quinta-feira, 9 de agosto de 2012



09 de agosto de 2012 | N° 17156
PAULO SANT’ANA

Uma torcida só?

Já repararam que este colunista aborda todos os tipos de assunto?

Eu opino sobre futebol, sobre política, sobre economia, sobre toda a realidade social, além de falar sobre amor, sobre ciúme, sobre inveja, enfim, sobre todos os sentimentos e relações humanas.

Modéstia à parte, sou um jornalista de temas universais.

Tudo o que for humano me interessa.

Sendo assim, ando meio atrapalhado e com inveja dos colunistas que só abordam um tema, no máximo dois.

É que me sinto atrapalhado para cobrir três grandes eventos ao mesmo tempo: a Olimpíada, o mensalão e o campeonato brasileiro.

Não há jornalista universal que aguente essa dose para mamute.

Por exemplo, agora se instalou uma encrenca no campeonato brasileiro no que se refere a nós, gaúchos.

Segundo se informa, a Brigada Militar pretende que no Gre-Nal do próximo dia 26, marcado para ser jogado no Beira-Rio, somente haja no estádio uma torcida: a colorada.

A Brigada Militar quer Gre-Nal de torcida única, fato inédito na secular rivalidade.

Só que a absurda intenção da Brigada Militar vai causar mais problema ainda. Porque em qualquer competição, como expliquei esses dias, tem de haver igualdade de oportunidades, de chances. Não pode haver de forma nenhuma desigualdade.

Por exemplo, anteontem um jogador do Grêmio declarou que é desigual contra o Grêmio só a torcida colorada presente no estádio.

Entenderam? Torcida influi no jogador dentro do campo, isto é, influi na disputa.

Portanto, a CBF não pode permitir o Gre-Nal de uma única torcida. Porque mexe com gravidade na igualdade da disputa.

Ou a CBF impede essa absurdidade pretendida pela Brigada Militar, ou, então, se decida que o Gre-Nal do segundo turno, a vir a ser realizado no Olímpico, também tenha presente no estádio só a torcida gremista.

É também verdade que, caso os dois Gre-Nais venham a ser só com torcidas de quem tem o mando do jogo, isso fere o direito dos colorados de irem ver o Gre-Nal do Olímpico, mesmo direito que os gremistas têm de irem ao Beira-Rio.

Agora o principal: nem a Brigada Militar, nem a federação, nem a CBF, nem o Vaticano podem intervir no ingresso aos estádios, determinando quais torcidas podem e quais não podem ver os jogos.

Uma vez realizada uma partida, qualquer torcedor, seja gremista, seja colorado, seja judeu, seja negro, seja branco, seja mulato, todos os torcedores que estiverem vivos têm o direito sagrado de se dirigirem aos estádios. Ou seja, atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu.

Mas eu não tenho o direito de exigir da Brigada Militar que vá entender esta verdade incontestável que eu estou escrevendo.

A BM não vai entender.

Mas eu tenho o dever inalienável de alertar a Brigada Militar para o absurdo que pretende cometer. E ela diz que é em nome da segurança dos torcedores.

Eu só quero lembrar à BM que esse estádio do Internacional que está sendo remendado foi, outro dia mesmo, liberado pela Justiça, tenham presente isso.

Como é que um estádio em remendo liberado pela Justiça não oferece segurança?

Isto é um – repito – alarmante absurdo.


09 de agosto de 2012 | N° 17156
L. F. VERISSIMO

Aparecer e não aparecer

Há controvérsias. Alguns acham que juiz de futebol bom é o que não aparece. Outros acham que juiz bom é o que impõe sua autoridade, mesmo tendo que recorrer ao histrionismo e a gestos enérgicos.

Ou seja: quanto mais aparecer, melhor. Já entre os juízes togados, “aparecer” ou não “aparecer” significa se ater aos autos, na linguagem jurídica, ou julgar de acordo com suas convicções pessoais, sua personalidade e o momento. Um juiz julgar, ou aparecer, além ou a despeito dos autos não é necessariamente um defeito: muitas vezes, os autos dizem pouco e a verdade depende da sensibilidade de quem os interpreta.

Os ministros do Supremo Tribunal Federal que julgam o mensalão estarão em evidência nas próximas semanas e a nação terá a possibilidade de estudá-los de perto e conhecer o jeito de cada um. Alguns têm personalidades mais fortes do que outros. Os egos também variam. O importante – para continuar a analogia com juiz de futebol – é que sejam justos, não favoreçam nenhum lado indevidamente e deem, figurativamente, todos os pênaltis.

A nomeação de juízes para a corte suprema é uma tarefa presidencial equivalente, em importância, a qualquer outra decisão administrativa ou política do governo. Pode-se até dizer, exagerando só um pouco, que o legado maior de um presidente ao país é a qualidade dos juízes que deixa na corte quando seu governo acaba.

Nos Estados Unidos, a reeleição do Dobliu Bush se deveu à maioria conservadora da corte, que literalmente lhe doou a presidência, interrompendo os debates sobre a lisura das eleições e ignorando protestos legítimos contra o arbítrio da sua decisão.

Foi um caso extremo, para não dizer supremo, de interferência politicamente motivada do Poder Judiciário nos destinos daquela República, feita sem o menor pudor. Mas os juízes que reelegeram Bush sempre votaram (e ainda votam, pois a maioria continua) de acordo com a intenção dos governos conservadores que os botaram lá, o que é natural e legítimo. O caso Bush foi apenas uma suspensão passageira do senso de medida.

Aqui, como lá, são todos homens honrados, que se aterão aos autos ou julgarão de acordo com seus instintos. No atual julgamento, uns aparecerão mais, outros aparecerão menos, mas é difícil imaginar que algum deles vote de acordo com uma prévia agenda política, ou por lealdade a quem o nomeou. De qualquer maneira, nas próximas semanas vamos conhecê-los de perto.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012



08 de agosto de 2012 | N° 17155
MARTHA MEDEIROS

O poder terapêutico da estrada

“Viajar é um ato de desaparecimento”, escreveu certa vez Paul Theroux, um dos escritores mais bem-sucedidos na arte de narrar suas andanças pelo mundo. É uma frase ambígua, pois parece verdadeira apenas do ponto de vista de quem fica. O viajante realmente desaparece pra nós – aliás, desaparecia, pois nestes tempos cibernéticos ninguém mais consegue manter-se inalcançável.

Já para aquele que parte, viajar não é um ato de desaparecimento. Ao contrário, é quando ele finalmente aparece para si mesmo.

