terça-feira, 24 de maio de 2011



24 de maio de 2011 | N° 16709
FABRÍCIO CARPINEJAR


Cúmulo do azar

Se nascer fosse por sorteio, não estaria aqui. Nunca venci nenhum. Nem rifa na escola. Muito menos de galeto de igreja.

Acho que me faltou traquejo popular, arruda, figa, reza braba, assistir ao Silvio Santos e seu baú da felicidade. Careci de treino. Quando pequeno, não jogava bingo com cinamomos. Quando adolescente, rompi corrente de cartas e e-mails, os remetentes não me perdoaram e amaldiçoaram minha caixa postal.

Não levei TV, geladeira, máquina de lavar das contribuições mensais para entidades carentes. Por mais que levante a carteira de sócio no estádio, a camiseta do time não pousará em meu armário.

O vizinho Geraldo arrebatou uma bicicleta de rede de lojas. Minha mãe arrecadou um liquidificador do Pão dos Pobres. O tio Otávio foi escolhido para uma viagem a Porto Seguro com acompanhante.

Há sempre alguém perto de mim que teve um tiquinho de bênção, um naco de fortuna, uma fatia de torta do destino.

Não desprezaria grampeador, caixa de lápis de cor, passeio no Cisne Branco. Qualquer prêmio para esnobar aos amigos e familiares. Qualquer oferta, para dizer que os dias não são iguais.

Mas sou um azarado. Vivo colocando cupons em arcas transparentes nos shoppings, guardando notas e números, conferindo extrações da Caixa Federal, mas carro zero não entrou em minha garagem. Sorteio de livros em lançamentos não vem para mim, sorteio de ingressos na rádio não encontra meu nome. Numa festa de aniversário, todos receberam brindes, menos eu. Sequer ganhei um final de semana num motelzinho de estrada.

A sorte não brinca comigo. Eu me vejo como resultado da insistência. Não espero facilidades e recompensas do acaso. Trabalho desde cedo para me aposentar tarde.

O que não merecia é ser traído pelas promoções de restaurantes e locadoras.

Minha ambição era completar 10 locações para merecer um filme grátis. No momento em que partia para o último X, a locadora fechou. Aquilo me magoou. Quase depredei o local. Fui contido pelos amigos imaginários.

No restaurante Parrila del Sur, repeti o feito. Talvez demore meses para preencher os quadradinhos, sei lá; quando fui descontar a dezena, não existia mais a oferta. Arre, é muito olho-gordo, coincidência lazarenta.

Triste mesmo é ver que fui sorteado apenas pelo Imposto de Renda para a malha fina.


24 de maio de 2011 | N° 16709
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA


Direto ao coração

Leio que há um renovado interesse dos jovens da era digital pelos clássicos impressos. A notícia me alegra, pois o culto à máquina e a devoção à eletrônica acabam por abalar a boa e velha cultura humanística.

Segundo diz a notícia, rapazes e moças se reúnem para percorrer as páginas de Machado de Assis e Jane Austen, além de outros autores menos votados.

Isso é excelente. Memórias Póstumas de Brás Cubas ou Orgulho e Preconceito, dentre uma miríade de outras obras, deveriam frequentar a formação de nossos adolescentes, que não poderiam esquecê-las quando na idade adulta.

Sei disso por experiência própria. Um tanto pelos exemplos de casa – sempre vivi cercado de livros –, outro tanto pelos sábios professores do Colégio Anchieta – aqueles que ensinavam nos casarões e edifícios da Rua Duque de Caxias, 1.247 –, me apaixonei pela literatura. Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Capitu – a dos olhos de ressaca – tornaram-se meus heróis particulares.

Já nem falo dos personagens russos, ou da safra americana, como Nick Adams, Dick Diver, Gatsby, e um centenar de outros, a que fui apresentado com o correr dos tempos.

Hoje sou dono do que creio seja a maior coleção de livros da Lost Generation existente em Porto Alegre e arredores e da obra completa de um inglês, Somerset Maugham, de que me falta apenas um volume, Looking Back, que nunca consegui encontrar. Deste último, compraria até a edição em espanhol.

Nada disso me renderia o título de Patrono da Feira do Livro ou de candidato a uma vaga na Academia de Letras. Mas me garante uma conquista muito melhor: a do prazer de ler. É assim que leio: por prazer. Há poucas alegrias maiores do que folhear páginas que falam direto ao teu cérebro e à tua sensibilidade.

O exemplo dos jovens que redescobriram a literatura impressa me enche de alegria. Significa que uma das raízes da civilização a que pertencemos continua firme e forte. Trata-se do livro, revigorado pelas novas gerações. Maugham, que já citei antes, dizia que apenas uma frase lida já tinha uma significação especial para ele. Não estava errado. Os bons livros falam direto ao coração.


24 de maio de 2011 | N° 16709
LUÍS AUGUSTO FISCHER


Ensinar ou debater errado?

Notícia boa é saber que a escola em geral e o ensino de Português em particular estão na ordem do dia – a preocupação aumentou, e disso pode resultar um desenvolvimento inédito da área em nosso país. Notícia ruim é constatar que o debate em torno desses relevantes temas é ruim, meio torto, fruto direto da falta de intimidade com a questão por parte dos meios de comunicação massivos.

Vamos a uma analogia: lembra quando a mídia começou a falar da aids? Tinha de tudo em matéria de reação e demoramos muitos anos de debates e reportagens, ouvindo especialistas, vítimas e população em geral, até que agora estamos numa situação razoável. Daquelas primeiras reações (“aids pega em aperto de mão?”) até agora, quanta água rolou, não foi?

O caso atual é bem parecido. O evento mais notório é o do livro didático que o MEC bancou para trabalho com EJA, Ensino de Jovens e Adultos, para gente fora da seriação escolar típica, adultos que há tempos não estudam, se é que alguma vez estudaram. Muitos estão opinando sem ler, ou sem ler direito. Vários textos aqui mesmo na Zero expressaram isso. O que dizem reflete mais a precariedade de informação do que o tema em pauta.

Não duvido da boa-fé de ninguém. Ocorre que tais textos (dois apenas no domingo passado) reagem ao trabalho de linguistas especializados da área da descrição científica e do ensino de línguas do mesmo modo como certas pessoas olham com desconfiança a receita dada por um médico especialista na doença, duvidando que aquilo possa fazer tão bem quanto o velho e conhecido chazinho que a vó preparava.

A analogia é imperfeita, como são todas as analogias (do contrário, seriam igualdades), mas ajuda a entender, senão o mérito do problema, ao menos a forma que o problema alcançou na mídia. O chá da vó pode ser bom, mas definitivamente não ajuda a entender melhor o problema (pode até mascará-lo, como recente série do Fantástico mostrou, com Drauzio Varella), nem a curar o doente.

Li o capítulo polêmico do livro (que está em vários lugares da internet) e, caro leitor, o livro está certo, certíssimo: conversa com o leitor (do EJA) para demonstrar (não apenas constatar) a existência da variação social da língua falada e da língua escrita e – atenção – para mostrar o caminho até a forma culta, prestigiada, que os não-especialistas chamam de certa.

