segunda-feira, 4 de janeiro de 2010



04 de janeiro de 2010 | N° 16205
L. F. VERISSIMO


Revolucionários

Quando Miles Davis chegou a Nova Iorque, a revolução do be-bop já estava amainando. Os grandes trompetistas da era tinham sido Dizzy Gillespie e Fats Navarro. Miles ainda pegou o finzinho do movimento.

Gravou com Charlie Parker e outros grandes do bop, mas nunca foi identificado com o estilo como foram Gillespie e Navarro. Mas a revolução seguinte foi ele que liderou. Reuniu um noneto para tocar arranjos de Gil Evans, Gerry Mulligan, John Cariis e outros que exploravam sonoridades novas num estilo mais frio do que o be-bop, com ênfase mais no conjunto do que no solista.

O disco produzido pelo noneto foi chamado, apropriadamente, de Birth of the Cool, porque inaugurou o que depois viria a ser chamado de “cool jazz” e foi modelo para o jazz da Califórnia, que se distinguiu do jazz de Nova Iorque, entre outras coisas, por ser, além de mais frio do que quente, mais branco do que negro.

Mas o próprio Miles liderou a contrarrevolução. Não seguiu a sua invenção, o “cool jazz”, para a Costa Oeste, ficou em Nova Iorque e foi um dos lançadores do “hard bop”, uma volta ao quente, centrado nos solistas.

O que não o impediu de gravar alguns discos históricos como Miles ahead, Sketches of Spain e Porgy and Bess em que os arranjos do Gil Evans eram tão importantes quanto os seus solos.

Depois foi histórico de novo com seu famoso disco Kind of blue, lançando o chamado jazz “modal”, que dava uma liberdade maior aos solistas. E no fim ainda fez outra revolução, vestindo túnicas coloridas e aderindo à fusão do jazz com o rock.

Há uma personalidade na música brasileira comparável ao Miles na capacidade de inaugurar épocas, mesmo que em escala menor. Elizete Cardoso era a grande dama da canção nacional, nossa melhor sambista, mas não exatamente a escolha natural para gravar um LP como Canção do Amor Demais, com músicas do Tom Jobim e do Vinicius, com a batida do violão do João Gilberto inventando a bossa-nova atrás dela.

Mas o disco é memorável, entre todas as outras razões históricas, pela interpretação, que nenhuma cantora mais moderna igualaria, da Elizete.

Depois de ajudar a lançar a bossa-nova, ela lançou Elizete Sobe o Morro, o disco que resgatou gente como Cartola, Ze Keti e Nelson Cavaquinho e começou uma época de revalorização do samba tradicional.

E até hoje não se sabe – ou eu, pelo menos, não sei – se a Elizete subiu o morro no mesmo espírito com que o Miles voltou ao “hard bop” depois de inaugurar o “cool”. Enfim, coisas de revolucionários.

domingo, 3 de janeiro de 2010


FERREIRA GULLAR

Esquerda, volver

A dificuldade de definir esquerda e direita é produto do avanço das ideias progressistas

O QUE é, hoje, ser de esquerda? Há algumas décadas, era ser contra o imperialismo americano, a favor da reforma agrária e de um governo socialista; para alguns, substituir a "ditadura" da burguesia pela ditadura do proletariado.

Hoje, já não se fala em imperialismo americano e, com raras exceções, todo mundo é a favor da reforma agrária, que se tornou, como é no Brasil, programa de governo. O que é, então, ser de esquerda ou de direita hoje?

Acreditar em Deus já não é ser de direita, uma vez que há até padres que amaldiçoam o capitalismo e outros que abençoam o socialismo.

Opor-se aos Estados Unidos é ser de esquerda, então o aiatolá Khomeini e o presidente Ahmadinejad, dirigentes de um regime teocrático, seriam de esquerda. Bush era de direita, claro, mas é possível afirmar que Obama, presidente da maior potência capitalista do planeta, é de esquerda?

E o presidente da Venezuela? Não há dúvida de que ele apoia o regime comunista cubano e que critica a três por dois os Estados Unidos, mas é para eles que vende a maior parte do petróleo que seu país produz.

É verdade também que tem estatizado empresas e ameaçado os capitalistas venezuelanos. No entanto, no plano internacional, alguns de seus aliados mais importantes são aqueles mesmos aiatolás, devotos fanáticos tanto de Alá quanto do capital.

De qualquer modo, à falta de melhor qualificação, pode-se dizer que Hugo Chávez é de esquerda, mas uma esquerda que, em vez de pregar a luta de classes entre a burguesia e o proletariado, explora as contradições entre os ricos e os pobres. Deve-se concluir que os programas assistencialistas, tipo o Bolsa Família, são revolucionários?

Esse deslocamento do conflito entre classes sociais é, aliás, um traço que define certa discutível esquerda latino-americana.

O processo histórico mostra que, se a classe operária foi, no passado, a esperança dos revolucionários de esquerda para derrotar o capitalismo, hoje, serve como poder de barganha da elite sindical que, graças a ela, conquistou posições importantes no aparelho de Estado, tornando-se uma espécie de nova classe -os "neopelegos".

Esse fenômeno, no Brasil, alcançou sua plenitude com a ascensão do PT ao poder central do país, sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva -fenômeno que deve estar sendo estudado pelos cientistas políticos, enquanto eu me limito a registrá-lo, a partir do que observo no dia a dia.

A referida mudança mostrou-se claramente quando Lula, derrotado em três eleições seguidas para presidente da República, afirmou que, se fosse para perder de novo, não se candidataria mais. Até ali, ele encarnara o papel de líder operário radical, cujo único "programa" era acabar com a exploração dos trabalhadores pelos capitalistas. Como o faria, nunca disse.

Aliás, é característica desse tipo de esquerda fazer crer ao povo que, como por milagre, sua simples chegada ao poder porá fim às desigualdades sociais, uma vez que elas seriam o resultado da deliberada exclusão com que os ricos (malvados, por natureza) castigam os pobres.

Claro que eles sabem muito bem que elas são consequências do processo histórico, que encontram no capitalismo sua expressão atual. O desmonte do modo de produção capitalista na URSS, após a revolução de 1917, resultou em duas décadas de estagnação econômica e fome. É que, nesse terreno, não há milagres.

Lula, que jamais pretendeu fazer revolução, decidiu pôr a bola no chão e dizer a que veio. Aderiu à política econômica de FHC, que dera certo, e prometeu respeitar as regras do jogo capitalista; assim, mesmo sem nenhum projeto para o país, ganhou as eleições.

Pouca gente acreditou que a mudança de Lula fosse para valer, mesmo quando ele escolheu para vice um empresário. Com o PT, surgira o novo pelego, que, disfarçado de revolucionário, igualou seu poder ao do empresariado e, finalmente, chegou à Presidência da República.

Mas o mito do operário redentor se manteve. Assim, Fernando Henrique Cardoso, ao passar a faixa presidencial a Lula, afirmou que se sentia orgulhoso de fazê-lo a um representante da classe operária. Mera gentileza.

De fato, passava-a a um membro da elite sindical, que, para tranquilidade geral do empresariado, entretém os pobres com benesses, à custa do aumento de impostos, que todos nós pagamos.

De qualquer modo, entendo que a dificuldade de definir, hoje, esquerda e direita é consequência do avanço das ideias progressistas. Conhece alguém que se oponha à construção de uma sociedade justa? Eu não conheço. Difícil mesmo é chegar lá.

DANUZA LEÃO

A primeira manhã do ano

Quando acordou de ressaca, olhou para o lado e viu um homem dormindo na sua própria cama, quis morrer

ESTAVA MEIO deprimida, e a receita nesses casos é só uma: ir para casa, tomar um tranquilizante, se enfiar na cama, ligar a televisão e esperar passar. Mas fez tudo ao contrário, como quase sempre: saiu, bebeu -mal- e aprontou.

Quando acordou de ressaca, olhou para o lado e viu um homem dormindo na sua própria cama, quis morrer. Como nem em coma alcoólica se faz o que não se quer -você algum dia convidou o mendigo da esquina para um último drinque em sua casa?-, sabe que ninguém a obrigou a nada.

Bebendo, fazemos apenas o que não temos coragem de fazer em sã consciência, e só. E agora? Vai ter a obrigação de dizer bom dia, oferecer um suco, talvez até um café, e ele ainda pode querer tomar uma chuveirada? O ideal seria se ele dissesse que precisava ir embora voando, o que nesse caso valeria como uma rejeição, outra tragédia.

Mas digamos que ele seja gentil, se instale na sala e, depois de elogiar a vista e a decoração, puxe um assunto. Nem pensar. Afinal, o fato de duas pessoas dormirem juntas não tem nada a ver com intimidade.

