segunda-feira, 4 de outubro de 2010


Editorial Zero Hora

RIO GRANDE APOSTA NA ALTERNÂNCIA

A eleição do candidato Tarso Genro (PT) em primeiro turno para comandar o Estado nos próximos quatro anos – fato inédito na história política nas últimas décadas – traduz a opção da maioria dos eleitores gaúchos por um projeto inspirado na administração federal, cuja importância se amplia agora, quando precisará ser colocado em prática.

O resultado das urnas reafirma uma histórica tradição do eleitorado gaúcho de optar pela alternância no poder, permitindo a diferentes partidos a oportunidade de colocar em prática suas alternativas de governo. É importante que o Estado possa aproveitar essa tendência para diversificar as visões de gestão pública, sem descontinuar projetos bem-sucedidos e com o cuidado de não fomentar conflitos que só tendem a levar à estagnação e mesmo ao retrocesso.

Ao optar majoritariamente por um candidato já na primeira votação, sem que tenha havido portanto maior chance para debate, até mesmo pelo excessivo número de candidatos, o eleitor ampliou ainda mais o desafio do eleito, que precisa agora explicitar melhor suas pretensões. Uma das características mais marcantes da última campanha eleitoral foi justamente a ausência de discussão sobre um tema recorrente nos últimos anos: o desequilíbrio das contas públicas.

O fenômeno ocorreu devido à prioridade da atual administração de perseguir o equilíbrio orçamentário, permitindo que, nos últimos dois exercícios fiscais, o Estado voltasse a operar fundamentalmente com receitas e despesas ajustadas.

O acerto nas contas contrasta com as dificuldades em áreas como educação, saúde e segurança pública, com ênfase para o caos prisional – situação que precisará ser examinada com atenção pelo sucessor. Em compensação, favoreceu investimentos de maneira geral que o Estado, sob novo comando a partir de janeiro, precisará consolidar e ampliar.

O Rio Grande do Sul, com uma economia historicamente associada à agricultura e à pecuária, está hoje diante de uma fase de transição para abrigar projetos de alta tecnologia, baseada sobretudo na inovação. Isso significa privilegiar tanto áreas tradicionais, como o próprio agronegócio, quanto calçados e metalmecânica, por exemplo, além de novas frentes que se abrem, como bioenergia, florestamento, microeletrônica e a indústria naval.

A expansão e a consolidação dessas novas áreas será bem-sucedida se ocorrer simultaneamente a investimentos em níveis adequados em educação e em infraestrutura, capazes de contemplar, além do sistema de transporte, também áreas essenciais, como telecomunicações e energia.

Com um currículo extenso na área administrativa, pois já foi prefeito, além de parlamentar e ministro de pastas importantes, o futuro governador do Estado tem pela frente o desafio de aproveitar a melhoria nas contas governamentais para impulsionar ainda mais os investimentos públicos e privados.

Espera-se que ele mantenha no governo a mesma visão conciliadora da campanha, inequivocamente aprovada pelos eleitores, para unir o parlamento rio-grandense e a bancada federal gaúcha em torno das verdadeiras causas do Estado.

Tarso Genro

Governar para todos cortejando o futuro, por Tarso Genro

Ao iniciarmos, em março deste ano, as caravanas do Partido dos Trabalhadores para discutir, em 15 regiões do Estado, um programa de governo para o Rio Grande, já havíamos compreendido que o nosso Estado passava por uma profunda transformação em sua cultura política. Mudança, esta, determinada por um contexto de graves dificuldades financeiras e econômicas – acumuladas nas últimas décadas – e também pela temperatura das confrontações políticas ocorridas em nossa história pregressa.

Não se trata, naturalmente, de atirarmos pedras sobre nosso passado ou, então, supor que tenhamos vivido “polarizações gratuitas” ao longo dos anos. Ora, os conflitos pelos quais atravessamos foram engendrados, conscientemente, por todas as forças políticas do Estado e correspondem a um determinado patamar da disputa ideológica, que diz respeito não somente ao Rio Grande. Falo aqui dos embates suscitados pelo esgotamento dos projetos socialistas e sociais-democratas “reais”, em todo o mundo, e pelo fracasso dos remédios neoliberais, que se tornaram hegemônicos nas últimas quatro décadas.

Vale ainda considerar que uma certa dinâmica de polarização política está inscrita na própria formação cultural do povo gaúcho e em sua história cívica.

Entretanto, nossa conclusão, a partir das caravanas, apontou para a necessidade de promovermos uma profunda renovação da esquerda gaúcha, atestando nossa capacidade de formar uma sólida aliança política e de classes, visando à conformação de um governo estável e com ampla capacidade de diálogo social.

Esta intuição inicial – que mais tarde se confirmou – deveria ser lastreada num programa que oferecesse oportunidades para todos os que quisessem compartilhar um esforço de crescimento e modernização, em todos os ramos da nossa atividade produtiva.

O objetivo, para nós, era claro: gerar riquezas e distribuir renda, combater as desigualdades sociais e regionais, fortalecer e renovar o setor público e a capacidade indutora do Estado. Além disto, caberia a um novo governo organizar um amplo e moderno sistema de participação cidadã, integrado por todas as formas de participação já experimentadas na nossa história recente e atualizadas de acordo com as novas possibilidades abertas pela revolução tecnológica das últimas décadas.

A partir destes objetivos, compusemos a Unidade Popular pelo Rio Grande (PT, PSB, PC do B, PR e PPL), que, agora, confirmada a nossa vitória espetacular no primeiro turno, pretende, ainda, ampliar o espectro da sua composição. Nossa prioridade será a formação, sem preconceitos, de um bloco ainda mais potente de forças políticas a fim de estabelecermos um novo pacto político e econômico para o Estado, que terá êxito olhando para o conjunto da sociedade gaúcha; para todo o Rio Grande e suas diversas regiões e microrregiões.

A formação de um novo bloco social e político, capaz de projetar um futuro próspero para o Estado deverá organizar-se em torno de uma nova maioria social e política, baseada na solidariedade, na luta pela redução das desigualdades e superação da miséria. Para levar a termo seu programa, esta concertação deverá, ainda, debruçar-se sobre a superação acelerada dos entraves que obstaculizam o crescimento econômico do Rio Grande.

Trata-se, portanto, de firmar um compromisso com as novas gerações que aportam ao mercado de trabalho, com os que precisam ser incluídos na sociedade formal para terem uma vida digna e segura, com os que produzem na roça e no campo os nossos alimentos, com aqueles que desejam uma vida mais segura e a melhoria de sua situação social e educacional. Este compromisso há de envolver, também, aqueles que querem fazer crescer e modernizar as suas empresas, os que querem investir para progredir, gerando emprego e distribuindo renda.

Sabemos que no curso da realização de um programa de mudanças, interesses serão contrariados e nem todas as políticas implementadas terão a mesma base social de apoio. Mas também sabemos que nossa agenda para o Rio Grande possui uma enorme universalidade e a resolução dos seus principais problemas interessa, sem limites de classes ou grupos sociais, à maioria do nosso povo gaúcho.

Temos a consciência, ainda, de que no lugar do dissenso e do autoritarismo, é tempo de oferecer ao Estado uma infinita capacidade de dialogar, de ouvir e de decidir, a partir do interesse público, ancorados no programa de governo consagrado pelas urnas.

Compete à Assembleia Legislativa, além de outras funções, votar leis e fiscalizar o governo. Ao Executivo, governar com legitimidade e remeter os seus pleitos para o Legislativo decidir, quando a Constituição assim determinar. Esses pleitos, uma vez fundados nas pretensões da cidadania, serão sempre mais credenciados perante a casa parlamentar, a quem compete, sempre, a última palavra.

Queremos, com base nesta fundamentação, nos próximos quatro anos, construir, aqui no Estado, um modelar sistema de participação cidadã que, inclusive, nos dê prestígio global. Um sistema que tenha a capacidade de contribuir com o fortalecimento da democracia e do Estado democrático de direito, para que os princípios da Constituição tenham efetividade.

