quinta-feira, 2 de agosto de 2012


JANIO DE FREITAS

As vozes

No momento, não se sabe o que a voz silenciosa da opinião pública pede aos seus magistrados mais altos

É INCERTO que os julgadores do mensalão ouçam a opinião pública, como lhes recomenda Fernando Henrique Cardoso. Com tantas pressões dirigidas aos leitores, espectadores e ouvintes, em linha direta e como reflexo das pressões sobre o Supremo Tribunal Federal, no momento não se sabe o que a voz silenciosa da opinião pública pede aos seus magistrados mais altos. Mas tal incerteza está acompanhada de ao menos duas certezas.

O rendado de palavras que enfeita, em torno, a recomendação de Fernando Henrique evidencia que a opinião pública referida é a opinião do público peessedebista.

A recomendação é um apelo velado no sentido de que o Supremo Tribunal Federal não negue o seu socorro ao catatônico PSDB, nesta hora difícil dos confrontos eleitorais. Tudo por um punhado de condenações de petistas.

Outra certeza é o que diz a voz verdadeira da opinião pública. A voz quando não desafinada pelas pressões, a respeito do que deseja dos seus magistrados, ou, como prefere, da Justiça.

É a imparcialidade nos julgamentos todos. É a equanimidade entre as decisões voltadas para os desprovidos e aquelas que se dirigem aos possuidores de riqueza ou de força política. É o direito à justiça também quanto ao tempo, porque, mesmo se favorável, a decisão que tarda dez, 20, 30 anos nunca fará justiça. É o julgamento limpo do mensalão, para condenar sem maldade ou absolver com grandeza.

HISTÓRIA DE CRIMES

O aumento da lista oficial de mortos pela ditadura, de 357 para quase 1.000, traz para a história uma parte dos corpos que ficaram caídos nos canaviais, ou junto das usinas, muitos nas sedes dos sindicatos rurais e das Ligas Camponesas, tantos mais diante dos olhos da mulher e dos filhos. As primeiras semanas seguintes ao golpe de 64, no interior do Nordeste, sobretudo de Pernambuco e Paraíba, justificam esta palavra horrível: carnificina.

A revelação do novo levantamento, feita pelo repórter Lucas Ferraz na Folha, é um passo promissor para que sejam expostos os crimes de inúmeros usineiros, capatazes e jagunços. Por anos e anos, o usineiro Ney Maranhão veio a manchar o chão do Senado com os vestígios de sangue em suas sandálias, mesmo quando apenas memoriais. E Nilo Coelho, e outros ainda por lá ou por Brasília, todos protegidos pelo silêncio.

Essa história começou a ser contada, lá atrás, pelo documentarista Eduardo Coutinho, talento e alma admiráveis. A hora da Comissão da Verdade é boa para retomá-la.

UMA PESSOA

O advogado Márcio Thomaz Bastos que abandona a causa de Carlos Cachoeira é a mesma pessoa ética que assumiu a causa e a mesma anterior a assumi-la. O intervalo ético que fica em sua vida não é por ter sido breve advogado de Cachoeira, mas pela falta de ética que o agrediu então. No fundo, um imenso louvor sob a forma de agressão boçal, só produzida pelo respeito admirador enganadamente ferido.

Convém não esquecer também: se vemos, de 2003 para cá, incessantes ações da Polícia Federal contra poderosos e prestigiados envoltos em corrupção, deve-se a Márcio Thomaz Bastos. Quando ministro da Justiça, enfim acabou com a discriminação praticada pela Polícia Federal como norma.

ELIANE CANTANHÊDE

O cara

BRASÍLIA - O julgamento histórico do mensalão, que começa hoje no Supremo, vai destrinchar toda uma rede de coleta e redistribuição de dinheiro e expor 38 réus, mas o foco estará sobretudo num personagem: José Dirceu, o cérebro da grande guinada do PT rumo ao poder e agora carimbado pela Procuradoria-Geral da República como "chefe da organização criminosa".

Dirceu é o grande personagem do julgamento, por vários motivos. Não só pelo seu papel decisivo no comando do PT e pelo cargo estratégico que ocupava no início do governo Lula -a Casa Civil- mas também pela trajetória política, desde o jovem bonito com jeitão caipira que presidia a UNE e seduzia as moças até a espetacular volta de Cuba com novo rosto, nova identidade e nova vida, capaz de conviver anos com uma mulher sem lhe contar sua própria história.

Espera-se que o Supremo aja com a grandeza de uma suprema corte e decida com base nos autos, nas provas e nas circunstâncias políticas, e não caberia aqui ensinar pateticamente aos 11 (ou dez) ministros como julgar. Avaliando exclusivamente do ponto de vista político, ou de impacto na opinião pública, a condenação de Dirceu será, ou seria, como a cassação de Demóstenes Torres.

A cassação de Demóstenes foi como um alívio para o Senado e interpretada como o fim da CPI do Cachoeira. A condenação de Dirceu anteciparia o fim do julgamento. Tiraria toneladas dos ombros dos ministros, de advogados e dos demais réus. Talvez menos dos políticos mais visados, mas certamente de secretárias e outros menos cotados.

Se o julgamento começar pelos "bagrinhos" -se é que existe "bagrinho" nesse oceano-, todo o processo, todas as provas, todas as contestações terão um ritmo de tensão crescente. Se começar por Dirceu -o peixe graúdo-, será como uma novela que começa pelo fim.

PS - Marta Suplicy gravou participação pró-Haddad para a TV.

elianec@uol.com.br


02 de agosto de 2012 | N° 17149
ARTIGOS - Alceu Medeiros*

Quantos presos queremos ter? Nenhum

O doutor Pio Giovani Dresch, presidente da Ajuris, propõe para debate o tema “quantos presos queremos ter”, em seu brilhante artigo publicado ontem em ZH, aliás, matéria de discussão do seminário “O Presídio Central e a realidade prisional: quantos presos queremos ter?”, no qual se discute com as autoridades, com os estudiosos da matéria e com os próprios presos as soluções para esse grave problema.

O problema em discussão é apenas um, ou seja, a superlotação dos presídios em todo o Estado e a precariedade do Presídio Central.

Não é só em nosso Estado que existe esse problema. É em todo o Brasil. Ninguém de sã consciência pode achar boa a superlotação de presos em qualquer presídio, tampouco em qualquer outro estabelecimento, como acontece atualmente em hospitais do Estado e no país.

Nisso estamos de acordo. Divirjo apenas do insigne magistrado sobre a quantidade de presos que queremos ter confinados atrás das grades. Segundo ele, quanto mais presos confinados, haverá menos dinheiro para a educação, saúde e até para a segurança.

