela acordou, viu que eu estava deitado ao seu lado, olhando para ela, e perguntou: “Vô, tu conhece o Corcunda de Notre Dame?” Não sei onde ela viu ou ouviu falar do personagem, mas fiquei com a impressão de que acabara de encontrá-lo, num sonho. Cheguei a imaginar que no sonho o Corcunda de Notre Dame tivesse dito que me conhecia e ela quisesse confirmar. Pretensão de avô, a de ser citado em sonho de neto.

Partido errado

Na última quinta-feira, eu escrevi aqui que deveríamos aguardar o comportamento do STF em relação ao mensalão mineiro e ao cartel paulista, e que só daria para acreditar cem por cento na Justiça brasileira quando, numa pelada entre presos no pátio da Papuda, os times do PT e do PMDB jogassem cada um com onze. Eu queria dizer PSDB, não PMDB. Não tenho nem a desculpa do “m” e do “s” estarem lado a lado no teclado, e eu ter errado a pontaria por milímetros. Foi patetice mesmo. Desculpe.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

HUBERT ALQUÉRES

O ASSUNTO É A ELEIÇÃO 2014

Para que lado penderão os brasileiros?

O desencanto dos brasileiros poderá se traduzir no crescimento do voto nulo ou numa grande votação dos tiriricas e felicianos da vida

O ano de 2013 ficará marcado como aquele em que o gigante ameaçou despertar, mas voltou a hibernar. Até quando, não se sabe. É possível que acorde ainda antes das eleições. Mas isso, por enquanto, é apenas uma hipótese.

Vivemos uma situação aparentemente contraditória: de um lado, o governo Dilma recuperou parte de sua popularidade, ainda que longe de antigos índices estratosféricos; de outro, pesquisas indicam o desejo de mudança dos brasileiros. O que será, portanto, do amanhã?

Essa contradição se manifesta ainda da seguinte maneira: o modelo dos últimos dez anos dá sinais de esgotamento. Mas não surgiu, ainda, uma alternativa a ele.

É visível o cansaço dos brasileiros com os péssimos serviços públicos, com o crescimento econômico pífio e com um modelo de governabilidade baseado em patrimonialismo e fisiologismo pelos partidos da base aliada e na cooptação dos sindicatos e movimentos populares.

Mas esse cansaço --responsável pela memorável jornada popular de junho-- não encontrou seu catalisador. Daí o retraimento das manifestações populares. O novo que apareceu foi a não-alternativa: os "black blocs". O niilismo predatório desse "movimento" só contribuiu para afastar os manifestantes das ruas. É possível que tenha vida curta. Em última análise, suas ações facilitaram a vida da presidente Dilma, pois só serviram para arrefecer o clamor popular. A presidente tomou iniciativas, a maioria midiática, que lhe possibilitou recuperar parte do prestígio perdido.

Isso não esconde, contudo, um fato cristalino: vivemos o fim de uma era e quem quer que seja o presidente eleito em 2014, este será obrigado a dar um brutal freio de arrumação na economia, tais os enormes desacertos econômicos cometidos pelo governo Dilma. Inevitavelmente, virá um novo modelo baseado no estímulo aos investimentos e no controle rígido da inflação e dos gastos do governo.

A presidente tem consciência de que não há mais tempo para mudanças no atual mandato. Daí a sua estratégia de protelar decisões e manter a conjuntura sem maiores turbulências para tentar decidir a parada presidencial já no primeiro turno. É essencial criar o clima do "já ganhou". Se tiver que enfrentar uma segunda rodada eleitoral, correrá sério riscos de não se reeleger.

Já a oposição tem que fazer propostas capazes de galvanizar o sentimento de mudança da esmagadora maioria dos brasileiros. Hoje há uma concorrência desigual. Apenas a presidente está em campanha.

