quarta-feira, 6 de janeiro de 2010


JOSÉ SIMÃO

Ueba! Entramos em 2010 ou 2012?

Quero saber quando o Kassab vai inaugurar a hidrelétrica do Anhangabaú! Dilúvio!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Socuerro! Dilúvio! Catástrofe! Enchentes! O Brasil tá parecendo um "DISASTER MOVIE"!

Entramos em 2010 ou em 2012? É cada foto! E um leitor quer saber se, para chegar ao Ibirapuera vindo do Anhangabaú, ele vira para estibordo ou para bombordo.
E eu quero saber quando o Kassab vai inaugurar a hidrelétrica do Anhangabaú. E IPI quer dizer Imposto sobre Paredes Irrigadas! E uma amiga minha está usando pé de pato com salto 15!

E em Campinas tem um proctologista que se chama sabe como? Dédalo. É verdade! O DÉDALO DE OURO! E o site Eramos6 lança um filme sobre a vida do Sarney: "Doze Parentes e Um Bigode!". E eu só voltei da praia porque botaram a rede para lavar. Fui despejado da rede! Eu quero aposentadoria por tempo de Havaianas. Troco uma Havaianas por uma galocha!

E vocês viram a foto do Lula indo para a praia com uma caixa de isopor na cabeça? O Lula vai vender cerveja na praia? Ia à falência. Porque ia beber a caixa inteira com isopor e tudo! "Vou isopor tudo na goela." Rarará. Agora já sabemos o que o Lula vai fazer quando terminar o governo: vender cerveja na praia. Rarará!

E aquele Anhangabaú já foi chamado de buraco do Maluf, buraco da Erundina, buraco da Marta e agora é o buraco do Kassab. O buraco muda de dono, mas continua alagado! E uma amiga minha é tão insegura, mas tão insegura, que escreveu na calcinha: você me ama mesmo ou só quer me comer? Rarará!

E o ano fiscal? Não aguento mais pagar tributo. Tô ficando triputo. Triputo da vida. Por isso que a árvore símbolo do Brasil é o ipê: IPÊva, IPÊtu, IPÊca e Iporra nenhuma. Esse é o único imposto que eu vou pagar: Iporra nenhuma! Rarará.

E no Guarujá tem uma sorveteria com a placa: "Self-service, solicite ao atendente". Começamos bem o ano. É mole? É mole, mas sobe. Ou como disse aquele outro: é mole, mas rela para ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". É que em Duque Bacelar, no Maranhão, tem um inferninho chamado SOBRA ROLA! As rolas devem ser todas dos parentes do Sarney. Rarará.

Mais direto impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. Hoje não tem. Férias escolares! Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br


Secretaria reduz exigências para reajuste salarial

DA REPORTAGEM LOCAL

A Secretaria Estadual da Educação decidiu tornar menos rígidas as exigências para os professores de São Paulo poderem pleitear um reajuste de 25%.

Projeto do governo José Serra (PSDB) prevê aumento para os professores que estiverem entre os 20% mais bem colocados numa prova, a ser aplicada em fevereiro. Para o primeiro exame, neste ano, foram abrandados critérios sobre faltas e permanência na mesma escola.

Pelas regras divulgadas, o educador deve ter ensinado por três anos na mesma escola e atingido certo número de pontos numa tabela de assiduidade, que equivale a 80% de dias trabalhados em quatro anos.

Essas exigências foram abrandadas para a primeira edição do programa. Quanto à permanência no mesmo colégio, o professor poderá ter cumprido o período em qualquer momento da carreira. Sobre a assiduidade, os pontos poderão ser obtidos considerando toda a carreira.

A partir da segunda seleção, todas as metas terão de ser obtidas nos anos anteriores à prova. "Como é um processo novo, fomos bem flexíveis", diz o diretor do departamento de recursos humanos da pasta, Jorge Sagae.

RUY CASTRO

Sorvete no açougue

RIO DE JANEIRO - Há anos, numa de suas incontáveis administrações, o então prefeito Cesar Maia entrou em um açougue no Rio e pediu um sorvete. O açougueiro, constrangido, teve de admitir que não trabalhava com o produto. Mas a imprensa, que, por algum motivo, acompanhava o prefeito nessa expedição, fez a festa. Imagine entrar num açougue e pedir um sorvete!

As coisas mudam. Outro dia, um turista entrou numa banca de jornais da avenida Ataulfo de Paiva e perguntou se vendiam havaianas. O jornaleiro disse que não e apontou a peixaria no outro lado da rua.

E, de fato, no lugar dos robalos e garoupas, a porta da peixaria ostentava um farto estoque de sandálias de dedo, de todos os tamanhos e cores. Acho que vendia também pescado e frutos do mar.

Foi-se o tempo em que as bancas tinham até 15 jornais locais para vender. Hoje têm três ou quatro, asfixiados pela população de revistas, e todos lutam por espaço contra os cigarros, chocolates, dropes, jujubas, picolés, batatas fritas, incenso, bolas, bonés e camisetas que as bancas também vendem. E algumas, efetivamente, vendem sandália de dedo.

As farmácias, você sabe. Oferecem refrigerantes, bombons, fortificantes, tênis, calcinha, pneu, escafandro -tudo, menos remédio, o que dispensa a figura do farmacêutico experiente e conhecedor dos medicamentos.

Na maioria delas, o atendente não consegue distinguir um band-aid de um supositório e está ali só para consultar a tela do monitor e dizer se tem ou não tem. As farmácias são tão bom negócio no Brasil que estão sendo incorporadas por bancos, grandes investidores e até supermercados. Não demora e será tudo uma coisa só.

O irônico é que, hoje, o ex-prefeito Cesar Maia já pode entrar num determinado açougue chique aqui do Leblon e pedir um sorvete.


06 de janeiro de 2010 | N° 16207
MARTHA MEDEIROS


A dificuldade de ser hippie

Na véspera do último dia 31, publiquei uma “Carta a 2010” na qual, entre outros desejos, pedi para termos um ano mais paz & amor. Pra não ficar só na teoria, passei o Réveillon numa praia uruguaia que ainda não frequenta a mídia, pra felicidade geral dos nativos.

Fui a Punta del Diablo, a apenas 40 quilômetros de Chuy, um local sem a infra e a badalação de Punta del Este e que ainda preserva uma rusticidade que nos remete aos anos 60/70. Fazia tempo que eu não via nada tão “pode crer”, um astral tão mochileiro, nem garotada tão bonita e despojada. Foi a legítima volta no tempo.