Assim, pretendemos combinar a existência de um Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – órgão superior de assessoria e consulta do governador – com os Conselhos Regionais de Desenvolvimento, a Consulta Popular e o restabelecimento da vigorosa experiência do Orçamento Participativo, que, a partir do governo Olívio Dutra em Porto Alegre, nos deu prestígio junto aos movimentos sociais e governos democráticos de todo o mundo, e da mesma forma o fez em relação aos organismos de financiamento internacional, como o Banco Mundial.

A organização de um vasto sistema de consultas, coleta de informações e busca de opiniões pelos meios virtuais, valorizando também a participação direta à distância, deverá ser agregada a este novo sistema de transparência e participação democrática.

O sistema como um todo não impedirá que o governo decida e governe, mas, certamente, dará mais legitimidade e força para decisões estratégicas, que, tomadas de forma vinculada à sociedade, tornarão o governo mais forte para enfrentar o debate político e os percalços naturais, que ocorrem em qualquer governo que não assentado sobre o conservadorismo.

O Rio Grande está convidado, pela sua sociedade civil e pelos seus partidos políticos, a iniciar uma experiência nova, baseada em valores que não desconhecem a contraposição de interesses (por vezes dura) entre os distintos grupos sociais que integram a nossa sociedade profundamente desigual.

Mas que pode buscar – especialmente neste momento – um terreno comum de dignificação da política e de um novo padrão desenvolvimento, que possa melhorar o nosso cotidiano, crescendo em segurança, distribuindo renda e abrindo oportunidades de uma vida melhor e mais estável para todos os gaúchos e gaúchas.
Governador eleito do Rio Grande do Sul


04 de outubro de 2010 | N° 16478
KLEDIR RAMIL


Médico – da série Profissões

Medicina é um sacerdócio. É só pra quem tem vocação e estômago. O grande teste é a primeira aula de anatomia. Se você conseguir assistir sem enjoar, pode seguir em frente.

É uma profissão muito difícil, você não tem hora pra nada. Domingo, almoço em família, toca o celular e você tem que sair correndo.

A não ser que compre sua própria clínica, contrate uns residentes e bote os caras pra trabalhar. Residência é uma espécie de purgatório por onde todo médico precisa passar antes de chegar ao paraíso do consultório próprio e poder ser chamado de “doutor”. É tipo um estagiário, que não tem direito a dormir, vive fazendo plantão e vira noites distribuindo analgésicos e antitérmicos.

A medicina tem várias especializações. Se você brincava de médico quando criança e gostava de examinar as meninas, pode fazer clínica geral. Se costumava arrancar asa de passarinho e cortar minhocas com o canivete, eu sugiro que faça cirurgia. Psiquiatria é pra quem gosta de ficar ouvindo a conversa dos outros.

Traumatologista pra quem vivia desmontando as bonecas da irmã. Agora, se você quer um título grandioso pra botar na porta do consultório, faça otorrinolaringologia.

Um bom médico é aquele que impõe respeito e confiança. Para isso deve usar óculos, um estetoscópio pendurado no pescoço e uma caneta de boa qualidade. O exame clínico em consultório é muito importante, psicologicamente falando. Você manda o paciente tirar a roupa, o que já deixa o coitado fragilizado.

Aí, dá uma olhada no material torcendo o nariz, com um olhar preocupado e mede o sujeito com o aparelho de pressão, a balança e o tal estetoscópio. Se até aqui o paciente estava em dúvida sobre sua saúde, a partir daí ele começa a ter certeza de que está muito doente. E é capaz de tomar qualquer coisa que você receitar com a sua caneta de marca.

Medicina é uma profissão muito respeitada e sempre vai ter futuro, as pessoas adoecem cada vez mais. A vantagem é que já existe remédio pra quase tudo. Acne, infecção, pressão alta... até disfunção erétil crônica já estão resolvendo. Só, pelo amor de Deus, não vá confundir os comprimidos.

Se você seguir essa carreira e um dia aparecer em seu consultório um paciente com processo alérgico, seja sincero com ele. Diga que você é capaz de aliviar os sintomas, mas infelizmente o que ele tem pertence ao mundo nebuloso das coisas sobrenaturais e cura mesmo só na próxima encarnação.

O músico e escritor Kledir Ramil escreve quinzenalmente no Segundo Caderno


04 de outubro de 2010 | N° 16478
PAULO SANT’ANA


Ainda tem 31 de outubro

Parabéns a Tarso Genro e ao PT pela estrondosa vitória obtida ao Piratini.

Pessoalmente, Tarso Genro reúne assinalados méritos pela vitória. Ele se constituiu em figura saliente no centro gravitacional político do Rio Grande nos últimos anos.

Perdeu o Piratini àquela vez para Rigotto, ganhou agora de goleada sobre Fogaça e Yeda.

Quem diria, esse PT laureado de ontem sofreu derrotas memoráveis aqui no Estado, obteve vitórias também memoráveis, mas agora forrou o poncho de maneira arrasadora.

É tão expressiva a vitória meritória de Tarso Genro, que ele agora reúne autoridade política para trazer para o Estado, pelo menos, mais uma montadora de automóveis.

Mas a maior surpresa estava na eleição presidencial: ao contrário do esperado por todos, Dilma não ganhou no primeiro turno.

Três fatores levaram ao surpreendente segundo turno:

1) O crescimento espantoso de Marina Silva nos momentos finais;

2) Os escândalos em torno da ex-ministra Erenice Guerra, substituta de Dilma na Casa Civil;

3) A vultosa abstenção em todo o país, mas notavelmente no Nordeste, onde atingiu 21%.

Nesse quadro, mais ainda se destaca a vitória de Tarso Genro. Ele era um dos nomes mais prestes a se tornar candidato pelo PT à Presidência da República, quando, num golpe de mão, Lula indicou Dilma para disputar o supremo cargo.

Tarso ficou gemendo a sua dor, sem berrar.

Pois agora, numa ironia atroz, Tarso ganha no primeiro turno e Dilma não alcança tal façanha.

Um dia depois do outro...

Como sempre acontece, as pesquisas eleitorais tiveram sucessos retumbantes e fracassos tonitruantes.

Um dia elas ainda vão ser consideradas ilegais.

A eleição consagradora do goleiro Danrlei para a Câmara Federal traz a relevo a força extraordinária que emana da torcida do Grêmio, tanto que Paulo Odone também se elegeu.

A grande pergunta é se José Serra poderá complicar a eleição de Dilma.

Pelo que se viu no debate último entre os presidenciáveis, Marina Silva tende a apoiar Dilma.

Mas acontece que entre os 20% do total de votos válidos de ontem, somados por Marina, havia forte componente de rejeição a Dilma, embora a maior parte dos que votaram em Marina rejeite é o Serra.

Só esta e a próxima semana é que poderão dizer como se definirá a eleição no segundo turno.

Serra não está morto, mas Dilma está mais viva do que nunca, dá para entender assim?

Ou preteou o olho da gateada, ou Dilma passou ontem somente por um susto.

E o Renato Portaluppi? Que façanha! Quatro sem tirar de fora.

domingo, 3 de outubro de 2010


FERREIRA GULLAR

Fim de uma etapa

Enquanto o PSDB optara pela esquerda moderada, o PT continuava a alimentar anseios revolucionários

PODE SER QUE as eleições de hoje assinalem o fim de um período de nossa história política. Se for verdade, não significa, porém, que haverá um corte drástico, algo terminará de vez e outra coisa começará. Talvez até essa mudança independa do resultado eleitoral de hoje, muito embora possibilidades diversas surjam, conforme esse resultado.

Trata-se de mera intuição, uma vez que me faltam as qualificações de cientista político e mesmo as de um analista experimentado na matéria. Intuo, não obstante, que algo chega a seu termo, algo que começou durante o regime militar e se desenvolveu nestes 25 anos de regime democrático.

Vou tentar formular esta minha tese que, como disse, apenas intuo, apreendendo difusamente certos indícios do que me parece ter ocorrido nesse período.

Começo pelo começo, com o fim dos partidos que existiam antes do golpe e que foram todos dissolvidos, obrigando os políticos a se acomodarem dentro de dois partidos apenas: a Arena, de apoio ao regime, e o MDB, de oposição, o que, por si só, já os qualificava, uma vez que, se optar pelo partido governista muitas vezes implicava oportunismo, optar pelo outro exigia coragem e convicção, ainda que se tratasse de oposição consentida.