Somos seres enraizados. Moramos a vida inteira na mesma cidade, mantendo um endereço fixo. Nossa movimentação é restrita: da casa para o trabalho, do trabalho para o bar, do bar para a casa, com pequenas variações de itinerário. Essa rotina vai se firmando gradualmente, e um belo dia nos damos conta de que estamos vendo sempre as mesmas pessoas e conversando sobre os mesmos assuntos. Não há grande aventura ou descoberta no nosso deslocamento sistemático dentro desse microcosmo.

Isso, sim, soa como um desaparecimento. Onde foram parar as outras partes de nós que compõem o todo?

Viajar é sair em busca dos nossos pedaços para integralizar o que costuma ficar incompleto no dia a dia.

Assisti a On The Road, adaptação do livro de Jack Kerouac, superbem filmado por Walter Salles, e também a Aqui É o Meu Lugar, em que Sean Penn, magistral, pra variar, interpreta um roqueiro decadente que sai pela estrada para acertar as contas com o passado do pai e encontra adivinhe quem? Ele mesmo, ora quem. É sempre assim. Há em nós uma persona oculta que só se revela quando a gente se põe em movimento.

Road movies me encantam porque dão protagonismo a tudo que alimenta nossa fantasia: a liberdade, a música, a poesia, a natureza e o tempo estendido, sem o aprisionamento dos relógios e dos calendários – viajar é uma jornada simultânea de ida e volta, nosso passado e nosso futuro marcando um encontro no asfalto. Ou sou eu que fico meio chapada só de falar nisso.

On The Road, mesmo que em certos pontos convide para um cochilo, tem momentos arrebatadores, como a dança sensual de Kristen Stewart com Garrett Hedlund, o boogie woogie de Slim Galliard num contagiante número de jazz, e um final que emociona, senão a todos, certamente aos que reverenciam a literatura. Já o filme com Sean Penn é uma viagem para longe do lugar-comum – nada é óbvio, nada é o que se espera.

E não bastasse ter Frances McDormand no elenco e a trilha sonora de David Byrne, ainda conta com a participação significativa, tipo cereja do bolo, do ator Harry Dean Stanton, que nos remete ao emblemático Paris, Texas, uma forma de lembrar que todas as estradas se cruzam em algum ponto.

Que seus pais não me ouçam, mas se você está entre iniciar uma terapia ou se largar no mundo, comece experimentando a segunda opção. Ambas levam para o mesmo lugar, mas num consultório não tem vento no rosto nem céu estrelado. Se não funcionar, aí sim, divã.


08 de agosto de 2012 | N° 17155
ARTIGOS - João Pedro Kulkes*

Educação básica

No Brasil, atualmente encontramo-nos em época de eleições. E, enquanto elas se aproximam, escutamos frequentemente propostas de melhorias acerca de assuntos polêmicos e ineficientes do sistema público brasileiro, entre os quais sempre está presente a educação.

Enfrentamos uma situação completamente deficiente em relação ao sistema de educação básica, diferentemente do que ocorre com as faculdades públicas, que são muitas vezes melhores e mais concorridas que as universidades privadas.

Porém, de que nos adianta ter uma eficiente rede de universidades públicas se as crianças brasileiras não são preparadas para ingressar nelas? O que ocorre, na realidade, é que os ocupantes das vagas nas redes de universidades públicas, que contam com alto investimento do Estado, são os alunos das escolas privadas.

As soluções para problemas conjunturais da sociedade geralmente não são tomadas visando ao bem e ao desenvolvimento da sociedade como um todo, mas, sim, com fins políticos.

A atitude do governo frente a essa situação precária da educação básica se deu por meio da instituição de um sistema de cotas para acesso às universidades públicas, o que na verdade desencadeou o desregulamento de um processo meritocrático de seleção e não resolveu nenhum problema em relação à nossa educação básica. O mal tem de ser cortado pela raiz, e o primeiro passo com certeza é a melhoria da educação básica.

A solução que defino como mais razoável e como a que terá efeitos mais rápidos e duradouros para a educação brasileira é a instituição do equivalente ao sistema Prouni (Programa Universidade Para Todos) para a educação básica de pessoas de baixa renda.

O ineficiente e corrupto sistema público brasileiro deixará de despender milhões de reais em estruturas de escolas e aumento do inchaço da máquina pública e investirá um montante significativamente menor em bolsas de estudo em escolas privadas da escolha do candidato.

Assim, o estudante de baixa renda desenvolverá uma formação sem percalços até a universidade pública ou privada de sua escolha, tendo, por fim, um custo muito mais baixo – e sendo mais eficiente – para o sistema público. Em época de eleições e promessas de investimentos, devemos saber que geralmente “menos é mais”, principalmente quando se trata da ineficiência da gestão pública.

*EMPRESÁRIO, ASSOCIADO DO INSTITUTO DE ESTUDOS EMPRESARIAIS (IEE)


08 de agosto de 2012 | N° 17155
PAULO SANT’ANA

Adeus, Leka!

Eu já tive TOC (transtorno obsessivo-compulsivo). Por ele, eu tinha cuidados doentios com objetos e equipamentos que eram manuseados por todos.

Não apertava mãos, não abria torneiras, não encostava em maçanetas, ficava tomado de desespero quando entrava no banheiro e tinha de tocar meu corpo nas coisas todas ligadas à higiene.

Cheguei ao ponto, pela pregação constante de meu pai e dos professores, que afirmavam não existir nada mais sujo do que as cédulas de dinheiro, de, antes de colocá-las no cofre, eu as lavar com detergente. E secava-as com secador de cabelo.

Que coisa!

Era um delírio. Por exemplo, antes de beijar uma mulher, eu pedia licença a ela para lavar minha boca. E, depois que a beijava, lavava ainda mais inteiramente a minha boca. Que coisa!

Vim me curar do TOC anos depois.

Eu gostaria de saber qual foi o engenheiro que criou essas torneiras que se veem nos bares e nos hotéis, também nos aviões, pelas quais a água só corre quando se as apertam.

Só sai água por dois segundos. Nem com a mais exímia prestidigitação se consegue lavar as mãos assim naquela tortura chinesa.

Como é que eu vou apertar ligeiro com a mão esquerda a cabeça da torneira e depressa e logo trazer a mão com que a apertei para lavá-la?

Não tem jeito. Quem foi o maldito engenheiro que bolou essa geringonça?

O Nílson Souza, aqui do meu lado, disse-me que a solução é permanecer apertando a cabeça da torneira com uma mão e assim lavar só a outra mão.

