segunda-feira, 4 de maio de 2026

 


Investidores com IA, mas sem 'aura'


Agências
Marcos de Vasconcellos, jornalista e CEO do Monitor do Mercado

Se você aplicar R$ 100 em um investimento que rende 2% ao ano, ao fim de cinco anos terá um saldo maior do que R$ 102? A resposta (um grande "sim") pode parecer óbvia para muitos, mas pelo menos 1 a cada 4 investidores brasileiros não sabe. Contando quem também não investe, a incidência de respostas erradas aumenta para 1 a cada 3 pessoas.
A informação acabou de sair do forno, numa pesquisa feita com 5.832 pessoas pelo Datafolha com a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), chamada Raio-X do Investidor. Ela mostra como ampliamos o alcance da informação sobre o dinheiro, mas não necessariamente do conhecimento.
Hoje, 9% dos considerados investidores dizem usar ferramentas de IA para tomar suas decisões financeiras. Mas 1/3 dessa mesma turma afirma aplicar seu dinheiro na caderneta de poupança. Veja bem: qualquer um que perguntar ao ChatGPT ou similares se há aplicações que rendem mais do que a poupança com a mesma segurança e liquidez receberá opções como o Tesouro Selic ou CDBs de liquidez diária.
O aumento do uso da tecnologia ou do alcance da informação não significa que ampliamos o uso do conhecimento financeiro. Este sim precisa ser o foco de quem quer deixar de ser esmagado por instituições financeiras que recebem seu dinheiro a troco de bala (como na poupança ou em aplicações de baixo retorno) para emprestar a juros altíssimos, por exemplo.
Entender como a enxurrada de tecnologia e informação pode se traduzir em conhecimento e ganhos reais é o desafio do momento. Há exatos 90 anos, o filósofo alemão Walter Benjamin estava preocupado com o fato de o avanço tecnológico ter massificado a produção e o consumo de arte, por meio de fotografia e do cinema, que podiam ser reproduzidos a custos baixíssimos, tirando a "aura" da obra de arte, a sua profundidade e a ligação íntima com o espectador.
Acostumados ao teatro de linguajar complicado dos gerentes de banco ou à pintura rebuscada de relatórios econômicos, os investidores agora têm à sua disposição as ferramentas e as plataformas para democratizar seu acesso ao sistema financeiro. Mas esse mesmo processo gerou também uma distração: por estar imerso em informação, o investidor sente que está tomando decisões bem embasadas, mesmo quando não é o caso. Um exemplo disso é o clichê de dizer que o Brasil é o "paraíso dos rentistas e pesadelo dos empreendedores" - onde se ganha muito com dinheiro parado em aplicações, sem correr risco -, enquanto o uso dessa máquina pela população ainda é mínimo.
O governo paga historicamente muito bem para quem empresta dinheiro para ele. E esses juros são pagos por todos nós, contribuintes. Não usá-los a seu favor é aceitar o ônus, sem buscar o bônus dessa relação. Para lucrar com isso, há uma vasta gama de opções de investimentos, menos complexos do que operar ações na Bolsa e mais rentáveis do que aplicar na poupança.
Consumir investimentos não é o mesmo que entender a mecânica dos produtos à sua disposição. Vimos o número de pessoas investidoras chegar a 60,6 milhões (36% da população) ao fim de 2025, segundo a pesquisa da Anbima.
É crucial que esse salto no número de investidores seja acompanhado por um avanço no conhecimento financeiro, para que a "aura" das finanças não se perca na democratização do acesso ao mercado, deixando os bons produtos reservados apenas para aqueles que sempre dominaram o sistema.

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