domingo, 5 de agosto de 2012


CARLOS HEITOR CONY

Data venia

RIO DE JANEIRO - Esta crônica foi escrita logo após a primeira sessão do Supremo Tribunal Federal que rejeitou o pedido de desmembramento do processo do mensalão. Não farei considerações políticas e muito menos jurídicas, pela evidente ignorância que tenho sobre tais assuntos. Não discutirei o conteúdo em si, mas o formato dos votos, expressos na linguagem ainda em uso nas práticas forenses e cartoriais.

Tenho respeito pelo Supremo, corte na qual o meu advogado, Nelson Hungria, ganhou um habeas corpus (9 a 1) a meu favor num processo que Costa e Silva, ex-ministro da Guerra e mais tarde presidente da República, me denunciou como incurso na Lei de Segurança Nacional então em vigor.

Foi, aliás, a primeira manifestação daquela corte após o movimento militar de 1964. Concedendo a mesma medida a outros contestadores daquele regime, o Supremo sofreria represálias, tendo três de seus ministros cassados.

Há gordura demais na linguagem com que juízes e advogados se expressam. Na imprensa e na literatura em geral, procura-se a contenção, a transparência, a economia verbal. Nos jornais, desde o advento dos copidesques, um texto com mais de duas laudas é cascata.

Sem prejuízo da qualidade, Balzac não faria tão extensa a sua "Comédia Humana". Reduziria o texto de cada um de seus romances à metade. Quando Zola publicou "La faute de l'Abbé Mouret", um contemporâneo seu, Ernesto Renan, comentou: "Duzentas páginas para descrever um jardim? Alguma coisa está errada com os naturalistas".

A defesa que Cícero fez de seu amigo Milão ( "Pro Milone", em 52 a.C.) é até hoje citada como uma das obras-primas da literatura latina. Um voto, perfeito como expressão da justiça, não precisa de tantas palavras, "intelligentibus pauca".

sábado, 4 de agosto de 2012


05 de agosto de 2012 | N° 17152
MARTHA MEDEIROS

De onde surgem os amores

Uma amiga na casa dos 50 estava solteira há anos. Não tinha namorado e tampouco se sentia ansiosa com isso. Já havia casado duas vezes, tinha um filho bacana e podia muito bem viver sem amor, essas mentiras que a gente conta para nós mesmos.

De qualquer forma, para não perder o hábito, de vez em quando se produzia e ia pra balada, vá que. Mas voltava invariavelmente sozinha para casa. Até que um ex-paquera do tempo que ela era uma debutante fez contato ele, que morava no Exterior, voltaria para o Brasil e queria revê-la. Milagre by Facebook.

Ela disse claro, vai ser ótimo, mas não sabia quando exatamente a promessa desembarcaria no Salgado Filho. Seguiu sua vida. Foi para a piscina do clube num dia de semana e lá, estando acima do peso, suada e com um biquíni velho, escutou seu nome sendo pronunciado por uma voz aveludada. Era o dito cujo, testemunhando in loco no que a debutante havia se transformado depois de tantos anos. Ela pensou: o cara vai sair correndo.

Ele pensou: não desgrudo mais dessa mulher. E assim foi. Certa de que só estando impecável atrairia olhares, ela conquistou um guapo num dia em que se sentia pouco atraente.

Outra história. Atriz, loira, olhos verdes, leva um fora do noivo. Passa dias inchada de tanto chorar. Deprê em estágio avançado. A avó organiza um almoço do tipo italiano, aberto ao público. Ela vai e encontra um velho conhecido com quem brincava na infância. Ele, recém-separado. Ela, um trapo.

Ficam ali conversando, ela aos lamentos por sua situação, quando, em meio a soluços, a mulher se engasga. Mas engasga feio. De quase morrer. Uns 10 vieram esmurrar suas costas, e a guria vertendo lágrimas sem conseguir respirar, roxa como uma berinjela, já encomendando a alma. Ela me conta: naquele dia, eu havia saído de casa medonha, e o engasgo só piorou o quadro, eu parecia o demo convulsionando. Mas o amiguinho de infância não teve essa impressão. No dia seguinte, ligou para saber se ela passava bem, e estão casados há 15 anos.

Mais uma: depois de duas décadas de uma relação bem vivida, veio a separação amigável. Porém, mesmo amigável, nunca é fácil sair de um casamento, ainda mais de um casamento que não era um inferno, apenas havia acabado por excesso de amizade.

Ela pensou: agora é a hora do luto, um recolhimento me fará bem. Não deu uma semana e um estranho tocou o número do seu apartamento no porteiro eletrônico. Ela não reconheceu a voz, o nome, não sabia quem era, e não deu trela. Ele tentou no dia seguinte: ela tampouco abriu a porta, achou que o cara havia se enganado de prédio. No terceiro dia, ela resolveu esclarecer pessoalmente o equívoco. Desceu até a portaria para convencer o insistente de que ela não era quem ele procurava. Era.

Do que se conclui: de onde muito se espera – boates, festas, bares – é que não surge nada. O amor prefere se aproximar dos distraídos.



05 de agosto de 2012 | N° 17152
O CÓDIGO DAVID

Gomorra olímpica

Antes da Olimpíada, Hope Solo, a goleira de olhos verdes da seleção de futebol americana, deu uma entrevista contando o que acontece entre lençóis na Vila Olímpica. Disse, Hope Solo, que o intercâmbio sexual entre os atletas é muito livre, muito fácil. Pudera: em geral ali estão jovens disponíveis, com corpos saudáveis e bem formados, e que, naquele ambiente, só precisam perguntar “de onde você é?” para abordar um eventual parceiro do sexo oposto.

As revelações de Hope Solo fizeram com que as pessoas olhassem para a Vila Olímpica como se o lugar fosse uma espécie de cidade irmã de Gomorra. Os jornalistas vivem fazendo comentários maliciosos quando passam de ônibus pela Vila. E, outro dia, vi torcedores enrolados na bandeira da Grã-Bretanha, tirando fotos dos prédios ao longe e comentando:

– Ah, se eu estivesse lá...


Deus salve a Rainha
Isso da família real é um charme. Decidi que, se for realizado novo plebiscito para escolher o sistema de governo no Brasil, vou votar na monarquia.

Mas tem que ser essa rainha daqui. Outra, não aceito.