Eu também tenho saudade do tempo em que o médico chegava e, apenas botando a mão na testa da gente, dava diagnóstico e prognóstico sem erro; mas hoje isso não existe mais. Não estou dizendo que tudo está bem, no ensino de Português ou no MEC; há interrogações grandes, mesmo nisso que acabei de dizer, mas acabou o espaço, enquanto o problema está só começando a se configurar na arena pública.


24 de maio de 2011 | N° 16709
PAULO SANT’ANA


Meta menor do Grêmio

Não sei como certos projetos são levados à frente, sem nada que reaja a eles.

É o caso de muitos programas de debates esportivos na televisão brasileira, em que é tácito que não pode haver discordância entre os debatedores.

Sucedem-se os programas e nunca um participante discorda do outro, como num código de solidariedade contida. Nunca!

Eu assisto às vezes a esses programas na esperança de que eles contenham oponência entre os que debatem, mas em vão.

É muito provável que seja recomendado aos que participam desses debates que não entrem em atrito com os que estão na bancada, que a ordem é concordar, que lugar de qualquer discussão não é ali.

E o resumo desses encontros mornos, arrastados e sonolentos é que os telespectadores ficam completamente privados de qualquer discussão.

São congressos televisivos de confraternização ideológica e opinativa.

Era hora de se mudar esse eixo fulcral chato e nauseante dos debates esportivos pela televisão.

Quanto a mim, desde que há 40 anos fiz-me jornalista, tenho a vocação de discordar e discutir.

Por isso é que vou discordar de forma veemente de um dos mais prestigiados comentaristas de jornal e rádio do nosso meio: Wianey Carlet.

O Wianey disse em vários espaços, quando estava terminando o Gauchão, que o time do Grêmio é melhor do que o do Internacional.

Não sei como pôde dizer esse absurdo.

Não bastasse o time do Internacional ser muitas vezes mais caro (em dinheiro) do que o do Grêmio, chega a ser comovente a dificuldade que o Renato tem para escalar seu time. Só para dar um exemplo, não há avantes no Grêmio, enquanto o Internacional tem-nos de sobra no time e no banco.

Evidentemente que não foi intenção do Wianey, ao pronunciar o absurdo, que o Grêmio se convencesse de que é melhor do que o Inter e deixasse de contratar bons valores para o resto do ano.

Não foi intenção, mas acabou como resultado: os dirigentes não reforçaram o time para o Gauchão e a Libertadores, baseados também na opinião do Wianey.

Foi erro mesmo do Wianey, erro de cálculo, erro de avaliação, lamentável erro que todos reconhecem e que me levou à decepção raivosa.

Quanto ao erro maior, o da direção do Grêmio ao ter pensado que tinha time para ser campeão regional, ir à frente na Libertadores e disputar o Brasileirão, quero dizer que agora é mais fácil a tarefa da direção gremista do que a do Inter no campeonato nacional: o Inter, para atingir sua meta, tem de ganhar pouco mais de 70 pontos e abraçar o título, enquanto que para o Grêmio a meta é de 40 e poucos pontos, para não ser rebaixado.

E é enorme hoje o risco de rebaixamento do Grêmio.

Hein, Wianey?

segunda-feira, 23 de maio de 2011



23 de maio de 2011 | N° 16708
ARTIGOS - Paulo Brossard*


Enriquecimento sob mistério

Embora longe de concluído o caso, evitando chegar a conclusões finais e esperando que o envolvido venha a prestar algumas informações necessárias ao bom julgamento do escabroso assunto Palocci, o que foi até aqui divulgado tem aspectos tão surpreendentes, que não é possível ignorá-lo. O tempo do silêncio prudente já passou, até porque o personagem principal parece pouco inclinado a destelhar seu abrigo empresarial, dificultando que a luz o ilumine. É inegável que o fato em causa não é vulgar, bem ao contrário é marcadamente invulgar, quase solitário no elenco das anomalias administrativas.

Tanto mais esta circunstância agrava o seu perfil, quando em caso moderadamente semelhante pessoas implicadas nele ou hesitaram em abrir à curiosidade das ruas ou, calando, provocaram a tendência não para atirar a primeira pedra, mas a segunda e a terceira. Também não deixa de ser estranho que amigos próximos do agente envolvido estariam blindando o companheiro, a ser correta a notícia corrente, e desse modo desservindo-o.

Outro dado, nada indiferente, é a alta função que ele tem desempenhado na administração e agora ocupando posição de singular relevo no seio do governo. Mas ainda não é tudo.

Também é inegável que este tem deixado visível seu intento de salvar um de seus mais relevantes membros, a ponto de levar as suscetibilidades do Planalto aos domínios do Legislativo, que tem como uma das suas finalidades investigar, esclarecer, apurar o que aconteça no país e de alguma sorte interesse à coisa pública.

Fala-se em grupos de resistência ou de choque, que testemunham o grau de identificação do setor legislativo com o Executivo, quando a Constituição e as instituições democráticas do mundo afora falam em independência senão na separação ou na divisão dos poderes.

Mas faz supor que tudo se esquece calculadamente a preço de levar desprestígio à nação e dissabor para a maioria de seu povo. Enfim, um problema, que pode ser amargo para uma pessoa, converte-se subitamente em amaríssima questão de Estado.

E desse modo penso haver dito com clareza o que suponho imprescindível, e sem chegar a conclusões definitivas, até em homenagem à regra de presunção de inocência, acerca de fato deplorável sob todos os aspectos. Por fim, ocorre-me lembrar às pessoas responsáveis ou até irresponsáveis dos 20 anos que a nação sofreu sob o regime do arbítrio e que ela não pode abrigar pústulas insignes sem a sua cabal apuração.

Lembre-se o que está ocorrendo com alta personalidade do mundo financeiro, do coração do FMI e prócer do partido francês, de grande tradição na República, a ponto de ser tido como eventual sucessor do presidente Nicolas Sarkozy, dada a sua hierarquia partidária e sua eminência no seio da opinião do seu país. Dias humilhantes vão atravessando, a despeito da sua graduação nacional e internacional.

Voltando ao Brasil, é de recordar que a evidente importância do cargo exercido junto à Presidência da República impõe dever correspondente.

Daí nem o protagonista nem os que ele cerca escapam da “ficha suja”, por isso mesmo seria o principal interessado em provar que é limpa, se é que pode fazê-lo!
*Jurista, ministro aposentado do STF.


23 de maio de 2011 | N° 16708
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


Eurípedes por Alabarse

Trabalho corajoso, paciente, brilhante – é o mínimo que se pode dizer da encenação de Luciano Alabarse, Ifigênia + Agamênon, que volta a cartaz na cidade em junho.

A coragem de Luciano é inegável, porque não se amedronta ante dois clássicos pesados da dramaturgia universal e, por não se amedrontar, consegue transpô-los aos nossos dias; mais: o faz com dignidade, sem atualizações inócuas que muitas vezes aviltam o texto original.

Com isso, quer-se dizer que, sentado na plateia, Eurípedes reconheceria perfeitamente suas peças. A coragem de Alabarse também está na concepção sonora, que utiliza músicas de época [no tanto que podemos imaginá-las, dada a inexistência de partituras] e outras, nossas contemporâneas.

