sexta-feira, 5 de novembro de 2021


05 DE NOVEMBRO DE 2021
LEILÃO DO 5G

Claro, TIM e Vivo dominam, porém também há novatas

Enquanto as três grandes ocupam faixa principal, novos players entram em operações regionais e espectro menos relevante

As operadoras Claro, Vivo e TIM arremataram três lotes na faixa de 3,5 GHz, o principal do leilão da tecnologia móvel 5G, realizado ontem pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), em Brasília. A Winity II Telecom levou a frequência de 700 MHz, e como é empresa ainda não detentora de faixa de radiofrequência, o Brasil terá nova operadora móvel com abrangência nacional.

O leilão dos blocos regionais da faixa de 3,5 GHz, que tem foco no varejo (consumidores finais) e na indústria, confirmou a expectativa de entrada de novos competidores no mercado de telefonia e dados móveis. Esta etapa teve como vencedoras Brisanet, Sercomtel, Algar Telecom, Consórcio 5G Sul (das operadoras Unifique e Copel Telecom) e a Cloud2u, empresa ligada à fabricante de equipamentos de rede Greatek, de São José dos Campos. Dessas cinco vencedoras, três grupos são estreantes no setor: Brisanet, Consórcio 5G Sul e Cloud2u.

A cearense Brisanet, maior provedora de banda larga do Nordeste, foi a grande vencedora desta etapa do certame, ao arrematar o bloco do Nordeste e do Centro-Oeste, mostrando seu apetite por crescimento. No leilão dos blocos regionais, só o correspondente ao Norte não recebeu lances. Outros blocos, entretanto, tiveram disputa lance a lance, como é o caso da Região Sul.

Embora o ágio na disputa entre as operadoras nacionais de 3,5 MHz tenha ficado em no máximo 30,69%, na competição entre as regionais chegou a 13.741%, por exemplo - e foram frequentes lances acima de 100% do mínimo.

A confirmação do nível elevado de disputa e a chegada de estreantes no setor móvel cumpre, a princípio, um dos principais objetivos do edital da Anatel, de diversificar a oferta de serviços para os consumidores. Isso gera expectativa de que ajudará a atenuar a concentração do mercado provocada pela venda da Oi móvel para as rivais Vivo, Claro e TIM - operação que aguarda aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Prazos

O leilão começou ontem e deve terminar hoje. Ainda serão analisadas as propostas para as faixas de 26 GHz.

São leiloadas quatro faixas de frequência para transmissão de dados. E podem ser divididas em blocos nacionais e regionais. A previsão é de que a tecnologia comece a ser ofertada até julho de 2022 nas capitais brasileiras. Depois, deverá ser ampliado para as demais cidades até 2029. O prazo de outorga (direito de exploração das faixas) será de até 20 anos.

Cada faixa tem uma finalidade específica. Algumas empresas são focadas no varejo enquanto outras privilegiam a prestação de serviço ao segmento corporativo e o próprio setor de telecomunicações, por exemplo.

As vencedoras têm compromissos de investimento definidos pelo Ministério das Comunicações e aprovadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pela Anatel. O objetivo das contrapartidas é sanar as deficiências de infraestrutura, modernizar as tecnologias de redes e massificar o acesso a serviços de telecomunicações do país.


05 DE NOVEMBRO DE 2021
EDUARDO BUENO

Autógrafos

Sessões de autógrafos são sempre marcantes na vida de qualquer escritor - para seu gáudio e glória, ou para a galeria dos fracassos retumbantes. Já vivenciei os dois lados da moeda. Guardo recordações divertidas de ambos: dos louros da consagração e dos vitupérios do opróbrio. Prefiro os primeiros, mas nunca ignorei as atribulações do naufrágio.

Na Feira do Livro de Porto Alegre, por exemplo, já fui ao topo e ao poço. Em 1998, lancei A Viagem do Descobrimento e ganhei o troféu de "melhor sessão de autógrafos". Não sei se os encarregados de fechar a praça concordaram: a sessão se iniciou às 19h e já passava das 23h (uma hora após o horário) e eu ainda rabiscava meu nome com letras cada vez mais desarranjadas. Foram mais de mil autógrafos. Em 2005, voltei à mesma praça, ao mesmo banco, ao mesmo jardim, tudo era igual, mas fiquei triste porque não tinha ninguém perto de mim. O primeiro - e um dos únicos - na fila era o síndico do meu prédio. Como eu estava com o condomínio atrasado, acho que ele foi lá me refrescar a memória.

Na Bienal do Livro também vivi casos diametralmente opostos. Em 1999, tive uma sessão com cordão de isolamento, três seguranças, cinco horas de duração e firmei mais de 2 mil garatujas. Ganhei uma boa grana, mas gastei-a toda com fisioterapia na mão. Em 2007, sabe quantas pessoas apareceram para dizer que amavam minha obra? Uma! E ela ainda levou um livro antigo. Eu ri, mas a turma da editora latiu para a coitada.

As sessões de autógrafos mais trepidantes e demenciais das quais já tomei parte vieram antes dessas aí e não se deveram ao meu prodigioso talento com as letras nem aos meus belos olhos azuis. Eu havia escrito a biografia dos Mamonas Assassinas. O Brasil ainda vivia a comoção de sua trágica morte e a presença "VIP" (e um tanto oportunista) da namorada-viúva do líder da banda contribuíram para o furor, em meio ao qual fui só uma peça no sucesso alheio - pegando uma carona na qual eu nem queria ter embarcado.

Minha primeira sessão de autógrafos na vida também foi de carona: em março de 1984 saiu pela primeira vez no Brasil o clássico On the Road, de Jack Kerouac, traduzido por mim. Alguém achou que eu deveria autografar a obra. Temendo uma derrapagem, minha zelosa mãe convocou um exército de peruas amigas dela e assim, de repente, ali estavam os maiores doidões da cidade junto a finíssimas senhoras da sociedade. Todos ganharam autógrafo psicografado: "Um abraço, Jack".

Neste sábado, dia 6, às 17h30min, volto à Praça da Alfândega para autografar Dicionário da Independência. Convoco doidões, peruas e até fãs (dos Mamonas) para darmos a largada do bicentenário da independência. Espero não ter que ficar sozinho no mesmo banco com Dom Pedro, Dona Leopoldina e a marquesa. E menos ainda com o síndico.


