sexta-feira, 8 de março de 2013



08 de março de 2013 | N° 17365
PAULO SANT’ANA

Mulheres

Nada mais apropriado que, sendo hoje o Dia Internacional da Mulher, eu arrole nesta coluna todas as mulheres que foram nesta vida significantes para mim.

A começar por minha mãe, que morreu quando eu tinha apenas dois anos de idade, daí que carrego um estigma terrível: não me lembro da figura da minha mãe.

Mas em breve não há dúvida de que me encontrarei com ela, no céu, lugar merecido, é certo, por minha mãe.

A seguir apareceram em minha vida de criança as minhas duas tias, irmãs de meu pai, Nila e Lita, que me criaram até os nove anos. Foram elas que embalaram o meu destino.

Depois, meu pai casou-se de novo e surgiu minha madrasta, dona Zica, a minha primeira cozinheira, que lavava minha roupa e engraxava os meus sapatos com aqueles cuidados de uma verdadeira mãe.

Bem mais tarde, apareceu em minha vida minha ex-mulher, Ieda, com ela tive dois filhos mimosos, entre eles uma mulher importante em minha vida, minha filha Fernanda. Ieda foi também importantíssima em minha vida.

Depois, surgiu minha segunda e atual mulher, creio que última: Inajara. A esta mulher coube o papel mais espinhoso: cuida da minha velhice, administra as minhas manias, vela os meus desmazelos e serve, nas noites e nas madrugadas, de minha enfermeira. Com ela, tive e tenho uma filha, Ana Paula, hoje com 25 anos, filhinha querida do papai.

Essas foram as mulheres centrais da minha vida. Mas há tantas outras mulheres fulcrais em minha vida, como as minhas dentistas, as minhas médicas, as minhas enfermeiras, que me assistiram em mais de uma dezena de cirurgias que sofri. Todas elas foram devotadas comigo, nunca jamais as esquecerei.

E nesse intermezzo surgiram algumas namoradas minhas, que não foram inúmeras, mas também não foram poucas.

A mais ilustre de todas, conheci-a em Tapes, no período mais feliz da minha vida, como esquecer aqueles olhos grandes e azuis que me pareciam as janelas do céu?

E tantas e tantas outras mulheres passaram pela minha vida, sendo para mim tocantes ou até mesmo as que não me tocaram.

Você, que é meu leitor ou minha leitora, quantas mulheres já foram importantes na vida de vocês? Não tem conta.

A mulher foi criada por Deus para sublimar a vida. Tanto que a mãe de Deus, a Virgem Santíssima, Maria, a advogada nossa junto a Deus, foi escolhida para se emparceirar com a Santíssima Trindade e inocular fé e esperança nos corações da humanidade.

Portanto, no Dia Internacional da Mulher, mando um abraço a todas as mulheres e lembro que escrevi dias atrás que dia haverá em que o Vaticano escolherá uma papisa.


08 de março de 2013 | N° 17365
DAVID COIMBRA

O que o homem busca na mulher

Há algo que busco nas mulheres, e que todos os homens buscam, mesmo que não saibam. É um sentimento que as exalta.

Não, não me refiro ao desejo carnal, embora, claro, uma mulher possa ser objeto de desejo, e isso não a diminui; ao contrário, também a exalta.

É lindo ver uma mulher exercendo o seu fascínio sobre os homens. Queria ter testemunhado os momentos em que Cleópatra enfeitiçou os dois estadistas mais poderosos do seu tempo, dando um filho a um e a morte a outro; ou a dança de uma Salomé, tão sedutora, que valia a cabeça de um santo; ou até as orgias da loira Messalina, que à noite metia-se debaixo de uma peruca morena e ia se oferecer por poucos sestércios sobre um tamborete na Suburra, o bairro do pecado de Roma.

Mas não são os poderes do sexo que mais elevam a mulher para os homens. Tampouco é a atualmente tão celebrada capacidade que a mulher tem de ser múltipla – mãe, esposa, profissional, aquela conversa de comercial de TV.

E, ainda que as valorizem, os homens não distinguem em especial as sólidas mulheres que conquistaram o poder, uma Dilma, uma Angela Merkel, uma Tatcher, ou uma das antigas soberanas, como Elizabeth I, que se proclamava a Rainha Virgem não porque não levasse homens para a cama, mas porque os quisesse longe do trono.

Não.

O sentimento que define a mulher é a compaixão. É o sentimento estrutural da maternidade. Não que a mulher precise ser mãe para sentir compaixão. Não precisa ter sido mãe, nem nunca ter sido tocada por homem, não precisa sequer ser mulher ainda, pode ser uma menina, em qualquer caso, o que um homem anseia que uma mulher tenha a lhe cimentar a alma é a compaixão.

Um pai pode inspirar coragem, pode dizer qual é a verdade da vida; a mãe, o que se espera dela é o consolo, e o consolo é mais importante do que a verdade da vida. Não é por outra razão que o soldado agonizante no campo de batalha grita pela mãe.

A mãe é a Pietà que Michelangelo eternizou no mármore mole de Carrara, é a Lacrimosa que Mozart eternizou nas cordas dos violinos e das gargantas dos corais de Viena. É a compaixão. O que eu quero, o que todo homem quer de uma mulher, é compaixão.

quinta-feira, 7 de março de 2013



07 de março de 2013 | N° 17364
LETICIA WIERZCHOWSKI

Um verão indiano

Posso dizer que passei o verão na Índia... Depois de mergulhar em Joseph Anton, biografia de Salman Rushdie publicada pela Companhia das Letras, enveredei pelos romances O Último Suspiro do Mouro e Os Filhos da Meia-Noite (aclamadíssima obra de Rushdie, eleito, em 1993, Man Booker Prize, o melhor livro destacado pelo famoso prêmio literário britânico). Foram 1.708 páginas-Rushdie e horas de leitura – Joseph Anton é um livraço, e a história da fatwa e da vida clandestina à qual Rushdie foi condenado por Khomeini dariam um filme.

