07 de outubro de 2008
N° 15751 - PAULO SANT’ANA
Um quadro horripilante
Impressionante a entrevista do juiz Sidinei José Brzuska, na Zero Hora de domingo passado, referindo-se a uma visita que fez ao Presídio Central, exercitando a sua condição de juiz responsável pela fiscalização dos presídios na Região Metropolitana:
Zero Hora – Na manhã de quinta-feira, o senhor visitou o Presídio Central. Havia estado lá antes?
Sidinei José Brzuska – Já tinha estado lá, há bastante tempo, mas apenas na administração. O que eu conhecia mesmo do Central era de ler e ouvir falar.
Zero Hora – O que o senhor achou do que viu?
Brzuska – A sensação que se tem é de que as galerias do Central são um misto de África em guerra civil e Afeganistão. As celas são completamente destruídas em sua estrutura de concreto e tijolos. O chão, meio pegajoso, parece que nunca é limpo. O cheiro é muito ruim. Há esgoto por toda parte. Existem cachoeiras de esgoto e água.
É difícil de descrever em palavras. Eu sempre tive orgulho em ser gaúcho. Quando viajo, sempre tenho orgulho em ser gaúcho. Pela primeira vez tive vergonha. Chego a me emocionar (enche os olhos de lágrimas).
É inadmissível que nós, gaúchos, que nos consideramos uma sociedade politizada, culta, evoluída, deixemos a situação ficar nesse estado. São mais de 20 mil pessoas que entram no Central, todos os meses são milhares de crianças (as visitas) que ficam nessas galerias, nesse esgoto. Não quero fazer terra arrasada.
Mas é uma vergonha mesmo. Fiz toda a minha carreira na magistratura visitando presídios. Nunca tinha visto nada parecido. Não existe... Tem de chamar a atenção das pessoas porque algumas pensam que, por serem bandidos, os presos têm de sofrer.
A sociedade de um modo geral faz vistas grossas. Desafio qualquer que veja isso e seja capaz de manter tal opinião... Talvez a questão do esgoto e da saúde pública seja a mais chocante. É muita sujeira, muito esgoto. Uma população muito grande, um espaço muito pequeno.
Agora fala este colunista. Trata-se de um juiz de Direito, no exercício de suas funções, confessando-se impotente para deter o quadro dantesco que se desenvolve no centro da capital gaúcha, no centro dos três poderes do Estado, aqui nas nossas barbas.
São cascatas de fezes e de urina que brotam das paredes e se derrubam sobre as galerias.
Nada existe igual. É a doença, a imundície cercando os presos, que vivem como ratos, como insetos, como baratas, como percevejos.
E, notem bem, como a sociedade dá de ombros e demonstra indiferença a essa paisagem social sinistra, o magistrado, chorando de choque com esse descalabro, apela então para a sensibilidade social no sentido de que se faça alguma coisa, porque milhares são os visitantes que vão até esse local imundo para se misturar todas as semanas com os ratos abandonados, os presos.
E os familiares dos presos se tornam, assim, também ratos.
São 4,7 mil presos que não poderiam viver lá se as condições de higiene fossem perfeitas. Há lugar apenas para menos de 1,5 mil presos.
Imaginem nessas condições primitivas de abandono e de sujeira como sobrevivem essas 4,7 mil criaturas!
É uma vergonha e uma chaga que o Rio Grande do Sul não pode desconhecer.
Faz-se urgente a interdição desse valhacouto de sujeira, de escuridão, de injustiça.
É uma vergonha! As nossas maiores autoridades precisam imediatamente pôr fim a essa degradação.
Não tem explicação que essa barbárie transite durante anos sob os olhos e sentidos de todos sem qualquer medida que lhe ponha um imediato paradeiro. É selvagem, é horrorizante, é aterrador.
Isso tem de ter um fim, hoje. Um juiz chorando de impotência em cima da tragédia, não há cena mais horrenda.
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