terça-feira, 29 de dezembro de 2009



29 de dezembro de 2009 | N° 16200
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Para não esquecer

Recebo de presente uma foto do Château d’Eau e com ela uma torrente de lembranças. Para quem não sabe o que esse nome francês significa – a tradução literal é Castelo d’Água – esclareço que designa o principal dos símbolos de Cachoeira.

Nova York tem o Empire State Building, Paris tem a Tour Eiffel e minha terra tem o Château d’Eau. Para descrevê-lo em poucas linhas, direi que é outra torre, no centro do que é uma das mais belas esplanadas urbanas do Rio Grande do Sul. Não sei se existe algo sequer parecido em qualquer outra cidade gaúcha, para ficar apenas dentro de nossos limites.

Em síntese, é um monumento que se ergue sobranceiro no âmago de três praças – uma delas a sua própria. É cercado por altas palmeiras em um primeiro círculo. Logo, mais à distância, pela Catedral, pela velha Prefeitura, que é de 1864, pelo antigo Fórum e pelas duas outras praças, uma delas contendo o busto em bronze de meu pai.

Há algo de majestoso em toda a construção, a começar pelo lago que a cerca, pelas quatro pontes que o atravessam, pelas estátuas das Musas dispostas ao seu redor e pela do deus Mercúrio, bem ao alto, erguendo seu tridente para o infinito.

Algumas de minhas mais inesquecíveis recordações da infância confluem para o Château d’Eau. Aqui estou eu com meses lançando um olhar sonhador quem sabe para os peixes, que em uma época eram sonolentas carpas, que em outra se travestiram de vermelho e de dourado. Aqui estou eu com pessoas que há séculos já me disseram adeus.

Aqui estou eu com meus filhos, talvez tentando explicar-lhes o que aquela torre representava para mim.

E há este instantâneo da adolescência, em que apareço junto a uma namorada. Há algo de levemente solene na cena. Minha amada senta-se na grama e a cerca seu vestido bordado. Há em seu rosto um traço de tênue apreensão. Será um rompimento? Será uma simples declaração de amor?

Não sei dizer. Sei tudo sobre estas praças e os caprichosos desenhos de seus gramados. Sei tudo sobre a Prefeitura, personagem de um conto meu. Sei tudo sobre a estátua de meu pai, sobre o Fórum, sobre o prédio da escola onde antes havia um teatro ancestral que desabou. Sei tudo sobre a Catedral, e os atentados que se cometeram contra a riqueza de seu interior.

Só nada sei sobre o instantâneo do gramado. Vai ver que a cena era apenas como um raio em céu sereno.

Uma linda terça-feira para vc. Esta que é a última de 2009. Aproveite


29 de dezembro de 2009 | N° 16200
CLÁUDIO MORENO


O pai e o filho

Se pudesse escolher, Ulisses não teria ido a Troia com o exército grego. Partir para a Ásia, bem agora que Zeus tinha abençoado seu pequeno reino com um ano de fartura?

Os rebanhos da ilha tinham se multiplicado, as videiras prometiam vinho abundante e os figos estavam mais doces do que nunca - e Penélope, sua rainha, tinha lhe dado um filho, o pequeno Telêmaco, que viera encher os seus dias com uma alegria e uma ternura até então desconhecidas. Ulisses sentiu-se o mais feliz dos mortais, mas sabia que os ventos da guerra, que agitavam a Grécia inteira, logo viriam alcançá-lo.

Por isso, quando vieram buscá-lo, resolveu resistir; mesmo que seu renome ficasse abalado, não ia sair de Ítaca. Um oráculo havia predito que a luta ia durar muitos anos, e não havia compromisso de honra que o fizesse abrir mão de ver seu filho crescer, de lhe ensinar tudo o que um menino precisa aprender para se tornar um homem – assim como Laertes, seu pai, havia feito com ele.

A saída era fingir-se de louco: vestiu roupas esfarrapadas, atrelou ao arado um boi e um jumento, e se pôs a lavrar o campo com aquela junta esquisita, enchendo os sulcos com sal, em vez de semente.

Ao vê-lo naquele estado, os emissários já se dispunham a voltar ao navio quando um deles, desconfiando da farsa, tirou o bebê dos braços da mãe e o colocou no solo, a poucos metros do arado. Como imaginava, Ulisses pôs toda sua força nas rédeas e conseguiu desviar os animais do caminho do bebê - e assim, por amor ao menino, para protegê-lo, traiu seu disfarce, reconheceu sua desonra e foi obrigado a cumprir seu juramento de lealdade para com os outros chefes.

Perdeu dez longos anos em Troia, e mais outros dez no caminho de volta - mas em nenhum momento, nesses vinte anos de ausência, Telêmaco ficou sem pai; ao contrário, cresceu com orgulho de ser o filho de um homem que o amava tanto que, por ele, tinha se disposto a enfrentar a morte.

Esta história ancestral de um pai que procura o filho – e vice-versa – vem tocar uma corda muito sensível na alma masculina, e não admira que a maior parte dos homens se posicionou, no caso do menino americano, a favor do pai e do direito que ele tem de criar o pequeno Sean.

É mais do que humano o desespero da avó brasileira, que tem no neto a lembrança da filha que perdeu – mas, quando a tristeza diminuir, alguém deve lembrar-lhe que a verdadeira, a boa mãe da história de Salomão foi aquela que, para salvar o seu filho, estava disposta a deixá-lo ir embora.

Essa é a dinâmica da vida: o médico corta o cordão umbilical para que o bebê possa viver, e aquilo que ele faz com o corpo, o pai vai fazer com o espírito.

E que a vovó não se preocupe: Sean, a quem ela deu tanto amor, não vai deixar de voltar para abraçá-la com aquele sorriso em que talvez ela enxergue, mais uma vez, o sorriso da filha querida. Ele continua seu neto - mas, agora, como um homenzinho.


29 de dezembro de 2009 | N° 16200
PAULO SANT’ANA


Luminosa ideia

Enfim, uma grande ideia para resolver um grande problema.

Como se sabia, as grandes favelas cariocas estavam e estão dominadas por traficantes.

A polícia não punha os pés lá. De repente, o governador Sérgio Cabral teve a ideia de ocupar as favelas com a polícia.

O caos dava-se exatamente pelo Estado virar as costas às favelas e deixar que elas se organizassem (ou se desorganizassem) por si próprias.

Luminosa ideia esta de criar Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) para tomar de assalto os redutos dos traficantes nas favelas.

Por essa medida, instala-se permanentemente uma unidade policial vasta dentro da favela e vai aos poucos reduzindo-se o tráfico de entorpecentes naquele território.

Evidentemente que são necessários muitos recursos humanos e materiais para implantar o plano.

No entanto, já vão lá para sete grandes favelas as ocupadas pela polícia. E os resultados são os mais auspiciosos possíveis.

Um dia após o Natal, os policiais do Bope ocuparam o Morro dos Cabritos e a Ladeira Tabajara, em Copacabana.

Oitenta policiais ocuparam as duas favelas. Havia três dias, os PMs aguardavam nos acessos aos dois morros o momento exato de início da ocupação para evitar uma reação do tráfico. No sábado, por volta das 7h, finalmente, eles começaram a ocupação.