Sugestão vetada imediatamente por mim: mas como é que vai se esfregar a mão que está sendo lavada, ora, Nílson? Visivelmente, a intenção desse equipamento exótico é a de não desperdiçar água. Mas a verdade é que a gente só se limpa ou se refresca, na pia, no tanque ou na piscina, se desperdiçar bastante água.

Por exemplo, como lavar um carro sem desperdiçar água da mangueira. Como?

Ou como não desperdiçar água quando se está tomando banho no chuveiro? Só se substituir-se o chuveiro pelo banho de canequinha, um dos gestos humanos mais ridículos que conheço.

Cheguei à conclusão de que o desperdício de água é a única garantia de higiene total que temos.

Ontem foi dia de eu e mais 40 ex-colegas de jornalismo do Nelci Canto de Castro, o Leka, irmos ao seu enterro. Ele tinha 71 anos e foi atropelado por um carro na Avenida Padre Cacique, na madrugada de segunda-feira.

Eram tantos os velhos e aposentados jornalistas que estavam no enterro. Eu disse a muitos deles que muito fazem falta nas redações dos jornais: há conhecimentos que o computador não nos fornece, só a experiência dos velhos jornalistas nos traz luz.

Um velho jornalista presente numa redação de jornal tem mil préstimos.

Os velhos jornalistas conhecem os rengos sentados e os cegos dormindo.

E o Leka, que enterramos ontem no Jardim da Paz, conhecia televisão como nunca nenhum de nós e dos outros conseguimos conhecer.

Que ele repouse em paz.


08 de agosto de 2012 | N° 17155
JOSÉ PEDRO GOULART

Limites

Há limites, devo dizer. Viver em sociedade é saber dos nossos limites, por favor. De modo que, quando olhei para o lado, isso no vestiário da academia, onde submeto meu corpo a cerca de 300 abdominais e outras tantas violências naqueles aparelhos modernos de tortura, enfim, quando olhei para o lado e vi o que vi, pensei nesse relato, modesto, mas como um desagravo.

Um sujeito alto, pelado, cujo quesito “cabelo no corpo” humilharia o Tony Ramos numa modalidade olímpica, usava o secador de cabelos – disponível “para todos”, que estava ali para secar os cabelos de quem estiver querendo também usá-lo (como eu) – de um modo distinto.

O sujeito, naquele momento agachado, secava os dedos do pé (eu mencionei que ele estava pelado?). É que aquela aguinha que fica entre os dedos, se não for bem seca, dá frieira. Especialmente no inverno.

Duas opções de reação. 1 – Arrancar o secador das mãos do pelado/peludo e passar-lhe uma descompostura, em seguida quebrar-lhe o aparelho na cabeça para que entendesse a não desrespeitar o próximo; 2 – Meditar sobre tudo silenciosamente, encontrar algum conceito filosófico profundo e depois repassá-lo com graça e distanciamento como forma de tirar alguma vantagem do episódio.

Escolhi a primeira, claro, mas, diante dos perigos inerentes à escolha, fiquei com a segunda. Vamos lá:

Caras que usam o secador de cabelos coletivo da academia nos pés não tomam Rivotril. Foi o que me veio na cabeça enquanto apertava com força a receitinha azul que trazia no bolso. Aquele sujeito jamais leu Dostoiévski.

Personagens atormentados, culpados, explicando-se ao mundo, enfrentando problemas insolúveis, enredados em conflitos tecidos por aranhas tão gigantes quanto invisíveis. Tem também os que fazem a barba dentro da sauna.

Insisti na meditação. Lembrei que outro dia foi descoberta e reproduzida em laboratório a partícula de Deus. De posse da tal partícula, a gente poderia se reunir, independentemente da vontade Dele, e fazer uma espécie de recall do universo. Que tal? Uma chamada extra para consertar as coisas? Quem sabe uma verdadeira explicação para o nada, o vazio eterno e o brócolis? Talvez uma melhor compreensão da existência, do conceito de justiça?

Enquanto isso, o sujeito resolveu achar que outras partes do corpo também mereciam um calorzinho, afinal tinha bastante cabelo pelo corpo. Começou pelas costas e foi descendo.

terça-feira, 7 de agosto de 2012



07 de agosto de 2012 | N° 17154
ARTIGOS - Ricardo Silvestrini*

Musa de quê?

As musas são as nove filhas de Zeus com Mnemosine, a memória. Para cada uma, Zeus deu a incumbência de proteger uma arte ou ciência. Calíope, a poesia épica. Clio, a história. Erato, a poesia lírica. Euterpe, a música. Melpômene, a tragédia. Polímnia, a música sacra. Tália, a comédia. Terpsícore, a dança. Urânia, astronomia e astrologia.

Na Grécia antiga, às musas era atribuída a capacidade de inspirar a criação artística ou científica. Vários são os textos em que os poetas começam invocando as musas para que elas soprem a inspiração.

Assim, chega-se a esse uso da palavra musa como aquela que inspira, a musa inspiradora. Contudo, diferente do conceito etéreo, de entidade mítica dos gregos, a palavra foi sendo usada para designar mulheres bonitas, de carne e osso. Sim, as filhas de Zeus eram belas. Mas não só pelo físico.

Elas protegiam as artes e ciências. Protegiam o belo. Do uso passivo dos criadores, que agiam com o sopro das musas, passamos ao uso ativo. O criador age porque viu uma musa, uma bela mulher e, para ela, escreve algo – na maioria da vezes, nem tão inspirado. Saímos da arte para a cantada.

E, hoje, tempo em que os poetas estão em baixa, a musa vive sozinha. A palavra musa serve apenas para designar mulher bonita. O jargão goza de livre trânsito pela imprensa contemporânea brasileira. É a musa do tênis, a do atletismo, a da natação, a do futebol... e, pasmem, a da CPI!

Se pensarmos como a origem do termo grego, podemos dizer que uma musa estaria protegendo um esporte, o que, em certo sentido, exige tanto arte, no sentido de talento, como ciência, no sentido de técnica. Mas musa da CPI protege o quê? A corrupção, a roubalheira, a tentativa de suborno?

Usar o nome das musas em vão pode provocar a ira de Zeus.

*POETA


07 de agosto de 2012 | N° 17154
CLÁUDIO MORENO

Mistérios eternos

De todos os seres vivos, o homem é o único que sabe que vai morrer. O que acontece depois é um mistério insondável, mas nosso avô das cavernas, no momento em que decidiu sepultar seus mortos, já trazia na cabeça as duas questões decisivas: “De onde viemos? Para onde vamos?”. A humanidade carrega essas perguntas no sangue, e a busca por respostas fez surgir a ciência, as artes, a música, a religião e a filosofia.