Bruxinha boa

A imprensa inglesa está encantada com um fenômeno social que eles chamam de “Efeito Hermione”. Hermione é aquela bruxinha do Harry Potter interpretada por Emma Watson (foto). Ocorre que, como Hermione, os jovens britânicos estão se comportando com maior responsabilidade em relação à própria saúde. Pesquisas (os ingleses adoram uma pesquisa) demonstraram que o número de jovens entre 11 e 15 anos que experimentaram drogas, álcool e cigarro vem caindo alegremente nos últimos 10 anos. Os dados:

Que experimentaram drogas: de 29% para 17%.

Que beberam álcool na última semana: de 26% para 12%.

Que fumaram um cigarro na última semana: de um entre 10 para um entre 20 jovens.

Bem que os brasileiros podiam imitar o Velho Mundo nesse particular.

Mulher sem defeitos

Ela era uma mulher tão espetacular, que até de poncho enlouquecia os homens. Lu. Esguia, mas de corpo sinuoso, olhos brilhantes que não eram azuis, mas deveriam ser. Sorridente. Meiga. E, para arrematar, inteligente. Mestre em Física. Uma cientista!

– A Lu tem que ter um defeito – dizia Mariano para os amigos. – Um só!

Parecia não ter. Mariano nem acreditou, no dia em que ela se interessou por ele. Quando começaram a namorar, pensou: agora vou descobrir o defeito dela. Mas os defeitos não apareciam. Na cama, Lu era uma Messalina; nos encontros sociais, uma Lady Di; no trabalho, uma Angela Merkel; com os necessitados, uma Madre Tereza.

Lu não reclamava quando ele saía com os amigos, cuidava dele quando ele voltava de porre, jamais levantava a voz, não sentia ciúme, não se atrasava, gostava dos mesmos filmes, das mesmas comidas e do mesmo time que ele. Era perfeita! Mariano repetia isso nos bares, para os amigos:

– Ela é perfeita demais, certinha demais. Não tem um único defeito. Tem algo errado nisso!

Aquela perfeição toda passou a incomodá-lo. Ele a provocava para irritá-la, chegava tarde, bebia em demasia, e nada a abalava. Ela não se queixava, ela se mantinha impávida e tranquila. Era terrível.

Uma madrugada, quando Mariano estava com os amigos numa churrascaria, ele engoliu 200 mililitros de chope de um único gole e anunciou:

– Vou me separar!

Ficaram todos cristalizados entre picanhas e linguiças com pimenta. Mas por quê?, gritaram. Por quê? Por quê???

– Ela é perfeita demais! – Mariano balançava a cabeça. – Ela não tem um único defeito! Todos vocês podem se queixar da suas mulheres. Todos vocês podem sair por aí, jogar bola com os amigos, beber, farrear e até assediar outras mulheres sem culpa. Eu não! Eu estou preso, porque a minha mulher não tem defeitos. É horrível isso! Horrível!

E estava a ponto de chorar, quando Eduardo pôs a mão em seu ombro:

– Mas o defeito dela é justamente esse, amigo.

Mariano levantou a cabeça, sem entender nada, e Eduardo prosseguiu:

– Ela não tem defeitos, é uma mulher perfeita. Você pode se queixar disso todos os dias, e nós não!

Mariano então sorriu. Abraçou o amigo. Seu casamento estava salvo! Finalmente ele havia descoberto o defeito de Lu!

O que não há

O que quase não se vê pelas ruas de Londres:

1. Crianças desacompanhadas.

2. Motos – suponho que por causa do frio.

3. Cachorros soltos. Talvez porque exista carrocinha. A dúvida que resta é: eles fazem sabão dos prisioneiros?

Império

No tempo da Rainha Vitoria, a Inglaterra era “o império onde o sol nunca se põe”. A Ilha dominava 25% da população mundial, e foi a partir dessa dominação que o inglês se transformou na língua mais internacional do planeta. Se os portugueses tivessem sido mais competentes no século 16, nós não teríamos que gastar tanto em cursos de inglês e os britânicos é que teriam de aprender as sutilezas da mais bela flor do Lácio.

Bem. Mas não foi o que aconteceu. O que aconteceu foi um império britânico de 300 anos, que só se esfarelou com as guerras mundiais. Niall Ferguson conta essa história no ótimo livro Império – como os britânicos fizeram o mundo moderno, da editora Planeta. É uma excelente obra para se conhecerem os métodos civilizadores ingleses, como os que eles empregaram no chamado Continente Negro. Leia esse trecho para saber com quem está lidando:

“Em toda a África, a história se repetiu: chefes enganados, tribos espoliadas, heranças entregues com uma impressão digital ou um X trêmulo e qualquer resistência ceifada pela metralhadora Maxim.

Uma a uma, as nações da África foram subjugadas – os zulus, os matabeles, os mashodas, os reinos do Níger, o principado islâmico de Kano, os dincas e os massai, os muçulmanos sudaneses, os Benin e os Bechuana. No início do novo século, a divisão estava feita.”


05 de agosto de 2012 | N° 17152
VERISSIMO

Vista do mar

Não faltam no Rio de Janeiro belas paisagens e lugares para contemplá-las. Mas a vista que bate todas, a mãe de todas as vistas, é a vista para o mar. Apartamentos com vista para o mar são disputados, no Rio, por quem pode comprar ou alugá-los. Às vezes, só o que o apartamento tem é a vista para o mar que, claro, é destacada por quem o está vendendo ou alugando.

– Olha só que vistão.

– Uma beleza... Mas quantos quartos tem o apartamento?

– Quartos? – É. No anuncio só dizia “vista para o mar” e mais nada.

– Tem um quarto. Mas olha que vista.

– Onde fica?– A vista?

– O quarto. – Você está nele.

– Mas aqui não é a sala?

– É a sala e o quarto. Mas olha que vista.

– Não tem cozinha?– A cozinha é junto com o banheiro.

– Cozinha e banheiro, juntos?!

– Mas olha que vista!

Depois da quarta queda, com morte, da mesma janela, a polícia não está mais perto de esclarecer o mistério. Quatro quedas da mesma janela, num curto espaço de tempo? Suicídio não pode ser. Quatro pessoas se atirando pela mesma janela, sem deixar bilhete, uma atrás da outra? Improvável. Impossível.