Ora, uma coisa não elimina outra. Para o meu gosto, eu não quero nenhuma pessoa presa. Eu quero, sim, viver em um país que me assegure o direito de viver livre e não atrás das grades como vive a maioria da população brasileira para se proteger dos bandidos. Quero, igualmente, ter o direito à saúde, educação e segurança, não importando o seu custo.

Qual é o valor da vida? A vida não tem preço! Se outros países ditos de Primeiro Mundo conseguiram tudo isso, principalmente segurança, por que nós brasileiros não podemos ter saúde, educação e segurança?

O povo abriu mão da vingança privada e da justiça pelas mãos próprias em favor do Estado, de tal modo, que o que deve prevalecer é o Estado democrático de direito, garantidor dos direitos humanos, e a legitimidade do Estado, o qual exerce o direito de punir, ou seja, aplicar as penas, em nome da sociedade, a qual se constituiu com base em um contrato social.

Porém, abrir mão da vingança privada e do justiçamento pelas próprias mãos não significa abrir mão em favor da impunidade, de leis mais brandas visando desafogar o sistema carcerário.

Precisamos discutir o sistema penal que queremos e as soluções para esse grave problema carcerário. Porém, não é com os presos que vamos discutir isso, tampouco no auditório do Presídio Central, e sim com a sociedade, pois todo o poder emana do povo (art. 1º, da CF/88), ouvindo o povo (sempre) em primeiro lugar.

Ninguém aqui vive em Sucupira, onde ninguém matava e ninguém morria – na novela de Dias Gomes, O Bem-Amado. Aqui se mata (e como) e ninguém vai preso.

A população não suporta mais é ver bandidos presos de manhã e soltos à tarde. Não é culpa da Justiça, todos nós sabemos, pois o Estado brasileiro optou por leis penais mais brandas em nome do desafogo do sistema carcerário, numa verdadeira inversão de valores: o cidadão se prende em casa e o bandido se livra solto por aí, livre que nem um passarinho.

*ADVOGADO


02 de agosto de 2012 | N° 17149
LETICIA WIERZCHOWSKI

Duas vozes de esperança

Eu já tinha lido sobre Aung San Suu Kyi, que passou quase duas décadas em prisão domiciliar em Mianmar, e ganhou o Nobel da Paz em 1991. Mas sábado fui ver o filme de Luc Besson, Além da Liberdade (The Lady). O filme não é maravilhoso, mas é muito bom – me fez chorar em alguns momentos.

Suu Kyi é filha do general Aung San, líder separatista birmanês que foi assassinado no começo do processo de independência do país, tornando-se um herói para a população. Suu Kyi tinha dois anos quando explodiram a cabeça do seu pai, e passou boa parte da vida na Inglaterra, onde conheceu o britânico Michael Aris.

Tiveram dois filhos e viveram uma peculiar história de amor. Aos 42 anos, Suu segue para Mianmar porque a mãe teve um AVC e, de repente, se vê no cerne de uma onda de violência sem precedentes. Então, a pacata dona de casa assume a liderança da Liga Nacional pela Democracia, atraindo para si a fúria de um ditador maluco.

Presa em Mianmar e sustentando a causa da liberdade e da democracia no seu país, Suu não acompanhou o crescimento dos seus meninos: pareceu-me muito bonito que ela seja hoje chamada pelo povo birmanês de “Mãe Suu”...

Enfim, vale ver o filme e relevar seus vários pequenos defeitos – passando-se por turista, Luc Besson rodou partes da história em Mianmar com uma pequena câmera, às vezes com um militar a poucos metros de distância. A maioria dos figurantes birmaneses insistiu em não aparecer nos créditos por medo. Mas, apesar das cegas garras da ditadura, o filme está aí, iluminado pela atuação da malaia Michelle Yeoh.

Outra história incrível que ganhou o mundo é a do maratonista Guor Marial, ex-refugiado da guerra civil no Sudão. Ainda criança, Marial perdeu 27 familiares e foi enviado para um campo de trabalhos forçados. Ele fugiu do campo, escondendo-se em um buraco durante as noites e correndo por dias inteiros na direção do sol.

Como o recém-emancipado Sudão do Sul não tem um comitê olímpico, Guor Marial, que vive há 16 anos nos EUA, participa das Olimpíadas como atleta independente – na África, ele correu para salvar a vida, em Londres, corre por uma medalha para o seu país, o qual representa indiretamente. “A esperança do Sudão do Sul está viva”, disse Guor Marial.

Suu Kyi ficou por quase duas décadas sob o mesmo teto, isolada do resto do mundo. Guor Marial correu por meses e meses, e correr virou a sua forma de fazer a diferença. Duas vidas incríveis. Duas vozes gritando a esperança.


02 de agosto de 2012 | N° 17149
L. F. VERISSIMO

Celebração

Caiu muita coisa do céu no espetáculo de inauguração da olimpíada de Londres: as argolas olímpicas incandescentes, várias Mary Poppins – e a rainha, de paraquedas. Está certo, não era a rainha e sim um fac-símile razoável, mas Elizabeth se prestou a participar da encenação e só cedeu seu papel a um dublê na hora do salto, apesar da insistência do príncipe Charles para que ela mesmo se atirasse.

De qualquer jeito foi admirável ver a rainha incluída numa seleção de ícones britânicos – Shakespeare, Beatles, 007 – feita sem distinção entre o pop e o solene. Tudo que era solidamente inglês se integrava no espetáculo, fosse a rainha ou o Mr. Bean.

Imagino que a primeira decisão de quem organiza uma festa como a da inauguração da olimpíada ou de evento similar como uma Copa do Mundo deva ser entre celebrar o país que faz a festa ou o chamado espírito olímpico, de congraçamento entre os povos acima de fronteiras e identidades nacionais, etc., etc.

Os ingleses decidiram ser ingleses ao ponto de ostentação. Nada de espírito olímpico, o festejado, e bem festejado, foi o espírito nacional. Mas não foi uma celebração acrítica. Mostraram a revolução industrial que começou na Inglaterra e mudou o mundo e ao mesmo tempo – com aquelas espantosas chaminés brotando do chão para espalhar a fuligem por campos outrora verdes e pastorais – as consequências das sombrias usinas satânicas, as dark satanic mills do poema de William Blake, na vida das pessoas.

E não deixou de haver política na apresentação. Não havia muita razão para aquele longo segmento dedicado ao serviço nacional de saúde, o plano de assistência médica universal posto em prática pelos trabalhistas que nenhum governo conservador ousou tocar, a não ser como um recado para o atual governo conservador.