Não houve resistência à chegada dos policiais. Não foram ouvidos tiros e a situação era de aparente tranquilidade. Logo em seguida, eram vistos moradores descendo o morro com suas cadeiras de praia.

Já quando, há semanas, a polícia ocupou os morros de Pavão-Pavãozinho e do Cantagalo, Copacabana e Ipanema, foi desencadeada forte reação por parte de traficantes, espalhando-se ações terroristas pelos dois bairros, um ônibus foi incendiado e outro atingido por uma bomba artesanal. Por ordem de traficantes, lojas nas imediações de Pavão-Pavãozinho foram fechadas.

Mesmo com a reação, a chegada da polícia às favelas foi comemorada pelos moradores.

A ocupação da Unidade de Polícia Pacificadora no alto do Cantagalo teve a presença pessoal do governador Sérgio Cabral, num ambiente de solenidade, a que não compareceram, no entanto, as entidades comunitárias: a polícia descobriu que tinham sido ameaçados de morte pelos traficantes todos os que comparecessem ao evento ou fossem favoráveis à implantação da UPP.

Embora ainda encontre um pouco de resistência do tráfico na Favela Cidade de Deus, onde a UPP foi instalada há um ano, não circulam mais por lá traficantes armados, e quase toda semana a polícia apreende drogas e prende suspeitos.

E nas outras favelas em que se instalaram as Unidades de Polícia Pacificadora é experimentado um período de muita tranquilidade e serena paz.

Na favela Dona Marta, os índices de violência despencaram. Lá que foi a primeira UPP implantada.

No Batan, em Realengo, a UPP expulsou milicianos. E, nos morros de Chapéu Mangueira e Babilônia, pôs-se fim a uma onda de invasões e arrastões que infernizava a vida do bairro Leme.

Isso demonstra que, quando as autoridades têm energia e determinação ao aplicar medidas criativas contra o tráfico e a violência, os resultados podem ser os melhores possíveis.

O esforço é gigantesco, mas surge a luz no fim do túnel do abandono e violências das favelas cariocas.


29 de dezembro de 2009 | N° 16200
MOACYR SCLIAR


A agulha como símbolo

Como o Sant’Ana tem comentado, o ano está terminando sob o signo dessa estranha e perturbadora história das agulhas. Primeiro foi o menino da Bahia, e depois o menino do Maranhão, e mais adiante uma gaúcha de 42 anos que tem 12 agulhas no corpo, resultado da brutalidade de um ex-companheiro. Mais: quando se entra em sites médicos, verifica-se que casos semelhantes não são raros.

Encontramos o relato de uma mulher chinesa em cujo corpo foram descobertas – por acaso, durante um exame radiológico – várias agulhas. Resultado, supõe-se, da frustração dos avós com o nascimento da menina: na China, como se sabe, casais podem, em geral, ter um filho só, e torcem para que seja do sexo masculino.

No Hospital Geral de Teerã, foi recentemente operada uma mulher de 36 anos que tinha uma agulha no coração; de novo, resultado de violência marital. Os autores deste último artigo encontraram na literatura quase 200 casos de lesões cardíacas causadas por agulhas; e isto, obviamente, é apenas o topo do iceberg.

A agulha de costurar é um objeto milenar. Serve até de metáfora no Evangelho: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus” ( o “camelo”, a propósito, resulta de um erro de tradução da palavra grega “kámilos”, que significa corda grossa). Muito cedo a agulha foi incorporada à cultura, seja por sua utilidade, seja por seu aspecto simbólico.

Agulhas passaram a ser instrumentos de um tratamento, a acupuntura, mas também entraram em procedimentos mágicos, como é o caso do rito vodu, que veio da África e é praticado no Haiti e em outros países: trata-se de enfiar agulhas num boneco que representa a pessoa a quem se quer prejudicar.

Daí a usar seres humanos vai apenas um passo, facilitado pelo fato de que, diferente do alfinete, a agulha não tem cabeça (nem, a propósito, as pessoas que praticam esse bárbaro rito).

É muito fácil enfiar agulhas no corpo de alguém; sumirão (lembrem-se da expressão “agulha no palheiro”) e praticamente não deixarão marcas externas. Além disso, as agulhas, por sua forma, lembram minúsculos punhais, o que para gente agressiva deve ser um apelo. Sem falar na simbologia fálica da penetração.

Mas a violência desgosta a muitas pessoas, inclusive praticantes do vodu. Por isso, surgiu na internet um site que se propõe a realizar o rito sem usar agulhas (ou alfinetes, ou bonecos). A pessoa inscreve-se ali e fornece o nome de sua potencial vítima.

Esta receberá um e-mail do site avisando que foi amaldiçoada; para saber em que consiste a maldição, terá de clicar num link, e aí verá uma efígie que supostamente a representa – crivada de agulhas.

Se o progresso não acaba com a superstição, pelo menos a torna menos perigosa. Sinal de que, apesar de tudo, o mundo melhora, não é mesmo? Feliz 2010.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009



O que entristece o meu coração...

Entristece o meu coração...
perceber que as pessoas
perdem a oportunidade de serem felizes.

Entristece o meu coração...
perceber que para ser aceitos pelas pessoas
temos que ter e não importa o ser

Os anos passam, e essas pessoas
esqueceram do mais importante :
Viver e ser feliz .

Às vezes, para ser feliz,
não precisamos de tanto TER.
Podemos nos dar conta que o
mais importante na vida é SER.

Esse SER, tão esquecido, muitas vezes
não é difícil de se realizar.
As pessoas precisam parar de correr atrás do TER
e começar a correr atrás do SER:
Ser amigo...
Ser amado...
Ser gente...
Ser humilde...
e deixar pra trás esse roupante, esse orgulho
e essa vaidade que destrói toda uma relação
de admiração e respeito

Tenho certeza de que, quando SOMOS,
somos muito mais felizes do que quando TEMOS.
O SER leva uma vida toda para se conseguir,

e o TER, muitas vezes conseguimos logo.
Só que o SER não acaba e nem se perde,

mas o TER pode terminar inesperadamente.
O SER, uma vez conseguido, é eterno

e o TER é passageiro e,
mesmo que dure muito tempo,
pode não trazer a FELICIDADE.
E aí vem o vazio da alma.

Entristece o meu coração...
perceber que os valores éticos e morais
que um dia foram transmitidos deixaram de ter importância.

Nesta sociedade passamos a conviver com algo
que fere os nossos princípios onde se mercadoriza amor,
relações afetivas, o sentimento, a vida,
até a justiça, a igualdade, o sonho e a utopia.

Tentemos SER de verdade e não fiquemos
escondidos atrás de máscaras conforme as situações.

Sejamos verdadeiros e justos com aqueles
que nos ama de verdade, somente assim
poderemos sentir o verdadeiro sabor de
uma felicidade sem preço, sem hipocrisia.

Fiquem em paz e busquem essa paz
em seus corações com justiça e amor,
com perdão e humildade.
Sejamos verdadeiramente felizes

Desculpe o dasabafo, mas alivia o meu coração
e me dá forças para continuar a caminhar
por este caminho que eu escolhi
e acredito que me leva em direção
a luz que todos nós buscamos.