Que ele fique dez minutos ou 40, em alguma hora vai ter que ir embora. Você vai levá-lo até a porta e podem acontecer duas coisas: ele dizer um vago "a gente se vê", o que seria péssimo, ou querer marcar um jantar para aquela noite, o que também seria péssimo.

Mesmo que esteja arrependida da loucura que fez, nenhuma mulher merece tanta indiferença, como no primeiro caso; vai ficar arrasada, e o analista está de férias, claro. Por outro lado, sair para jantar nem morta, vai entender a cabeça das mulheres. É, ainda não aprendeu a ter juízo, e sente a maior falta de um cigarro; naquele momento daria a vida por um, mas largou o vício, e se pergunta a troco de quê.

Se pensar bem, vai perceber que sempre que está mal e resolve sair para "espairecer" acaba fazendo alguma coisa que não deve, seja o que for. Mas será que alguém é perfeito e nunca faz nada de que se arrependa?

Se conseguir esfriar a cabeça e lembrar do que já ouviu das amigas, vai ver que não é a única a às vezes fazer bobagens, mesmo sem ter bebido uma gota de álcool. Ou porque está triste, ou porque está carente, ou porque a vida é assim mesmo, com altos e baixos, e pronto.

E tem mais: os homens também fazem muita bobagem, só que ficou combinado que eles podem tudo, e por mais que as mulheres tenham conseguido, etc. e tal, nesse quesito ficaram praticamente na mesma. Você algum dia ouviu alguém chamar um homem de "vadio"? E uma mulher "vadia", já ouviu falar? Pois é.

Mas fique tranquila: a culpa é dessa terrível semana de festas, que felizmente já passou.

Para hoje, suas únicas preocupações devem ser dispensar o professor de ginástica, dizer que só recomeça quando os termômetros estiverem marcando 25 graus, e, quando for pagar o sushi que vai pedir por telefone, não errar no cheque: agora é 2010. Praticamente mesmo, foi só o que mudou.

danuza.leao@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

Do próspero

RIO DE JANEIRO - E assim é que estamos, como afirmam os manifestos comerciais, no limiar de um ano novo.

Não sei qual foi o cretino que por primeiro uniu o adjetivo "próspero" ao conceito de ano novo. De qualquer forma, outros cretinos adotaram a expressão e, quando um cidadão chega à idade respeitável dos 50 anos, se ainda não é realmente próspero, não é por culpa dos outros: desejos e votos foram formulados ao longo desses trinta e tantos anos.

E, se a prosperidade ainda não veio, não é o caso de se desesperar. O ano novo está aí, dando sopa. E desta vez vamos.

Mas enquanto a prosperidade não vem, daremos duro em nosso triste cotidiano. As perspectivas para esse 2010, aqui no plano pessoal, são bastante sombrias. O vizinho deu ao filho uma bateria, um assassino precoce que não dorme, não come, não estuda, não diz palavrão, só toca bateria o dia inteiro.

E o pior é que gosta de imitar grupos de rock. O guri não entende nada de música, mas o efeito é o mesmo.

Bom, não vou estourar os miolos por causa disso. Há que ladrilhar o espírito de paciência, torcer os lábios em feitio de sorriso e enfrentar a luta espartanamente. Mesmo que seja inútil para mudar o curso de tantos e tão graves acontecimentos.

Abstraindo o caso pessoal, as perspectivas são ainda pressagas. O planeta parece que entrou em coma -não será para os meus dias, mas a coisa está preta.

Dizem que a culpa disso tudo é do imperialismo, que tanto nos subjuga e maltrata, mas não compreendo muito dessas coisas. Apesar disso, o ano tem tudo para ser próspero. Faço votos para que seja.

Que os ricos fiquem mais ricos: não entrarão no reino dos céus, o que é um consolo besta, mas é um consolo. Que os pobres fiquem ricos. Verão como é chato ajudar os pobres.

ELIANE CANTANHÊDE

No ano que vem tem mais

BRASÍLIA - Ok, o Brasil não tem tsunami, terremoto, furacão ou nevasca. Mas tem o flagelo da seca e a tragédia das chuvas que devastam e matam. A diferença é que a seca mata de geração em geração, lentamente, dia após dia, longe das redes de TV e da grande imprensa, enquanto as chuvas matam de repente, sorrateiramente, diante das câmeras, das fotos e dos repórteres. A seca do Nordeste empurra os filhos do Brasil para o Sul maravilha. E as chuvas no Sul maravilha fazem o Brasil inteiro chorar.

A virada de 2009 para 2010 no Brasil inunda as redes mundiais de notícias e confronta as realidades dos dois Brasis: o do esplendoroso espetáculo dos fogos do Réveillon em Copacabana e o que sucumbe à lama, à falta de planejamento e à ocupação irregular de encostas.

O contraste vai para as telas e para as páginas, alternando ora pessoas de todas as idades, felizes e em festa, ora as que choram a perda de filhos, mulheres, maridos, pais, mães, amores, não raro famílias inteiras. Ou que, simplesmente, perderam suas casas e todos os seus pertences sob a força da água.

Sem emprego e sem os dentes da frente, um homem ainda jovem olha para a câmera e declara, em choque: "Perdi tudo, até o que nem acabei de pagar".
Ele teve sorte.

Há meia centena de mortos só no Rio, seja em bairros pobres, seja na paradisíaca Angra dos Reis, deixando como mártir da virada do ano a menininha Mariana, de três anos, que passou horas soterrada, foi retirada sob o uivo doído e comovente de um bombeiro e acabou morrendo no hospital.

Tragédias assim têm causas naturais, sim, mas têm também a enorme responsabilidade do poder público e o empurrão da imprevidência, da ganância ou da simples ignorância. E deixam um grito e um eco: prevenir, prevenir, prevenir. Porque, no que vem, tem mais.
PS - Onde estava Sérgio Cabral?

O candidato de fato à reeleição é o vice, Luiz Fernando Pezão?

elianec@uol.com.br

sábado, 2 de janeiro de 2010



03 de janeiro de 2010 | N° 16204
MARTHA MEDEIROS


Amanhã fica pra amanhã

Amigos meteorologistas, segunda-feira poderemos vivenciar um dramático temporal ou um sol rachando, mas sinto muito, me desliguei de previsões, não estou interessada no que o céu despencará sobre mim amanhã quando eu acordar. Recém é hoje.

A cotação que o dólar terá quando o mercado reabrir continuará não fazendo a menor diferença pra mim, já que não trabalho com exportação nem importação. Nada me importa além desse minuto.

Já tomei banho e tudo o que minha pele e meus cabelos assimilarem durante minha passagem por esse dia ficará como marca registrada das ruas por onde andei e das intempéries que enfrentei, só no próximo banho é que eliminarei as partículas deste domingo.

Se você quiser me dizer alguma coisa, diga já, amanhã posso estar surda, com febre, ausente, desconectada, com TPM, de férias, e você terá desperdiçado a oportunidade de ser ouvido nesse instante.

As pesquisas de opinião são muito afoitas, ligeiras, ansiosas, que me interessa a eleição de outubro se nem o amanhã me é seguro, hoje eu tenho os representantes que tenho, até que eu me corrija no próximo voto.

Esse bombom em minhas mãos, quantas calorias terá, que estrago fará em minha região abdominal, que consequências deixará visíveis na beira da praia? Nhac. Veremos.

Não tenho caderneta de poupança nem me preocupo com fundos de investimento, e gastei três dígitos num vestido que me ofereceu cor, leveza e jovialidade para daqui a algumas horas, e daqui a algumas horas eu ainda terei a aparência que tenho, não garanto depois.

Comecei a ler um livro que tem frequentado a lista dos dez mais e nas primeiras dez páginas peguei no sono. Deixei o livro de lado: perder tempo é um insulto à vida. No mesmo instante comecei outra leitura e essa, sim, me devora.

No almoço de amanhã teremos à mesa o que eu me sentir impulsionada a comprar no supermercado amanhã, hoje eu me contento com o que há na geladeira e que alimenta o meu agora.

Olimpíadas de 2016, que viagem no tempo, mal sei se atravessarei os obstáculos anotados em minha agenda neste 3 de janeiro de 2010 e se quebrarei algum recorde de alegria ou tristeza antes que o telefone toque.

Hoje ainda estou dentro da lei, ainda tenho todos os amigos por perto, ainda me reconheço no espelho, ainda não enjoei da música que estou ouvindo, ainda estou em paz, ainda acredito que o dia terminará bem.

“Amanhã fica pra amanhã” é um aforismo que li no livro de Pedro Maciel chamado Como Deixei de ser Deus. Admitir que não temos controle sobre o futuro é um bom começo. Deus é uma projeção, e hoje, aqui em casa, as projeções estão em falta, amém.