Nesse ponto se concentrava o nó da questão: é que os militares, por não quererem assumir o caráter autoritário do regime, admitiram a existência de um partido oposicionista, mas, claro, só até certo ponto; isto é, um partido que não pretendesse chegar ao poder. Tratava-se, sem dúvida, de uma farsa e isso dividiu a oposição: uma parte dela acreditava que, aceitando as regras da ditadura, valer-se-ia delas para ir aos poucos ocupando posições e conscientizando o povo, enquanto a outra parte se negava a isso e pregava o voto nulo.

A situação era complicada porque, se a aceitação das regras implicava trabalho político paciente e que exigiria anos, o voto nulo, por sua vez, fortalecia o regime, que saía das urnas amplamente vitorioso.

Os defensores desta posição, constatando a inutilidade de sua opção, terminariam se encaminhando para tentar a derrubada do regime pela força, isto é, pela luta armada. O resultado de tal escolha era previsível, uma vez que a vulnerabilidade do regime era política -pois nascera de um golpe de força- e não militar, já que, nesse campo, contava com as três forças armadas e mais as polícias militares estaduais.

Os guerrilheiros foram facilmente derrotados, o que, de certo modo, fortaleceu a posição dos que haviam optado pela luta no plano político. Por sua vez, os ex-guerrilheiros e seus simpatizantes, tendo aprendido a lição, decidiram também disputar o poder politicamente. E nasceu o PT.

Enquanto isso, no seio do partido de oposição também as contradições se aguçavam, uma vez que a consistência do regime militar -além de suas imposições e artimanhas, como o AI-5 e a criação de senadores biônicos- levou a uma divisão no seio do partido oposicionista, dando nascimento ao PSDB. Estavam formadas, assim, as duas forças políticas que iriam disputar o governo do país após o fim da ditadura militar, em 1985.

Embora, no início, esses dois partidos tenham tacitamente formado uma frente de luta contra o regime, eles eram essencialmente diferentes, como se confirmaria mais tarde.

É que, enquanto o PSDB optara por uma esquerda moderada que preservaria o processo político democrático, visando apenas restaurá-lo e reformá-lo de acordo com as necessidades e possibilidades da sociedade brasileira, o Partido dos Trabalhadores continuava a alimentar anseios revolucionários, já que a maioria de seus fundadores inspirava-se na revolução cubana e via nela o exemplo a ser seguido pelo Brasil.

O PSDB chegou ao poder em 1995 e, de certo modo, esgotou seu papel. O PT chegou lá em 2003 mas, para isso, teve que abrir mão de seu revolucionarismo de palavra, substituído pelo pragmatismo de Lula, que agora tenta sobreviver travestido de Dilma Rousseff.

Muda-se o sonho cubano, agonizante, em uma espécie de neopopulismo. Já o PSDB, sem o vigor original, tenta, com José Serra, uma sobrevida; se ele perder, acaba também. Será então a vez de Aécio Neves e Sérgio Cabral que, de outra geração, ignoram a opção entre direita e esquerda.

DANUZA LEÃO

Na torcida

Gostaria que houvesse uma urna paralela para se votar nos cinco candidatos em quem jamais se votaria

COMO EU ADORO eleição, estou torcendo para que haja um segundo turno. Se isso acontecer, vamos poder saber mais das propostas dos candidatos, conhecê-los um pouco melhor, com debates mais verdadeiros, de preferência dois candidatos sem tempo marcado para perguntas e respostas.

Alguém, não me lembro mais quem, prometeu abrir 6.000 creches; e quem vai sair contando, por esse país tão grande? Se tanto faz, por que não prometer 60 mil, 6 milhões, já que ninguém vai mesmo cobrar?

A vida de Marina e Serra nós conhecemos bem; a de Dilma é meio misteriosa. Sabemos que ela lutou contra a ditadura, foi presa e torturada, era do PDT, trocou pelo PT, teve dois maridos; e quase mais nada, pois a candidata não dá entrevistas.

O eleitorado só ficou sabendo que ela tinha uma filha dias antes dessa filha ter um bebê; há cerca de um mês se soube, pela Folha -até então ninguém sabia-, que tinha sido sócia de uma lojinha de bugigangas (que faliu) em Foz do Iguaçu, e até hoje não está claro se ela planejava as ações ou empunhava metralhadora, quando lutava contra a ditadura.

Lembro que há alguns anos a imprensa -sempre ela- descobriu que um candidato a candidato à Presidência, nos EUA, tinha uma empregada mexicana ou asiática, que havia entrado irregularmente no país. Os jornais estamparam, e ele deixou a vida pública.

Qualquer americano sabe da vida do presidente Obama, da dos seus pais e dos seus avós. É um direito do eleitor saber em quem está votando.

O que faz com que se escolha um candidato, e não o outro, é seu passado, sua coerência, a capacidade de escolher para sua equipe as pessoas mais competentes e de mais confiança; como os cavalos de corrida, seu retrospecto. E sobretudo, acreditar nele.

Esta noite, alguns vão dormir felizes, outros com dor de cotovelo, outros, talvez, com alívio pela campanha ter acabado, e há também os que vão beber muito -por qualquer dessas razões.

Para os outros cargos além da Presidência, são tantos os candidatos, a maioria totalmente desconhecida, que a tendência é votar em alguém de cujo nome já se ouviu falar, mesmo que só de quatro em quatro anos, o que, aliás, é perigosíssimo.

Mas alguns são tão absurdos que eu gostaria que houvesse uma lista paralela, com uma urna paralela, para se votar nos cinco candidatos em quem jamais se votaria. Eu adoraria isso.

Você aí, que não precisa votar, porque passou dos 70, deixe de preguiça. Não precisa usar gravata, basta um jeans e uma camiseta; pegue o título de eleitor e a identidade (com foto) e não perca esse privilégio, que é escolher quem vai governar seu país. Nosso país.

Desta vez vai demorar, deve ter fila, mas sempre vale a pena. Quando chegar em casa, é ligar a televisão, se preparar para dormir tarde -a apuração só vai terminar lá pela meia-noite- e torcer, torcer muito.
Por um segundo turno, é claro.

PS - E como a vida continua, perigo à vista: uma determinada fábrica de tintas que está colorindo o Rio de Janeiro com as piores cores, como se fosse uma cidade cenográfica, anuncia pela TV que seu próximo destino é Ouro Preto. Socorro, autoridades. Isso é muito grave.

danuza.leao@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

Brasil vota, pobre mas feliz

SÃO PAULO - O Brasil que vai hoje às urnas é, na essência, do seguinte tamanho social: metade dos eleitores (67,5 milhões) ganham, no máximo, até dois salários mínimos.

Seria preciso torturar os fatos para dizer que pertencem à classe média, esse paraíso a que foram conduzidos 30 milhões de brasileiros segundo o ufanismo em voga.

Dos eleitores brasileiros, 13 milhões (10%, pouco mais ou menos) é pobre, pobre mesmo. Ganham menos de um salário mínimo. Figuram entre os 28 milhões excluídos do sistema público de aposentadoria e auxílios trabalhistas. São, portanto, ninguém.

Também no capítulo educação, a pobreza é radical: 49% dos eleitores fizeram, no máximo, o curso fundamental.

Nesse país que tanto seduz a mídia estrangeira, mais de 60% de seus alunos não têm a capacidade adequada na área de ciências. No exame mais recente, o Brasil ficou em 52º lugar entre 57 países, no quesito ciência. Alguma surpresa com o fato de que a sétima ou oitava potência econômica mundial é apenas a 75ª colocada quando se mede o seu desenvolvimento humano?

Não tenhamos medo das palavras: o Brasil que vai às urnas é um país pobre, obscenamente pobre para o seu volume de riquezas naturais, território e população.

É também obscenamente desigual, apesar da lenda de que a desigualdade se reduziu. É impossível reduzir a desigualdade em um país que dedica ao Bolsa Família (12,6 milhões de famílias) apenas R$ 13,1 bilhões e, para os portadores de títulos da dívida pública (o andar de cima) a fortuna de R$ 380 bilhões, ou 36% do Orçamento-2009.