Imaginei Búzios sendo descoberta por Brigitte Bardot e Garopaba descoberta pelos surfistas, numa época em que ninguém estava interessado em modismos ou aparências, apenas em se divertir sem repressão.

Eu sei que o mundo mudou e Punta del Diablo está mudando também: aposto as minhas fichas em que dentro de três ou quatro anos o boom imobiliário irá transfigurar esse astral ainda genuíno da praia (e esta crônica pode estar colaborando pra isso), mas a verdade é que fazia muitos anos que eu não me sentia tão à vontade e tão bem instalada numa era que passou, mas que ainda reconheço como minha, mesmo nunca tendo sido. Há em mim uma hippie que não fui por ter nascido alguns anos atrasada.

Foram quatro dias de sol rachando, mar azul e dolce far niente, sem notícia alguma do Brasil. Ao final do breve descanso, percorri os 500 quilômetros de volta a Porto Alegre e fiquei sabendo, estarrecida, que o litoral do Rio de Janeiro esteve inundado, soterrado, incapacitado de qualquer festejo nesse final de ano, e, diante da tragédia vivenciada por tanta gente, senti um tremendo desconforto, tive que cair na real:

o mundo hippie exige uma alienação quase impossível de ser adotada hoje em dia. Quem não quiser sofrer, que vá pra Punta del Diablo em definitivo, não volte mais. Aqui, a vida exige participação.

Foi só a primeira má notícia de 2010. Ano novo não é sinônimo de ano incólume, ano utópico, ano intacto. Serão mais de 360 dias comuns e falíveis. Mas dói quando caímos das nuvens assim tão na boca do ano, tão na estreia, como já aconteceu anteriormente, a exemplo de tragédias como o naufrágio do Bateau Mouche no Réveillon carioca de 1988 e o tsunami indonésio em 2004.

Que seja. Dói, mas ainda podemos tentar manter a serenidade diante do reverso das expectativas felizes que todo início de ano impõe. Tentemos, mesmo contra a maré, mesmo informados sobre o inferno lá fora, manter uma alma hippie, um espírito mais desapegado diante de tanta parafernália, de tanto supérfluo incutido como essencial.

Adoraria que desenvolvêssemos uma humanidade mais retrô, que a simplicidade virasse tendência de comportamento e nos ajudasse a promover um astral mais puro e leve nesta nova década que se inicia – aliás, que só se iniciará mesmo em 2011, a antecipação é uma ilusão, mas as ilusões fazem parte do pacote paz & amor de que precisamos urgentemente.

Uma linda quarta-feira ainda que com chuvas. Aproveite o dia.


06 de janeiro de 2010 | N° 16207
EDITORIAIS


Contas adiadas

O último ano de mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva será marcado por um volume recorde de autorizações para gastos em investimentos. Em compensação, é o primeiro em que o total de contas pendentes de um ano para outro supera o previsto em gastos autorizados para o período de janeiro a dezembro.

Independentemente dos interesses eleitorais, portanto, é promissora a tendência de que o governo federal deve aproveitar o ano de campanha para investir mais, desde que dentro da lei e dos parâmetros do bom senso. Mas é preocupante que essa perspectiva ocorra mais pelo fato de o total estar sendo inflado pelos chamados restos a pagar, prática inconcebível com uma gestão orçamentária transparente.

A distorção ocorre porque em 2007 o presidente da República vetou artigo da Lei de Diretrizes Orçamentárias fixando limites para contas pendentes. Pesou, na época, a preocupação de levar adiante as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), muitas das quais não tinham de fato como ser iniciadas e concluídas no mesmo ano.

O problema é que, desde então, o volume de contas penduradas não para de aumentar, a ponto de, em 2010, ter superado o dos investimentos previstos para o período, o que é um expediente com o qual os brasileiros preocupados com o rigor das contas não deveriam compactuar.

Além de confundir o contribuinte, que não consegue ver claramente onde o dinheiro dos impostos é aplicado, a prática de deixar restos a pagar para o próximo exercício atrapalha o trabalho dos órgãos de fiscalização.

Por isso, deveria ser menos tolerada, particularmente em períodos de transição política como o atual, quando a preocupação com a transparência dos gastos deveria ser maior e para evitar que a sucessão seja marcada por compromissos financeiros assumidos anteriormente.

O inaceitável é que, independentemente das razões, esse reforço de caixa acabe por facilitar ainda mais o desvio de dinheiro público.

É igualmente inconcebível que sirva para bancar aumento de despesas no âmbito da própria máquina pública, principalmente com a folha salarial.


06 de janeiro de 2010 | N° 16207
DIANA CORSO



Desequilibrados

Sigourney Weaver voltou ao espaço, agora como uma cientista interplanetária, mas desta vez o alien somos nós. O que já era sugerido nas experiências anteriores do diretor James Cameron agora é explícito: os homens, com sua voracidade capitalista, perderam totalmente seus resguardos morais e, principalmente, o equilíbrio. Avatar, o filme, com ou sem 3D, é uma experiência estética que não desaponta a quem gosta de mundo mágicos.

Para viabilizar a extração de um minério precioso para os terráqueos no planeta Pandora, organizou-se uma pesquisa na qual alguns humanos conectavam-se a seres similares ao povo local, controlados mentalmente: os avatares. Necessitavam conhecer melhor aquela civilização que resistia a qualquer negociação: não havia nada que pudesse ser ofertado a eles que estivessem dispostos a trocar por um pedaço da sua terra.

Os cientistas descobriram que aqueles seres azuis, com rabo e feições felinas, têm tesouros que sintetizam nossos sonhos românticos, e que supomos que perdemos: a conexão com o meio ambiente e o grande coração do bom selvagem.

O herói do filme é gêmeo do que originalmente treinava para conduzir um avatar, mas morreu. Ao contrário do irmão cientista, ele é um soldado, mas está paralítico.

No corpo de seu avatar, pode executar as tarefas que fazem parte da formação de um guerreiro Na’vi, numa mobilidade que contrasta com suas pernas inúteis da vida real: saltar entre as árvores, caçar, domar e voar em dragões alados.

Como ele, estamos paralisados pela tamanha confusão que fizemos, criando cidades monstruosamente artificiais, sofrendo castigos climáticos crescentes, enquanto nossa única atitude não passa de separar um pouco de lixo.