Os gregos mantinham sobre o assunto uma humildade prudente, pois, embora fossem excelentes em tudo, sabiam, como ninguém, reconhecer a pequenez do homem diante do vasto mistério do mundo.

Quanto mais estudavam, mais se convenciam de que os limites do universo, fossem ou não infinitos, ficariam para sempre fora de nosso alcance. Falando sobre os deuses, Protágoras expressou muito bem esse sentimento: “Não sei se eles existem ou não, ou como é sua aparência, e isso por boas razões: porque eles são invisíveis, e porque a vida humana é breve demais para descobrir”.

Séculos mais tarde, o mundo científico, num acesso de onipotência aguda, proclamou que não havia nada que pudesse escapar à luz penetrante da razão. Se havia zonas obscuras, era por estarem envoltas numa névoa provisória, que o vento higiênico da ciência haveria de dissipar algum dia. Como dizia o astrônomo Kepler, no séc. 17: “O homem ainda não conhece todas as respostas”.

Esse orgulhoso (e ingênuo) “ainda não” era como um pedido de paciência – “Esperem, e tudo se esclarecerá”. No séc. 20, no entanto, um gênio como Einstein redefiniu nosso tamanho: vamos avançar cada vez mais na compreensão das leis da natureza, mas o mistério último do Universo vai persistir – inatingível, desafiador, maravilhoso. Falava como cientista; não era um homem religioso.

É curioso ver como Freud – contemporâneo de Einstein e tão genial quanto ele – esqueceu de incluir a alma feminina entre esses enigmas que nunca serão desvendados. Em carta a Marie Bonaparte, sua amiga e seguidora, o mestre confessou que, apesar de toda uma vida dedicada ao estudo do tema, ainda não era capaz de resolver a eterna questão sobre o que querem as mulheres. “Ainda não” – como se a mulher fosse um continente desconhecido à espera do explorador capaz de mapear sua geografia. Não lhe ocorreu, decerto, que, se isso ocorresse, a humanidade estaria perdida.

Este é um mistério que está fora de nosso alcance, como a morte ou o infinito, e que deverá permanecer sem resposta para que homens e mulheres façam e refaçam incessantemente a mesma pergunta, gerando assim o desejo que nos faz viver.

Texto publicado em 15/12/2009


07 de agosto de 2012 | N° 17154
PAULO SANT’ANA

Pedofilia

Essas inumeráveis empresas que não admitem funcionários que tenham mais de 40 anos de idade, essas empresas que demitem funcionários que completam 60 anos de idade, eu sou uma prova de que minha empresa não faz isso, essas empresas que só querem trabalhar com funcionários jovens não passam de empresas pedófilas.

Nunca vi disso: é o próprio procurador-geral da República, Roberto Gurgel, a quem coube acusar os réus do mensalão, quem declara que não há nenhuma prova material contra José Dirceu no processo.

É ele quem declara que não há nada escrito nos autos contra José Dirceu, não há gravação contra ele, não há nada corpóreo a embasar sua denúncia.

O que há, diz o procurador-geral, é uma vasta e rica prova testemunhal contra o José Dirceu.

Ora, não se cansam de dizer os filósofos do Direito Penal que a “prova testemunhal é a prostituta das provas”.

Mas como poderão querer condenar José Dirceu com a “prostituta das provas”, a testemunhal?

Eu sou um grande curioso do Processo Penal. Confesso que, na Faculdade de Direito em que me formei, a matéria mais sedutora que encontrei entre as 42 que estudei foi exatamente o Direito Penal.

Eu sei muito sobre Direito Penal, não o suficiente, é claro, para defender quaisquer dos 38 réus do mensalão, mas o suficiente para perguntar o seguinte a todos os meus leitores: se a prova testemunhal é classificada pelos operadores do Direito como a “prostituta das provas”, então como ela é chamada de “prova”?

Não tenho dúvida de que esse deveria ser o argumento central da defesa de José Dirceu, que pela parte que ouvi ontem no julgamento deploravelmente não o usou.

Leio que os ministros do Supremo, receosos de que o acórdão (sentença) demore até depois das eleições, estão cogitando da possibilidade de virem a trabalhar no julgamento também pelas manhãs, eles que só o fazem à tarde.

Como é que é? Então, com 38 réus nesse processo momentoso, com 150 advogados atuando no processo, os ministros confessam que só trabalham à tarde?

Não tem explicação nem justificativa. Deviam trabalhar manhã, tarde e noite. E não podem se queixar de que ganham mal: ninguém mais no serviço público brasileiro ganha mais que eles, que percebem o teto salarial.

Por falar nisso, não existe instituto mais desmoralizado na lei brasileira do que o chamado teto salarial no serviço público.

Desde que foi criado o teto, ele vem sendo violado sistematicamente pelos três poderes, ou seja, inclusive pela Justiça.

Há funcionários públicos que ganham R$ 50 mil mensais, R$ 70 mil, R$ 80 mil, inumeráveis ultrapassam os R$ 100 mil, duas, três, quatro, cinco vezes mais que o teto.

Quando saiu o teto legal, logo desconfiei de que ele era conversa para boi dormir.

Mas nem boi dorme com uma conversa dessas.


07 de agosto de 2012 | N° 17154
FABRÍCIO CARPINEJAR

Pac-man sempre vai morrer num beco

O homem é um produto frágil demais. Pode ser destruído simplesmente pelo saca-rolha.

Eu tremo ao abrir uma garrafa de vinho. Vá que a rolha esteja esfarelada e afunde. O longo esforço de maturação da bebida, depois de dois anos de envelhecimento no barril e três na garrafa, morre em segundos pela minha imperícia. Nenhum dos presentes vai mexer o líquido rubro no cálice e cheirar o buquê por minha culpa.

O medo tem uma razão especial: a esposa é que me alcança a safra. Representa um ato de confiança, um crédito no relacionamento. É coisa de macho. Ela finge se distrair enquanto observa o desempenho pelo rabo dos olhos.

E se eu vacilo e ela delega a atividade para a visita? E se a visita abre com facilidade e solta um risinho diabólico?

Toda garrafa de vinho traz uma mensagem de S.O.S. Apelo de náufragos do amor.

O champanhe é também uma tragédia moral. Festa da virada, contagem regressiva 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, e você se demora ao puxar o lacre. O mundo familiar aplaude, grita, e a garrafa permanece fechada em sua mão. É azar para o resto da vida amorosa, não somente para um ano.

Nossos maiores constrangimentos baixam nos pequenos atos, onde não há coragem, mas apenas obrigação. É se enxergar no dever de fazer, que o fracasso é certo.