A força divina me acompanha e me direciona
a cada dia e mostra o caminho a seguir com amor,
com respeito, com dignidade e com compaixão
e me faz seguir em frente mesmo
com o coração entristecido.

O bálsamo está em acreditar não somente
no amor verdadeiro independente de raça,
credo e condição social, mas na essência
que cada um traz, na força maior que nos irmana
como filhos de um Pai amoroso e justo.

É isto que eu busco para minha vida,
ser cada vez melhor, para um mundo melhor.

Sejamos felizes!!!!!!
Um feliz 2010!


Sonhe

Um dia uma criança chegou diante de um pensador e perguntou-lhe:

”Que tamanho tem o universo?

”Acariciando a cabeça da criança,ele olhou para o infinito e respondeu:

”O universo tem o tamanho do seu mundo.”Perturbada,ela novamente indagou:”Que tamanho tem meu mundo?

”O pensador respondeu:

”Tem o tamanho dos seus sonhos.”

Se seus sonhos são pequenos, sua visão será pequena, suas metas serão limitadas, seus alvos serão diminutos, sua estrada será estreita, sua capacidade de suportar as tormentas será frágil.

Os sonhos regam a existência com sentido.

Se seus sonhos são frágeis, sua comida não terá sabor, suas primaveras não terão flores, suas manhãs não terão orvalho, sua emoção não terá romances.

A presença dos sonhos transforma os miseráveis em reis, faz dos idosos, jovens, e a ausência deles transforma milionários em mendigos faz dos jovens idosos.

Os sonhos trazem saúde para a emoção, equipam o frágil para ser autor da sua história,
fazem os tímidos terem golpes de ousadia e os derrotados serem construtores de oportunidades.

Sonhe!"

Augusto Cury

RUY CASTRO

Vale das bolinhas

RIO DE JANEIRO - Brittany Murphy, a atriz americana encontrada morta na semana passada em sua casa, em Los Angeles, aparentemente de um ataque cardíaco, tinha 32 anos.

Muito jovem para morrer assim, e sem qualquer aviso prévio. Mas, para nenhuma surpresa deste departamento, encontraram em seu quarto um vasto suprimento de analgésicos, ansiolíticos, antidepressivos, soníferos e antibióticos.

Quando se fala em vasto suprimento, no caso de artistas do cinema ou da música popular, isso significa uma quantidade quase inconcebível para os amadores que já não conseguem passar sem o seu Lexotanzinho diário.

São dezenas, centenas de caixas -milhares de comprimidos, conseguidos através de receitas em nome próprio, no nome da mãe, da amiga, da empregada ou de quem quer que seja. Afinal, são remédios "controlados".

A polícia de Los Angeles apressou-se em decretar que a morte de Brittany se deu por "causas naturais". Ou seja, não foi acidente, assassinato ou suicídio, e também não se encontraram drogas ilegais. Mas até que ponto pode-se considerar "natural" uma morte provocada pelo massacre químico diário do organismo durante anos?

Por algum motivo, as pessoas resistem a admitir que muitos desses remédios pesadíssimos, que os profissionais acham mais fácil prescrever do que retirar, acabam estabelecendo dependência e, pelo renitente bombardeio, podem levar à morte por simples cansaço precoce do organismo.

Não deve ser por acaso que Carmen Miranda (morta aos 46 anos, em 1955), Marilyn Monroe (aos 36, em 1962), Judy Garland (aos 47, em 1969), Elvis Presley (aos 42, em 1977), Michael Jackson (aos 50, em junho último) e, agora, Brittany Murphy, entre muitos outros, tivessem em comum um armário cheio de comprimidos.

MOACYR SCLIAR

Resoluções de Ano Novo

E também prometi à minha mulher que teríamos um filho. Ser mãe era o sonho dela. Mas não era o meu

A Microsoft fez uma página com uma planilha para manter as resoluções de Ano Novo.
Folha Informática

"PREZADO AMIGO ladrão: em primeiro lugar, quero cumprimentar-lhe pela esperteza. Você entrou em minha casa no momento certo. Vivo sozinho e raramente saio, mas aquela era uma noite especial, como você já verá, e assim decidi jantar num restaurante. Lá passei algumas horas: o suficiente para que você arrombasse a porta e fizesse uma limpa geral.

Entrarei no Ano Novo com um prejuízo que não é pequeno. Tudo bem, é a sua profissão, não reclamo.

Providenciarei novas roupas, novos eletrodomésticos, um novo cofre para substituir aquele que você carregou e que felizmente estava vazio. Isso não me incomoda, amigo ladrão. O que me aborrece foi você ter levado meu laptop.

Este laptop, como você certamente notará, se se der ao trabalho de ligá-lo, é novo e não continha quase nada. Só uma planilha. Que você não entenderá, mas que para mim tinha uma importância fundamental.

Nesta planilha estavam as resoluções para o Ano Novo que se aproxima. Agora: por que esta planilha era tão importante para mim? Por uma razão muito simples, amigo ladrão: como muitos, sempre prometi a mim mesmo mudar de vida no novo ano.

E, como muitos, eu não cumpria essas promessas -que, apresso-me a dizer, nada tinham de extraordinário. Eu prometia, por exemplo, deixar de fumar. Prometia fazer exercício físico. Prometia aderir a uma dieta que me fizesse perder o excesso de peso. Prometia deixar de jogar.

Durante anos fiz essas promessas à minha ex-mulher. E também prometi que teríamos um filho. Ser mãe era o sonho dela. Mas não era o meu sonho, devo dizer. Sou empregado, ganho pouco, e queria melhorar de vida antes que constituíssemos uma família.

Ela não dizia nada, sofria em silêncio, mas seguramente deve ter chegado à conclusão de que eu não tinha jeito mesmo. No ano passado, depois da festa de Ano Novo, acordei com a cabeça doendo e sozinho em casa. Ela tinha ido embora. Deixara um bilhete, declarando-se cansada das promessas não cumpridas.

Sofri muito por causa disso. E fui obrigado a reconhecer que tinha de mudar. Mudar em relação às coisas que a aborreciam, o cigarro, o sedentarismo, a obesidade, o jogo. Foi aí que li sobre a planilha das resoluções de Ano Novo. E aquilo renovou minhas esperanças.

Sempre confiei na tecnologia, na informática. Eu teria minha lista no computador, que seria programado para me dirigir mensagens de alerta: "Você ainda está fumando!" , "Você ainda não se matriculou na academia!" e assim por diante. Preenchi a planilha e fiquei tão feliz que saí para comemorar, mesmo sozinho. Sorte sua.

Agora, não existe mais planilha alguma. Você levou meu computador e, com ele, minha motivação. Mas pelo menos atenda a um especial pedido.

Faça uma cópia dessa planilha, amigo ladrão, e mande-a à minha mulher (na própria planilha estão o e-mail e o endereço dela). Dê o seu testemunho de que eu estava a ponto de mudar, pronto para recomeçar a vida com ela.

Com o que eu não apenas lhe perdoarei como ficarei muito agradecido. PS: Feliz Ano Novo."

MOACYR SCLIAR escreve nesta página, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha.


