sábado, 5 de novembro de 2022


05 DE NOVEMBRO DE 2022
MARCELO RECH

As lições do RS

Embora os olhares do Brasil estivessem pregados nas eleições presidenciais, o Rio Grande do Sul finalmente voltou a fazer jus a sua tradição política de ter algo a ensinar ao país. Eduardo Leite quebrou a escrita de que governadores não se reelegem no Rio Grande do Sul ao governar, pela primeira vez em décadas, como quem, de fato, não pretendia se candidatar à reeleição.

Não é segredo que, durante seu primeiro mandato, os olhares de Leite se voltavam para o Planalto. Por isso, diferentemente de todos os antecessores, enfrentou menos resistência na Assembleia, onde uma constelação de partidos se movimenta ao compasso das futuras pretensões do governador de turno. Com apoio parlamentar, Leite recusou-se a se tornar refém das corporações que aprisionavam há décadas as contas públicas e aprovou uma batelada de projetos reformadores, que foram da reforma da previdência à privatização da CEEE.

Leite desviou-se da máquina de moer governadores porque fez boa parte do que tinha de ser feito há muito tempo. Como não tinha planos de se reeleger, feriu interesses impregnados na máquina estatal e ressuscitou o erário, quitando dívidas históricas, pagando o funcionalismo em dia e voltando a investir em obras públicas. Ao remar contra a corrente populista, da qual jorram promessas fáceis e cofres raspados, colheu resultados que mexem na vida da maioria. O recado final das urnas? Contrariar corporações, e fazê-lo com diálogo e argumentos, dá voto.

A maturidade do eleitorado gaúcho também se consubstanciou em duas outras combinações surpreendentes no segundo turno. De um lado, houve a rejeição a um candidato que envergou o figurino de direita populista ao prometer distribuir dinheiro que não teria e a reverter privatizações já encaminhadas, como a da Corsan. De outro lado, houve o endosso da esquerda a um candidato que segue a agenda liberal, em um movimento no qual se sobressaiu uma nova liderança política, Edegar Pretto, que já tinha dado mostras de ponderação e diálogo na presidência da Assembleia.

Onyx Lorenzoni, como já amplamente analisado, fez uma campanha vazia de soluções e permeada de sandices, como a das vacinas, que ecoam nos convertidos, mas que assustaram o eleitorado indeciso. Ironicamente, o melhor momento da campanha de Onyx foi na sua derrota, quando ele, democrática e diferentemente de Jair Bolsonaro, reconheceu a vitória do adversário. Com mais representantes deste trio - esquerda, centro e direita divergentes mas civilizados -, quem sabe o Rio Grande do Sul não continua a dar lições ao Brasil de que o melhor caminho será sempre o de chegar a denominadores comuns a favor da democracia e da maioria da população?

MARCELO RECH

05 DE NOVEMBRO DE 2022
CHAMOU ATENÇÃO

Afinal, onde está a Mel?

Denunciar, discutir e dar visibilidade ao abandono de animais. A lista de propósitos integra um jogo criado por estudantes da Universidade Feevale, de Novo Hamburgo, no Vale do Sinos: Onde Está Mel?, que simula situações enfrentadas por uma gata que foi dada de presente, ainda filhote, à filha de um casal. Quando cresce, a família perde o interesse no bichinho e ela acaba nas ruas, dentro de um saco preto, como se fosse um objeto descartável.

- A ideia é impactar, mostrar o que acontece com o bichinho da porta pra fora. Eu conheci gente que jogou e ficou triste. Mas tenho certeza de que nunca vai abandonar um animal - afirma Francisco Sampaio, 24 anos, programador do game.

O processo de desenvolvimento da plataforma ocorreu dentro do campus, no curso de Jogos Digitais. O jogador controla o pet em todas as situações, desde a convivência na casa onde estava acolhido, passando por dificuldades em busca de um abrigo, em busca de comida ou fugindo da carrocinha. Cenário 3D, gráficos e os movimentos de câmera, de fato, impactam, como previu a turma: a gata se espreguiça, dorme enrolada e tem os hábitos muito parecidos com os dos felinos de carne e osso.

- Na rua, ela tem dois filhotinhos, o que mostra ainda mais para quem adota a responsabilidade de não abandonar - complementa o programador.

Reconhecimento

O trabalho dos alunos chamou tamanha atenção que foi indicado ao SBGames 2022, evento nacional que premia as melhores iniciativas de entretenimento digital. Onde Está Mel? chegou à final da competição.

Desenvolver projetos que contribuam com a comunidade é uma das premissas do currículo, garante o professor Eduardo Müller, coordenador do curso.

- Acho importante mostrar o quanto nosso trabalho, como desenvolvedores de jogos criativos e contadores de história, consiga trabalhar com um projeto que possa ajudar outras pessoas e, por que não, os animais - explica.

O jogo contou ainda com arte gráfica de Wellington Moreira e desenvolvimento de Grégori Petry.

TIAGO BOFF

sexta-feira, 4 de novembro de 2022


04 DE NOVEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Lá vem a carrocinha

Não podíamos ficar longe de nosso cachorro na calçada. Não só pelo receio de que ele fosse atropelado ou fugisse. Havia a assombração da carrocinha. Funcionários do canil municipal, fardados e de boné, com uma puçá gigante, rede para caçar borboletas, levavam embora os cães abandonados pela cidade.

Não sei se essa descrição confere com a realidade, mas eu sofria com a lenda urbana. Era mais assustadora do que o Velho do Saco, que capturava crianças desobedientes, ou seja, crianças que não limpavam o prato, crianças que faziam birra em supermercado, crianças que gritavam na mesa.

Lembro-me da ameaça dos pais diante da nossa distração com os bichinhos na praça: - Olha que vem a carrocinha!

A carrocinha representava o presídio dos nossos animais, um lugar onde eles terminavam confinados em grades e viviam a amnésia penosa de suas famílias. Se ninguém os procurasse ou registrasse a sua ausência rapidamente, existia ainda o perigo de desaparecerem, virarem sabão amarelo (até hoje detesto aquelas barras do tanque) ou serem transferidos para alguma paragem remota.

A esquina tornava-se portal do misterioso e implacável recolhimento. Jamais olhávamos a conjunção das ruas de modo positivo. Meu cachorro não deveria permanecer sozinho por aí de modo nenhum, não poderia passear à toa, senão seria amarrado e posto num furgão com cela, e eu não o encontraria de novo.

Preparei coleira colorida para ele, com meu endereço e telefone. Dava banho todo dia para que não parecesse sujo e anônimo. Explicava o caminho de casa, largando ração no jardim para fixar o lugar. A carrocinha sitiou os meus pesadelos de pequeno. Eu suava frio, arregalava os olhos, engolia os pensamentos em silêncio aflitivo, porque os adultos diziam que o motorista não teria compaixão com a solidão canina.