O jogo será menos desigual quando começar a corrida eleitoral. Não está escrito nas estrelas para qual lado os brasileiros penderão. Suas insatisfações abrem espaço para tudo. Inclusive para um candidato outsider com respeitabilidade na sociedade. O desencanto poderá se traduzir ainda no crescimento do voto nulo ou numa grande votação dos tiriricas e felicianos da vida.

Mas isso também é mera hipótese. De uma hora para outra, os brasileiros poderão achar o caminho e fazer da eleição uma oportunidade para o nascimento do novo.


HUBERT ALQUÉRES, 52, engenheiro, é vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro e membro do Conselho Estadual de Educação. Foi presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (2003-2011)
MARCELO COELHO

Walter Mitty

Filme protagonizado e dirigido por Ben Stiller combina bem com as sensações do final de ano

Qualquer que seja o livro, e qualquer que seja o filme, em geral todo mundo concorda: o livro é muito melhor. Com "A Vida Secreta de Walter Mitty", acontece o contrário.

O filme, dirigido e estrelado por Ben Stiller, tem uma riqueza de conotações e uma exuberância imaginativa que o simpático e curtíssimo conto de James Thurber (1894-1961) não consegue alcançar.

O texto, publicado pelo cartunista e escritor americano em 1939, parte de uma excelente ideia --e praticamente se resume a essa ideia apenas. De profissão indefinida, com uma mulher exigente e banal, Walter Mitty visita o centro de sua cidadezinha dirigindo seu automóvel --que imediatamente, em sua imaginação, transforma-se numa embarcação de guerra.

Ele tem de levar a mulher até o cabeleireiro e comprar ração de cachorro no armazém. Essas atividades comuns se transfiguram numa cirurgia de alto risco ou no sensacional julgamento de um assassino impiedoso.

Os parágrafos do conto se alternam simetricamente entre a vida comum e as fantasias, alimentadas de literatura barata e reportagens sensacionalistas, em que o personagem submerge.

Apesar de sua doçura humaníssima, o conto padece de um esquematismo formal, de um tique-taque entre as situações, que torna suas poucas páginas até excessivas para o ponto que se quer demonstrar.

James Thurber traduz para a vida concreta americana algo que Baudelaire, num poema em prosa ainda mais seco e óbvio, já fizera em meados do século 19. O marido viaja nas nuvens, enquanto a mulher grita para que ele tome a sopa de uma vez.

Para lembrar de outros personagens parecidos, Walter Mitty é também um ancestral de Snoopy, o cachorrinho das tiras de Charles Schulz, que por vezes brinca de ser um ás da aviação na Primeira Guerra Mundial ou o bacanão de um campus universitário.

No filme atualmente em cartaz, Walter Mitty é solteiro, e sabemos tudo de sua profissão. Ele é encarregado de arquivar os negativos fotográficos da revista "Life", o que faz com que seu emprego esteja duplamente ameaçado.

A revista toda será fechada, em tese porque o jornalismo impresso perde espaço para mídias digitais; pior ainda, nenhum fotógrafo usa o filme convencional, de modo que já não há negativos para guardar.

Com esse contexto concreto e atualizado para o conto, o roteiro do filme (assinado por Steve Conrad) cria ao mesmo tempo uma metáfora que dá novos significados à situação.

Walter tem de achar o negativo de uma imagem especialíssima, feita pelo aventuroso e genial fotógrafo Sean O'Connell (Sean Penn). Viajando pelos lugares mais perigosos e selvagens do planeta e enfrentando todo tipo de perigos (Afeganistão, Groenlândia, neves, terroristas, vulcões), o fotógrafo tem no medroso Walter Mitty seu exato "negativo".

Enquanto isso, as fantasias do personagem se imiscuem no filme de um modo muito menos mecânico do que no conto. No universo de James Thurber, a ficção impressa ainda era o que fornecia o ópio imaginativo do personagem --isso, num tempo em que o cinema já reinava na cultura americana.