28 de dezembro de 2009 | N° 16199

ABALO NA SERRA

Terra volta a tremer em Caxias do Sul

Tremores de terra voltaram a ser sentidos entre a noite de sexta-feira e a madrugada de sábado em Caxias do Sul.

Moradores do bairro Jardim América acordaram assustados com estrondos e portas trepidando entre 22h e 6h. Nenhum estrago foi registrado. Conforme um especialista, o fenômeno, a exemplo do que ocorreu em 2008 na zona norte da cidade, é normal.

Morador da Rua México, o tintureiro Gilmar Biegelmeyer, 48 anos, conta que acordou por volta das 23h com estrondos. Ele e a mulher, Margarete, 45 anos, saíram para a rua, assim como a maioria dos vizinhos. No início, Biegelmeyer chegou a pensar que fosse um ladrão arrombando a casa e saiu com um pedaço de madeira na mão como arma. Por volta das 5h, a família novamente voltou para a rua por causa de estrondos.

– Foi apavorante. Nunca vi coisa igual. Não sei se foi terremoto, mas alguma coisa aconteceu – relata.

Os bombeiros foram ao bairro ouvir os moradores. O caso será investigado pela Defesa Civil e prefeitura.

Em 10 de novembro de 2008, moradores de diversos bairros de Caxias foram surpreendidos por tremores. Em outras ocasiões, entre 2005 e 2007, em 1984 e em 1979, também foram registrados relatos de abalos de terra na cidade. Conforme o geólogo e diretor-geral da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma), Nerio Jorge Susin, não há motivo para preocupação:

– O pessoal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que esteve em Caxias em anos anteriores, constatou que não há uma origem específica para isso. O que existe é o movimento da crosta da Terra, que tem reflexos na superfície. São abalos normais, que ocorreram e que vão ocorrer novamente. Mas não dá para prever quando.

Conforme ele, os caxienses não precisam temer estragos maiores:

– Os moradores vão se assustar. Mas não vai ocorrer nada de diferente do que há um ano, ou do que ocorreu agora. Estamos numa região alta, com grande quantidade de rochas no subsolo e com espessura do solo não tão grande, o que faz com que os tremores sejam sentidos.

Uma gostosa semana para você. Aproveite esta que é a última de 2009


28 de dezembro de 2009 | N° 16199
KLEDIR RAMIL


Autobiografia não autorizada

Resolvi escrever minha autobiografia. Como há passagens na minha vida que eu só lembro de ouvir falar, decidi que seria uma autobiografia não autorizada. Não posso assinar embaixo de todas as histórias que contam a meu respeito. A maioria deve ser mentira. Principalmente as histórias dos anos 70, década que consegui atravessar não me pergunte como.

Pensei em começar contando a noite em que dormi com três mulheres. Foi no berçário da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, onde dormi com duas recém-nascidas e uma enfermeira. Dessa noite inesquecível, ficaram alguns conceitos que carrego pela vida inteira.

O primeiro deles é que as mulheres gritam mais que os homens. O segundo, que as enfermeiras são pessoas carinhosas. Lembro também de ter enxergado seios, mas não tenho certeza se eram de verdade ou, mal começando a viver, eu já estava sonhando.

A vida foi avançando e me transformei em um sonhador compulsivo, pois no mundo da imaginação eu acumulava conquistas que a realidade não me permitia. Lembro que fui astronauta.

Andei pelas galáxias sem me preocupar com detalhes técnicos como foguetes e tubos de oxigênio. Fui Gary Cooper, fui Johnny Weissmuller, fui Frank Sinatra e fui até meu próprio pai, com seu bigode, óculos Ray-Ban e uma técnica refinada na condução do volante da Ford F100.

Fui um amante latino, desses que enlouquecem as mulheres e, como a vida é uma via de mão dupla, uma delas acabou desequilibrando minha saúde mental. Aprendi a reciclar meus delírios e comecei a escrever, com o ouvido interno, canções de amor em que o nome da musa Greta Garbo aparecia subentendido nas entrelinhas musicais.

Peraí, acho que avancei rápido demais para quem pretende escrever um livro de 600 páginas. Nem contei o batizado, os primeiros passos e minha primeira palavra: hipérbole. Isso mesmo, uma proparoxítona.

Assustados com o fenômeno, com o que poderia ser uma criança extraordinária, talvez um gênio da matemática ou a nova encarnação de um Lama Tibetano, meus pais chamaram o Dr. Chostnoy.

Na falta de um instrumento adequado, o pediatra enfiou um termômetro no meu sovaco para tentar medir o QI. O resultado mostrou 36 e meio, o que deixou uma decepção no ar e evoluiu para uma depressão familiar coletiva. Começaram a me tratar como uma criança estranha, o que não estava muito longe da realidade. (Continua)


28 de dezembro de 2009 | N° 16199
PAULO SANT’ANA


Outro caso com agulhas

Não cessa o sacrifício do menino M.S.A., de dois anos e sete meses apenas, na Bahia.

Ele já foi alvo de duas cirurgias, que lhe retiraram cerca de 20 agulhas do corpo.

Na segunda cirurgia, feita há dias, foram retiradas 14 agulhas dos intestinos, da bexiga e do fígado.

E ainda há mais agulhas para serem retiradas de outras partes mais delicadas de seu corpo.

Além de ser submetido a mais de 40 torturas, cada uma das agulhas infiltradas em seu corpo significava uma sessão de crueldade, agora o menino se submete a cirurgias várias para retirada das agulhas, o que leva ao raciocínio de que essa criança é pequena demais para tantas intervenções.

Não é surpresa, portanto, que, apesar de duas cirurgias bem-sucedidas, o estado de saúde do garoto ainda seja considerado grave.

Eu insisto neste assunto porque não posso ignorar o sofrimento dessa criança. Inocente, indefesa, viu cair sobre si pesadamente a mão do destino, que a submeteu a incontáveis torturas, cujas consequências persistem, apesar de ter sido libertada das mãos assassinas de seu padrasto, que durante meses a fio cravou as agulhas no corpinho da criança.

Que carnificina! Como pode um corpinho frágil suportar tantas agressões, as agulhas e agora as cirurgias?

Pensava-se que este caso fosse solitário e até se podia imaginar que fosse inédito.

Qual nada! No Maranhão, foi preso na quarta-feira passada o autônomo Francisco Coelho Campos, na localidade de São Vicente Ferrer, como principal suspeito de ter infiltrado sete agulhas no corpo de seu filhinho de apenas dois anos de idade, a mesma idade do menino baiano que foi torturado da mesma maneira.

O suspeito é adepto da magia negra, da mesma forma que se apresentou, sob certa hipótese, o caso baiano.

Além das sete perfurações e incisões das agulhas, o ritual de magia negra a que o menino foi submetido compreendeu também as fraturas de cinco costelas, um braço e uma clavícula do garoto, o que deve ter causado na criancinha dores indizíveis.

Mesmo familiares do pai da criança, agora preso sob a acusação dos crimes, admitem que ele é adepto da magia negra. Notando-se, assim, que criminosos cruentos tentam se passar por religiosos.

Mas que religião é essa que enfia agulhas no corpo de uma criança. Não satisfeita, ainda provoca fraturas em cinco costelas, no braço e na clavícula de um menininho? Que religião é essa?