Trabalho paciente porque foi necessário muito pensar nos mil pormenores que constituem o espetáculo, e podemos assinalar: tradução textual adequada e moderna; criação de figurinos que, por si sós, já nos dizem do caráter das personagens; marcação dinâmica, que vai contra certa estética hierática e rígida que muitas vezes assinala as produções atuais do teatro grego.

Alabarse ainda foi paciente quanto ao ritmo largo, sem pressa, permitindo que o espectador acompanhe sem atropelo as falas e a trama.

A encanação de Alabarse é, por fim, brilhante.

É brilhante porque madura. Só alguém com muita experiência cultural e pessoal é que poderia conter-se quando necessário, avançar quando é urgente. É nesse balanço que se mostra o brilho da direção. Um elenco grande como o desta montagem só pode ser dirigido por quem muito já viveu e adquiriu o tino do saber comandar sem impor.

Alabarse é um artista, mas que não se permite estrelismos infantis porque já ultrapassou essa fase inicial de todo criador. Ademais, Luciano declara-se porto-alegrense e que está bem, bem onde está. O que ele quer, é realizar sua arte acima das circunstâncias geográficas. Que excelente exemplo para os jovens diretores.

Leitor: não perca Ifigênia + Agamênon; são duas horas exatas de pura fruição e de crescimento pessoal. Ao sair do espetáculo, você se sente mais humano e, ainda mais digno de viver essa aventura sem volta que é a vida que nos coube viver.


23 de maio de 2011 | N° 16708
PAULO SANT’ANA


Revisão de posição

Li antecipadamente o artigo que o governador Tarso Genro publica hoje em Zero Hora e quero dizer que me sensibilizei com alguns de seus argumentos e revi parcialmente a minha posição sobre o assunto.

É exata, sensível e inteligente a intenção do governador em taxar com contribuições previdenciárias mais elevadas os servidores que percebem os maiores salários, até mesmo porque serão eles que ficarão com o maior naco dos proventos, quando da aposentadoria.

Participo da preocupação do governador Tarso Genro quanto ao futuro imediato da previdência do funcionalismo público estadual.

Alguém poderia argumentar que este pré-caos é herança de dezenas de governos, não caberia a Tarso Genro erigir-se como salvador ou até atenuador dos efeitos dessa bomba que está para estourar.

No entanto, se foram omissos todos os governos anteriores, justo é que se dê a Tarso Genro o direito de não sê-lo. Se Tarso empunha agora o governo, é de seu mais pleno direito e dever ético fazer alguma coisa, até para não ser atirado no saco histórico dos que se omitiram e colaboraram para o agravamento do problema.

Quando eu soube que a alíquota de 16,5% que quer cobrar dos servidores estaduais que percebem mais de R$ 3.689,66 só incidiria sobre o que exceder esse valor, ficando esse patamar isento do aumento de alíquota, fiquei simpatizando com a proposta a passo de defendê-la nesta coluna que estou escrevendo.

Não sou deputado estadual, mas como jornalista me incluo no setor da sociedade que debate este tipo de questão.

E, se antes fui, por esta coluna, veemente na crítica à proposta, agora, depois de meditação e de exposição talvez mais clara do governador sobre seu objetivo, fico a favor, embora minha posição, é claro, será lamentada e censurada por alguns setores.

Tudo isso está acontecendo porque até os fins do século passado era entendido como normal que os funcionários públicos não descontassem contribuição para a previdência e os cofres públicos arcassem com o total de sua aposentadoria.

Aos poucos, no entanto, a sociedade brasileira e as instituições foram percebendo que as aposentadorias nada mais são do que um cálculo feito em cima das contribuições dos aposentados quando ainda eram da ativa. Ou seja, que as aposentadorias tinham de ser meros cálculos atuariais.

Ou seja, quem contribui com a previdência tem direito à aposentadoria.

Não vai ser esse projeto de Tarso Genro, caso aprovado, que solucionará o impasse ameaçador da previdência estadual.

Mas é um passo que, se não for dado, agravará ainda mais e dramaticamente a problemática.

Sou a favor. E gostei da expressão que caberia se nada se fizer sobre a previdência: “Nos tornaremos um imenso Portugal”.


23 de maio de 2011 | N° 16708
L. F. VERISSIMO


Aprendendo a praguejar

Na peça A tempestade, de Shakespeare, Caliban é uma representação do que o selvagem significava para a imaginação europeia, quando se alastravam a exploração dos novos mundos e os encontros, ou choques, com seus habitantes primitivos.

Metade gente e metade bicho, Caliban é uma curiosidade, uma ameaça, um estorvo e um desafio à classificação. Muitos anos depois de Shakespeare, em pleno século 19, ainda se discutia na Europa se os selvagens eram humanos e tinham alma.

Na peça, ele é um servo rebelde e uma manifestação do Mal – quando não é um divertimento para Próspero e os outros. E era assim que ele existia no pensamento europeu: como um estranho, um possível escravo, uma possível fera e um eventual espetáculo.

Mas Caliban tinha uma coisa que nenhum outro da sua raça – fosse ela qual fosse – tinha: suas falas eram escritas por Shakespeare.

É do seu autor a frase em que Caliban diz a Próspero que este lhe ensinou a falar como um homem, e que seu lucro nisso foi que aprendeu a praguejar. Substitua-se “praguejar” por protestar, denunciar, reivindicar e temos em Caliban o primeiro contestador de impérios coloniais, o primeiro nativo a falar de igual para igual com o senhor branco, o primeiro a rogar pragas contra a sua situação e a pedir justiça. E a usar o vocabulário do dominador contra ele próprio.

A Europa hoje enfrenta imigrantes que chegam aos borbotões na busca do seu direito a sobreviver, fugindo de ex-colônias deflagradas onde não há futuro. A falta de cadência shakesperiana às suas razões é suprida pela linguagem do desespero, mas o que os move é o mesmo vocabulário que Caliban tomou de Próspero para rejeitar um destino que o condenava a ser sub-humano.

Os “selvagens” aprenderam a praguejar, o que agora significa contrariar a fatalidade de terem nascido no lugar errado, e na forma errada. Se fossem dinheiro emigrariam para onde quisessem, para onde houvesse oportunidades, em impulsos eletrônicos. Como são gente...

domingo, 22 de maio de 2011


DANUZA LEÃO

Responda, se tiver coragem

Até porque a felicidade é sempre coisa do passado ou do futuro -ah, como foi bom, ah, como vai ser bom

VOCÊ É FELIZ? A essa pergunta, tão curta e aparentemente tão simples, ninguém responde rápido, nem que sim nem que não.

A resposta costuma ser tipo "bem, quando penso na situação da maioria dos brasileiros, não dá para dizer que eu seja infeliz". Não foi essa a pergunta, as pessoas sempre se enrolam.

É difícil mesmo, até porque a felicidade é sempre coisa do passado ou do futuro -depois que o apartamento for comprado, as férias foram maravilhosas, quando a filha se casar, quando arranjar um namorado ou quando me separei, ah, como foi bom, ah, como vai ser bom. Sempre antes ou depois.

As pessoas têm um certo pudor de confessar que são felizes; somos todos supersticiosos, e se queixar um pouco da vida faz parte, para não despertar a inveja dos amigos e a ira dos deuses. E mais: na hora em que se é feliz não se tem consciência do que está acontecendo -complicada, essa tal de felicidade.

