quinta-feira, 4 de outubro de 2012



04 de outubro de 2012 | N° 17212
L. F. VERISSIMO

Exemplos inúteis

Osucesso do Wellington Nem no Fluminense traz de volta um velho debate: que tamanho deve ter um jogador de futebol? Não haveria mais lugar para jogadores pequenos num esporte que cada vez mais se decide pela imposição física. Errado, dizem outros. É justamente para se impor aos grandalhões que servem os baixinhos.

A discussão já deveria ter acabado há muito tempo, com as carreiras de Maradona, Romário e Messi, para citar só três exemplos de mirrados que brilharam nos últimos anos, quando o futebol supostamente se transformou em coisa para gente grande. Mas as exceções não convencem, e a discussão continua.

Um pouco como o debate sobre de que tamanho deve ser a participação do Estado na economia. A atual crise na Europa e as próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos não são sobre outro assunto. Estado regulador ou mercado livre?

Como no debate sobre as dimensões ideais de um jogador de futebol, os argumentos de um lado e do outro não parecem fazer muita diferença. Os exemplos são inúteis.

Você esperaria que os descalabros do capital financeiro, responsável direto pela crise, diminuiriam o entusiasmo dos defensores do mercado, já que o que faltou para enfrentar a voracidade destruidora do capital foram intervenções do Estado quando ainda dava para evitar o pior.

Mas não, prega-se menos e não mais controle. O argumento é que, historicamente, em todas as suas crises o capitalismo se autorregenerou sozinho. Errado. Não é preciso ter lido Eric Hobsbawm para saber que em todas as suas crises o capitalismo foi salvo dele mesmo por algum forma de intervencionismo corretivo – o que não significou que abandonasse seus maus hábitos.

As multidões que se manifestam na Europa em crise não são de mal-acostumados inconformados com o fim de Estados irrealistas de bem-estar social, como dizem os mercadófilos, são de inconformados com a injustiça da maioria estar pagando pelos desmandos de uns poucos, que continuam desmandando.

O capital financeiro tantas fez, que, além de perverter a atividade econômica e a função bancária, perverteu a semântica: transformou “austeridade” em palavrão. Hoje tem gente morrendo de austeridade na Europa.

Não que este argumento vá fazer qualquer diferença.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012



03 de outubro de 2012 | N° 17211
MARTHA MEDEIROS

O selinho

De repente, em função de dois acontecimentos recentes (a morte da esfuziante Hebe Camargo e o ataque inesperado de uma eleitora ao candidato José Serra, em São Paulo), o selinho ganhou um protagonismo até então inédito. Já não era sem tempo. Com tanta gente cultuando o beijo profundo e apaixonado, aquele de fazer as órbitas revirarem dentro dos olhos, o selinho vem a público reclamar: eu também existo.

O selinho é inocente, já nasceu absolvido pela sociedade. Mas não custa ficar atento. Lembro de um namorado, lá no início dos anos 80, que era muito moderninho, tinha várias amigas descoladas que faziam teatro, e ao encontrá-las na noite salpicava seus selinhos na maior pureza – curiosamente, só nas bonitas. Hum. No começo, eu fingia que achava muito natural. Depois, abri o jogo, falei que sentia ciúme.

Ele então veio com aquele discurso paz e amor, típico da era de Aquarius, sobre cultivar a harmonia entre os seres, abrir-se para as revelações místicas, libertar a mente, let the sunshine in e outras embromações, e foi então que fiz de conta que seu papo lisérgico havia me convencido – ora, eu também cumprimentaria meus amigos com selinhos. Só os bonitos, claro. Foi então que ele repentinamente teve a sua revelação mística e parou de vez com a distribuição de bitocas. Dali por diante, foram longos anos de harmonia e salutar caretice.

A importância que dou ao selinho vem de um episódio distante da minha biografia. Na saída do colégio, ao final de uma manhã, um rápido roçar de lábios ganhou o título honroso de “meu primeiro beijo”. Um selinho, um só, e foi o que bastou para que eu voltasse para a casa levitando por vários quarteirões.

Passei a tarde me olhando no espelho para ver se eu estava diferente, se alguém notaria minha transformação de menina para mulher – eu devia ter o que, uns 14? Do primeiro beijo pra valer não lembro nada, mas esse selinho continua mantendo seu lugar no pódio entre os momentos mais adoráveis e femininos da minha adolescência. Diante disso, como não levar essa modalidade de carinho a sério?

A foto de Silvio Santos dando o último selinho na Hebe, dentro do caixão, é uma imagem terna e eterna. As redes sociais já se mobilizaram para fazer do dia 29 de setembro o Dia do Selinho, que não vai pegar, claro, a não ser que vire feriado, a única coisa que respeitamos. Tudo continuará como antes. O selinho será para sempre um gesto de afeto assexuado.

É uma beliscadinha oral, um atrevimentozinho entre amigos, uma brincadeirinha entre adultos, uma provocaçãozinha, um beijo no diminutivo: singelinho, rapidinho, malandrinho.

Mas por mais que se esforce em parecer casual, terá para sempre seus significados secretos. O selinho será para sempre um gesto de amor assexuado.

Lindo dia pra você. Aproveite a quarta-feira


03 de outubro de 2012 | N° 17211
ARTIGOS - Marisa Faermann Eizirik*

Amor, uma nova ética?

Enamoramento, paixão, desejo, erotismo, são sinônimos de amor que utilizamos. Destaco, dentre esses, o erotismo. Como se pode compreendê-lo, em nossos “modernos” tempos? Que sinais temos de seu percurso, tão semovente e mutável ao longo da história, do pudor e dos véus, dos subentendidos e dos toques, dos mistérios dos olhares, das seduções e fetiches de todas as épocas?

Estaremos observando a morte do erotismo, em face do grande “mercado” do amor?

Mas que fenômeno é esse, o amor, em que se vende sadomasoquismo travestido em conto de fadas? A virgindade, com todos os requintes de um reality show? Teremos abandonado o conceito platônico de amor como falta, desejo de completude no encontro com a outra “metade” perdida, fundamento de toda forma romântica do amor? Ou, utilizamos novas estratégias e, até mesmo, tecnologias, para seguir buscando “o encontro”, alguém com quem dividir nossos sonhos e anseios incansáveis?

Será que não seguimos desejando encontrar o príncipe ou princesa (os diferentes tons de Cinza [Greys]) que podem estar nos esperando na curva de algum caminho? Estaremos em luta contra o idealismo romântico e o ceticismo estoico?

Teremos medo da intimidade, da solidão, da morte? Queremos respostas para um fenômeno tão complexo como o amor, que se desdobra em nuances (bem descritas por W. Riso em Amores de Alto Risco)?

O amor torturante, o amor desconfiado, o amor subversivo, o amor egoísta, o amor perfeccionista, o amor violento, o amor desvinculado ou indiferente, o amor caótico, o amor saudável (ou a sabedoria do “não”).

Ou no fenômeno sociológico-editorial de Cinquenta Tons de Cinza, de E.L. James, que mesmeriza 40 milhões de leitores no planeta (mulheres, em sua enorme maioria), independentemente de idade, estado civil e nível cultural? Ou, ainda, na empreitada de Virgins Wanted, documentário realizado pelo cineasta australiano Justin Sisely, que busca moças virgens desejosas de vender esse “produto” tão raro atualmente, beneficiando a dona do corpo e o “empreendimento” cinematográfico que produz e vende.