Eu nunca tinha lido Rushdie, confesso. E viajar pela sua ficção sanguínea e vertiginosa lavou a minha alma. Quando terminei meu primeiro livro, ouvi uma pessoa que eu admirava dizer-me: “Um belo texto, mas sofre de um problema, o realismo mágico é coisa do passado”. Eu tinha, portanto, escrito um livro que já nascia condenado – aqui da América do Sul, vivendo à sombra de García Márquez, não podíamos deixar que “moléstias fantasiosas” acometessem nossos livros...

Pois lá vem Salman Rushdie e deixa rolar. Seus personagens deixariam o clã Buendía de queixo caído. Eles andam pelo tempo, leem “n” pensamentos, crescem no dobro da velocidade normal para um humano, são geniais, preveem tragédias, morrem de amor – em suma, eles acontecem. Os livros de Rushdie são livros dos seus personagens, e eles pairam, vivos e furiosos, deixando a “forma” a comer poeira.

Os Filhos da Meia-Noite é um belíssimo livro, uma intrincada composição de histórias que brotam de histórias – Rushdie usa a trajetória da Índia contemporânea como uma boa bordadeira usaria seus fios coloridos e traça uma fantástica viagem na qual o leitor é levado pela vida de Salim Sinai, menino que nasce num hospital de Bombaim no mesmo momento em que a Índia se torna uma nação independente.

Sobre Rushdie, não há como não se sentir seu amigo depois de ler Joseph Anton. Pelo final do livro, Rushdie conta que, depois de 13 anos de proteção policial, finalmente chega o dia em que o governo britânico passa a considerar a ameaça da fatwa muçulmana baixa o suficiente para que ele possa ter a sua vida e o seu nome de volta (durante todo esse tempo, usara o nome falso de Joseph Anton, que dá nome à biografia narrada em terceira pessoa).

Faz-se uma festa para comemorar a liberdade de Rushdie, e um dos policiais que o protegeu diz-lhe: “Pensamos que você não ia aguentar, 13 anos de isolamento, sigilo e silêncio. Poucos segurariam a pressão”. E Salman responde: “Acontece que sou um escritor”. Palmas para Rushdie.



07 de março de 2013 | N° 17364
ARTIGOS - Antônio Augusto Mayer dos Santos*

Financiamento público e fundo partidário

Toma fôlego no Congresso Nacional o discurso de que o financiamento público de campanha corresponde à solução legislativa mais eficaz para revestir de igualdade e lisura as disputas eleitorais do país. Equívoco ou propaganda enganosa, talvez ambos. Convém lembrar que a atual Lei dos Partidos Políticos já prevê a possibilidade de dinheiro do orçamento para campanhas eleitorais.

A contar da Lei nº 9.096/95, o valor repassado aos partidos brasileiros pelo Tribunal Superior Eleitoral já chegou a R$ 1.759.308.815,61, conforme os números oficiais da Corte. Neste período de mais de uma década e meia, as agremiações receberam os seus repasses legais usufruindo de um financiamento público.

Detalhe: a lei, boazinha, contempla inclusive partidos que não ostentam um único mandatário em todo o território nacional. Ou seja: mesmo carecendo de voto ou representatividade, é certo que há verba garantida, bastando ao partido estar constituído e sediado em Brasília.

Por óbvio que o paternalismo do fundo partidário incentiva a proliferação de siglas ocasionais cuja ocupação precípua, além de enxovalhar o sistema partidário, é negociar horário gratuito de rádio e televisão no período eleitoral para logo depois dificultar a governabilidade pressionando pela acomodação de militantes nas burocracias.

Levando-se em conta o modelo de financiamento exclusivamente estatal delineado pelo parlamento, pelo qual cada brasileiro custará, a princípio, R$ 7 por voto, caso aprovado para a eleição seguinte e observada a projeção de 140.646.446 eleitores, seriam R$ 984.525.122 garantidos para as agremiações agirem “em nome do povo”, isto sem contabilizar o valor destinado ao fundo partidário para o mesmo período.

Para justificar e convencer acerca desta destinação cumulativa e bilionária de verba pública, somente se o Brasil fosse um país dotado de elevados índices de alfabetização, politização, saúde pública e participação popular, o que nem de longe ocorre. A manutenção do fundo partidário com este formato de financiamento exclusivamente público de campanhas que algumas lideranças do Congresso Nacional preconizam é inconcebível e se aproxima do acinte.

*ADVOGADO E PROFESSOR


07 de março de 2013 | N° 17364
PAULO SANT’ANA

A pena é do Estado

Insisto: o argumento de que com administração pública dos presídios o Estado paga mais barato por cada presidiário do que o seria com a administração privada é risível.

Transmite a ideia nítida de que assim como está é o que tem de ser. Barato, mas com caos.

Eu não quero saber quanto custa. O que quero é preso trabalhando e estudando nos presídios. O que preconizo é que a tuberculose e a aids nos presídios sejam reduzidas a quase zero.

O que quero é presídios sem ratos e sem esgotos a teto aberto.

O que quero é ver presídios onde não ocorram mais assassinatos nem tortura entre presos.

E é evidente que tais presídios ideais (privados) têm de custar mais caro que a precariedade alarmante dos presídios de hoje sob administração pública.

Outra falácia que se espalhou por aí numa burrice espantosa: que a pena que sofre um presidiário tem de ser administrada diretamente pelo Estado, ele é o titular da apenação, ele é que tem de cuidar dela.

Quando um presídio é administrado pela índole privada, não foge à administração da pena pelo Estado. O Estado apenas entrega, não a administração da pena, mas a administração do apenado a uma empresa privada.

Quem vai administrar a pena no presídio sob administração privada continuará sendo a Vara de Execuções Criminais com a ajuda prestimosa e indispensável do Ministério Público.

Ora, bolas! Falácia pura a tese contrária corrente. Parem de aplicar este cachorro.

Gozado é que o Estado não se furta a entregar as estradas ao pedagiamento privado.

E se vale do auxílio fundamental de multidões de seguranças privados que o ajudam a policiar desde os bancos até, muitas vezes, repartições públicas, assim como as residências e todo o resto do funcionamento civilizatório.

O número de seguranças privados no Brasil já ultrapassou há muito o número de policiais civis e militares.

Por que, então, se pejar de entregar a administração dos presídios à área privada?

E com uma vantagem: o Estado não tem controle direto das organizações de segurança privadas que atuam em nosso cotidiano, enquanto terá controle direto sobre a atuação das empresas privadas que forem administrar os presídios.