Sofria com a paranoia dos caçadores diabólicos de mascotes pela madrugada. Observava quem abria o portão de casa para que logo fechasse. Eu me arrepiava com cada visita e a possibilidade da porta encostada.

Protegia meu vira-lata mais do que brincava com ele. Era uma outra educação, uma outra cultura naqueles anos de chumbo da ditadura: provocar respeito pelo medo. Temíamos os pais, temíamos ir para o inferno, temíamos a Deus, temíamos os prazeres, temíamos a liberdade, temíamos conversar alto na rua, temíamos a carrocinha.

Até obedecíamos. Mas temor nunca será amor, sempre é trauma.

CARPINEJAR

UMA UNIVERSIDADE QUE NÃO PARA

Em poucas semanas, a UFRGS recebeu dois novos reconhecimentos: do Times Higher Education, que nos confirmou como a melhor federal brasileira; e o prêmio Excelência em Pesquisa, do QS América Latina. Conquistas que se somam às mais de 20 obtidas em dois anos e nos colocam entre as instituições mais relevantes do mundo pela qualidade em ensino, pesquisa, extensão e inovação.

Resultados de uma universidade que não para: são mais de 8.000 disciplinas, 700 salas de aula, 32 bibliotecas e 500 laboratórios. Da graduação à pesquisa de ponta, numa comunidade acadêmica vibrante e de grande impacto econômico e social.

Em que pesem as dificuldades orçamentárias, atuamos intensamente por novos recursos e parcerias, aproveitando a expertise que possuímos. Em 2020, criamos uma pró-reitoria específica para inovação e cooperação com diferentes setores, fortalecendo a transferência de tecnologia entre universidade e empresas.

Na Aliança pela Inovação, com Unisinos e PUCRS, estamos na busca ativa de projetos que fortaleçam o desenvolvimento - e, nas próximas semanas, ampliaremos outras alianças na Serra. Tivemos ainda reuniões com dezenas de embaixadores, estreitando laços internacionais.Em 2022, iniciamos o Saúde com Agente, curso técnico com o Ministério da Saúde e secretarias municipais que formará 200 mil pessoas em todo o país.

Enviamos à Antártida um novo módulo do Criosfera, que ampliará as pesquisas sobre o clima e o ambiente. E atuamos para implementar o Infovia RS, que levará internet de alta velocidade a mais de 1.400 escolas públicas e 66 hospitais gaúchos.

Com uma gestão eficiente dos recursos, não apenas mitigamos os impactos dos desafios orçamentários, como também trazemos novas verbas para a universidade. Assim, asseguramos a continuidade de nosso trabalho, além de explorar nossas potencialidades para a sociedade.

Somos uma instituição plural, que envolve mais de 260 mil pessoas e tem a missão de contribuir para o Estado e o país. Estamos focados nos resultados, projetando um futuro melhor para quem aqui deposita seus sonhos e objetivos - e para construir uma sociedade mais justa e desenvolvida. Isso é o que nos move - e não vamos parar. 

Reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - CARLOS ANDRÉ BULHÕES MENDES

04 DE NOVEMBRO DE 2022
O PRAZER DAS PALAVRAS

Em prol

A pergunta vem de uma assistente social paulista que pede que eu não mencione seu nome nem a cidade de onde escreve. No e-mail, ela explica que prefere não ser identificada porque poderia expor o seu chefe direto a uma situação embaraçosa. Diz ela: "Prezado professor, trabalho num setor público que elabora pareceres sobre projetos apresentados por diversas ONGs. Sempre submeto meus textos ao chefe do setor, que os tem aprovado integralmente. Desta feita, porém, eu e ele tivemos uma divergência sobre um termo que empreguei. 

Avaliando a atuação positiva de uma dessas ONGs, escrevi que a "campanha feita em prol da vacinação infantil naquele bairro tinha sido muito efetiva". Ele me devolveu o parecer e me perguntou, gentilmente, se em vez de prol eu não deveria ter escrito pró - afinal, disse ele, não falamos o tempo todo em grupos anti e pró-vacinas? E aí? O que o senhor aconselha? Mudo ou deixo como está? O gozado é que eu usava prol instintivamente, mas depois que ele perguntou estou achando esta palavra muito esquisita mesmo".

Minha cara leitora, bem-vinda ao clube! Diziam os gregos que é deste súbito estranhamento, desta perplexidade diante das coisas que nasce todo o pensamento filosófico; eu me arrisco a dizer que, mutatis mutandis, isso também vale para a linguagem. Vivemos confortavelmente instalados no mundo das palavras, movendo-nos entre elas sem lhes prestar muita atenção - até o dia em que alguma coisa (a pergunta do teu chefe, por exemplo) dissipa esse véu da inocência e nos obriga a pensar...

Concordo contigo: vista de perto, prol é realmente um monossílabo bem esquisito. Ninguém sabe muito bem a sua origem; os dicionários mais prudentes preferem calar a propor explicações do arco da velha, como a que consta no Houaiss. O bom padre Bluteau, a quem cito sempre que posso, chega a dizer em 1728 que era "palavra antiquada" (embora mais tarde, como as pandorgas, os ventos do idioma tenham-na feito alçar voo mais uma vez). No início, era usada como um sinônimo de lucro, de proveito, como no antigo provérbio português "Quem não anda por frio e por sol não faz seu prol". 

Em seguida, também se tornou um adjetivo com o sentido de importante, destacado: "Seu primo Leandro Barbalho, do Ouricuri, homem de prol, a quem o filho não desmentiu nas obras" (José de Alencar) ou "Meu irmão, homem de prol, de respeito de quantos o conheciam" (Raquel de Queiroz). Por fim, ganhou novamente prestígio e passou a ser usado normalmente na expressão em prol de (em defesa de, para o benefício de, a favor de) - como fez Machado de Assis em Esaú e Jacó ("Sabes a conclusão do autor em prol da tese de que o homem é difícil de governar") e como tu mesma fizeste no parecer que mencionas.

O final feliz de toda essa discussão é que teu chefe também estava certo, à sua maneira. O prefixo pró-, antônimo de anti- ou de contra- (pró-americano/antiamericano, pró-sionista/antissionista), poderia também ser usado no tal parecer (pró- vacinação), mas a tua escolha foi melhor, já que, no caso, não havia uma relação antitética dos que são contra e dos que são a favor.

Não sei se reparaste, escondidinha em tua mensagem, outra dessas palavras estranhas que passam despercebidas: feita. Não se trata aqui do particípio feminino do verbo fazer ("a casa foi feita de pau a pique"), nem do adjetivo que significa completa, pronta (mulher feita), mas sim de um substantivo, usado em expressões idiomáticas de valor temporal, como certa feita, desta feita, daquela feita, etc., onde assume o significado de oportunidade ou de vez.