Nos aventurarmos a responder é, certamente, uma tarefa de alto risco e, também, atribuir tudo à sede de consumo, ao lucro e a voragem do capital, empobrecedora e reducionista. Vivemos a orfandade dos estereótipos, do status congelado das evidências, o coma anestesiado do excesso (fluxo, velocidade e intensidade da informação), sob o efeito dos discursos vazios, da tirania da mídia, do peso econômico do lucro. Me atrevo a pensar que estamos atravessando uma crise ética, ou, a inscrição em uma dimensão ética desconhecida, ainda sem registro.

Os cânones conceituais, os princípios organizadores de nossos pensamentos e práticas, se descolorem, debilitam e colapsam. Não temos hipóteses plausíveis, ferramentas explicativas eficazes, nem próteses convincentes, que aliviem o mal-estar gerado pela incerteza, a fugacidade, a inconstância dos valores.

O Ocidente construiu um formidável dispositivo de sexualidade, entrelaçando verdade e sexo. De que formas estamos nos constituindo como sujeitos, com a falta de espessura, a tirania do breve, do descartável, da total “transparência” (ou será opacidade?), da ausência do encantamento, do mistério? Estamos em mutação. Uma outra ética subjetiva contempla as questões do amor. Uma nuvem de ignorância nos envolve, e instiga.

*PSICÓLOGA


03 de outubro de 2012 | N° 17211
JOSÉ PEDRO GOULART

Notas de viagem

1 - Poucas coisas me causam mais desconforto do que lugares fechados. Se este lugar for um elevador (parado) e eu estiver com uma máscara apertando meu nariz, e ainda com mais umas 15 pessoas – todas mascaradas –, bem, preciso sair. E logo. Tire-me antes que eu pire-me.

O claustro era o tal ascensor de um hotel abandonado, mas agora inteiramente reformado para a peça Sleep no More, em Nova York, cidade onde produzo estas notas. O pessoal levou a sério esse negócio de interatividade; uma vez que você sobreviva ao elevador escuro, é destinado a um dos quatro imensos andares do hotel.

Os únicos não mascarados são os atores que atuam por cenários incríveis (uma velha palavra, quase em desuso, mas aqui colocada de maneira justa). É uma mistura de climas, que vão de Hitchcock a Kubrick, com uma história baseada livremente em Mac­beth. Você fica a dois palmos do elenco. Só não pode falar ou tocar neles. Ainda. Aguardemos a parte 2.

2 - Talvez um plano bom em NY seja assistir no Carlyle Hotel o Woody Allen tocar clarinete. Sempre às segundas, quando ele não estiver filmando ou tendo que lidar com elevadores (temos algo em comum). O caso aqui são ingressos; impossíveis de obter, exceto com larga antecedência, ou no paralelo, por uns US$ 400.

Uma pequena metáfora dos tempos atuais e seus paradoxos. Você entra numa fila e paga muito para ver Woody Allen tocando, em carne e óculos, sendo que como músico ele nem é um Woody Allen; ou vai até a esquina, num cineclube, e tira US$ 10 da carteira para ver um filme, agora sim, Dele. Não tem fila e aliás anda até meio vazio.

3 - Sem ingressos para o Carlyle, uma opção é a Mingus Big Band, também às segundas no Jazz Standard. Os caras são bons, mas isso não é ponto aqui. O que faz a noite é a presença na plateia do presidente da República Checa, Václav Klaus – no dia seguinte, seria a abertura da Assembleia da ONU. Cada presidente no seu galho. Onde estaria a Dilma?

4 - Difícil conter impressão de déjà vu diante da mostra do Andy Warhol no Met. Warhol enquadrou o descartável, percebeu a exposição excessiva da publicidade e se utilizou disso; mas aquelas sobreposições e interferências em retratos de personalidades ou embalagens de produtos já tiveram seus 15 minutos de fama. Depois disso, as cópias; no caso, cópias da cópia.

5 - Do pop ao clássico. Uma experiência rara no Lincoln Center. A Filarmônica de Nova York toca Beethoven e Stravinsky. Mas, antes, um epílogo que motivou essa narração. Com parte da orquestra posicionada fora do palco, nas galerias, eles fazem uma breve mas fantástica experiência.

O negócio dá uma sensação de dolby estéreo, eles chamam de “filarmônica em 360”. O maestro rege de frente, e a gente ali, extasiado. Como disse aquele bigodudo alemão, a vida sem a música não teria sentido. Parece simples, mas pensemos, talvez não seja.


03 de outubro de 2012 | N° 17211
PAULO SANT’ANA

Um livro de peso

David Coimbra deu-me de presente, em primeira mão, este livro que ele está lançando.

Ele disse que este livro já está nas livrarias. E eu respondi no Sala de Redação que o maior orgulho do David Coimbra é que os seus livros permanecem sempre nas livrarias.

Comecei a ler este livro aos picotaços ontem, enquanto estava no bar. O David não gostou disso e me impôs que tenho de ler este livro desde o começo até o fim. Eu respondi a ele que este livro vou ler como o fazem todos os leitores de Zero Hora com nosso jornal: de trás para a frente.

David não gostou.

Tenho inveja do David Coimbra, este já é o quinquagésimo livro que ele lança. Eu só lancei três livros, assim mesmo foram de crônicas já publicadas.

Não tenho estofo para construir um livro, não sei erguer um esqueleto sobre as ideias de um livro e depois ir bordando-o com ossos e músculos.

Com o David Coimbra e com tantos dá-se o avesso. Eles só sabem viver escrevendo livros sobre livros. Tanto eles tentam, que um dia acertam. Parece ser o caso deste novo livro do David, ele desta vez acertou na veia. Todos os outros 49 livros que ele escreveu eram apenas preparação para este.

Este não vai permanecer nas livrarias.

Era de ver-se o brilho nos olhos do David Coimbra quando me apresentou seu novo livro. Parecia uma mãe orgulhosa do seu bebê lustroso e gorducho.

A vida á assim, escritor tem de escrever livros, jogador tem de fazer gols, parlamentar tem de apresentar projetos, mulher precisa insistir em conúbios, ajustador tem de ajustar e ajustar-se, orador tem de funcionar em tribuna, padre tem de rezar missa e pastor tem de recolher dízimos, o que não impede que ambos façam as duas coisas.

Cada um na sua. Eu não fui feito para escrever livros, fui talhado para escrever colunas.

O David Coimbra, que é escritor e colunista, nasceu para escrever livros.

Perguntei ao David o que ele achava deste livro em relação aos tantos outros que já escreveu.

Ele me respondeu que este é o seu mais importante livro. Perguntei por quê. Ele me disse que este livro era um projeto que ele acalentava há muito tempo: contar a história do mundo.

Vou ler com atenção este livro, prometo ao David e aos leitores. E vou examinar se o David conseguiu resumir a história da humanidade, se o David conseguiu com este livro se aproximar do livro que melhor li sobre o tema, A História da Raça Humana, de Henry Thomas, terá alcançado um milagre.

Deus conduza o livro do Coimbra ao sucesso.

terça-feira, 2 de outubro de 2012


JOÃO PEREIRA COUTINHO

Caminhando com Ferreira Gullar

Escrever é continuar essa revelação do não-dito, como se o poeta fosse o elo de uma corrente interminável

Viajo para Londres. Na mala, algumas revistas para ler nas duas horas de voo. Tiro a primeira. Folheio as páginas iniciais. Encontro Ferreira Gullar em entrevista à "Veja". O dia está ganho.