No filme de Ben Stiller, a passagem para o ilusório se faz sem quebras, uma vez que tudo --seja verdadeiro ou fantasioso-- já se passa no ambiente onírico por excelência, o dos filmes de Hollywood.

É assim que o espectador terá de atentar para ilusões em dupla direção. Sem aviso prévio, Walter Mitty sai da realidade para um mundo de aventuras hollywoodianas. Mas a própria realidade é hollywoodiana, e a história do filme pode conferir ao personagem saídas que o conto não se dispunha a oferecer.

Como um negativo fotográfico, o verdadeiro Walter Mitty será "revelado" ao longo do enredo --mas o espectador pode se perguntar se esse novo personagem é de fato "verdadeiro" ou simplesmente uma nova, e mais elaborada, ilusão.

Estou, em todo caso, sofisticando demais um filme talvez longo demais, e que aspira a ser, sobretudo, um entretenimento de ótimo nível. Como sempre, saímos do cinema para reencontrar, inalterada, a realidade de nossas próprias limitações e de um cotidiano tantas vezes desinteressante.

Mas, quando o ano termina, e alguns projetos se fazem para o futuro, é também possível que ao olhar para trás a gente perceba que muita preocupação real agora já se transformou em ilusão.


Cada pessoa, que mal se conhece a si mesma, pode ter sido vítima de aparências e de sombras sem substância. Quem sabe se descubra como realmente é, melhor e mais forte do que pensava. Talvez essa descoberta seja apenas outra invenção, não importa. Como dizem no Ano-Novo, importa mais que seus sonhos se realizem.
ALEXANDRE SCHWARTSMAN

2014: o ano que já acabou

Não parece provável que o governo se engaje em um esforço de austeridade às vésperas da eleição

Não que eu acredite muito nisto. Se aprendi algo ao longo dos anos, é que eventos inesperados têm o péssimo hábito de ocorrer justamente quando não se espera e cenários que parecem dados --como baixo crescimento e alta inflação em 2014-- podem tomar rumos surpreendentes.

Isto dito, para ser sincero, creio mesmo que este ano não será muito diferente de 2013, mas o verdadeiro objeto do título não é exatamente o desempenho concreto da economia, mas sim a percepção de que, apesar dos problemas, são baixas as chances de mudança na política econômica, ao menos até 2015.

Não há economista sério que não esteja, em algum grau, preocupado com os desenvolvimentos recentes. Mesmo os que, até há pouco, faziam da defesa da política econômica um estilo (quando não um meio) de vida já começaram, cautelosamente, a recuar de suas trincheiras.

A expansão medíocre do produto, a inflação mal e mal contida a golpes de controles diretos de preços, o crescente deficit externo, somados ao desempenho pífio da produtividade, sugerem que o atual arranjo de política é insustentável.

Há, a bem da verdade, exemplos de países que mantiveram (ou mantêm) situações insustentáveis por períodos até bastante longos, alguns do quais desconfortavelmente próximos, mas não há casos de economias que tenham prosperado sob essas condições. Pelo contrário, há sempre um momento em que a farsa se desfaz e a crise sobrevém.

Sabe-se, portanto, ser necessária uma mudança nos rumos de política econômica para evitar que o país atinja um estado do qual não conseguirá sair sem consequências dolorosas. É cada vez mais claro, em particular, que o governo precisa encarar um considerável ajuste fiscal, principalmente no que se refere às suas despesas.

Não se requer, contudo, nenhum conhecimento político mais profundo para concluir que --tendo evitado fazê-lo sob condições eleitorais mais favoráveis-- não parece nada provável que o governo possa se engajar em um esforço de austeridade às vésperas da eleição. Ainda que Brasília acene timidamente com promessas de não piorar adicionalmente seu já lamentável desempenho, os Estados, crescentemente livres das amarras previamente impostas pela União, devem aumentar ainda mais seus gastos.