O primeiro a ser interrogado é o dono do apartamento, e a primeira suspeita a seu respeito é: orgias. Festas loucas, com muito álcool, muita droga, muito sexo, culminando com alguém sendo jogado pela janela. Ou então, outra tese: ritos de magia negra, com os possuídos pelo demônio mergulhando para a morte pela janela, entre gritos selvagens dos demais..

– Vamos, confesse. O que acontecia no seu apartamento? Como eram os rituais macabros?

– Eu não sei de nada. O apartamento está à venda. Eu nunca vou lá. Só quem vai é um corretor, para mostrar aos possíveis compradores.

O corretor não resiste ao interrogatório e confessa. Estava, sim, no apartamento quando as pessoas caíram pela janela. Estavam todas esticando o pescoço para enxergar um pedaço da vista do mar prometida no anúncio. Mas o corretor não se sentia culpado.

– Eu dizia: não se debrucem! Não se debrucem!

Se havia um culpado das mortes era a vista para o mar. Que prendessem a vista para o mar.


05 de agosto de 2012 | N° 17152
PAULO SANT’ANA

Caras recordações

Quando eu era criança, todos os dias jogava bola de meia no fim de um barranco, um campinho da Chácara das Bananeiras, em Porto Alegre, ali nas proximidades de onde hoje é o Presídio Central.

Aquele lugar era agreste naquele tempo. Campos e florestas que se estendiam até o sopé do Morro da Polícia.

Eu garanto a vocês, juro que não é mentira: naquele tempo eu andava de cipó no mato junto ao morro. Não havia macacos nem leões, mas havia, sim, cipó no meio da floresta porto-alegrense.

Tinha muita pitanga naqueles matos. E havia também muitas amoras e muitos butiás.

Eu voltava para casa com os lábios e as bochechas tingidos do vermelho das pitangas.

Não sei se meus leitores conhecem, mas existem as pitangas vermelhas e as pitangas negras de tão maduras que ficam. Existem pitangas do tamanho de ervilhas, mas, acreditem, existem pitangas do tamanho de cerejas, enormes, brilhantes na sua pele quase fosforescente.

São deliciosas. E muitos homens maduros da Chácara das Bananeiras colocavam as pitangas dentro de garrafas e as curtiam na cachaça para beber mais tarde.

Belos tempos da minha vagabundagem infantil. Eu nem pressentia que a vida mais tarde seria muito séria e às vezes íngreme para mim.

Por vezes, paro e mergulho nas minhas imagens da infância. Soltava pião, corria de trave com roda de aço, jogava bilboquê, mas até hoje tenho trauma de não ter tido bicicleta na infância. Eu olhava com inveja raros guris pedalando pelos caminhos de areia que circundavam os quintais.

Como eu era inocente, acreditava em Papai Noel e no Coelhinho da Páscoa.

Na véspera da Páscoa, quase não dormia de nervoso, na expectativa de que o Coelhinho poria um ninho debaixo da minha cama no domingo. Claro que viriam ovos de chocolate, ovos de açúcar, ovos recheados de marzipã, muitas balas de coco e merengues. Naquele tempo, felizmente, eu não era ainda diabético.

Ocorre-me agora um fato estranho: eu não olhava para o céu, nem quando soltávamos pandorgas.

O céu fazia parte, é claro, da minha paisagem, mas eu não me fixava na sua presumível imensidão nem nos seus brilhantes e cintilantes corpos celestes noturnos.

O céu para mim naquele tempo não passava dos limites do catecismo ensinado na escola: era o lugar distante da vida aflitiva para onde iam para sempre os que praticavam o bem durante a vida.

Mas eu nem sonhava com o céu. Para que sonharia, se já tinha o meu paraíso aqui na Terra, voando de cipó a tarde inteira nas matas, a tempo de chegar ao pórtico do quintal de minha casa para ouvir as cantigas nas rodas das meninas:

Se esta rua, se esta rua
fosse minha,
Eu mandava,
eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas,
com pedrinhas de brilhante
Para quando
meu amor fosse passar.


04 de agosto de 2012 | N° 17151
ARTIGOS - CLÁUDIO BRITO

Fatos e provas

Os temas éticos e morais foram enfrentados em poucos minutos pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, na sessão reservada à sustentação da acusação no julgamento do mensalão. A maior parte do tempo o acusador reservou para demonstrar a relação dos réus com os fatos apurados pelas investigações policiais e parlamentares.

Perícias e documentos complementaram o conjunto da prova, já na instrução no Supremo Tribunal Federal, e decidirão a causa, somando-se aos depoimentos das centenas de testemunhas. Gurgel resguardou-se do menosprezo que se dedica à prova testemunhal e buscou para isso apoio doutrinário relevante. Citou, entre outros, seu colega Douglas Fischer, um gaúcho dedicado a estudar os meios de enfrentamento aos delitos praticados por organizações criminosas.

Não há dúvida: os saques bancários, os negócios escusos, a evasão de divisas e o modo de agir dos mensaleiros são típicos das grandes quadrilhas, verdadeiras empresas da criminalidade. Há indícios veementes convergindo para a ideia de uma condenação. Laudos e extratos bancários, vídeos e interceptações telefônicas completam o respaldo ao que foi dito pelo acusador. Para demonstrar lavagem de dinheiro, um dos crimes atribuídos à quadrilha, desnecessário caracterizar crimes anteriores. Na corrupção passiva, dispensável a prova do destino do dinheiro recebido pelos beneficiários.

Nem é preciso apontar os resultados obtidos pelos corruptores junto aos corrompidos. Lembrando esses princípios, a acusação quer afastar a aparente fragilidade de pontos que podem ser decisivos para quem fizer a leitura crítica da prova.

Agora, virão os advogados para a tentativa de desconstituição da prova amealhada. Derrubada a prova, desaparece o fato. Se assim não é para a realidade, é assim que funciona para o Direito Penal, que exige certeza para que uma pena se aplique a qualquer acusado. Será na zona cinzenta da dúvida que os réus pretenderão caminhar para uma saída com absolvição. É diferente na cena política, onde não espanta que justamente as dúvidas sobre a conduta de alguém determinem o fim de uma carreira.

Terminou a fase passional do processo. É a vez da técnica dos juristas, agora se trata de conjugar os fatos ao Direito, por meio das provas. Que seja ampla a defesa, como quer a Constituição. Que o ambiente no tribunal seja o das garantias fundamentais. A democracia deve presidir o julgamento, assegurada a igualdade entre quem acusa e quem defende. Não haverá linchamento, talvez nem aconteça ao menos uma prisão. Não é o que se deve esperar, considerada apenas a ciência jurídica como inafastável nessa etapa.