Como medida de austeridade para enfrentar a crise o governo Cameron está cortando benefícios sociais com um entusiasmo inédito desde os tempos da sra. Thatcher e sua machadinha impiedosa.

O show das enfermeiras dançantes e das crianças bem tratadas foi para lembrar que o National Health Service é uma instituição inglesa tão digna de ser celebrada quanto as outras – e quem se atrever a mudá-la terá que se entender com a Mary Poppins.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012


31 de julho de 2012 | 6h 46
Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo

'Batman' é o 'rock do americano doido'

Fui ver o "Cavaleiro das Trevas", mas não vou analisar o Batman como 'arte'. Agora existe um novo tipo de coisa - um filme-game que não se mede por estrelinhas ou bonequinhos aplaudindo. Não existe mais ‘gostei’ ou ‘não gostei’. Os roteiros não contam mais, a mise-en-scène é a tempestade de planos de três segundos montados em enxurrada com efeitos especiais incessantes.

O significado dos filmes está além deles. Interessa ver os conceitos que estão por baixo das cenas, a intenção por baixo da ação. O filme se esconde no décor - ali está o verdadeiro sentido. Acabaram mocinhos x bandidos; as personagens principais são as coisas, os computadores, a tecnociência.

Esse filme se pretende mais complexo que os outros; mas não é. Parece "complexo", mas é apenas "emaranhado". Isso. Assim como o mistério da arte é abolido no "entretenimento", nos atuais filmes de ação a "complexidade" é substituída por um simulacro: o proposital "emaranhamento", que nos dá a sensação de "profundo". É claro que o Batman é um herói genial, que os outros empregados da Marvel são heróis encantadores das histórias em quadrinhos. Nada contra as aventuras maravilhosas que tinham uma cândida simplicidade nos enredos.

O que enche o saco é ver como os produtores se apropriam dessas historinhas ingênuas e tentam dar-lhes um sentido do ‘ar do tempo’, construindo um sarapatel de fatos políticos: terrorismo, patriotic act, política do medo, impotência social, numa espécie de ‘rock do americano doido’... "Ah... deixa de ser chato; é apenas gibi filmado..." Gibi é o cacete - alguns desses filmes são manifestos com interpretações ridículas sobre o momento atual. E ninguém percebe.

No entanto, gostei muito do Batman 2, com o Heath Ledger criando uma obra-prima rara no cinema, uma ilha do cinismo contemporâneo, misturando bem e mal, misturando horror e simpatia. "Escolhi o caos" - ele diz para o Batman. Heath, de certo modo, faz uma crítica ao próprio filme. Heath é quase uma paródia do "grande espetáculo", é um marginal dentro do elenco.

Claro também que do meio desse barroquismo digital, linguagens e verdades podem estar nascendo. Mas se descascarmos as camadas de significação, em meio ao enxame de efeitos especiais, podemos ver Batman e outros como "sintoma", como queriam os professores da "filmologia" francesa. Nos anos 60, Gilbert Cohen-Seat criou uma espécie de filosofia do cinema, a filmologia, em que analisava não só os filmes, mas o berço de onde saíram, o chão histórico de onde brotavam. Foram várias fases desse pós-cinema de porrada e velocidade.

Nos filmes violentíssimos dos anos 80, com os atores brutais como Sylvester Stallone, Van Damme etc., Hollywood inventou o prazer do sangue, das facas dentadas, dos peitos estourados, das metralhadoras fálicas. Era a safra do cinema pós-Vietnã, como uma vingança na tela pela derrota humilhante dos americanos pelos guerreiros comedores de arroz; eram um show de força para compensar o fracasso da guerra.

Mais tarde, ainda antes do "11 de Setembro", rolou a grande onda de filmes sobre a destruição de Nova York. Parecia uma sugestão ao Osama, que acabou realizando essa volúpia destrutiva, satisfazendo esse estranho desejo de autoextermínio dos americanos. Por quê? Ninguém filma Paris acabando ou Londres em pó.

Mas, americano paranoico só pensa em inimigos. Podem conferir as obras: os USA invadidos por "Godzillas", por discos voadores letais, por asteroides, por explosões no "Armageddon" (há em Godzilla uma cena absolutamente igual à multidão real de 2001, fugindo pela rua, com as torres se suicidando ao fundo. Aliás, no mundo real, as próprias torres encarnavam uma arrogância arquitetônica, pedindo bombardeio.)

Osama, o Coringa do deserto, acabou com a ideia de guerra. Osama nos atacou de outro tempo - fora da história. A queda das torres do WTC está nos filmes de hoje como uma cicatriz na dramaturgia. Neste Batman 3 também tiveram o prazer de massacrar a Bolsa de Valores (dezenas metralhados como em Colorado), de explodir o Super Bowl, de ver a cidade tomada, a ponte doi Brooklyn desabando. Por quê?

Recentemente, a violência dos "estoura-peitos" e o suicídio virtual dos filmes-catástrofe deram lugar a uma cultura de massas mais "reflexiva". Hollywood, claro, se apropriou até dos heróis anarquistas ou psicopatas, ameaçando a ‘boa’ sociedade. Passaram a fingir uma ‘crítica ao Sistema’ como em Matrix ou o Clube da Luta, que foi a tela de onde surgiu o nosso assassino Matheus, alguns anos atrás em São Paulo, lembram?

Hoje, a verdade de Hollywood está fora das telas, nas motivações financeiras e paranoicas dos produtores. Já se disse que o 11 de Setembro em NY foi o único momento de realidade na escalada do mundo virtual. Depois da catástrofe das torres e agora, com a tremenda crise do mundo atual, o cinema só quer faturar em cima da confusão, explorar o inexplicável com fábulas ridículas com terroristas angustiados, monstros do mal e heróis do bem, tudo bem simplificado para agradar à patuleia. Onde estão os comportamentos humanos verdadeiros? Ninguém liga mais para isso.

Este filme não é o Bem contra o Mal. Fala sobre a liberdade do povo, mas deixa um odor republicano no ar. Gozamos o tempo todo com o mal e, no fim, os produtores nos "concedem" o arbítrio de escolher o bem, quando a tecnologia e as cenas celebram o mal durante toda a projeção. Este "meio" é muito mais importante que as "mensagens" que, ao final, vêm em pequenas lições morais defendendo a família, a solidariedade, o amor.

No Batman, a política e a polícia tentam dar conta da imensidão da corrupção e da criminalidade global. Ninguém sabe o que fazer, mas o cinema americano acha que sabe, com suas alegorias paranoicas e lucrativas. Quando Osama-Coringa atacará de novo?