Um lindo domingo para vc. O Primeiro de 2010


03 de janeiro de 2010 | N° 16204
MOACYR SCLIAR


Os tempos da vida

No colégio, uma de nossas principais (e mais difíceis) tarefas era aprender a conjugar os verbos. Conjugar os verbos já não é mais uma condição para passar de ano; mas agora me parece uma coisa muito simbólica. Conjugar verbos é conjugar a vida.

Em primeiro lugar, por causa das pessoas verbais. Começamos, e isso é muito significativo, com a primeira pessoa: “eu”. Um resultado indireto do instinto de preservação que existe em cada indivíduo. Lutamos pela vida; lutamos para nos afirmar. Na sociedade em que vivemos, esse instinto gerou um verdadeiro culto do ego, mas, felizmente para nós, a conjugação dos verbos não se esgota na primeira pessoa.

Logo em seguida vem o “tu” (viva o Rio Grande, que preserva esse pronome!) e isso muda por completo o panorama de nossas relações. O relacionamento, diz-nos aquele notável filósofo da convivência, e do pacifismo, Martin Buber, acontece entre o Eu e o Tu, e se faz através do encontro, do diálogo, e da responsabilidade mútua: é uma intersubjetividade, não uma subjetividade exclusiva e frenética.

Depois temos o “ele”: este ser distante que não está no diálogo, mas que também existe e precisa ser lembrado. O mérito do “nós” é óbvio, mas confesso que não gosto muito do “vós”, cerimonioso e reverente demais; prefiro o “vocês”. E “eles” nos lembra a multidão de pessoas com quem temos pouco ou nenhum contato, uma realidade que deveria nos tornar mais humildes.

Estudando a conjugação dos verbos descobríamos que, como diz a Bíblia no Eclesiastes (“Há um tempo para tudo”), existem tempos verbais para todas as fases da cronologia humana. Em primeiro lugar, temos o presente, o tempo no qual vivemos, e que nos recorda a recomendação do poeta Horácio: “Carpe diem”, curte o dia, desfruta o dia. O passado já passou, o futuro é incerto, o momento é agora, é o presente.

Mas, Horácio à parte, o passado está em nós, como estava nas páginas da gramática. E do passado havia variedades com nomes intrigantes, a começar pelo passado perfeito: “eu amei”. Admitindo que a perfeição exista, o que é muito duvidoso, por que é perfeito, esse passado? E por que “eu amava” é um passado imperfeito? E, mais surpreendente ainda, o que quer dizer um “passado mais que perfeito”, no qual “eu amara”?

Mistérios gramaticais e existenciais. Que não se esgotavam aí: logo depois, na conjugação, vinha o futuro. Tempo otimista, promissor: “eu amarei”. Meninos, acreditávamos nisso, acreditávamos que passaríamos o futuro amando, o que não era nada mau. Mas então surgia, na gramática, uma coisa chamada “futuro do pretérito”.

Parece um oxímoro, uma contradição em termos: como pode o pretérito, o passado, ter um futuro? Mas o antigo nome desse tempo verbal, condicional, explicava-o: era algo que poderia ter acontecido: “eu amaria”. Eu amaria, se encontrasse a mulher de meus sonhos.

Ah, sim, e temos o imperativo, expressão verbal do autoritarismo que está em todos nós, e o infinitivo, e o gerúndio, muito usado no Brasil porque é o símbolo da postergação, do adiamento (“estou providenciando”), e o particípio passado, mais resoluto (“tá falado”).

Os tempos verbais nos falam na vida. Nesta passagem de ano vamos lembrar: é bom aprender a conjugar a vida. Não se trata de nenhum exame, de nenhum Enem. É muito mais que isso.

Agradeço as mensagens de Dr. Renato Faillace (pioneiro da hematologia no RS), Jeanne Ferreira (especialista em transtornos alimentares, comentando sobre a anorexia das modelos), Gislaine Schnack, Rodrigo Rosa, Waldomiro Minella, Clairton K. Ferreira, Paulo Gomes.


O princípio da incerteza

O professor virou-se e viu que a Sandrinha não estava escrevendo. Todos na aula copiavam o que o professor tinha escrito no quadro-negro, menos a Sandrinha. A Sandrinha estava dobrando e alisando um pedaço de papel.

– Dona Sandra, o que a senhora está fazendo? – perguntou o professor.

– Um aviãozinho, professor.

– Dona Sandra, eu pedi para copiarem o que eu estou escrevendo no quadro-negro sobre a teoria da incerteza de Heisenberg.

– Eu sei, professor. Mas eu estou preparando uma experiência prática sobre o mesmo assunto.

– Nossa aula hoje é sobre física quântica, dona Sandra.

– A minha experiência também.

O professor tinha desenvolvido uma tática para lidar com a Sandrinha. Para não explodir, contava até três. Desta vez contou até seis. Depois perguntou:

– E que a sua experiência tem a ver com o princípio da incerteza de Heisenberg, dona Sandra?

– Quando o aviãozinho ficar pronto, vou atirar para o alto, sem saber onde ele vai cair. Se bater em alguém, ou cair próximo de alguém, é a pessoa que eu vou namorar neste trimestre.

Por um momento, o único ruído ouvido na sala foi o do riso abafado. Desta vez, pensaram todos, a Sandrinha conseguiria. O professor perderia o controle.

Atiraria a Sandrinha pela janela. Ou ele se atiraria pela janela. De qualquer maneira, haveria uma explosão. Mas o professor manteve o controle, depois de contar até dez.

– E se cair perto de uma pessoa do sexo feminino, dona Sandra?

– Não tenho preconceito, professor.

– Só não entendi o que seu aviãozinho tem a ver com a teoria de Heisenberg.

– A incerteza. Ninguém sabe onde ele vai cair.

– Não, dona Sandra. É muito mais complexo do que isso. É...

– A teoria não diz que a ação humana interfere na observação das partículas subatômicas? Que por isso a medição dos seus movimentos é sempre incerta?

Pois eu posso direcionar meu aviãozinho para um lado que me interessa. Ele vai dar voltas no ar, mas sua trajetória não será inteiramente aleatória. Minha vontade vai influir no seu destino. Pronto. Uma aula prática, professor.

O professor fechou os olhos. Um, dois, três, quatro...

– Faça o que quiser, dona Sandra. Vou continuar dando a minha aula.

Voltou para o quadro-negro e continuou a escrever. Dali a pouco, ouviu uma agitação às suas costas. O aviãozinho da Sandrinha tinha decolado. Virou-se a tempo de receber o aviãozinho no peito. E ouvir a voz da Sandrinha:

– O senhor é casado, professor?


03 de janeiro de 2010 | N° 16204
PAULO SANT’ANA


Assim é demais!

Já sei que vão chover explicações dos religiosos, dos crentes, mas elas já surgiram tantas e eu não me satisfiz com nenhuma.

Dos filósofos e dos cientistas, sempre me chegaram as explicações, mas também não me satisfiz.

Só que os filósofos sabem que são incompletos, mas os religiosos e os crentes, a quem admiro tanto a ponto de desejar ser um deles, estes pretendem que alcançaram a Verdade, e é uma pena que não me consigam transmiti-la.

Sei que vão surgir inúmeras explicações, mas é inútil, já me explicaram tudo, mas eu não entendi nada.

Insisto, embora. É que dei de cara em Zero Hora com notícia de hediondo crime de tortura cometido por um casal contra um menino de apenas cinco anos, em Bagé, na semana passada.

Desculpem voltar ao assunto de tortura sobre crianças, mas eu não consigo nem ignorá-lo nem passar por cima dele, eu que tenho o ofício de focalizar o cotidiano não vou estar catando nele os fatos mais saborosos, sem fixar-me em seu lixo.

É que começaram a aparecer nos últimos dias as torturas contra crianças.

Foram enfiadas dezenas de agulhas nos corpinhos de dois meninos, ambos com dois anos de idade, no Maranhão e na Bahia.

E agora um menino de cinco anos, em Bagé, teve metade da sua orelha arrancada por uma mordida do seu padrasto, dois dentes quebrados e lesão grave nos órgãos genitais. Um ataque de um monstro, ou de dois monstros, porque a mãe do garoto foi também presa, acusada pelos crimes.

O rosto do menino era uma sangueira só, suas narinas inchadas, os dentes arrebentados, os genitais em feridas por mutilações.

Mediante a filosofia, a teologia e as religiões, eu me conformei com todos os atos bárbaros cometidos na face da Terra contra adultos, as feras humanas que através da História massacraram seus semelhantes, às vezes às dezenas de milhões, as escravaturas e os simples atos de sadismo e tortura que fervilham nos noticiários como fervilham no registro da história das civilizações.