Desse jeito, parece melhor mesmo abandonar esta carcaça inútil que é nossa civilização e começar tudo de novo, como um povo caçador-coletor, capaz de uma cultura coletiva não competitiva.

O novo campeão de bilheteria e de tecnologia do entretenimento é um grito ecológico. Nossos sonhos coletivos das telas já não se bastam com máquinas, eles começam a ser mais orgânicos, amazônicos.

Isso pode muito bem apontar uma guinada: no futuro deixaremos de ser colonizadores ensandecidos de nosso planeta e buscaremos algum equilíbrio entre nós e com o meio ambiente.

Ou numa leitura mais pessimista: a possibilidade de uma relação não selvagem entre os humanos e com seu mundo mudou-se definitivamente para Pandora, um planeta onírico. Na vida real, restaremos aqui, paralíticos, beligerantes e obtusos.


06 de janeiro de 2010 | N° 16207
PAULO SANT’ANA


Turismo na ponte

Estamos na localidade de Marques de Souza, na estrada que leva ao município de Travesseiro.

Foi anteontem. Pela estrada caminha um grupo de umas 10 pessoas. De repente, se abateu a chuvarada. E foi tanta água, que o grupo de pessoas, em poucos instantes, não sentia mais o chão sob os seus pés.

Restou a elas se segurarem nos arbustos. Iam de arbusto a arbusto, nadando, até que conseguiram atingir uma árvore, onde se alojaram, agarradas aos galhos e sentadas nos troncos.

Pois ali em cima da árvore, enquanto jorrava o jato de água da enxurrada quase a seus pés, tiveram de esperar oito longas e intermináveis horas até serem resgatadas por equipe de salvamento.

Há notícia de que no mesmo local um homem ficou cerca de 10 horas em cima de uma árvore, refugiando-se da enchente, até ser salvo por uma equipe de resgate que mantinha contato verbal com ele à distância, durante cinco horas, mas não conseguia alcançá-lo.

Havia uma mulher grávida entre os que se abrigaram no alto da árvore. Quando começou a enchente, por sorte, uma menininha de três anos conseguiu fugir correndo da enxurrada, auxiliada por uma mulher.

Agora, os meus leitores imaginem a odisseia por que passaram essas pessoas, debaixo de chuva fortíssima e tempestade, segurando-se em galhos, sem alimentar-se, sem esperança de socorro. O quanto essa situação deve tê-los aterrorizado.

Muda a cena nesse teatro de pesadelo que cerca essas inundações aqui no Estado.

Agora, estamos na manhã de ontem, na ponte importante que liga pela estrada Santa Maria a Santa Cruz, no município de Agudo.

O tempo até que tinha melhorado. Isto fez com que entre 20 e 30 pessoas fossem olhar de cima da ponte o caudaloso Rio Jacuí passar por baixo, um espetáculo à parte aquele jato enérgico de água se arremessando rio abaixo.

Os meus leitores já sabem o que aconteceu? Pois caiu a ponte e se precipitaram para o rio cerca de 20 dos que assistiam turisticamente à enxurrada.

Até ontem à tarde, tinham sido resgatadas somente oito das pessoas que assistiam à enchente do rio.

Outras estavam desaparecidas.

Mas que tragédia! Quem é que anda enticando com a natureza que a faz assim manifestar-se com essa fúria das águas?

Afinal, o que está havendo? Antes não era assim. Essas tragédias de quedas de pontes, deslizamentos, soterramentos, aconteciam uma vez que outra.

Hoje, pontuam a rotina. É muita água rolando. É muita gente morrendo afogada ou sob rochas e terra. É muito desastre provocado pela natureza.

Mas o que será que está havendo? Uma ponte bucólica se derruba sobre um precipício e desaparecem pessoas em Agudo.

E há dezenas de desaparecidos nas inundações do Rio Grande.

O que está havendo? Que mistério é esse?

terça-feira, 5 de janeiro de 2010


JOSÉ SIMÃO

Socuerro! Falta muito pro Carnaval?

Estou com saudades de 2009! Dos últimos dez dias! Tenho preguiça de passar manteiga no pão

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Socuerro! Falta muito pro Carnaval? Já estou com saudades de 2009! Principalmente dos últimos dez dias! Tô com preguiça até de passar manteiga no pão!

E no Clube Cabanga, em Recife, teve o Réveillon Enchanté. E, ao lado, as bichas fizeram um Réveillon chamado BICHANTÉ. Réveillon Bichanté! Então Recife já tem dois Réveillons: o Enchanté e o Bichanté!

Rarará! E uma amiga deu tanto no fim de ano que ficou com o apelido de Imigrantes. Ninguém vai para o litoral sem passar por ela! Rarará!

E acabou a gandaia! Depois de comer tudo aquilo, voltamos a comer por quilo. Essa é a melhor definição de volta ao trabalho: voltamos a comer por quilo! E essa é a Semana Nacional da Dieta. Semana Nacional de Fazer Força para a Calça Fechar! Dá três pulos e no terceiro enfia!

E uma pergunta às minhas leitoras: entraram ou foram entradas? Rarará! E as previsões para 2010: a Dilma vai ser presidente e a Argentina vai ganhar a Copa! Rarará!
E depois da virada, todo mundo se virando. Pra pagar as contas!

Pra pagar os fogos. Chegou a conta dos fogos. Vocês pensam que os fogos são de graça? Já vêm embutidos nos impostos. Sabe aquela estrelona roxa que você achou linda explodindo no céu? É o IPTU! Rarará!

Depois do espetáculo pirotécnico vem o espetáculo fiscotécnico. Começou o ano fiscal: IPVA, IPTU, IR, IH... ME FERREI! Rarará. É o IMF: Ih Me Ferrei! E sabe por que tributo se chama tributo? Porque vem de três em três. É um inferno. Um inferno fiscal!

Ai, que saudades daquela leitoa que a gente comeu. Do focinho ao rabicó! IPVA quer dizer Imposto Para Vários Amigos. Tem que fazer vaquinha. IPVAquinha! É mole? É mole, mas sobe. Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece.

Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". É que em Itupeva, no interior de São Paulo, tem uma oficina de consertos chamada Casa das Roçadeiras. Deve ser um inferninho só de sapatas. Rarará. Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete para o óbvio lulante. "Ostracismo": companheiro que virou uma ostra. O lulês é mais fácil que o ingrêis.

Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Vai indo que eu não vou! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Feliz Ano Todo!

simao@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

A volta do parafuso

RIO DE JANEIRO - Um programa na TV mostra como se dão os desastres aéreos. Tirante as condições atmosféricas, a maior parte dos acidentes se deve a pequenas, pequeninas causas no equipamento ou na manutenção.

Vi outro dia um documentário que me fez pensar. Um avião moderno, dispondo de toda a tecnologia mais avançada, caiu no oceano matando ao todo 280 pessoas, entre passageiros e tripulantes.

Ao contrário de recente caso com um avião na rota Rio-Paris, acharam os destroços e as caixas pretas, sendo relativamente fácil determinar a causa do desastre.

Na última revisão de rotina, um dos motores tinha um parafuso frouxo, e o mecânico decidiu trocá-lo. Foi no manual de operações, identificou o parafuso, pediu à fábrica uma peça igual, que se encaixou perfeitamente e o avião foi liberado para voar.

Acontece que o novo parafuso, por defeito de fabricação, tinha uma volta a menos em sua parte terminal. Daí que o encaixe foi perfeito, mas não completo. Os milímetros que faltavam não vedaram suficientemente um dos cabos hidráulicos, houve vazamento, fogo e morte de 280 pessoas.

Acabado o programa, pensei nesta relação de causa e efeito não apenas no nível mecânico, mas no social. A comunidade humana é um imenso aparelho com milhões de peças que se gastam e desgastam, precisando ser renovadas.

Um parafuso com uma volta a mais ou menos pode prejudicar o fluxo da história e criar outra história, ou seja, um desastre fatal. A sociedade tem mais peças que precisam ser constantemente repostas do que qualquer avião dos mais modernos.

E os mecânicos não contam as voltas dos parafusos que normalizam o seu funcionamento. Voamos às cegas, com parafusos frouxos que podem nos levar ao desastre.

ELIANE CANTANHÊDE

Um na mão, dois voando

BRASÍLIA - O ano de 2009 acabou com uma crise entre a área civil e a área militar do governo. O ano de 2010 começa com uma encrenca de bom tamanho exatamente entre essas duas áreas.

São dois temas bastante diferentes, mas, vindo na mesma hora, sempre um pode contaminar o outro. Um é a questão do Plano Nacional de Direitos Humanos, o outro é a decisão sobre o melhor pacote para renovar a frota da FAB.

O plano é saudado num aspecto por todo mundo que tem bom senso: a verdade histórica tem que prevalecer, doa a quem doer, e insistir na busca dos desaparecidos até a última instância é um direito não apenas político, mas humanitário.

Mas incomoda os militares quando resvala para aquele jeitão stalinista de criar uma comissão nacional e comitês estaduais que podem jogar a opinião pública contra prédios militares e apontar o dedo para oficiais de hoje, que não têm nada a ver com aqueles do passado.

E a renovação dos caças da FAB, o chamado FX-2, que já sobrou do governo FHC, cria um impasse. A análise técnica de quem entende do assunto apontou o caça sueco em primeiro lugar, o norte-americano em segundo e o francês Rafale -preferido e virtualmente escolhido por Lula e pela área diplomática- em terceiro e último.

É uma tremenda saia justa para Lula, que está entre duas opções: ou joga o trabalho da FAB na turbina do Aerolula e anuncia o Rafale, custe o que custar (aliás, literalmente, porque é de longe o mais caro dos três); ou recua na decisão política e segue a orientação de quem entende do assunto e produziu mais de 30 mil páginas de documentos, estudos, análises.

Entre Lula, o plano de Direitos Humanos e os militares, há Jobim.

Entre Lula, os caças e os aviadores e a Embraer, também há Jobim. É ele quem tem de tourear as feras. Nos dois casos, Lula ganha tempo. O plano ficou para abril. Os caças, sabe-se lá para quando. E se.

elianec@uol.com.br


05 de janeiro de 2010 | N° 16206
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Telefonema de Paris

No dia de Natal, recebi um telefonema de Paris. Minha irmã Miriam desejava ternamente Boas Festas e descrevia a paisagem gélida da mais bela cidade do mundo. Por uma dessas casualidades, eu havia ganho na véspera o Dicionário Amoroso da América Latina, uma das mais sedutoras obras de Mario Vargas Llosa.

Lançado recentemente em português, o livro era um presente de meu filho Marcelo, que acertou com rara intuição o que eu poderia gostar de ler nos feriados.

O nome Dicionário pode talvez assustar. Ledo engano. Por detrás desse título se esconde uma declaração de amor a esta parte do continente em que vivemos, com largo espaço para o Brasil, de Jorge Amado a Guimarães Rosa, de Rubem Fonseca a Euclides da Cunha. E ainda sobra lugar para o Carnaval, o futebol e o Rio de Janeiro.

Mas o que mais me atraiu nos ensaios de Vargas Llosa foi seu amor a Paris. Conheci a cidade em 1980 – e a ela retornei o que me parece um milhar de vezes, seja pessoalmente, seja em livros, em filmes ou em discos. O que me ficou de toda essa experiência múltipla foi que Paris é eterna, mas quem realmente a reinventou foi a Geração Perdida. Ninguém melhor a retratou do que Ernest Hemingway em Paris é uma Festa.

O que não sabia – e aprendi agora – é que não houve apenas uma geração, e de um único hemisfério, apaixonada por aqueles mágicos domínios que vão de Montmartre a Montparnasse.

“Depois que escrevi meus primeiros contos”, narra Vargas Llosa, “me convenci de que nunca chegaria a ser um verdadeiro escritor se não fosse viver em Paris. Isso pode parecer muito ingênuo, mas há meio século, tenho certeza, essa ilusão era compartilhada por inúmeros jovens de todos os rincões do planeta. (...)

Quando por fim consegui realizar meu sonho de viver na cidade, a primeira coisa que aprendi na França foi, na verdade, descobrir a América Latina e descobrir a mim próprio como latino-americano. (...) Meus sete anos parisienses foram os mais decisivos de minha vida. Aqui me fiz escritor, aqui realmente descobri o amor-paixão de que tanto falavam os surrealistas e aqui fui mais feliz, ou menos infeliz, que em qualquer outra parte.”

Fico por aqui, ou acabo copiando o Dicionário inteiro. É um desses livros inesquecíveis e plenos de verdade, o que significa cheios de vida.

