07 de outubro de 2008
N° 15751 - CLÁUDIO MORENO
Em doses mínimas
São poucos os que recordam o nome de Mitrídates, mas todos nós conhecemos pessoas que tragicamente com ele se parecem. Este personagem passou para a História não por ser o rei do Ponto Euxino, antiga colônia que os gregos fundaram no Mar Negro, terra do famoso filósofo Diógenes, mas por um estranho e sinistro comportamento que resolveu adotar ao longo de toda a sua vida.
Mitrídates ainda era um menino quando descobriu que sua mãe e outros membros da família pretendiam eliminá-lo com um veneno discreto, fazendo com que sua morte parecesse natural.
Vendo que seria extremamente difícil defender-se de um inimigo que morava sob o mesmo teto e com o qual compartilhava o alimento de cada dia, decidiu que precisava se tornar imune a qualquer espécie de substância nociva.
Passou então a estudar com afinco todos os antídotos conhecidos, testando sua eficácia em prisioneiros condenados à morte.
Depois de muitas tentativas, chegou finalmente a uma fórmula única, composta de mais de 50 ingredientes, incluindo o sangue dos patos que viviam no Ponto, cujo alimento principal eram plantas que matariam qualquer homem que as ingerisse.
Para sentir-se ainda mais protegido, engolia diariamente, depois da dose habitual desse remédio, pequenas quantidades de veneno para fortalecer o organismo contra uma possível armadilha dos assassinos.
Não se sabe se elas chegaram a ocorrer, mas o certo é que ele viu os inimigos morrerem um a um, mantendo-se no trono até o dia em que, já perto dos 70, seu reino foi conquistado pelos romanos comandados por Pompeu.
Embora vencido, não poderia submeter-se às terríveis humilhações que Roma infligia aos prisioneiros reais; por isso, antes que os soldados chegassem para prendê-lo, dividiu com a mulher e as filhas o veneno que trazia guardado no pomo da espada.
Elas morreram em seguida, mas ele estava tão habituado à substância que ficou apenas atordoado. Então, sem forças para enterrar a espada no peito, teve de implorar que um soldado de sua guarda o matasse.
Por causa disso, Mitrídates virou palavra, o que é, por si só, uma garantia de sua imortalidade:
em todas as línguas do Ocidente, mitridatizar significa aumentar a tolerância a um veneno pela ingestão contínua de pequenas doses, um verbo feito sob medida para explicar o absurdo fatalismo com que aceitamos – no trabalho, na relação amorosa, no convívio com os demais – abusos e agressões contra tudo o que o ser humano tem de mais vital e importante.
Sem revolta ou indignação, passamos a tolerar tudo aquilo que antes nos fazia mal, engolindo o veneno, gota por gota, até chegar à dose letal.
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