Como se fosse permitido a qualquer religião submeter pessoas a suplício, quando o fulcro central de uma religião deve ser o bem, jamais a agressão a qualquer adulto, quanto mais a uma criança de dois anos.

Em ambos os casos, o da Bahia e o do Maranhão, os dois acusados são pessoas analfabetas, rudes, distantes da civilização, mas isso não os exime de culpa.

Mas não basta a ignorância sobre o ato para compreendê-los. E a maldade? Não há ignorância que possa, na mente de uma pessoa, exceder ao escrúpulo sobre a maldade. Torturar alguém é fato que não pode justificar qualquer prática satânica, isto é crime puro, sem qualquer atenuante.

São dois fatos que revelam com extrema crueza o grau de falta de educação e civilização, a mais completa, em que vegetam populações brasileiras.

Mas isso não autoriza nem de longe a alguém martirizar uma criança.


28 de dezembro de 2009 | N° 16199
L. F. VERISSIMO


2009 tchau

Opai do ano foi o presidente do Paraguai e ex-bispo Fernando Lugo, que reconheceu a paternidade de todos os filhos que disseram que eram seus, inclusive alguns mais velhos do que ele.

As voltas do ano: Ronaldo ao Corinthians, Adriano ao Flamengo e Collor ao noticiário.

Madonna esteve no Brasil e namorou um Jesus. A relação, imagina-se, foi ainda mais ardente pela sugestão de incesto.

Entreouvido na Itália:

– Atiraram o Duomo de Milão no Berlusconi.

– Oba!

– Era uma miniatura.

– Ah...

Moda do ano: meias elásticas “DEM”, para carregar propina.

Cineasta do ano: Durval Barbosa.

Mãe do ano: o governo americano, que deu bilhões para grandes bancos americanos não quebrarem, com a recomendação de não gastarem tudo em gratificações de fim de ano.

Mão do ano: a do Henry Thierry.

Ivete Sangalo engravidou. Fernando Lugo apressou-se a declarar que não esteve nem perto da cantora.

Barack Obama tomou posse como o primeiro presidente quênio-havaio-americano dos Estados Unidos, e provavelmente o último.

Barack Obama recebeu o prêmio Nobel da paz numa cerimônia em Oslo. Não é verdade que tenha sido revistado na entrada porque podia estar armado.

O campeão de golfe Tiger Woods revelou-se um sexólatra compulsivo. Piores serão as piadas sobre tacos e buracos que vêm aí.

Buuuu do ano: para os alunos que hostilizaram a menina Geisy numa universidade paulista só porque estava com um vestido curto, para os torcedores do Grêmio que hostilizaram jogadores do seu time por terem se esforçado contra o Flamengo, para o Piquet que simulou um acidente a pedido no Grand Prix de Cingapura, para o Ahmadinejad e para a gripe suína.

Fernando Lugo, explicando seus filhos, disse que tudo se deve à restrição da sua igreja ao uso da camisinha.

domingo, 27 de dezembro de 2009


IGOR GIELOW

Nós contra eles

BRASÍLIA - Com 2009 moribundo, uma avalanche de análises da era Lula é previsível. O problema é que toda essa avaliação será contaminada pela campanha, na qual Lula fará de tudo para eleger Dilma Rousseff, sua Medvedev de saias. E a real qualificação dos acertos e erros dos oito anos do petista será embotada, de lado a lado, pela aposta no "nós contra eles".

É do jogo. Mas é notável como esse clima ácido que se anuncia carrega também uma das marcas indeléveis desses oito anos: o estímulo à cultura divisionista da sociedade.

Curiosamente, Lula foi eleito com um discurso conciliador ("Carta ao Povo Brasileiro", José Alencar na vice). No poder, a acomodação pragmática (manutenção da política econômica) e a dissolução moral (mensalão e alianças com os Judas de ocasião) reforçaram a ideia de um grande pacto.

Mas tudo isso é permeado pela virulência ressentida contra "os outros". Amparado pela enorme popularidade, Lula levou sua logorreia a níveis inéditos. O palavrão no palanque não é detalhe, é ato falho traindo o ethos do poder lulista.

Com a oposição catatônica, é de se esperar um novo patamar de agressividade a fim de liquidar o jogo rapidamente. Caso haja reação, será no mesmo nível. Em qualquer cenário, não será bonito de ver.

O fim do ano traz à tona uma opressora atmosfera de felicidade obrigatória. Aqueles de sorriso menos fácil ficam então acuados, estigmatizados pelo crime de não compartilhar o otimismo compulsório dos dias -tão ao gosto vigente.

Deixo para eles, e também para todos os outros, meu desejo de que possam emular o espírito do Natal de 1914 em algum ponto perdido da Europa.

Que saiam, por um momento que seja, das trincheiras da frente ocidental que todos carregamos em nós. E que, ao longo de 2010, possam celebrar diariamente a lembrança desse instante.
igor.gielow@uol.com.br

CARLOS HEITOR CONY

Homens & mulheres

RIO DE JANEIRO - Talvez seja um machismo light que tenho encruado dentro de minha formação ou desinformação: não aprecio a mudança que a igreja introduziu no cântico do "Gloria", alterando a expressão "glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade".

Afinal, o canto litúrgico em latim repete a saudação dos anjos que anunciaram a Boa-Nova aos pastores de Belém e que está até hoje no Evangelho de Lucas: "homens de boa vontade".

A mudança de certas tradições alterou a bela expressão por uma que tenta incluir as mulheres na saudação dos anjos. É um tipo de modernismo bobo, pois a expressão "Jesus salvador do homens" não exclui as mulheres. Nem a cantata de J. S. Bach, "Jesus, alegria dos homens", pode ser acusada de machista porque não cita as mulheres.

Na onda, os presidentes da República agora não se referem aos brasileiros, mas aos brasileiros e brasileiras. Os parlamentares falam em senador e senadora, deputado e deputada, vereador e vereadora, quando a função é uma só e independe de sexo.

A nobre exceção ficou por conta das poetas, que deixaram de ser poetisas e ficaram poetas mesmo, pois a função de poetar é uma só e independe do sexo para se expressar.

Tenho pavor na academia quando algum colega se refere às mulheres como confreiras ou acadêmicas. A função é masculina por uso e abuso dos povos e não significa necessariamente uma qualidade superior dos homens.

A própria igreja ainda não mudou a a expressão "Memento homo quia pulvis est" ("Lembra-te homem que és pó"). Por que somente os homens são pó e ao pó reverterão?

E o Homo sapiens é também uma forma de machismo? Ora, para ser coerente, as mulheres também tornarão ao pó e há mulheres tão sábias quanto os homens. Ou mais sábias ainda.

FERREIRA GULLAR

Baixo-astral

O melhor mesmo era andar sem rumo, porque, para isso, não precisava buscar razões

NÃO QUE ele pensasse em se matar, mas, se a vida tivesse outra porta, sairia por ela aquela tarde. Era uma tarde de sábado, iluminada de sol, o que o deixava ainda mais arrasado. Nada pior do que um dia lindo, se a vida não parece ter sentido.