Me conformei e compreendi essas atrocidades todas.

O que eu não compreendo e com o que não me conformo são com torturas contra crianças, infelizmente esse tipo de crueldade animalesca tem marcado com frequência macabra os nossos noticiários, com fatos nada distantes de nós.

Em suma, o que eu não consigo compreender, o que não cabe na dimensão dos meus equipamentos neuroniais e sensoriais, é a extrema capacidade do homem para praticar o mal.

Não entendo, desculpem, mas não entendo. Já quase não entendo o Mal, mas o mal travestido de tortura contra crianças, este foge desesperadamente da minha razão e se transporta para o meu delírio, na fronteira com a loucura (me enlouquecem ou quase me enlouquecem essas notícias de torturas contra as crianças) me entrego à desilusão e à desesperança, e chego a desejar a morte, estágio sem dúvida melhor do que continuar a conhecer essas notícias e saber que elas não terão paradeiro.

Por que é permitido o mal? Por que é permitida a suprema dor física? Por que triunfa o mal durante as incontáveis horas e dias em que sofre uma criança sob o domínio de seus verdugos?

Por que existe Satanás e reina por vezes no território humano, espalhando as mais sórdidas dores e frequentes e imparáveis torturas?

Por que existe o Mal, sob as mais terríveis aparências, nas aflições físicas e espirituais, com o Bem sendo sobrepujado com notável constância entre os humanos?

Por que o Bem permite a existência do Mal? Por que a existência do Diabo é permitida?

Por quê?

Tudo poderia acontecer. Menos crianças torturadas, dias, meses, anos a fio.

Tudo menos isso.

Aí eu me entrego. Não vale a pena viver.


Sherlock Holmes e Watson sem retoques

Em Sherlock Holmes, o diretor Guy Ritchie submete o detetive a um choque iconoclástico. E quem sai ganhando, finalmente, é Watson

Isabela Boscov
Fotos Everett Colecction/ Grupo Keystone

MARTE E MERCÚRIO
Law, como Watson, e Downey Jr.,como Sherlock: um está sempre pronto para a guerra, o outro para imaginar – e intimidar



Sherlock Holmes, o infalível detetive particular da Inglaterra vitoriana, é uma dessas criações que ganham a posteridade meio que à revelia de seu criador: o escocês Arthur Conan Doyle, médico, aventureiro e veterano da Guerra dos Bôeres, em várias ocasiões manifestou a pessoas próximas seu descontentamento com a fama colossal conquistada pelo tipo.

Conan Doyle acreditava ser capaz de literatura de muito maior quilate, e a cada nova investida ficava à espera de que seu verdadeiro gênio (a modéstia não se contava entre as suas qualidades) fosse finalmente reconhecido.

O escritor, que morreu em 1930, aos 71 anos, esperou em vão. Romances como Micah Clarke e O Mundo Perdido, assim como sua ambiciosa história da I Guerra, são pouco mais do que notas de rodapé em sua biografia; as grandes estrelas dela são mesmo Sherlock e seu fidelíssimo companheiro Dr. Watson.

Em certos círculos, atribui-se a essas estrelas tal brilho que elas chegam a ofuscar Conan Doyle e relegá-lo ao papel de coadjuvante em sua própria trajetória: os admiradores mais atirados por vezes se esquecem de que Sherlock e Watson são personagens de ficção, e escrevem sobre eles ensaios, estudos e biografias como se a dupla fosse real.

O grupo dos sherlockianos fanáticos é menos conspícuo e barulhento do que os fãs de super-heróis que patrulham com zelo fundamentalista toda tentativa de adaptação de seus objetos de adoração. Mas não são menos devotos. Dar-lhes umas boas cutucadas, assim, é o primeiro mérito do trabalho do diretor Guy Ritchie em Sherlock Holmes (Estados Unidos/Inglaterra, 2009), que estreia na próxima sexta-feira no país.

Sherlock, na recriação de Ritchie, não saca de uma lupa a cada oportunidade, não usa boina de caçador nem sobretudo com capa, não diz "elementar, meu caro Watson" e, embora ainda fume cachimbo, prefere um modelo de haste reta à excêntrica haste curva celebrizada em adaptações como as estreladas por Basil Rathbone e Nigel Bruce nos anos 30 e 40. Essas alterações não são meros retoques cosméticos.

São reflexo do choque iconoclástico a que o diretor submete o personagem, e que traz para a superfície todas as suas características menos elogiáveis: o esnobismo, a presunção, a arrogância, o egoísmo, e a sem-cerimônia com que usa as pessoas – a começar por Watson, um médico respeitável e combatente condecorado da segunda guerra britânica no Afeganistão (1878-1880) que, nos livros, ele sempre tratou como um subalterno.

Ritchie, que até os 15 anos foi educado em internato, como convém aos meninos ingleses de classe alta, sabe bem quem Sherlock realmente é: no fundo, ele nunca deixou de ser um prefect, como é chamado o monitor escolhido entre os próprios alunos e que reina sobre eles como déspota. (A título de observação, os prefects amáveis e razoáveis de Harry Potter são tão plausíveis quanto a existência de um internato para jovens bruxos.)

Como não é o caso de alienar a plateia, contudo, esse tirano ególatra é, aqui, interpretado por Robert Downey Jr., um dos poucos atores capazes de conferir traços redentores à petulância e torná-la até adorável.

Com cabeleira revolta, energia incontida e entusiasmo infantil pela própria inteligência, esse Sherlock é um personagem ao qual se pode desculpar o jeito pernóstico. Vez ou outra, ele pode até ser colocado no seu devido lugar pelo Dr. Watson vivido com surpreendente vigor por Jude Law.

Nos últimos anos, Law vinha se tornando um ator vago, quase inapetente. Mas, no jogo de influências que se desenha entre Ritchie, Downey e ele, Law sobressai como a força capaz de corrigir as distorções do jogo original, o desempenhado por Conan Doyle, Sherlock e Watson.

O detetive tem a imaginação, mas seu parceiro é quem tem o senso prático que possibilita aos lampejos de Sherlock exercer impacto sobre o mundo. Na concepção de Conan Doyle, Sherlock era Deus e Watson, seu rebanho, como observou o jurista americano Richard Posner em um ensaio contrário à idolatria sherlockiana. Na visão do filme, Sherlock pensa que é Deus, mas nada seria sem Watson, que, à maneira de Moisés, cuida de que sua palavra seja posta em prática.

ATRAÇÃO QUE REPELE

Rachel no papel da golpista Irene Adler: o detetive bem que gosta dela. Mas gosta ainda mais da companhia de Watson


Não que Sherlock Holmes seja, nem em sonho, um ensaio crítico. Toda essa informação e esse conhecimento do seu principal trio criativo estão a serviço do entretenimento em larga escala – a aposta de Ritchie para, tendo sobrevivido ao divórcio de Madonna (e, mais notável, ao casamento com ela) e recuperado sua centelha, estabelecer-se como um nome de sucesso comercial, não mais restrito a facções de cinéfilos. Ritchie sempre foi um diretor de ação extremamente inventivo.

É também, por afinidade ainda que não por origem, um cultuador de uma faceta meio mítica de Londres, a de uma cidade sob cujo verniz de civilização pulsa um submundo tão violento quanto vibrante.

Aplicando essas características à Inglaterra vitoriana e imperial, que criava na mesma medida poderio e degradação, ele faz a festa. Londres aparece sinistra e bela na sua sujeira. Sherlock agora é versado em artes marciais, não só porque os chutes, socos e pontapés são um jogo de xadrez que ele planeja lance por lance (e, o mais divertido, executa exatamente como planejou), mas porque o detetive tão frio e racional afinal contém uma legião de demônios sempre prestes a irromper, e precisa desse escape. Esses demônios, aliás, parecem ser de várias ordens.

No papel e nas versões anteriores, Sherlock em geral é um ser assexuado, a despeito de sua ligação com a golpista Irene Adler. Já o filme sugere uma relutância, até uma repugnância, um tanto reveladora na sua atração por Irene (em atuação radiante de Rachel McAdams) – mais ainda quando somada ao empenho com que ele tenta boicotar o noivado de Watson com a governanta Mary Morstan (Kelly Reilly).

Sherlock e Watson necessitam, claro, de um adversário pérfido – como Lorde Blackwood (o excelente Mark Strong), que se crê capaz de conjurar forças malignas que porão sob seu controle o Império Britânico.

Uma das teses mais alopradas dos sherlockianos contumazes é a de que o Professor Moriarty, o inimigo figadal do detetive, era na verdade o Conde Drácula (vá se entender de onde eles tiram essa ideia).