O que não se deve é confundir: acontecem às vezes momentos maravilhosos em lugares deslumbrantes, com pessoas incríveis, e se imagina que aquele é um dos grandes momentos da vida, se imagina até mesmo que aquilo é a felicidade.

Anos depois, desses momentos só vai sobrar uma foto, se sobrar, e na memória, quase nada; no coração, nem pensar. Bom mesmo é ser feliz e perceber; quando você come um chocolate bem gostoso, é melhor achar bom na hora ou dois anos depois?

Para isso é preciso um certo treino: o dia de hoje, por exemplo, está sendo bom, ruim ou regular? Pense um pouco: aconteceu alguma coisa boa desde que você acordou? Não? Mas nada mesmo? Será?

Para começar, você acordou, abriu os olhos e viu a luz do dia; quando abriu a torneira, tinha água, o jornal estava na porta, e os gatos brincando. E mais: com um dia inteiro pela frente, dá para tomar certas decisões, do tipo "hoje vou ser feliz". Já é um começo.

É bem verdade que às vezes a vida não dá trégua, mas com o tempo a gente aprende a se defender, e uma boa estratégia é evitar qualquer discussão, e dizer sim a tudo.

Quando ouvir um "você engordou um pouco", diga que é verdade, e que está péssima -dizer que está péssima atrai as simpatias gerais.

Ache graça em tudo o que disserem e peça opinião sobre tudo: do namorado com quem não sabe se deve se casar ou abandonar para sempre até qual a melhor dieta -o que não quer dizer que vai seguir quaisquer dos conselhos.

Com isso está comprando seu sossego, isto é, sua felicidade, o que não tem preço.

E sua personalidade, suas opiniões, onde ficam? Ora, não há nada mais insuportável do que pessoas que têm opinião; bom mesmo são as que concordam com a gente o tempo todo.

E pensando bem, não custa nada dizer sim, sim, sim. Afinal, não é um preço assim tão alto para que todos sejam felizes.

E você? Bem, querer que todos sejam felizes e você também é querer demais, mas mesmo assim, não custa lembrar: ser feliz, ao contrário do que dizem, não é pecado.

PS - O grande escândalo do diretor do FMI me fez pensar. A arrumadeira entrou para arrumar o quarto; ele, que estava no banheiro, abriu a porta (nu) e viu a moça.

Imagino que seja preciso um tempo para que o desejo masculino aconteça; tempo suficiente para ela sair correndo (e à visão do personagem em questão, nu, mais correndo ainda).

Lembro de Mike Tyson que, anos atrás, convidou uma moça para subir em seu quarto de hotel; ela, pobre inocente, aceitou, depois o acusou de tentativa de estupro, e o lutador foi condenado a seis anos de cadeia.

Ah, essa América puritana.

danuza.leao@uol.com.br

FERREIRA GULLAR

Saia justa

A conclusão inevitável a que se chega é que a morte de Bin Laden tem limitadas consequências práticas

APÓS OS atentados de 11 de Setembro de 2001, a eliminação de Osama bin Laden tornou-se uma questão de honra para o presidente dos Estados Unidos, fosse ele quem fosse.

É evidente que a inusitada audácia do terrorista, ao alvejar pontos de alta significação simbólica do poder norte-americano, atingiu o orgulho e a segurança da nação, sem falar no massacre de milhares de inocentes.

Se se leva em conta que, depois disso, Bin Laden aparecia com certa frequência na televisão do país formulando novas ameaças, o resultado inevitável era, no povo, o pavor de que, a qualquer momento e em qualquer lugar, o terror o atingisse de novo e, no presidente, a necessidade de por fim àquilo, ou seja, devolver ao país, a qualquer preço, a tranquilidade e a autoestima.

Consegui-lo era uma missão irrevogável e o tornaria o salvador da pátria. Bush, apesar de todo o empenho, não o conseguiu.

Obama, ao ser informado de que o esconderijo do inimigo número um da nação fora descoberto, não hesitou, diante da oportunidade que a história lhe oferecia. A informação de que Bin Laden fora localizado era uma possibilidade, mas não uma certeza. No entanto, qualquer que fosse o risco a correr, desistir estava fora de cogitação.

Por isso, o passo seguinte foi assegurar o modo de chegar até a casa-fortaleza e cumprir a missão.

Pensaram em simplesmente lançar um foguete sobre o esconderijo e destruí-lo. Isso não apenas mataria indiscriminadamente quem ali estivesse, como tornaria difícil comprovar que Osama bin Laden fora eliminado. Venceu a proposta de invadir a casa.

Isso posto, passou-se aos meios de que se valeriam e à discussão de um problema político: deviam realizar uma ação militar em território do Paquistão sem a permissão de seu governo?

Obama diria, mais tarde, ao anunciar o fato, que obtivera a permissão do governo paquistanês, o que depois foi negado. De qualquer modo, jamais revelaria o objetivo de tal missão, que não revelou nem para sua mulher.

A possibilidade de vazamento de tão decisiva tarefa aconselhava total sigilo. Se tal possibilidade está presente em toda e qualquer circunstância, ninguém em sã consciência se arriscaria a confiar no governo paquistanês, infiltrado de aliados da Al Qaeda.
B
astava o fato de que Bin Laden ali se instalara e vivia, sem ser incomodado, nas vizinhanças de um quartel do Exército e a poucos quilômetros da capital do país.

Quem quer que tivesse por missão dar fim a Bin Laden jamais revelaria qualquer coisa às autoridades do Paquistão. Assim fizeram os norte-americanos e atingiram seu objetivo.

Foi, na verdade, um ajuste de contas, porque o terrorismo de Al Qaeda nunca significou uma possibilidade de mudança no equilíbrio de poder no mundo, uma vez que se trata muito mais de uma seita de fanáticos, movidos pelo propósito de impor à humanidade uma visão fundamentalista do islamismo.

Sem base territorial, sem Exército, tudo o que pode fazer é tramar e executar atentados contra o "inimigo": os países capitalistas ocidentais e, especialmente, o mais poderoso deles, os Estados Unidos.

Falando à Globonews, o jornalista inglês Robert Fisk, que entrevistara Bin Laden três vezes, antes e depois do 11 de Setembro, nos deu uma imagem bastante verossímil dele: vaidoso, convencido da missão de impor ao mundo a vontade de Maomé, atribuía-se o feito de ter destruído a União Soviética e a certeza de que faria o mesmo com o império norte-americano.

Vivendo desligado do que se passava no mundo, não se dava conta da complexidade da realidade internacional, chegando a afirmar que em breve haveria uma revolta do povo americano que acabaria com o regime capitalista nos Estados Unidos.

Para que isso acontecesse, bastaria consumar os atentados que planejava. Não se dava conta de que os golpes eventuais do terrorismo, por mais audaciosos que fossem, não teriam a capacidade de alterar a correlação de forças econômica, política e militar em escala mundial.

A conclusão inevitável a que se chega é que a morte de Bin Laden tem limitadas consequências práticas, como, aliás, o próprio terrorismo, particularmente agora, quando os povos árabes se levantam clamando por democracia.

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Neymar vai ter gansinho!