O PRAZER DAS PALAVRAS

04 DE NOVEMBRO DE 2022
PROTESTOS

Responsáveis serão apurados, diz Moraes

Presidente do TSE classificou bloqueios de estradas e pedidos de intervenção militar como atos "antidemocráticos e criminosos"

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, classificou como criminosos e antidemocráticos os manifestantes bolsonaristas que contestam o resultado das eleições por meio dos bloqueios de rodovias e que pedem intervenção militar em atos realizados em frente aos quartéis. Ele afirmou que a Justiça Eleitoral vai apurar os responsáveis por essas manifestações de viés golpista e os responsabilizará por crimes contra o Estado de direito.

- O segundo turno acabou democraticamente no domingo. O TSE proclamou o vencedor. O vencedor será diplomado até o dia 19 de dezembro e tomará posse dia 1º de janeiro. Isso é democracia, isso é alternância de poder, isso é Estado republicano. Não há como se contestar um resultado democraticamente divulgado com movimentos ilícitos, antidemocráticos, criminosos, que serão combatidos e os responsáveis apurados e responsabilizados sob a pena da lei. A democracia venceu novamente no Brasil - disse Moraes.

O ministro conduziu, ontem, a primeira sessão de julgamentos do TSE após a divulgações do resultado das eleições. Moraes afirmou que "a maioria massacrante" dos eleitores brasileiros é formada por "democratas, acredita na democracia e no Estado de direito" ao comparecer às urnas no último domingo, ao votar e ao reconhecer o resultado da disputa que sagrou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) presidente eleito, derrotando o atual ocupante do cargo, Jair Bolsonaro (PL).

- Aqueles que criminosamente não estão aceitando, aqueles que criminosamente estão praticando atos antidemocráticos serão tratados como criminosos e as suas responsabilidades serão apuradas - acrescentou Moraes.

Na noite de quarta-feira, Bolsonaro realizou transmissão ao vivo e, pela primeira vez, foi enfático ao pedir para seus apoiadores desobstruírem as rodovias:

- Faço um apelo a você: desobstrua as rodovias. Isso não faz parte das nossas manifestações legítimas.

Os bloqueios em estradas começaram tão logo Lula foi declarado pelo TSE como vencedor da disputa presidencial, no domingo. Derrotado, Bolsonaro levou 44 horas para se pronunciar sobre o resultado. Falou na terça à tarde, mas na oportunidade apenas criticou o "método" dos protestos. O silêncio do presidente foi usado por simpatizantes como salvo-conduto para manter os bloqueios e, depois, para se manifestarem em frente aos quartéis com pedidos de intervenção militar, o que ocorreu ainda no feriado de Finados e seguia acontecendo ontem, ao menos em Florianópolis e no Rio.

Atualização

Ontem, o dia começou com 86 pontos de interdição total ou parcial em rodovias federais, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Mesmo com o apelo de Bolsonaro, seus apoiadores ainda bloqueavam estradas em ao menos 11 Estados. Santa Catarina seguia no topo da lista de mais ocorrências (30). Ainda havia bloqueios parciais no Rio Grande do Sul, Acre, Amazonas, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná e Rondônia.

O total de manifestações desfeitas pela corporação, segundo dados oficiais, chegou a 834 desde domingo. Em São Paulo, todas as vias federais e estaduais já tinham sido liberadas.

mp não vê apologia ao nazismo

O Ministério Público em Santa Catarina realizou apuração preliminar sobre bolsonaristas que fizeram gesto igual a uma saudação nazista durante ato em São Miguel do Oeste em frente a uma sede militar e avaliou que "não houve intenção, aparentemente, de fazer apologia ao nazismo". Segundo a Promotoria, das diligências cumpridas, não foram identificados "até o momento, indícios de prática de crime, muito embora a atitude ser absolutamente incompatível com o respeito exigido durante a execução do hino nacional".


04 DE NOVEMBRO DE 2022
POLÍTICA +

Pedalada consentida para o Auxílio Brasil

Entre as promessas de Lula para a área social que não cabem no orçamento previsto para 2023, estão também o aumento do valor da merenda escolar,

hoje de R$ 0,36/dia por aluno,a ajuda de R$ 150 para crianças até seis anos e o reajuste real do salário mínimo.

Não foi por falta de aviso. Desde que o presidente Jair Bolsonaro (PL) instituiu o Auxílio Brasil de R$ 600, os especialistas em contas públicas alertaram que o valor não cabia no orçamento de 2023, a menos que se furasse o teto ou se fizesse remanejamento radical de recursos. Os especialistas em política fiscal advertiram que, depois de dar esse valor para as famílias vulneráveis, não haveria condições de retirar, fosse quem fosse o vencedor.

Na campanha, tanto Bolsonaro quanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) espalharam promessas como se não houvesse amanhã. Importante era vencer a eleição. Interlocutores de Bolsonaro diziam que no orçamento de 2022 também não cabia o auxílio de R$ 600 e o governo "deu um jeito".

O jeitinho foi inventar um "estado de emergência" para justificar os gastos extraordinários e romper o teto sem que isso pudesse ser classificado como pedalada fiscal, pretexto usado em 2016 para derrubar Dilma Rousseff. Detalhe: o valor de R$ 600 seria pago de setembro a dezembro. É mais fácil fazer uma gambiarra por quatro meses do que por 12.

Para 2023, é um ano inteiro de auxílio de R$ 600 para milhões de brasileiros já inscritos e outros tantos que poderão entrar, dado o grau de deterioração social do país. Antes de começar a transição, Lula, agora presidente eleito, reafirmou que as promessas feitas às camadas mais vulneráveis da população serão cumpridas. Para isso, será preciso encontrar caminho legal para ampliar o rombo nas contas públicas. A fome é uma emergência permanente no Brasil, mas o presidente não pode remanejar verbas por decreto.

A ideia discutida na reunião do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, com o relator-geral do orçamento de 2023, senador Marcelo Castro (MDB-PI), é que o Congresso aprove proposta de emenda à Constituição, a PEC emergencial da transição, para poder reformular a peça orçamentária para o novo governo e permitir o pagamento do auxílio que, repita-se, foi promessa dos dois candidatos.

Tem chances de ser aprovada? Tem. Mesmo que hoje Bolsonaro tenha maioria no Congresso, o centrão, que dá as cartas, sinaliza que não tentará inviabilizar o novo governo. Deputados e senadores não haverão de querer arcar com o ônus de impedir o pagamento do auxílio de R$ 600 e de outros benefícios cujo corte é impopular. O que está sendo alinhavado é uma pedalada consentida, até porque a correção da tabela do Imposto de Renda, outra promessa dos dois, poderá ser votada ainda neste ano.

POLÍTICA +

quinta-feira, 3 de novembro de 2022


03 DE NOVEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Um monumento aos profissionais da saúde

O sofrimento não pode ser apagado. A dor é prevenção e não pode desaparecer da memória.