Ou seja, se a empresa privada que for administrar um presídio não estiver se conduzindo bem, o Estado a corrigirá ou a demitirá.

Enquanto hoje ninguém tem sido corrigido na esfera pública, muito menos demitido, por falhas nas administrações dos presídios.

Isso me parece de uma clareza meridiana, a tal ponto que lastimo ter de estar usando meus neurônios para ajudar a elucidar essa importante e primacial, assim como lógica, questão.

O óbvio não necessitaria ser explicado.


07 de março de 2013 | N° 17364
L. F. VERISSIMO

Elefante na sala

A única maneira de conviver com um elefante na sala é fingir que ele não está ali. Ignorá-lo. Se algum visitante desavisado perguntar o que um elefante está fazendo na sua sala, a resposta padrão deve ser “Que elefante?”. No Brasil, nos acostumamos a conviver com elefantes na sala.

Exemplo: só quase 30 anos depois do fim do período de exceção inaugurado em 1964 uma comissão começa a procurar a verdade sobre o que realmente aconteceu durante o período. Por quase 30 anos este elefante específico não mereceu atenção e viveu entre nós como um parente apenas vagamente incômodo.

A tal comissão não vai punir, antes tarde do que nunca, os desmandos da época. Os criminosos de então estão anistiados, mesmo identificados não sofrerão castigo ou sequer reprimendas da sua própria corporação. Mas pelo menos o elefante está sendo reconhecido. E citado.

Outros elefantes continuam ignorados, e continuam na sala. Hoje não há nenhuma dúvida de que o cigarro mata e o fumo é a principal causa do câncer no Brasil e no mundo. No caso do Brasil, só o volume de impostos que a indústria do fumo paga ao governo explica que não haja um combate mais aberto e decisivo ao vício assassino.

Em alguns casos, a indústria tem até vantagens fiscais. Já o volume de impostos não pagos pelas religiões organizadas explica a proliferação de igrejas e seitas no país e a presença de pastores evangélicos brasileiros nas listas dos mais ricos do mundo. Mas a isenção dada ao negócio da religião é um dos assuntos intocáveis do país, um elefante enorme cuja presença na sala nem a imprensa nem ninguém se anima a reconhecer.

Potência

Contam que o Stalin, avisado de que determinada decisão iria desagradar ao Vaticano, teria perguntado “E quantas divisões tem o papa?”. Descontando-se a Guarda Suíça, que só existe para fins decorativos, o papa, como se sabe, não tem tropas.

Mas o Stalin se espantaria com a demonstração de poder do Vaticano dada pela cobertura da renúncia do Papa e das especulações sobre o seu sucessor. Páginas e páginas de jornal, horas e horas de televisão – um triunfo de potência desarmada. A União Soviética tinha as divisões. Não tinha as relações públicas da Igreja.

quarta-feira, 6 de março de 2013



06 de março de 2013 | N° 17363
MARTHA MEDEIROS

O que é ser mulher

Sempre que chega essa época do ano, prometo a mim mesma: minhas próximas férias serão tiradas em março. Vou alugar uma choupana em Ushuaia e só volto quando pararem de falar no Dia da Mulher. Apenas para evitar a pergunta que tantos pedem que a gente responda: “O que é ser mulher?”.

Basicamente, ser mulher é ter nascido com os cromossomos XX. Será que isso responde à questão? Responde, só que de modo desaforado. Espera-se que colaboremos: “Ser mulher é ser mãe, esposa, profissional... ”. Alguém ainda aguenta essa churumela?

Se é para refletir sobre o assunto, então sejamos francos: ninguém mais sabe direito o que é ser mulher. Sofremos uma descaracterização. Necessária, porém aflitiva. Entramos no mercado de trabalho, passamos a ter liberdade sexual e deixamos para ter filhos mais tarde, se calhar. Somos presidentes, diretoras, empresárias, ministras. Sustentamos a casa. Escolhemos nossos carros. Viajamos a serviço. Saímos à noite com as amigas. Praticamos boxe. O que é ser mulher, nos perguntam. Pois, hoje, ser mulher é praticamente ser um homem.

Nossa masculinização é um fato. Ok, nenhuma mulher desistirá de tudo o que conquistou. A independência é um ganho real para nós, para nossa família e para a sociedade. Saímos da sombra e passamos a existir de forma plena. E o mundo se tornou mais heterogêneo e democrático, mais dinâmico e produtivo, em suma: muito mais interessante. Mas não nos deram nada de mão beijada, ganhamos posições no grito, falando grosso. E agora está difícil reconhecer nossa própria voz.

“Sou mais macho que muito homem” não é apenas o verso de uma música de Rita Lee, é pensamento recorrente de cérebros femininos. Alguém ainda conhece uma mulher reprimida, omissa, sem opinião, sem pulso? Foram extintas e deram lugar às eloquentes.

Nada de errado, repito. Acumulamos uma energia bivolt e isso tem nos trazido inúmeros benefícios – deixamos de ser um simples acessório, nos integralizamos. Mas essa nova mulher ainda se permitirá um segundinho de “cuida de mim”? Se os homens estão se permitindo ser frágeis, por que não nos permitimos também, nós que temos os royalties dessa condição?

É no amor que a mulher recupera sua feminilidade. É na relação a dois. Na autorização que dá a si mesma de se sentir cansada e de permitir que o outro tome decisões e a surpreenda. É através do amor que voltamos a confiar cegamente, a baixar a guarda e a deixar que nos seduzam – sem considerar isso ofensivo. Muitas mulheres estão desistindo de investir num relacionamento por se julgarem incapazes de jogar o jogo ancestral: eu, provedor; você, minha fêmea.

Os homens sabem que já não iremos nos contentar em receber mesada e ficar em casa guardando a ninhada, mas, na intimidade, que tal deixarmos a testosterona e o estrogênio interpretarem seus papéis convencionais?

Um amor sem tanta racionalidade, sem demarcação de território, sem guerra pelo poder. Amolecer de vez em quando, com entrega, com gosto. É onde ainda podemos ressuscitar a mulher que fomos, sem prejuízo à mulher que somos.