A mais bela crônica que jamais escrevi foi Outubro em Paris. Depois de ler o Dicionário de Vargas Llosa, eu a reescreveria com igual paixão.

Uma linda terça-feira pra vc. Aproveite o dia.


05 de janeiro de 2010 | N° 16206
LUÍS AUGUSTO FISCHER


Eles Foram para Petrópolis

Um livro chamado assim mesmo, Eles Foram para Petrópolis – Uma Correspondência Virtual na Virada do Século, saiu ano passado (pela Cia. das Letras). Foi, é, uma das melhores coisas que eu li nos últimos tempos. Já reli em parte, e certamente vou levá-lo nas férias para uma nova visita.

A natureza do livro é peculiaríssima, talvez inédita no mundo todo, e precisa ser detalhada. Começa que dois jornalistas, Mário Sérgio Conti e Ivan Lessa, trocaram e-mails publicamente, num site brasileiro (Uol), entre abril de 2000 e maio de 2001; era uma forma criativa de rechear o site, de colocar nele um conteúdo literário próprio ao meio – internet é um meio, não um conteúdo –, enfim, uma ideia bacana.

Nessa correspondência, os dois, que são leitores tarimbados, são pessoas interessantes, que vale a pena conhecer, se cutucam, se provocam, comentam coisas do mundo cultural, resenham livros e shows, falam do país e do mundo.

Em certo momentos, temos verdadeiras reportagens, como uma escrita por Conti a respeito de uma turnê de João Gilberto na Europa; em outros, temos belas especulações sobre o sentido da vida e da arte.

Esses e-mails foram agora reproduzidos, mas com um acréscimo que aumenta a temperatura de tudo, dá mais gosto e pressiona os buracos de saída do gás: também aparecem, sempre em ordem cronológica, emails privados em que os mesmos dois escritores falam coisas que não foram ao ar, ao site.

São momentos em que, como que espiando atrás das cortinas, ficamos sabendo de dores pessoais dos dois, que eles não colocaram na correspondência publicada.

Tem por exemplo uma tocante passagem em que Ivan Lessa e Mário Sérgio Conti comentam, tristes, a morte da mãe de Ivan, a cronista Elsie Lessa, em Portugal.

E tudo isso sem falar do principal: é um livro do Ivan Lessa. Bastaria isso para o livro ser maravilhoso: Ivan é o meu herói em matéria de ironia, é o pai da matéria, o cara que ensina (porque obriga) a ler entrelinhas e a curtir alusões, duplos sentidos, referências enviesadas, esses venenos sutis que fazem a literatura ser o que é – mas tudo isso ele faz de modo concentrado, em texto curto.

Se o leitor é jovem não vai saber, mas no antigo Pasquim, Ivan Lessa era o responsável pela, ora ora, seção de cartas. E lá ele não apenas respondia como também inventava cartas, fajutava bilhetes, sacaneava leitores reais, tudo isso com um humor que não sei descrever, mas sei apreciar, e que aqui, no livro, vai reproduzido e potencializado.


05 de janeiro de 2010 | N° 16206
MOACYR SCLIAR


O intelectual como goleiro

Albert Camus, cujo cinquentenário de falecimento ocorreu ontem, era um grande escritor, autor de O Estrangeiro e de outras notáveis obras, e um intelectual atuante, conhecido pela coragem e pela independência.

Nascido na Argélia, Camus formou-se em filosofia, foi por um breve período membro do Partido Comunista, emigrou para a França, participou na resistência contra a ocupação nazista e viveu aquele extraordinário, e tumultuado, período que se seguiu à II Guerra, marcado pela ascensão da esquerda, e, na França, pelo apogeu do existencialismo.

Camus era amigo de Jean-Paul Sartre, mas acabaram rompendo. Sartre aderiu ao comunismo, tornou-se maoísta e justificava os excessos cometidos pelo regime com o argumento de que mais vale sujar as mãos do que ficar em cima do muro: não por acaso, é autor de uma peça chamada Les Mains Sales, As Mãos Sujas, que fala exatamente disso, dos dilemas dos intelectuais.

Camus defendia a independência destes; na guerra de independência da Argélia, manifestou-se sobretudo contra o terrorismo usado pelos guerrilheiros. Posição controversa, portanto.

Mas há um detalhe curioso na vida de Camus. Na juventude, ele jogou futebol; aliás, a primeira coisa que fez, quando visitou o Brasil, foi pedir para assistir a uma partida do campeonato.

Camus foi goleiro, o que me parece muito significativo. No time, o goleiro é uma figura completamente diferente, isolada mesmo. Há 10 jogadores que formam um conjunto, trocam passes, conversam entre si; mas só há um goleiro.

Ele é o único que pode usar as mãos, o que lhe dá certa superioridade: a mão é mais característica da espécie humana do que o pé, ainda que grandes jogadores tenham-no transformado no instrumento de um incrível virtuosismo.

Mas a superioridade termina aí. O goleiro é antes de tudo um solitário. E a pergunta é: como será que se sente nesta situação? O escritor alemão Peter Handke tentou encontrar a resposta em um romance, adaptado para a tela por Wim Wenders:

O Medo do Goleiro Diante do Pênalti. A história, na verdade, tem pouco a ver com futebol; trata-se de um goleiro que, depois de um bate-boca com o juiz e depois de ter sido substituído pela direção do clube, comete um crime (felizmente os goleiros em geral não chegam a tanto).

Mas o título, convenhamos, é sugestivo: no esporte, poucas situações devem ser tão amedrontadoras quanto essa. O pênalti é praticamente um gol certo; o goleiro só pode contar consigo mesmo e com a sorte.

Agora: quem vocês acham que propôs à International Board, precursora da Fifa, a criação do pênalti, à época chamado de “a pena de morte para os goleiros”? Pois foi William McCrum, goleiro irlandês. Isto mesmo, um goleiro. Como se ele estivesse dizendo: testem-nos, e vocês vão descobrir como se vence o medo.

Voltando a Camus, a posição dele era desconfortável, para dizer o mínimo. Mas o escritor insistia em pensar por sua própria cabeça.

E o tempo acabou lhe dando razão. Ele não chegou a viver para ver isso (faleceu precocemente num acidente de automóvel; não foi numa estrada brasileira), mas sua obra, premiada com o Nobel, permanece sempre atual.