05 DE NOVEMBRO DE 2021
CHAMOU ATENÇÃO

Em breve, muro repaginado

Faltam duas semanas para a inauguração da revitalização do Muro da Mauá, no Centro Histórico de Porto Alegre. Em 19 de novembro, a população poderá conferir as melhorias no espaço, que vêm ocorrendo desde agosto com o objetivo de torná-lo mais atrativo.

O muro ganhará cascata artificial, jardim vertical, painéis artísticos e espaços para interatividade com QR Codes. As estruturas para receber as telas já estão prontas, bem como a cascata e o jardim. No entanto, para manter a expectativa, os adesivos das estruturas serão retirados e as instalações serão finalizadas poucos dias antes da inauguração. A iluminação também será revelada próximo da data.

O consórcio composto pelas empresas Sinergy e HMidia foi o vencedor do chamamento público que prevê a adoção do muro por 24 meses, com possibilidade de renovação por igual período. A parte artística será totalmente renovada a cada três meses, com novas telas.

- Nesta primeira fase, vamos contar a história da cidade - ressalta Alexandre Quintian, diretor da empresa HSQ, que faz parte da HMidia.

O local também contará com cinco paradas de ônibus com teto translúcido, bancos de madeira e diferentes layouts ao fundo. Além disso, foi realizada melhoria em pequena praça antes do início do muro - o que não estava previsto no projeto. Entrando na onda da revitalização da região, a Trensurb decidiu pintar o muro que separa o trem do asfalto.

Ana Pellini, secretária de Parcerias da Capital, explica que o objetivo da prefeitura foi tornar o muro agradável aos olhos.

- A revitalização representa um pouco o fazer as pazes da cidade com seu muro e, ao mesmo tempo, faz parte do projeto de embelezamento do Centro Histórico - afirma Ana.

Produção: Fernanda Polo

quinta-feira, 4 de novembro de 2021


04 DE NOVEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Por que os meninos amam os dinossauros

Sinto profunda admiração por quem cria coisas para crianças. Coisas de que crianças gostem, digo. Walt Disney, por exemplo, foi genial ao fazer os bichos falarem em seus desenhos. Crianças adoram bichos. Em 2010, quando fui para a Copa da África do Sul, meu filho tinha dois anos de idade. Quando voltei, ele perguntou:

- Foi para a África? Ver os bichos?

Era a pergunta a ser feita. Afinal, quem vai à África obviamente vai para ver os bichos, a não ser que se trate de um tolo. Se você for a Roma, terá de ver o Papa, se for à África, terá de ver o leão.

Sei por que as crianças gostam tanto de bichos. É porque eles são parecidos. Bichos e crianças fazem o que gostam e tentam não fazer o que não gostam, afeiçoam-se por quem lhes dá comida e carinho, dormem quando querem e estão sempre felizes, a não ser que estejam doentes ou com fome. É assim que eles são.

Mas a gente se esquece de como é ser criança. Por isso, fico impressionado com caras que inventam personagens como os Backyardigans ou os Teletubbies. Hoje, os Teletubbies já não estão mais na moda. Há 10 anos, porém, as crianças pequenas do mundo todo os amavam. O que eu não conseguia entender. Os Teletubbies eram uns bichos improváveis, que vestiam uns macacões coloridos e que pediam para que as histórias fossem repetidas.

- De novo! De novo! - imploravam. E a história era repetida, para grande angústia dos pais.

Como é que alguém percebeu que as crianças iam adorar isso?

Mas há algo que me intriga muito mais: por que todos os meninos pequenos gostam de dinossauros? Os dinossauros não existem mais, e faz tempo - 66 milhões de anos. Só que os guris são apaixonados por eles. E, em geral, são mais os guris, nem tanto as gurias. Aos dois ou três anos de idade, eles só pensam em dinossauros. Depois, quase sempre, passa. Por que isso?

Faço todo esse arrazoado para abordar um tema que expus ontem no Timeline, da Gaúcha. É que há lugares, no Rio Grande do Sul, em que foram identificadas pegadas de dinossauros. Não sabia disso, quem me contou foi a Lara Lutzenberger, filha do Lutz, o primeiro entusiasta da ecologia do Brasil. Ela visitou as pegadas de dinossauros que estão impressas no solo da entrada de Livramento, na Fronteira Oeste. Fiquei pensando: por que não é feito um pequeno parque temático em torno dessas pegadas? Um lugar bonito, com bonecos gigantes representando o tipo de dinossauro que havia no local, que contasse a história dos dinossauros e do seu fim prematuro, um lugar para fascinar os meninos do mundo todo. Por que Livramento não emula Gramado e aproveita seus predicados naturais para promover a cidade?

Há muitas belezas escondidas no Rio Grande. Há que se jogar luz sobre elas.

DAVID COIMBRA

04 DE NOVEMBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

ALENTO NO EMPREGO

O desemprego é a face mais cruel das crises econômicas e dos momentos de hesitação da atividade após um período de retração de setores intensivos em mão de obra. Por trás de taxas e números frios, estão pessoas de carne e osso angustiadas à espera do retorno ao mercado de trabalho para assegurarem dignidade às suas famílias. Embora o nível de incertezas permaneça alto no país, é alentador constatar que, aos poucos, segmentos que padeceram com a pandemia retomam as contratações. É o caso da indústria calçadista no Rio Grande do Sul, ilustrado por reportagem de Anderson Aires publicada na edição de ontem de Zero Hora.

As fábricas de sapatos e outros modelos esportivos e casuais são grandes empregadoras. Além disso, movimentam uma vasta cadeia de insumos, materiais e serviços e, à frente, também indicam tendências de comportamento do consumidor no varejo. Oscilações no setor, portanto, têm o condão de influenciar admissões e dispensas de maneira mais ampla. E o movimento agora é positivo, com benefícios disseminados para a economia do Estado, um dos principais polos coureiro-calçadista no país.

Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados pelo Ministério do Trabalho e Previdência, apontam que, em setembro, o segmento liderou a criação de postos de trabalho formais na indústria de transformação gaúcha. São quatro meses consecutivos com saldo positivo e, com isso, o resultado do ano supera 8,2 mil vagas, um desempenho animador enquanto as taxas gerais de desocupação permanecem altas no país. Não há dúvida de que grande parte dessa performance do setor está ligada à reabertura das atividades, possível graças aos efeitos do avanço da vacinação, com a queda dos números da covid-19 como consequência. A maior circulação de pessoas tem relação direta com o aumento do consumo de calçados. Ao mesmo tempo, o dólar alto favorece as exportações.