06 de março de 2013 | N° 17363
ARTIGOS - Cláudio Furtado*

A grelha ou a vida?

Homem leva tiro e morre. Motivo da morte: uma briga pela disputa de uma grelha, esta de fazer churrasco, assar salsichão, um pedaço de carne, uma coxa de galinha. Ouvi a notícia na Rádio Gaúcha enquanto seguia para o trabalho, na manhã chuvosa da última terça-feira. Logo me lembrei de uma grelha de churrasco que tenho, lá em casa, meio enferrujada, jogada num canto do pátio. Confesso que me senti mal, perdido, desanimado.

Claro que este crime da grelha não deve ter acontecido assim, no seco. Aqueles velhos e surrados ingredientes, como a bebida, uma disputa amorosa, brincadeiras de mau gosto, podem ter contribuído para a tragédia. Mas vocês já se deram conta como a vida tem valido pouco! Uma advogada me disse, certa vez, no seu trabalho diário com menores delinquentes, que não era rara a afirmação: “Matei o cara porque ele me olhou feio”. O cara, no caso, podia ser um chefe de família, um pai, um trabalhador, que olhou indignado para o guri assaltante. E simplesmente levou um tiro, e morreu.

Recentemente, Zero Hora publicou matéria sobre o crescente número de homicídios no Rio Grande do Sul, um aumento de 17% em relação a 2011.

Excluindo a questão da droga, responsável maior no ranking das agressões, furtos, roubos, prisões e mortes, arrisco uma lista, sem medo de errar, de situações banais, que resultam em conflitos graves, muitos com vítimas fatais: furto de boné e de pastel (casos recentes acontecidos em São Paulo, com mortes); tumulto entre vizinhos em razão de animais (aquele cachorro que não para de latir durante a madrugada); cortes de galhos de árvores que invadem o terreno alheio; foguetes em dias de futebol, principalmente comemorando gol em Gre-Nal; som elevado (este é comum durante as férias, nas praias). Não vamos esquecer, é lógico, as brigas amorosas, que não ficam atrás na lista dos BOs (boletins de ocorrências policiais).

No trânsito, então, é muito fácil brigar. E é fácil matar, e morrer também. Uma batidinha, um palavrão, um acionamento de alguém ao lado, e pronto, já está aberta a tampa do caixão. Então, meus amigos, vamos seguir o método, praticamente infalível, que tem ajudado muita gente a sobreviver: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10. O segredo é contar até dez naqueles momentos de tensão. Eu já faço parte desta seita. Não quero valer menos que uma grelha enferrujada.

*JORNALISTA


06 de março de 2013 | N° 17363
ARTIGOS - Fernando de Oliveira Souza*

Morrer com dignidade

A medicina é, dentre todas as profissões, a mais envolvida com as fantasias das pessoas leigas, principalmente no que concerne à morte, contra a qual ela luta diuturnamente e sempre acaba perdendo no longo prazo.

Dentre as especialidades médicas, duas são particularmente envolvidas: o emergencista e o intensivista. O primeiro costuma ser o “herói” ao atender pacientes do trauma, por exemplo, que estavam muito bem até o acidente e podem ficar muito mal, “à beira da morte” após o trauma, cabendo a este médico “salvá-los” numa primeira instância.

O intensivista, entretanto, é aquele que lida com todo o tipo de complicações, inclusive daquele próprio paciente “salvo” pelo emergencista e continuamente é exigido em decisões cruciais quanto à vida das pessoas, sendo por isso muitas vezes tachado de vilão.

As UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) foram “gestadas” no final do século 19, durante a guerra da Crimeia (mais uma grande contribuição que as guerras sempre proporcionam à evolução da medicina) e evoluíram sensivelmente durante o século 20, contribuindo significativamente para a diminuição da mortalidade dos pacientes graves.

São definidas como “unidades complexas dotadas de sistema de monitorização contínua que admite pacientes potencialmente graves ou com descompensação de um ou mais sistemas orgânicos e que com o suporte e tratamentos intensivos tenham possibilidade de se recuperar”.

Essa última palavra – recuperar – é que faz toda a diferença. A medicina tem, com todo seu armamentário diagnóstico, plena capacidade de estabelecer critérios de quadros clínicos considerados irreversíveis, sem possibilidade de recuperação do paciente. As UTIs não são para este tipo de paciente, embora muitas vezes as famílias pressionem por sua internação.

São os casos dos pacientes com doenças em fase terminal. Estes pacientes, se pudessem escolher, certamente prefeririam estar entre seus entes queridos, se possível em suas casas, do que num ambiente despersonalizado, portando uma infinidade de tubos e acessos, prolongando seu sofrimento.

Morrer em casa, nestes casos, por que não?, mas principalmente morrer com dignidade.

*MÉDICO E PROFESSOR UNIVERSITÁRIO


06 de março de 2013 | N° 17363
PAULO SANT’ANA

Humildade, governador!

Uma pena que a ideia de que fossem construídos e administrados os próximos presídios gaúchos pela iniciativa privada tenha sido da ex-governadora Yeda Crusius.

Só por isso não vão acontecer.

É que o governador Tarso Genro pretende que os presídios sejam construídos, mas não administrados pela ação privada.

Ora, a iniciativa privada construindo mas não administrando os presídios é a mesma coisa que construí-los e depois entregar a chave do galinheiro para a raposa.

Uma das argumentações para não entregar a administração dos presídios para empresas privadas é a de que atualmente cada preso gaúcho custa ao erário R$ 1 mil, enquanto que um preso administrado por empresa privada custaria R$ 2,7 mil, quase três vezes mais.

Nada mais falacioso. E peço ao governador Tarso Genro que dê especial atenção ao que de agora em diante é escrito nesta coluna.

O promotor de Justiça Adriano Marmitt desmascarou em Zero Hora do dia 3 de março último a tese de que os presos sob regime privado seriam mais caros do que os presos sob regime público.

Ele declarou que hoje o gasto do poder público é baixo porque os presos vivem amontoados, sem receber cuidados essenciais.

Agora escrevo eu: evidentemente que presos tuberculosos e aidéticos, na sua quase maioria, custam mais barato. Evidentemente que presos que convivem com o esgoto nas galerias custam mais barato.