Sobre o poeta, não vale a pena dizer o óbvio: depois da morte do lusitano Mário Cesariny (1923-2006), Ferreira Gullar é o único poeta de língua portuguesa que merece a honraria do Nobel.

Embora, atendendo às anedotas recentes da academia sueca (Elfriede Jelinek, Herta Müller etc.), talvez seja mais correto dizer que é o Nobel que precisa do prestígio de Gullar.

Mas a entrevista é sobretudo uma lição de política só possível em alguém que, permanecendo à esquerda no que a esquerda tem de melhor (uma insubordinação instintiva perante abusos ou privilégios injustificáveis), aprendeu e refletiu com a experiência histórica.

"Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é", diz o poeta. Eis o "espírito do tempo", feito de oportunismo e farsa ideológica.

Ferreira Gullar não alinha em farsas. O capitalismo tem páginas abomináveis de miséria e exploração, sobretudo nas incipientes sociedades industriais do século 19? Sem dúvida -e ler Charles Dickens é, nesse quesito, mais relevante do que ler Marx, que nunca pôs os pés numa fábrica e tinha Engels para sustentá-lo.

Mas o capitalismo, apesar de tudo, "é forte porque é instintivo", diz o poeta. Em apenas uma frase, Gullar resume o que Adam Smith escreveu em dois volumes, 250 anos atrás.

Existe nos seres humanos um desejo natural para "melhorarem a sua condição", escrevia o filósofo escocês. E essa melhoria material só se consegue quando o açougueiro, o cervejeiro e o padeiro perseguem o seu próprio interesse, negociando os seus produtos e procurando aumentar os seus lucros.

Fato: sem freios éticos ou legais, o capitalismo é destrutivo e autodestrutivo. Mas quando existem esses freios, e nenhum liberal clássico prescinde deles (Adam Smith, antes de escrever "A Riqueza das Nações", escreveu primeiro a sua "Teoria dos Sentimentos Morais", base ética de qualquer sociedade civilizada), não há outra forma, historicamente comprovada, de gerar riqueza.

Claro que, para um marxista puro e duro, o capitalista nunca gera riqueza; ele explora quem trabalha e vive do suor alheio, de preferência fumando o seu charuto e brandindo o chicote. Raymond Aron, o mais incisivo crítico do marxismo que conheço, tem páginas notáveis onde desmonta essa dicotomia caricatural entre "capital" e "trabalho".

Ferreira Gullar prefere uma metáfora: "O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas". E acrescenta, para os lentos de raciocínio: "A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária".

Finalmente, as lições da história: Ferreira Gullar não se limita a relembrar os crimes do "socialismo real", hoje uma evidência para qualquer pessoa com dois neurônios em funcionamento.

Ele deixa uma pergunta devastadora: quantos dos defensores de Cuba estariam dispostos a viver lá? Sim, a viver enjaulados em uma ilha de onde é difícil sair, onde publicar um livro implica uma permissão governamental -e onde a igualdade na miséria é a única igualdade que existe e resiste?

É um bom princípio de responsabilidade política: só defendermos regimes sob os quais estamos dispostos a viver. Todo resto é pose pornográfica.

Infelizmente, não sobra espaço para as meditações estéticas propriamente ditas. Mas Ferreira Gullar, relembrando a morte de um filho, deixa esta definição (meta) poética primorosa: "Os mortos veem o mundo pelos olhos dos vivos".

Nem mais: escrever é continuar essa revelação interminável do ainda não-dito, do ainda não-experimentado, como se o poeta fosse o elo presente de uma corrente interminável.

Ou, como o próprio Gullar escreveu nos seus velhinhos "Poemas Portugueses", que praticamente aprendi de cor: "Caminhos não há/ Mas os pés na grama/ os inventarão/ Aqui se inicia/ uma viagem clara/ para a encantação".

Caminhar com Ferreira Gullar tem sido, hoje e sempre, uma lição e um privilégio.

jpcoutinho@folha.com.br 

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Lourebe, a Perua Amiga!

Os Correios deviam lançar o selinho da Hebe! E a cada entrega, o carteiro tinha que dizer: "Graaaaacinha"

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Lourebe, a Perua Amiga! Eu chamava a Hebe de Perua Amiga e ela adorava!

E quando a Hebe morreu, o Brasil pediu: "Um minuto de selinho, por favor!". Os Correios deviam lançar o selinho da Hebe! E a cada entrega, o carteiro tinha que dizer: "Graaaaacinha". E eu vou escrever a biografia da Hebe: "Lourebe: da válvula ao HD". Ops, da roda ao HD! Ops, da fumaça ao HD!

A primeira vez que eu me sentei no sofá da Hebe em mil novecentos e Itamar Franco, ela disse: "Vou te perguntar isso, isso e isso, vai pensando nas respostas". Totalmente AMIGA! Você acha que hoje algum entrevistador faz isso? Você acha que um repórter do "CQC" ia fazer isso? Ia! Só pra perguntar ao contrário! Rarará!

E na última vez que fui no programa da Hebe, me sentei entre ela e a Marta Suplicy. E passei dez dias tomando leite. Pra me desintoxicar do cheiro de laquê! Rarará!

E já começou! Olha a charge que corre na internet com a Hebe chegando ao céu: "Cheguei, gracinhas". E a Dercy: "Demorou pra caraca, hein, sua filha da piiiiiii". E o Clodovil: "Arrasou, loiruda!!!!!". E o Chico Anysio: "E o salário aqui, ó". E a Nair Bello? Por que a Nair não saiu na charge? A Nair Bello foi buscar o baralho! Rarará!

E será que a Hebe já contou pra Dercy que o Corinthians ganhou a Libertadores? E o depoimento do Niemeyer: "Mas tão jovem?". Rarará! E tá proibido falar: "E o Sarney, nada?". Rarará! E o depoimento da Dilma: "Heebe! Voooolta! Agoooooora!". Rarará!

E eu sempre dizia que a Hebe não tinha joias, tinha um tesouro de pirata pendurado no pescoço! A Hebe adorava uma esculhambação! Ria muito!

E quando ela foi comemorar o aniversário na Disneylândia? Aí eu perguntei pra ela: "Mas veia não tem medo de rato? Como vai pra Disneylândia?". Rarará!

E um amigo de 20 e poucos anos assistindo tudo sobre a Hebe na TV: "Mas ela entrevistou todo mundo, né?". "Entrevistou." Ela entrevistou o primeiro homem que pisou na lua!

A Hebe foi com o Chateaubriand ao porto de Santos pegar os primeiros equipamentos da televisão brasileira. Pegou e nunca mais largou! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

O adversário

BRASÍLIA - A semana que antecede as eleições é de Joaquim Barbosa, o menino negro do interior, filho de pedreiro, que se formou em direito, fez mestrado e doutorado nas melhores universidades, estudou línguas e está bagunçando o coreto do Supremo Tribunal Federal justamente no chamado "julgamento do século". Ao nomeá-lo, Lula escreveu certo por linhas tortas. Dizem que está arrependidíssimo.

Joaquim é ministro de amor e ódio, de ame-o ou deixe-o. Adorado pela opinião pública -sobretudo em Brasília, onde continua sendo o "Joca" dos tempos de UnB-, é odiado por petistas de cúpula e de base, mexendo com a solenidade fria do STF e com as emoções quentes dos colegas. Especialmente dos mercuriais.