Depois das tragédias de Angra e Ilha Grande, uma coisa fica clara: é preciso incluir o risco de enchentes e de deslizamentos nos critérios para o licenciamento da construção de casas. O Brasil já pagou um preço alto demais por esta lacuna.


05 de janeiro de 2010 | N° 16206
PAULO SANT’ANA


Migração pela água

O jornal O Globo teima em publicar fotos abertas da Enseada do Bananal, em Angra dos Reis, além de outros sítios igualmente belos daquela cadeia de montanhas da Ilha Grande, onde ocorreram recentemente os deslizamentos que tanta gente mataram no Rio de Janeiro.

As fotos coloridas mostram uma paisagem de grande beleza, normalmente não exposta, mas agora no centro da cobertura da mídia sobre as tragédias, lamentando as mortes, mas principalmente anunciando que novos deslizamentos podem vir a ocorrer nos próximos dias.

Que força impele as pessoas a construir habitações, algumas em forma de pousadas, nas encostas de uma montanha, junto ao espelho d’água?

Reflito que elas tinham plena consciência do perigo que corriam, mas o correram enfeitiçadas pela beleza da paisagem que resolveram adotar.

Quem mora assim no pé de uma montanha, todo aquele paredão aparentemente vegetal sobre a cabeça, mas aquelas rochas e aquelas pedras ameaçando desabar a qualquer momento pelo encharcamento do solo instável pelas precipitações exageradas e próprias do verão, certamente tem nítida consciência do risco que isso significa.

A impressão, ao ver as fotografias da Ilha Grande e das montanhas que caem sobre as enseadas, é de que as pessoas que foram atingidas pelos deslizamentos morreram encantadas, hipnotizadas de deslumbramento pela paisagem que as circunda.

Parece que elas são chamadas lá, naquele paraíso evidente e inferno subjacente, por uma força estranha que as arrasta para uma destruição em meio a grande fulgor de beleza.

Não é outra a impressão que me causam essas dezenas de pessoas que se afogaram nos feriadões de Natal e Ano-Novo. Só no Ano-Novo, morreram 11 pessoas afogadas no Rio Grande do Sul.

Que volúpia é essa que as arrasta para os rios, para as lagoas, para os córregos e as faz mergulhar em lugares perigosos, muitas delas sem sequer saber nadar?

Mas, afinal, que atração magicamente magnética exerce a água sobre as pessoas? Leio, vejo e ouço sobre os milhões de pessoas que se atiram para o litoral gaúcho, enfrentando os engarrafamentos martirizantes do retorno.

Vejo que de Minas Gerais se deslocaram inúmeros jovens que morreram soterrados em Angra dos Reis e agora são sepultados nas Alterosas, sob o pranto dos seus familiares, mas sem nenhuma queixa ou mágoa.

Afinal, elas foram fazer o que tinham de fazer, mal despontaram as férias e elas se jogaram em massa e com entusiasmo, de carro ou de avião, da distante mas vizinha Minas Gerais, para as montanhas marítimas do Rio de Janeiro, em busca do prazer hedônico da proximidade do mar e do mergulho no mar.

Em Minas, há montanhas, mas infelizmente não há mar. E no Rio de Janeiro existe, ao saber dos geógrafos e dos naturalistas, o litoral mais belo do Brasil.

Olhem que, para ser mais belo que o litoral cearense (só quem o conhece para dizer!), para ser mais belo que o litoral baiano e o litoral pernambucano, até mesmo o Paraíso das Águas, que se constitui o litoral alagoano, tem de ser belo.

E foi atrás dessa beleza estonteante que foram os japoneses e os mineiros se instalar na Pousada Sankay, da Enseada do Bananal, Angra dos Reis, onde encontraram a morte. Morte feliz. Morte embriagada de beleza.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010



MOACYR SCLIAR

A vida secreta de Drummond

O sonho do poeta era ter um médico que lhe receitasse lentes de contato. Mas isso jamais aconteceria

Reformada, a estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), na praia de Copacabana (zona sul do Rio), iniciará 2010 com visual renovado e a expectativa de deixar no passado as oito depredações sofridas desde sua inauguração, em 2002.

Como vem acontecendo nesses sete anos, a escultura de bronze, assinada pelo artista mineiro Leo Santana, recebeu de volta seus óculos, parte mais frágil da estrutura e, consequentemente, mais exposta. A diferença, desta vez, é que a nova reforma veio acompanhada pela instalação de uma câmera de vigilância, para tentar inibir os atos de vandalismo.

Cotidiano, 29 de dezembro de 2009

AGORA que há uma câmera de vigilância, isto provavelmente não mais acontecerá, mas houve vezes em que, no meio de uma noite chuvosa, o poeta levantava de seu banco, na praia de Copacabana e saía a caminhar, sempre com dificuldade -articulações de idosos não se movem com muita facilidade, particularmente quando são feitas de bronze. E o destino era sempre o mesmo: o consultório de um oftalmologista, o doutor José, que sofria de insônia e, às vezes, atendia vinte e quatro horas sem parar.

Drummond chegava lá, em geral coxeando, o que levava o médico a perguntar-lhe o que havia sucedido. O poeta hesitava e respondia: -"No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meio do caminho tinha uma pedra." -Parece que você está se repetindo - observava o doutor José, enfadado. -O que não me parece necessário. Além disso, que importância tinha essa tal de pedra no meio de seu caminho?

-É que eu tropecei nela. Na pedra que estava no meio do caminho. E por isso estou coxeando. Ou você pensa que articulações de bronze resistem a tudo? -Sei que não. Mas me diga: o que, afinal, o traz a este consultório de oftalmologia? -Exatamente o problema que me fez tropeçar na pedra: eu não enxergo bem. -Ah, é? E por que você não usa óculos?

-Eu uso. Só que me roubaram. Isso já aconteceu várias vezes. Os caras aproveitam o fato de eu ser de bronze para levar os óculos. -Ah, entendi. E você quer que eu lhe atenda, é isso? -É. -Muito bem. Você é cliente particular ou tem algum convênio? O poeta era obrigado a admitir que não se enquadrava em nenhuma das duas categorias:

-Você sabe, "quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida." Fiquei gauche, fiquei deslocado. Só posso ser atendido pelo SUS. O médico não atendia pelo SUS, muito menos os gauches, os deslocados. "E agora, José?", suspirava o poeta. Inutilmente: era uma pergunta para a qual o médico não teria resposta.