VINHOS - ALEXANDRA CORVO

O prazer de beber sem altas viagens

Potência generosa

O segredo da concentração do Amarone é que as uvas são colhidas e deixadas em esteiras para secar

Imagine um taça cheia de aromas explosivos de frutas negras muito maduras. Adicione toques de bolo de frutos secos, licor de frutas vermelhas, notas de ervas secas. Finalize a ideia com perfumes de castanhas portuguesas, cravo, canela e couro. Pegue sua taça e sorva um grande e suculento gole.

Você terá taninos firmes, apertados, muito sabor, notas das frutas negras, cravo, café e uma densidade que lembra a de um chocolate docemente amargo. Imaginou essa taça? Se você gostaria de provar, peça um Amarone della Valpolicella.

Amargão, sim, é a tradução. Mas, na Itália, o amargo é um dos sabores mais apreciados -lembrem-se, eles adoram o alcaçuz e os vermutes. Chamar um vinho de amargo é elogio. E o Amarone é um elogio à intensidade e à tipicidade encontrada raramente nos vinhos do mundo.

Produzido na região de Verona, o Amarone "nasce" perto do lago de Garda. A zona costuma ser descrita como uma "mão aberta", cujos dedos começam na cadeia dos montes Lessini, ao norte de Verona, e se esparramam em direção ao sul. As uvas são as localíssimas corvina (que dá matéria tânica, frutosidade e cor), rondinella (muito aromática) e molinara (aporta acidez).

O segredo da concentração do Amarone é que as uvas são colhidas e deixadas em esteiras para secar. As uvas se concentram em matéria aromática e extrato saboroso, e seu mosto tarda meses, devido ao alto grau de açúcar, para fermentar.

O resultado é um vinho denso, rico, perfumado, que pode parecer duro, mas mostra todo seu esplendor apenas para aqueles que podem esperar horas de decantação. Vale cada segundo esperado.

Cesari 2007
Couro, fumo, fruta negra. Denso, picante, retrogosto de cravo
ONDE Maxbrands
tel. 0/xx/11/2174-6700
QUANTO R$ 231

Tommasi 2008
Precisa de um dia de decantação para mostrar toda fruta e equilíbrio
ONDE Casa Santa Luzia
tel. 0/xx/11/3897-5000
QUANTO R$ 232

Vignetti di Marcellise Brigaldara 2007
Mais moderno, baunilha, lembra um capuccino
ONDE Expand
tel. 0/xx/11/3017-3000
QUANTO R$ 315

Antichello 2005
Ervas secas, licor de cereja, chocolate, encorpado e elegante
ONDE Ravin
tel. 0/xx/11/5574-5789
QUANTO R$ 210

MARCELO COELHO

Mais vilões, por favor

O vilão é uma espécie de coadjuvante no que se torna, antes de tudo, um filme catástrofe

Vilões não faltavam nos filmes alemães, antes da chegada de Hitler ao poder. Caligari, Mabuse e o Vampiro de Dusseldorf são os personagens mais famosos de uma galeria de hipnotizadores e psicopatas que passou para a história do cinema.

Num livro clássico sobre o assunto, "De Caligari a Hitler", o crítico Siegfried Kracauer (1889-1966) observou que, embora houvesse muitos criminosos, era insignificante o número de detetives.

Kracauer é sempre um pouco rápido nas generalizações. Para ele, a ausência de detetives era sinal de uma certa instabilidade no processo civilizatório da Alemanha.

Democracias mais sólidas, como a Inglaterra, podiam perfeitamente imaginar cavalheiros capazes de restituir a lei e a ordem sem movimentar um músculo, como Sherlock Holmes e Hercule Poirot.

Pelo que me lembro das antigas histórias em quadrinhos, Batman também era, sobretudo, um detetive. Claro que, desde o começo, precisava realizar algumas proezas físicas com a "batcorda".

Além disso, seus inimigos eram tão mascarados e exóticos quanto ele, o que sem dúvida levou a que o seriado de TV dos anos 1960 desandasse numa verdadeira festa de Carnaval.

Não deixava de ser uma forma de simetria, no fundo. Um detetive irreal só poderia enfrentar inimigos na sua própria frequência de onda, e a ordem que ele restabelecia era quase tão fantástica quanto a desordem idealizada pelo Pinguim ou pelo Charada.

Há um bom tempo, de qualquer modo, a figura do detetive perde importância na cultura americana; lá o que conta é o super-herói.

Não poderia ser diferente, aliás, dado o fato de que os detetives clássicos americanos, mais realistas do que os ingleses, costumavam fracassar nas suas missões, transitando entre bebedeiras, mulheres, corrupção geral e ambiguidade.

Com a ascensão do super-herói, foi preciso inventar o supervilão. Não bastava o criminoso refinado, nem mesmo o assassino em série.

Teria de ser alguém com ambições de domínio mundial -e a ordem a ser restaurada não era mais a de um tranquilo bairro metropolitano, mas sim a de um planeta onde os Estados Unidos pudessem imperar sem ameaças.

Vendo o último filme de Batman, logo depois de ter assistido a "Os Vingadores", percebo que o sonho de dominar o mundo, que ocupava cientistas malucos e gênios ressentidos, já não é suficiente para sustentar a história.

Provavelmente a coisa ganhou força depois do 11 de Setembro: convergem, contra os super-heróis contemporâneos, inimigos que são ao mesmo tempo gênios do mal, invasores extraterrestres e gigantescas alterações no equilíbrio ecológico.

O vilão é uma espécie de coadjuvante no que se torna, antes de tudo, um filme catástrofe. O domínio do mundo já se provou impossível: trata-se, agora, de destruí-lo.

Certo, você pode dizer que Bane (Tom Hardy) é um tremendo vilão; mas não quero argumentar dando detalhes do final do filme, cuja surpresa resulta um bocado artificial e decepcionante.

Seja como for, a proporção dos perigos e das ameaças é tão gigantesca nesse filme, que uma boa vilã de antigamente, a Mulher-Gato (Anne Hathaway), termina reduzida a uma ladra de joias bastante sofisticada, como se fosse uma ressurreição nostálgica de um tempo em que só os milionários tinham algo a temer.

Ao mesmo tempo que a ameaça atinge dimensões planetárias, os poderes de Batman vão diminuindo, e há momentos do filme em que o super-herói se reduz à surrada condição dos Marlowes e Spades das novelas policiais realistas de 1930.

Realismo numa ponta (herói espancado, corrupção policial), fantasia científica na outra (super-reatores, explosões planetárias). Entre os dois, a ameaça de uma espécie de revolução organizada por milícias criminosas, algo entre a Al Qaeda e o Comitê de Salvação Pública de Robespierre.

Com perigos tão fantasiosos, e heróis tão manquitolas, quem sabe aquele atirador do Colorado, que matou 12 pessoas na estreia de "Batman", estivesse com uma pergunta no inconsciente.