A volta das contratações, felizmente, é percebida ainda nos demais setores. Toda a indústria de transformação gaúcha já criou 50,2 mil postos no ano. Os serviços, área mais machucada pela pandemia, outros 50,6 mil. Agropecuária, comércio e construção civil, da mesma forma, estão no azul.

No acumulado do ano, são 132,6 mil postos com carteira assinada no Estado. No país, o número supera 2,5 milhões. Os indicadores do IBGE também mostram que, no trimestre encerrado em agosto, a taxa de desemprego ficou em 13,2%. No intervalo de três meses finalizado em maio, o percentual era de 14,6%. Nota-se uma melhora nos indicadores, embora o mesmo não se verifique na renda e nos salários. 

Há muito terreno a recuperar, mas, mesmo assim, o fato de mais gaúchos e brasileiros estarem conseguindo trabalho formal ou informal em um momento ainda de instabilidade é significativo diante do período desafiador atravessado pela população, materializado em uma inflação de dois dígitos em 12 meses. A continuidade da melhora, no entanto, depende de uma série de fatores, como menor intranquilidade política e respeito à responsabilidade fiscal, ao lado de medidas auxiliares mas essenciais para atividades intensivas em mão de obra, como a manutenção da desoneração da folha de pagamento.


04 DE NOVEMBRO DE 2021
O PRAZER DAS PALAVRAS

Pastel

É mais ou menos como na família da gente: quando duas palavras têm uma origem comum - isto é, quando são irmãs, quando nasceram da mesma matriz -, elas vão compartilhar para sempre a aparência física da mãe que as gerou, mas isso não implica que tenham significados idênticos ou quase iguais. Um bom exemplo são as duas filhas de cruz, cruciante e crucial. A primeira toma cruz como símbolo de um instrumento de tortura - daí as dores cruciantes. A segunda, por outro lado, aproveita o símbolo da encruzilhada - daí o momento crucial, a decisão crucial.

Essas divergências são ainda mais comuns entre línguas nascidas do mesmo tronco, como as filhas do velho Latim. O fato do Português, do Francês, do Italiano e do Espanhol (para citar as mais importantes) terem um ancestral comum fez com que vários vocábulos apareçam no léxico de todas elas. Como na vida real, todas receberam a mesma herança - mas, também como na vida real, cada uma vai ter uma utilidade diferente para aquilo que herdou. Para fins práticos, vou dar exemplos apenas do Português e do Espanhol, escolhidos por que são as duas línguas românicas mais semelhantes.

Chamamos de vaso o recipiente para pôr flores; no Espanhol, esta é a palavra usada para nosso copo (e não *cuepo, como arriscam alguns). No Espanhol, botiquin não é botequim, mas o estojo de primeiros socorros, a tradicional farmacinha da família brasileira (literalmente, "a pequena botica"). Da mesma forma, ambas as línguas têm oficina, mas enquanto para nós este é um lugar onde se consertam carros ou, mais modernamente, uma espécie de curso gourmet (equivalente ao Inglês workshop), no Espanhol a palavra designa simplesmente o que chamamos aqui de escritório. Por fim, desabrochar nas duas línguas vem de broche, "fivela, presilha, botão". Aqui significa "abrir-se o botão em flor"; no Espanhol, desabrochar significa desabotoar (no avião da AeroMexico, a comissária de bordo nos mandava abrochar los cinturones, o que, convenhamos, é muito mais imponente que o nosso quase meigo "afivelar os cintos").

Agora sim, caros leitores, estou em condições de responder à pergunta enviada por Alex R., de São Paulo, capital. Diz ele: "Professor, sei que sua praia é o Português, mas acho que vai tirar esta de letra: sintonizando uma emissora espanhola dedicada ao futebol, ouvi o locutor dizer que Neymar tinha soprado ontem as velas do pastel de aniversário. Pelo contexto, dava para entender que se tratava de um bolo com velinhas, mas fiquei muito curioso: por que ele chamava de pastel?".

Bem, Alex, se já leste minha resposta até aqui, já deves estar percebendo aonde pretendo chegar: a herança latina é a mesma, mas cada idioma deu a ela um destino diferente. O Latim pasta ("massa"), deu no Francês pâte ("massa"), mãe da inigualável patisserie francesa. No Italiano deu pasta mesmo, como no também no Português, de onde sai pastifício e, finalmente, o famoso pastel. No Brasil este termo designa, como nós sabemos e os dicionários confirmam, uma massa de farinha de trigo, dobrada em dois, com recheio salgado ou doce, que se frita ou eventualmente se assa - mais ou menos assemelhado, na forma, ao calzoni italiano ou à empanada argentina. Em Portugal, porém, já se nota uma pequena divergência, pois também chamam de pastéis de bacalhau o que para nós chamamos de bolinho. Atravessando a fronteira, já na Espanha, pastel passa a designar o nosso bolo: daí o pastel de novios, aqui conhecido como bolo de noiva.

Tua pergunta despertou um item há muito soterrado na memória: no seriado do Chaves, na versão primitiva apresentada no SBT (eu via com meus filhos pequenos, e ria tanto quanto eles), havia um episódio em que o Chaves, faminto como sempre, passava o tempo todo angustiado, à espera do pastel que alguém havia prometido - que, quando se viu, era um bolo clássico, com glacê e tudo. Parece que o México (pátria do Chaves) é o único país da América Latina que conservou o significado da Espanha; em todos os demais países a palavra designa um pastel semelhante ao nosso, com pequenas variações de massa e de recheio.

E me antecipando a quem possa perguntar, já vou informando que o parentesco dele com o pastel da pintura é muito distante. Esta técnica também vem de pasta, e seu nome vem dos bastões ou lápis coloridos feitos com pastas com pigmentos de cores suaves, que neste caso substituem os pincéis. Como diz poeticamente um site francês de pintura, as cores pastel (o singular é preferível aqui) são cores claras, delicadas e macias, que têm um efeito revigorante e alegre em nosso humor, como se retornássemos à nossa infância...

CLÁUDIO MORENO

"Não posso" ou "não quero"?

Eu errei a minha vida inteira com a prática do "não posso" (em vez do "não quero").