Respaldado pela toga, justificado pelas dores de coluna, perdoado pelas origens e exposto pelas transmissões ao vivo, ele bateu boca e trocou adjetivos nada polidos com Gilmar Mendes (em outros julgamentos), com o revisor Lewandowski (virou uma guerra) e com o polemista Marco Aurélio (que ultrapassou limites, ao ver perigo na ascensão de Joaquim à presidência, em novembro).

Algodão entre cristais, o presidente Ayres Britto faz o que pode, como vetar no site do tribunal uma nota do relator desancando Marco Aurélio em termos pouco usuais entre Excelências, ainda mais em público.

Veja que a escolha de "adversários" por Joaquim não é ideológica nem partidária -é improvável que, na cabine indevassável, Gilmar e Lewandowski depositem o mesmo voto. Talvez seja mais por excesso de convicções e seu desdobramento quase natural: o voluntarismo.

Pois será justamente Joaquim quem estará dissecando as entranhas do governo Lula e do PT nesta semana. Enquanto Lula e Dilma estiverem nos palanques e no horário nobre falando maravilhas de Haddad, Joaquim gastará tardes inteiras para contar os podres de José Dirceu e do partido do candidato. Guerra de audiências como nunca se viu.

CARLOS HEITOR CONY

Autran Dourado

RIO DE JANEIRO - No último domingo, morreu Waldomiro Autran Dourado, mineiro, 86 anos, nascido em Patos de Minas, autor de uma obra que vem sendo estudada, aqui e no exterior, apesar de sua discrição, que o tornou privilégio de poucos, na medida em que se dedicou quase integralmente ao ofício de escritor. Dono de um estilo inconfundível -mais uma técnica do que um estilo-, não cortejou a popularidade nem fez parte de grupos, isolando-se em seus contos e romances como o artista que foi.

Apesar de seu temperamento, avesso a qualquer tipo de palco, Autran conseguiu o reconhecimento crítico expresso num elenco de importantes prêmios internacionais. Um de seus livros, talvez o mais conhecido, "Ópera dos Mortos", foi apontado pela Unesco para integrar a coleção de obras representativas da humanidade.

Outro de seus romances, "Os Sinos da Agonia", foi escolhido para os exames de "agrégation" das universidades francesas.

"O Risco do Bordado" é uma obra-prima pelo tecido que lembra uma aranha a fiar sua teia, silenciosa, perfeita em sua estrutura muitas vezes luminosa.

Difícil catalogar Autran Dourado em qualquer escola ou geração. Como mineiro, pode lembrar Cornélio Pena ou mesmo Lúcio Cardoso. Não inventou palavras, mas soube usá-las de forma magistral, rompendo as frases de maneira tão pessoal que qualquer um de seus textos pode ser facilmente identificado. Não criou uma linguagem, como Guimarães Rosa, mas a usou de forma tão pessoal que o torna original, para não dizer único.

Secretário de imprensa durante o governo de JK, integrou a brilhante equipe liderada por Álvaro Lins e que contava com nomes de relevo no panorama cultural da época, como Augusto Frederico Schmidt e Antonio Houaiss. 


02 de outubro de 2012 | N° 17210
FABRÍCIO CARPINEJAR

Você me ama?

Para Chiara Civello

Minha mãe teve um pesadelo. Prestava concurso para Defensoria Pública. Sala lotada de candidatos, nervosismo, lápis penteado.

Ao receber a prova do instrutor, qual sua surpresa ao perceber que a folha contava apenas com as respostas.

– Cadê as perguntas? – ela se desesperou.

O monitor lamentou, mas não tinha como mudar a natureza do teste.

– Só vim aplicar a prova, desculpa.

O perturbador sonho materno é de uma simbologia poderosa. Passamos mais tempo de nossa rotina respondendo respostas do que atendendo perguntas. Perguntamos com uma resposta e continuamos respondendo. Não pretendemos mudar nossas opiniões. Não pretendemos nos despedir de nossos condicionamentos. Não pretendemos remodelar os planos. Somos um bando de certezas recolhendo exclamações.

O mais complicado é aguardar justamente a pergunta, não sair falando de qualquer jeito para qualquer alvo. Mas aguentar o intervalo do dilema, resistir ao silêncio aflitivo da espera, tolerar pensar com os ouvidos.

Pois quem responde perguntas, conversa. Quem responde respostas, discursa.

É uma arte aprender a fazer perguntas necessárias. E ser condizente ao tamanho das questões.

Não ser preguiçoso. Ou excessivo.

Tem gente que recebe uma interrogação pequena e já cria uma tese.

Tem gente que recebe uma interrogação grande e usa evasiva.

Respeitar a proporção da pergunta é amar a curiosidade. É não ser afetado ou pretensioso. É não se vangloriar ou desmerecer a dúvida.

Ir aos poucos ajuizando. Não responder tudo para não ter que responder depois, nem nada para cessar a aproximação. Seguir com a inocência atrevida de uma criança, que provoca o sentido das coisas até despertar a vontade das coisas.

Se sua mulher questiona:

– Você está feliz?

É uma pergunta pequena, que pede que você revise seu dia.

A resposta é:  – Sim, estou feliz.

– Não, não estou feliz.

Ambas pedem um motivo. E uma nova pergunta pequena com olhos nos olhos.

Mas se sua mulher indaga: – Você me ama?

É uma pergunta grande, que reivindica que você revise toda a história com ela.

É uma pergunta para lembrar muito.

É uma pergunta para explicar com cenas, passagens, lugares.

É uma pergunta que não tem sucessora. É uma pergunta carregada de saudade.

É uma pergunta única, decisiva, maiúscula, com oceano para atravessar de mãos dadas.

Não é uma pergunta, é uma declaração.

Não seja breve. Valorize a cadência das frases. Ela é mais rara de acontecer do que imagina. Nem todos têm a chance de respondê-la. 


02 de outubro de 2012 | N° 17210
CLÁUDIO MORENO

Os portadores de lanternas

William James, psicólogo e pensador americano, sempre fez questão de frisar, ao longo de toda sua obra, que nunca chegaremos a captar realmente o que nosso semelhante pode estar pensando ou sentindo – especialmente se nos basearmos apenas naquilo que podemos enxergar.

Como espectadores, somos verdadeiros fiascos na hora de avaliar o drama dos outros, pois nosso olhar e julgamento, condicionados por nossos próprios valores, não conseguem perceber os sentimentos secretos que animam o comportamento alheio.

James ilustra essa ideia com um belíssimo exemplo que foi buscar nas memórias de Robert Louis Stevenson, o autor de O Estranho Caso de Dr. Jeckyll e Mr. Hyde (que ganhou, no Brasil, o título caricato de O Médico e o Monstro). Na pequena obra-prima intitulada

Os Portadores de Lanternas, Stevenson relembra, saudoso, as férias que costumava passar numa cidadezinha do litoral da Escócia, cheia de trilhas selvagens, grutas e penhascos à beira-mar – um local que “parecia ter sido criada especialmente para a diversão de meninos”. Das inúmeras recordações que guardou dessa época dourada, nenhuma lhe foi mais preciosa que a sensação de portar uma lanterna.

Entenda o leitor que estamos na metade do séc. 19 e que estas lanternas primitivas queimavam óleo de baleia. Eram de construção muito simples: tinham a forma cilíndrica de um pequeno lampião, mais ou menos do tamanho de uma lata de ervilhas, dentro da qual ardia uma chamazinha vacilante; para deixar a luz sair, bastava abrir uma pequena portinhola redonda que ficava na lateral.

Pois nas últimas semanas do verão, quando as noites já eram escuras como piche e os ventos traziam as primeiras chuvas frias do outono, Stevenson e seus amigos saíam com as lanternas presas ao cinto, protegidas debaixo do capote.