E o Neymar vai ser papai! Diz que ele engravidou a menina porque não deu aquela paradinha. Rarará!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Direto do País da Piada Pronta: "Lula dá palestra na Ambev". Na Ambev? Então não foi palestra, foi degustação! E ele fez permuta? Recebeu em espécie? Diz que ganhou R$ 200 mil. Líquido! Rarará!

E esta do Jornal da Cidade de Bauru: "Descoberta! Planta do cerrado cura úlcera e até câncer". Como é o nome da planta? Pau de tucano.

Por isso que o Serra só fala em saúde. Pau de tucano pode curar úlcera. Mas um tucano inteiro DÁ úlcera! E aqui em São Paulo a gente leva pau de tucano desde os tempos do Covas. Rarará!

E o Flamengo agora está com dois times: um pra jogar no Rio e outro pra jogar fora. E o Dentinho vai pra Ucrânia! Só que lá não tem Mulher Samambaia. Tem Mulher Gelo. E Mulher Gelo é bom porque derrete à toa!

E em homenagem às pessoas diferenciadas, o estádio do Corinthians vai se chamar Diferenciadão! E a estrela da semana: PALOFI! Com aquela cara de Nhá Barbina! Aumentou 20 vezes o patrimônio em quatro anos.

E comprou um apê de R$ 6,6 milhões! Ministro da Mansão Civil! Muda o nome pra Palácio. Antonio Palácio! Ou então Jesus: o milagre da multiplicação.

"Senhor Jesus, acabou o peixe e o pão." E o Jesus: "Peraí que eu dou um jeito, PALOOOOFI". Rarará! Multiplica aí! E adorei a defesa dele. Se defendeu com muita propriedade.

E a manchete do "Piauí Herald": "Palocci aumentou em dez vezes a língua presa". Não consegue mais falar nem obséquio e nem estetoscópio. "Por obféquio, me pafa o esfefoscópio." E quando ele fala Sudam e Sudene? Fudam e Fudene. Nova dupla sertaneja. Fudam e Fudene! Rarará!

Agora ele tá com a língua e o rabo plesos! O Palofi tem a língua plesa e a Dilma, língua de sogra! Rarará!

E o Neymar vai ser papai! Com aquele topete vassoura de churrasqueira. Ele parece o seu Galeão Cumbica. Da "Escolinha do Professor Raimundo"!

Diz que ele engravidou a menina porque não deu aquela paradinha. Rarará! Engravidou a menina porque não sabe usar o ganso!

E o diretor do FMI? Preso por agressão sexual. Sacanagem é com o FMI mesmo! E a ex-amante que se chama Piroska? Piroska Nagy!

Ele se chama Kahn. Muda o nome pra Krau. Krau na piroska, krau na camareira, krau no Terceiro Mundo e se cansou de dar krau no Fernando Henrique Boca de Suvaco!

Como diz o chargista Duke: "FMI agora é Fornicar Mulher Ilegalmente!" Rarará!

Nóis sofre, mas nóis goza.

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

CLÓVIS ROSSI

Quem comprou Palocci?

SÃO PAULO - Tratemos as coisas pelos nomes próprios: o caso Palocci é uma operação de compra e venda. Ponto.
O próprio ministro confessa o lado "venda", ao dizer na nota divulgada por sua assessoria que a experiência ("única") no Ministério da Fazenda lhe acrescentara "valor de mercado".

São mais que justas e necessárias as cobranças para que preste os esclarecimentos devidos. Mais justa -e mais importante- foi a cobrança de Fernando Rodrigues de que a presidente Dilma Rousseff apresente projeto para eliminar o que Fernando chama elegantemente de "vácuo institucional", mas que é esculhambação pura e simples.

Refere-se ao duplo emprego de parlamentares, em especial dos que se dedicam ao negócio de compra e venda (consultorias).
R
esta apenas apontar o dedo para quem "comprou" Palocci, o que a leitora Cléa M. Corrêa fez à perfeição no "Painel do Leitor" de ontem: "O importante não é saber quanto Palocci enriqueceu com sua empresa de consultoria, mas saber quanto as empresas, seus clientes, enriqueceram com negócios ligados ao governo".

Bingo. Repito o que escrevi quinta-feira: trata-se evidentemente de um caso clássico de tráfico de influência. Palocci pode até não tê-lo praticado, mas que as empresas queriam usar os contatos dele no governo para obter facilidades e/ou negócios, só o mais tolo dos tolos pode duvidar.

Então, se é justo cobrar de Palocci que explique a quem se vendeu (ou vendeu seus serviços), é igualmente justo cobrar dos compradores que venham a público dizer a razão pela qual o compraram.

Seria um exercício prático de "responsabilidade social", expressão que enche páginas e páginas de relatórios anuais em papel finíssimo. Ou os compradores da consultoria nem fingem ter "responsabilidade social"?

crossi@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Quem cala consente

BRASÍLIA - A semana passada acabou mal e esta começa pior ainda para um governo que nem completou o seu primeiro semestre. Antonio Palocci passou de homem-chave para homem-bomba.
Os R$ 7,5 milhões da sede da Projeto e do apartamento passaram a R$ 20 milhões amealhados no ano eleitoral de 2010, metade depois de Dilma eleita e Palocci já liderando a transição e exalando poder.

Ou seja, acrescentem-se mais três perguntas a tantas sem resposta. Palocci trabalha para o Estado ou para o grande capital? Onde foram parar os R$ 12,5 milhões? Tem mais voando por aí?

Palocci quebrou o sigilo do caseiro por causa de R$ 24 mil, mas não se sente no dever de explicar seus milhões. E ele é o principal ministro no principal cargo do governo. Nem sempre as duas coisas se confundem, mas Palocci é o centro da negociação política e chefia a Casa Civil, motor da engrenagem burocrática. Ao atingi-lo, as revelações atingem o núcleo do poder.

O falante Lula calou. Dilma muda estava, muda continuou. E, em vez da política e da administração, concentrou-se no escândalo. Chamou Palocci, Gilberto Carvalho e José Eduardo Cardozo, trouxe de volta Franklin Martins, o homem da comunicação pauleira da era Lula, e já deve ter acionado Márcio Thomaz Bastos.

Ela sentiu o baque. O problema não é a oposição -que tem divisões internas a mais e bancadas de menos- e sim o estrago na imagem do governo e nos fiapos de ética no discurso petista. Palocci e José Dirceu, o braço direito e o braço esquerdo do início de Lula, abriram um clube de milionários.

Lula vem a Brasília nesta semana, com o fantasma da CPI rondando, Palocci sem explicar o inexplicável, a votação do Código Florestal prevista para terça, Dilma saindo de uma pneumonia dupla e entrando numa guerra sem as armas do antecessor. Ela precisa agir e falar. Quem cala consente.

elianec@uol.com.br

sábado, 21 de maio de 2011



22 de maio de 2011 | N° 16707
ARTIGO | SIMON JOHNSON


ARROGÂNCIA E AUTORIDADE


É cada vez mais comum ouvir proeminentes banqueiros europeus e americanos declararem, a respeito da crise de 2008-2010, o seguinte veredito: fizemos bem. Sua visão é de que as várias ações governamentais para apoiar o sistema financeiros contribuíram para estabilizar a situação.