É uma expressão limitante, que delega para casualidades a responsabilidade do meu destino. Como se eu não tivesse mais livre-arbítrio. Como se não fosse eu que regulasse a minha agenda e os meus horários. Como se eu nunca pudesse estar onde preferiria estar, dependendo do fiado de circunstâncias favoráveis.

Pense comigo. Quando você recebe um convite e diz que "não pode", passa a mensagem errada de que algo o impede. Transmite a experiência de que gostaria, mas não tem como. E vai assumindo um compromisso para o futuro, enfrentando um constrangimento com quem fez o convite, que talvez insista com uma outra data. Você vai dando uma desculpa e o interlocutor, entendendo equivocadamente que você está a fim, começa a criar soluções para ter a sua presença.

Há uma dificuldade congênita de recusar propostas ou de simplesmente proferir um "não". Exige muito amor-próprio declarar o imponderável e nada ambíguo: "Não quero, obrigado!". Porque é necessário entender que você não deixará de ser amado, não será substituído, não será posto de lado. O medo da rejeição é responsável pelos falsos positivos.

Quando você adota o "não quero", o assunto está encerrado, e ninguém mais fará gincana para contornar as suas restrições imaginárias, que são tradicionalmente inventadas como um modo de polidez.

Fomos instruídos a dissimular os nossos desejos, a não expor os nossos pensamentos, a aceitar tudo para não comprar nenhuma briga ou suscitar dissidências.

Interpretamos a autoaceitação como consequência do consenso, quando este até em nossa família é impossível. Ao tentar fugir do conflito, você alarga o mal-estar. Pois estará mentindo para si mesmo, faltando com o respeito perante as suas intenções, mostrando-se vacilante e influenciável.

Além do "não posso" ter o efeito assustador de uma bola de neve, envolvendo pessoas próximas como álibis para o impeditivo. Ou é a esposa, ou é o marido, ou é o filho, afora as doenças constantes dos avós (tadinhos, eles sempre estão morrendo).

Ter educação é ser transparente, não enganar, não distorcer, não gerar falsas esperanças, é não fazer ninguém perder tempo para garantir a sua contrariada proximidade.

Eu lembro que na escola avisei para a professora que não poderia ir ao zoológico com a turma porque a minha mãe não autorizava. Era uma farsa da minha timidez. O que não esperava é que a professora telefonasse diretamente para minha mãe. Fiquei com cara de mico durante o passeio inteiro.

CARPINEJAR

04 DE NOVEMBRO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Um convite a descobrir os segredos do Palácio Piratini

No ano em que completa um século, o Palácio Piratini é um símbolo, não só do poder e de seus meandros, mas da importância da preservação e valorização do que é nosso. Quantas vezes sonhamos em conhecer lugares longínquos e nos deleitamos ao adentrar prédios históricos no exterior? E quantos de nós, de fato, já conhecem a sede do governo do Estado do Rio Grande do Sul?

Lançado para marcar o jubileu do prédio no centro de Porto Alegre, o site do palácio (palaciopiratini.rs.gov.br) é um achado. Desde maio, a página vem recebendo um acervo multimídia valioso, que reproduz cada canto da propriedade em minúcias.

O trabalho não só honra o bem público, como permite que, mesmo longe da Capital, todos possam vê-lo, inclusive em um tour virtual - uma alternativa às visitas presenciais, retomadas em agosto. Nas redes sociais, o esforço para popularizar o local inclui apresentações artísticas e vídeos sobre temas variados, com novidades a cada semana.

- A gente está tentando aproximar o palácio das pessoas, tirar um pouco aquela sensação de algo intocável - resume o coordenador da comissão especial do centenário, Mateus Gomes.

Em fotografias, é possível, por exemplo, ver detalhes da antessala do gabinete do governador, que guarda murais do pintor italiano Aldo Locatelli. Pode-se observar, também, a famosa fonte egípcia (foto nº 1, abaixo), no jardim da ala residencial, e os carros oficiais históricos, como o Stutz Car 1928 (foto nº 2). Na rica coleção, há ainda um curioso telefone dourado (foto 3), fabricado especialmente para Borges de Medeiros, primeiro a ocupar o lugar, em 1921. Tudo isso de graça e ao alcance de um clique.

JULIANA BUBLITZ INTERINA

quarta-feira, 3 de novembro de 2021


03 DE NOVEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

O que Einstein devia saber sobre Uruguaiana

A física ensina que a velocidade da luz é constante. Em qualquer situação, será sempre de extraordinários 299 milhões 792 mil 458 metros por segundo. O espaço e o tempo, entretanto, são relativos. Einstein queimou quilos de células cinzentas para fazer essa descoberta. Não precisaria demandar tanto esforço, se tivesse alguns bons amigos. Porque a amizade derrota o espaço e o tempo. Você pode ficar longe do seu amigo durante muitos anos, mas, quando se reencontrarem, será como se ontem mesmo estivessem tomando chopes cremosos juntos.

Quando o afeto é sincero, ele não se encerra, e isso não vale apenas para os sentimentos que uma pessoa tem em relação a outra. Se você gosta de um lugar, o tempo e o espaço podem fazer mudanças, podem até, às vezes, causar decepções, mas o seu carinho por aquele pedaço de chão continuará o mesmo.

Já visitei quase todo o Rio Grande do Sul, graças aos tempos em que trabalhava como repórter. Entre as poucas cidades importantes que não conhecia estava Uruguaiana. Admito, inclusive, que minhas referências de Uruguaiana eram mínimas. Sabia que o grande Eurico Lara tinha nascido na cidade e que dela não queria sair de jeito nenhum. Sabia que Uruguaiana sediava dois times, o Sá Viana e o Ferro Carril, sendo que este último levou 14 a 0 do Inter em 1976. E sabia, é claro, dos empolgantes festivais da Califórnia da Canção.

Fora isso, o que me vinha, quando pensava em Uruguaiana, era a sua distância de Porto Alegre. "Mas como é longe Uruguaiana!", cantou um dia um poeta gaudério, e essa frase me ficou impressa no cérebro.

Por essas razões, quando recebi o convite para ir a um casamento em Uruguaiana, estremeci. "O que haverei de fazer nesse lugar tão remoto?", pensei.

Só que eu precisava ir ao casamento, eram a Vitória e o Gordo que se casavam, e a Vitória é sobrinha da Marcinha, e o Gordo é rapaz de quem todos gostam, e muita gente amiga iria. Logo, não havia como não encarar os 630 quilômetros que separam Porto Alegre de Uruguaiana.