Não eram práticas nem úteis: a luz produzida era ínfima, o metal ficava muito quente, a fumaça do óleo queimado que subia por dentro da roupa era nauseabunda.

Nada disso, porém, estava em questão: para um menino daqueles, a essência da felicidade consistia em sair no negror da noite, sozinho, com o casaco abotoado até o pescoço, exultando simplesmente por saber, “no mais profundo de seu ingênuo coração, que a lanterna estava lá”.

As pessoas que os viam passar assim, sujos e molhados, deviam fazer o mesmo que nós, injustos e arrogantes, quando nos pomos a julgar a vida de outra pessoa e as decisões que ela toma – esquecendo que, por escuro que nos pareça o caminho escolhido por ela, é possível, se não provável, que ela traga no cinto, escondida de nossos olhos, a sua própria lanterna.


02 de outubro de 2012 | N° 17210
PAULO SANT’ANA

Os garotos apreendidos

No Sala de Redação de ontem, disseram diversos participantes que, apesar de várias doenças graves que tenho, ninguém entre todos nós tem melhor saúde do que eu. Imaginem como andam os outros!

Mesmo depois das minhas críticas ao goleiro Marcelo Grohe e das duas grandes defesas que ele fez contra o Barcelona de Guayaquil, tive recepção festiva e entusiasmada da torcida gremista no setor de camarotes no jogo de domingo contra o Santos.

A torcida gremista não depende de minhas opiniões para gostar de mim: depende só do meu amor pelo Grêmio.

Recebo de um setor do Ministério Público Estadual um esclarecimento importante: “Estimado jornalista Paulo Sant’Ana. Em sua apreciada coluna no jornal Zero Hora, no dia 27/09, ontem, emitiu opinião sobre o revoltante crime ocorrido em Caxias do Sul, em que adolescentes atearam fogo a um indefeso morador de rua. Na mesma oportunidade, questionou a atuação do Ministério Público, adjetivando-a de ‘passividade permissiva’, que contribui com a banalização da violência.

Gostaria de esclarecer que, no caso, como não houve apreensão em flagrante dos adolescentes, o Ministério Público somente recebeu da autoridade policial o boletim de ocorrência circunstanciado no final da tarde de ontem. De imediato, emitiu notificação para que os adolescentes, acompanhados de seus responsáveis, compareçam amanhã de manhã na Promotoria de Justiça para serem ouvidos. Há necessidade de pelo menos um dia para essa notificação. Amanhã, após a oitiva, será imediatamente oferecida a representação e pedida a internação provisória deles.

De salientar que, pela lei, não havendo a apreensão em flagrante, como no caso, há necessidade de cumprir essas formalidades, o que foi feito no menor prazo possível. Por fim, registramos que comungamos do mesmo sentimento de revolta e indignação com atos dessa natureza e que somos um dos principais interessados na defesa social, na punição de criminosos e na diminuição da violência. (ass.) Marcelo Lemos Dornelles, subprocurador-geral de Justiça para Assuntos Institucionais”.

O fato auspicioso é que os quatro adolescentes assassinos, depois de representação da Polícia Civil e solicitação do Ministério Público, tiveram sua apreensão (prisão, internamento) decretada pela Justiça e já se encontram internados, como esta coluna reclamou no dia 27 último.

Apenas foram cumpridos trâmites legais.

O crime foi revoltante.

Atendendo a justa ponderação da delegada adjunta do Creci-RS de Esteio, Stella Marli Vignochi, esta coluna declara que nenhuma imobiliária de Esteio comete quaisquer irregularidades com seus clientes e todas as imobiliárias do município prestam excelentes serviços à comunidade.


02 de outubro de 2012 | N° 17210
DAVID COIMBRA

59 correções

Sou uma besta.

Na página de domingo fui escrever sobre as Cataratas do Iguaçu e falei em Sete Quedas. Resultado: ontem, quando inocentemente abri o email, dezenas (dezenas!) de mensagens de leitores luziam e bramiam na caixa de correio, a fim de me corrigir.

E, nos últimos dois dias, outros tantos ligaram ou me abordaram na rua, arrumando o erro. Parei de contar na correção número 59 (cinquenta e nove!). Nunca fui tão corrigido.

O lado bom é que mostrou como a página é lida e como os leitores são atentos. O lado ruim é que sou uma besta.

O pior é que lembro do fim das Sete Quedas, já não era mais criança, já estava na faculdade, tentando ser menos besta e, como se viu domingo passado, não conseguindo.

Recordo até daquele acidente em que vinte e tantas pessoas morreram quando a ponte pênsil de Guaíra caiu. As Sete Quedas, que em conjunto um dia formaram a maior cachoeira do mundo, agora jazem debaixo d’água. O governo militar tapou-as para construir a Usina de Itaipu. Uma tristeza.

Hoje o governo não conseguiria fazer a Usina de Itaipu. Os ecologistas não permitiriam. Se isso é positivo ou negativo?, não sei. A energia é importante, mas as Sete Quedas também eram.

Hoje os ecologistas não permitiram nem o aterro do Guaíba. Não haveria a Avenida Beira-Rio, a mais bela da cidade; a Rua da Praia ainda teria praia; a Praça da Alfândega seria finalizada por um cais, e não pelo asfalto cinza da avenida; e o Inter ainda jogaria nos Eucaliptos.

É. Talvez não fosse tão bom.

W e Y

As cordiais, porém firmes, correções dos leitores tiveram o mérito de me fazer lembrar algo mais do que a minha visita às Cataratas do Iguaçu, na Copa América de 1999.

Aquele evento foi interessante porque, além das Cataratas, pude ver de perto o trabalho do então técnico da Seleção, Vanderlei Luxemburgo, à época um Vanderlei, a seu pedido, com dábliu e ípsilon. Wanderley. Hoje, Vanderlei, novamente a seu pedido, começa com vê simples e termina com i reto. Um Vanderlei nacional, singelo, direto.

Pois acho que essa mudança operou-se, igualmente, no espírito de Vanderlei. Mais maduro, ele tornou-se mais seguro, e quem é seguro não precisa chamar a atenção com exotismos.

Terno & gravata

Naquele tempo da Copa América paraguaia Vanderlei notabilizava-se como o primeiro técnico de terno e gravata do futebol brasileiro.

Não apenas por isso, claro: ele era dos poucos que valorizavam as funções auxiliares da comissão técnica: o psicólogo, o fisioterapeuta, o assessor de imprensa. Um treinador moderno, de corte europeu. Hoje isso tudo é comum, isso tudo está consagrado no futebol nacional, mas, nos anos 90, Vanderlei tinha de ser um pouco Wanderley.

A evolução

Os times de Vanderlei se tornaram mais simples e consistentes à medida em que a personalidade dele se tornava mais simples e consistente. Uma evolução.

O Grêmio de hoje não tem adereços, até porque não pode. O Grêmio joga como deve jogar. Quatro defensores, dois volantes, dois meias, dois atacantes. Mas, fosse outro técnico, meteria ali um w, um y ou um k. E ficaria estranho.

O detalhe

O que Vanderlei mantém inalterado de uma década para outra é sua atenção ao detalhe. A psicóloga era importante, assim como é o lateral-direito. O Grêmio fez bem ao pagar para ter Pará contra o Santos. No futebol, qualquer pormenor pode ser decisivo. Vanderlei sabe disso. A experiência mostrou.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012



01 de outubro de 2012 | N° 17209
KLEDIR RAMIL

Campanha eleitoral

As campanhas eleitorais têm muitas histórias folclóricas. No entusiasmo dos palanques, alguns candidatos perdem o bom senso, usam frases de efeito, prometem até a lua e, muitas vezes, dizem um monte de besteiras.