Mas enquadrar a questão dessa maneira é, na melhor das hipóteses, cair em delírio. Na pior, porém, significa criar uma imagem de arrogância que pode apenas minar a credibilidade na qual a autoridade dos bancos centrais repousa.

O custo real da crise não é medido pelo lucro e perda de qualquer banco central. O custo é de 8 milhões de empregos somente nos Estados Unidos, com a taxa de emprego caindo 6% em seu pico e – uma diferença fundamental de outras recessões pós-1945 – permanecendo 5% abaixo desse pico atualmente.

O custo é também de aumento da dívida líquida do governo federal em poder do setor privado. Comparando-se as previsões do Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA (CBO, na sigla em inglês) em médio prazo, antes (em janeiro de 2008) e depois da crise, esse aumento da dívida significa 40% do PIB.

A razão de existir uma percepção de crise fiscal nos EUA é simples: os bancos entraram em colapso com um grande custo para o povo americano, com grandes implicações globais negativas.

Muito do aumento da dívida pública nos EUA e em outros lugares não ocorre devido a qualquer tipo de estímulo fiscal discricionário. Ocorre, na verdade, devido à perda de receitas fiscais resultante de uma profunda recessão. Finalmente, o custo da crise é de milhões de casas perdidas e vidas danificadas.

A questão não é se o Fed, ou qualquer outro banco central, deveria buscar a prevenção de colapso do sistema bancário de seu país. De maneira mais ampla, como Dennis Lockhart, presidente do Federal Reserve de Atlanta, disse na semana passada em uma conferência pública organizada por sua instituição, não deveríamos tentar operar um sistema baseado no princípio de “ganhos privados e perdas públicas”.

Os ganhos privados podem ser medidos na forma de remuneração de executivos. De 2000 a 2008, aqueles que dirigiam as 14 maiores instituições financeiras nos EUA receberam compensação em dinheiro (salário, bônus e o valor das ações vendidas) de cerca de US$ 2,6 bilhões.

Dessa quantia, cerca de US$ 2 bilhões foram recebidos pelos cinco indivíduos mais bem pagos, que foram essenciais para a criação das estruturas de ativos de alto risco responsáveis por levar o sistema financeiro à beira do abismo. As perdas públicas, em comparação, são enormes: cerca de US$ 6 trilhões, se nos limitarmos apenas ao aumento na dívida pública federal.

Há muitas vantagens em ter um banco central independente comandado por profissionais que conseguem manter distância dos políticos. Mas, quando as pessoas no topo dessas instituições insistem em que a resposta à crise deu certo e que tudo vai ficar bem, mesmo quando os monstros financeiros responsáveis pela crise continuam em movimento, sua credibilidade sofre.

A Constituição americana não garante a independência do Fed. O Congresso criou o Fed, o que significa que pode acabar com o Fed. Ao assumir que o dano de que os megabancos altamente alavancados são capazes está longe, o mito de uma “crise boa” apenas torna a pressão política sobre os bancos centrais mais provável.

Simon Johnson, ex-chefe de economia do FMI, é professor do MIT Sloan e pesquisador sênior do Instituto Peterson para Economia Internacional

Tradução: Guilherme Justino


22 de maio de 2011 | N° 16707
VERISSIMO

Pacóvio

Há uma tese de que se pode saber tudo sobre uma pessoa pelo que ela escolhe para tocar no seu celular

– Cretino!

Foi o fim de uma conversa áspera da moça pelo seu telefone celular. Depois daquele “cretino!”, dito com aquela força, era de se esperar que a moça jogasse o celular longe, como se estivesse jogando fora o próprio cretino. Mas não. Ela apenas desligou o celular e colocou ao lado da sua xícara de café (ou seria chá?), na mesa. O homem da mesa ao lado certificou-se de que ela estava calma, e não despejaria todo o seu ódio, que pela conversa no celular parecia incluir toda a humanidade, sobre sua cabeça, e comentou:

– Palavra curiosa, né? – O quê?

– Cretino. – Por quê?

– Eu sempre pensei que tivesse alguma coisa a ver com Creta.

– Concreta? – Não. Creta. A ilha de Creta. Cretino seria alguém de Creta. Que por alguma razão teria a fama de produzir idiotas.

– E não é? – Não. Fui ver no dicionário. Cretino é quem sofre de cretinismo, uma condição decorrente de problemas na tireóide.

– Não é o caso do meu cretino.

– Eu desconfiei que não era. No dicionário diz que “cretino” também é sinônimo de lorpa, pacóvio...

O telefone tocou. Vivaldi. Ela atendeu rispidamente.

– Quié? Ouviu por alguns minutos, de cara feia. E ela era linda. Depois disse:

- Sabe o que você é? Um lorpa. Qual é o outro?

– Pacóvio – disse o homem.

- Um pacóvio. Nunca vi um pacóvio igual. O quê? Não, não estou com ninguém. Estou tomando um cappuccino sozinha, pensando em como pude perder meu tempo com um pacóvio como você. Por favor, não me ligue mais.

Ela desligou o telefone. Sorrindo. Ele perguntou:

– Marido? – Deus me livre. – Namorado? – Não é mais.

– Posso lhe pagar outro cappuccino? Mais tarde, já na cama, ela distraída, ele perguntou se ela estava pensando no namorado.

– Não, não. Acabou. – O que foi que ele fez, afinal?

- Nada. Pacovice geral. Na verdade, não nos entendemos desde o inicio. Ele é bonito. Mas sabe aquele tipo que tem o bíceps na cabeça? É ele. Não podia dar certo.

– Ainda mais com o Vivaldi. – Como, Vivaldi?

– É o que toca no seu celular. Vivaldi. Uma das quatro estações. Tenho uma tese de que se pode saber tudo sobre uma pessoa pelo que ela escolhe para tocar no seu celular. Uma vez rompi o namoro com uma mulher quando descobri que o celular dela tocava Wagner. Achei que seria perigoso. Já uma mulher que escolhe Vivaldi...

- Não é para qualquer cretino. - Definitivamente não.


22 de maio de 2011 | N° 16707
PAULO SANT’ANA


A desistência

Eu já sabia que minha vida seria inseparável do entusiasmo.

Eu já sabia que, no dia em que cessasse o meu entusiasmo, minha vida cessaria.

Então, por que agora estranho esse declínio, se não consigo me reconciliar com o entusiasmo?

Não se diga que o entusiasmo é só próprio da juventude.

Não. O entusiasmo é próprio dos que têm uma causa para defender. É imprescindível a causa para poder viver.

Dormir à noite com entusiasmo, acordar pela manhã movido pelo entusiasmo, só isso é que é viver.

Pode-se até durante o dia fazer coisas que não sejam ligadas ao entusiasmo, mas sabe-se que ele está incluso na gente e logo em seguida se tratará dele e viveremos incendiados por ele.

O contrário absoluto do entusiasmo é o tédio. E a ameaça terrível que contém o tédio é a desistência.

A desistência é uma tentação, não existe nada mais tentador para quem esteja dominado pelo tédio que a desistência.

A desistência ameaça perpetrar-se quando um a um vão se somando os fracassos.

Quando vão se fechando todas as portas, surge a desistência como uma hipótese de solução.

Quem sou eu para condenar os desistentes? Quem sou eu para pregar a insistência, depois que uma vida cansa de bater nos rochedos rudes?