Porém, como já disse, espaço e tempo são relativos. Essa distância, se você for de carro, levará nove horas para cobri-la. Mas eu fui de avião, numa confortável e segura aeronave que fez o mesmo trajeto em uma hora e 15 minutos.

Assim, cheguei rapidamente a Uruguaiana e rapidamente me surpreendi. Porque encontrei uma cidade planejada, de ruas largas, planas, limpas e bem asfaltadas. E melhor: seguras. Há muitos prédios belos e históricos na cidade, e muitos restaurantes ótimos. Provei uma das melhores parrillas da minha vida no aconchegante De la Deni, e olha que escreve aqui um homem que já comeu parrillas na Argentina e no Uruguai.

Fiquei entusiasmado com Uruguaiana e por pouco não volto falando com o sotaque da região, que joga o peso da frase na última sílaba da última palavra. "Então tu vais passar a fronteirááá?".

Ontem, subi até o 10º andar de um prédio e de lá avistei o Rio Uruguai e, na margem do outro lado, a Argentina. Por enquanto, devido à covid, o acesso ao nosso país irmão ainda é complicado. Mas prometi a mim mesmo que, assim que estiver liberado, voltarei a Uruguaiana, comerei uma boa parrilla no De la Deni e, depois, atravessarei a fronteira para me aventurar pela Argentina. Hoje, Uruguaiana não me parece tão longe, como diz a tradição. Porque, como eu e Einstein descobrimos, os lugares e as pessoas pelos quais a gente desenvolve afeto sempre estão próximos.

DAVID COIMBRA

03 DE NOVEMBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

AÇÃO CLIMÁTICA

A grande aflição que cerca a Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP26) é de que o evento termine com compromissos mais ambiciosos e concretos dos países para diminuir a liberação de gases causadores do efeito estufa na atmosfera e, assim, mitigar o aquecimento global. O tempo para discursos que demonstram preocupação, mas que poucos efeitos práticos têm, está se esgotando. Chegou a hora de agir. Um acordo nesse sentido acaba de ser selado em Glasgow, na Escócia, por mais de cem países, entre eles o Brasil. Pactuou-se reduzir as emissões de metano em até 30% até 2030. O ponto de partida é o volume lançado no ano passado.

É verdade que ainda é preciso mostrar como cada país poderá colaborar com tal objetivo. Mas o trato, liderado por Estados Unidos e União Europeia, aponta no sentido certo e, como o horizonte para cumpri-lo é curto, exigirá ações imediatas. Vai ao encontro da urgência que bate à porta do planeta. Também é necessário esclarecer como o Brasil contribuirá. Especula-se que não existirá uma meta específica para o metano, mas em gás carbono equivalente, espécie de cesta que inclui uma série de outras substâncias, como o dióxido de carbono, óxido nitroso, clorofluorcarbonos e o próprio metano.

O Brasil é um dos cinco maiores emissores mundiais de metano. É um tema sensível para o país, portanto. Sabe-se que uma das principais fontes de liberação do gás é a pecuária, setor de grande importância econômica. Está aqui o maior rebanho comercial de bovinos do mundo. Os brasileiros são ainda líderes mundiais em exportação dessa proteína. Mas há uma série de pesquisas, como as desenvolvidas pela Embrapa e por universidades, que mostram alternativas para que a atividade reduza as emissões do gás produzido no sistema digestivo do gado. Entre elas, cuidados com a alimentação, recuperação de pastagens degradadas e a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). São caminhos que, além de sustentáveis, elevam a produtividade da pecuária e das propriedades, com benefícios econômicos.

O metano é o segundo principal poluente, superado apenas pelo gás carbônico. Se desfaz mais rápido na atmosfera, mas tem capacidade de aquecimento muito superior. Reduzir a sua liberação, portanto, poderia tornar mais eficaz no curto prazo a estratégia de limitar a elevação da temperatura do planeta e, por consequência, as mudanças climáticas que tendem a tornar mais frequentes eventos extremos.

Na COP26, o Brasil se comprometeu ainda a reduzir em 50% a emissão de gases de efeito estufa até 2030. A meta anterior era de 43%. Volta-se apenas ao que o país prometia em 2015, mas, de qualquer forma, é um aceno na direção correta. Da mesma maneira, firmou o compromisso de acabar com o desmatamento ilegal em 2028, uma antecipação de dois anos. Agora, resta o desafio de implementar políticas ambientais robustas que permitam acreditar na sinceridade dos objetivos. Por enquanto, pelo histórico recente, prepondera a desconfiança.

 


03 DE NOVEMBRO DE 2021
MÁRIO CORSO

Fake news ou pega-trouxa?

Gostaria de lembrar a fonte, alguém sugeriu que a melhor tradução para fake news seria "pega-trouxa". Creio que o primeiro passo para combater as "notícias falsas" - numa tradução direta que não revela nem sua malícia nem sua capacidade destrutiva - seria substituir pelo mais certeiro pega-trouxa. Afinal, nesses casos, ou alguém está enganado, ou está deliberadamente enganando.

Saudade do tempo em que essas "notícias" estavam na esfera das lendas urbanas. Naquela época, as próteses de silicone das aeromoças explodiam quando o avião alcançava determinada altitude; os esgotos de Nova York eram habitados por crocodilos albinos gigantes; depois de uma noite de bebedeira, pessoas acordavam em uma banheira com gelo, sem seus rins, que foram roubados. Enfim, histórias situadas no arco entre o grotesco e o absurdo, mas inocentes em suas consequências.

Em uma feira do livro, uma década atrás, quando esse assunto ainda era tratado como folclore, Jean-Bruno Renard, professor de sociologia, disse que uma das vantagens do tema seria medir o conhecimento de uma pessoa. Como se acreditar nessas lorotas fosse um termômetro que revelasse a credulidade e o nível intelectual de alguém. Passados uns anos, infelizmente, o pega-trouxa fornece também o índice do analfabetismo científico.

Se antes as lorotas eram inocentes, agora podem causar dano. Quantas mortes poderiam ter sido evitadas se não houvesse pega-trouxas desinformando sobre as vacinas?

