11 de outubro de 2008
N° 15755 - PAULO SANT’ANA
Só poucas bolachas!
Nós não temos consciência da maioria dos dramas que nos cercam.
Vejam bem esta questão. Dá para dizer sem medo de errar que a maioria das crianças que estudam na rede estadual de ensino, no 1º grau, só comparecem às escolas porque lá lhes espera uma merenda. O ensino, neste caso, vem de lambujem.
Tanto é conhecido dos educadores, que grande parte dessas crianças, se lhes for retirada a merenda escolar, abandona o estudo e não mais comparece às aulas.
Este é um dado aterrorizante da nossa realidade, para o qual não atentamos.
Se não houver merenda, não haverá aulas. Tanto porque as crianças não terão concentração para assistir às aulas quanto porque a merenda diária na escola é a base da alimentação delas para todo o dia.
Esta coluna pede à governadora e à secretária de Educação que reflitam muito profundamente sobre isso.
Estou publicando abaixo uma carta de uma professora que espelha com muita fidelidade este drama:
Prezado Sant’Ana. Como grande admiradora do seu trabalho, cheguei de minha escola hoje ao meio-dia e o escolhi para este enorme desabafo. Talvez isto nem o afete, pois muito o senhor tem acesso às informações do nosso Estado.
Sou diretora de uma das maiores escolas de minha cidade, Escola Gabriel Miranda, de Cruz Alta, e hoje, substituindo uma colega ausente numa das turmas de oitava série, chorei na frente dos alunos!
Cheguei atrasada para atendê-los no último período e, ao pedir desculpas pela minha atitude, embarguei-me e não consegui mais falar, apenas chorar...
Pelo acontecido, vi-me obrigada a explicar a situação, pois a turma de 30 adolescentes olhava-me incrédula.
Pois bem, acabara de atender a vice-diretora do turno da noite que veio implorar-me para não cancelar a merenda dada aos alunos, pois após um dia de trabalho, muitos só têm acesso a esta refeição e que, se a escola não prover esta necessidade, perderemos alunos e eles mais uma chance de integrarem-se dignamente na sociedade.
Expliquei-lhe que inclusive os alunos do dia, em torno de 1.250, estavam apenas com bolachas e que estas estão por acabar.
Sant’Ana! Senti-me como uma mãe que não tem o que dar aos seus filhos e os vê pedindo soluções! Estou sem nenhuma solução...
Apenas sabemos pelos meios de comunicação que nosso Estado não receberá a verba federal para alimentação por falta de organização de pessoas incompetentes que estão nas pastas da Educação deste Estado! Isto não pode acontecer! São crianças, jovens e adultos que eles estão atingindo!
De nossas Coordenadorias de Educação, não temos nenhuma linha de explicação. Vi num jornal que não deveríamos, nós, diretores, deixar nossos alunos sem merenda, que poderíamos comprar com a verba da Autonomia Financeira da Escola, mas nada de concreto, nenhum ofício nos chegou! Será que devemos comprar com o nosso salário?
Do jeito que estamos sendo tratados, abaixo de ‘ordens de serviço’, não duvido que chegaremos lá, com o argumento de que a FG que recebemos é também para este fim.
Hoje, alguns de meus alunos viram-me chorar e reclamar de nossos políticos que parecem insanos e apáticos a este governo e suas práticas ditatoriais. Amanhã, meus alunos estarão entrando no nosso mundo de responsabilidades e serão que tipos de cidadãos?
Estou, sim, revoltada e por isso achei-me no direito de escrever-lhe, ainda entre lágrimas, pois sou extremamente emotiva quando o que eu amo está sendo atingido.
Cordiais saudações, (ass.) professora Liz Marla Ribas Radaelli”.
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