Há que se buscar forças que se pensou que não se tinha para evitar a desistência.

A vida nada mais é do que o destino nos testando para sabermos que recursos ainda temos para evitar a desistência.

Como faz falta a alegria e seu companheiro inseparável, o entusiasmo.

Voltando ao tédio, esse rato que rói a estrutura.

O tédio nada mais é do que a tristeza permanente, a que insiste durante dias, a tristeza que se encurrala e em desespero não encontra saída para o impasse.

A tristeza é atraída pelo ímã do tédio. E, quando os dois se encontram, celebram a depressão.

A depressão é o tédio sem cura, é preciso reunir muita energia para lutar contra esses dois terríveis inimigos.

E é preciso que nessa hora de tremendo abandono a vítima da tristeza, do tédio e da depressão conte com a ajuda de outras pessoas.

Eu até arrisco dizer que, sozinho, quem vê desfalecidas as suas forças pela tristeza, pelo tédio e pela depressão desiste de lutar.

É preciso uma palavra amiga, um conselho, uma conversa, um amparo.

Não deixem nunca uma pessoa atacada pelo tédio sozinha.

Socorram-na, ela pode estar à beira do abismo, que é a desistência.


22 de maio de 2011 | N° 16707
DAVID COIMBRA


O jeito certo é o jeito certo

Você vai a uma vila de qualquer cidade brasileira e ouve uma mãe chamando:

– Wescley, Wellington, Jennifer, Suellen e Pâmela: já pra casa!

São ipsilones, dáblios e eles duplos às catadupas, isso para não citar os vários tipos de Maicons (o mal que Michael Jackson fez ao Brasil ainda será devidamente apurado). Por que essa paixão pelo anglicismo? Porque o pobre acha que o nome em inglês é coisa sofisticada. Coisa de rico.

Aí o rico, o que ele faz? Bota no filho o nome mais ortodoxo possível, um nome que, na década de 70, seria da avó: Maria Carolina, Antonieta, Antônio Pedro, Carlota, João.

O pobre gostaria de ser rico. O pobre não quer ter um Fusca 77; quer a BMW do ano. O pobre não quer morar na vila; quer uma cobertura no Moinhos de Vento. Significa que ele despreza seu Fusca ou sua casinha? Não. Ele valoriza um e outra. Afinal, é o que tem. Mas ele preferia ter algo melhor.

Sou neto de sapateiro, já contei. Meu avô não estudou. Aprendeu a ler e a escrever sozinho. Lia muito e valorizava a cultura. Escrevia errado, e se envergonhava disso. Às vezes, apontando para o radinho de pilha sobre sua mesa de trabalho, suspirava:

– David, ouve só o Cândido Norberto e o Mendes Ribeiro falando. Presta atenção: como eles falam bem, como falam certo. Que bonito isso. A gente tem que se esforçar para falar certo.

Meu avô admirava um conhecimento que ele não tinha.

É melhor ser rico, bonito e com saúde do que pobre, feio e doente. Óbvio. Mas nem todo mundo pensa assim. Li, na Zero Hora de quinta-feira, a doutora em linguística Ana Maria Stahl Zilles defender, em entrevista, o livro do MEC que ensina a falar errado. Para ela, o livro não ensina a falar errado. Diz a doutora sobre o livro: “Faz a distinção entre a variedade popular e a variedade culta, e mostra que elas têm sistemas de concordâncias diferentes. Eles dizem que na variedade popular basta que o primeiro termo esteja no plural para indicar mais de um referente.

Quando os autores explicam que é possível falar ‘os peixe’, não estão querendo dizer que esse é o certo, nem vão ensinar a pessoa a escrever errado. Isso é como as pessoas já falam”. Mais adiante a doutora observa: “Se um professor diz para um aluno que o modo que ele, os pais dele e os amigos dele falam está errado, ele vai se sentir entre dois mundos”.

Cultivo a sólida certeza de que a professora Ana Maria é competente e culta, mas talvez haja algo que ela não saiba. É o seguinte: as pessoas NÃO QUEREM falar errado. Elas NÃO GOSTAM de falar errado. Elas TÊM VERGONHA de falar errado. Mesmo, e principalmente, os pobres. Os pobres QUERIAM MUITO que lhes fosse ensinado como falar corretamente. E outra: os pobres JÁ SABEM que estão entre dois mundos.

Ah, sim, a língua é dinâmica e muito do que hoje é certo amanhã não será. Há o que caia em desuso – ninguém mais escreve destarte e outrossim porque ninguém mais fala destarte e outrossim. Há o que se consagre pelo uso – as pessoas já estão escrevendo “se diria” porque todos falam “se diria”; ninguém fala “dir-se-ia”. Um dia, viveremos num mundo sem mesóclises.

Mas essas mudanças ocorrem lentamente e são absorvidas ainda mais lentamente pela língua padrão. Primeiro, se consagram na língua falada. Depois, aos poucos, são reproduzidas pela língua escrita. Só então, quando já se tornaram de uso corrente, é que aparecem em um livro didático, como esse ERRADO do MEC.

Duvido que alguém minimamente letrado não se sinta levando um soco no ouvido ao ler “os peixe”. Algum gaiato há de lembrar que Lula fala “os peixe” e é popular. Mas, creia, Lula é popular apesar de falar “os peixe” e não por causa de. Repito: o pobre não quer ser ignorante.

Quando o pobre, o rico, o remediado, quando qualquer pessoa passa pela escola, quando ela aprende e lê e se informa, ela cresce espiritualmente. Ela se transforma. Ela repudia a ignorância e a grosseria. Repudia, por exemplo, o racismo em qualquer parte, inclusive nos estádios de futebol. Ela se arrepia quando alguém escreve ou fala errado. Porque, mais do que os doutores, ela sabe como é ruim não saber.


21 de maio de 2011 | N° 16706
NILSON SOUZA


O começo do fim

Se você é uma boa alma, prepare-se para subir aos céus neste sábado. De acordo com a interpretação da Bíblia feita pelo movimento norte-americano Family Radio, o fim do mundo começa neste dia 21 de maio de 2011 e se estende até 21 de outubro próximo, quando ocorrerá o epílogo do fim – se é que me permitem a redundância.

A previsão é de um engenheiro civil de 89 anos chamado Harold Camping, líder de uma seita que reúne centenas de norte-americanos. Ele garante que os bons serão chamados hoje e os outros ficarão por aqui até outubro, mas passarão por um período de grandes tormentos. Como tem gente que leva a sério o que o homem diz, não vou debochar – mas já vou adiantando neste texto escrito com três dias de antecedência que prefiro ficar mais um pouco neste planetinha atormentado.

E um dos nossos tormentos tem sido exatamente as previsões apocalípticas que – felizmente – nunca se confirmam. Os profetas da catástrofe que tiram suas ideias destrutivas de textos religiosos já são vistos com desdém, mas, cada vez que um asteroide ronda a Terra, todos ficamos apreensivos.

Em 1910, parte da humanidade tremeu de medo quando o nosso planeta passou perto do cometa de Halley. Anos antes, um astrônomo anunciara que a cauda dos cometas desprendia um gás tóxico, capaz de envenenar toda a população. Mas o cometa passou e não deixou nem cheiro.