Haverá condenados e absolvidos, como antes do julgamento alguns foram excluídos, por morte, acordo com o Ministério Público ou falta de provas. Se para algum réu a insuficiência da prova já serviu para essa exclusão, entende-se que para condenar os demais a prova existente é bastante, o que é gesto estratégico do acusador. Adequado, diga-se. Agora, a verdade. Vamos à prova dos fatos. É o que vale no foro criminal.

Será na zona cinzenta da dúvida que os réus pretenderão caminhar para uma saída com absolvição

CLÁUDIO BRITO*


04 de agosto de 2012 | N° 17151
NILSON SOUZA

Teoria da conspiração

Ufa, terminei de ler O Cemitério de Praga, de Umberto Eco. Confesso, humildemente, que entendi muito pouco. Foi duríssimo chegar até o fim. O italiano é culto demais para este simplório leitor. Eu já tinha apanhado feio de O Nome da Rosa, que só se tornou um pouco mais compreensível depois que vi também o filme.

Agora só não abandonei no meio da leitura porque sou um virginiano obstinado, para não dizer muito do teimoso. Já contei aqui que uma vez inventei de endireitar o meio-fio da calçada em frente à minha casa. A pedra, que estava levemente inclinada, era enorme. Passei o meu dia de folga inteiro cavando. No anoitecer, estava alinhadinha com as outras, mas ninguém jamais percebeu.

Bom, voltemos ao livro. Me perdi várias vezes na tentativa de acompanhar as peripécias do tal Simone Simonini, anti-herói da trama, exímio falsário, homem de muitas caras e de incontáveis delitos. Pelo pouco que consegui captar, o tema principal do livro é exatamente a falsificação da história, somada a uma espécie de culto ao ódio e ao preconceito contra raças e credos religiosos.

Padres, jesuítas, judeus, comunistas, maçons, franceses, italianos, alemães, russos – ninguém escapa da crítica ferina do autor, evidentemente manifestada pela língua venenosa de seus personagens. Todos são traiçoeiros, ladrões, assassinos, covardes. O livro, segundo soube, causou grande desconforto na Europa, mas vendeu como pão quente.

Lamento não conhecer um pouco melhor a história dos povos europeus, pois tenho certeza de que assim o romance faria mais sentido. Vários personagens são reais. Até o nosso conhecido Garibaldi desfila pelas páginas do livro, com certa dificuldade, pois sofria de artrite. Freud também está lá. Pena que não explique tanta confusão.

Na verdade, o único personagem inventado pelo autor seria Simonini, que também tem múltiplas identidades. E, para complicar ainda mais, o personagem fictício pratica ações verdadeiras.

Ao fechar o livro, me senti aliviado pela missão cumprida, mas também angustiado pela sensação de perda de tempo. O que ficou? – me perguntei como sempre faço ao final de uma leitura como essa.

Além do reconhecimento sincero da minha ignorância em relação ao que li e não entendi, ficou-me a impressão de que o autor passou o seguinte recado: não acredite em tudo que você lê. Tudo pode ser falsificado, dos Protocolos dos Sábios do Sião aos dossiês que nossos políticos produzem em escala industrial para destruir seus adversários.

Concluo pensando que nunca faltará leitor para uma boa teoria da conspiração. E dou a pedra como alinhada, ainda que ninguém mais perceba.


04 de agosto de 2012 | N° 17151
PAULO SANT’ANA

Eu, bisavô

A menor distância entre dois pontos são os atalhos.

Prosseguem chegando à minha mesa incontáveis queixas de pessoas do Interior contra a penosa e longa demora ou a impossibilidade de consultas no SUS.

Às vezes, é melhor ficar sozinho. Recolher-se e meditar, rezar, calcular como será o futuro.

Eu já sei que meu futuro é estreito, meio que sem horizonte. Mesmo assim, me interesso por ele.

Com certeza, nada de grande impacto positivo estará me reservando o futuro.

Mas tenho grande curiosidade sobre se alguma coisa de impacto negativo estará me reservando o futuro.

Enquanto isso, muitas vezes penso que é melhor ficar sozinho por longos instantes. Se aparecer alguém para me tirar da solidão, com certeza será malvindo.

Eu ainda não aprendi direito a curtir a solidão, vicio-me em encontrar pessoas e conversar com elas, mesmo que a conversa não tenha profundidade.

Por isso, gosto de me encontrar com pessoas bem-humoradas. A companhia delas me faz passar o tempo com facilidade.

Como escrevi certa vez, a vida é a arte de deixar passar o tempo. Para isso, não é preciso muito esforço: a gente é obrigado a toda hora a esperar pelo elevador, a esperar que abra o banco, a esperar o salário no dia 5, a esperar que nasça o bebê e que morra alguém que pode nos deixar uma herança testamentária, a esperar o gol, a esperar na fila de espera, esperar o ônibus, o trem, o avião.

Já calcularam quanto anos de suas vidas foram gastos somente em espera?

Eu, por exemplo, esperei por longos 20 anos para quitar a minha casa própria, era no tempo do Banco Nacional de Habitação. Nunca fiz melhor negócio na minha vida, nos últimos anos da prestação esta não me custava quase nada. Mas foram longos 20 anos!

Esperei que me nascessem os filhos, depois os netos, seria presunção de minha parte que conseguisse viver até o nascimento de meu primeiro bisneto.

Se por acaso eu conseguir o meu primeiro bisneto, por intermédio de meus netos Gabriel e Pedro, que têm 20 e 16 anos respectivamente, então aí estará localizada a maior emoção da minha vida.

Avô qualquer um é, mas bisavô é façanha ciclópica.


04 de agosto de 2012 | N° 17151
CLÁUDIA LAITANO

Mulheres que traem

O público não gosta de atrizes que traem. Na verdade, o público (masculino e feminino) não gosta de mulheres que traem em geral, mas as atrizes acabam pagando o pato porque são as traições delas que viram notícia e não as daquela sua vizinha bonitona do quinto andar.

