terça-feira, 19 de maio de 2026


Joanna Moura - É publicitária, escritora e produtora de conteúdo. Autora de "E Se Eu Parasse de Comprar? O Ano Que Fiquei Fora da Moda". Escreve sobre moda, consumo consciente e maternidade

Joanna Moura - 19.mai.2026 às 14h30

Eu poderia matar alguém e não perderia votos, táokei?

O que explica a resiliência eleitoral de políticos que deveriam ter afundado faz tempo?

Flávio Bolsonaro está agora no meio da Times Square, com a arma na mão e o corpo à sua frente estendido no chão

"Eu poderia atirar em alguém no meio da Quinta Avenida e ainda assim não perderia nenhum eleitor."

A frase saiu da boca de Donald Trump com a empáfia que lhe é característica. O ano era 2016 e Trump ainda disputava as primárias do partido republicano. A bravata soou para muitos como mais uma das insanidades inconsequentes ditas dia sim, dia também pelo então pré-candidato, mas os anos seguintes provaram que, em boa medida, Trump estava certo.

Homem de terno escuro e camisa branca sorri e levanta o polegar direito em gesto de aprovação, cercado por várias pessoas em ambiente interno.

O senador Flávio Bolsonaro, acompanhado de integrantes da bancada do PL na Câmara e no Senado, faz uma declaração à imprensa após reunião do partido - Pedro Ladeira/Folhapress

Trump não chegou a atirar em ninguém, mas trabalhou duro para testar a lealdade de seus apoiadores. Entre 2016 e 2024, foi investigado por tentativa de obstrução de justiça no caso da interferência russa nas eleições de 2016, sofreu dois processos de impeachment —um por pressionar um governo estrangeiro a investigar um adversário político e outro por incitação à invasão do Capitólio— e, já fora da presidência, passou a responder a múltiplos processos criminais, incluindo tentativas de reverter o resultado eleitoral e retenção ilegal de documentos confidenciais.

Em 2024, tornou-se o primeiro ex-presidente dos Estados Unidos a ser condenado criminalmente, no caso de falsificação de registros para encobrir pagamentos durante a campanha. Mesmo assim, em janeiro de 2025, Trump foi reconduzido à Casa Branca para um segundo mandato presidencial.

Voltemos agora nossos olhares para o Brasil, e consigo visualizar Bolsonaro, em sua mansão, entre um arroto literal e outro, arrotando alguma coisa parecida com a frase dita por Trump em 2016.

"Eu poderia encher alguém de bala no meio da Praça dos Três Poderes e, mesmo assim, o povo ia votar em mim, táokei?"

Estaria ele errado? Afinal, o que pode explicar a inabalável relevância política de um homem cuja atuação —ou falta dela— durante uma pandemia matou mais de 700 mil pessoas? O que poderia explicar o apoio incondicional a um homem que desdenhou de gente morrendo, trabalhou ativamente pela disseminação de fake news e contra a vacinação?

Como se não bastasse sua perversa condução da pandemia, —o mais grave de todos os seus crimes— Jair falsificou cartão de vacinação, tentou afanar joias presenteadas ao Estado brasileiro, ampliou e capitalizou em cima das emendas secretas, se envolveu com alguns dos mais podres personagens da política e, finalmente, conspirou contra a democracia ao planejar um golpe de Estado que previa inclusive a morte do presidente, vice-presidente e de ministros da Suprema Corte.

E mesmo assim ouso afirmar que, caso estivesse elegível, Jair seguiria com boas chances de vitória. Não à toa, seu filho Flávio, aquele que, em sua época da Alerj, prestava homenagem a milicianos e empregava em seu gabinete familiares do Adriano da Nóbrega, aquele das rachadinhas e da loja da Kopenhagen que faturava menos na Páscoa e mais nos dias de pagamento da Alerj, se mantém competitivo na disputa pela Presidência. Mesmo diante desse histórico e de todas as evidências de que a fruta não cai longe do pé, Flávio chegou à frente numérica das pesquisas. Até agora.

Semana passada, vazaram os áudios amorosos de Flávio para Daniel Vorcaro, o banqueiro ladrão responsável pela maior fraude financeira da história do Brasil. A mensagem é explícita. Flávio pede dinheiro a Daniel. Depois nega, ao vivo, para o repórter da Intercept.

Flávio está agora no meio da Times Square (ou da Praça dos Três Poderes, deixo a encenação a seu critério), com a arma na mão e o corpo à sua frente estendido no chão. E todos nós vimos (e ouvimos) quem cometeu os disparos. Resta saber se, ainda assim, ele não perderá nenhum voto.

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