Olhou para os móveis da sala: quatro poltronas, uma mesa de centro, uma estante e outra mesa menor com o telefone. Pensou: tanto faz estar aqui, agora, como não estar mais, já que esta sala estaria assim mesmo, quer eu tivesse morrido ou ido à esquina comprar jornal.

Se ao menos o telefone tocasse e alguém lhe dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Até mesmo uma má notícia. Melhor uma notícia má que nenhuma. Mas não, o telefone parecia mudo para sempre, como se já ninguém morasse ali. Na casa dos mortos o telefone não toca mais, pensou. E decidiu sair dali, antes que se atirasse pela janela.

Desceu pelo elevador, cruzou o hall e chegou à rua, por onde passavam grupos de pessoas de calção e maiô, rumo à praia, que ficava a uma quadra e meia de sua casa. As pessoas, na sua maioria, conversavam alegremente e riam, como se vivessem uma outra existência, que não a dele. De onde tiram essa alegria?

Não entendia por que a vida se havia tornado tão destituída de sentido. O mundo estava alegre, cheio de sol, a brisa que vinha do mar brincava nas folhas, era uma festa. A festa que o animava outrora e que, agora, parecia-lhe uma irrisão.

Sem destino certo, foi caminhando, pois isso era a única coisa que conseguia fazer: andar, andar à toa, porque, se se mantivesse parado, como estava dentro daquela sala, alguma coisa terrível ocorreria, ou ele temia que ocorresse.

O melhor mesmo era andar sem rumo, porque, para isso, não precisava buscar razões, já que não encontrava razão para coisa alguma. E assim foi andando, sem razão e sem rumo. O vazio pesava sobre ele com o peso que o nada tem.

A avenida junto à praia escancarava-se à luz da tarde. Lá adiante, a faixa ampla de areia branca reluzia como uma espada. Gente e barracas coloridas derramavam-se por toda a extensão da areia.
Foi então agredido por aquela alegria externa a ele e que, de fato, nada lhe dizia. Caminhava junto aos prédios, cuja sombra o protegia do sol.

À porta da garagem de um deles, uma mendiga, aboletada entre dois sacos imundos, cheios de latas e pedaços de isopor, ocupava-se em costurar um pano imundo, que parecia uma blusa. Feliz de quem encontra sentido em costurar um pano sujo. As coisas só têm o sentido que lhes atribuímos, não importa se é um trapo achado no lixo.

E seguiu em frente, sem se deter, porque um homem se aproximava puxando dois cães de aparência feroz pela coleira. Eles ladravam e ameaçavam avançar sobre as pessoas. Afastou-se sem pressa, quase indiferente à fúria dos animais.

Adiante foi despertado de sua encucação por um casal de jovens, que o abordou sorridente. Eram de São Paulo e queriam ser fotografados em frente ao Copacabana Palace. O rapaz entregou-lhe a minúscula máquina fotográfica, postou-se abraçado à companheira. Batida a foto, os dois agradeceram a gentileza e se foram, enquanto ele continuou seu caminhar sem destino.

Ao chegar à esquina da rua Prado Júnior, depois de muito andar, parou um instante para descansar um pouco e se deu conta de que, no edifício em frente, há muitos anos, morara uma artista plástica, que costumava reunir amigos em seu apartamento, ali, no oitavo andar, para lhes mostrar seus trabalhos. Tornara-se, mais tarde, um nome internacionalmente conhecido.

E agora, quem moraria no apartamento? Algum dos filhos ou uma família desconhecida, que nada sabia do que ali se passara? As paredes não guardam nada do que se vive entre elas; só na mente das pessoas o passado persiste, pensou e cruzou a rua noutro tempo que aquele em que caminhava.

Ia em direção ao Leme e, por isso, decidiu parar. Haveria lembranças demais dali para adiante. Atravessou as pistas em direção ao calçadão até defrontar-se com o panorama de areia e mar, onde o presente o inundou.

Uma lufada de sol e brisa trouxe-o do fundo de si para o fervilhar da vida, da agitação vesperal que ocupava o mundo, onde ciclistas, crianças, moças, meninos, gente de muitas cores e tamanhos circulavam, falavam, tomavam água de coco. De novo o passado tentou se insinuar para outra vez lançá-lo no vazio e no desespero. Mas não conseguiu.

Abriu a camisa, tirou os sapatos e, com eles nas mãos, caminhou sobre a areia frouxa em direção ao mar. O mar azul e atual, que o fez de novo sorrir para a vida, sempre recomeçada. Mar azul, barco azul, ar azul.

DANUZA LEÃO

Os melhores tempos

Um telefonema inesperado, só para dizer que está com saudades, pode encher de alegria o coração

ÀS VEZES fico pensando: quais foram os melhores anos de minha vida? E você, pensa nos melhores da sua? Onde você estava, o que fazia, para que esse tempo tenha sido eleito por você como o mais inesquecível, entre tantos?

Não é fácil. Existiram tempos maravilhosos porque você estava em Paris ou Veneza; outros, tão maravilhosos quanto, numa praia do Ceará, nos tempos em que não tinha nenhuma responsabilidade; outros quando assumiu a primeira, com a chegada do primeiro filho. Pensando bem, foram muitos, diferentes e maravilhosos. Houve também os ruins e os muito ruins, mas esses são para guardar no fundo do coração, são só nossos e não se divide com ninguém.

Os bons tempos foram tão bons, e tantos, que fica difícil escolher. Seria quando você estava tão apaixonada -uma das vezes em que esteve apaixonada? Não, positivamente não.

Como se sofre quando se está apaixonada. A fragilidade de quem ama é de tal ordem que qualquer coisa pode fazer com que uma mulher, em segundos, passe da situação de ser a mais feliz do mundo para a de mais desgraçada do universo, e tudo depende dele, só dele.

Um telefonema inesperado, só para dizer que está com saudades, pode encher de alegria o coração de quem vive um amor. Mas qualquer atraso pode fazer com que uma mulher enlouqueça, literalmente, e faça as piores fantasias; naquele momento ela pode até achar que ele está num motel com a ex-esposa -é, mulher apaixonada fica insana- e que tinha razão quando achava que ele era mentiroso, fingido, e que as juras de amor ele fazia a todas.

Em parte todo homem merece que a mulher desconfie dele, e que ache, às vezes, que ele não vale nada. Na maioria das vezes ninguém vale tanto quanto a gente acha que vale quando está amando, mas esse é apenas um dos riscos que correm os que inventam se apaixonar.

O pior de tudo é que, quando se ama, se depende do outro para conseguir dormir, comer, fazer ginástica, dar uma boa risada, ler um livro, ir ao cinema, ser feliz, enfim.
Ou melhor: se depende do outro para viver. Agora, com a cabeça fria: dá para entender que todo mundo queira se apaixonar?

Mas tem também o outro lado: ser amada. E pior: ser muito amada. Quando um homem se apaixona, pode levar uma mulher à loucura, no melhor sentido -ou no pior.
No princípio, ela até gosta: qual a mulher que não adora ter um homem a seus pés?

Bem, até adora, mas durante um tempo, e em termos. O difícil numa paixão é não exagerar, não passar da medida, até porque quem ama demais está fadado a ser abandonado. O ser humano não costuma falhar, e nada faz com que uma pessoa se desinteresse mais rápido do que ter a certeza de que a outra está definitivamente conquistada.