Pouco depois de o nosso presidente dizer o absurdo de que as vacinas podem causar aids, já havia um vídeo na internet revelando de onde ele sacou tal informação. Tentando uma aura de credibilidade, o vídeo cita artigos e revistas internacionais, requentando um assunto que quem acompanha os estudos para desenvolver uma vacina para aids sabe de onde ele tirou. Em 2006, pesquisadores interromperam uma das pesquisas dessa vacina porque ela provocava uma resposta imune mais forte em quem já tinha sido exposto ao adenovírus-5, usado como vetor.

É assim que pega-trouxas são criados. Pega-se uma informação paralela ao tema, tira-se do contexto, distorcem-se os dados, usa-se o que os cientistas disseram para outra realidade e cria-se uma narrativa que coloca em dúvida a segurança das vacinas como um todo. Quem passa esse tipo de vídeo adiante é um trouxa, mas quem o produz é um ignorante ou um perverso?

A história humana é vasta, a ciência ainda mais, impossível saber sobre tudo. Somos todos potencialmente trouxas, por isso a ignorância nos assombra. Fico lembrando das bobagens em que já acreditei, ETs em seus discos voadores eram minha especialidade. Ficar esperto é uma luta constante, pois somos bons em praticar o autoengano, especialmente quando envolve paixão política.

MÁRIO CORSO

03 DE NOVEMBRO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Chamado à comunidade italiana

O Comitê dos Italianos no Exterior (Comites), que representa a comunidade nas relações com as representações diplomático-consulares, convida para as eleições de renovação do órgão no RS. A votação vai até três de dezembro. Podem participar cidadãos italianos natos ou com cidadania obtida antes de 31 de dezembro de 2020, que sejam maiores de idade, tenham os dados civis atualizados, residam no RS e estejam inscritos no Consulado-Geral de Porto Alegre até três de junho deste ano. Para mais detalhes sobre como votar, acesse o site consportoalegre.esteri.it.

Pedalada por ciclovia

Depois de rodar 150 quilômetros até o Palácio Piratini no último dia 23, ciclistas do Vale do Rio Pardo preparam uma nova pedalada para reivindicar uma ciclofaixa na RS-471. No próximo sábado, o grupo vai percorrer 35 quilômetros entre Santa Cruz do Sul e Sinimbu, município de colonização alemã que vem atraindo o interesse de cicloturistas. São esperados cerca de 500 participantes.

Nota máxima

A Fundação Escola Superior do Ministério Público recebeu, pelo terceiro ano seguido, cinco estrelas no Guia da Faculdade do Estadão 2021. A instituição é a única faculdade de Direito do RS a ganhar nota máxima e a única do Sul com a distinção.

JULIANA BUBLITZ INTERINA

02 DE NOVEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

A briga mais original do mundo

Depois do jogo entre Grêmio e Palmeiras, deu-se toda aquela confusão que se viu. Torcedores do Grêmio invadiram o campo, quebraram a sala do VAR, confrontaram a Brigada Militar... o tumulto de praxe. Mas lá em cima, nas arquibancadas, um grupo de gremistas e outro de palmeirenses se empenharam numa das brigas mais originais a que já assisti.

Eles estavam separados por uma alta parede de vidro, tão sólida que não conseguiam transpô-la. Só que isso não impediu que lutassem com denodo. Ambos os grupos desceram até o final da parede, os palmeirenses no lado esquerdo e os gremistas no lado direito. Como o espaço era reduzido, um campeão de cada grupo foi escolhido para o duelo. Então, o gremista enviava um soco em curva, contornando a parede com o braço direito, tentando atingir o palmeirense do outro lado. O palmeirense se esquivava, mas não recuava, porque, em seguida, era a vez dele. Assim, ele arremessava o punho esquerdo pelo lado da parede, tentando acertar o gremista.

Ficaram algum tempo envolvidos nessa espetacular briga sem contato físico. Para respeitarem completamente os protocolos da covid, faltou apenas que os dois estivessem de máscara. Não estavam. Lamentável.

Há um poder dominando o Grêmio

Há uma melancólica sintonia de alma entre o time e a torcida do Grêmio. Ambos estão com os nervos despedaçados. O Grêmio tem até jogado bem, mas, se leva um gol, se desmancha. Falta-lhe a autoconfiança indispensável para tentar a reação.

Neste momento, não adianta procurar culpados; é preciso procurar, tão somente, soluções. O que fazer para devolver aos jogadores a certeza de que eles podem vencer?

Contratar psicólogos?

Palestrantes motivacionais?

Padres e pastores?

Não sei. Mas sei que é aí que a direção do Grêmio tem de trabalhar: na cabeça dos jogadores.

É interessante isso. É até bonito de observar esse poder do nosso cérebro. Ele muitas vezes nos sabota, inventa perigos, nos enche de medos. Nós sabemos que aquele temor é irreal, mas não conseguimos refreá-lo. É como a paixão. O homem apaixonado é um doente, ele está fora de si e da realidade. Não adianta falar, não adianta aconselhá-lo. Ele não ouvirá. Ele não quer ouvir. No entanto, depois, quando a paixão finalmente se esvair, ele ficará surpreso consigo mesmo: como pude fazer tantas bobagens por essa mulher?

Nenhum de nós está a salvo do seu próprio cérebro. As camadas inferiores da nossa inteligência e do nosso espírito vez em quando assomam, dominam as superiores, e nos fazem mal. É o que está acontecendo com o Grêmio. Numa situação de pânico, o subconsciente o controlou. Fugir desse jugo nefasto significa fugir da segunda divisão.

DAVID COIMBRA

02 DE NOVEMBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

TRUCULÊNCIA COMO RESPOSTA

As agressões a cinco equipes de reportagem que cobriam a passagem do presidente Jair Bolsonaro por Roma, na Itália, onde fez parte do encontro do G-20, lamentavelmente compõem um contexto cada vez mais desafiador para os jornalistas brasileiros e veículos de comunicação profissional. Episódios do gênero não têm sido isolados e, mais grave, parecem contar com o encorajamento ou ao menos com o beneplácito da mais alta autoridade da República, que se mostra outra vez refratária a preceitos democráticos, como a liberdade de imprensa.

Ainda em meados do mês passado, a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, na sigla em espanhol) divulgou o Índice Chapultepec 2021, que avalia os níveis de liberdade de imprensa e de expressão nas Américas. O Brasil, uma das maiores democracias do mundo, aparece em uma posição vexaminosa, mas que capta muito bem o momento atravessado. Entre 22 nações analisadas, é o 18º. Surge à frente apenas de Nicarágua, Cuba e Venezuela, que estão no pior dos cinco graus de classificação, o de "sem liberdade". O Brasil foi ranqueado no patamar "alta restrição", enquanto na ponta de cima os países de melhor pontuação são Uruguai e Chile. Dois quesitos verificados no índice são "exercício do jornalismo" e "violência e impunidade".