O sonho de Carlos Drummond era ter um médico que lhe receitasse lentes de contato. Mas isso jamais aconteceria. E assim, no silêncio da noite chuvosa, ele voltava para o seu banco, na praia de Copacabana, esperando por novos óculos e por um mundo melhor.

MELCHIADES FILHO

Mulher brasileira

Melchiades Filho - É irônico que a possibilidade de pela primeira vez no Brasil uma mulher chegar à Presidência se deva exclusivamente ao capricho de um homem. A chance de sucesso de Dilma Rousseff, porém, já representa uma novidade. Assuntos que afligem as mulheres tendem a ganhar destaque na campanha eleitoral deste ano.

Não será surpresa se os pedidos de voto e as promessas de governo forem além das bandeiras que já mobilizam a militância, como câncer de mama, violência doméstica e distorções salariais.

Em disputas acirradas, como a que 2010 promete, os candidatos costumam abrir novas frentes de discussão.
Quem sabe surja a oportunidade de debater um paradoxo de Lula: no governo do filho de Dona Lindu, a pobreza cada vez mais se concentra em famílias chefiadas por mães.

Das pessoas em situação de indigência no país, 33% vivem em domicílios liderados por mulheres (5,2 milhões de 15,8 milhões). Quinze anos antes, essa taxa era de 17% (5,5 milhões de 32,4 milhões).

A tendência se repete nos grandes centros urbanos, diz pesquisa do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade. Nas dez principais regiões metropolitanas, 51% das famílias extremamente pobres são comandadas por mulheres -o dobro do percentual de 15 anos antes.

Divulgados em dezembro pelo próprio governo (Secretaria da Mulher), esses dados revelam que os programas sociais dos anos recentes não baixaram a exposição das mães de família à miséria.

Não é difícil imaginar o impacto dessa exclusão. Violência urbana, narcotráfico, evasão escolar e subemprego, tudo isso guarda relação com famílias desestruturadas, em que as mães se desdobram nas circunstâncias mais adversas.

Não há estudos conhecidos sobre o comportamento eleitoral dessas mulheres. Mas elas votam e orientam o voto dos filhos. Também por isso a "mãe do PAC" e seus rivais serão estimulados a não esquecê-las.

melchiades.filho@grupofolha.com.br

RICARDO MELO

Raposa no galinheiro

SÃO PAULO - Na calada de 2009, e como se nada tivesse acontecido, o presidente da Câmara Legislativa de Brasília teve a cara de pau de anunciar o retorno ao cargo.
É, ele mesmo, Leonardo Prudente.

Aquele político flagrado em vídeo ao guardar dinheiro nas meias, numa rara demonstração de desprezo por um sobrenome. Foi sucesso de audiência, não exatamente por desviar recursos públicos -atividade que, no Brasil, é multipartidária. O ex-filiado do DEM virou hit ao ampliar as possibilidades indumentárias da corrupção.

A volta de Prudente faz parte da manobra para livrar a cara dos envolvidos num dos maiores escândalos recentes. A começar da cara do gerente do esquema, o governador "demista" (chamá-lo de democrata é exagerar na ironia) José Roberto Arruda, o qual, além de sinônimo de corrupto, deixará para a história o legado de mentiroso patológico. Como raposa no galinheiro, será de P

rudente a tarefa de conduzir a criação de CPIs sobre o escândalo e os processos de impeachment de Arruda. A OAB, que patrocina um dos processos, mostrou-se indignada: "Não haveria desfecho mais lamentável para o 2009 do contribuinte brasiliense, lesado em ações fraudulentas por políticos como Prudente". Mas lamentar é pouco.

Já que o contribuinte vem sendo lesado, vai aqui uma sugestão: por que não entrar com uma ação para garantir o depósito dos impostos em juízo, e não nos cofres corrompidos do governo distrital?

Seria uma forma de cortar a irrigação do propinoduto que, suspeita-se, abastece até a sogra do governador. Serviria ainda para impedir que a quadrilha use verba pública para tentar calar a oposição, como fez ao manipular o reajuste do funcionalismo.

Meios para uma ação como esta certamente há. Bons advogados conseguem coisas muito mais difíceis. E, até o impeachment ser votado (ou a ação chegar ao Supremo...), o esquema demista teria que se virar sem o patrimônio alheio. Ou seja, enquanto Arruda e Cia. estiverem no poder, nada de dinheiro de cidadãos honestos. Mesmo em Brasília, eles ainda são a maioria.


04 de janeiro de 2010 | N° 16205
ARTIGOS


Meritocracia e remuneração variável, por Mariza Abreu*

Cracia (poder) só combina com demo (povo). Nas carreiras dos servidores deve-se prever remuneração variável com base na avaliação de desempenho prevista na Constituição Federal. Remuneração por desempenho, gestão por resultados, metas e indicadores são fundamentos de uma gestão moderna.

Meritocracia é conceito conservador, burocrático e, por que não?, autoritário. O poder é originário do voto, sendo então democrático, ou tem outra origem, por exemplo, no mérito, sendo tendencialmente autoritário. As palavras têm significado e devem ser usadas no contexto certo.

Meritocracia implica atribuir poder por mérito. Não se trata disso nas carreiras dos servidores. E sim de remunerar diferenciadamente por mérito, ou seja, por conhecimento ou por resultados.

O que não se aceita mais é que os servidores recebam a mesma remuneração independentemente do conhecimento que possuem para desempenharem, para o cidadão contribuinte, o serviço público pelo qual são responsáveis. Ou que recebam a mesma remuneração independentemente do seu desempenho ou da qualidade do serviço público que prestam à população.

Na educação, se a valorização do professor é por conhecimento, é individual e permanente, portanto, promoção na carreira por provas de conhecimentos, com incorporação da variação salarial à remuneração e à futura aposentadoria.

Se a valorização do professor é por desempenho (pelos resultados do trabalho, ou seja, aprovação e aprendizagem dos alunos), então é coletiva, por escola, e é variável, e anual, ou seja, um 14º salário ou bônus, sem incorporação à remuneração e à futura aposentadoria.

A remuneração variável por desempenho da escola já é paga em cinco Estados: SP (PSDB), MG (PSDB), PE (PSB), AM (PMDB) e DF (ex-DEM). Entretanto, SP é o primeiro Estado a implementar um sistema de promoção na carreira do magistério por meio de provas de conhecimento que serão aplicadas pela primeira vez em 2010.