Não são tarefas maiúsculas, em que podemos nos perdoar pela concorrência e nervosismo, como vestibular, autoescola e entrevista de emprego.

Refiro-me a situações coloquiais, da rotina, na qual o outro conclui que você não terá dificuldade.

Um dos vexames da escola foi ao bancar o educado com uma colega. Eu me ofereci para abrir seu salgadinho Pingo d’Ouro. Suava frigoríficos, e não descolava as pontas. Até que exagerei e o saco rasgou-se inteiro.

Já penei com uma lata de extrato de tomate. Não fui ensinado a usar o abridor pela mãe, pai, irmão mais velho (afinal, quem era o responsável pela aula?). No casamento, na primeira refeição a dois, dividindo romanticamente o balcão da cozinha, ganhei a ingrata tarefa. Desenhava a tampa e nada de furar a lata e encontrar a polpa. A massa pronta, a mulher aguardando e eu batendo cabeça por 15 intermináveis minutos. O avental foi curto para conter o al sugo do rosto.

Experimento sucessivamente suspiros de alívio ou engasgos de aflição diante de potes de geleia, requeijão e pepino.

Dói quando sua companhia compra ingresso para assistir a você se estrebuchar.

Dói quando você recorre à camisa para torcer a tampa.

Dói ainda mais quando ela consola:

– Não depende de força, mas de jeitinho.

É uma das frases mais horríveis de se escutar na vida, junto com “isso acontece!”.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012



06 de agosto de 2012 | N° 17153
ARTIGOS - PAULO BROSSARD*

Lélio Candiota de Campos

Sem a pretensão de vir a ser cronista de duas gerações a partir da vida acadêmica da Faculdade de Direito de Porto Alegre, sou levado a voltar ao tema pela circunstância de ter-me fixado na figura de Galeno Vellinho Lacerda, quando de sua morte e, dias depois, no mesmo mês de julho, outro integrante da turma de 1943 veio a falecer e a análise de sua individualidade viria a confirmar que, a despeito de sua inevitável heterogeneidade, a turma guardava particular homogeneidade.

E já que tivera a imprudência de descerrar o véu que cobria mais de meio século de lembranças, atrevo-me a recordar a figura de Lélio Candiota de Campos, pois se as diferenças entre Galeno e Lélio eram visíveis, também eram inegáveis os traços comuns a ambos, a seriedade no estudo desde a Academia e, o que mais importa, a fidelidade a seus valores ao longo de uma existência que se estendeu de meados de 1940 a 2012.

No tempo em que a Rua da Praia era a mais porto- alegrense das ruas da Capital, entre a Ladeira e a Uruguai, a alguns metros da Livraria Americana, morou Lélio Campos, era ali a residência de seu pai, o Dr. Alcebíades Silveira de Campos, componente da sexta turma da Faculdade de Direito, de 1909; dela também fazia parte João Neves da Fontoura, a cujos talentos estava reservada brilhante presença na vida intelectual e política da nação.

Pelas características do nosso sistema de ensino, a tendência do expositor ou analista é partir da lei para o caso e, se Lélio Campos recebeu essa orientação, também experimentou a que parte do fato para os princípios, uma vez que era natural se familiarizasse com a vida forense que o escritório paterno lhe proporcionava, escritório mais que trintenário quando Lélio se formou. Desse modo, teria feito dois cursos simultâneos, um na faculdade, outro no escritório renomado. Nem é difícil concluir que a passagem da fase acadêmica à profissional se tenha operado quase sem ser notada.

Enfim, as qualidades inatas e as cultivadas, harmoniosamente justapostas, asseguravam a Lélio Candiota de Campos a unidade cultural e moral, a que não faltava a nota musical nem a sedução pela cultura alemã, enquanto a limpeza da linguagem e a fidalguia do convívio conferiam-lhe a posse tranquila de suma elegância.

Se é verdade que os louros da advocacia demoram em aparecer, isto não impediu que o diplomado de 1943 em 1955 figurasse como consultor jurídico de um dos grandes estabelecimentos de crédito do país, e nessa posição permanecesse 34 anos. Em 1960, o Tribunal de Justiça incluía o nome do jovem advogado para compor o Tribunal Regional Eleitoral e o magistrado passou a ostentar altos méritos judicantes.

Quatro anos depois, ao que me consta por iniciativa do catedrático Hernani Estrella, Lélio Campos passou a compor o quadro de lentes de Direito Comercial na faculdade em que se graduara 20 anos antes, nele permanecendo por 13 anos; era o reconhecimento da autoridade do jurista, exatamente no setor da sua preferência. Entre outros, esses dados sinalam momentos de sua ascensão ao patamar atingido em plena maturidade, ocasião em que o Instituto dos Advogados do Rio Grande do Sul lhe outorgou a láurea de “Jurista Eminente”.

Em síntese, Lélio Candiota de Campos enobreceu a advocacia, a judicatura eleitoral, o magistério universitário e, particularmente, seu rincão preferido, que fora o de André da Rocha, e enriqueceu o patrimônio cultural da faculdade que o diplomara.

*JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF



06 de agosto de 2012 | N° 17153
LONDRES 2012 - ATLETISMO

E o vento levou

Em Pequim, Fabiana Murer era a própria indignação. Em Londres, o próprio desalento. Em Pequim, Fabiana perdeu uma de suas varas, se desconcentrou e saltou abaixo do esperado. Era vista depois da prova caminhando de um lado para outro na pista, reclamando com os juízes, esbravejando. Em Londres, a campeã mundial se assustou com o vento forte e simplesmente desistiu de saltar.

– Era muito perigoso – justificou.

Foi vista andando a esmo pela pista, como se não soubesse o que pensar.

Em Pequim, Yelena Isinbayeva ofereceu uma de suas varas a Fabiana a fim de substituir a que se perdeu. Fabiana não aceitou, a russa saltou e ganhou a medalha de ouro. Em Londres, ventava também para Yelena, mas ela não se importou. Saltou. E hoje salta para tentar outro ouro.

O vento também empurrava para trás Mauro Vinícius da Silva, o “Duda”, paulista de 25 anos, que disputava a final do salto em distância no sábado. Como Yelena, ele nem ligou. Saltou. Mas ficou abaixo do seu rendimento normal, com apenas 8m01cm. Mesmo assim, recusou-se a usar o vento como desculpa e até fez uma pequena crítica a Fabiana:

– Não sou de fazer isso. Assumo minha responsabilidade.