Ainda assim, é um país mais feliz do que era há oito anos ou há 16 anos. Fácil de entender: "O pobre quer apenas um pouco de pão, enquanto o rico, muitas vezes, quando encosta na gente, quer um bilhão", já ensinou mestre Lula.

ELIANE CANTANHÊDE

Haja coração!

BRASÍLIA - O Planalto já até pediu reforço de segurança na Esplanada dos Ministérios para comemorar hoje à noite a vitória de Dilma Rousseff no primeiro turno. Precipitou-se. Tudo pode acontecer.
Considerando-se 2002 e 2006, os tucanos conseguem nas urnas um percentual levemente superior ao apontado nas derradeiras pesquisas. Se isso se repetir, o segundo turno será uma realidade. Se não, Dilma terá fechado a eleição com índices apertados.

Caso dê primeiro turno, Lula ficará impossível e voltará a confrontar a imprensa e a tripudiar os adversários, porque o furacão só foi contido temporariamente pelos marqueteiros. E a festa do PT com o PMDB, o PSB, o PDT, o PP e o PC do B já deixará evidentes as diferenças e a troca de cotoveladas por espaço de poder no novo governo.

Caso dê segundo turno, PSDB, DEM e PPS estarão ao mesmo tempo comemorando e trocando acusações em público, coisa em que são craques. A esta altura, garantir o segundo turno numa eleição tida e havida como perdida corresponde a vitória. A oposição sabe perder, mas não sabe "ganhar".

E os dois lados vão pular em cima de Marina Silva e do PV. Marina fez uma bela campanha e, mesmo sem chance de chegar ao segundo turno, ela foi decisiva para garanti-lo. Ou volta para os braços do PT ou vai para os de Serra -que, como ela disse, iria "perder perdendo".

O segundo turno é sempre alardeado como uma "nova eleição". Mais ou menos. Lula chegou na frente no primeiro turno de 2002 e 2006 e acabou ganhando no final. No segundo turno, ele engordou, Alckmin emagreceu.

Naquela eleição, o PT propagandeou aos quatro ventos que o PSDB iria vender a Petrobras, o Banco do Brasil e todas as estatais. Colou. Resta saber qual vai ser o boato, ou a maldade, desta vez. Se é que, realmente, vai haver segundo turno. O Brasil amanhece hoje com uma enorme interrogação.

sábado, 2 de outubro de 2010



Quadrilhas trocam armas por mouses

Enquanto os assaltos a banco registraram uma queda de 77,4% em nove anos, os crimes virtuais contra instituições bancárias seguem em ascensão. Em 2010, os prejuízos devem atingir R$ 900 milhões, o que equivale a uma alta de 10%.

Sem empunhar armas e protegidos pelo anonimato, criminosos virtuais já causaram prejuízo de mais de R$ 450 milhões às instituições financeiras no Brasil apenas no primeiro semestre.

Se o volume envolvendo fraudes digitais for mantido, levará a perdas de R$ 900 milhões, cerca de 10% a mais do que o valor registrado em 2009, quando ficou em R$ 820 milhões.

O fenômeno que ganhou fôlego nos últimos cinco anos tem preocupado as autoridades e levado à criação de unidades policiais específicas de combate a crimes cibernéticos. É uma tentativa de frear as fraudes bancárias pela rede, que crescem à medida em que os assaltos a banco caem – em nove anos, a queda foi de 77,4%.

Por trás da onda dos ataques virtuais, está o aumento de vítimas em potencial: o total de usuários do internet banking, por exemplo, cresceu 178% entre 2003 e 2009, chegando a 32,5 milhões de correntistas. E são eles, segundo especialistas, o ponto frágil do sistema financeiro.

– As fraudes têm crescido na mesma velocidade com que aumenta o número de usuários de internet banking – explica o delegado federal Carlos Sobral, chefe da unidade de repressão a crimes cibernéticos.

DP lança cartilha contra fraudes

Com a experiência de quem já esteve à frente do setor de inteligência da Secretaria da Segurança Pública, o delegado Emerson Wendt, titular da récem-criada Delegacia de Repressão aos Crimes Informáticos da Polícia Civil, afirma que criminosos têm concentrado esforços nos correntistas. Apesar de páginas e computadores das instituições serem bombardeados por crackers (hackers mal-intencionados), o vazamento de senhas e números de contas e cartões de crédito tem ocorrido por descuido dos clientes, conforme o policial.

– Os criminosos usam diferentes estratégias para ter acesso a dados pessoais. A mais comum na internet leva em conta a engenharia social: para convencer alguém a clicar em um link que executará um programa malicioso, os criminosos se baseiam no trinômio curiosidade, medo e ambição – explica Wendt.

Segundo o delegado, é por isso que o internauta recebe tantos e-mails com promessas de lucro fácil, fotos comprometedoras de famosos ou alertas para crimes tenebrosos que estariam acontecendo logo ali na esquina. Mesma estratégia usada em mensagens instantâneas pelo MSN: o internauta recebe um link estranho de alguém de sua lista de contatos. Ao acessá-lo, contamina sua máquina, permitindo que invasores vejam tudo o que digita e guarda na memória do computador.

– Estamos preocupados com o crescimento desse tipo de ação. Por isso, incluímos em uma cartilha de prevenção a crimes, uma série de dicas que podem evitar que as pessoas se tornem vítimas desses grupos na internet – afirma a delegada Adriana da Costa, titular da 2ª DP da Capital.

francisco.amorim@zerohora.com.br


03 de outubro de 2010 | N° 16477
MOACYR SCLIAR


Cinema e contestação

Neste domingo, às 18 horas, graças ao dinâmico Santander Cultural e à fantástica Aliança Francesa, terei uma missão gloriosa: participarei de um debate com o grande cineasta israelense Amos Gitai e seu produtor, Laurent Truchot. Gitai veio de um festival sobre sua obra, realizado no Rio, e aqui encerrará a Mostra Especial que reúne vários e importantes filmes, marcos de uma carreira marcada pelo talento e pela coragem.

Nascido em 1950, em Haifa, Gitai estudou arquitetura, e, como soldado, lutou na guerra do Yom Kipur, em 1973. O helicóptero em que estava foi abatido por um míssil sírio, uma experiência para ele transcendente. Foi nessa guerra que começou a filmar, usando uma precária câmera. Não admira que um dos filmes da mostra seja Kipur, que fala daquele conflito, uma história em que o componente autobiográfico é mais que evidente.

Esquerdista e pacifista, Gitai é um cineasta altamente controverso (dizem, inclusive, que ele é muito “europeu” para Israel, e de fato filma bastante com apoio francês), mas absolutamente fiel a seus princípios. Mostra-o o filme Kadosh (Sagrado, em hebraico), de 1998, e já exibido em Porto Alegre.

Ambientado em Mea Shearim, o bairro ultraortodoxo de Jerusalém, conta a história de um casal, Meir e Rivka, que não tem filhos e por isso tem, de acordo com o preceito religioso, de enfrentar a separação. Já Malka, irmã de Rivka, será obrigada a casar com um homem a quem não ama, de novo por determinação religiosa.


Agora vejam a coincidência: recentemente, estreou nos cinemas de todo o mundo um filme longamente aguardado: Wall Street, o Dinheiro Nunca Dorme, de Oliver Stone, continuação de Wall Street. De novo temos o grande Michael Douglas no papel do especulador Gordon Gekko, que está saindo da cadeia a tempo de pegar a crise financeira de 2008 nos Estados Unidos.

A coincidência está no perfil dos dois diretores, que são até fisicamente parecidos e têm muita coisa em comum: a idade (Gitai tem 60 anos, Stone, 64), a ascendência – Stone é filho de pai judeu embora ele próprio seja (ou diz-se ser) budista. Como Gitai, Stone foi soldado: lutou no Vietnã e chegou a ser condecorado por bravura. Finalmente, e o que é mais importante, os dois são contestadores.

Stone é um esquerdista conhecido, ainda que sui-generis. Tem boas relações com Fidel Castro e com Hugo Chávez e, embora condene certas ações das Farc, diz entender as razões do grupo guerrilheiro que até vê como “heroico”.


Mas o que une mesmo Gitai e Stone (até o número de letras no sobrenome é igual) é a contestação. E contestação é algo de que o mundo sempre precisa. Pode haver nela exagero, pode haver conotações emocionais; não importa.