A raiva é tão mais intensa quanto mais comportada for a imagem pública da atriz – como se os fãs, e não os maridos, fossem os traídos. No final dos anos 40, Ingrid Bergman era casada com um dentista e tinha uma filha pequena quando se apaixonou pelo diretor italiano, também casado, Roberto Rossellini. Foi um escândalo de proporções transcontinentais, e a atriz foi ameaçada de perder a guarda da filha – exatamente como Anna Karenina na Rússia do século 19.

Quando Elizabeth Taylor traiu o marido número 2 com o marido número 3 e depois o número 4 (o cantor Eddie Fischer) com o número 5 (Richard Burton), não houve grandes imolações públicas. Mulheres como Liz Taylor, que nunca se esforçaram para fazer o estilo esposa modelo, parecem conquistar uma espécie de imunidade diplomática parecida com a dos homens que traem: a condenação moral, quando existe, não é do tipo que levaria alguém a se atirar embaixo do trem.

São as adúlteras punidas severamente – pelos outros ou por si mesmas – as que inspiram as grandes obras-primas. A personagem que paga uma paixão proibida com a própria vida aparece em clássicos como Tristão e Isolda, Anna Karenina, Madame Bovary, Primo Basílio e no nosso Dom Casmurro – se adotarmos a versão de que Capitu traiu Bentinho. A mulher que trai assusta e fascina, e se tantas obras-primas tratam do assunto é porque o tema da traição feminina presta-se como poucos para ilustrar o insolúvel embate entre culpa e prazer, desejo e razão, individualismo e convenções sociais.

Mais de 60 anos depois de Bergman, tudo parece ser permitido às mulheres – e as adúlteras trágicas praticamente sumiram da literatura. Mas, a julgar pelo interesse despertado pela escapada da atriz Kristen Stewart, a traição feminina continua potencialmente desestabilizadora, como se a mulher que trai gerasse uma instabilidade insuportável na ordem natural das coisas.

Em uma espécie de A Letra Escarlate versão Hollywood, a atriz flagrada beijando outro homem foi obrigada a divulgar um pedido de desculpas – e já se especula sobre os prejuízos que o episódio pode trazer a sua carreira.

Mesmo levando-se em conta que o casal desfeito formava um par romântico que pulou da ficção para a realidade e era idealizado por milhões de adolescentes, a voracidade com que o assunto foi consumido talvez revele mais sobre a dupla moral que ainda é empregada para julgar homens e mulheres em casos de traição do que sobre o inesgotável apetite dos sites de fofoca.

Como no tempo de Bergman e Rossellini, a condenação foi muito mais severa para a atriz do que para o diretor quarentão, casado e com filhos, que se envolveu com a jovem estrela do seu filme. Pagando as próprias contas ou não, famosa ou anônima, traindo por amor ou apenas por diversão, as mulheres que traem continuam correndo muito mais riscos do que os homens na mesma situação.

Em Hollywood, esses riscos podem limitar-se a um arranhão na reputação. Infelizmente, no país em que dezenas de mulheres são agredidas todos os dias, o ciúme – com ou sem traição – costuma arranhar muito mais do que isso.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012



Ipanema, inverno de 2012

Pois é, na famosa praia de Ipanema, do Rio de Janeiro, nesse inverno que caiu no dia 19 de julho, não caminham mais as musas dos anos dourados, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Baden Powell, Johnny Alf e tantos outros craques, mas a bossa continua. No bar Vinícius, na Prudente de Moraes com a Vinícius, em algumas noites por semana, a Maria Creusa não deixa a bossa morrer e baixa o poeta e o Baden, principalmente, com a maior categoria.

Claro que não falta nunca sua signature song, Você abusou, que todo mundo canta junto. No restaurante Plataforma, no coração do Leblon, o Bar do Tom segue impávido, com as notas e palavras do maestro, que tanto gostava de passear nas alamedas e aleias do Jardim Botânico, onde está o espaço Tom Jobim, simples, requintado e elegante como o Tom. Os tempos são outros. A “música” eletrônica, o funk e outras paradas e baladas tomaram conta, mas o antigo charme, graças a Deus, se mantém.

Deus se mantém, entre outros lugares, na Igreja Nossa Senhora da Paz, que, em alguns dias, tem sete ou nove missas e cujos sinos seguem tocando e mostrando que o tempo não para. Na Praça Nossa Senhora da Paz, em frente, o senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado mostra seu bronze e seu recado imortal para a nação.

Na esquina da Visconde com a Joana Angélica, a velha padaria e os novos pãezinhos, empadas, docinhos, e bebês dão toques de aldeia para o bairro, que, claro, tem até  alguns pedintes - é para a gente não deixar de exercer a caridade e sentir que ainda é humano.

Copacabana segue histórica, malandra e novidadeira, o Leblon é aquela coisa mais tranquila, interiorana e família, e a Barra é nossa mágica Miami, mas a República Livre de Ipanema segue uma espécie de síntese do Brasil, segue como um de seus tambores mais sonoros e como um dos corações mais representativos e pulsantes de um País que vai se tornando nação, aos poucos, que o parto do Brasil é lento, como dizia o poeta João Cabral.

Acho até que já foi mais lento. Tem muita coisa aí rápida e barulhenta demais. Tomara que o ritmo e a ginga da bossa nova não desapareçam. Não vão. Mesmo que mil bailes funk aconteçam e milhões de DJs tomem conta dos espaços e das pistas, tenho certeza de que a nossa bossa vai continuar a ser uma de nossas melhores criações e um de nossos maiores orgulhos.

Tipo assim, o jazz, uma das melhores coisas dos EUA, que influenciou a bossa e depois disso vem recebendo a poderosa influência dela. Música, linguagem universal, quase sempre coisa do bem, oferecendo um pouco de ordem, de balanço e de paz para pessoas e o planeta, que tantas vezes parecem estar fora da casinha. 
Jaime  Cimenti


Tocante narrativa sobre amor, conexão e perda

Os deixados para trás, do consagrado escritor norte-americano Tom Perrotta, autor de seis livros de ficção, mostra o talento destacado pela crítica e pelo público. Duas obras suas foram adaptadas para o cinema, e Pecados íntimos, com Kate Winslet no papel principal, foi indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado.

Perotta tem sido elogiado pela forma mordaz como retrata a sociedade contemporânea. Atualmente, mora em Boston, com a esposa e dois filhos. Os deixados para trás é uma dessas narrativas de mestre que mostram como ficou o mundo depois do atentado de 11 de setembro, em Nova Iorque. De repente, sem nenhuma explicação, pessoas simplesmente desapareceram, sumiram no ar.