É lógico que presos que não trabalham na prisão custem mais barato.

E é também visceralmente lógico que, se a iniciativa privada vier a administrar os presídios, com presos livres da tuberculose e da aids, eles terão de custar mais caro aos cofres públicos.

Mas será que não enxergam isso? Com a administração privada nos presídios, os presos terão de trabalhar e estudar, custarão mais caro, ora bolas!

Ou seja, os presos custam mais barato porque a administração pública condenou-os à morte por doenças ou à morte por assassinatos dentro das prisões.

A higiene custa caro. A podridão nas galerias custa baratíssimo.

Mas será que o governador Tarso Genro não está vendo que o barato sai caro?

Tarso Genro tem de ter humildade suficiente para recuar e mandar que a iniciativa privada não só construa os presídios como os administre.

O nosso atual governador tem de recuar e acabar com essa ideia de não dar a administração dos presídios para a iniciativa privada só porque a ideia partiu da ex-governadora.

A ideia de administração privada gerir os presídios é luminosa. Até mesmo porque hoje o que acontece? Acontece que quando vai mal a coisa dentro dos presídios, não há como cobrar do administrador público, não há como demiti-lo sequer.

Enquanto que, sob administração privada, com qualquer falha nessa administração, o governo age depressa e pode até sustar o contrato se o quiser e justificar.

Governador Tarso, quem aconselha amigo é, debaixo desses argumentos demolidores: recue, governador.

E consagre-se como o governador que há de redimir o sistema prisional gaúcho.

Felipão convocou o gremista Fernando para a Seleção, ontem. E dizer-se que Fernando foi reserva no Grêmio da estreia na Libertadores...

Aqui se faz, aqui se paga.

terça-feira, 5 de março de 2013



05 de março de 2013 | N° 17362
CLÁUDIO MORENO

Homens e mulheres (19)

(41) Os que pensam que o brasileiro inventou o culto ao traseiro feminino não sabem que esta nobre parte do corpo sempre foi valorizada na tradição cultural do Ocidente – principalmente pelos povos do Mediterrâneo.

Na Grécia antiga, uma das representações de Afrodite mostrava a deusa erguendo displicentemente a parte de trás do seu manto para conferir, com ar satisfeito, a beleza de seu traseiro. Não por acaso, essa escultura, em que o próprio olhar da deusa conduzia o olhar do espectador, ficou conhecida como Afrodite Calipígia (“a de belas nádegas”).

Uma das saborosas histórias contadas por Ateneu, cronista de curiosidades, falava de duas irmãs de Siracusa que, para decidir qual delas era mais atraente, abandonaram as sutilezas e foram, sem o menor pudor, mostrar na beira da estrada o que tinham de melhor. Diante do primeiro rapaz que lhes agradou, ergueram – com uma desinibição bem brasileira – a parte de trás das vestes e pediram que ele decidisse qual era o derrière mais bonito. Maravilhado, ele escolheu uma delas, e seguiu o seu caminho com a cabeça tomada por aquela visão.

Ao contar ao irmão mais jovem a causa de sua perturbação, este o convenceu a levá-lo até lá no dia seguinte – e realmente lá estavam as duas, magníficas, com tudo ao vento. Refeita a pergunta – qual a mais bela? –, ele escolheu justamente a outra irmã, o que permitiu que a história terminasse num duplo casamento. Como os dois jovens tinham uma grande fortuna, as duas irmãs, agora ricas, erigiram naquele lugar um templo a Afrodite Calipígia, a quem deviam a sua felicidade e o seu sucesso social.

(42) Um gênero literário muito pouco estudado – talvez por ser tão breve e fugaz – é o grito de guerra, aquele brado que os soldados emitem no instante decisivo em que vão mergulhar no inferno das batalhas.

Ao longo de nossa história, os tipos mais cultivados geralmente ficaram entre o religioso e o patriótico, como “Em nome de Cristo!”, “Pelo rei e por São Jorge!” ou “Pátria e liberdade!”; não seria justo, no entanto, deixar no esquecimento o inusitado grito de guerra do Conde Caetano de Bourbon, pequeno personagem da história espanhola que nem seria mencionado não fosse por sua originalidade.

Casado com a infanta Isabel, filha da rainha Isabel II, nem pôde aproveitar sua lua-de-mel: acabada a cerimônia, o jovem casal estava chegando a Paris quando, na Espanha, uma revolução depôs a rainha-mãe.

Sem hesitar, Caetano despediu-se da jovem esposa e foi se juntar ao exército legalista, que se preparava para uma derradeira e infrutífera tentativa de resistir aos rebeldes – e ali, na batalha na ponte de Alcolea, em Córdoba, à frente de uma unidade de cavalaria, surpreendeu amigos e inimigos ao entrar em combate aos gritos de “Viva minha sogra!”. Seu exemplo, ao que se saiba, não encontrou seguidores.


05 de março de 2013 | N° 17362
PAULO SANT’ANA

O vício da novela

Estive pensando sobre as causas do sucesso estrondoso das novelas na televisão.

A primeira novela da Globo data de 1965, com O Ébrio. Já lá se vão 48 anos.

De lá para cá, não parou mais o sucesso.

Há novelas da Globo que paralisam o país nos últimos capítulos.

Arrolei alguns motivos. Em primeiro lugar, é uma diversão barata, só se gasta energia elétrica para assistir a uma novela.

Em segundo lugar, quando uma pessoa que vê novela começa a assistir pelo primeiro capítulo, vai até o último: portanto, a Globo garante audiência durante toda a novela.

Em terceiro lugar, as novelas da Globo mostram preferencialmente atores e atrizes bonitas. E o povo tem uma tendência de admirar pessoas bonitas.

Em quarto lugar, quando uma pessoa começa a ver uma novela, garante já diversão boa e barata por vários meses, é um contrato de parceria entre o telespectador e a emissora de televisão, um contrato que se firma duradouro.

Em quinto lugar, quando se vai ao teatro, além do espetáculo durar só por uma noite, vai-se ver uma peça e ela termina ali.