O importante é que essas pessoas, escritores, intelectuais, músicos, cineastas, levantam questões inquietantes e assim nos obrigam a pensar, a reconsiderar coisas que tomamos como verdades absolutas.

Não se trata de acreditar no que diz ou mostra o contestador, não se trata de fazer de suas obras artigos de fé, mesmo porque, como vimos, não é isso que ele quer. Trata-se de evitar o conformismo, o espírito de rebanho que na política ou na religião ou na cultura acaba levando à atrofia do pensamento. Gitai e Stone são necessários. E muito bem-vindos.


03 de outubro de 2010 | N° 16477
PAULO SANT’ANA


A campanha

A RBS está publicando em rádio, jornal e televisão um anúncio institucional em que afirma que, se um seu colunista tem opinião contrária à do editorial do jornal (ou da rádio ou da televisão), a empresa toma uma providência: publica a coluna.

No anúncio do rádio e da televisão, aparece a minha voz, gritando: “Sou contra a realização da Copa do Mundo no Brasil”. Enquanto que ao mesmo tempo a RBS se manifestava em editorial favorável à realização da Copa no Brasil.

É assim também quanto às pesquisas eleitorais: sou radicalmente contrário a elas, a RBS é a favor.

Não raro, minhas opiniões se chocam com a da minha empresa e muitas vezes temos opiniões coincidentes.

Mas me sinto confortavelmente instalado na RBS nesse aspecto: nunca sofro pressão para aderir às opiniões da empresa.

Pelo contrário, frequentemente tento, sem sucesso, convencer os dirigentes da RBS de que estou certo em algumas opiniões e que eles erram em pensar o contrário de mim.

Salutar convívio este nosso. Embora eu faça parte dessa têmpera editorial da empresa, como colunista, não misturo minhas opiniões com as opiniões da empresa.

E, por fim, acabamos, eu e a empresa, nos tornando independentes um do outro na opinião.

Vi incrédulo transcorrer o debate entre os presidenciáveis na Rede Globo: em nenhum momento, Dilma Rousseff e José Serra, os principais oponentes da luta eleitoral, interrogaram um ao outro, quando a sistemática do debate proporcionou a ambos, várias vezes, aquela oportunidade.

Medo puro um do outro. Medo de quê? Suponho que Dilma com medo de dar vez a que Serra brilhasse no confronto contra ela. Ainda assim, uma razão fraquíssima.

E, Serra, de que tinha medo? Se tudo de que ele precisava para descontar a diferença que o separa de Dilma nas pesquisas era justamente aquele instante, em que ele haveria de ser enérgico contra Dilma, tendo a oportunidade, assim, de, na fricção epidérmica, tirar pontos da adversária.

Uma decepção que os dois tivessem se encaramujado.

Marina Silva não foi mal, mas também foi aquém da expectativa. Porque inexplicavelmente aderiu a Dilma em duas ou três teses discutíveis, demonstrando que ainda bate no seu peito um coração petista.

Restou para mim, que não assisti a nenhum dos outros debates, a surpresa do candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio: foi forte, firme, agudo em suas teses radicais, pediu o calote da dívida, disse que ali estavam três expoentes das classes dominantes e ele restava sozinho como única esperança dos dominados.

Foi um debate desolador sob o ponto de vista das omissões lamentáveis de Serra, Dilma e Marina.

Só o nervosismo não basta para explicar aquele mingau gélido servido pelos debatedores aos ávidos telespectadores.


03 de outubro de 2010 | N° 16477
DAVID COIMBRA


O crime de D. Pedro I

O meu amigo Dinho, também conhecido, embora não tanto, como Fernando Eichenberg, pois o meu amigo Dinho, ao saber que certa feita eu ia para Viena, desdenhou:

– Cidade chata...

Esnobismo do Dinho, ele que passou um quarto da sua vida vivendo em Paris e agora mora em Washington, perto de Barack.

Eu, um porto-alegrense arraigado que, quando me mudei, foi para Santa Catarina, eu, da humildade dos meus parcos horizontes, me apaixonei por Viena. Pela beleza da cidade, pela educação de seus habitantes, pelas delícias intensas da gastronomia germânica, por saber que Freud, Strauss e Mozart pisaram naquelas mesmas pedras que pisei, apesar de Hitler também ter pisado, por tudo isso me deixei encantar pela capital da Áustria. Lá estive também no Palácio de Schönbrunn, a residência dos Habsburgos, dinastia que comandou a Europa por 500 aristocráticos anos.

E foi nesse palácio que vi o retrato pintado de Dona Leopoldina, ela mesma, nossa imperatriz que tanto ajudou na proclamação da independência.

Uel.

Estava parado diante do retrato de Leopoldina e a guia austríaca que apresentava o palácio disse com um travo amargo na voz:

– Essa é Leopoldina, que foi mandada para o Brasil para casar com Dom Pedro I, um monstro que a matou com um chute na barriga quando ela estava grávida de nove meses.

Estremeci. Não sou exatamente um patriota e nem cultuo ídolos, mas aquela referência a Dom Pedro I e ao Brasil, a primeira referência ao Brasil que um austríaco fazia desde a minha chegada a Viena, uma semana antes, aquilo me deixou chocado. Já havia lido algo sobre esse caso, só que de forma superficial. Não se fala muito disso por aqui.

Agora, tendo nas mãos o excelente “1822”, de Laurentino Gomes, esperava colher mais informações a respeito desse horrendo fim da imperatriz. De fato, Laurentino conta a morte de Leopoldina, mas sem dar fiança à informação. Faz a narração num neutro futuro do pretérito:

“No dia 20, antes de partir para o sul, D. Pedro promovera um beija-mão de despedida. Domitila estava presente, mas Leopoldina se refugiou em seus aposentos alegando febre alta. Irritado com a ausência da imperatriz, D. Pedro teria tentado arrastá-la à força até a sala de cerimônia, puxando-a pelo braço. Diante da resistência obstinada, lhe teria desfechado um chute no abdômen. Sua última carta à irmã, ditada à marquesa de Aguiar às quatro horas da manhã de 8 de dezembro, três dias antes de morrer, parece confirmar os boatos”.

A seguir, Laurentino reproduz um trecho da carta em que Leopoldina reclama que D. Pedro a maltratou na presença da marquesa de Santos, a famosa amante do imperador:

“Faltam-me forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa de minha morte”.

E foi mesmo a causa da morte de Leopoldina. Um crime hediondo, mas que só foi tratado em pouco mais de meia página por Laurentino Gomes.

Entendo-o, ao Laurentino. Também aprecio o D. Pedro folgazão e mulherengo, que teve caso não apenas com a marquesa de Santos, mas também com a irmã dela, que, dizem, ajudou a povoar os ermos do Brasil do século 19 espalhando mais de cem filhos pelo país, que, parece, era brigão, mas leal; irritadiço, mas bem-humorado;

estuante de energia, mas suave com quem gostava. Entendo Laurentino porque, para mim, D. Pedro era o Tarcisio Meira daquele filme comemorativo ao sesquicentenário da Independência, em 1972. E como o Tarcisio Meira era o Capitão Rodrigo, do seriado da Globo, D. Pedro virou o Capitão Rodrigo, ambos viris, galhofeiros, inteligentes e bravos. D. Pedro era gaúcho!

Difícil imaginar o Tarcísio-Pedro-Rodrigo chutando a barriga de uma grávida. Mas, lastimável, os heróis também cometem erros. Zico saiu triste da Gávea, como um dia Figueroa saiu do Beira-Rio. O próprio Falcão não chegou a ter o sucesso que poderia e merecia ter, ao treinar o Inter. Foguinho, em seu retorno ao Grêmio, demitiu-se suspirando ser “uma página virada” na história do clube.

Mas Renato, não. Renato está conseguindo uma façanha: está se tornando, para a torcida que mais o ama, maior do que era quando parou de jogar. Ainda falta caminho a percorrer, mas, se prosseguir neste ritmo, Renato será um monumento vivo da história mais do que centenária do Grêmio.