"Onde estão os vilões? Onde estão, para que eu possa destruí-los?" Olhou à sua volta; não eram todos os possíveis, mas atirou em quem estava mais perto.

coelhofsp@uol.com.br

ANTONIO PRATA

Nascimento: FAQ

Como faço para voltar pro útero? Infelizmente, não existe essa possibilidade. Não existe mesmo? Não

1. Por que me tiraram do útero?
Você nasceu! O útero era só um breve estágio em que seu corpo estava sendo formado. A vida mesmo é aqui fora, na luz: seja bem-vindo e aproveite!

2. Como faço para voltar pro útero?
Infelizmente, não existe essa possibilidade.

3. Não existe mesmo?
Não.

4. O que eu estou fazendo aqui?
Essa pergunta é passível de muitas respostas. Religiosos acreditam que a vida é um presente de Deus.

Ateus afirmam que não há exatamente uma razão para existirmos e que tudo é fruto do acaso e da seleção natural. Ao longo do seu percurso você descobrirá para que lado pende seu coração e poderá até mesmo criar uma explicação própria para a incrível jornada que se inicia agora!

5. O que é aquela coisa redonda, quente e macia que vira e mexe põem na minha boca e contém um líquido delicioso?
Chama-se seio. O seio é parte do corpo de uma mulher. A mulher chama-se mãe. Mãe é a principal encarregada por você nos primeiros anos de vida. (Mais info. nos formulários Mãe: FAQ I, II, III, IV e V).

6. Como faço para que a mãe venha e ponha o seio na minha boca quando eu estiver com vontade?
Chore. Esgoele-se o mais alto que puder que a mãe costuma aparecer.

7. Posso ter o seio quantas vezes quiser, a qualquer hora do dia ou da noite?
Teoricamente, sim, mas isso varia de mãe para mãe.

8. Quem é aquele cara que geralmente aparece ao lado da mãe e fica ali sem fazer nada, com um sorriso abobalhado?
Chama-se pai. Ele é responsável por metade de sua carga genética. Realmente, é meio inútil neste começo, porém mais tarde ajudará bastante em sua criação. (Ver Pai: FAQ I e II).

9. Ele tem seio?
Não. Embora tenha mamilos, fato que até hoje intriga os evolucionistas, mas isso absolutamente não vem ao caso.

10. Além do seio, tem algo mais que preste do lado de cá do útero?
Ah, impossível enumerar todas as delícias desta grande aventura! Em breve você conhecerá a manga e o cafuné, o mar e a bicicleta, os livros, os esportes, o amor, a música, o sexo... Prepare-se, você vai se divertir a valer!

11. Vou ter mais alguma experiência traumática ou a saída do útero foi o fundo do poço?
Bem, em algum lugar adiante está a morte.

12. O que é a morte?
O fim da vida.

13. E, depois da morte, não tem nada?
Eis mais uma pergunta passível de muitas respostas. Religiosos acreditam que a vida continua, incessantemente, seja em outro plano ou neste aqui, através de reencarnações. Ateus dizem que não: a morte é mesmo o limite.

14. Não tem mesmo como voltar pro útero?
Não.

antonioprata.folha@uol.com.br


Banco perde US$ 350 mi com Facebook

Em consequência do prejuízo com abertura de capital da rede social, lucro da maior instituição financeira suíça despenca

UBS afirma que vai processar a Nasdaq para tentar recuperar perdas com operação, realizada em maio

DE SÃO PAULO

O UBS, maior banco suíço em ativos, disse que perdeu mais de US$ 350 milhões com o IPO (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês) do Facebook e acusou a Nasdaq, Bolsa de tecnologia de Nova York, de "grosseira má gestão" da listagem das ações no mercado, segundo o "Wall Street Journal".

A aposta na rede social de Mark Zuckerberg fez com que o lucro do banco no segundo trimestre de 2012 caísse quase pela metade em um ano.

O UBS lucrou US$ 434 milhões no trimestre passado, 58% a menos que o US$ 1 bilhão de ganho no mesmo período de 2011 e 49% a menos que o resultado do primeiro trimestre deste ano.

Com a notícia, as ações do UBS recuaram 5,86%.

O banco foi um dos quatro maiores formadores de mercado no IPO do Facebook.

Agora, ele se juntou a outros investidores que têm planos de entrar na Justiça, contra a Nasdaq, para recuperar o prejuízo com a operação.

A Nasdaq não quis comentar sobre o banco suíço.

QUEDA LIVRE

As ações do Facebook na Nasdaq não param de despencar desde que começaram a ser negociadas na Bolsa. Ontem, os papéis caíram mais 6,22% -para US$ 21,71- e atingiram o menor valor da série histórica.

A perda do valor de mercado da empresa já chega a 43% em apenas dois meses e meio. Em 18 de maio, na abertura de capital da rede social na Nasdaq, a ação valia US$ 38.

Na semana passada, o presidente-executivo da Nasdaq, Robert Greifeld, aumentou -para US$ 62 milhões- o valor do plano de compensação aos afetados pelos problemas na estreia do Facebook.

"Lamentamos profundamente os problemas. Falhamos em cumprir nossos próprios padrões de qualidade", afirmou.

A decisão foi tomada após críticas ao programa inicial, de US$ 40 milhões.

As perdas dos bancos e das corretoras com a problemática estreia do Facebook não foram estimadas oficialmente. De acordo com Thomas Joyce, presidente-executivo da Knight Capital Group -outro grande formador de mercado do IPO-, o prejuízo poderia ser maior que US$ 200 milhões.

Sozinho, o grupo Knight disse, em junho, que havia perdido mais de US$ 35 milhões na abertura de capital.

Bairro paulistano tem alta inclusão digital

Moema seria 4º "país" em conexões, calcula FGV

DO RIO

O Brasil ocupa o 72º lugar em um ranking que calcula a taxa de inclusão digital da população acima de 15 anos em 156 países. Alguns bairros nobres de São Paulo, no entanto, estão acima da média nacional, com índices equivalentes a países da Europa.

Moema, na zona sul, tem taxa de inclusão digital de 93%; o Jardim Paulista, na mesma região, atinge 92,3%. São equivalentes, por exemplo, às da Holanda (92,5%) e de Luxemburgo (92%), quinto e sétimo no ranking mundial, respectivamente.

Os dados são da pesquisa "O início, o fim e o meio", elaborada pela Fundação Getulio Vargas (FGV) em parceria com a Fundação Telefônica.

Batizado de ITIC, o índice de inclusão digital leva em conta a média de acesso domiciliar a internet, celular, telefone fixo e computador da população acima de 15 anos.