Agora que a pandemia da covid-19 está controlada e vem se convertendo em endemia - ainda grave, mas com a estabilidade de números baixos -, precisamos de um monumento, um símbolo da vitória da ciência.

Um marco que servirá de aviso para as próximas gerações acerca do que enfrentamos, do isolamento de dois anos, do enxugamento das despesas domésticas e da penúria financeira com o comércio fechado, das demissões em massa e do home office, dos lares desfeitos pelos pêsames, das mortes apressadas sem velório e funeral, da angústia dos hospitais superlotados, do medo de ser contaminado numa breve saída de casa, dos alimentos lavados com sabão, do álcool gel para qualquer aperto de mãos, do beijo no ar, do abraço no vácuo, da separação abrupta de familiares e amigos, dos parentes contaminados e isolados no quarto, da ansiedade diante dos testes no laboratório à espera da bendita resposta de não reagente.

Daqui a um tempo, por uma questão até de autopreservação, ninguém lembrará quão grave e apocalíptico foi esse período na história da humanidade, com as ruas completamente vazias, as pessoas se comunicando pelas varandas e se visitando por chamadas de vídeo.

Representou nossa peste negra, nossa gripe espanhola.

Antes que pareça um pesadelo distante e a privação coletiva seja escondida no inconsciente do trauma, temos a responsabilidade de mostrar o quanto somos frágeis e vulneráveis, o quanto temos que nos unir além das fronteiras para superar o desafio de doenças contagiosas.

As autoridades devem se mobilizar com nossos artistas para erigir uma estátua, um patrimônio moral, com intuito de homenagear as 700 mil vítimas do coronavírus no país.

É costume assinalar data de fim de guerras entre povos. Estaremos demarcando um passo a mais nas batalhas da sobrevivência da espécie, valorizando também a luta emblemática contra pragas e vírus. Jamais havia sido criada uma vacina em menos de um ano.

Assim como existem monumentos ao soldado desconhecido, faríamos um monumento ao médico e ao enfermeiro desconhecidos, destacando o corpo clínico insone que anulou a sua vida pessoal em prol do exercício da profissão, que virou madrugadas e emendou plantões para regenerar fiapos de respiração de seus pacientes.

É ainda pouco perto de tudo o que passamos, porém é um gesto de respeito ao passado, uma forma de perpetuar a saudade dos que partiram precocemente, um lembrete da urgência de viver, para que assim nos tornemos melhores do que antes, quando não tínhamos ideia de como éramos privilegiados pelo simples fato de conviver.

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03 DE NOVEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

NÃO HÁ LIBERDADE PARA AGREDIR

São cada vez mais contraditórios os conceitos de liberdade defendidos por grupos de bolsonaristas como os que protestam nos últimos dias trancando estradas no país e se concentraram ontem no Centro Histórico de Porto Alegre. O que pretendem, ao que parece, é apenas o direito inexistente de atacar física e verbalmente, espalhar inverdades, conspurcar a democracia e cometer crimes livremente.

Exemplos desse comportamento inadmissível foram os atos de violência contra profissionais da imprensa cometidos por celerados que estavam nas proximidades do Comando Militar do Sul nessa quarta-feira, reivindicando uma delirante possibilidade de intervenção das Forças Armadas contra o resultado das eleições de domingo. Uma equipe da Band foi agredida e teve equipamentos quebrados, enquanto outra do SBT sofreu ameaças verbais e foi obrigada a deixar o local para preservar a integridade física. Uma repórter e um cinegrafista da Record também foram expulsos por manifestantes. Em dias anteriores, profissionais da Rádio Gaúcha e da RBS TV já haviam sido intimidados em pontos de bloqueio de estradas.

Todos os envolvidos nesses episódios lamentáveis devem ser identificados, responsabilizados e exemplarmente punidos.

Casos semelhantes não faltam nos últimos anos. Alguns que dizem querer resguardar a liberdade de expressão não hesitam em investir da maneira mais vil contra essa mesma liberdade e ainda impedir o livre exercício profissional da imprensa, que apenas cumpre a sua missão de levar a informação à sociedade. A escalada de animosidade e intolerância chegou a um nível impensável para um país democrático como o Brasil. A Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul passou a orientar que equipes de reportagem enviadas para cobrir os protestos procurem a Brigada Militar para que façam o seu trabalho escoltadas, como medida para evitar novas agressões. Poucas vezes se testemunhou tamanha intimidação acintosa contra a liberdade de imprensa no Brasil, o que se configura em uma afronta à própria democracia.

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP na sigla em espanhol) divulgou em julho a mais recente edição do Índice de Liberdade de Expressão e Imprensa. A pontuação do país recuou, e o Brasil, entre 22 nações, está na vergonhosa 19ª posição. A entidade deixa claro que uma das principais razões para a colocação é a postura agressiva emanada do governo federal. "O discurso autoritário do Poder Executivo não só atinge a imprensa com constantes ataques e ofensas, como também deteriora a já frágil democracia no país", destaca a organização.

A Associação Riograndense de Imprensa (ARI), em nota assinada pelo presidente, José Maria Rodrigues Nunes, se solidarizou com os profissionais agredidos, ressaltou "veemente repúdio aos atos de violência" e apelou às autoridades "para que garantam o livre exercício da atividade jornalística e punam os agressores na forma da lei". Lembrou ainda que ontem, 2 de novembro, era Dia Internacional pelo Fim da Impunidade de Crimes contra Jornalistas, data escolhida pela ONU. A Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e Televisão (Agert) e o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Rio Grande do Sul (SindiRádio) divulgaram outra manifestação de repúdio aos ataques e de solidariedade às equipes das emissoras. "Meios de comunicação livres serão sempre um importante pilar do Estado democrático de direito", diz trecho do texto firmado pelo presidente das duas entidades, Roberto Cervo Melão.

É intrigante que os manifestantes, pretensos defensores da liberdade, peçam uma intervenção inconstitucional que conduz a lembranças do período da história brasileira em que essas mesmas liberdades individuais mais foram suprimidas. São atos antidemocráticos e baderna de cunho golpista. É preciso que compreendam: a eleição acabou, o resultado deve ser respeitado e a ordem tem de ser restabelecida.


03 DE NOVEMBRO DE 2022
TULIO MILMAN

Criador e criatura

Entre os vencidos e os vencedores nas eleições de domingo, um nome merece atenção especial: Tarcísio de Freitas. Ex-ministro de Bolsonaro, o futuro governador de São Paulo é a maior novidade do cenário político brasileiro. Já na segunda-feira, fez dois movimentos que indicam sua disposição de adquirir vida própria daqui para frente. Primeiro, deu entrevistas a todas as emissoras de TV, em tom cordial e objetivo. Numa delas, concedida à Rede Globo, fez o segundo movimento. Deixou claro que manterá relações "republicanas" com o governo Lula. Não é difícil imaginar que, no Palácio do Planalto, o ex-chefe tenha torcido o nariz. 