Os que ficaram para trás têm de refazer suas vidas e relacionamentos depois da estranha partida coletiva. Três anos depois da tragédia ocorrida em 14 de outubro, os cidadãos da pequena cidade de Mapleton, que perderam parentes, amigos e vizinhos no esquisito fenômeno, tentam assimilar o golpe e descobrem, com surpresa, que a vida acaba voltando ao normal. Kevin Garvey é um ex-astro de futebol americano juvenil de Mapleton e destacado homem de negócios local que herdou e expandiu a loja de bebidas da família.

Depois da tragédia e de um abaixo-assinado, ele é eleito prefeito por uma entidade política recém-formada, o Partido da Esperança. Mesmo sem ter perdido ninguém da família no desastre, Laurie, a mulher do prefeito, sente-se atormentada e abandona a família para juntar-se à seita dos Remanescentes Culpados, que prega voto de silêncio.

Os adeptos só se vestem de branco, fumam ininterruptamente e acham que têm a missão de lembrar aos demais o assombroso poder de Deus e que a hora do julgamento chegou.

Jill, a filha do casal, antes garota nota dez, abandona as aulas, passa a beber todas as noites e a refletir sobre como a ausência deforma a mente das pessoas. “Tom Perrotta faz uma pesquisa perturbadora sobre a reação das pessoas comuns a acontecimentos extraordinários e inexplicáveis, o poder da família para ferir e curar e a sutil facilidade com que a fé se transforma em fanatismo.

Lido como metáfora para o esfacelamento político e social dos Estados Unidos pós 11 de Setembro, esse livro é um diagnóstico depressivamente preciso”, escreveu o mestre Stephen King. “Perrota é um Tchekov norte-americano”, falou o The New York Times Book Review.

Mais não precisa ser dito sobre essa narrativa sobre perda, amor, disputas religiosas, conexão, trauma coletivo e culpa. Intrínseca, 320 páginas, www.intrínseca.com.br.


03 de agosto de 2012 | N° 17150
ARTIGOS - Nayr Tesser*

Uma velha sem concessões

Eu não preciso usar tatuagens para mostrar que sou jovem, ou provar que sou moderna e estou atualizada. Até porque não sou nem jovem, nem moderna, dependendo do sentido que a maioria dá a moderna, pois, apesar de usado frequentemente como argumento para justificar “mas tudo mudou”, com raras exceções quem o usa sabe definir o que seja. Minhas tatuagens não aparecem na superfície da pele porque estão na alma e no coração e não há idade que as apague.

Eu não preciso ir a bailes de terceira idade para provar que vivo ou sei viver. Até porque continuo dançando sozinha ou acompanhada e com as netas. Ensaio para um musical que pretendo fazer e, se não o fizer, não importa, pois o bom mesmo é a combinação.

Não preciso gostar de todas as invenções eletrônicas para provar que estou atualizada, em consonância com o progresso. Não preciso saber manipular um celular para mostrar que aprendi alguma coisa na vida e não estou ultrapassada.

Não preciso saber lidar com o computador, ou utilizar todos os recursos desse instrumento para me comunicar com as pessoas ou com o mundo. Todo recurso que não tenha cheiros, toques, alegrias e contradições não é uma comunicação humana. Com a internet, transformo seres em imagens virtuais, mas o que preciso é de gente com cabeça, tronco e membros, alma e coração!

Eu quero estar no lugar em que estou, uma mulher de 71 anos, sem mais nem menos, pois a velhice é a idade da essência, não da circunstância. Quero estar onde estou, porque não posso negar os anos vividos, as coisas conquistadas, as dificuldades para me reconhecer e aceitar, as dores que tanto me ensinaram, as vivências maravilhosas no exercício da profissão e foi com ela que aprendi a ficar feliz com o crescimento alheio.

Eu sou uma velha e não é substituindo a palavra por eufemismos baratos que deixarei de sê-lo; os demais é que mudem suas concepções, pois, ao querer substituir as palavras por outras, revelam que a imagem é negativa. Pois, então, o que deve mudar são as cabeças, pois, se estas não mudarem, não é substituindo os termos da equação que mudarão os resultados.

Aliás, quando meus alunos dizem gentilmente que não sou velha, deslocam-me para a categoria dos jovens e com isso não terão na velhice quem lhes sirva de modelo. E, depois, gosto da minha categoria, a categoria antiga, até porque ela goza das seguintes qualidades:

1. Tem uma escala de valores, isto é, tem ética; não confunde ética com moral; 2. Tem moral, respeita as regras no momento eleitas pela sociedade; 3. Sabe o significado das palavras gratidão e respeito; 4. Não expõe seu afeto em público e se deixa seduzir pelo amor; e 5. Tem brilho no olhar. Pra que mudar?


*PROFESSORA


03 de agosto de 2012 | N° 17150
PAULO SANT’ANA

Médicos e coveiros

É preciso que aprendamos com as nossas derrotas e não desaprendamos com as nossas vitórias.

Existem muitos leitores que me escrevem implorando para que eu deixe de prever ou falar na minha morte.

Pois quero dizer a todos que estou atualmente apaixonado por um médico.

Confesso que é muito melhor estar apaixonado por um médico do que por um coveiro.

Os compositores da música popular brasileira, dos meados até o fim do século passado, viveram um expediente clássico: alguns deles compunham suas músicas e, antes mesmo de gravá-las, por necessidade financeira urgente, vendiam suas composições para outras pessoas.

Noel Rosa, talvez o maior e melhor entre todos, vendia grande parte da autoria de suas músicas para Francisco Alves, cognominado de O Rei da Voz.

Por isso é que em muitos selos está escrito que a autoria de inúmeras músicas é de Noel Rosa e Francisco Alves conjuntamente.

Por isso também é que o Brasil inteiro desconfia de que a música mais famosa do século passado, Chão de Estrelas, seja de autoria só de Orestes Barbosa, grande poeta da literatura carioca – e não em parceria com o próprio Sílvio Caldas, o cantor lançador daquela página inesquecível, que mais tarde seria gravada por centenas de outros intérpretes, o disco registra até hoje a autoria dupla.

Os mais famosos compositores de todos os tempos vendiam suas músicas antes de gravá-las.

Não escaparam disso dois cardeais da MPB: Cartola e Nélson Cavaquinho.

