sábado, 11 de outubro de 2008



11 de outubro de 2008
N° 15755 - CLÁUDIA LAITANO


Toda nudez será questionada

Oprimeiro homem que eu vi nu foi São Francisco de Assis. O santo ainda não era santo, apenas um rapaz de família rica que decide abrir mão dos bens materiais, inclusive a roupa do corpo, para assumir um estilo de vida que, depois dele, ficaria conhecido como “franciscano”.

O filme chamava-se Irmão Sol, Irmã Lua, e a moral da história não poderia ser mais nobre e edificante, mas, para uma menina que nunca havia visto uma bunda no cinema, o sentido espiritual do gesto de despojamento ficou em segundo plano diante da concretude da imagem glútea.

Tirar ou não tirar a roupa diante das câmeras, eis a questão que mobilizou atores, atrizes e diretores brasileiros durante esta semana de ressaca eleitoral e nuvens negras estacionadas sobre o céu da economia (não, São Francisco de Assis não apareceu nas discussões, mas não consegui deixar de imaginar se o filme teria tido o mesmo impacto sobre mim sem a cena do nu abençoado...).

A polêmica começou pouco antes da exibição do filme Todo Mundo Tem Problemas Sexuais, de Domingos de Oliveira, no Festival do Rio, na última quarta-feira. Um dos protagonistas, o ator Pedro Cardoso, fez um inflamado e surpreendente discurso contra o uso exagerado de cenas de nudez no cinema e na televisão no Brasil.

Em resumo, a bronca (que virou um manifesto, publicado na íntegra no sitehttp://todomundotemproblemassexuais.zip.net/index.html) é contra os diretores que tiram a roupa do elenco como quem coloca um enfeite novo no cenário – e também contra a liberalização de costumes que teria banalizado a pelação a partir dos anos 90, inclusive na TV e em todos os horários.

“Com a conivência de escritores e diretores (alguns deles, em algum momento, verdadeiros artistas; outros, nunca!) temos visto cenas de nudez, ou seminudez, ou roupas sensuais, ou diálogos maliciosos, ou beijos intermináveis, em quase todos os minutos da programaçãos das televisões e nos filmes para cinema, sem falar na publicidade”, acusa Pedro Cardoso.

O ator afirma ainda que quem mais sofre com o “voyeurismo” de diretores e escritores e com a “opressão da pornografia” são as atrizes, colocadas em situações em que recusar uma cena de pouca ou nenhuma roupa pode significar perder o trabalho ou ser ridicularizada.

A primeira a apoiar o manifesto foi a atriz Cláudia Abreu, que já não é novata na profissão: “Queria dizer que sou atriz e endosso tudo o que ele falou. Passei por uma situação recentemente. Ele está completamente certo”.

Há uma certa forçação de barra no desabafo do ator, até porque o manifesto tem um tom passional e aparentemente foi escrito em um momento de raiva, mas não deixa de ser corajoso vir a público falar contra a nudez em um país que se orgulha da sua desencanação com o assunto.

É bom ser desencanado, é bom não ter censura dizendo o que pode e o que não pode aparecer no cinema ou na televisão, mas melhor ainda é desligar o piloto automático que nos faz aceitar tudo que é repetido como se fosse natural.

O que as atrizes podem fazer para continuar trabalhando sem ter que tirar a roupa por qualquer motivo eu não sei, mas o público, literalmente, tem o controle nas mãos.

A melhor maneira de censurar o mau gosto, a apelação e a banalização do sexo é simplesmente deixar de ver.

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