Época - RUTH DE AQUINO é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro

Palhaços somos nós, os eleitores

Vamos encher o bolso de parlamentares ignorantes em troca de ideia nenhuma. É para ficar tiririca da vida

Mulher laranja, humorista analfabeto e jogador de futebol aposentado são alguns ingredientes de nosso circo eleitoral. Poderíamos rir se não fôssemos coprotagonistas dessa tragédia burlesca. Porque, no fim, vamos eleger mulheres barbudas, palhaços e anões.

Vamos pagar suas contas e encher mais ainda seus bolsos em troca de ideia nenhuma. No centro do picadeiro, estão os juízes do STF, que, por omissão ou indecisão, não conseguiram exigir ficha limpa dos candidatos antes da eleição. Contribuem assim para o voto inconsciente.

“Vou defender aquela corrupção”, disse Weslian, casada há meio século com o ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz (leia mais). Ela tropeçou nas palavras. Ou talvez tenha derrapado em seu convívio com um marido malabarista, que tudo faz para não perder a boquinha política.

Primeiro, Roriz renunciou ao Senado para não ser cassado em processo por corrupção. Depois, com a aparente moralização do processo eleitoral em 2010, renunciou à candidatura porque não se enquadrava na Ficha Limpa. Botou em seu lugar a mulher. Roriz diz: vocês verão a minha foto, mas Weslian é que será a candidata. Vocês vão votar nela, mas é como se o candidato fosse eu. Elementar. Mesmo quem não cursou o ensino fundamental compreende.

Madame Roriz não é uma inocente útil. Como tampouco o é Tiririca, o palhaço que só sabe rubricar seu nome e nunca votou na vida. Na reportagem de capa de ÉPOCA da semana passada, ele disse: “Minha mulher lê pra mim”. A principal plataforma de Tiririca é “ajudar muito o lance dos nordestinos”.

Mas ele não sabe como: “De cabeça, não dá pra falar”. Suas maiores credenciais são: “Venho de baixo” e “Tô entrando de coração”. Embora analfabetos sejam inelegíveis pela Constituição, a Justiça de São Paulo preferiu não colocar à prova se o palhaço sabe ler e escrever.

O craque Romário, milionário e malandro, às vezes detido por não pagar pensão alimentícia à ex-mulher e aos filhos Moniquinha e Romarinho, nem tentou driblar a galera, inventando um programa de ideias. O ídolo e goleador prometeu usar o futebol para integrar as crianças carentes. Como deputado federal, conseguirá a façanha jogando futevôlei nas praias da zona nobre do Rio? Vamos encher o bolso de parlamentares ignorantes em troca de ideia nenhuma. É para ficar tiririca da vida

Nenhum desses três candidatos é inocente – e como algum deles seria útil? Se Tiririca tem potencial para superar 1 milhão de votos como deputado federal apenas por sua popularidade e pelo slogan “Pior do que tá não fica”, é porque palhaços somos nós, os eleitores brasileiros.

O único jeito, num país onde o voto continua sendo infelizmente obrigatório, seria uma forte campanha pelo voto consciente. Mas a quem a consciência interessa? A Câmara lançou uma radionovela, alertando para o poder do eleitor de escolher bem seus representantes e fiscalizar o trabalho dos eleitos. O detalhe é que a maioria dos brasileiros nem sequer sabe o que faz um deputado estadual, federal ou senador.

O voto consciente é solapado quando dez juízes, ganhando mais de R$ 26 mil por mês, não conseguem decidir, antes da eleição, se a Lei da Ficha Limpa já vale neste ano ou não.

É imoral não exigir de candidatos a cargos públicos o mesmo passado sem nódoas, a mesma integridade que se exige de um cidadão comum. Se bem que, a julgar pelas palavras de Lula em junho do ano passado em defesa do presidente do Senado, José Sarney, alguns homens são menos comuns que outros e merecem tratamento especial.

A Lei da Ficha Limpa foi aprovada, a sociedade aplaudiu, acreditou e, agora, por uma firula jurídica, às vésperas da eleição, o presidente do STF, ministro Cezar Peluso, se diz incapaz de desempatar a indecisão do Supremo. A omissão confunde eleitores já confusos e abre caminho para processos e recursos de candidatos suspeitos de falcatruas.

Para culminar o vexame, um vídeo mostra um advogado, genro do juiz do STF Carlos Ayres Britto, em negociação a peso de ouro com Roriz para livrá-lo da pecha de ficha suja. O acordo não chegou a ser firmado. Mas isso sim é um deboche, que deixa o Brasil tiririca da vida.


02 de outubro de 2010 | N° 16476
NILSON SOUZA


Abro meus votos

Véspera da eleição e tem gente que ainda não sabe em quem votar. Infelizmente, as urnas eletrônicas não incluem a tecla rejeição, que permitiria ao eleitor indicar os candidatos que não servem para representá-lo de jeito nenhum. Melhor, então, é pensar positivo e selecionar as pessoas que merecem ser votadas – senão para cargos públicos, pelo menos para as vagas afetivas existentes em nossos cérebros e em nossos corações.

O primeiro dos seis votos a que tenho direito vai para minha dentista Margarete, que não é candidata a nada, a não ser ao posto que já ocupa há muito tempo, de profissional competente, sensível e solidária. Voto nela por conta de seu dom de atenuar as dores – e os pavores – de seus pacientes contando histórias curiosas, enquanto trabalha com habilidade entre incisos e molares.

Como a da adolescente que recém havia colado um dente e aceitou a oferta do colega de aula para beber um gole de refrigerante no bico da garrafa. O dente caiu dentro, e ela se viu obrigada a beber todo o líquido para recuperá-lo, diante da estupefação do menino que esperava a devolução.

Dedico o segundo voto a Chico Maratona, meu sósia, com quem cruzo seguidamente nas calçadas de Ipanema. Determinado, ele encara o tempo e as distâncias com sua passada curta e seu exemplo de vencedor. Mal troquei com ele duas ou três palavras, por conta de nossa suposta semelhança física, mas já firmei convicção de que se trata de um sujeito simpático, quase bonito.

Cravo meu próximo voto numa pessoa que não conheço, mas que dedica as horas de seus dias a uma causa meritória e desinteressada: a defesa dos animais. Teresinha Winter é uma guerreira implacável quando se trata de proteger bichos desamparados e de atacar seus agressores humanos. Agora mesmo ela está empenhada em evitar que novas girafas venham da África e tenham aqui o mesmo destino da infeliz Doroteia, que morreu há poucos dias no zoológico, solitária e infeliz.

Já que estou votando em não candidatos, digito aqui um número102 , da norte-americana Ida Wasserman. Ela tem 102 anos e faz musculação diariamente numa academia da Flórida. Começou a se exercitar para acompanhar a filha, que já passou dos 70 anos. E tem jovem que não se mexe.

O quinto voto, dedico-o a um colega de profissão, o diretor de Redação do jornal Extra, do Rio, que, com sua equipe, produziu a capa mais genial da atual cobertura eleitoral. Não vou descrevê-la, pois é fundamental vê-la. Está na internet e as palavras-chaves para googlear são: Extra, Lula, rei, bonito.

Sobrou um voto e ele é o mais importante do meu repertório. Vai para você, leitor/leitora, que me acompanhou pacientemente até aqui. Afinal, também tenho que cuidar do meu eleitorado.


02 de outubro de 2010 | N° 16476
PAULO SANT’ANA


Problema a mais

Vou publicar uma carta hoje, mas não porque eu esteja com falta de assunto. Tenho bastante assunto e inspiração. Vou publicar esta carta porque ela é importante para a questão da saúde pública. E esta coluna por vezes é acionada pelo dever social.

O remetente pediu para que sua identidade fosse preservada. Mas ele assinou o texto. Vou tentar resumir a extensa carta.

“Sant’Ana. Sou médico do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre e leitor assíduo de sua coluna. Tenho, desta forma, conhecimento de sua corajosa e imparcial luta diária por melhorias para a população porto-alegrense nas mais diversas áreas, incluindo também a saúde.

Assim, venho através desta relatar diversos fatos que vêm ocorrendo no Sistema Único de Saúde de nossa Capital por imposições da Secretaria Municipal de Saúde, ambientados, neste relato, na Santa Casa, porém sabidamente ocorrendo em todos os hospitais regidos por esta secretaria do município de Porto alegre.