Moriarty, aqui, não chega a se revelar: é uma presença oculta que obviamente está sendo guardada para uma possível continuação. Ritchie então veste Lorde Blackwood, em sua aparição final, como o vampiro do Nosferatu de F.W. Murnau e, por garantia, completa o figurino com adereços que prenunciam Adolf Hitler.

É uma brincadeira, sem dúvida. Mas é também uma ironia com o absurdo que constitui a mitologização exagerada do personagem. Os idólatras podem até achar que finalmente encontraram um diretor que os compreende. E como: compreende-os tão bem que lhes dá uma palmada fazendo com que eles pensem tratar-se de um agrado. Exatamente como Watson, agora, aprendeu a fazer para manobrar seu amigo tão inspirador – e tão enervante.
A DUPLA CLÁSSICA



Bruce, como Watson, e Rathbone, como Sherlock: uma relação desigual

Lya Luft

O ano de pensar

"A essência seria esta: neste ano, eu vou pensar. Em mim, na vida, nos outros, no mundo, em mil coisas ou numa coisa só – que seja realmente importante"

Mudança de ano, que, com o Natal, para uns é celebração (estou desse lado), para outros, melancolia.

O que nos atrapalha é que alguém inventou que temos de tomar decisões e fazer projetos para esse novo ano. São quase sempre irreais, quase sempre não cumpridos. Aí já nos frustramos neste mundo de tantas frustrações, em que a gente teria de ser bonito, saudável, competitivo e competente, bom de cama e ruim de mesa, e uma lista interminável de "ter de".

Pois eu acho que 2010 pode ser o Ano de Pensar. Bom projeto, boa intenção. Uma só, e já é bastante. Pensar: coisa que tão pouco fazemos, embora seja o que nos distingue das outras feras.

Publiquei recentemente mais um livro para crianças (mas os adultos se divertem), chamado Criança Pensa. Com ele respondi, décadas depois, ao duplo lema dos adultos de um outro tempo, de que criança não pensa, criança não tem querer. Hoje tem querer até demais, mas isso é assunto para outra crônica. E pensar, continua pensando, apesar de todos os jogos eletrônicos e programas de computador imagináveis.

Se criança pensa – e pensa lindamente, segundo descobrimos e escrevemos, um de meus filhos, professor de filosofia, e eu –, adultos teriam de pensar ainda muito mais. Porém a gente vai se enquadrando. Família, escola, sociedade e cultura, seja o que isso for, tornam-nos menos pensantes e menos questionadores. Alguns escapam dessa mordaça e desabrocham. Podem ser os menos confortáveis, mas são os que movem o mundo.

Pensar não é uma obrigação: é um direito, e deveria ser um prazer. Naquela horinha no ônibus ou no carro, andando, nadando, comendo, não fazendo nada – o que é um luxo, e nós, bobos, poucos saboreamos –, nada melhor do que deixar tudo de lado e refletir, ou deixar as ideias vagando numa atenção flutuante, como dizia Freud.

Largar mão, por alguns instantes, dos compromissos, do cansaço, da falta de tempo, da dificuldade em ser feliz, da pouca harmonia consigo e com o mundo, das tragédias, das decepções universais ou pessoais – e dar-se o prêmio de pensar. Para algumas pessoas, parar para pensar não é desmontar.

E ficariam dispensados os dez ou doze ou três propósitos, as intenções fajutas eternamente repetidas – como as de emagrecer, romper ou melhorar o relacionamento, sair de casa, voltar a estudar, vencer na vida, ter filhos, mudar de emprego ou de parceiro, deixar de beber, de fumar, de se drogar com outras substâncias. A essência seria esta: neste ano, eu vou pensar. Em mim, na vida, nos outros, no mundo, em mil coisas ou numa coisa só – que seja realmente importante.

Pensar para ser uma pessoa mais decente; pensar para amar mais e melhor, começando por mim mesmo; pensar para votar com mais lucidez; pensar no que de verdade eu quero, se é que eu quero alguma coisa – ou sou do tipo que se deixa levar por desânimo, preguiça ou desencanto?

Pensar simplesmente para criar meu mundo particular, não num ataque de loucura, mas de criatividade. Pois o real não existe, existe o que vemos dele. Dentro de certos limites, podemos, cada um de nós, inventar o nosso mundo: sendo mais céticos ou mais otimistas, com aquele grãozinho de loucura necessário para que haja beleza e claridade e não vivamos numa caverna de trevas.

Basta ver como pensam as crianças, ainda livres das nossas inibições. "Fadas e anjos existem, não é?", pergunta-me uma delas. Respondo honestamente: "Para quem acredita, existem".

Acredito que, apesar de Copenhague, o mundo não vai torrar (as opiniões dos cientistas divergem), que vamos ter motivo para nos orgulhar de nossos países, que não vai mais haver tanta miséria e cinismo, que os colégios vão ensinar melhor e exigir mais em lugar de facilitar tão absurdamente e despejar tanta gente despreparada no mundo.

Sei que todos algum dia acordamos com a senhora desilusão sentada na beira da cama. Mas a gente vai à luta e inventa um novo sonho, uma esperança, mesmo recauchutada: vale tudo menos chorar tempo demais. Pois sempre há coisas boas para pensar. Algumas se realizam. Criança sabe disso. Feliz 2010.

Lya Luft


Dinheiro? Para quê?

O irlandês Mark Boyle viveu um ano sem um tostão para convencer o mundo de que dinheiro é bobagem

RODRIGO TURRER - Matt Cardy - SOLITÁRIO

Mark Boyle na Inglaterra, nos primeiros passos para viver um ano sem dinheiro. “É possível o mundo viver assim”, diz

O irlandês Mark Boyle quer convencer o mundo de que o dinheiro é supérfluo. Há quase um ano traçou um plano mirabolante para erradicar o dinheiro dos bolsos de todos. Para dar o exemplo, se desfez de seus bens e foi morar em um trailer, nas cercanias de uma fazenda de alimentos orgânicos em Bristol, na Inglaterra.

Pegou meia dúzia de roupas e uma bicicleta. Dos bens manteve o celular, que só recebe chamadas, e o laptop, ambos alimentados por energia solar. Improvisou um fogão a lenha, em que cozinha o que planta, um chuveiro com painel solar e uma escova de dentes feita de conchas e sementes de erva-doce. Seu banheiro é um buraco no chão; o papel higiênico, jornais velhos ou plantas anatomicamente adequadas.

Boyle afirma ter encontrado o sentido de sua vida na faculdade de economia, por volta de 2001, graças ao filme biografia Gandhi, sobre o líder pacifista indiano. “O chapa da tanga me ensinou uma lição gigante: seja a mudança que você quer ver no mundo.” Ainda recém-formado, Boyle não tinha ideia de qual mudança desejava ser. Resolveu ganhar dinheiro – de modo ecologicamente ético, claro.

Abriu uma empresa de comércio de alimentos orgânicos. Apesar do relativo sucesso, continuava insatisfeito. “Eu me dei conta de que nem mesmo negócios sustentáveis conseguem mudar as coisas.” O que seria suficiente? “Em vez de diagnosticar as doenças do mundo e protestar contra elas, pensei em me tornar um homeopata social, com tratamentos longos”, diz Boyle.

Sua primeira medida foi trocar o nome de batismo Mark Boyle por Saoirse – pronuncia-se “Sir-chu”, palavra em gaélico para “liberdade”. Em seguida criou uma comunidade virtual para “troca de conhecimentos solidários”, o Freeconomy (justfortheloveofit.org). Lá as pessoas podem se filiar, declarar suas habilidades – de cortes de cabelo a reparos na casa – e doá-las a quem precisar.

A ideia ainda não entusiasmou muita gente. Em quase dois anos, 14.382 pessoas de 118 países se inscreveram no Freeconomy, menos de 123 engajados por país.
“A raiz da insegurança e do medo do mundo é o dinheiro. O que aconteceria se me livrasse dele?”

Para divulgar sua iniciativa, Boyle – ou Saoirse – conta que começou uma peregrinação até a terra de seu mentor, Gandhi. A pé. Mil dias de caminhada a partir da Inglaterra, passando por França, Itália, Eslovênia, Croácia, Sérvia, Bulgária, Turquia, Irã, Afeganistão, Paquistão e Índia.

O projeto começou em março de 2008 e foi abortado em abril, por problemas linguísticos, segundo ele. “Os franceses me disseram que não ajudariam ninguém que não falasse francês...”, afirma Boyle, que só fala inglês e arranha espanhol.