Por esse sistema, os professores poderão até dobrar o salário final na carreira do magistério paulista.

Por fim, a palavra meritocracia é antipática. Segundo a enciclopédia Wikipédia, ela é agora frequentemente usada para descrever um tipo de sociedade onde riqueza, renda, e classe social são designados por competição, assumindo-se que os vencedores, de fato, merecem tais vantagens.

Consequentemente, a palavra adquiriu uma conotação de “darwinismo social”, e é usada para descrever sociedades agressivamente competitivas, com grandes diferenças de renda e riqueza, contrastadas com sociedades igualitárias. Assim, a expressão que corresponde ao que se quer nas carreiras dos servidores é remuneração variável por desempenho.

* Consultora da Câmara dos Deputados

Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana


04 de janeiro de 2010 | N° 16205
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


Verão ao Sul

O melhor momento para hibernar é no verão do Sul. O melhor a fazer é retirar-se para uma caverna.

Assim como há pessoas que em 15 minutos de conversa nos ocupam um dia inteiro, o verão, com seus três meses, preenche a eternidade.

O verão é excessivo e brutal.

No verão fica suspensa nossa capacidade de criar, nosso sexto sentido, todas as emoções humanas – até a capacidade de apreciar a arte e de escutar o próximo.

Querem ver um homem de Neanderthal, um homem de Cro-Magnon? Procurem-no no verão. Ele anda pelas ruas da cidade, com seu olhar desvairado. Alguma tese ainda demonstrará que, no verão, o cérebro humano diminui sua capacidade de pensar.

No verão as coisas perdem seu significado: um cão deixa de sê-lo; a comida é uma armadilha; as roupas transformam-se em mortalhas ensopadas de suor. Os livros desbeiçam-se, os sabiás deixam de cantar e caem-nos os cabelos.

Naufragados num charco de umidade e calor, as pessoas assemelham-se a moluscos.

O raciocínio vegeta: deixamos de ser cartesianos e passamos a acreditar em magia negra. Desaparece o raciocínio dedutivo. Quando muito, fazemos palavras cruzadas ou colecionamos selos. Não há metafísica, no verão; só filosofia de almanaque.

Aceitamos qualquer ideia, por mais absurda que seja, pelo simples desânimo de combatê-la. No verão esquecemos de tudo: a tabuada, o acordo ortográfico e a concordância nominal.

Dante, ao descrever tão bela e horrivelmente o Inferno, podia esquecer as chamas, os rios e as muralhas de fogo, as chuvas putrefatas; bastava colocar suas abomináveis personagens no pleno verão do Sul e pronto: era a segurança da mais abrasadora das punições.

Deve haver algo pior do que o verão, embora ainda não saibamos o que seja.

Reconheçamos, entretanto, uma enorme e positiva qualidade ao verão do Sul, uma só, mas capaz de redimi-lo por completo, capaz até de que o aplaudamos: é a estação que anuncia o outono.


04 de janeiro de 2010 | N° 16205
PAULO SANT’ANA


Proibido ir ao banheiro

Só existe uma coisa mais chata do que levantar-se, em pleno voo, de uma poltrona de avião, dirigir-se ao banheiro e lá desembaraçar-se: é não poder levantar-se para ir ao banheiro.

Essa medida chegou a ser anunciada logo após a tentativa de explosão de um avião que pousaria em Detroit (EUA), em voo procedente de Amsterdã, Holanda, um dos aeroportos mais seguros do mundo. Daí não se poder imaginar como o terrorista conseguiu embarcar com seus equipamentos explosivos na penúltima sexta-feira.

Como os EUA são uma caixa de ressonância no mundo, as medidas de segurança nos aeroportos foram tornadas mais rígidas, não se limitando aos voos que se dirigiam ao território americano, mas assustando todas as latitudes e tornando ainda mais chato o embarque e desembarque de passageiros em todos os países.

Mas o susto foi grande mesmo quando se anunciou que uma vez sentado em sua poltrona o passageiro não poderia mais levantar-se nem para ir ao banheiro, nem para ter acesso à sua bagagem de mão nos armários que ficam acima dos assentos.

Vê-se agora que não é bem assim. A medida de proibição de ir ao banheiro e de manusear as bagagens só foi imposta durante uma hora antes de qualquer aterrissagem em território norte-americano.

Mesmo assim, considero-a exagerada: como vai fazer uma pessoa que sinta necessidade de ir ao banheiro? Será obrigada a satisfazer sua necessidade fisiológica sentada na poltrona e vestida?

Suponho que, quando houver necessidade premente do passageiro em dirigir-se ao banheiro, dois comissários de bordo o revistarão e o acompanharão até as abluções.

O terrorismo, desde a queda das duas torres em Nova Iorque, tem causado dificuldades cruciantes aos passageiros de avião.

Eu mesmo tenho sofrido com isso em aeroportos: como sou diabético, carrego comigo muitos medicamentos. Mas é terminantemente proibido carregar nas bagagens de mão quaisquer tipos de líquidos ou cremes.

É um tal de abrir malas de despacho, com seus cadeados incômodos, para transferir para elas as substâncias não permitidas que faz um verdadeiro inferno da vida dos passageiros.

Sem falar em outros objetos também não permitidos. Esses dias, eu tive de voltar da área de embarque, de onde fui chamado pelo alto-falante, para retirar da minha bagagem despachada dois isqueiros que foram detectados entre as minhas roupas.

Já para tirar os dois isqueiros da bagagem de mão e colocá-los na bagagem despachada tinha sido uma estafante tarefa. Sair lá da área de embarque, com o avião quase partindo e ir até o local do check in para descobrir entre as roupas da minha mala retida os dois isqueiros, tira cadeado, bota cadeado, repito, com o avião partindo, calculem a minha aflição.

Sem falar nos doces que sempre trago para alguma emergência glicêmica, que no outro dia foram todos apreendidos sob o meu olhar de desolação.

Várias vezes tentaram até apreender-me a insulina que guardo em uma ampola acoplada a uma caneta especial. Para explicar o meu diabetes, leva uma eternidade.

E depois de incansáveis discussões com o pessoal do aeroporto, lá sigo eu, completamente estressado, correndo para pegar o avião, deixando atrás de mim uma verdadeira piscina com milhares de isqueiros apreendidos, advertindo sob certa forma aos fumantes que deixem de fumar porque nós já nos constituímos em ameaça à segurança internacional.