Agora, a hora da verdade: quais foram os melhores tempos de sua vida? Sinceramente mesmo? Pois foram os tempos em que estava só e que não dependia de ninguém para ser feliz ou infeliz.

Era dona do seu nariz; mesmo quando viajava sozinha, e não tinha um amigo com quem jantar, e sentia aquela semi depressão de estar numa cidade estranha, num país estranho, muitas vezes com os termômetros marcando 0C, ah, que tristeza. Uma tristeza, sim, mas tão boa quanto as maiores alegrias.

Porque ela foi sua, totalmente sua, e as coisas que são só nossas e não dependem de ninguém não têm preço. Mas atenção: quando se descobre que se pode ser feliz totalmente só, passa a ser perigoso, porque a partir daí fica difícil pensar em voltar a dividir o controle remoto.
O controle remoto e a vida.

danuza.leao@uol.com.br

sábado, 26 de dezembro de 2009



27 de dezembro de 2009 | N° 16198
MARTHA MEDEIROS


Nunca imaginei um dia

Até alguns anos atrás, eu costumava dizer frases como “eu jamais vou fazer isso” ou “nem morta eu faço aquilo”, limitando minhas possibilidades de descoberta e emoção. Não é fácil libertar-se do manual de instruções que nos autoimpomos. Às vezes, leva-se uma vida inteira, e nem assim conseguimos viabilizar esse projeto. Por sorte, minha ficha caiu há tempo.

Começou quando iniciei um relacionamento com alguém completamente diferente de mim, diferente a um ponto radical mesmo: ele, por si só, foi meu primeiro “nunca imaginei um dia”. Feitos para ficarem a dois planetas de distância um do outro. Mas o amor não respeita a lógica, e eu, que sempre me senti tão confortável num mundo planejado, inaugurei a instabilidade emocional na minha vida. Prendi a respiração e dei um belo mergulho.

A partir daí, comecei a fazer coisas que nunca havia feito. Mergulhar, aliás, foi uma delas. Sempre respeitosa com o mar e chata para molhar os cabelos, afundei em busca de tartarugas gigantes e peixes coloridos no mar de Fernando de Noronha. Traumatizada com cavalos (por causa de um equino que quase me levou ao chão quando eu tinha oito anos), participei da minha primeira cavalgada depois dos 40, em São Francisco de Paula. Roqueira convicta e avessa a pagode, assisti a um show do Zeca Pagodinho na Lapa. Para ver o Ronaldo Fenômeno jogar ao vivo, me inflitrei na torcida do Olímpico num jogo entre Grêmio e Corinthians, mesmo sendo colorada.

Meu paladar deixou de ser monótono: comecei a provar alimentos que nunca havia provado antes. E muitas outras coisas vetadas por causa do “medo do ridículo” receberam alvará de soltura. O ridículo deixou de existir na minha vida.

Não deixei de ser eu. Apenas abri o leque, me permitindo ser um “eu” mais amplo. E sinto que é um caminho sem volta.

Um mês atrás participei de outro capítulo da série “Nunca imaginei um dia”. Viajei numa excursão, eu que sempre rejeitei essa modalidade turística. Sigo preferindo viajar a dois ou sozinha, mas foi uma experiência fascinante, ainda mais que a viagem não tinha como destino um país do circuito Elizabeth Arden (Paris-Londres-Nova York), mas um país africano, muçulmano e desértico. Aliás, o deserto de Atacama, no Chile, será meu provável “nunca imaginei um dia” de 2010.

E agora cometi a loucura jamais pensada, a insanidade que nunca me permiti, o ato que me faria merecer uma camisa-de-força: eu, que nunca me comovi com bichos de estimação, adotei um gato de rua.

Pode colocar a culpa no espírito natalino: trouxe um bichano de três meses pra casa, surpreendendo minhas filhas, que já haviam se acostumado com a ideia de ter uma mãe sem coração. E o que mais me estarrece: estou apaixonada por ele.

Ainda há muitas experiências a conferir: fazer compras pela internet, andar num balão, cozinhar dignamente, me tatuar, ler livros pelo kindle, viajar de navio e mais umas 400 coisas que nunca imaginei fazer um dia, mas que já não duvido. Pois tem essa também: deixei de ser tão cética.

Já que é improvável que 2010 seja diferente de qualquer outro ano, que a novidade sejamos nós.

Um lindo domingo para você e uma gostosa semana, a última de 2009.


27 de dezembro de 2009 | N° 16198
PAULO SANT’ANA


Bota dilema nisso

Se você, leitora ou leitor, fosse a Justiça, ou fosse um ministro do Supremo, teria devolvido o menino Sean Goldman ao seu pai legítimo nos EUA, ou manteria o garoto com seu padrasto e sua avó no Brasil?

Nesta hora é que todos nós folgamos em não ter de decidir uma questão tão espinhosa. Melhor que não sejamos nós que tenhamos de contentar uma parte e desprezar a outra.

Que encrenca! Qualquer que fosse a decisão, amassaria uma das partes.

Intuitivamente, todos nós respeitávamos o direito do pai biológico do garoto de tê-lo sob sua guarda, como afinal aconteceu na véspera de Natal, quando o menino foi recambiado para os EUA por decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal.

Mas como não dar importância ao enorme tempo em que o garoto ficou sob a guarda de seu padrasto e se afeiçoou ao lar brasileiro?

Também há que se considerar, como fator importante no caso, o fato de o pai biológico do garoto ter restado nos EUA sozinho, sem seu filho, depois que sua ex-mulher morreu no Brasil.

Se eu fosse o juiz do caso, faria um raciocínio simples: se vivesse ainda a mãe brasileira do garoto, que se separou do pai nos EUA e veio morar com o menino, fosse ela viva, não teria dúvida em deixar a criança sob sua guarda no Brasil.

Mas tendo ela morrido aqui em nosso país, ninguém mais legítimo para deter a guarda do garoto do que o pai. Ele detém mais legitimidade que o padrasto e a avó brasileiros.

Pesou também na decisão, com certeza, o detalhe de que era deixar o menino com seu pai ou com seu padrasto. Nesse caso, era absolutamente claro que o direito de guarda sobre o garoto era do pai, cujo laço de consanguinidade era direto com o menino.

Mas não foi fácil decidir. A avó do garoto mostrava cartazes escritos por Sean em que ele escrevia que desejava permanecer no Brasil.

A vontade da criança, nesses casos, tem valor relativo, pode muito bem ser contestada.

Adivinha-se que o menino quisesse mesmo permanecer com o padrasto e a avó no Brasil, o vínculo sentimental que se instalou entre os três é indesmentível.

Mas e o pai, como ficaria se o menino permanecesse aqui? De mãos abanando?

Como, tão pronto a decisão do ministro presidente do STF foi divulgada, os EUA se apressaram em aprovar, no Senado, a extensão de um programa de isenção tarifária que favorece o Brasil e outros países, a avó do garoto declarou: “Não esperava que meu neto fosse trocado por um acordo econômico. O meu país, o país do Sean, já que ele é brasileiro nato, vendeu uma criança”.