Ponta Grossa, PR. Uma longa fila de autoridades desfilava pelo palco. Deputado estadual, candidato a reeleição, pegou o microfone e, com uma voz rouca, gritou: “O povo está cansado de tanto político macarrão!”. Ficou um silêncio, pois ninguém entendeu onde ele queria chegar. Resolveu então explicar a analogia: “Político macarrão! No começo, são duros, cheios de princípios. Depois, quando entram na panelinha, começam a amolecer”.

Tem a história daquele senhor idoso de uma cidade do interior do RS, lançado candidato a senador. Era uma figura querida por todos, e resolveram fazer um evento para promover a candidatura. No dia da festa, recebeu uma lista das pessoas importantes que estavam presentes e resolveu saudá-los, um a um: “Saúdo fulano de tal, meu querido amigo. Obrigado ao beltrano, pela presença ilustre...”. E por aí foi, naquela lenga-lenga quilométrica até chegar ao nome de um tradicional político de outro partido: “Sr fulano, meu querido eleitor...”.

Um assessor puxou-o pela manga do casaco e cochichou: “Doutor, esse aí é adversário”. Como já não escutava muito bem, pegou a deixa e arrematou na hora: “E ainda por cima está de aniversário! Eu convido a todos para cantarmos o parabéns a você!”. E puxou o coro.

Famoso político paulista, já meio velho e cansado, não aguentava mais a estressante rotina de viagens de uma campanha eleitoral. Depois de vários dias na estrada, num fim de noite, foi carregado para mais um palanque. Subiu de má vontade e foi direto ao microfone: “Meus queridos amigos de São Carlos...”.

O prefeito cochichou no seu ouvido: “Aqui, não é São Carlos, é São Caetano”. Já de saco cheio, o velho resmungou: “Ah! É tudo a mesma merda!”. Só que o microfone estava aberto, e o comentário soou em alto volume pela praça lotada. Conclusão: não levou nenhum voto no município e teve de sair sob escolta policial.

Interior do Ceará. Candidata à vereadora, discursando entusiasmada em praça pública, soltou o chavão: “O voto é um instrumento da democracia, não pode ser vendido”. A plateia veio abaixo com uma salva de palmas. Empolgada com os aplausos, ficou ainda mais inflamada e arrematou: “O voto é que nem sexo. A gente só dá pra quem a gente quer!!!”.


01 de outubro de 2012 | N° 17209
NO FORNO DA GM

Montagem do Onix acelera às vésperas do lançamento

Modelo produzido em Gravataí chega para disputar acirrado segmento com fortes concorrentes

Com o ritmo de produção na fábrica de Gravataí acelerando até o lançamento previsto para o dia 21, o hatch Onix, novo compacto da General Motors, chega para ser um dos protagonistas na sacudida do segmento automotivo mais concorrido. A GM não confirma, mas circula no mercado a informação de que a produção ganha velocidade a partir de hoje.

Além do carro gaúcho, dois outros modelos com preços em torno de R$ 30 mil apresentados ao mercado em menos de um mês prometem disputar vendas com tradicionais líderes como Gol e Palio.

– O mercado é sempre ansioso por novidades. É da natureza humana. Ao chegar, vão tomar espaço dos concorrentes – avalia Luiz Carlos Mello, diretor do Centro de Estudos Automotivos (CEA).

Além da versão hatch do Onix, para a qual consultorias especializadas estimam vendas de 140 mil a 148 mil unidades em 2013, a Toyota apresentou no mês passado o seu compacto Etios. Ao mesmo tempo, a Hyundai lançou o HB20, carro da montadora sul-coreana fabricado em Piracicaba.

– Os três estão entrando para concorrer com modelos mais desgastados, como o Gol, o Palio e o Corsa – entende Milad Kalume Neto, gerente de atendimento no Brasil da consultoria de origem inglesa Jato.

Na disputa pelos clientes ávidos por novidades, cada modelo tem os seus trunfos.

– Os pontos fortes do Onix estão no fato de ser um carro com plataforma global, que permite a produção mais barata, além do grande número de concessionárias e o pós-venda da GM – aponta Roberto Barros, analista de mercado da IHS Automotive.

O veículo da Hyundai, por outro lado, surpreendeu positivamente pelo design. O Toyota carrega a marca de uma mecânica robusta, típica da fabricante japonesa. As duas montadoras têm ainda a vantagem de serem associadas a modelos de luxo, ponderam os consultores.

Carro será mostrado ao Estado no final do mês

Enquanto a IHS (148 mil) e a Jato (140 mil) têm projeções semelhantes para as vendas no próximo ano da versão hatch do Onix, no caso do sedã, que deve ser lançado no início de 2013, as expectativas são mais divergentes. Enquanto a IHS espera cerca de 50 mil unidades, a Jato calcula que o volume pode chegar a 95 mil.

Após a apresentação do Onix no dia 21, em São Paulo, o veículo poderá ser visto pelo público no Salão do Automóvel, também na capital paulista. No final do mês, haverá o lançamento no Estado.

Com tanto barulho na nova concorrência, os atuais líderes no segmento de compactos, um nível acima dos carros de entrada, também deverão se apressar para trazer novidades, prevê Kalume, da Jato:

– Podemos esperar mexidas nas linhas da Volkswagen e da Fiat.

caio.cigana@zerohora.com.br


01 de outubro de 2012 | N° 17209
ARTIGOS -  Paulo Brossard

Usura usurária

Semana passada, comentei declaração do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que, aludindo à taxa de juros praticada no cartão de crédito, afirmou serem eles “escorchantes e injustificáveis”. Dois dias depois, jornais noticiaram que o Bradesco cortara-os em mais de 50% e o juro que era de 14,9% ficaria reduzido para 6,9% ao mês.

Como dou ao caso a maior importância, prossigo hoje as considerações da semana finda. Pelo que li, unicamente as palavras ministeriais estampadas no jornal tiveram a virtude de mover a casamata financeira, uma vez que só um dos maiores bancos que atuam entre nós reduziu o montante das taxas a menos de 50%, como foi divulgado. Diante de exemplo tão significativo, imaginava eu que os demais bancos seguiriam a trilha aberta pelo Bradesco, mas até o momento em que escrevo não tive notícia de que outros o tenham imitado. Parece que estão a estudar ou coisa parecida. Mas, vamos aos fatos.

A primeira observação diz respeito à taxa de 14,9%, coisa que vinha de anos, sob os olhos compassivos do Banco Central, e no entanto as poucas palavras do ministro, só elas, foram bastantes para provocar a redução a 6,9%. Nada mais foi necessário para que o milagre se desse. Decorre daí que, se o banco satisfaz-se com juros de 6,9% ao mês, é de deduzir-se estes lhe são suficientes.

Nesta altura, não importa questionar se a redução em mais de 50% no valor das taxas derivou da generosidade do banco fixando-as em 6,9% quando eram de 14,9%.

As observações até aqui deduzidas estão a evidenciar que não faltavam razões ao ministro da Fazenda ao afirmar que os juros observados no cartão de crédito eram escorchantes e injustificáveis, 14,9% ao mês eram a usura mais usurária que se poderia conceber. E a prova disso está no fato de que um dos nossos grandes bancos reduziu-a em 50%, caindo de 14,9% para 6,9% ao mês, valha a insistência, sem receio de sofrer abalo algum.