No caminho de volta, Boyle teve seu derradeiro lampejo: “A raiz de toda a insegurança e medo do mundo é o dinheiro. O que aconteceria se me livrasse dele?”. Em dezembro do ano passado, ele pôs em prática o plano de erradicar o dinheiro da humanidade.

“Nos próximos 20 anos, as pessoas terão de repensar a forma como vivem, consomem e desperdiçam”, afirma Boyle. “Meu plano é mostrar que é compensador e podemos construir uma comunidade sem dinheiro.”


02 de janeiro de 2010 | N° 16203
NILSON SOUZA


Imortalidade

Cientistas de reconhecido prestígio internacional disseram outro dia ao Pedro Bial que dentro de 20 ou 30 anos poderemos escolher entre o nosso atual ciclo de vida e a imortalidade. O apresentador promoveu um debate sobre o assunto com algumas personalidades brasileiras, que receberam a possibilidade com ceticismo.

Não que descreiam da ciência. Os avanços da biologia e da genética têm sido tão impressionantes nos últimos anos, que ninguém mais duvida de nada. Ainda assim, alguns participantes do programa fizeram beicinho para a vida eterna porque, segundo explicaram, não têm certeza de que optariam por ficar neste mundo para sempre.

O próprio Oscar Niemeyer, consultado sobre o seu lúcido centenário, mostrou pouco entusiasmo pela longevidade. Poucos dias antes, ele já havia dado uma resposta contundente a um repórter que lhe perguntara como se sentia ao completar 102 anos:

– Preferia estar fazendo 20! – disse, sem sorrir.

Afora os vampiros da literatura e do cinema, que mantêm a aparência jovem e a admiração das adolescentes, parece que poucos indivíduos aceitariam viver eternamente. Consultei alguns conhecidos sobre isso e todos rejeitaram a ideia. Acho que ficamos traumatizados pela ficção científica, que invariavelmente mostra a imortalidade como uma maldição.

Os contemplados com a eternidade quase sempre se tornam criaturas velhas, solitárias e sofridas, pagando um preço insuportável pelo privilégio. Já vi filme em que o encanto acaba de repente e o sujeito (ou a sujeita, pois sempre impressiona mais uma mulher jovem e bonita) se transforma instantaneamente num monte de pó. Horrível. Talvez, por isso, prefiramos o método atual, que dá no mesmo, mas pelo menos é mais lento.

Fora da fantasia e da fé, os únicos imortais que conhecemos são os membros da Academia Brasileira de Letras, que infelizmente não são imorríveis, como um deles sabiamente alertou outro dia. Na verdade, o que eles ambicionam nem é ficar vivos para sempre: é a permanência de suas obras.

Morrer é aceitável – até porque (ainda) é inevitável. Insuportável é a ideia do esquecimento perpétuo. Só morremos efetivamente quando ninguém mais lembra de nós. Só morremos – mesmo em vida – quando ninguém mais nos ama.

Sobre este tema, Vinícius de Moraes foi definitivo: “Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”.

Então, que sejamos imortais, cordiais e amorosos pelo menos neste ano que está começando. Depois a gente decide se quer continuar.


02 de janeiro de 2010 | N° 16203
PAULO SANT’ANA


Mulheres deram para beber

Eu insisto em não acreditar: um terço das pessoas que são flagradas embriagadas nos bafômetros em São Paulo são mulheres.

Assim é que, não mais que de repente, começou a crescer na capital paulista, durante as blitze da Lei Seca, o índice de mulheres embriagadas ao volante.

Até entre as mortes violentas no trânsito, começa a aparecer o perfil das mulheres como envolvidas nos acidentes.

Sem dúvida que espanta essa estatística. A imagem que nós todos temos das mulheres ao volante é de pessoas cuidadosas, delicadas, incapazes de agredir com manobras arriscadas, dispostas a deixar os outros passarem, sem querer ultrapassar a qualquer preço os outros motoristas.

Os guardas de trânsito de São Paulo também tinham essa imagem. Nem davam bola para mulher ao volante, sabiam que era quase impossível mulher embriagada ao volante.

Mas foram aparecendo algumas e agora já são um terço dos infratores as mulheres, talvez porque a polícia se alertou e passou também a fiscalizá-las.

Acontece que, quando os maridos e namorados bebiam, davam as chaves de seu carro para as mulheres. E elas passavam imunes pela fiscalização.

De repente, começaram a soprar os bafômetros também as mulheres, e os testes com elas passaram a dar positivo.

Ou seja, quando o marido ou namorado bebe, sua mulher bebe junto. E, se ele apresenta álcool no sangue, ela também apresenta.

Além disso, a estatística revela que a ascensão social da mulher levou-a também a incorporar hábitos nocivos que eram mais próprios dos homens.

O álcool é o mal do século. Seus efeitos na conduta humana são mais danosos do que os das drogas.

Esses dias, o delegado Llantada, da Delegacia de Homicídios, estava declarando que, entre as dezenas de homicídios havidos nos feriados de Natal, grande parte das mortes verificou-se na onda do álcool, quando os que mataram e também os que morreram encontravam-se embriagados na hora do crime.

O álcool mata no trânsito e fora do trânsito. Mata nas relações conjugais e mais do que mata: a maioria dos maridos que espancam suas mulheres está sob efeito do álcool.

Não há maneira mais fácil que drogar-se, basta ir ao bar da esquina ou então comprar cerveja e vinho do supermercado, e pronto: eis ali um bebedor transtornado, dentro ou fora de casa, muitas vezes ao volante.

Se o crack, a maconha ou a cocaína encontram milhões de adeptos, imaginem o álcool.

Todos os dias, a televisão e os jornais salientam os malefícios das drogas ilícitas. Ainda assim, viciam-se milhões de pessoas, que desdenham das campanhas públicas contra as drogas.

Imaginem com o álcool, a totalidade da mídia, principalmente a televisão, passa o dia inteiro fazendo campanhas a favor do álcool. Não há como resistir ao apelo das cervejas e dos vinhos na televisão.

A cada dia, novos adeptos vão se juntando aos antigos. E temos formada, então, uma legião de pessoas aptas aos transtornos, aos conflitos, às brigas e aos crimes.

Dá para imaginar o número de vítimas que o álcool faz no cotidiano das cidades. É uma catástrofe.


02 de janeiro de 2010 | N° 16203
CELSO GUTFREIND | (INTERINO)


O mês do interino na França e no Brasil

No começo dos anos 70, viver era mais importante do que ler. A vida, no entanto, oferecia ao menino as suas primeiras faltas. As leituras entravam nelas, prometendo completá-las e, às vezes, até cumpriam. Monteiro Lobato era um desses que não fazia dívida com as promessas.

À mesma época, topei com um livro chamado Elenco de Cronistas Modernos. Que estranhamento! Lobato criava novos mundos para equivaler a um futebol. E conseguia. Mas para isto tinha de bagunçar com as noções de tempo, espaço e realidade. Aqueles cronistas o faziam a partir da própria vida.

Lembro de Drummond, que fez o diabo com um canário; de Clarice Lispector, que bagunçou o coreto com um chá. E tinha o Paulo Mendes Campos, que falava de eleições para crianças, assunto proibido até para os adultos. Claro que me fartei sem segundas intenções, como em toda arte ou brincadeira que se prezem.

Mas o tempo real não é como no Sítio do Pica-pau Amarelo e, três décadas depois, tornei-me interino da Cláudia Laitano. Então, senti na pele algo que, volta e meia, surgia nas crônicas daquela gente. Eles viviam se queixando de que escrever podia ser o maior barato, mas era caro ter sempre de encontrar assunto.

Agora é comigo a bronca. E a encaro a partir da infância, banhada de palavras bem tratadas. Para as maltratadas, encontrei Freud, espécie de Monteiro Lobato inventor de sítios por dentro. É dele a máxima de que, em casos de emergência, não adianta apertar o botão, é preciso falar.

Nos anos 80, falei com Balzac, Rimbaud e com o Hemingway do Paris é uma festa. No mesmo período, Quintana, a partir de Tolstoi, falou-me que o sonho de todo menino é fugir de casa. Foi o que fiz nos anos 90. Agosto, em Paris, é o mês dos interinos. Uma vez, sofri a invasão de camundongos.

No início, confundi seus rastros com restos de biscoito e os comi. Precisei ir ao médico, e ele era interino. Tive de comprar duas ratoeiras no mercado, e a balconista também era. Curei-me da infecção intestinal, expulsei os camundongos, peguei o metrô para ir a Notre Dame agradecer pelas melhoras.