Pois eu fiquei sabendo só agora, pela palavra da cantora Beth Carvalho, grande amiga de Nélson Cavaquinho, que ele incrivelmente compôs um único samba em parceria com Cartola.

Parece-me que o título do samba foi Condenada. Nem sei se a música foi gravada, mas o fato é que, se o foi, antes de sê-lo, um desconhecido cantava a letra e a melodia do samba em todas as rodas boêmias da cidade, gabando-se de que eram de sua autoria.

Até que esse fato veio ao conhecimento de Nélson Cavaquinho, que foi ter prontamente com Cartola. Olhem o que disse Nélson para Cartola:

– Cartola, meu amigo. Tem um sujeito que anda cantando lá pela Mangueira aquele samba que compus em parceria contigo, afirmando que o samba é dele. Mas não é, Cartola, eu compus junto somente contigo.

E Cartola, assim pressionado pelo amigo, saiu-se com esta:

– Eu vendi a minha parte.


03 de agosto de 2012 | N° 17150
DAVID COIMBRA

As poderosas mulheres da Inglaterra

A Inglaterra é um país de valores masculinos. Um país que lutou, e venceu, todas as guerras, um país de cavaleiros galantes e de clubes exclusivos para gentlemen, um país de bebedores de cerveja e de amantes do futebol.

Mas não lembro de nenhuma outra nação que tenha forjado tantas mulheres fortes, que amealharam tanto poder e que tiveram tanta influência na história do mundo.

A rainha Elizabeth II é uma dessas personalidades internacionais, com seu reinado sexagenário e sua presença solene a inspirar os britânicos. Mas ela fez pouco perto de outras.

Imagine Ana Bolena, que foi rainha no selvagem século 16. Para poder casar-se com ela e divorciar-se da primeira mulher, o rei Henrique VIII rompeu com a Igreja Católica e criou a Igreja Anglicana. Verdade que Ana Bolena, depois de casada, caiu em desgraça.

Devia ser chata. Para livrar-se dela, Henrique acusou-a de traição e mandou decapitá-la. Mas até o fim Ana foi majestosa. Mandou buscar um carrasco da França, conhecido como o melhor cortador de cabeças da Europa, porque, ao contrário dos ingleses, usava a espada, não o machado. Na hora da execução, Ana expôs o pescoço e disse para o verdugo:

– É pequeno, muito pequeno, não é verdade?

A fim de distraí-la, o carrasco gritou:

– Onde está a minha espada?

Ana olhou para o lado e ele a decepou de um único e golpe – profissionalismo. O fantasma de Ana ainda ronda à noite pela Torre de Londres, onde foi presa, e assusta os transeuntes carregando a própria cabeça debaixo do braço.

Mas, se Ana Bolena foi forte, o que se dirá da filha dela, Elizabeth I, a Rainha Virgem, que venceu a Invencível Armada espanhola, que lançou os piratas aos sete mares, que arrancou os Estados Unidos dos espanhóis e que começou a construção do Império Britânico, onde o sol nunca se punha?

E a rival de Elizabeth, sua prima Maria Stuart? Li, há muitos anos, a biografia que Stefan Zweig escreveu sobre ela. Maria Stuart era a rainha dos escoceses. Cobiçava ter a cabeça coroada como rainha dos ingleses e, por isso mesmo, acabou sem a coroa da Escócia, sem a coroa da Inglaterra e sem cabeça para nela colocar qualquer outra coroa.

Tenho a impressão de que Zweig se apaixonou por Maria em meio ao trabalho. A rainha era leviana a ponto de mandar assassinar o próprio marido e, depois, casar-se com o assassino, mas Zweig a via com certo romantismo inocente. Por quê? Porque, mesmo depois de 500 anos, o poder de Maria Stuart o enfeitiçou.

E ainda houve a Bloody Mary, que matou protestantes e deu nome a um drinque; e a rainha Victoria, que alargou o império e deu nome a um século. E Margaret Thatcher, a Dama de Ferro; e Lady Diana, a princesa do povo; e, claro, Elizabeth Hurley. Como a Ilha produz essas mulheres notáveis, sendo tão masculina?

Exatamente por esse motivo. Num lugar feito para o desfrute dos homens, as mulheres têm de se endurecer para mostrar o seu valor. Uma saudável reação evolucionária. Que, parece, começa a se dar também no Brasil.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012


CONTARDO CALLIGARIS

Pornografia possível

A fantasia sexual é objeto de negociação entre o que cada um imagina e o que ele, de fato, aguenta

"Cinquenta Tons de Cinza", o primeiro volume da trilogia de E. L. James, acaba de sair em português pela Intrínseca. Espero que os volumes restantes cheguem logo (é bom ler os três sem interrupção).

James escrevia ficções derivadas de "Crepúsculo", de Stephenie Meyer. Esse tipo de produção se tornou popular, pois muitos leitores se frustram com o fim de sua saga preferida. Eles querem viver mais um pouco no mundo para o qual a leitura os levou. No caso de "Crepúsculo", depois de reler a trilogia e rever os filmes da adaptação pela décima vez (vi isso acontecer), eles podem procurar sites nos quais os próprios fãs escrevem continuações, versões alternativas, histórias de personagens menores etc.

O que James escrevia nesses sites se tornou autônomo e erótico demais, e, em 2011, James soltou sua própria trilogia, que não deve quase nada à obra de Meyer e na qual não se trata de vampiros e lobisomens, mas de gente.

A editora foi um "print-on-demand": você encomenda um livro, eles imprimem um exemplar e mandam. Não sei se James não conseguiu encontrar uma editora disposta a distribuir sua obra normalmente, ou se ela pensou que sua prosa erótica nunca encontraria as graças de uma casa tradicional. Mas o fato é que, muito rapidamente, a obra de James se tornou um sucesso de boca a boca entre internautas. Conclusão: em abril de 2012, a Vintage Books imprimiu a série, que, em poucos meses, vendeu milhões de exemplares mundo afora.

Agradeço a E.L. James porque, ao longo de 1.500 páginas, lidas em dez dias, não perdi o prazer da leitura. Além disso, apreciar um best-seller me alegra, porque confirma que consigo gostar de coisas das quais uma boa parte de meus contemporâneos também gosta.

Não foi sempre assim. Houve uma época da minha vida em que eu desdenhava uma obra só por causa do seu sucesso e tentava nunca concordar com a massa, provavelmente para evitar a triste constatação de que eu não era muito diferente dos outros.