Mais do que uma afronta, a disposição de Tarcísio é uma amostra de que ele compreende a responsabilidade que tem pela frente. Não será surpresa se, no futuro próximo, se descolar de Bolsonaro e se transformar no mais relevante líder conservador do Brasil. Engenheiro e militar da reserva, Tarcísio trabalhou no governo Dilma, o que lhe garante um trânsito mais fluido no novo mapa do poder nacional. Já na sua primeira eleição, conquistou o governo do Estado que responde pela maior fatia do PIB nacional.

Nos já quase quatro anos do governo Bolsonaro, não há sequer uma frase polêmica ou geradora de conflito atribuída a ele. Nesse período, liderou um ousado projeto de privatizações, conquistando a confiança de empresários, tanto no Brasil quanto no Exterior.

É incrível como o centro de gravidade do poder exerce uma atração gigantesca sobre quem orbita ao reder dele. O café começou a esfriar no Palácio do Planalto. No domingo à noite, mal o resultado havia sido anunciado, antigos aliados de Bolsonaro já olhavam para o futuro de forma pragmática e racional. Não me refiro aqui especificamente ao ex-ministro, mas a outras forças política e econômicas do país.

Jair Bolsonaro, sem a caneta na mão, precisará de muita paciência e maturidade para lidar com a mudança de foco dos holofotes. Seu ex-assessor agora ocupará o centro do palco. O enredo é antigo: a criatura se volta contra o criador. Não é exatamente isso o que deve acontecer. Quem conhece Tarcísio sabe que as palavras traição e deslealdade não fazem parte do seu vocabulário. Mas talvez, olhando para o passado recente, o criador, independentemente da imposição da nova realidade que se configura, tenha alguma dificuldade para lidar com o crescimento da criatura. Isso também não é incomum.

TULIO MILMAN

03 DE NOVEMBRO DE 2022
INFORME ESPECIAL

IPE Saúde pode virar o ano com feito inédito

Responsável pela assistência médica e hospitalar de 992 mil pessoas no Rio Grande do Sul, o IPE Saúde está perto de zerar o passivo acima do prazo contratual (de 60 dias) com prestadores de serviços. Até algum tempo atrás, essa perspectiva era pouco provável.

Pela primeira vez no ano, os pagamentos estão com atraso máximo de 30 dias além do permitido. Como a coluna já adiantou ao longo da semana, a dívida, que em maio era de R$ 650 milhões, hoje é de R$ 200 milhões.

Ainda que o problema não esteja resolvido, o instituto fará hoje um novo aporte extra, de R$ 50 milhões, e, no dia 7, mais um depósito ordinário, no valor de R$ 100 milhões. Com isso, ao longo de novembro, o saldo devedor terá mais uma queda significativa.

- Apesar das dificuldades, já reduzimos o déficit mensal médio do plano de cerca de R$ 40 milhões para em torno de R$ 30 milhões. Avançamos tanto do ponto de vista econômico quanto da assistência à saúde, que é nosso foco - diz o presidente do órgão, Bruno Jatene.

Ex-chefe do Tesouro Estadual, Jatene chegou ao comando do instituto em março de 2022 com a missão de dar sustentabilidade financeira à autarquia, que atende principalmente a servidores do Estado, dependentes e pensionistas. Entre as medidas em curso, há uma, em especial, que pode acelerar a resolução das pendências, envolvendo a negociação de antigos passivos de poderes e órgãos do Estado com o IPE Saúde.

Na semana passada, só o poder Executivo pagou R$ 187 milhões devidos. Agora, Jatene planeja fazer um apelo às demais instituições.

- Estou confiante que podemos avançar. Se der certo, teremos condições de virar o ano sem atrasos superiores ao prazo contratual nos pagamentos. Seria algo inédito - projeta o gestor.

JULIANA BUBLITZ

quarta-feira, 2 de novembro de 2022


O jovem que quebrou a tradição

Um jovem de 37 anos, assumidamente gay, vitorioso em todas as eleições majoritárias de que participou, invicto nas urnas desde que concorreu à prefeitura de Pelotas em 2012, é o primeiro governador reeleito do Rio Grande do Sul.

Superou preconceitos e piadinhas homofóbicas a respeito da ausência de uma primeira-dama de verdade. Não falou de sua vida pessoal. Jamais defendeu a sua privacidade ou explicou o que não estava em pauta. Manteve-se circunspecto e determinado a discutir unicamente administração pública e suas obras anteriores.

Nenhum candidato cascudo conseguiu antes. Nem José Ivo Sartori. Nem Tarso Genro. Nem Yeda Crusius. Nem Germano Rigotto. Nem Olívio Dutra. Nem Antônio Britto.

Pela primeira vez, teremos continuidade de uma gestão. Pela primeira vez, um governador terá possibilidade de implementar um projeto de oito anos e talvez não ser mais esquecido.

O pelotense bacharel em Direito, filho de José Luiz e Rosa, dedicou a vitória ao irmão Ricardo, mostrando seu apreço pela família. Ele virou uma eleição com mais de 10 pontos percentuais de diferença no primeiro turno. Obteve quase 2 milhões de votos a mais. É uma proeza em tão diminuto tempo, unindo as simpatias invisíveis das lideranças do PT e parte dos bolsonaristas (Bolsonaro ganhou de Lula no RS por 56% a 44%).

O próprio Leite dizia ser de direita e de esquerda simultaneamente, porque queria uma gestão para todos. Dependeria de quem o olhasse, não dele.

Permaneceu neutro na disputa presidencial, mas educadamente aguerrido na disputa local. Da mesma forma que não recusou a elegância de cumprimentar o adversário, mostrou-se irredutível ao questionar propostas lacônicas e vagas de Onyx Lorenzoni. Foi o candidato que defendeu a ciência enquanto seu oponente desmereceu a morte de 40 mil gaúchos pela covid-19 dizendo que a melhor vacina era pegar a doença.

Diplomático, lançou uma nova liderança, Gabriel Souza (MDB), projetando um possível sucessor. Ofereceu ao delegado Ranolfo Vieira Júnior a chance de uma administração honesta e segura.

Eduardo tem uma longa cancha reta pela frente. Habilita-se ao cenário nacional como a principal força do PSDB, disputando atenção com os emergentes Simone Tebet (MDB) e Romeu Zema (Novo).

Inscreveu seu nome na história executiva rio-grandense. Nunca houve na parede do Palácio Piratini dois retratos da mesma pessoa. Vai inspirar jovens a seguirem o caminho dele. O governador é pop.

CARPINEJAR 


02 DE NOVEMBRO DE 2022
ARTIGOS

SÃO LEOPOLDO, UMA CIDADE MELHOR E MAIS SEGURA A CADA DIA!