Está certo o Duda. Afinal, assim como ventava para Yelena e Fabiana, ventava para o britânico Greg Rutherford, seu adversário no salto em distância. Pois, ainda que contra o vento, Greg saltou melhor do que Duda, fez 8m31cm e recebeu a medalha de ouro na pista do Estádio Olímpico, orgulhoso, ao som de God Save The Queen.


06 de agosto de 2012 | N° 17153
KLEDIR RAMIL

Diário de bordo – viagem ao espaço

O pessoal do Fantástico que veio me entrevistar não gostou do meu depoimento. Claro, meu amigo maluco do pandeiro havia contado uma história muito mais interessante para o horário nobre, que, além da passagem pelo Triângulo das Bermudas, descrevia abdução por seres alienígenas.

O que eu disse ao rapaz que me entrevistou é que não sei o que aconteceu. “Acredito que tenha sido um sonho. Estávamos há dias em alto-mar, sem água, muito sol na moleira...”. Foi só o que declarei.

Pra vocês, conto o que aconteceu de verdade. Acordei com a voz do meu companheiro: “Aeee... Acho que o sol tá chegando perto da gente”. Como era noite, pensei que o fulano tinha desagregado. Abri o olho e vi uma luz muito forte sobre nós, um clarão, um enorme cone vertical que nos sugou com lancha e tudo pra dentro de um disco voador.

Era um pessoal simpático. Nos ofereceram um jantar, com pílulas, comprimidos e uma bebida azul fluorescente, que soltava fumaça. Preferi aceitar um copo d’água e abri conversa agradecendo a hospitalidade. Fomos informados que estávamos ali fazendo parte de um estudo antropológico: ficaram curiosos com o fato de que todos vivem amontoados em cidades, em terra firme, e aqueles dois estavam sozinhos, em alto mar. E pelos sorrisos, deu pra perceber que insinuavam que éramos um casal.

Ao final do jantar, perguntaram se estaríamos dispostos a uma experiência sexual intergaláctica. Apesar do caráter científico do experimento, respondi que sou casado e que não me sentia à vontade para participar. Meu companheiro, que, pra variar, havia abusado da bebida servida, colocou-se à disposição. “Aeee, tô na área”.

E comentou comigo: “Cara, é um bando de mocreias, mas já tô a perigo mesmo”. Foi aí que caiu a ficha. “Vem cá, como é que eu vou saber quem são as garotas e quem são os rapazes...?”.

Não sei o que aconteceu dentro daquele quarto, mas não foi bacana. Zé Mané saiu transtornado, chutando a porta. Enfiou o dedo na cara de um ET e gritou: “Quero voltar pra casa, agora! Se não, vou chamar o pessoal da Nasa”. E sentou na nossa velha lancha, com as mãos na cintura.

Acompanhei o movimento e sentei quietinho no meu banco. Tomei coragem e pedi que, se possível, gostaria de ser deixado em casa, CEP número tal, mas os caras não estavam pra conversa. Fomos largados no meio do mar.

Que maldade. Tem gente que não tem educação mesmo.


06 de agosto de 2012 | N° 17153
PAULO SANT’ANA

Falar pelas costas

Às vezes nos queixamos de que algumas pessoas, pela forma como nos dizem determinadas coisas, são mal-educadas.

Não nos damos conta de que essas pessoas nos dizem essas coisas desagradáveis ou inconvenientes pela nossa frente.

Já certas pessoas que nos parecem bem-educadas não nos dizem coisas impróprias, no entanto, falam mal de nós pelas nossas costas.

Conclusão: mais vale ouvir despautérios pela frente do que destampatórios pelas costas.

Dizem agora que as mulheres alcançaram no final do século passado um tal grau de independência, que se igualaram aos homens.

Se isso é verdade, parece-me indiscutível por outro lado que a maternidade, que antigamente era a pedra angular da personalidade feminina, perdeu um pouco de importância para a mulher, que passou a interessar-se profundamente por concorrer com os homens no mercado de trabalho.

As mulheres atiraram-se tão resolutamente a essa igualdade com os homens, que pouco lhes importou terem deixado de certa forma de serem mães protagonistas, correndo assim o risco de coadjuvância social.

Interessa-me esta jactância da ciência, atualmente, ao gabar-se de que ela aumentou a expectativa da vida dos seres humanos. É verdade. Mas num ponto a longevidade se torna polêmica: é quando o ancião, por deficiências físicas ou mentais, passa a não ostentar vida útil e se transforma num trambolho para seus parentes ou atendentes.

É bom ter conseguido a ciência que o homem passe a ser mais longevo. Mas só quando a velhice de alguém não atrapalha os outros.

O ministro do STF Dias Toffoli, entre tantos outros motivos ardentes e visíveis, tinha de ter se declarado suspeito e afastar-se do julgamento pela singela razão de que o Brasil inteiro agora já sabe quais serão seus constrangidos votos.

Grêmio e Internacional deram dois largos passos no sentido de ocuparem lugar na Libertadores de 2013, no fim de semana.

Vitória colorada contra o Palmeiras, em terra paulista, não é qualquer um que obtém neste Brasileirão.

E o Grêmio cumpriu seu dever frente ao Bahia, num jogo de polêmica arbitragem, protestada pelos visitantes.

Os próximos jogos vão definir se a dupla pode ter ambição ao título ou se ficará entre os quatro primeiros.

Eu já acho que o Grêmio à frente do Internacional na tabela um ponto já é um milagre.


06 de agosto de 2012 | N° 17153
L. F. VERISSIMO

Esportes espontâneos

Não sei muita coisa a respeito de judô. Sempre me pareceu que uma luta de judô consiste em um tentando desarrumar o pijama do outro. Mas uma coisa me surpreendeu, vendo o judô das olimpíadas na TV: como judoca é emotivo. Têm-se visto manifestações de sensibilidade em outras modalidades, claro.

Todo mundo se emociona na vitória ou na derrota, na hora das medalhas e na hora dos hinos. Mas você imaginaria que judocas fossem pessoas duronas, que soubessem conter suas emoções.

O simples fato de o puxa-puxa das suas lutas não desandar em brigas de rua, com pontapés e ofensas à mãe (pelo contrário, nada mais civilizado do que as formalidades entre os lutadores, antes e depois das lutas), seria uma prova de controle absoluto. Mas não, judocas choram quando ganham e choram quando perdem. O que não deixa de ser muito simpático.

Sempre achei que as olimpíadas se tornariam mais simpáticas se incluíssem o que se poderia chamar de esportes espontâneos. Por exemplo: queda de braço e bolinha de gude.

A incorporação dessas modalidades populares favoreceria países sem tradição olímpica, que nunca competem nos esportes nobres, mas poderiam muito bem mandar uma delegação vencedora de jogadores de pauzinho (também, conhecido como, desculpe, porrinha).