O que importa é que ao ano, conforme o caso, o juro ultrapassava de 100% e de 200% o que excede todos os limites do abuso do direito e, não obstante, foi praticado sem qualquer censura do Banco Central. Mas não só dele, também o ministro da Fazenda, que só agora, em setembro, foi capaz de ver que os juros no cartão de crédito eram escorchantes e injustificáveis.

Faz mais de 300 anos, no sermão da Primeira Dominga do Advento, em 1650, disse o Padre Vieira que “são as omissões os mais perigosos de todos os pecados”, chamados “pecados do tempo” e seus autores de “ladrões do tempo”.

Para concluir, com esses juros não há competitividade possível.

*JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF


01 de outubro de 2012 | N° 17209
PAULO SANT’ANA

Inesquecível mulher!

Roberto Carlos permaneceu durante horas no velório de Hebe Camargo, resgatando, assim, um devotamento que a apresentadora tinha por ele.

Sílvio Santos e todos foram reverenciar a imensa graça de Hebe Camargo, que dominava a cena da televisão com uma simpatia incomparável.

Seu sorriso era marcante. O jeito delicado e afetivo com que ela se dirigia a todos era cativante.

Fiquei com a impressão – pode ser que equivocada – de que Hebe, que morreu trabalhando, tinha de estar recolhida ao hospital para tratar de seu grave câncer. Não terá sido desídia dos médicos deixá-la trabalhando? Ou será que foi uma exigência inarredável dela continuar em atividade, apesar da grave moléstia?

Eu estava no barbeiro quando ele me disse que lhe telefonaram, era meio-dia de sábado, avisando-o de que Hebe Camargo tinha morrido. Sucederam-se então no salão de cabeleireiros uns rumores de respeito e saudade sobre a grande artista. O Brasil foi sacudido pela morte de Hebe. Há artistas que se inserem na realidade e no cotidiano de um país como se fossem inseparáveis dele. Era o caso de Hebe Camargo, ninguém desgostava dela. Eu nunca vi, o que vejo com tantos outros apresentadores, alguém queixar-se de que seu programa estava enfadonho.

Foi uma grande perda. E ela morreu lutando, tinha assinado um contrato com o SBT e iria estrear naquele canal nos próximos dias. Apesar de idosa, mantinha um charme, um glamour feminino impressionante: nunca nenhum telespectador viu-a de sapatos de saltos baixos ou de tênis, sempre maquiada, até mesmo quando não estava trabalhando. Era um símbolo feminino insuperável.

Não vejo caso na televisão brasileira de uma apresentadora que tenha se mantido no ar durante tão logo tempo. Deve ter trabalhado em todas as redes nacionais de televisão, parece-me que com exceção da Globo.

Uma vez, encontrei-me com ela em Punta del Este e lhe fiz vários elogios, entre os quais o seguinte: “Você é a noiva do Brasil”. Com aquele sorriso permanente, ela enlaçou minha cabeça com as mãos e me dirigiu o seu bordão lendário: “Gracinha”.

Eu fiquei todo bobo.

Assentavam-lhe com comodidade e sem ostentação todos os vestidos e as joias. Era legítima detentora do título que lhe deram: Dama da Televisão Brasileira.

Primeira-dama.

Pobrezinha, morreu com vontade intensa de viver. Acima de tudo, foi mulher. Tinha feminilidade, tinha delicadeza, irradiava simpatia e gostava de homem. Uma mulher completa.

A velhice, em vez de abatê-la, incentivava-a mais ainda a ser graciosa e distribuidora de simpatia por todas as rodas e entre os telespectadores.

Que vontade de viver tinha Hebe!

Que orgulho em ser humana ela demonstrava, se arremessava às relações pessoais como se aquilo fosse um dom e um dever da sua natureza.

Admirável mulher. Inesquecível mulher.


01 de outubro de 2012 | N° 17209
L. F. VERISSIMO

Aniversário

Eu sabia que esse negócio de fazer aniversário todos os anos iria dar nisso: acabei envelhecendo. Às vezes, me pego pensando no que vou ser quando crescer e me dou conta de como minhas opções diminuíram. Não tenho mais idade para ser nada.

Só me animo quando vejo uma lista de prováveis candidatos a sucessor do papa. A idade média deles é 70. Ser papa é uma das poucas coisas a que eu ainda posso, realisticamente, aspirar. Mas minha única credencial para o cargo é a idade. Não sou cardeal, não sou nem praticante.

Devo ter deixado minha fé no bolso da fatiota azul, de calças curtas, com que fiz minha primeira comunhão. E a única coisa de que me lembro do evento, além da fatiota (e da gravata prateada!), não é a emoção de receber a hóstia e o rito eucarístico, são os doces que tinha em casa, depois. Acho que foi ali que fiz a minha opção preferencial pela perdição.

Invejo quem tem fé, mas não posso deixar de pensar que a minha religião particular, uma espécie de panteísmo urbano (devoção por pastéis e boas livrarias e a crença de que há um deus, sim: o deus do oboé, que além de ser um instrumento divino é o que afina todos os outros), é a única sensata, em meio ao que não deixa de ser – se bem examinada – uma crise mundial do monoteísmo.

Bons tempos em que, em vez de não ter mais idade, nós ainda não tínhamos idade. E sonhávamos com tudo o que viria, quando tivéssemos. Entrar em filme proibido até 14 anos. Beber e fumar. (O importante não eram a bebida e o cigarro, era a pose que se fazia bebendo e fumando. Ficar adulto era adquirir a pose). Beijar como beijavam nos filmes – pelo menos nos proibidos até 14, já que nos proibidos até 18 ninguém sabia o que acontecia. Ficar acordado até mais tarde. Ganhar a chave da casa. Dirigir carro. Usar bigode.

Ainda não ter idade era ficar pinoteando no partidor, indócil, como um cavalo esperando a largada. Não ter mais idade é ficar com esta impressão de que até um ato de revolta por tudo que não fizemos quando tínhamos idade e agora não dá mais, não seria, assim, apropriado para a nossa idade.

Chama-se vida essa lenta transformação da frase, de ainda não ter idade para não ter mais idade. Ou de poder ser, teoricamente, tudo o que se sonhasse, a poder ser, teoricamente, só papa. E por pouco tempo.

domingo, 30 de setembro de 2012


FERREIRA GULLAR

Tapar o sol

O julgamento do STF realiza-se à vista de milhões de telespectadores. Não é uma conspiração

GOSTARIA DE deixar claro que não tenho nada de pessoal contra o ex-presidente Lula, nem nenhum compromisso partidário, eleitoral ou ideológico com ninguém. Digo isso porque, nesta coluna, tenho emitido, com alguma frequência, opiniões críticas sobre a atuação do referido político, o que poderia levar o leitor àquela suposição.

Não resta dúvida de que tenho sérias restrições ao seu comportamento e especificamente a certas declarações que emite, sem qualquer compromisso com a verdade dos fatos. E, se o faço, é porque o tenho como um líder político importante, capaz de influir no destino do país. Noutras palavras, o que ele diz e faz, pela influência de que desfruta, importa a todos nós.

E a propósito disso é que me surpreende a facilidade com que faz afirmações que só atendem a sua conveniência, mas sem qualquer compromisso com a verdade. É certo que o faz sabendo que não enganará as pessoas bem informadas, mas sim aquelas que creem cegamente no que ele diga, seja o que for.