Por outro lado, o Banco Central sinaliza com a interrupção do processo de aperto monetário ainda no primeiro trimestre, mantendo a taxa de juros em níveis que seus próprios modelos apontam ser incompatíveis com o retorno da inflação à meta até ao menos o final de 2015.

É nesse aspecto preciso que o ano que hoje se inicia parece já ter terminado. Os dados da política econômica estão lançados: o que irá ocorrer em 2014, portanto, está determinado deste ponto de vista. O ambiente externo e outros fenômenos imprevisíveis terminarão de dar forma à economia neste ano, mas a contribuição do governo foi feita.

A dúvida (talvez a esperança) que persiste refere-se a 2015. Um novo governo se instalará (muito provavelmente, a continuação do atual) e terá a oportunidade de promover os ajustes requeridos livre da camisa de força eleitoral. Resta saber se a aproveitará.

Confesso meu pessimismo. No cenário político mais provável, isto é, continuidade, a vitória nas eleições dificilmente poderia ser interpretada como pedido de mudança --muito pelo contrário.

A menos que alterações sejam impostas por desenvolvimentos desfavoráveis no front externo (por exemplo, um rebaixamento das notas do país, ameaçando o grau de investimento), a tendência, creio, seria a de redobrar a aposta fracassada: piora fiscal, descaso com a inflação e intervenção indiscriminada, predominando a ideologia onde deveria governar o pragmatismo.

E, aí sim, iremos testar os limites da sustentabilidade e atribuir nosso fracasso à "guerra psicológica".


alexandre.schwartsman@hotmail.com
ELIO GASPARI

Há alguém de parafuso solto na GM

Demitir às vésperas do Ano Novo parece ser apenas malvadeza, mas o cheiro é de coisa pior

Alguem está com um parafuso solto na diretoria da GM brasileira. Ela é presidida por Jaime Ardila, um quadro da elite da empresa. Ainda assim, na véspera do Ano Novo, mandou um telegrama a centenas de funcionários de sua unidade de São José dos Campos informando-os que estavam desempregados.

Podiam fazer isso na próxima semana, evitando o mal-estar na famílias das vítimas. A medida não parece ter sido produto da pura malvadeza. Parece coisa pior. A montadora criou um fato social para pressionar o governo, que determinou o retorno gradativo da alíquota do IPI dos automóveis aos níveis de 2012. As empresas temem uma queda nas vendas. Segundo as montadoras, a volta do tributo poderá provocar um aumento médio de 2,2% no preço dos carros só com a mudança destes dias.

A coincidência de datas, com as demissões ocorrendo junto com restauração gradativa do IPI, sugere que nela está embutida a estratégia da tensão: Você encarece meu carro, eu demito trabalhadores. Nos próximos meses o retorno do imposto elevará a alíquota para 7%.

A GM está com um parafuso solto porque tem todos os argumentos para fechar uma de suas fábricas de São José dos Campos. Outras sete da região continuarão funcionando. A empresa investiu R$ 5,7 bilhões em quatro outras unidades e a carta das demissões estava no baralho desde janeiro de 2013.

Foram dadas férias coletivas e licença remunerada aos trabalhadores que agora perderam o emprego. Nenhuma empresa pode ser obrigada a manter uma linha de produção que se mostrou inviável. Ademais, segundo a montadora, suas fábricas de São José dos Campos têm um custo de produção elevado.

Até onde o sindicato dos trabalhadores finge surpresa, não se sabe. Já o Ministério da Fazenda entrou no lance com a parolagem típica do doutor Guido Mantega. Informou que um acordo com as empresas garantia que a elevação do IPI não provocaria alta nos preços, nem demissões de trabalhadores.

Se alguém fez esse acordo, entrou nele achando que o outro era bobo. Ou ambos continuam tratando os consumidores como tolos. Numa época em que o governo da doutora Dilma faz mágicas fiscais, assiste-se à ressurreição da lorota dos acordos com empresários, coisa comum ao tempo em que fabricava-se inflação.