Não se pode naturalizar e aceitar que profissionais da imprensa sejam vítimas de insultos e violência física apenas por estarem cumprindo seu papel de perguntar para tentar obter esclarecimentos sobre assuntos de interesse público e levar a melhor informação possível à sociedade. Bolsonaro, repetindo circunstâncias anteriores, respondeu com impropérios a questões pertinentes e corriqueiras, como o motivo de não ter participado de alguns eventos do G-20 e de decidir não ir à COP26, em Glasgow, na Escócia. 

A cúpula do clima é um encontro considerado decisivo pelo mundo na construção de consensos que busquem frear o aquecimento global, um tema em que o Brasil deveria ser protagonista. O presidente, infelizmente, tem reiteradamente se mostrado truculento quando é indagado sobre temáticas que lhe desagradam ou quando simplesmente não tem explicação razoável. A missão dos jornalistas e da imprensa, no entanto, é exatamente a de jogar luz sobre fatos que necessitem de melhor elucidação, como atos de um presidente da República. A obrigação do governante, por outro lado, é prestar essas informações que, ao fim, são relevantes para os governados, seus eleitores ou não.

Intimidações, agressões e insultos, também enfrentados em diferentes graus em governos anteriores, não fizeram e não farão os profissionais do jornalismo recuar na tarefa de formular as perguntas necessárias. Mas é preciso uma reflexão sobre as perigosas consequências da escalada beligerante em curso. A violência física e verbal deve cessar. Aguarda-se ainda a devida apuração do ocorrido em Roma. O que está em jogo, afinal, é o direito constitucional da sociedade de ter assegurado o acesso à informação. Liberdade de imprensa é, além de base da democracia, um valor associado ao nível de desenvolvimento das nações.

 


02 DE NOVEMBRO DE 2021
NÍLSON SOUZA

Além da aparência

A verdade verdadeira é que ainda nos guiamos muito pelas aparências. Aquela moça da farmácia que sugeriu aos colegas contratar pessoas bonitas não estava tentando inventar a roda. Estava, infelizmente, apenas reproduzindo um pensamento dominante na nossa sociedade: entre o belo e o feio, nosso cérebro, condicionado por séculos de padronização e preconceitos, tende a seguir a indicação do primeiro olhar. A beleza interior - o essencial, na visão de Saint-Exupéry - é invisível para os olhos.

No Brasil, a expressão "boa aparência" foi banida dos anúncios de emprego e dos processos formais de recrutamento de pessoal pela legislação. Difícil é tirar da cabeça das pessoas a ideia preconcebida de que o bonito está associado ao bom, ao desejável e ao confiável, enquanto seu oposto é rejeitável - talvez com exceção destes dias de Halloween, em que monstrinhos e bruxinhas se sentem autorizados a botar as manguinhas de fora.

Estou lendo História da Beleza, um livro organizado pelo italiano Umberto Eco e ilustrado por obras-primas da arte em todos os tempos. O propósito do ensaio, exposto na sua introdução, é exatamente demonstrar que o conceito do belo varia de acordo com a época e a cultura. Vale, segundo o autor, para a beleza física de homens e mulheres, mas também para ideias, comportamentos e expressões artísticas. Nem tudo é relativo, porém. (E nem Einstein disse isso referindo-se ao relativismo moral e cultural usados para justificar atrocidades.) Há padrões universais aceitos por todos os povos em todas as épocas - tanto de beleza quanto de humanidade.

Quem ama o feio, bonito lhe parece é o provérbio popular que resume bem o caminho virtuoso entre os olhos e o coração. Ainda que o Barão de Itararé tenha feito gracinha com a frase ("Quem ama o feio é porque o bonito não aparece", brincou), nosso aperfeiçoamento como seres humanos exige este esforço constante de irmos além do visual, de buscarmos no outro o conteúdo que a embalagem nem sempre mostra. Resumo da ópera: menos aparência e mais essência.

Em outras palavras: menos redes sociais e mais Feira do Livro, que está em plena atividade no centro da Capital. Bom proveito.

NÍLSON SOUZA

02 DE NOVEMBRO DE 2021
INFORME ESPECIAL

O desafio de quem combate a fome (e como ajudar)

Os voluntários que trabalham para aplacar o desespero de quem tem fome nunca foram tão necessários. Homens e mulheres dedicados a amenizar as agruras do próximo andam alarmados com o aumento da demanda. A crise, o desemprego e a recente escalada da inflação desafiam entidades e projetos.

As iniciativas são muitas: Banco de Alimentos, Rango Solidário, Cozinheiros do Bem, Cozinha Solidária da Azenha, entre tantas outras. Todas fazem o possível e o impossível para atenuar a dor alheia.

Em Porto Alegre, o Rango Solidário, por exemplo, mantém uma geladeira comunitária no bairro Bom Fim e distribui cerca de 200 refeições aos sábados, na Praça do Colégio Rosário. As filas são cada vez maiores.

- Fazemos isso como se fosse para nós mesmos. É comida boa. A procura não só cresceu como algumas pessoas chegam até nós sem ter comido nada nas 24 horas anteriores - relata o empresário Divino Aguiar.

No grupo Cozinheiros do Bem, que distribui 15 toneladas de mantimentos por semana, não é diferente. O chef Julio Ritta conta que a responsabilidade cresceu:

- Desde que conquistamos uma sede própria, cedida pelo governo do Estado, a demanda se tornou quatro vezes maior. É assustador, mas não podemos desistir.

Com mais de 20 anos de história, a Rede Banco de Alimentos do Rio Grande do Sul auxilia cerca de 300 entidades, como asilos, creches e associações de bairro. De 2020 para cá, a entidade conseguiu entregar oito mil toneladas de produtos. Agora, busca ampliar as doações com a campanha Natal do Bem.

- A situação social e econômica levou a uma redução das contribuições. As pessoas seguiram ajudando, mas com menos recursos. Esperamos reverter isso. O flagelo da fome é inaceitável - diz o presidente voluntário da rede, Paulo Renê Bernhard.