Claro, não quero compartilhar, a cada vez, o gosto da maioria; basta-me ser capaz de empatia, ou seja, de sentir e apreciar o que a maioria pode achar numa obra, mesmo que ela não coincida com meu ideal estético. Enfim, o que me pegou (e pegou milhões de leitores), no caso da trilogia de James?

Alguns atribuíram o sucesso de James ao seu "soft porn", ou seja, a seu erotismo explícito, mas "aceitável": James escreveria pornografia domesticada, para mães de família. Pode ser, mas é porque James (coisa rara) escreve, digamos assim, sobre a pornografia possível. Explico.

Para Christian (o protagonista de James), o sexo coincide com a prática de fantasias sadomasoquistas. Anastasia, seu par, é inexperiente e descobre sexo e fantasias com Christian. Essa desproporção e a iniciação de Anastasia, aliás, são uma fantasia em si (para ambos).

A fantasia sadomasoquista chega facilmente a paroxismos que, se fossem realizados, seriam intoleráveis. O pensamento de ser açoitado pode ser excitante para muitos, mas, na realidade, a dor só é excitante para pouquíssimas pessoas.

Para Christian e Anastasia, como para a grande maioria dos casais reais, a fantasia é um objeto de negociação, não só dentro do casal (entre o que você gosta e o que eu aceito -e vice-versa), mas sobretudo no âmago do indivíduo, entre o que a fantasia de cada um imagina e o que cada um, de fato, aguenta.

Alguns acharam que a dominação sexual faria de Anastasia uma escrava. Mas, para James (e concordo com ela), a dominação no sexo é justamente o que permite que, fora do sexo, Christian e Anastasia sejam um casal de iguais, cada um cioso de sua liberdade.

Em geral, as histórias de amor seguem o modelo do conto de fadas, ou seja, narram o apaixonamento -a convivência depois disso, se fosse narrada, seria terreno para a comédia. A trilogia de James, ao contrário, é uma longa história sobre como fazer um casal funcionar, de briga em briga, de quase ruptura em quase ruptura: quanto cada um pode e deve mudar para o outro, e quanto pode e deve esperar e pedir que o outro mude?

É graças a esse longo esforço (e não por um passe de mágica) que Christian e Anastasia realizam nossa suprema fantasia cultural: a da coexistência, num casal, do amor com um jogo sexual que satisfaz uma fantasia comum.

Bom, leitores e leitoras só podiam estar a fim de aprender como isso é possível.

ccalligari@uol.com.br


PASQUALE CIPRO NETO

"O Homem Velho"

O homem velho da letra de Caetano parece mesmo ser esse nobre ser que fez um pedido ao deus Tempo

PENSEI E repensei se devia escrever "antes da hora" sobre os (quase) 70 anos do amado Caetano Veloso. Abro o site de Caetano e vejo que ele (o site) mudou. Os 70 anos do mestre já estão estampados ("Caetano Veloso 70"), então perco o receio de falar antes do aniversário (no próximo dia 7).

Faz mais de um mês que penso em escrever sobre isso e, quando me imaginava fazendo-o, a primeira coisa que me vinha à mente era a monumental canção "O Homem Velho", que está no não menos monumental disco "Velô", de 1984. Caetano dedica a canção "à memória de meu pai, a Mick Jagger e a Chico Buarque, que agora tem 40 anos, mas aos 20 fez uma canção belíssima sobre o tema".

A canção a que Caetano se refere é a também monumental "O Velho", que está no disco "Chico Buarque Vol. 3", de 1968 (Chico tinha 24 anos): "O velho vai-se agora / Vai-se embora / Sem bagagem / Não sabe pra que veio / Foi passeio / Foi passagem / Então eu lhe pergunto pelo amor / Ele me é franco / Mostra um verso manco / De um caderno em branco / Que já se fechou...".

O homem velho da canção de Caetano é outro. Parece saber pra que veio -e não foi passeio, nem passagem: "Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval / Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal / Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual / Já tem coragem de saber que é imortal".

Caetano já tinha feito um "acordo" com o deus Tempo, na inesquecível "Oração ao Tempo" (do disco "Cinema Transcendental", anterior a "Velô"): "És um senhor tão bonito / Quanto a cara do meu filho / Tempo Tempo Tempo Tempo / Vou te fazer um pedido (...) Peço-te o prazer legítimo / E o movimento preciso (...) Quando o tempo for propício (...) De modo que o meu espírito / Ganhe um brilho definido / (...)

E eu espalhe benefícios / (...) O que usaremos pra isso / Fica guardado em sigilo (...) / Apenas contigo e migo (...) / E quando eu tiver saído / Para fora do teu círculo (...) / Não serei nem terás sido (...) / Ainda assim acredito / Ser possível reunirmo-nos (...) / Num outro tipo de vínculo (...) / Portanto peço-te aquilo / E te ofereço elogios (...) / Nas rimas do meu estilo / Tempo Tempo Tempo Tempo".

O homem velho da letra de Caetano parece mesmo ser esse nobre ser que fez um pedido ao deus Tempo (e caminha para ser merecedor da anuência desse deus). Lembra o que diz Drummond em seu antológico poema "Os Ombros Suportam o Mundo": "Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? / Teus ombros suportam o mundo / e ele não pesa mais que a mão de uma criança".

Volto à letra de "O Homem Velho" e a alguns de seus fortes versos: "O homem velho deixa vida e morte para trás / (...) O homem velho é o rei dos animais / A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol / As linhas do destino nas mãos a mão apagou / Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock'n rol / As coisas migram e ele serve de farol...".

Detenho-me neste belíssimo verso: "As linhas do destino nas mãos a mão apagou". Como se não bastassem a beleza e a profundidade do sentido desse verso, há nele a quinta-essência da construção linguístico-literária. Ao inverter a ordem "natural" da frase ("A mão apagou as linhas do destino nas mãos") e, consequentemente, mantê-la na voz ativa (a passiva seria "As linhas do destino nas mãos foram apagadas pela mão"), Caetano é certeiro: mostra com ênfase e sabedoria o que faz a "mão" (que aí é metáfora e metonímia da vida, da passagem do tempo) com as linhas do destino que temos nas mãos.

Um beijo na alma, Caetano. É isso.

inculta@uol.com.br