A pesquisa, coordenada pelo economista Marcelo Neri, da FGV, utilizou informações do Gallup World Poll e do Censo 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A taxa de inclusão digital no Brasil é de 51,3%, de acordo com a FGV. "Está na média mundial. Podemos dizer que o 'copo' da inclusão digital do país está meio cheio, meio vazio", afirmou Neri.

Um dado curioso é o das favelas cariocas. A Rocinha, na zona sul, tem índice de 57,46% e a Maré, na zona norte, tem 55,94%, acima da média brasileira.

"Os números das favelas cariocas surpreenderam", disse Neri.

LUCAS VETTORAZZO


31/07/12 - 14:34
 POR xicosa

"A gente se vê" é pior que o pé-na-bunda

O amigo P., aqui de São Paulo, me liga, às 13h13 nesta terça invernosa. Liga esbaforido, acabou de levar um pé-na-bunda.

Pé-na-bunda não. Muito pior. Pior do que um chute de uma bela bota de uma elegante paulistana. Como são elegantes as moderníssimas moças desta cidade no inverno –como Caetano pisou na bola ao falar da “deselegância discreta” das nossas meninas.

Elegância, porém, não é o caso desta sofrida hora do meu camarada.

O amigo não levou apenas um cartão vermelho. Pé-na-bunda até é compreensível, acontece.

O que ele levou mesmo na cara dói muito mais: o desprezo de um lacônico e gelado “a gente se vê”.

Isto sim, tio Nelson, é voltar para casa chupando o frio chicabom da solidão nesta cidade nada amorosa.

“A gente se vê um cacete”, reagiu P. Sem jeito.

Estava morto de feliz com a garota. Um intensivão de sexo. Grudados, costela a costela, com o superbonder do amor desde o começo de julho.

Repeti para ele -temos que rir da própria desgraça- uma frase do cronista e compositor Antônio Maria:

“Toda mulher, após trinta dias de felicidade sente fome e sede de desgraça. Só não irá embora se não tiver condução.”

P. não consegue ter humor nessa hora.

Nada pior do que um “a gente se vê”, “a gente se esbarra”, “a gente cruza por ai” etc.

O amigo está inconsolável. Estava fazendo a coisa certa, deduz, em uma correção como não praticava havia séculos.

Ex-canalha, andava regenerado como em uma letra de samba antigo. Se você jurar, que me tem amor…

Aquele “a gente se vê”, porém, soou ao seu ouvido como o “never more” do corvo de Edgar A. Poe.

“A gente se vê” é uma espécie de “onde está Wally”do amor e da sorte.

É pior do que tentar achar o amor da sua vida na festa dos papangus de Bezerros (PE), o maior baile de máscaras do mundo.

É pior do que a velha desculpa de sair para comprar o Malboro vermelho do abandono sem filtro.

“A gente se vê” não é o mesmo que deixar ao acaso.

Nada mais detestável de ouvir do que a maldita frase. Logo depois a porta bate e nem por milagre.

Pobre amigo P., inconsolável. Um ex-canalha quando soluça desperta a piedade do mais frio dos assassinos.

“A gente se vê” não é o mesmo que “vamos dar um tempo”.

É o gelo baiano do namoro. O que separa de fato, cada um em uma mão na avenida Paulista.

Esse “a gente se vê” deveria ser proibido por lei. Constar nos artigos constitucionais, ser crime inafiançável no Código Penal.

“A gente se vê” é a bobeira-mor dos tempos do amor líquido e do sexo sem compromisso. Da época em que nada fica. Nem o amor daquela rima antiga.



01 de agosto de 2012 | N° 17148
EDITORIAIS ZH

ALÉM DO RÓTULO

Os olhos do país voltam-se, a partir de amanhã, para o Supremo Tribunal Federal, que começará a julgar 38 réus denunciados por participação naquele que está sendo considerado como o maior escândalo de corrupção da política brasileira e que recebeu o rótulo popular de mensalão.

O nome sugere uma prática questionada pelos defensores dos acusados, de que havia um sistema de pagamento regular a parlamentares em troca de apoio ao governo. Embora tenha contribuído para popularizar o episódio e para provocar a indignação da sociedade, a palavra mensalão é um neologismo que sequer exprime adequadamente os delitos descobertos durante a investigação: peculato, corrupção ativa, corrupção passiva, formação de quadrilha e crimes fiscal e financeiro.

Todas essas irregularidades foram especificadas pelo então procurador geral da República, Antonio Fernando de Souza na denúncia que encaminhou ao STF. Seus autores, segundo a apuração, eram ministros, deputados, empresários e banqueiros, entre outros.

Pela importância e pelo envolvimento político dos réus, especialmente com a administração anterior do Partido dos Trabalhadores, o processo ganhou dimensão e arrastou-se por sete anos, até chegar à semana do julgamento que os advogados de defesa ainda se esforçam para procrastinar a fim de beneficiar seus representados.

Mesmo que não tenha existido mensalão na acepção rigorosa do termo inventado pelos denunciantes, os crimes identificados por trás do rótulo são suficientemente graves para merecer o exame rigoroso do Supremo, com as respectivas condenações e absolvições, de acordo com o convencimento de cada ministro. Apesar das implicações políticas inevitáveis e de pressões de toda a ordem, o que se espera dos julgadores é uma avaliação criteriosa, baseada nos autos e nas provas.

Não se trata de linchamento ou de vingança política. Trata-se, isto sim, de um julgamento importante para a nação, que inclui o reconhecimento das instituições envolvidas e também a inequívoca vontade do povo brasileiro de erradicar da vida pública práticas incompatíveis com a ética e com os interesses coletivos.

Todos os julgadores, independentemente do seu passado político, estão habilitados a representar o país na Suprema Corte. Se não se considerarem impedidos de participar do julgamento por motivos pessoais, devem ter suas prerrogativas constitucionais respeitadas e acatadas.

É inevitável que o Supremo Tribunal Federal fique, a partir de amanhã, sob julgamento da opinião pública, que tem as mais diversas visões do episódio. Mas, ainda que possamos, como indivíduos, concordar ou discordar das sentenças, o que os juízes decidirem será também a decisão de toda a sociedade, que lhes concedeu a procuração constitucional para representá-la em última instância.


01 de agosto de 2012 | N° 17148
MARTHA MEDEIROS

Fora do contexto

A grande maioria de jornais e revistas traz hoje uma sessão que é das mais populares: são as frases destacadas de políticos, artistas, empresários e demais notáveis. A pessoa deu uma longa entrevista e dela é pinçada uma pequena declaração que vai para o hall das “frases da semana”. Quem não lê? Todo mundo lê e adora.