Para entenderes as mudanças impostas recentemente pela secretaria municipal, relatarei brevemente como era o modelo assistencial oferecido à população gaúcha neste complexo hospitalar até maio do presente ano. Devemos entender que esta assistência estava longe do ideal, mas, da forma como está para se transformar, tornar-se-á impraticável, trazendo inegável prejuízo a esta já carente população.

A Santa Casa, por ser um hospital terciário e, portanto, destinado às especialidades médicas de média e alta complexidade, não pode ser porta de entrada do SUS para os pacientes. Dessa forma, para conseguir consulta em alguma especialidade médica, o paciente deve, obrigatoriamente, dirigir-se a um posto de saúde e aguardar horas na fila.

Após esta espera, nem sempre frutífera, em consulta com o médico da família do posto de saúde, deve relatar seu caso e receber o encaminhamento para algum centro especialista. Cabe salientar aqui que este encaminhamento será enviado à Secretaria de Saúde e que esta destinará o paciente a algum centro de referência na especialidade necessária. Nesse trâmite, o paciente recebe um número (CMCE – Consulta médica em centro especializado específico para a especialidade requisitada).

Logicamente, esse processo, devido à grande demanda, demora, por vezes, anos para se processar. Não raro, atendemos pacientes que aguardaram quatro, cinco, até seis anos para serem encaminhados do posto de saúde à Santa Casa. Entretanto, neste modelo, caso o enfermo, agora já paciente da Santa Casa, necessitasse de outra especialidade médica, o médico da especialidade que o está atendendo poderia solicitar uma interconsulta para outra especialidade do complexo.

Tomando, por exemplo, um paciente que foi encaminhado do posto de saúde à cardiologia da Santa Casa por apresentar provável insuficiência valvar e, durante seu atendimento, o médico julgou ser necessário acompanhamento da neurologia ou cirurgia vascular, bastaria solicitar interconsulta e o paciente estaria sendo atendido plenamente em todas as suas necessidades.

Assim como um paciente encaminhado do posto de saúde à cirurgia oncológica para ressecar um câncer de pele, caso necessite de biópsia prévia (maioria dos casos), poderia ser encaminhado à dermatologia da própria Santa Casa por interconsulta para tal procedimento. Como referido anteriormente, este modelo não é ideal devido à longa espera para atingir o centro terciário, porém bastante efetivo, ágil e resolutivo após ter chegado ao centro especialista.

Há aproximadamente três meses, por imposição da Secretaria Municipal da Saúde, os pacientes, mesmo em acompanhamento em alguma especialidade da Santa Casa há anos, mas não portadores do número do encaminhamento (CMCE), caso necessitem de algum procedimento, não podem ser submetidos a tal.

Isto nos gera grandes problemas, pois os pacientes são, habitualmente, encaminhados sem tal número, mesmo que ele exista. Assim, pacientes da Santa Casa em acompanhamento desde 2003 por exemplo, necessitam retornar ao posto de saúde para obter esse número (nem sempre fornecido), ou não são operados.

Hoje, este quadro se agravou, pois recebemos um ofício da direção executiva da Santa Casa decretando que as interconsultas passaram a ser proibidas dentro dos hospitais terciários. É o fim da picada... Pobres dos pacientes e de nós, médicos.”


02 de outubro de 2010 | N° 16476
CLÁUDIA LAITANO


Feito pela ocasião

Há versões de nós mesmos que nunca chegaremos a testar na prática. Podemos imaginar que diante de determinada circunstância provavelmente agíssemos desse ou daquele modo, mas é só na hora da dor que a gente descobre se é do tipo que geme. A ocasião faz o ladrão, mas faz o honesto também. Faz o bravo e o covarde, o bom e o mau-caráter, o justo e o traidor. O resto é ficção, um livro que nunca foi escrito.

É verdade que nem sempre seremos confrontados com os eventos que trarão nosso melhor ou pior lado à tona. O herói que nunca encontrou uma causa em tudo se parece com o sujeito comum, desses que cruzam com a gente na saída do supermercado e comentam sobre o tempo e o resultado da loteria. Tivessem as circunstâncias certas se apresentado, poderia ter mudado a história ou feito parte dela. Mas um herói sem causa é apenas uma promessa não cumprida, uma energia desperdiçada nas pequenas causas.

Alguém que morre repentinamente, sem tempo para se preparar ou pensar no assunto, nunca saberá com que armas enfrentaria a iminência da morte. Seria corajoso diante da doença o mesmo homem que diz não ter medo de nada? Se agarraria à vida com raiva e indignação ou encontraria força para uma despedida serena? A gente nunca sabe, e mesmo imaginar não é lá muito fácil.

Do amor romântico se diz que ficou “líquido”, descartável, passageiro. E a lealdade também é passageira? Será possível encontrar nas sobras de um relacionamento a força para manter o respeito por alguém que um dia se amou? Quem se apaixona por um homem ou uma mulher nem sempre consegue imaginar como o outro se comportaria na hipótese do fim do amor ou da traição. O amor que termina mais ou menos bem foi testado na prática – e sobreviveu.

O poder é dessas coisas que, infelizmente, nunca se sabe bem no que vai dar. Um funcionário modesto que se aposenta na mesma função que ocupou durante toda a vida nunca saberá que tipo de líder seria se a oportunidade tivesse se apresentado. Arrogante ou generoso? Truculento ou boa-praça? Honesto ou nem tanto? E se tivesse sido vereador, deputado, presidente?

Os brasileiros gostam de imaginar que são melhores do que os políticos que os representam, e em muitos casos são mesmo. Mas o fato é que poucos de nós teremos a chance de sermos testados nessa delicada posição de quem abraça a vida pública – com todos os desafios à ética pessoal e à integridade que ela inevitavelmente impõe.

Muitos não resistem à sedução das pequenas e grandes traições aos princípios – e nem sempre é fácil distinguir entre tantos discursos parecidos aquele dos que nunca tiveram princípio algum para trair. Algumas pessoas crescem com o poder, outras se apequenam. A gente nunca sabe, apenas imagina.

Tudo o que podemos desejar é que o próximo presidente da República aproveite a chance que o Brasil está lhe dando para ser, no poder, muito maior do que foi até agora.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010


JOSÉ SIMÃO

Ueba! A Tiririca do Cerrado!

Agora só documento com foto. Sendo que a minha foto é de 1980 e a minha cara é de 2010! Rarará!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador-Geral da República! Ereções 2010! Oba! E o novo slogan da dona Weslian Roriz: "Você sabe o que fais um governadô? Nem eu. Vota ni mim que o meu marido sabe!". A Tiririca do Cerrado. Rarará!

E uma coisa que todo eleitor quer saber do candidato: se a mão que ele balança o pingolim é a mesma que ele cumprimenta o eleitor!

E a manchete: "Dilma para de cair". Eu não sei se a Dilma parou de cair ou o Lula que gritou: "DILMA, PARA DE CAIR!". Rarará. E essa: "Serra sobe um pouco, chega a 28 pontos e já ameaça o São Paulo". Rarará!

E Dapadaria informa: se a Dilma ganhar, ela despacha direto do Palácio do Jaburu. Se o Serra ganhar, despacha direto da cripta na Transilvânia. E se a Marina ganhar, despacha direto da gôndola de orgânicos do Pão de Açúcar! Rarará!

E diz que petista é um corintiano que torce para partido. E tá mais fácil ver uma orelha de freira que achar um eleitor do Serra!

E faltam dois dias. Todo mundo com cara de sala de espera de dentista. Esperando a pesquisa das 14h22, a pesquisa das 16h34 e a pesquisa das 18h29. E uma vez eu estava no aeroporto de Salvador e vi uma menina fazendo pesquisa: "O senhor ganha quanto?". "Mil e setecentos reais". "Posso colocar dois mil pra arredondar?". Rarará! Arredonda as pesquisas!

Oba! Não precisa mais de título de eleitor! Ainda bem. O meu deve estar enfurnado embaixo do CIC, rasgado no meio e colado com durex num envelope pardo escrito documentos importantes, na última gaveta, que tá emperrada! Agora só documento com foto. Sendo que a minha foto é de 1980 e a minha cara é de 2010! Rarará!