Recente reportagem da imprensa apontou São Leopoldo com o menor índice de registros de assalto à mão armada a pedestres dos últimos 10 anos. Fato muito louvável, isso graças a um conjunto de ações, entre elas a atuação da Brigada Militar, Polícia Civil e da nossa Guarda Civil Municipal, juntamente com as demais forças de segurança que operam de forma integrada a partir do Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGI-M). Mas ressalvo que sem as políticas preventivas, os resultados não seriam os mesmos. Por exemplo, nossas políticas públicas são fundamentais para a redução destes e de outros tipos de violência e criminalidade em nossa cidade. São mais de R$ 3 milhões ao ano para que nenhuma pessoa passe fome, garantindo alimento na mesa de milhares de famílias, seja por meio dos programas "São Léo Mais Renda", ou ainda do "São Léo Mais Comida no Prato", duas grandes iniciativas do nosso governo que de forma articulada com dezenas de entidades e comunidades atuam no enfrentamento da fome diretamente.

E mais, o programa de contraturno escolar "Mais Educa" garante mais de 7 mil jovens da nossa rede municipal em oficinas, cursos e demais qualificações em tempo integral nas escolas com alimentação qualificada. Sem deixar de lembrar também todo um investimento de mais de R$ 40 milhões em tecnologia nas nossas escolas, monitoramento e oportunidades para nossos jovens na formação e qualificação para o mercado de trabalho e a formação cidadã e, ainda, os mais de R$ 3 milhões em iluminação por toda a cidade.

Uma cidade que cresce e se desenvolve lidera a geração de emprego e, ainda mais segura, é motivo de orgulho para toda a população e, de modo especial, para quem a governa e investe em políticas que a fazem cada dia uma cidade melhor rumo ao Bicentenário em 2024.

 Presidente da ABM e prefeito de São Leopoldo - ARY VANAZZI


02 DE NOVEMBRO DE 2022
ARTIGOS

SEJA AMIGO DO DINHEIRO, NÃO ESCRAVO

Existe em muitas pessoas a cultura do trabalhar, acumular e não usufruir. Um trabalho sem fim que gera frutos, mas aproveitar esses frutos beira o pecado. Os detentores desse pensamento vivem uma vida de restrições. Eles vão a um restaurante e pensam que em casa seria mais barato. Eles falam em desacelerar, mas não se livram do vício de acumular patrimônio. A vida passa, e o trabalhar para viver vira um viver para trabalhar.

Também há muitas histórias dos que, na outra ponta do pêndulo, vivem em ostentação ou em um padrão acima do que a sua renda permitiria. Uma pesquisa do Instituto Akatu constatou que 76% dos brasileiros não praticam o consumo consciente - aquele planejado e focado no necessário -, por exemplo, trocando de carro ou celular para impressionar. O resultado é um endividamento cada vez maior, por esses e outros motivos, que alcançou mais de 77% dos brasileiros, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens e Serviços.

Em ambas as situações, o dinheiro faz perder a liberdade: na primeira, pelo mero vício de acumular enquanto a vida passa. Na segunda, por ter um estilo de vida que esbanja e não guarda, vive endividado e não pode parar de trabalhar.

Esse ciclo vicioso leva ao mesmo caminho: ambos se tornam escravos do dinheiro. Viver em equilíbrio é a melhor opção para fazer dele um aliado na liberdade. E para alcançar esse balanço, existe a fórmula 50-30-20: dividir a renda em três partes (50%, 30% e 20%), para despesas fixas, variáveis e investimentos.

Afinal, dinheiro é liberdade. É ter poderes para aproveitar o hoje, sem esquecer de investir para poder parar um dia, se quiser, sem precisar depender da ajuda de alguém. É conseguir fazer uma viagem no final de semana, mas é o guardar para conhecer um país diferente. É arcar com a casa confortável, mas é investir e adquirir um dia a dos sonhos. No fim das contas, é cuidar de si mesmo no hoje e no amanhã, sendo amigo do dinheiro, e não um escravo dele.


02 DE NOVEMBRO DE 2022
MÁRIO CORSO

Superstição do 13

A superstição é o último bastião do sagrado, quando a fé não se garante, mas o pensamento mágico insiste. O 13 se destaca como mau augúrio, tanto que muitos países não registram o 13º andar. Por que este desconforto com o 13? A resposta passa por lembrar o antigo sistema numérico mesopotâmico.

Ao contrário de nós, que adotamos o sistema decimal, os babilônios usavam o duodecimal. Temos eco dele até hoje, na dúzia e na grosa - o conjunto de 12 unidades de 12 números.

A nossa escolha é antropocêntrica. Afinal, temos 10 dedos e os usamos para contar. É comum tirarmos números do corpo, lembrem das polegadas, pés e braças.

Os babilônicos também contavam com as mãos. Colocavam o polegar sobre uma falange do mindinho para o um, na seguinte para o dois, na última para o três. Então repetiam nos próximos dedos até chegar à última falange do indicador. Quatro dedos vezes três falanges temos 12 unidades. E aqui o pulo do gato, quando chegavam ao 12, marcavam esta dúzia na outra mão, usando o mesmo sistema. Então, recomeçavam a contar nas falanges da primeira mão. Ou seja, a primeira mão marcava as unidades, a segunda, as docenas (ou dúzias). Conseguiam registrar nos dedos 12 vezes 12 que é igual a 144. Convenhamos, um jeito de contar nos dedos mais inteligente.

Nos relógios e ângulos, nós usamos uma gambiarra do sistema duodecimal com números decimais. Não fosse assim, mesmo em cálculos simples, encontraríamos dízimas periódicas (exemplo, 10 dividido por três é igual a 3,333?). O 10 só se divide inteiro por dois e cinco. O 12 divide-se por dois, três, quatro e seis, por isso ele é mais prático no cotidiano.

Abandonado, embora superior, o sistema duodecimal segue no subterrâneo do nosso imaginário, lembrem-se dos 12 meses, dos 12 signos do zodíaco, dos 12 apóstolos, do dia dividido em duas partes de 12 horas. Portanto, o azar do número 13 se dá porque quando ele chega estragaria a harmonia e a mística do 12, o número perfeito para os babilônicos.

Um comentário à parte, o que é estabelecido - no caso o sistema decimal - não necessariamente é o melhor. O sistema que usamos, que nos parece natural, foi uma escolha equivocada dos nossos antepassados.

No domingo passado, elegemos o 13, isso nos trará azar? Depende, para os babilônios - por iniciar um novo ciclo -, ele também significava recomeço, renascimento. Para o bem do Brasil, que assim seja!

MÁRIO CORSO

terça-feira, 1 de novembro de 2022


CARPINEJAR

Unificação do país

Não é o presidente eleito que pode unificar o Brasil, mas o outro candidato, quando ele aceita a derrota e telefona para o oponente parabenizando-o pela vitória. Esse protocolo de cordialidade acalma a militância, desfaz qualquer fantasma de contrariedade com o resultado, garante a obediência à Constituição.