Qualquer frequentador de bar brasileiro conhece o jogo de pega-bolacha, que consiste em empilhar bolachas de chope na borda da mesa, mandá-las para o alto com um golpe e tentar agarrá-las no ar. Duvido que o Brasil encontrasse adversário a sua altura numa competição de pega-bolacha.

Há esportes espontâneos com uma longa história que quem praticou em criança nunca esquece, como bater figurinha. Com alguns meses de treinamento, qualquer adulto pode recuperar sua habilidade em bater figurinha e ir para os jogos. Outras modalidades: embaixada com laranja ou qualquer outra coisa esférica; tiro ao alvo com bodoque; arremesso de invólucro de canudo soprando o canudo; par ou ímpar. Etc., etc.

E não vamos nem falar nos vários jogos de cartas, como o truco, nos quais nossas chances de ganhar o ouro seriam grandes. Talvez houvesse alguma dificuldade em acordar a delegação do pôquer para o desfile inaugural, e imbuir todo o mundo do espírito olímpico, mas fora isso...

domingo, 5 de agosto de 2012


FERREIRA GULLAR

A exceção e a regra

Existe um presidente da República, em pleno exercício do mandato, que doa 90% de seu salário

Falando francamente, confesso a você que já quase perco a esperança no Brasil. Basta ouvir o noticiário de televisão ou ler o jornal. É que a corrupção tomou conta do aparelho de Estado de tal modo que até parece não ter mais volta.

Não se trata apenas do roubo puro e simples, da apropriação de recursos públicos que são desviados para a caixa dos partidos e para o bolso dos políticos. É também o uso da máquina -dos mútuos favores e das leis- para benefício dos ocupantes de altos cargos nos diferentes setores do poder. Sem qualquer escrúpulo, a casta que se apropriou do país atribui-se a si mesma altos salários, vantagens e privilégios que envergonhariam qualquer um.

São salários que a maioria dos trabalhadores brasileiros jamais ganhará, mesmo que trabalhe 20, 30 anos. E o pior é que grande parte daquela gente simplesmente não trabalha. Muitos recebem como funcionários públicos para prestar serviço na casa ou na firma do parlamentar que os apadrinha.

E você se pergunta: como pôr fim a isso? E logo vê que é muito difícil, senão impossível, uma vez que toda essa safadeza está amparada em leis e dispositivos que eles próprios inventaram e aprovaram.

Para mudar essas leis, seria preciso elegermos legisladores totalmente desvinculados dessa casta corrupta. Mas como, se ela domina toda a máquina do Estado e os partidos? Os que a isso se opõem -e os há!- continuarão minoria e pouco ou quase nada conseguirão fazer. Por isso, a cada dia, meu desânimo é maior.

Bem, era, porque inesperadamente me chegaram informações de que existe um presidente da República, em pleno exercício do mandato, que doa 90% de seu salário à sociedade. Devem imaginar meu espanto ao saber disso. Mas ele existe, sim, chama-se José Mujica e é presidente da República do Uruguai.

De nome, já o conhecia e me lembro de quando foi eleito em 2009, em substituição a Tabaré Vázquez, político de esquerda como ele. Admito que, ao saber dele, temi que fosse outro exemplo do neopopulismo em que a esquerda latino-americana se transformara.

Enganei-me redondamente e só me dei conta disso agora, ao receber essa notícia escandalosa de que é ele o presidente da República que não só não rouba nem deixa roubar como entrega quase todo o salário que recebe a instituições que ajudam aos pobres. Estava eu, portanto, longe de imaginar que José Mujica fosse o exemplo de homem público que ele é, com um grau de desprendimento e consciência social como dificilmente se encontra hoje em dia. De minha parte, posso dizer que não conheço nenhum.

José Mujica tem uma longa história. Foi guerrilheiro naqueles anos em que muita gente perdeu a lucidez política e entrou nessa errada.

Ele, como outros, inclusive nossa Dilma, por força das circunstâncias, teve que abrir mão do radicalismo ideológico e aderir à normalidade institucional democrática. Elegeu-se deputado, depois senador e, durante o governo de Tabaré Vázquez, foi ministro da Granadería. Talvez algo do radicalismo guerrilheiro ainda persista em alguma de suas atitudes, como negar-se a residir no palácio presidencial após tomar posse na chefia do governo.

Mas pode ser mesmo que prefira morar em sua pequena fazenda nos arredores de Montevidéu. Para quem não gosta de pompa, a própria casa é sempre mais acolhedora.

A verdade é que, muito embora já tenha exercido mandatos e ocupado cargos no governo, não enriqueceu, já que, além dessa pequena fazenda, tudo o mais que possui é um fusca azul celeste, que não deve valer no mercado mais que R$ 3.000.

Sua mulher, a senadora Lucía Topolansky, também doa quase todo o salário a entidade sociais. A possibilidade de que isso não passe de uma atitude demagógica parece-me descabida, já que ambos se declaram em fim de carreira.

Se saber da existência de um tal político me deu ânimo novo, não significa que basta ser solidário e generoso com os mais pobres para fazer bom governo e resolver os problemas do país. Problemas esses que, a cada dia, se tornam mais difíceis de resolver. No entanto, para nós brasileiros, que vemos nosso país tomado por políticos corruptos, o exemplo de Mujica causa inveja.


JOSÉ SIMÃO

Av. Brasil! Quero ser congelado!

E por que eles não reprisam aquele escândalo do Renan Calheiros? Pelo menos a mulher era gostosa! Rarará!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Periguetes e Suelens! Olha o outdoor em Taboão da Serra (SP): "MISS PIRIGUETI! Show-pana Bar! Indeixável de ir!". E indeixável de rir com esse indeixável!

E as manchetes olímpicas: "Natália Ferrão eliminada na pistola"; "Equipe feminina de hóquei da Holanda é patrocinada pelo Rabobank"; "Pato disse a Ganso pra ter paciência". Quack! Isso é futebol ou aquele filme da Disney em que os bichos falam? E um amigo meu quer uma nova modalidade olímpica: Salto na MINHA vara! Rarará!

E nós vamos ganhar ouro em ourucubaca e ourubu! E dominó, porrinha, pega vareta, passa anel, rouba monte, bimbada e bronha!

E o bafo da semana: Mensalão! O mensalão tem tantos acusados que não é mais banco de réu, é arquibancada. E esse mensalão demorou tanto pra ser julgado que os réus já estão doentes e o juiz tá com Alzheimer! Adia! Mais sete anos!