Já com a novela é diferente, ela vai durar meses e vai prender a atenção do telespectador durante todo aquele tempo. Porque novela é uma diversão seriada, as histórias que são contadas nela são concatenadas, encaixam-se uma na outra e não há como o telespectador perder um só dia do programa. Depois que ele põe na cabeça o enredo, não pode tirar nunca mais da mente. Vê num dia e fica, assim, obrigado a ver no outro.

Em sexto e último lugar, há que elogiar a qualidade da dramaturgia que a Globo apresenta nas novelas, isso é apreciado e elogiado em inúmeros países.

Mas agora, por último, vou dizer por que nunca assisti a qualquer novela.

É que sempre que estou zapeando na televisão vejo rapidamente cenas de novelas com brigas entre marido e mulher, entre familiares, sempre as brigas, algumas dramáticas, uma choradeira geral, bronca, bronca e mais bronca.

E se a minha vida já é só feita de broncas, como eu me distrairia na televisão, assistindo a mais e mais broncas? Pra me estressar?

Por isso me recuso há 48 anos a ver qualquer novela.


05 de março de 2013 | N° 17362
DAVID COIMBRA

Belas e poderosas

Houve um período da história do papado chamado de “Pornocracia Papal”, ou “Saeculum Obscurum”, que latim é muito mais bonito. Deu-se entre os séculos 10 e 11. Durante grande parte desse tempo que tão longe já vai, mulheres belas e poderosas mandaram na Igreja Católica, donde o termo “Pornocracia”.

Elas não eram prostitutas, como acusavam os preconceituosos contemporâneos e sugere o prefixo “porno”, mas sabiam usar a beleza do corpo e a argúcia da mente, e mulheres que conseguem unir uma a outra qualidades são atraentes e perigosíssimas, por elas move-se o mundo. Assim, as damas do Saeculum Obscurum fizeram e desfizeram papas, que era o que de mais importante se podia fazer e desfazer naquela época.

Uma dessas mulheres era a duquesa Agiltruda, descrita como uma loira lindíssima, de cabelos longos e sensualidade porejante. Não é nome de mulher bonita, sei, mas isso faz mais de mil anos, e as modas de nomes vêm e vão, não duvido que daqui a algum tempo comecem a surgir Agiltrudas por aí, e elas ganhem o Garota Verão.

Mas o que interessa aqui é que Agiltruda odiava um certo papa Formoso, que vivia atrapalhando-lhe os planos de transformar seu filho, Lamberto, em imperador (pelo nome do filho você pode perceber como as crianças sofriam lá no século 10).

Agiltruda era uma mulher rancorosa. Tanto que nem a morte de Formoso (outro nominho) aplacou-lhe a ira. Como vingança póstuma, fez o sucessor de Formoso, Estevão VII, promover o julgamento do papa morto por diversos crimes que ela mesma se encarregou de imaginar. O corpo de Formoso foi exumado, vestido com as vestes papais e sentado no trono para ser julgado.

Visão dantesca, uma vez que fazia já três estações que havia sido enterrado. Formoso, obviamente, foi condenado. Arrancaram-lhe, então, os trajes papais, amputaram-lhe os três dedos da mão direita com os quais abençoava os fiéis e jogaram-no nas águas turvas do Tibre. Esse episódico ficou conhecido como Sínodo do Cadáver.

Esse sínodo horrendo foi assistido por outras duas mulheres que mais tarde se tornariam tão poderosas quanto Agiltruda: Teodora e sua filha Marózia, então com uns oito anos de idade. Era uma criança, Marózia, mas um dos cardeais que julgava o cadáver de Formoso apaixonou-se por ela. Mais tarde, esse cardeal assassinou um ou dois papas até tornar-se, ele mesmo, papa, sob o nome de Sérgio III. Então, Teodora ofereceu-lhe a filha de presente. Sérgio aceitou, encantado. Marózia tinha 15 anos de idade e uma imensa sede de poder.

Marózia e Teodora continuaram mandando na Igreja mesmo depois da morte de Sérgio. O esporte preferido delas era trocar de maridos e eleger papas. Como disputavam poder, há quem diga que Marózia mandou matar a própria mãe por envenenamento. Depois, seguiu dirigindo o Ocidente até os 42 anos de idade, quando um papa mais esperto prendeu-a nos porões mais profundos do Castelo de Sant’Angelo, aquele lindo palácio redondo que fica ao lado da Basílica de São Pedro. Marózia achou que conseguiria sair daquela enrascada. Não conseguiu. Continuou encarcerada por 54 anos, até que a estrangularam na cela.

Marózia, Teodora, Agiltruda. Três entre tantas. As mulheres, que terão sua data comemorada agora, no dia 8, elas influenciaram até no comando da Igreja Católica, que elegerá um novo papa nos próximos dias. Só do mando do futebol elas continuam apartadas. Mandam nos Céus e na Terra, mas não num campo de futebol. Será que isso é bom ou ruim para o futebol?


05 de março de 2013 | N° 17362
FABRÍCIO CARPINEJAR

Todo cuidado é muito

Ela disse sim. Você somente tem que dirigir ao motel e não estragar a excitação.

Fica indeciso entre puxar ou não puxar conversa. Não fale nada mesmo. É um período tenso, minutos nos quais um beijo vale mais do que mil palavras.

Antes da transa, todo mundo é carente, sensível, atento, telepata. O remorso dorme no desejo e sofre de sono leve.

As respirações dentro do carro já estão cortadas, fatiadas. O negócio é segurar o clima até o quarto. Não se arrisque com frases de efeito e piadas. Faça um carinho, segure na mão, a pele é o único caminho seguro que existe depois do gemido.

Ela pode se arrepender, voltar atrás e pedir para que você a leve para casa. Não dê tempo para pensar. O pecado abomina pausas.

Controle ansiedade, procure o equilíbrio oriental (o todo, não a metade da metade que é cada oposto) e jamais, mas jamais, realize o jogo dos sete erros, uma série de atos altamente broxantes:

1) Não ligue o rádio, principalmente em AM, com as últimas notícias da ronda policial e das votações do Senado.

2) Não ponha suas músicas prediletas e cante alto. Ela não pediu para ir a um karaokê. É muita intimidade vê-lo gritar Joe Cocker de olhos fechados.