Jair Bolsonaro, que tentava a sua reeleição, ainda não se posicionou sobre o pleito, ainda não rubricou a escolha da maioria, ainda não deu um discurso para formalizar o fim do mandato em dezembro e agradecer aos apoiadores, como é de praxe, como é a tradição.

Sua retirada de cena parece seguir a cartilha do estrategista do ex-presidente americano Donald Trump, Steve Bannon, de boicote às urnas - Bannon foi recentemente condenado a quatro meses de prisão por desacatar o comitê do Congresso que investiga a invasão ao Capitólio.

Os ataques e críticas pesadas devem ser restritos à disputa, jamais prosseguindo num terceiro turno simbólico. É o momento da pacificação do conflito, da civilidade, da educação.

O reconhecimento da apuração final pela parte derrotada permite a prudente transição entre os governos e o cumprimento de prazos. Sem isso, a transferência da faixa presidencial torna-se traumática e pode desencadear greves e paralisações de seguidores insatisfeitos.

Ontem, caminhoneiros apoiadores do presidente já fecharam trechos de estradas em vários Estados, incluindo Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Pedem uma absurda intervenção militar, aproveitando as luzes apagadas do Palácio do Planalto.

Nessa hora, quem cala consente com os tumultos. O silêncio do candidato derrotado é rastilho de pólvora. Insinua um descontentamento com os trâmites legais do TSE, abre espaço para levantes e hiatos de violência.

As regras eleitorais não valem somente em caso de vitória. Se fosse assim, seria como aquela odiosa figura da nossa infância: a criança dona da bola, que suspende o jogo entre os seus colegas na medida em que o placar é adverso.

Pela manutenção da liberdade e pela prevenção contra ditaduras, Bolsonaro não tem outra opção senão acolher o sufrágio dos brasileiros. Até porque 46% dos eleitores não queriam Lula de jeito nenhum e 50% não o queriam de jeito nenhum. São duas rejeições monstruosas, que merecem a sua mediação.

A ausência de manifestação do presidente deixará no ar o medo de um golpe, e não cicatrizaremos a divisão litigiosa do país. O Brasil está cindido, fraturado, desde que Aécio não aceitou a derrota para Dilma em 2014. Aquele mau exemplo vem custando caro para a democracia.

CARPINEJAR

CIÊNCIA GAÚCHA

Estudo define hipótese para explicar efeito "chocolatão"

Cooperação entre Ceclimar, UFRGS e Furg relaciona aparência do mar com vida multiplicada em água doce subterrânea

Uma pesquisa que pretende explicar a influência da descarga de água doce subterrânea na proliferação de microalgas no litoral gaúcho está prestes a confirmar a ligação entre a manutenção ao longo do ano destes organismos e o famoso "mar chocolatão". Ainda que não esteja concluído, o estudo desenvolvido por pesquisadores do Centro de Estudos Costeiros, Liminológicos e Marinhos (Ceclimar), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande (Furg), já aponta esta relação.

Segundo a doutora em oceanografia física, química e geológica, Cacinele Mariana da Rocha, a questão envolvendo a água subterrânea no continente que se desenvolve em toda a costa gaúcha vem sendo observada há, pelo menos, uma década como um dos possíveis motivos de floração, ao longo de todo o ano, de microalgas. Os pesquisadores sabiam que as florações ocorriam durante o inverno, por conta da corrente marinha das Malvinas - que costuma trazer muitos nutrientes. Havia também a descarga de nutrientes vinda dos rios Tramandaí e Mampituba. Porém, no restante do ano, permanecia a dúvida de como as microalgas seguiam se proliferando. O grupo, então, passou a monitorar desde Palmares do Sul até Torres.

- O que se apresentou foi um processo intenso de descarga de água doce subterrânea no mar, que varia conforme alguns fatores. Principalmente, a chuva no continente. Mas está sendo possível confirmar que esta descarga está garantindo a chegada de nutrientes na praia - relata Cacinele.

A água subterrânea se forma a partir da infiltração de chuvas, escoamento e de lagoas e rios. Este acúmulo forma os aquíferos, que são enormes depósitos subterrâneos capazes de fornecer água suficiente para suprir os mais variados usos. A água subterrânea pode chegar a aquíferos profundos, de onde leva milhares de anos para retornar ao meio ambiente, ou mesmo ficar em um depósito de maior profundidade por períodos muito longos. No ambiente costeiro gaúcho, pode ser encontrada desde o campo de dunas, passando pelo início da praia, a zona de surfe, chegando até o fundo do mar.

- Este projeto (estudo em desenvolvimento) é novo porque faz o primeiro link dos organismos com o ambiente, possibilitando perceber se há ou não, de fato, uma relação entre a descarga subterrânea de água doce, cheia de nutrientes, com o desenvolvimento destes organismos na faixa costeira do litoral do Rio Grande do Sul. Pelos primeiros resultados, se mostra comprovada esta relação - relata Cacinele.

O projeto começou em 2019, quando a então estudante de biologia marinha Thamara Moreira deu partida à coleta de amostras. A pesquisa ganhou recursos para prosseguir até junho de 2023.

 ALINE CUSTÓDIO


OPINIÃO DA RBS

CIVILIDADE NA TRANSIÇÃO

Definida a eleição presidencial, o passo seguinte é a formalização do processo de transição. É dever legal do governo que se encerra colaborar com a futura gestão, repassando todas as informações necessárias sobre pontos como o quadro das finanças públicas, a situação dos órgãos do Executivo e o panorama dos projetos e programa em andamento. Trata-se de um procedimento usual, previsto em lei e essencial para a equipe designada pelo eleito não iniciar o mandato no escuro em janeiro de 2023.

Preocupa, no entanto, certa lentidão no contato entre o governo em curso e o que está por assumir para deflagrar a passagem de bastão. De uma forma ou outra, a transição ocorrerá. Noticiou-se no início da noite de ontem os primeiros diálogos entre as duas partes. Seria conveniente e democrático que todos os procedimentos fossem conduzidos com boa vontade por parte dos membros políticos da atual administração. Espera-se que o processo transcorra com a civilidade necessária. Mas não deixa de ser um mau sinal que o presidente Jair Bolsonaro (PL), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), até o fechamento desta edição, sequer tenha cumprimentado o vencedor e reconhecido o resultado.

Especula-se que, pela parte da campanha vencedora, o coordenador será o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, que conversou informalmente ontem com o atual ocupante do cargo, Hamilton Mourão. É interesse dos futuros ocupantes do Palácio do Planalto dar início à transição o mais rápido possível. Faltam apenas dois meses para a posse. O prazo é exíguo. Por parte do Executivo, a frente é tomada pela Casa Civil, hoje comandada por Ciro Nogueira (PP), que também no começo da noite de ontem teve um contato preliminar com Edinho Silva, um dos coordenadores da campanha de Lula.