Algumas frases são fortes, outras divertidas, há as ridículas, as burras, as geniais. Mas todas, absolutamente todas correm o risco de estar descaracterizadas. Porque aquilo que é subtraído do contexto ganha projeção, para o bem ou para o mal. E isso, por si só, é uma forma sutil de manipular o leitor.

Em tudo há um contexto. No seu pedido de demissão, na sua defesa dos animais, na sua confissão para o padre, no seu desabafo para o analista, na sua briga de casal, na sua campanha política, até na escolha da roupa que você vai vestir pela manhã. Cada atitude, cada escolha, cada argumentação, cada lamúria está vinculada a uma série de outras coisas que orbitam em volta do assunto principal. Não existe “não vem ao caso”. Tudo vem ao caso.

A namorada, depois de aprontar muito, diz que você é o homem da vida dela. Essa frase, sozinha, reconstitui relações, mas e o contexto todo, onde fica? Seu chefe considera você um ingrato por desligar-se da empresa de uma hora para a outra, mas e a quantidade de sapos que você engoliu por meses, não explica?

Você é considerado um sequelado por descer pelo elevador do prédio de calça laranja, blusão pink e óculos de lentes verdes, mas alguém levará em consideração que você é um artista performático? Você diz para o analista que seu pai a ignora, e o analista precisa acreditar em você, mas jamais lhe dará alta até que descubra o contexto. O contexto é soberano, o contexto é revelador, o contexto não pode ser ignorado, assim na vida, assim na imprensa.

Como destacar uma ironia sem contextualizá-la? A ironia soará grosseira. E aquele que ao ser entrevistado para a TV estava visivelmente brincando, mas que por escrito pareceu estar falando sério? E o comentário dito no entusiasmo do momento, sem compromisso, que ganha ares de profetização? Falou, imprimiu, já era.

Explicar o contexto exige tempo, exige dedicação, exige compromisso, e está tudo em falta: tempo, dedicação, compromisso. Quer-se o bombástico de deglutição fácil. Quer-se o vexame público, o mico, a constatação constrangedora, a genialidade de pronta-entrega, quer-se o impacto imediato, sem olhar para os lados. O contexto são os lados ignorados.

Eu leio essas “frases da semana”, você também lê. Mas, na falta da contextualização, não percamos o critério. Acreditemos com um olho fechado e outro bem arregalado.


01 de agosto de 2012 | N° 17148
DIANA CORSO

Numa velha história, um projeto de vida

Há muito, esperava esse reencontro, mas nunca o fazia acontecer. Afinal, pedi o exemplar em um sebo virtual. Estava curiosa, mas foi sinistro, constrangedor até. Fazia 40 anos que não tinha notícia dessa história, mesmo considerando-a minha predileta.

Trata-se de Uma Casa na Floresta, o primeiro volume dos nove escritos por Laura Ingalls Wilder, contando a vida difícil dos pioneiros norte-americanos, a sua própria. Li a série no início da puberdade, numa biblioteca, nunca tive os livros embora os adorasse.

Quando o pacote chegou, tão pequeno, pensei ter me enganado: vai ver que pedi uma edição adaptada. Nada disso, “texto integral”, dizia na capa. Na lembrança, era maior. Além disso, nesse relato não havia nada de encantador, o livro era chato. A surpresa era outra.

Aquelas páginas eram como uma carta que houvesse enviado para mim mesma do passado. A missiva tinha data para chegar e era agora, com as filhas crescidas. Ali estavam descritos, prescritos, sonhos do passado que realizei sem clareza de que os tinha.

A menina Laura e sua irmã Mary viviam numa cabana de troncos na floresta. Há intermináveis páginas sobre o cotidiano severo, de escassez, rezas, obediência, chatices domésticas identificadas com aconchego. O pai caça para alimentar a família, o preparo da carne salgada e defumada e das conservas para atravessar o inverno.

As brincadeiras e o calor da casa quando a neve chega, a boneca de pano, um presente inesquecível. A animação fica por conta do relato das aventuras do pai, que conta da floresta onde enfrenta panteras, ursos e lobos. Dentro de casa proteção, fora o perigo.

Essa vida rudimentar meticulosamente narrada evoca a nostalgia de algo que, na verdade, nunca existiu: uma família antiga e amorosa, na qual há um pai poderoso que se ocupa das filhas mulheres, veja só. Um verdadeiro “refúgio num mundo sem coração”, como Christopher Lasch, em seu livro com esse nome, descreveu o ideal em que se inspira a família nuclear.

Sem lembrança consciente do livro, nem dos seus efeitos em mim, construí uma família com várias alusões a essa história. Dei à minha primogênita o nome da autora e protagonista da obra, minha porta sempre teve um buldogue, como o velho Jack da saga, montando guarda, e minhas duas filhas cresceram ouvindo histórias sentadas no colo do seu atencioso pai.

Errantes pelo mundo, sempre nos resta a nostalgia de um ninho imaginário. É isso que queremos para nossos filhos, eu bem que tentei. Como se vê, leituras infantis são perigosas, no bom sentido.


01 de agosto de 2012 | N° 17148
PAULO SANT’ANA

A mulher de Cachoeira

Está faltando uma coisa em mim/ faz muita falta assim/ é um goleiro sim.

Leio e escuto que a esposa de Carlinhos Cachoeira, aquele que está preso e atolado até o pescoço em corrupção pública e privada, está sendo acusada de tentar subornar o juiz que julga o processo contra seu marido.

O juiz federal denunciou que a bela esposa de Cachoeira, que usava anteontem na televisão uns óculos semiescuros de estupenda beleza, pediu audiência com ele.

O juiz precaveu-se e deixou uma secretária na sala, tencionando que uma testemunha estivesse presente na conversa.

A mulher de Cachoeira pediu ao juiz que retirasse a testemunha, alegando que o assunto era muito íntimo.

O juiz acedeu e a mulher então disse que tinha um dossiê incriminador do próprio juiz e que, caso ele não mandasse libertar seu marido, mandaria publicar o dossiê na Revista Veja, sempre a Revista Veja.

Se eu fosse o juiz, teria preso em flagrante, por tentativa de suborno, uma legítima chantagem, a esposa de Cachoeira.

Não foi isso o que o juiz fez, mas procedeu ainda assim corretamente e denunciou a seus superiores a chantagem.

Não entendo esse proceder judicial, mas foi noticiado que, caso a mulher de Cachoeira não pagasse uma fiança de R$ 100 mil até hoje, o que já fez, seria imediatamente presa, visto que ela responde por corrupção ativa.