Exemplo disso foi a entrevista que deu a um repórter do "New York Times", quando voltou a afirmar que o mensalão é apenas uma invenção de seus adversários políticos. E vejam bem, ele fez tal afirmação quando o Supremo Tribunal Federal já julgava os acusados nesse processo e já havia condenado vários deles. Afirmar o que afirmou em tais circunstâncias mostra o seu total descompromisso com a verdade e total desrespeito com às instituições do Estado brasileiro.

Pode alguém admitir que a mais alta corte de Justiça do país aceitaria, como procedentes, acusações que fossem meras invenções de políticos e jornalistas irresponsáveis?

E mais: os ministros do STF passaram sete anos analisando os autos desse processo, tempo mais que suficiente para avaliá-lo. Afirmar, como faz Lula, que tudo aquilo é mera invenção equivale a dizer, implicitamente, que os ministros do STF são coniventes com uma grande farsa.

Mas o descompromisso de Lula com os fatos parece não ter limites. Para levar o entrevistador do "NYT" a crer na sua versão, disse que não precisava comprar votos, pois, ao assumir a Presidência, contava com a maioria dos deputados federais.

Não contava. Os verdadeiros dados são os seguintes: o PT elegera 91 deputados; o PSB, 24,; o PL, 26, o PC do B, 12, num total de 153 deputados. Mesmo com os eleitos por partidos menores, cuja adesão negociava, não alcançava a metade mais um dos membros da Câmara Federal.

Cabe observar que ele não disse ao jornalista norte-americano que não comprou os deputados porque seria indigno fazê-lo. Disse que não os comprou porque tinha maioria, ou seja, não necessitava comprá-los. Pode-se deduzir, então, que, como na verdade necessitava, os comprou. Não há que se surpreender, Lula é isso mesmo. Sempre o foi, desde sua militância no sindicato. Para ele, não há valores: vale o que o levar ao poder ou o mantiver nele.

Sucede que, apesar do que diga, ninguém mais duvida de que houve o mensalão. Pior ainda, corre por aí que o Marcos Valério está disposto a pôr a boca no mundo e contar que o verdadeiro chefe da patranha era o Lula mesmo, como, aliás, sempre esteve evidente. E já o procurador-geral da República declarou que, se os dados se confirmarem, o processará. É nessas horas que o Lula falastrão se cala e desaparece. Às vezes, chama Dilma para defendê-lo.

Desta vez, chamou o Rui Falcão, presidente do PT, para articular o apoio dos líderes da base política do governo. Disso resultou um documento desastroso, que chega ao ponto de acusar o Supremo de perpetrar um golpe de Estado contra a democracia, equivalente aos golpes que derrubaram Vargas e João Goulart. Pode? Vargas e Goulart, como se sabe, foram depostos pela extrema direita com o apoio de militares golpistas.

O julgamento do STF realiza-se às claras, à vista de milhões de telespectadores. Não é uma conspiração. Ele desempenha as funções que a Constituição lhe atribui. E que golpe é esse contra um político que não está no poder?

O tal manifesto só causou constrangimento. O governador Eduardo Campos, de Pernambuco, deu a entender que foi forçado a assiná-lo, após rejeitar três versões dele. Enfim, mais um vexame. Só que Lula, nessas horas, não aparece. Manda alguém fazer por ele, seja um manifesto, seja um mensalão.

Queria me orgulhar e elogiar o jornal de minha cidade e de meu estado. Mas definitivamente não está dando. Se vc tentar ler as crônicas de cronistas nossos da Zero Hora estão todas sem link. Clica-se e vai para lugar nenhum em nenhum navegador.

Ai entra no Estadão, vc lê todos os cronistas sem ser assinante. Na folha estão os cronicas de todos os cronistas disponíveis para quem assina e dentro da limitação até para não assinantes.

Então não gaste assinando um jornal que te irrita. Há dezenas, centenas de outras opções

MAURICIO STYCER

Tristes tardes

Programas vespertinos de televisão apostam na ideia de que "é isso que o público quer". Duvido

SÃO 17H de quarta-feira quando uma moça, apresentada como advogada, surge na tela. Diante dela, sentada, uma senhora carrancuda pergunta qual é o problema que a traz ali. "Já tentei o exame da OAB duas vezes e não passei", ela explica, antes de perguntar se vai ser bem-sucedida na terceira tentativa.

Sem mover um músculo do rosto, Mãe Dináh dá a receita. Primeiro, pense positivamente. Depois, coloque um ovo numa panela com leite e acrescente a mensagem com o pedido: "Eu quero passar". Deixe ferver. "Você vai ver como consegue tranquilamente", assegura a vidente.

A cena se passa ao vivo, no palco da TV Gazeta, em São Paulo, durante o programa "Mulheres", uma espécie de decano das atrações vespertinas na televisão.

No ar desde 1980, primeiro com o nome "Mulheres em Desfile", o programa ajudou a fixar a ideia de que o público deste horário, supostamente feminino, está interessado em programas descontraídos, em ritmo de conversa na sala de estar, sobre todo tipo de bobagem.

A produção precária da Gazeta e o jeitão descontraído de Catia Fonseca, apresentadora do "Mulheres", ajudam a passar a impressão de que a conversa, seja sobre esoterismo, fofoca, moda ou gastronomia, está de fato ocorrendo na casa da sogra.

Por justiça e mérito, Catia é uma campeã em aparições no "Top 5" do "CQC", dedicado a gafes e situações ridículas exibidas na televisão. Esta semana, por exemplo, comentando uma foto indiscreta da atriz Kristen Stewart que vazou na internet, a apresentadora sublinhou: "Ela tá com a mão assim, tapando o fiofó".

"Mulheres" sofre hoje a concorrência direta de duas atrações com formato semelhante, "Muito +", na Band, e "Programa da Tarde", na Record. Ambos exploram a mesma premissa -de que é preciso entupir o público com bobagens no meio da tarde-, mas dispõem de mais recursos, embalagem "moderna" e apresentadores mais famosos.

Comandante do "Muito +", Adriane Galisteu não aparece tanto quanto Catia Fonseca no "Top 5" do "CQC", apesar de também merecer, mas é campeã em matéria de capas da "Caras". Esta semana, ela mostrou no ar a enésima revista que a exibe sorridente anunciando que está "pronta para ter o segundo filho".

Seus companheiros de programa não fizeram nenhuma piada a respeito, mas logo deram início ao que Galisteu chamou de "fofocaiada" -uma sessão de comentários sobre notícias publicadas em revistas e sites do mesmo ramo que a "Caras". Dois atores de "Avenida Brasil" foram criticados com severidade por se recusarem a comentar fofocas sobre o suposto namoro deles.

Na Record, Ana Hickmann passou quase uma hora na casa de praia de Gugu Liberato, conversando sobre assuntos tão palpitantes quanto o implante de cabelos do apresentador e a cor da cueca que ele usa para dormir.

Numa entrevista com Sabrina Sato, um repórter perguntou: "A primeira vez que você fez amor foi com o Dhomini ou com o Felipe?". Ao que a moça respondeu, espantada: "Mas o programa é da tarde".

Contando isso assim, selecionando os "melhores" momentos, chega a parecer engraçado. Mas é triste.

Com base em pesquisas, números de audiência, intuição ou simples preconceitos, esses programas vespertinos apostam na ideia de que "é isso que o público quer". Duvido. Na minha opinião, expressam simplesmente a incapacidade de oferecer algo melhor.

mauriciostycer@uol.com.br