O temperamento do presidente Jair Bolsonaro é conhecido. Mesmo abalado e contrariado com a derrota, espera-se que ainda nas próximas horas, após digerir o resultado soberano das urnas, compreenda que é preciso ter uma postura republicana e contribuir, mesmo que formalmente, com uma transição pacífica e produtiva. Mas seria mais um atestado de mau perdedor se, por um acaso, fosse notada qualquer tentativa de dificultar a transparência e o acesso a dados. A derrota é algo natural para quem disputa eleições, e o Estado brasileiro não é propriedade do mandatário de turno. É indispensável o futuro governo se preparar adequadamente para os muitos desafios à frente - todos, ao fim, de interesse da população.

São imensas, por exemplo, as dúvidas que cercam a questão fiscal devido ao pacote de bondades concedido na busca pela reeleição. Ao mesmo tempo, o governo eleito pretende recompor recursos cortados do orçamento da União de 2023 para programas como o Farmácia Popular. Será preciso encontrar espaço para cumprir a promessa de manter o Auxílio Brasil em R$ 600. Possivelmente será necessário buscar uma espécie de licença para descumprir o teto de gastos, até que se formalize uma nova proposta de âncora fiscal. A transição, portanto, também se dará nas tratativas com o Congresso para remendar o orçamento do próximo ano. Será um primeiro teste de fogo a avaliar a capacidade de negociação da nova gestão Lula.


ELEIÇÕES 2022

Moraes determina que PRF remova bloqueios de estradas

Autoridades chegaram a registrar mais de 230 interrupções feitas por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro no país

Desde domingo, após a oficialização da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) começaram a bloquear rodovias pelo país. Alguns pediam a intervenção militar. Ao menos 21 Estados enfrentaram bloqueios.

No RS, foram mais de 60 interrupções em vias federais e estaduais. Até 18h43min, havia 236 pontos de interdições no país, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Em Porto Alegre, manifestantes queimaram pneus na Avenida Assis Brasil, e fecharam momentaneamente a via na parte da tarde.

À noite, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes, determinou que a PRF e polícias militares removessem imediatamente todos os bloqueios. A decisão atendeu pedido da Confederação Nacional dos Transportes e do vice-procurador geral eleitoral, Paulo Gonet.

Moraes alertou que o diretor- geral da PRF, Silvinei Vasques, pode ser multado e afastado do cargo. "Em face da apontada omissão e inércia da PRF, o diretor-geral da PRF adote, imediatamente, todas as medidas necessárias para a desobstrução", acrescentou, "sob pena de multa horária, de caráter pessoal, de R$ 100 mil", bem como "se for o caso, de afastamento das funções e prisão em flagrante de crime de desobediência".

Durante o dia, a PRF acionou a Advocacia-Geral da União (AGU) para que o órgão buscasse instrumento junto à Justiça Federal para facilitar a liberação. Inicialmente, a AGU destacou que a PRF poderia atuar nos bloqueios "sem demandar autorização judicial".

Pouco antes da decisão de Moraes ser divulgada, a PRF no RS anunciou que obteve liminar via AGU determinando a liberação das rodovias federais no Estado, sendo obrigatório o imediato cumprimento por parte dos manifestantes. A decisão prevê multa de R$ 10 mil por pessoa física e de R$ 100 mil por pessoa jurídica. Outros Estados receberam decisões similares. No início da noite, o coordenador-geral de comunicação da PRF, Cristiano Vasconcellos, havia dito que a direção da corporação expediu ordem interna para agentes liberarem todos bloqueios.

À tarde, o Ministério Público Federal havia ordenado que a PRF informasse, em até 24 horas, as medidas adotadas para desmobilizar os bloqueios. Vídeos em redes sociais mostraram agentes da PRF dizendo a manifestantes que a ordem da instituição era só permanecer nos locais de bloqueios. Em imagem gravada em Palhoça (SC), um policial diz:

- A única ordem que temos é estar aqui com vocês, só isso.

Em outro vídeo, um agente da PRF declara que, se houver determinação judicial, pedirá "orientações" aos manifestantes. Consultada, a PRF informou que "adotou todas as providências para o retorno da normalidade do fluxo". Alguns manifestantes diziam que não sairiam enquanto não houvesse declaração de Bolsonaro sobre a eleição. A presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, cobrou o presidente:

- São bloqueios políticos (...). Quem é o presidente nesse momento é Jair Messias Bolsonaro. A responsabilidade sobre isso é dele.


NÍLSON SOUZA

As cores da paz

Saiu da cabeça prodigiosa do baiano Carlinhos Brown uma letra de música que bem poderia ser adotada como hino informal da igualdade no nosso país. É sempre com emoção que a ouço, especialmente na voz bonita de Marisa Monte:

"O Brasil não é só/ verde, anil e amarelo/ o Brasil também é/ cor de rosa e carvão".

Pois esse país de todas as cores tem um grande desafio neste momento em que sua população sai dividida de uma disputa eleitoral marcada pela agressividade e pelos cancelamentos de amizades. Na verdade, temos muitos desafios pela frente, mas o primeiro deles certamente se chama pacificação.

Claro, é preciso dar tempo para os derrotados lamberem suas feridas e para os vitoriosos entenderem que não há clima para revanchismos. E observar que pelo menos uma precondição para a paz já está posta: agora todos podemos usar a mesma bandeira para torcer pela Seleção na Copa do Catar, sem que o verde-amarelo seja interpretado como posicionamento partidário ou ideológico.

Pelo que tenho ouvido e lido desde a noite de domingo, as principais autoridades e lideranças políticas do país, incluído aí o presidente recém-eleito, também estão propensas a fortalecer a convivência democrática. Não deixa de ser um alívio, depois de tudo o que alguns deles protagonizaram nos debates eleitorais. Mas a verdade é que o retorno à normalidade não depende apenas dos governantes. Cada brasileiro precisa fazer a sua parte neste armistício pelo país.

Ninguém precisa se humilhar nem renunciar à sua visão de mundo. Basta exercitar a compreensão, a tolerância e o diálogo com aquele amigo que se afastou repentinamente, com aquele vizinho incômodo ou com aquele parente que disse o que não devia na reunião da família ou na mensagem do zap.

Podemos, sim, conviver civilizadamente com quem pensa diferente de nós. Podemos, sim, aceitar que nossos familiares e amigos vistam cores que não combinam conosco, sem que por isso passem a ser vistos como inimigos. O Brasil, como ensinou Carlinhos Brown, não é só verde, anil e amarelo. Tem outras cores que devem ser reconhecidas e respeitadas.

Mas as cores lindas da nossa bandeira também podem representar a paz e a igualdade.

NÍLSON SOUZA