As montadoras não querem que o retorno da alíquota do IPI reduza suas vendas. Os consumidores também não querem carros mais caros, mas Brasília quer arrecadar, para gastar sabe-se lá onde. Essa é a discussão verdadeira. Demitir funcionários nos últimos dias do ano é chutar o cachorro manso.

As manifestações de junho mostraram que houve uma mudança nos sentimentos do andar de baixo. O próprio doutor Ardila expôs a questão com clareza: "Não pedem a derrocada do governo. Pedem melhores serviços públicos. O que pode ser mais razoável?" A rua roncou contra governadores e prefeitos que subiram tarifas de transportes e mandaram a polícia cuidar do caso.


(Geraldo Alckmin e Fernando Haddad foram para Paris, onde formaram uma dupla cantando "Trem das Onze" num ágape.) Salvo a ação de baderneiros, ninguém se mobilizou contra empresas. A turma de parafuso solto da GM, bem como a guilda das montadoras desafiam um ato do governo desempregando trabalhadores às vésperas do Ano Novo. Má ideia.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013


31/12/2013 e 01/01/2014 | N° 17660
MARTHA MEDEIROS

Oferendas ao nada

Ao reler o livro A alma imoral, do rabino Nilton Bonder, encasquetei com uma expressão que, na primeira leitura, feita anos antes, não havia me despertado a atenção – e isso explica a razão de releituras serem necessárias, pois acontecem num outro momento da vida, em que o que não era relevante passa a ser. E nem preciso dizer que essa predisposição à releitura deveria existir para tudo, não só para livros.

Mas retornando ao ponto.

No livro, o rabino diz que muitos dos nossos sacrifícios e esforços são oferendas ao nada. Oferendas ao nada. Foi esta a expressão que me fez refletir sobre a quantidade de privações e abstinências a que nos submetemos e que têm serventia nula. Zero.

Todo novo ano que se inicia é um convite a uma releitura de si mesmo. Você já passou pelos mesmos janeiros e fevereiros e marços que aí vêm, os mesmos carnavais e páscoas, as mesmas mordidas do Leão, as mesmas estações, o mesmo do mesmo. Se daqui para frente queremos extrair alguma novidade de fato, ela virá da nossa maneira de encarar a vida, de desfrutá-la com mais proveito.

Então, que se oferende flores à Iemanjá, já que rituais de otimismo e fé não fazem mal a ninguém, e que se oferte abraços e bons votos aos amigos, já que a alegria é uma energia que vale a pena ser trocada, e que a gente doe sempre o que temos de melhor, aquilo que nos movimenta – e não o que nos trava.

A timidez, por exemplo. O que a timidez tem feito por você? Ela impede que você se relacione olho no olho, que arrisque uma conversa com um desconhecido, que apresente aos outros seu trabalho, suas propostas, suas ideias. Orgulhar-se da sua timidez, colocando-a num altar, é fazer uma oferenda ao nada.

O que a culpa tem feito por você? Tem impedido você de se responsabilizar pelos seus atos e renegociar com a vida, tem trancafiado você em casa, obrigando-o a lidar incessantemente com questões passadas, tem envelhecido você, consumido você, paralisado você, e você ainda se ajoelha e reza para cultuá-la. Outra oferenda ao nada.

O que a insegurança tem feito por você? Nada. O que o medo tem feito por você? Nada.

O narcisismo, menos ainda. Cultuando esse deus chamado “Eu”, você não olha para fora, não exercita a solidariedade, não considera o sentimento dos outros, não compreende, não perdoa, não evolui. Oferece a si próprio uma homenagem patética, fica preso a uma energia que não circula, não realiza troca alguma. Joga flores para a solidão.

Que em 2014 consigamos romper com nossos receios sobre o que os outros irão pensar de nós, com o que não nos traz retorno, com o que não nos insere no universo de uma forma mais efetiva e bonita. Chega de cultuar impedimentos. Façamos, para variar, oferendas ao risco.