Dito assim, parece que houve uma violência. Mas, embora não visível, se nota a sensação da avó e do padrasto de que era muito forte e talvez indestrutível o argumento do pai biológico. Essas questões são quase sempre resolvidas levando-se em conta o vínculo sanguíneo, embora sempre tenha a contestá-lo uma realidade sentimental pungente, exatamente como aconteceu neste caso.

Foi triste ver aquela criança embarcar no avião na quinta-feira com seu pai. Todos os que viram a cena pela televisão se indagavam se o coração do menino não estava partido, entre o afeto pela avó e pelo padrasto e o direito inquestionável do pai, pelo laço de sangue, de ter o seu filho junto de si.

O que será que se passava na mente e no coração de Sean?

Resta a esperança de que se entendam as partes para que o menino seja visitado em toda a vida pela avó e pelo padrasto.


27 de dezembro de 2009 | N° 16198
MOACYR SCLIAR


A vida sob os viadutos

No Colégio Júlio de Castilhos aprendi uma canção francesa chamada Sob as Pontes de Paris (Sous les Ponts de Paris). Dizia mais ou menos o seguinte: “Sob as pontes de Paris/ quando desce a noite/ toda a sorte de vagabundos se infiltra sorrateiramente/ e ficam felizes de encontrar onde dormir”.

Porto Alegre não tem o Sena, nem as pontes de Paris. Mas Porto Alegre tem o Arroio Dilúvio, com suas pontes e, sobretudo, Porto Alegre tem os viadutos. E ali, como na capital francesa, muita gente procura abrigo. No ano passado, um levantamento da Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), órgão da Prefeitura, falava em 1200 moradores de rua.

Numa cidade com mais de um milhão de habitantes não chega a ser um número muito grande. Mesmo muito pobres as pessoas acabam achando uma casa; nem que seja um barraco na periferia.

Morar na rua é opção, e resulta, sobretudo, de uma vida infeliz. Quase a metade dessas pessoas tem problemas familiares; 70% vivem sós, uma situação para a qual colaboram o alcoolismo e as drogas.

Ou seja: não é só uma questão social, é mais complicado que isso.

Qual é a condição básica para viver, ou sobreviver, em baixo do viaduto? Eu diria que é a indiferença. Para essas pessoas, aquilo que incomoda a classe média em absoluto não conta. A falta de privacidade, por exemplo. Tudo que os moradores de rua fazem é público, tudo.

Eles estão ali, comendo, ou bebendo, ou dormindo, ou fazendo as necessidades, absolutamente indiferentes ao olhar dos outros. Há quem não consiga conciliar o sono com barulho; não é o caso deles.

Por sobre suas cabeças, no viaduto, ruge o tráfego urbano, intensíssimo num país em que o carro se tornou um indicador maior de progresso e de afluências. Isso não impede que durmam (é claro que a cachaça atua como um sonífero poderoso).

Também a noção de propriedade para eles é diferente. Sim, têm as suas coisas, que em geral cabem num carrinho de supermercado – em todas as partes do mundo os gerentes desses estabelecimentos já devem ter aceito com resignação o fato de que tais carrinhos serão sumariamente confiscados.

Mas, por outro lado, muitas vezes deixam essas poucas coisas abandonadas. Na manhã do domingo passado passei sob o viaduto da Silva Só, onde vivem muitos habitantes de rua.

Detive-me a contemplar um colchão. Era um colchão de espuma, velhíssimo, esburacado. Sobre ele, um cobertor, igualmente velho, esburacado. Mas, e esse foi o detalhe que me impressionou, e comoveu, o cobertor estava cuidadosamente dobrado, caprichosamente dobrado. Pensei então no homem ou na mulher que o havia dobrado.

Ao fazê-lo, talvez num ato automático e reminiscente de uma infância quem sabe vivida de uma maneira melhor, essa pessoa colocara um pouco de ordem em sua vida.

Uma partícula de ordem, por assim dizer, mas que deve ter contribuído para restaurar algo da dignidade que existe em qualquer ser humano, por mais precária que seja sua existência. Ao ver o cobertor dobrado, a pessoa deve ter ficado satisfeita consigo mesma: eu não sou um traste completo, eu sou alguém, ainda existe esperança para mim.

Ou seja: sob os viadutos de Porto Alegre, como sob as pontes de Paris, a vida resiste.

Diogo Mainardi

A chapa cabocla

"Uma chapa formada por José Serra e Marina Silva embaralharia a campanha de 2010, pegando o PT no contrapé e enterrando de vez a desastrada candidatura de Dilma Rousseff"

Os dois juntos, na mesma chapa. Quem? José Serra e Marina Silva. Isso mesmo: José Serra, presidente, e Marina Silva, vice-presidente.

A ideia ainda é embrionária. Só é debatida no interior de um grupelho do PSDB. Mas ganhou impulso na semana passada, depois que Aécio Neves renunciou à candidatura presidencial e assoprou para a imprensa petista que rejeita terminantemente uma vaga de vice-presidente na chapa de José Serra - a chamada chapa puro-sangue.

Apesar de todos os apelos do PSDB, Aécio Neves repetiu aos seus interlocutores que pretende candidatar-se ao Senado e dedicar-se integralmente à campanha para eleger seu sucessor em Minas Gerais, Antonio Anastasia.

Uma chapa presidencial formada por José Serra e Marina Silva - a chapa cabocla ou, melhor ainda, a chapa mameluca - embaralharia a campanha de 2010, pegando o PT no contrapé e enterrando de vez a desastrada candidatura de Dilma Rousseff.

O plano petista de contrapor Lula a Fernando Henrique Cardoso - o único atributo que, depois de muito empenho, os marqueteiros conseguiram arrumar para Dilma Rousseff - iria para o beleléu, considerando que Marina Silva, por mais de cinco anos, também fez parte do governo Lula.

E a impostura bolivariana de que o PSDB defende o interesse dos ricos e o PT defende o interesse dos pobres seria imediatamente desmascarada. Em matéria de pobreza, ninguém pode competir com Marina Silva.

José Serra e Marina Silva saíram do armário duas semanas atrás, em Copenhague, na COP15. Um elogiou o outro, um apoiou as propostas do outro. Eles conseguiram até deter o aquecimento global, congelando o Hemisfério Norte e matando de frio algumas dezenas de poloneses. José Serra já está com a campanha presidencial pronta. O que ele representa é a "continuidade sem continuísmo".

Para o eleitorado, ele manterá as conquistas de Fernando Henrique Cardoso e de Lula, e ainda poderá dar um passinho adiante. Apesar de atemorizar os banqueiros, José Serra é capaz de sossegar o lulista mais conservador. Se Marina Silva concordasse em se unir a ele, sua candidatura ganharia também um aspecto mais moderno, um caráter mais inovador.

Marina Silva, por outro lado, como candidata a vice-presidente poderia dar um sentido prático à sua plataforma ambiental, coordenando essa área no futuro governo José Serra. Reinaldo Azevedo, em seu blog na Veja on-line, disse que Marina Silva, mais do que candidata a presidente, é candidata a santa. Cruzei com ela recentemente e confirmo: ela levita.

Elegendo-se na chapa de José Serra, ela teria a possibilidade de, finalmente, voltar a pisar no chão.