Este caso é sensacional e espetacular. Quanto mais não seja porque este é o segundo juiz federal que se prepara para julgar o preso Cachoeira. O primeiro pediu afastamento do caso, o que foi concedido, por ter sido pressionado e sofrido sérias ameaças.

Essa é apenas uma das razões por que defendo que os juízes, procuradores e promotores têm de ganhar bons salários, são profissões de alto risco e enormes responsabilidades, afinal decidem sobre a liberdade física e econômica das pessoas.

Imaginem, se o depoimento do juiz federal for verossímil, o desespero desta mulher ao tentar subornar o juiz.

Ela viu certamente que pelos métodos curiais seu marido não seria solto. Partiu então para a ignorância e ofereceu suborno ao juiz.

De outra parte, Cachoeira depôs dias atrás na Justiça Federal. Estranhamente, o que nunca tinha acontecido antes, deixou a todos boquiabertos na audiência: recusou-se a proceder à sua defesa e apenas declarou que amava sua mulher, tecendo elogios candentes a ela, enfim, depôs somente uma declaração de amor.

E se agora assiste do fundo da prisão à sua mulher tentar subornar o juiz, há de amá-la ainda mais, senão pela dedicação, mas sim pela coragem.

Coragem meio burra, mas coragem.


01 de agosto de 2012 | N° 17148
GRÊMIO

Polo aquático

Em gramado encharcado, que quase inviabilizou o toque de bola, Grêmio fez 1 a 0 no Coritiba e levou vantagem para o jogo de volta, dia 23 deste mês, no Paraná

Lembrou um jogo de polo aquático a estreia do Grêmio e Coritiba, na Copa Sul-Americana, ontem, no Olímpico. Como se participassem dos Jogos Olímpicos, os atletas dos dois times enfrentaram com bravura a adversidade provocada pela chuvarada que caíra sobre Porto Alegre desde o meio da tarde.

O gol de André Lima, de cabeça, no segundo tempo, que deu a vitória de 1 a 0 ao Grêmio, oferece ao time de Vanderlei Luxemburgo a vantagem de se classificar às oitavas de final com um empate na partida de volta, dia 23 deste mês, no Estádio Couto Pereira. Derrota por um gol de diferença, desde que a equipe marque fora, também garante vaga.

Adiar a partida seria o mais recomendável. Isso poderia ter ocorrido se o árbitro Ricardo Marques Ribeiro fizesse uma vistoria com pelo menos uma hora de antecedência. Assim, o que se viu foi um jogo anormal. A cada tentativa de passe rasteiro, a bola trancava no gramado encharcado. Jogadas divididas faziam com que a água respingasse para todos os lados. Isso quando os lances não terminavam em faltas involuntárias.

Cenas hilárias proliferavam, com defensores errando em bola ao tentar afastar o perigo das proximidades de sua área e se estatelando em campo. Ao Grêmio, restaram os chutes de longe, em tentativas de Souza e Elano, todos defendidos por Vanderlei.

No intervalo, em tom de desânimo, o presidente Paulo Odone chegou a dizer que o Grêmio tinha perdido o fator local, lembrando que o time havia enfrentado dificuldade semelhante no jogo de volta contra o Palmeiras, em Barueri, pela Copa do Brasil.

O reduzido público que enfrentou a chuva foi recompensado aos 26 minutos do segundo tempo. Depois de escanteio batido da direita por Léo Gago, André Lima, mesmo agarrado por Demerson, subiu e venceu o goleiro Vanderlei com um forte cabeceio.

Um prêmio ao esforço do centroavante, opção de Luxemburgo para o lugar de Marcelo Moreno, preservado devido a uma tendinite. E a repetição do ocorrido no sábado, quando também havia marcado gol de cabeça contra o Coritiba. Nos seis últimos seis jogos, todos os gols do Grêmio foram marcados por atacantes.

luis.benfica@zerohora.com.br

terça-feira, 31 de julho de 2012



31 de julho de 2012 | N° 17147
FABRÍCIO CARPINEJAR

Casinha de homem

O homem brinca de casinha. É quando ele vai a um motel.

Todo motel tem ladeira e uma torre. O motel é o castelo do macho. É seu sonho de príncipe encantado.

Todo motel tem letreiros luminosos de cinema. É sua vontade de ser um ator pornô famoso e ser descoberto por Hollywood.

O motel é o conto de fadas masculino. É o pontapé inicial de sua vida imobiliária, o exercício de sua independência de estilo.

Homem não aprecia olhar apartamentos antes de comprar, não tem paciência para analisar plantas residenciais e espiar condomínios: homem visita motéis.

É uma compulsão estranha e irrefreável.

Não acredita em mim? Por que, então, quarto de motel tem churrasqueira? Explica?

Trata-se de um projeto secreto de residência, um modelo perfeito de convívio familiar. Traz a ilusão de lua de mel permanente com sua amada, não tem que aguentar a indiscrição de vizinhos e nunca sofrerá ameaça de despejo do condomínio por gritos e gemidos.

Naquele momento, realiza sua especulação patrimonial, treina seu gosto para decoração, avalia sofás, cortinas, box, azulejos para, posteriormente, adotar em seu cantinho. Passa a conhecer o que é uma poltrona Luis XV. Vivência moteleira é cultura.

Não estou troçando, o homem desejaria que seu dormitório fosse igual ao do lugar. Com cama redonda, espelhos no teto, luz negra, piso elevado, várias atmosferas e frigobar. Pergunte a qualquer marmanjo.

Adoraria dispor de um painel com botões para acender o ar-condicionado, o som, trocar as luzes e vibrar o colchão. Um controle centralizador que simplificasse seus movimentos e mantivesse o ambiente sob o alcance de um simples gesto.

O motel é o ideal de consumo dos marmanjos. Se possível com piscina, banheira de hidromassagem e roupão branco sempre lavado esperando no gancho atrás da porta. Na hora de ligar a TV, que viesse direto os jogos exclusivos do Brasileirão, nada de novelas e seriados românticos.

Diante da pequena portinhola da garagem, logo na entrada do estabelecimento, o homem define o futuro da relação ao escolher o quarto. A tabela de preços é o equivalente à vitrine de uma joalheria para a mulher: cada quarto é uma aliança ou de 12 ou de 16 ou de 18 ou de 24 quilates.

Se ele solicita o apartamento simples, é apenas uma transa rápida, não passará de meia hora. Se ele sugere uma suíte, é proposta de namoro. Se ele requisita a chave de uma supersuíte, comemore o noivado. Se ele quer uma supersuíte luxo, é a consagração erótica, um convite indireto ao casamento.

Mas, se ele pedir uma supersuíte luxo presidencial, é que ele andou frequentando motel com outra e pretende obter o perdão.