E um amigo quer saber qual o real significado da palavra zona eleitoral! E sabe qual o nome do advogado do Netinho? Alexandre ROLLO! E o Beto Richa barra mais uma pesquisa no Paraná. Nome do advogado:

Luciano CARRASCO! Agora eu não sei se voto no Biju Furacão do Forró ou na força da mulher rondoniense; "Ana da 8". Só? Tô achando essa força muito fraca. Rarará.

A situação tá ficando psicodélica. Eu acho que o Brasil tomou um ácido no café da manhã. Ainda bem que nóis sofre, mas nóis goza. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! Mais ética na demagogia!

Vote consciente nesse domingo. Um ótimo fim de semana.

simao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Xeretando

BRASÍLIA - Flagrado ao celular com o ministro Gilmar Mendes, supostamente para virar no tapetão um placar de 7 a 0 no Supremo, Serra provocou os jornalistas: "O que vocês estão xeretando?".

Pois é, xeretar faz parte da natureza do jornalismo (e do jornalista), e foi xeretando que a imprensa livre e crítica descobriu as maracutaias de Collor, a venda de votos da reeleição de FHC, o mensalão da era Lula e o festival de nepotismo, negociatas e caixinhas de Erenice, braço direito de Dilma.

Assim, o que impressiona na história é a sem cerimônia de Serra ao pedir para falar com o ministro e depois chamá-lo de "presidente", justamente em meio ao julgamento de uma ação proposta pelos adversários -contra a exigência de dois documentos para votar. É o cúmulo da imprudência e da arrogância. É por essas e outras que, na hora de arrancar, Serra engasga.

Aliás, quando duas rodadas do Datafolha acusaram uma nítida tendência de queda de Dilma, abrindo uma real perspectiva de segundo turno, os governistas reagiram à la PT, e a oposição, à la PSDB.

Um se rearticulou, neutralizou a boataria da internet contra Dilma e botou no colo dela as cúpulas evangélicas, que conduzem milhões de votos. O outro perdeu o prumo. Nem só por inocência ou por acaso.

Aécio Neves correu a se posicionar na "sucessão geracional" tucana, o que correspondeu a enterrar Serra (quase literalmente); o afilhado Gilberto Kassab (DEM) anunciou aumento da passagem de ônibus em São Paulo a quatro dias da eleição; Serra escorregou numa resposta sobre aposentadorias que deveria estar na ponta da língua.

Enfim, o telefonema a céu aberto para Gilmar Mendes apenas coroa o esforço antissegundo turno.

Escrevo antes do debate da TV Globo, mas não será surpresa se, no último e decisivo confronto, quem mais precisava brilhar esmaecer. Se isso ocorrer, a eleição acaba no domingo. A ver e conferir.

elianec@uol.com.br


01 de outubro de 2010 | N° 16475
PAULO SANT’ANA


O novo fumódromo

Bastou uma coluna minha para que os altos círculos diretivos da RBS decidissem que não vão mais extinguir o fumódromo de Zero Hora.

Mais, um dos integrantes dos altos círculos veio me sondar sigilosamente: quer saber se tenho alguma sugestão sobre um novo local onde se possa situar o fumódromo, eis que onde está fere as suscetibilidades do pessoal e direção da Rádio Gaúcha, que afetam idiossincrasias inenarráveis contra o local atual.

Ainda bem: pois então eu me atreveria a sugerir o novo local: seria criada uma espécie de espaçonave, com paredes transparentes e 40 metros quadrados, no centro da redação de Zero Hora.

As paredes estariam inteiramente vedadas de som e de fumaça, os que estivessem fumando enxergariam os que estivessem trabalhando, estes não seriam por qualquer forma importunados pelos fumantes, com isso estaria consagrado o convívio alta e profundamente democrático, preocupação que deve nortear, como se sabe, os jornalistas e as empresas de comunicação.

Ia me esquecendo: pediria que o novo fumódromo fosse dotado de poltronas estofadas, um freezer com refrigerantes e uma máquina de café.

Juro, ao contrário do que podem imaginar os apressados e os burocratas militantes, que o índice de produtividade dos fumantes seria quadriplicado depois dessas medidas.

Não há nada que estimule mais um empregado do que ser bem tratado no local de trabalho.

Transcorreu ontem o Dia da Secretária. São tantas as secretárias com que lido diariamente que seria façanhoso nomeá-las todas.

Quero então na pessoa da secretária Graça Beck, que há 30 anos desempenha seu cargo na RBS, com exação, eficiência e cordialidade, simbolizar o respeito e o apreço que nutro por todas as secretárias gaúchas.

Sir Alex Ferguson é treinador do Manchester United há 27 anos. Ele é o treinador mais premiado do mundo, o que mais atingiu títulos no futebol mundial.

Entra diretoria, sai diretoria, Alex Ferguson é sempre o treinador.

E já dá para acreditar que Ferguson irá treinar o Manchester até morrer.

Pois eu quero fazer uma proposta ao Conselho Deliberativo do Grêmio: que o clube torne Renato Portaluppi treinador perpétuo do Grêmio.

Que nunca mais o Grêmio troque de treinador. Que Renato treine o Grêmio durante os 27 anos que Ferguson treina o Manchester.

Não foi só essa façanha extraordinária do Renato em ganhar 21 pontos dos 30 disputados que me levou a essa proposta.

É que, além disso, Renato é o jogador mais famoso da história do Grêmio, autor dos dois gols de Tóquio e ganhador quase que exclusivo da Libertadores de 1983.

Se isso só não basta para que ele seja designado treinador perpétuo do Grêmio, então eu não entendo mais nada de Grêmio nem de futebol.


01 de outubro de 2010 | N° 16475
DAVID COIMBRA


A pouca importância da eleição

Não se iluda com o que vai ocorrer agora, neste domingo. Uma eleição não é importante. Numa democracia consolidada, menos do que isso: é quase irrelevante. Numa democracia consolidada, o Estado funciona a despeito de quem manda no governo.

O comportamento comezinho do cidadão, a forma como ele trata seus filhos e sua mulher, como se relaciona com seus amigos, se sorri para o balconista da rodoviária, se cumprimenta com polidez a atendente da padaria, se não se irrita com a irritação do cobrador de ônibus, a atitude das pessoas no dia a dia é muito mais relevante do que o seu voto.

Os valores aplicados na rotina chã é que constroem um país. São esses valores que alicerçam as instituições, não a escolha do parlamento.

A principal qualidade do brasileiro, o predicado que o diferencia de todos os outros povos do mundo, essa característica desenvolveu-se antes de o primeiro eleitor depositar o seu primeiro voto na primeiríssima urna. No livro recente de Laurentino Gomes sobre a Independência, 1822, o autor reproduz parte de um relatório que o governador do Piauí, João Pereira Caldas, enviou à coroa portuguesa em 1776 acerca do povo do Estado que administrava:

O meu conceito sobre o préstimo dos homens desta capitania é bem restrito. Neste sertão, por costume antiquíssimo, a mesma estimação têm brancos, mulatos e pretos e todos, uns e outros, se tratam com recíproca igualdade, sendo rara a pessoa que se separa deste ridículo sistema.

O que o governador tomava por abjeto era o que havia de melhor no lugar: a tolerância.

Quer dizer: a tolerância embalava os brasileiros já nos tempos da colônia. Com tolerância, o Brasil moveu-se à margem dos extremismos internacionais. Ou entre eles, deixando-os nas margens.

No Brasil, os fundamentalismos não são levados a sério, porque, afinal, o povo não se leva muito a sério. Às vezes para o mal, como no caso da nossa aceitação plácida da corrupção. Às vezes para o bem, como o modelo de democracia ao qual chegamos, e que, é certo, não vai mais recuar.

Dia desses, Lula cunhou frases pouco inteligentes sobre liberdade de imprensa. Antes disso, Serra andou irritando-se com jornalistas. Nada mais normal. Qualquer governante, em qualquer país do mundo, em qualquer época, adoraria ginetear a crítica e transformá-la tão só em indústria de elogios.

Mas ninguém, mesmo que queira muito, conseguirá tirar do brasileiro algo que foi construído sem luta, erguido na rotina invencível dos dias iguais: o apreço pela liberdade individual. O voto do brasileiro, não importa que seja bom ou ruim, importa é que o brasileiro vote.