3) Fuja de engarrafamento. É fácil desistir preso na primeira e segunda marcha durante dois quilômetros. Ela baterá em seus ombros e comentará com compaixão: “Deixa para a próxima”. Saiba que não existe próxima. É um eufemismo para “nunca mais, querido”.

4) Não é hora de abastecer. Entrar em posto de gasolina mata o prazer. Ainda que seja gasolina aditivada. Melhor parar no acostamento com tanque vazio do que perder sua companhia. Frentista lembra família. Se um dos dois estiver traindo, não terá condições psicológicas de seguir em frente.

5) Não diga “só um minuto” para um pulinho na farmácia. Transar é como uma longa viagem, check-list deve ser feito com antecedência.

6) Não atenda telefone. Conversar com mãe ou filho na véspera do sexo não rende bons fluidos. Interrompe a saudável circulação das fantasias eróticas.

7) Não discuta com a atendente do motel sobre o acréscimo de R$ 20 entre um quarto com banheira de hidromassagem e outro sem. Não seja avarento. Tampouco é o momento de ouvir uma aula sobre as diferenças entre Super Luxo, Luxo, Suíte Tropical, Mini Suíte, Suíte Embaixador e Suíte Imperial. Escolha um quarto rápido. Para não errar, selecione umas das ofertas do meio da lista, nem suntuosa, nem ralé.

O portão abriu. Garantiu o sexo, isso se não apagar o carro ao estacionar na garagem.

segunda-feira, 4 de março de 2013



04 de março de 2013 | N° 17361
KLEDIR RAMIL

Escuta

De uns tempos pra cá, surgiu no Rio de Janeiro uma onda de saraus. Sarau, por definição, é uma “reunião festiva para ouvir música, conversar, dançar”. Nessa nova concepção, vem a ser um encontro de compositores em casas e apartamentos para mostrarem uns aos outros o que andam produzindo.

Um dos pioneiros dessa moda é o gaúcho Totonho Villeroy, que abriu as portas de sua casa no Leblon para agrupar gente talentosa que anda solta por aí. É uma nova cena cultural que já revelou artistas como Maria Gadú.

É mais ou menos como os encontros que aconteciam no apartamento de Nara Leão em Copacabana, nos anos 1960, que geraram a bossa nova e – guardadas as devidas proporções – as noitadas que a gente fazia na “casa da Dona Laura”, mãe da Liane, onde surgiu o Almôndegas.

Essa ideia de um espírito de grupo, sem precisar ser um movimento e nem uma banda, é uma novidade saudável, resultado do instinto de sobrevivência dos artistas, que buscam outros caminhos, depois da falência do antigo modelo das grandes gravadoras. E vem ajudando a entortar os conceitos estabelecidos na forma de se ouvir/consumir música.

Há pouco tempo, em Porto Alegre, fui a um show na Galeria La Photo, onde iriam se apresentar dois sobrinhos meus: Ian Ramil, que está lançando agora seu primeiro CD, e Thiago Ramil, que já está pensando no seu. Escuta – O Som do Compositor foi pra mim uma revelação. A essência é a mesma dos saraus: novos autores, mostrando suas canções, só de voz e violão. Tudo começou também em apartamentos e evoluiu para espaços abertos ao público, não apenas para convidados.

O Escuta se define como um bando sem “unidade estética ou ideológica”, com o objetivo de encontrar “pontos de contato entre uma geração, estabelecer diálogos e descortinar a cena musical da cidade”. E consegue. Traça um panorama animador da nova música porto-alegrense.

É claro, como tenho dois sobrinhos ali, me sinto assim meio “tio” orgulhoso de todos os outros: Gisele de Santi, Romes Pinheiro, João Ortácio, Rodrigo Panassolo, Ed Lannes, Alexandre Kumpinski, Leo Aprato, Clarissa Mombelli, Alécio e Saulo Fietz. Mas independente de meu envolvimento afetivo, posso garantir: a “gurizada” é boa mesmo. E vem mais por aí. A turma não para de crescer, já são mais de 30.

É gente nova botando a roda pra girar. Com talento.


04 de março de 2013 | N° 17361
PAULO SANT’ANA

O pai da criança

Vou transcrever abaixo, em homenagem ao grande Dorotéo Fagundes e seu excelente programa das manhãs de domingos na Rádio Gaúcha, Galpão do Nativismo, a estrofe inicial do poema mais lindo de toda a obra genial de Jayme Caetano Braun:

A maior das gauchadas

Que há na Sagrada Escritura

– Falo como criatura –

Mas penso que não me engano,

É aquela em que o Soberano

Na sua pressa divina

Resolveu fazer a china

Da costela do paisano.

A inveja não tem limites. Agora estão vindo à tona pessoas que declaram que desde 2010 “namoram” o centroavante Barcos para contratá-lo para o Grêmio.

Pura inveja. Eles dizem que namoram Barcos há muito tempo. Só que Fábio Koff não namorou nem noivou com Barcos, foi desde logo arrastando o argentino para o altar. Eles namoraram e Koff casou, que é o que interessa.

Eles “namoraram” Barcos como namoraram Fred e tantos outros. Tudo balela. Pura invencionice, que tem o único fito de tentar desvalorizar quem teve o lance de indicar Barcos e ir, sem namoro, contratá-lo, o que foi operacionalizado por Rui Costa.

Que caras de pau! Os namoradores! Há os que namoram e há os que casam. Há os que bolinam e há os que levam para a cama.

Perguntem ao Fábio Koff, esse dirigente sobrenatural, quem foi que insistiu para que ele comprasse Barcos. Perguntem e terão uma surpresa.

Perguntem a Fábio Koff quem é o pai dessa criança, terão uma surpresa.

Mas, quando obtiverem a resposta, tenham a certeza que toparão com alguém que entende de futebol.

Eu estava vendo anteontem um documentário sobre outro gênio, o jornalista e dramaturgo Nélson Rodrigues.

E o assisti em gravação, pessoalmente, dizer o seguinte: “Muita gente gravita em torno do futebol por ele ser apaixonante. Mas a maioria das pessoas que gravita em torno do futebol, cerca de 99%, não entende nada de futebol. São curiosos e palpiteiros. Raramente se encontra entre eles quem entenda de futebol”.

