11 de outubro de 2008
N° 15755 - MOACYR SCLIAR
Gente fina não se vacina?
O Inquérito de Cobertura Vacinal, financiado pelo Ministério da Saúde e pela Organização Panamericana de Saúde, e apresentado no Congresso Brasileiro de Epidemiologia recentemente realizado em Porto Alegre, trouxe dados curiosos e até surpreendentes sobre a proporção de crianças vacinadas no Brasil. Há boas notícias e uma má notícia.
Boa notícia: 81% das crianças brasileiras estão vacinadas contra as principais doenças, o que é uma ótima porcentagem e mostra a adesão de nossa gente aos programas de imunização. Boa notícia, também: Porto Alegre está entre as cidades que mais vacinam, chegando a uma percentagem de 90%.
Notícia que surpreende, e que não é boa: na classe A, a mais rica, a mais afluente, a porcentagem de crianças vacinadas contra tuberculose, meningite, hepatite B, paralisia infantil, sarampo e outras doenças cai – repito, cai – para 76,3%, e, na Região Sudeste, a mais próspera, a região do Rio e de São Paulo, desce para 68,9%. A diferença pode não ser grande, mas é preocupante.
Como entender estas cifras? A gente pensaria que tendo mais dinheiro, e portanto podendo freqüentar escola e universidade, a classe A seria a mais informada e que cuidaria melhor de sua saúde e da saúde de suas crianças.
No passado, os pobres, exatamente pelo desconhecimento, fugiam das vacinas. Dizia-se que a vacina contra a varíola, que no começo era extraída de vacas, deixaria os vacinados com cara de bezerro.
Este e outros boatos desencadearam a famosa revolta contra a vacina, que eclodiu no Rio em 1904, transformando a então capital federal numa praça de guerra, com barricadas nas ruas. Pessoas morriam para não se vacinar.
As coisas mudaram e os dias nacionais de vacinação mostram-no muito bem. É só avisar que as vacinas serão aplicadas, e o povo acorre em massa.
O povo acorre em massa, mas não a classe A. Por quê? Este é um assunto que ainda precisa ser estudado, mas algumas hipóteses a gente pode levantar.
Em primeiro lugar, embora as vacinas sejam seguras, o pessoal de mais recursos recebe – exatamente por estar mais informado, via internet, por exemplo – notícias preocupantes e que na maioria das vezes não correspondem à realidade.
Assim, em 1998 um pequeno estudo sugeriu que a vacina contra rubéola, caxumba e sarampo poderia estar associada a autismo.
Não havia nenhuma prova disso, e a conclusão foi desmentida, mas o mal já estava feito: muitos pais deixaram de vacinar seus filhos, que assim ficaram sujeitos a doenças perigosas.
Por outro lado, existem pessoas que rejeitam vacinas, preferindo métodos “alternativos” (que, não se iludam, não funcionam). E por último não falta quem considere vacina coisa para pobre, uma proteção da qual gente fina não precisa.
Não são muitas essas pessoas, como mostram os números. Mas a sua atitude justifica o alerta: vacinem as crianças, gente. É um grande presente no mês da criança.
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