E aquele ministro do Supremo com aquela capinha preta? Parece o avô do Batman! Rarará! E o ministro Toffoli? Ele devia se chamar Tôfora! E preguiça, viu! Rever o Delúvio Soares e o Marcos Velório! Por que eles não reprisam o escândalo do Renan Calheiros? Pelo menos a mulher era gostosa! Rarará! Esse julgamento devia ser sumário: 48h. Tamo Livre e Teje Preso!

E diz que o Tufão é o único que não acredita que o mensalão existiu. E o Jorginho é revoltado assim porque se lembrou que comeu a Mãe Lucinda em outra novela. E a Monalisa se mudou pra zona sul e entrou em novela do Manoel Carlos. E a Muricy ganhou medalha olímpica em salto em vara.

E deviam congelar o pinto do Cadinho. E descongelar no último capítulo! Rarará! E quem gritar mais, congela a imagem no final! Os Congelados. Do Carrefour! E o meu maior sonho é ser congelado! É mole? É mole, mas sobe!

EREÇÕES 2012! A Galera Medonha! A Turma da Tarja Preta! Direto de Cotia: Linguiça Sem Preguiça! Voto! A pior coisa do mundo é linguiça com preguiça! E em Indiaporã (SP): "Para prefeito, Fernando Boi. Vice Meio Quilo". Rarará!

E direto de Pernambuco: Dó do Povo, Dona Fufu, Sou do Bem e Furúnculo Maligno. Tenho medo do Furúnculo Maligno! Tenho medo da Nina, da Carminha e do Furúnculo Maligno! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

ANTONIO PRATA

Esporte de verdade

Digam quanto vocês conseguem levantar, vão lá e levantem. Pronto, acabou

Neste domingo, todos os olhos do mundo estarão voltados para o velocista Usain Bolt, na disputa dos 100 m rasos. Bolt é, sem dúvida, a grande estrela destes Jogos; a imagem que os fotógrafos esperam captar, que os patrocinadores investiram para ter, que o público anseia por aplaudir é a do jamaicano comemorando a vitória, lançando sua flecha invisível pelos céus da Grã-Bretanha.

Bobagem. Após uma semana e meia em Londres, indo do arco e flecha ao handebol, acompanhando da esgrima ao badminton, posso afirmar com segurança que a mais nobre das modalidades não é a corrida, não é a natação, não é o hipismo, tampouco o futebol: o apogeu do esporte é o levantamento de peso.

É ali, meus caros, que o atleta chega mais perto de sua essência. É o homem e a barra. A carne e o chumbo. A força de seus músculos contra a força da gravidade. É, basicamente, nós contra Deus -e sem chance de trapaça.

Caiaques? Rifles? Discos? Petecas? Dardos? Bolas? Tergiversação. Ora, querem testar os limites do corpo? Digam quanto vocês conseguem levantar, vão lá e levantem. Pronto, acabou. Como descreveu meu amigo Matthew Shirts, historiador, brasilianista e profundo conhecedor da modalidade em questão, "É um esporte tão puro, tão grego, que beira o lirismo". Eu não poderia dizer melhor.

Só num mundo decadente e esquálido, em que a virilidade escorreu pelo ralo, correr rápido pode ser uma virtude. O que é um velocista senão o mais bem acabado filho da estirpe dos fujões? Seus genes foram selecionados, geração após geração, escapando de predadores, de inimigos, de credores, das tamancas da mamãe. Herói não é quem corre, é quem encara.

Grandes não são Phelps, que foge na água, nem Bolt, que foge na terra, são Kim Un Guk, Lin Qingfeng, Lu Xiaojun, Adrian Zielinski, que vi vencerem nas categorias até 62 kg, 69 kg, 77 kg e 85 kg de levantamento de peso, nos últimos dias. Imenso é Om Yun Chol, o pequeno Hércules norte-coreano, um homúnculo mais talhado para jóquei do que para halterofilista e que, com 1,52 m e 55 kg, conseguiu o feito raríssimo de erguer mais que três vezes o próprio peso, 168 kg, levando ouro na categoria até 56 kg.

É bem provável que Bolt vença hoje. É bem provável que em dezembro, na retrospectiva do "Fantástico", a imagem escolhida para resumir Londres-2012 seja a do jamaicano, comemorando.

Mas na minha retrospectiva particular, dia 31 de dezembro e pelo resto da vida, quando me lembrar desses jogos, será a careta do pequeno Om Yun Chol que virá à mente, colocando aqueles 168 kg acima de sua cabeça, a um metro e meio do chão. Esporte é isso aí, meu amigo, o resto é perfumaria.

ELIANE CANTANHÊDE

No lucro

BRASÍLIA - O procurador-geral Roberto Gurgel contou uma história com começo, meio e fim, mas recorrendo mais a relatos de testemunhas e menos a provas documentais. Esse vai ser o centro do julgamento.

Na profusão de nomes, valores, datas e fatos, algo aparentemente periférico se destaca: uma conta aritmética. Marcos Valério, o pivô, foi oito vezes ao Banco Central defender interesses do Banco Rural, que "emprestou" R$ 32 milhões para o esquema e foi brindado depois com R$ 1 bilhão na liquidação do Banco Mercantil de Pernambuco. Negócio da China!

Gurgel explicou em bom e claro português, citando trechos de depoimentos e as páginas em que podem ser encontrados: os empréstimos eram "falsos, fictícios", apenas para encobrir "doações em troca de favores" acertados depois "entre quatro paredes da Presidência".

Ou seja, para que o dinheiro sujo circulasse entre o público e o privado, saísse do Banco do Brasil e de órgãos públicos para caixas de partidos e bolsos de políticos aliados ao Planalto de Lula e Dirceu.

Em resumo, o Banco Rural e o BMG simulavam empréstimos para encobrir a roubalheira e, em troca, ganhavam vantagens altamente compensadoras do governo Lula.

Segundo Gurgel, as notas eram envoltas em faixas com os logotipos do BB ou dos bancos privados e as quantias eram tão grandes que circulavam em caixas-fortes!

Na sua fala, de cinco horas, ele apontou José Dirceu como o "autor intelectual" do esquema e Delúbio Soares e Marcos Valério como "elos" entre o núcleo político e os núcleos operacional e financeiro.

Mas isso já foi amplamente dito, escrito, comentado. O que se quer saber é se, além da eventual pena dos culpados, essas quantias milionárias serão devolvidas aos cofres públicos.

Senão, mesmo com condenações, os envolvidos continuarão no lucro e ficará comprovado: o crime realmente compensa.

elianec@uol.com.br