Assino embaixo do que escreveu Nélson Rodrigues. Para entender de futebol é preciso escrever numa coluna um só nome, Dario, Dario, Dario, umas 800 vezes, implorando que o Grêmio contratasse Dario.

E o Grêmio não contratou. O Inter foi lá e trouxe Dario.

E Dario foi responsável por mudar a história do futebol gaúcho, sagrando o Colorado como octocampeão regional e tricampeão brasileiro.

Isto é que é entender de futebol. O Rio Grande inteiro foi testemunha dessa coluna histórica. 

RUBENS RICUPERO

Signo de contradição

Ao revelar sua fragilidade, Bento 16 alcançou mais corações que no uso dos meios do poder de papa

Se vivemos em tempos sem fé e se a Igreja Católica é irrelevante e fala sozinha, segundo se apregoa, como explicar a fixação de manchetes de jornais e TV na renúncia de um papa octogenário?

Em razão do ineditismo do gesto, da sensação criada por escândalos romanos, até se compreenderia o impacto do choque inicial.

Mas, dia após dia, semanas a fio, o fascínio da história convida a buscar outros motivos.

Um deles seria a carência de uma figura paterna, sobretudo em época pobre de grandes homens, quando os líderes são, por toda a parte, mornos e insossos. Mesmo desse ponto de vista, Bento 16 se enquadra de modo diferente.

Ele não é, como o antecessor, um grande papa político, cujo papel enérgico teria sido decisivo na queda do comunismo.

Tampouco tem aquele ar bonacheirão de avô bem humorado e contador de histórias de João 23.

Seu jeito é mais do mestre escolar de sorriso tímido. Todo seu pontificado não foi mais que uma lição repetida com infinita paciência.

Nisso me lembra Julius Nyerere, o fundador da Tanzânia, que conheci bem em Genebra. Um dos raros heróis da independência africana capaz de criar um país que superou os ódios tribais, Nyerere só aceitava um título -o de Mwalimu, o singelo professor que tinha sido e jamais cessou de ser.

Nyerere ensinou que não é o exercício absoluto do poder que constrói, mas sim o exemplo da abnegação, a capacidade de se impor limites, de deixar o poder quando o julgavam insubstituível.

Da mesma forma que seu vizinho Mandela, soube sair no momento em que todos queriam que ficasse.

Não foram os grandes líderes da guerra e da paz -Churchill, Roosevelt ou de Gaulle- os gigantes morais que dominaram o século.

O ensinamento do perdão e da reconciliação de Mandela e a pregação da não violência até o sacrifício da própria vida por Gandhi ou Martin Luther King se mostraram muito mais fecundos e duráveis que os efeitos do poder.

Ninguém exerceu o poder de modo mais brutal e absoluto que Stálin, do qual nada ficou a não ser a maldição dos descendentes de suas incontáveis vítimas. O próprio ditador confessou, num instante de melancolia, que, no final, quem ganhava sempre era a morte.

Ao confessar que em horas difíceis "o Senhor parecia dormir", ao revelar sua fragilidade, Bento 16 fez mais pela nova evangelização, alcançou mais corações que no uso dos meios do poder centralizado de pontífice.

Abrir mão da "glória de mandar", da vã cobiça "dessa vaidade a quem chamamos fama", faz parte do processo pelo qual o grão de trigo tem de morrer para poder dar fruto.

Sinal de contradição, Jesus legou à igreja a herança de continuar a ser a força dos fracos, a grandeza dos pequenos e humildes.

Ao encarnar de novo o signo de contradição, Bento 16 nos dá esperança de que tinha razão François Mauriac ao dizer pouco antes de morrer: "Às vezes penso que somos os últimos cristãos, mas depois me pergunto -será que somos os últimos cristãos ou seremos os primeiros?"


04 de março de 2013 | N° 17361
L. F. VERISSIMO

Dama de computador

Depois de saber que o Chico Buarque também fica jogando paciência no computador em vez de trabalhar, me senti desagravado. Eu não estou perdendo tempo ou protelando o momento de começar a escrever, quando jogo paciência. Estou, digamos assim, fazendo alongamento do músculo cerebral.

Ou distraindo o cérebro enquanto a verdadeira criação se dá em outro nível, no inconsciente. E se isso parecer conversa de vagabundo para se justificar, agora tenho um argumento irrespondível: o Chico Buarque faz a mesma coisa!

Há muitos jogos no meu computador, com vários graus de complexidade, mas até agora só aderi à paciência, o mais fácil. Um dia tentei jogar dama no computador. Eu fui bom em dama quando era garoto. Nunca progredi da dama para o xadrez, talvez pela mesma razão que me impediu de gostar de matemática, entrar em labirintos e pensar muito profundamente sobre os buracos negros.

(Dizem que dama é xadrez para as almas simples). Joga-se dama de computador não contra o computador, mas contra outro jogador que esteja na linha, movimentando-se uma peça no tabuleiro e esperando que o adversário, em alguma parte do mundo, movimente uma sua. Mas não consegui ir além de duas ou três peças movimentadas. Estava jogando bem, mas tive que parar.

Até agora não sei explicar minha sensação diante daquele adversário que eu não via, que não sabia onde estava ou que cara tinha, embora estivéssemos, para todos os efeitos, cara a cara. Era como jogar com um fantasma. Mais do que isto: era como ter minha casa invadida por um membro daquela estranha seita, talvez escrava, cuja única função na vida é ficar esperando desafios anônimos no jogo de dama. Era isto: a sensação de uma cidadela invadida e de uma intimidade indesejada cada vez que o outro movimentava uma peça.

Abandonei o dama no meio do jogo e cliquei no paciência. Jogando paciência você às vezes se sente sacaneado pelo computador, que geralmente permite uma vitória a cada cinco ou seis tentativas. Mas pode ao menos ter certeza de que não é nada pessoal.

Crônica-Vovô

A Lucinda, que tem quatro anos e meio, frequentemente nos premia com abraços e beijos extemporâneos. Mas também tem seus dias rebeldes, quando a qualquer aproximação de avô ou avó a fim de agarramento, ordena: “Me deixem em paz”

No outro dia, cheguei perto dela pensando num abraço e, se tivesse sorte, alguns beijos e ouvi seu aviso:

– Não se atreva.

Não se atreva! É claro que obedeci.