Na catedral, senti que a corcova era falsa, e o corcunda, interino. Mas se agora pensam que me contaminei de Lobato e exagerei na ficção; ou de Clarice Lispector e me passei na escatologia, confundindo biscoitos Lu com cocô de camundongo, sugiro a leitura de A Paixão Segundo GH, onde a barata é mais nojenta. Ou esperem a volta da Cláudia Laitano. Ou façam como sugeriu aquele Freud do Sítio de Dentro: botem pra fora. E falem

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010



"Fazemos experiências com a vida"

Diretor do maior festival de arte-tecnologia do mundo fala do futuro do campo que mais cresce na arte contemporânea

O austríaco Gerfried Stocker, que dirige o festival Ars Electronica, em Linz, na Áustria, esteve em SP em ano de auge das novas mídias

SILAS MARTÍ - DA REPORTAGEM LOCAL

Não parece, mas tem arte por trás do mecanismo de um iPhone, na lógica de reality shows e até em trocas de informação por Twitter, Facebook e afins. Gerfried Stocker, austríaco criador do festival Ars Electronica, o mais tradicional de arte-tecnologia no mundo, garante que não exagera.

Isso porque viu nascer e sabe para onde vai o segmento da arte contemporânea que mais cresce hoje -as novas mídias têm apoio maciço das instituições e interesse ávido dos patrocinadores. Stocker, 45, recebe todo ano em Linz, na Áustria, artistas, curadores e fanáticos por arte em novas mídias do mundo todo.

No ano marcado pelo auge financeiro desse setor no Brasil -com dinheiro da Petrobras, editais da Funarte e apoio de empresas como Oi e Itaú-, Stocker veio a São Paulo para uma palestra e falou à Folha. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.


O sucesso encolheu

Se, nos anos 1990, vender 1 milhão de cópias de um disco era algo comum, hoje se comemora a chegada às 100 mil unidades

THIAGO NEY - DA REPORTAGEM LOCAL

O disco mais vendido no Brasil em 1993 foi o álbum homônimo de Zezé di Camargo & Luciano lançado naquele ano. O disco mais vendido do Brasil em 2009 (até outubro) é o álbum homônimo de Zezé di Camargo & Luciano lançado em 2008. Os sertanejos (e os religiosos) ainda dominam o ranking, mas com uma diferença: o mercado da música encolheu. E muito.

Em 1993, Zezé di Camargo & Luciano venderam 950 mil cópias de seu disco. Entre janeiro e outubro de 2009, o álbum da dupla foi comprado por 218 mil.

Se, nos anos 1990, a década de ouro da indústria fonográfica, era comum para vários artistas lançarem discos que ultrapassavam o 1 milhão de cópias vendidas, hoje se um álbum bater nos 100 mil os executivos de gravadoras dão piruetas segurando taça de champanhe.

Até outubro de 2009, depois de "Zezé di Camargo & Luciano", os mais vendidos no país foram "Eu e o Tempo", do padre Fábio de Melo (189 mil), "I Am... Sasha Fierce", Beyoncé (182 mil), "Borboletas", Victor & Leo (172 mil), e a coletânea "Promessas" (164 mil).

"Em 1997, antes da "grande crise", tínhamos várias vendas de 1 milhão ou mais. Artistas como padre Marcelo Rossi e o Só pra Contrariar chegavam aos 3 milhões de discos vendidos", relembra Alexandre Schiavo, presidente da Sony.

A "grande crise" da indústria da música começou em 1998, com o crescimento da pirataria de CDs, e foi (ainda está sendo) inflada pela pirataria digital.

O grande ano fonográfico no Brasil foi 1997. O mercado movimentou US$ 1,2 bilhão, a partir de vendas de 104 milhões de unidades (de CD, cassete e LP).

Em 2008, segundo dados da Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD), esse mercado ficou em US$ 205 milhões (incluindo CD, DVD e arquivos digitais). Em 11 anos, um encolhimento de US$ 1 bi.

Assim, fica a pergunta: o que significa "vender muito" hoje? Como traduzir "fazer sucesso"?

"Depende bastante do artista", afirma Leonardo Ganem, presidente da gravadora Som Livre. "Para um artista consagrado, acima de 50 mil cópias. Para um artista novo, a expectativa é menor, 10 mil cópias."

Disco de platina

Mais um indicador da retração do mercado. Até janeiro de 2004, para ganhar o certificado "disco de ouro", um álbum precisava vender 100 mil cópias. Para "disco de platina", 250 mil. Atualmente, "disco de ouro" significa 50 mil cópias, e "disco de platina", 100 mil.

A diminuição de parâmetros, para Marcelo Castello Branco, presidente da EMI Music Brasil e América Latina, não é encarada com pessimismo.

"O mercado mudou muito, não se define mais pelo número de cópias vendidas. Hoje, ele está intimamente ligado às características dos contratos que firmamos com os artistas. A rentabilidade não é mais definida pelo número de cópias físicas vendidas. Hoje temos maior rentabilidade com vendas menores, diversificação de investimentos, além do crescimento do mercado digital. Nos adaptamos ao novo mercado."

Segundo a ABPD, em 2008 o formato CD respondeu por 61% do faturamento; o DVD, por 27%; o digital, por 12%.

"Acredito na convivência dos mercados físico e digital: eles são complementares, nunca excludentes. A substituição do sentido de posse pelo de acesso trouxe mudanças no comportamento do consumidor.

Temos de levar em conta a realidade socioeconômica do Brasil, sobretudo o crescimento da classe C durante o governo Lula, além da política de inclusão digital que foi adotada", aponta Castello Branco, da EMI.

O mercado de venda de discos diminuiu, mas ainda há os best-sellers. Segundo Leonardo Ganem, da Som Livre, "os sertanejos e os religiosos sempre vão bem. E a novela ainda é uma franquia muito boa".

Para os independentes, o encolhimento reflete em números mais modestos do que os das gravadoras grandes. "Ao lançarmos um CD de um artista internacional, nos contentamos com venda de 5.000 peças. Já para um nacional seria entre 10 mil e 30 mil", afirma Marcelo Affonso, diretor do selo ST2.

CARLOS HEITOR CONY

Vésperas do fim

Imaginar uma humanidade melhor é um sonho que acabou, e muito antes dos Beatles

ANO NOVO, vida velha. Ainda bem. Falar mal do ano que se foi é obrigação, uma praxe basicamente adotada por todos.

Esperar bem-aventuranças do futuro seria, na pior das hipóteses, mais moderno e mais jovem. Mas a vida -principalmente a minha- nada tem a ver com o calendário, os fusos, as órbitas gravitacionais da Terra em que fomos -segundo a bela prece cristã- desterrados num vale de lágrimas.

Exagero, também, esse vale cheio de pranto. Feitas as contas, olhando tudo em conjunto, ficamos na mediocridade do empate, permanecemos em casa: a cada polo oposto corresponde uma grandeza proporcionada. Parece um teorema, mas é bolação minha, conquistada no único pifão de lança-perfume que tomei, em remoto carnaval, cheirando um rodo metálico para nunca mais.

Senti que estava diante da verdade absoluta, a ponto de descobrir tudo e tudo sentir, quando, de repente, no fundo e no profundo da matéria, veio da carne essa óbvia verdade: cada subida prepara a queda proporcional, cada fossa abre espaço para a altura equivalente. No final da estrada, estamos no mesmo ponto de onde saímos: no zero e no nada.

Bem, o papo de fim de ano está pessimista, mas essas datas festivas me trazem uma lucidez do demônio -se é que os demônios são lúcidos como são lucíferes, cheios de luz. A rotina e a convenção nos obrigam à boa educação, à cordialidade, à esperança.

Prefiro ficar na minha: a falta de informação abre uma trégua e fazemos força para acreditar que tudo será melhor. Em certo sentido, continuar vivendo pode ser considerado uma façanha melhor. Mas melhor do quê? Vamos para 2010 e muitos dos que me leram no ano passado, por falta do que fazer ou para ter um argumento a mais contra as minhas míseras letras, na certa já terão empacotado.

Outros talvez sobrevivam para ter a certeza de que continuei o mesmo. Isso é pior? Eu próprio talvez nem chegue a ver o próximo ano, 2011 -e, honestamente, não perco grande coisa. Sorte do mundo e meu azar.

Recebo com hipócrita cortesia os votos de próspero Ano Novo ou generosa mensagem parecida. Lembro que um ex-presidente desta República chamou, certa vez, um ano do senhor de "poltrão". Não me lembro a troco de que, o fato é que 1961 foi classificado de poltrão por quem entendia do assunto e de português.

Não vou repetir a proeza de Jânio Quadros, mesmo porque não aprecio a palavra poltrão. Mas hoje, olhando em replay o tempo que escorreu, sinto que havia razão (ou premonição) na sua fala.

Poltrão ou poltrã também será a próxima década e nada espero dos dez anos que nos aguardam ou que aguardam vocês.