A profecia de Nostradamus, que anunciava a chegada de um “rei do terror” no sétimo mês de 1999, também causou um certo pânico, mas não deu em nada. Eu tinha um medo infantil do ano 2000. Passei a infância ouvindo meus pais repetirem uma sentença alarmista que provavelmente ouviram dos meus avós e estes dos bisavós.

“Mil passará, mas a dois mil não chegará.” Tratava-se, vim a descobrir depois, do chamado milenarismo, também baseado em interpretações religiosas de que o mundo resistiria apenas ao primeiro milênio. Para não dizer que nada aconteceu, a previsão rendeu uma marchinha de Carnaval nesta terra de descrentes.

Tem gente que acredita ter havido um risco real, causado pela tecnologia, embora me pareça muito mais uma dessas teorias da conspiração que também atormentam os nossos dias. Dizia-se que os computadores emperrariam na virada do ano 2000 e que isso causaria uma catástrofe nuclear, pois os artefatos atômicos seriam acionados automaticamente pelo colapso eletrônico. Tudo alarme falso.

Pois hoje tem de novo. O curioso é que o homem da seita fala em céus, assim no plural, abrindo uma perspectiva de escolha para as boas almas. Fica um pouco mais atraente, mas não mudo de ideia: prefiro ficar.

Se você também prefere, nos vemos amanhã, depois do Apocalipse.


21 de maio de 2011 | N° 16706
PAULO SANT’ANA

Guri irresponsável

Quando eu era guri e soltava pandorgas, nem passava pela minha cabeça o que seria de mim, o que iria me acontecer neste mistério fantástico da vida.

Não tinha medo. Eu apenas vivia, extasiado pela vida, sem me importar com o sentido de viver.

Quando eu era guri e soltava pandorgas, não sabia que a vida se dividia entre sofrimentos e venturas.

Talvez pensasse até que a vida se resumisse só à infância, que a gente passasse aqui como um anjo, flanando, sem os percalços sérios das vicissitudes.

Quando eu era menino e soltava pandorgas, não me importava andar só. Até acho que me empenhava em estar só, isto é, não conseguia compreender o que entenderia mais tarde: que a solidão tem um punhal afiado que fere fundo.

Nada disso. Eu só queria soltar pandorgas e jogar bola de gude.

Eu só queria derrubar com uma vara de bambu as cachopas de marimbondos que se dependuravam nos beirais das casas, desfolhando depois aquele papel machê à procura de mel.

Quando eu era guri e soltava pandorgas, todas as manhãs quando eu me acordava, saltava da cama preparado para as surpresas da vida, não sabia que haveria competição, sequer cogitava da luta pela vida, pensava que tudo era um encanto e não haveria pesadelos.

Desfrutava da saúde como um bem perene, não passava pela minha cabeça que um dia a saúde enfraquece e a gente tromba com seu tratamento.

Quando eu era menino e soltava pandorgas e jogava bolinha de gude, não tinha ideia de que eu integrava uma família e dia haveria em que eu iria formar a minha própria família.

Quando eu era menino e jogava taco com casinha derrubada, era um tempo bom, sem apreensões, que só se tisnou a partir do dia em que comecei a me preocupar com o futuro, com a carreira, com o orçamento, com a previdência.

Eu até penso hoje que a gente tem boas recordações da infância porque quando se é criança não se tem nenhuma responsabilidade.

O homem deixa um pouco de ser feliz quando se torna responsável. É aí que ele percebe que tem de prestar contas.

Quando menino, a gente não tem encargos, a vida é grátis e nem se imagina que um dia ela vai apresentar as prestações para serem pagas.

Vê-se agora que seria bom voltar àquele tempo de criança quando a gente só brincava.

E, se por acaso se precisasse de alguma coisa, ela nos era alcançada.

Hoje, não, quando a gente precisa de alguma coisa, é a gente que tem de dar um jeito.

E é muito difícil dar um jeito na solidão.


21 de maio de 2011 | N° 16706
ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES


O gado no Rio Grande do Sul

O primeiro animal que o homem domesticou foi o cachorro, osegundo foi o porco, o terceiro foi o boi, a partir de várias espécies selvagens. O quarto seria o cavalo – sem falar nas aves, como os galináceos. O boi foi sempre animal de tração e fornecedor de carne.

Em 1534, Martin Afonso de Souza trouxe à capitania de São Vicente touros e vacas cuja descendência será contrabandeada para o Paraguai e, em 1634, virá para o Rio Grande do Sul trazida pelo padre jesuíta Cristobal de Mendoza.

Nas pastagens do pampa, se reproduziam com facilidade, formando extensos rebanhos, os quais terminaram atraindo a atenção dos mercados manufatureiros na Europa Central, dependentes do couro e da graxa vacuns. Barcos e frotas sob as ordens de reis ou de piratas entravam pelo Rio da Prata em busca desse produto. Ficaram famosas as Vacarias do Mar, cujo epicentro era a Colônia portuguesa do Santíssimo Sacramento.

Os homens que iam caçar o gado para extrair-lhe couro e sebo eram aventureiros espanhóis ou portugueses, que “vieram fazer a América”, muitas vezes prófugas da justiça do Rei, desertores da marinha e do exército, mas sempre homens de coragem e decisão, habituados ao uso das armas.

Qual o gado que os jesuítas introduziram no Rio Grande? De remota origem portuguesa, descendentes dos que Martim Afonso de Souza trouxera. Chamado de gado crioulo (cria da terra), também de “colonão”, por se acreditar que era originário da Colônia do Sacramento.

Importante é frisar que a economia dos povos missioneiros não era baseada no gado, mas na erva-mate. O gado só interessava para alimentação dos índios, os quais, segundo o padre Sepp, eram de uma voracidade incrível! Mas o jesuíta foi o criador da estância gaúcha quando se deu conta de que precisava disciplinar a criação do gado, treinando índios campeiros, que chamavam vaqueros.

Estabelecidas naturalmente, as Vacarias do Mar abrangiam toda a metade inferior do Rio Grande do Sul e boa parte do território uruguaio. Esses caçadores de gado (lagunistas, colonistas, índios missioneiros, minuanos, correntinos, santafesinos, desertores, fugitivos, aventureiros) serão os primitivos gaúchos.

O nome do jesuíta que trouxe o gado para este lado do rio Uruguai era Cristobal de Mendoza Orellana. Gado, em espanhol, é palavra feminina: hacienda. Esse primeiro gado era hacienda orellana, animais sem marca. Em português, gado é palavra masculina. Os animais sem marca passaram a ser entre nós, até hoje, gado orelhano.

Para lagunenses e colonistas, o gado vai ser uma enorme riqueza. Quando os bandeirantes expulsaram os jesuítas, em 1641, estes não puderem levar os imensos rebanhos, e os animais reproduziram-se no pampa de tal modo que os primeiros caçadores falavam em “mar de guampas”. Para caçá-los, foi necessário surgir um homem forte, que dominasse o cavalo, sem medo da distância, da solidão, do inimigo castelhano, dos índios hostis e até das feras, como onças e cachorros chimarrões.

Ou seja, o gado vai ser o grande responsável pelo surgimento do gaúcho no pampa americano. Não em todo ele, exatamente, mas nas Vacarias do Mar.