Imaginar uma humanidade melhor é sonho que acabou, não com os Beatles, mas muito antes, desde que um certo macaco teve uma pausa entre o comer e o gerar para se perguntar: quem sou eu? O que estou fazendo neste mundo cheio de macacos? Até que um deles ficou de saco cheio e resolveu se transformar em homem. O macaco melhorou ou foi o homem que piorou?

O ano chega ao fim, mas tudo recomeça no dia seguinte. Pessimismo à parte, os melhores votos desse mau escriba a todos os leitores e familiares. Li num antigo almanaque de farmácia que o mundo acabaria em 1980. Alguém disse que acabaria em 2000. Guardei esses números.

Tanto me faz que o mundo acabe ou deixe de acabar em qualquer ano. No Recife, havia uma seita que chegou a marcar uma data. Parece que será em maio. É uma pena, pois não teremos a Copa do Mundo de 2014 nem a Olimpíada de 2016. Nem sucessão presidencial, o que deixará o Zé Serra e a Dilma Rousseff sem emprego.
Acredito que o mundo não acabará nunca. É a forma de vingança da matéria e dos deuses.

A matéria se transformará em alguma outra coisa e os deuses terão oportunidade de meditar na besteira que fizeram ao criar o homem e o mundo.

Pessoalmente, considero que cada ano que acaba é uma forma de perdão para tudo o que fizemos de errado. E também um pedido de possível esquecimento, na esperança de que tudo ainda possa valer a pena, mesmo que a alma seja pequena.

FELIZ 2010, especialmente pra vc leitor deste Bloggger.
Como farsa, filme repete saga trágica

Ao contrário de "Vidas Secas" (1964), cinebiografia de Lula tem imagem acadêmica, linguagem arcaica e conformismo

Divulgação

A atriz Glória Pires interpreta dona Lindu, mãe de Luiz Inácio Lula da Silva e um dos eixos narrativos do longa de Fábio Barreto



INÁCIO ARAUJO - CRÍTICO DA FOLHA

"Lula, o Filho do Brasil" é um fato político antes de ser cinematográfico. Seu sucesso, se ocorrer, teria interferência no resultado das eleições? Seria sinal do início (apogeu, alguns dirão) de um culto à personalidade? Ou puxa-saquismo? E os investidores do filme visariam lucro com o filme ou com futuros contratos oficiais?

As sombras que envolvem "Lula" não são poucas, mas a verdade é que não dizem respeito diretamente ao filme, que sugere uma série de outras indagações. A primeira questão a ser endereçada ao filme, do ponto de vista puramente do argumento (isto é, da história que conta), é a seguinte: Lula encarna a ideia de "filho do Brasil" a que aspira o longa?

A resposta é sim, em mais ou menos todos os sentidos. Ele é filho de uma mãe que criou sozinha vários filhos (como a maior parte das mães de classe pobre no Brasil).

Ele vem do Nordeste para o Sudeste. Dá duro como trabalhador e passa por uma série de dramas pessoais (morte da primeira mulher, perda do dedo etc.). É certo que nem todo nordestino pobre e de poucas letras e com dramas pessoais na biografia chega à Presidência de um país que, afinal, também não é essa mixaria toda.

Mas o ponto não é esse: a exceção apenas confirma a regra do nordestino homem de valor, de luta etc. que o filme vende (Lula é o presidente que qualquer um poderia ser). E, sobretudo, da nordestina boa mãe que luta, como os filhos, contra a natureza ingrata, o marido ingrato etc. Trata-se de uma história de "vencer na vida", mas não como a de "2 Filhos de Francisco".

Aqui o ponto não é vencer. É, apenas, sobreviver às agruras da vida (sim, o filme é lulista: não ataca oligarquias, não culpa ninguém pelos problemas), de uma vida de que se omite justamente a vitória (a vida política e a Presidência estão praticamente ausentes do filme).

Há pontos em comum com "2 Filhos", sem dúvida. O apelo melodramático é comum aos dois filmes, por exemplo. Mas as diferenças são também claras. O pai de "2 Filhos" educa os filhos para o sucesso. A mãe de "Lula", para a sobrevivência. "2 Filhos" é um filme em que se abrem caminhos; "Lula" é o final de uma trajetória.

Não se trata de um juízo de valor. "Lula" começou a ser feito em 1964 com o nome de "Vidas Secas". Luiz Carlos Barreto, pai do diretor Fábio Barreto (que sofreu grave acidente de carro no Rio no último dia 19), fotografou magnificamente o filme de Nelson Pereira dos Santos sobre a família de retirantes que desce a pé de um Nordeste miserável e atingido pelas secas. Nelson Pereira dirigiu esse filme-marco do cinema novo, isto é, algo que via o cinema como maneira de mostrar e pensar o país, de revelá-lo, mas também de transformá-lo.

Um filme de pequeno público (desses que repugnam a nossa atualidade mercadista) e um clássico.

Feito para o êxito

Quarenta e cinco anos depois, "Lula" repete a rota Nordeste-Sudeste. Como farsa, naturalmente. Pois não existe nada a mostrar, exceto uma saga pessoal. Não existe nada a transformar ou a revolucionar. O filme se dá por feliz de envolver e comover o espectador.

Para tanto, o diretor Fábio Barreto serve-se do recurso mais habitual do cinema brasileiro atual: a linguagem arcaica, fundada na representação clássica, que o cinema mundial utilizava 60 ou 70 anos atrás. Luiz Carlos Barreto, nordestino e produtor deste filme, parece considerar encerrado o ciclo nordestino, ao menos o seu.

Da trágica saga da família retirante de "Vidas Secas", passamos ao retirante vencedor (se, no filme, Lula é sobretudo um sobrevivente, é impossível ignorar o chamado "extracampo", no caso a parte da biografia ausente do filme e que, num salto, explode no pós-final), e vencedor graças à bravura indômita de sua mãe.

Mudou o país? Há um caminho aí que não se pode ignorar, em todo caso. Mudou, é certo, no cinema. Do inquieto "Vidas Secas", passamos ao conformismo satisfeito, à imagem acadêmica, ao drama "emocionante" (quer dizer: que chora por nós), a "Lula".

Não é um filme de campanha, em princípio. Mas é um filme feito para o êxito, como as campanhas políticas. Desculpe, eu sou mais "Vidas Secas".

LULA, O FILHO DO BRASIL

Direção: Fábio Barreto.
Produção: Brasil, 2009
Com: Glória Pires, Rui Ricardo Diaz, Cleo Pires e Juliana Baroni
Onde: Unibanco Arteplex Frei Caneca, Cine Bombril, Cine Tam e circuito
Classificação: 12 anos
Avaliação: ruim

ELIANE CANTANHÊDE

Os caras e as caras de 2010

BRASÍLIA - Acabou a brincadeira. Em 2010, é guerra. Guerra que os tucanos querem que seja entre Dilma Rousseff e José Serra e que os petistas forçam para ser entre os governos Lula e FHC. Ou seja: a oposição tem o candidato mais forte, e o governo, o melhor discurso.

O foco da eleição não está em nenhum dos candidatos. Está em Lula, um ex e futuro candidato, cheio de manha, de soberba, de garra, com o controle da campanha de Dilma, manipulando o futuro de Ciro Gomes, constrangendo a sua ex-ministra Marina Silva e mirando FHC para ricochetear em Serra.

Lula disputou em 1989, 1994, 1998, 2002 e 2006. Perdeu três, ganhou duas e faz um grande teste nesta sexta vez em que subirá ao palanque, não mais como candidato, mas como padrinho. Se Dilma vencer, ele poderá estar novamente encabeçando uma chapa em 2014. Se ela perder também.

Mas não custa fazer justiça neste primeiro dia de um ano tão eletrizante: o elenco de candidaturas é mais que um sinal; é uma prova de quanto o Brasil vem evoluindo desde os anos 1980, antes mesmo do início formal da redemocratização.

Serra, Dilma, Marina e, menos um pouco, a incógnita Ciro (que queria tudo e pode ficar sem nada) têm credenciais, história, imagem limpa e experiência administrativa, representam ideias e setores.

São, enfim, bons candidatos. O eleitor tem produtos de qualidade na prateleira, terá tempo para analisá-los, confrontá-los e escolher qual será melhor para o país de hoje e para o país de amanhã.

Só não esqueça que serão eleições gerais, hora de votar em governadores, senadores e deputados federais e estaduais, aqueles que, ou vão empurrar o Brasil e os brasileiros para frente, ou vão continuar assombrando o país com seus castelos, panetones, cuecas e escândalos. Você decide.
Ótimo ano, bom voto!

elianec@uol.com.br