JULIANA BUBLITZ INTERINA

segunda-feira, 1 de novembro de 2021


01 DE NOVEMBRO DE 2021
DAVID COIMBRA

Sérios questionamentos de feriadão

Por que os hotéis prendem o lençol no colchão? É muito irritante. Você vai se deitar e, para não se sentir mumificado, tem de arrancar o lençol com os pés, empurrando-o com força para cima, até que o colchão o liberte. Só que às vezes a cama tem dois colchões e os lençóis são maiores. Aí as camareiras se dão ao inexplicável trabalho de enfiar o lençol entre os dois colchões, o que torna mais difícil a tarefa de soltá-lo. Você se esfalfa tanto, que perde o sono.

Todos os hotéis do mundo fazem isso. Todos. Quando estive no Japão e na Coreia, pensei: aqui, no Oriente Longínquo, esse hábito ainda não terá chegado. Qual o quê! Japoneses e coreanos também prendem o lençol no colchão.

Agora, o pior não é isso, chocado leitor. O pior é que a Marcinha prende o lençol no colchão! Dentro da minha própria casa! Ou seja: todas as noites eu sou obrigado a chutar o lençol para cima. Pergunto a ela:

- Por quê? Por quê???

Ela não sabe me responder. É mais forte do que ela, ela não consegue arrumar uma cama sem prender o lençol no colchão.

Talvez a Marcinha tenha adquirido esse costume em suas viagens. Notava que o hotel prendia o lençol no colchão e pensava: se a camareira do hotel faz isso, deve ser o correto.

Não é.

Por Deus que não é.

Aí é que está: as viagens iludem a gente. É por essa razão que, quando você quer dizer que outra pessoa está fora da realidade, você diz:

- Ih! Está viajando...

Ou seja: a ideia da viagem é essa mesmo, tirá-lo da sua vida comezinha e colocá-lo num mundo que não é seu. Por 15 dias, você se sente morador de Paris ou Nova York, você veste sobretudos, come queijo depois da sobremesa, visita museus e bibliotecas. Você é fino. No entanto, quando as férias terminam, você se lembra que não é de Paris nem de Nova York, você é do Partenon. E não me venha você, que também é do Partenon, reclamar que seu bairro é maravilhoso. Pode ser, mas não é Paris nem Nova York (o IAPI é).

Aliás, essa história de dizer que o outro está viajando começou de fato com a expressão "viajando na maionese". Que, para mim, é indecifrável. Por que uma pessoa com ideias irreais "viaja na maionese"? Será que a maionese estava estragada, ela ficou doente e agora está tendo delírios? Ou ela escorregou na maionese derramada e foi aterrissar num lugar inóspito? Se foi isso, caberia dizer: "Não adianta chorar sobre a maionese derramada".

Enfim, estou cheio de questionamentos fulcrais neste feriadão. Farei outros, nos dias que virão. Ajude-me, sábio leitor.

DAVID COIMBRA 


01 DE NOVEMBRO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

O AVISO DO TSE

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) emitiu, na última quinta-feira, uma sinalização contundente para as candidaturas que se habilitarem para o pleito do próximo ano. A disseminação de notícias falsas, desinformação e teorias conspiratórias pode ter graves conse- quências, como a anulação dos registros e até prisões. Os alertas categóricos, uma tentativa de coibir estratégias subterrâneas e irresponsáveis que buscam atingir adversários ou atentar contra a democracia brasileira e as instituições, surgiram ao fim de dois julgamentos. O mais esperado acabou rejeitando ações que buscavam a cassação da chapa do presidente Jair Bolsonaro e do vice Hamilton Mourão. No outro, a decisão foi pela perda de mandato do deputado estadual paranaense Fernando Francischini (PSL), acusado de espalhar notícias falsas sobre as urnas eletrônicas em 2018.

A despeito do desfecho favorável para Bolsonaro e Mourão, ministros do TSE como Alexandre de Moraes e o presidente da Corte, Luís Roberto Barroso, foram claros: não há dúvida de que, ao longo da campanha, três anos atrás, lançou-se mão de estratagemas ilegais como disparos em massa de desinformação contra oponentes. Mas não foi possível, desta vez, obter provas que estabelecessem conexão direta entre o fato e a chapa vencedora, nem se os subterfúgios foram decisivos para o resultado nas urnas. Mesmo assim, firmou-se a tese de que a prática, usada para angariar votos e difamar adversários, pode configurar abuso econômico e uso indevido dos meios de comunicação social.

A utilização massiva das redes sociais, muitas vezes à margem da lei e com avalanches de desinformação, é fenômeno relativamente recente. Mas, sabe-se, foi largamente empregada no Brexit, em 2016, e nas eleições norte- americanas do mesmo ano. Repetiu-se no Brasil em 2018 e, com diferentes objetivos, milícias digitais, de todos os espectros ideológicos, seguem a agir e a promover campanhas de ódio. Felizmente, a expectativa de impunidade, muitas vezes devido à atuação sob o manto do anonimato, vem sendo abalada com inquéritos e prisões no país. Aos poucos, órgãos de investigação vão acumulando conhecimento e compreendendo como identificar responsáveis e reunir provas e a Justiça Eleitoral fixa entendimento de como interpretar e enquadrar esses delitos.

Notícias falsas não são mentiras inocentes. Têm uma série de repercussões perigosas para a sociedade. Em uma pandemia, podem induzir a comportamentos que levem à morte. Em uma eleição, têm o potencial de desvirtuar o voto dos cidadãos, que deveria ser livre e consciente, mas acaba contaminado, levando o eleitor a uma decisão baseada em premissas falsificadas ou distorcidas. Ao fim, vilipendia-se a própria democracia. Resta esperar que os avisos dos ministros do TSE acerca do caso que envolveu a chapa encabeçada por Bolsonaro e a cassação do deputado paranaense sejam pedagógicas o suficiente para que se reprimam práticas semelhantes de todos os partidos e candidaturas no decorrer da campanha das eleições gerais de 2022.

OPINIÃO DA RBS

Público lota a Praça da Alfândega

Clima agradável em meio ao feriado levou multidão às bancas no retorno do maior evento literário do Rio Grande do Sul

A Praça da Alfândega lotou no fim de semana, na retomada da tradicional Feira do Livro de Porto Alegre. Após um ano de ausência, forçada pela pandemia, o maior evento literário do Rio Grande do Sul voltou com força neste outubro de 2021, em sua 67ª edição.

Não é exagero dizer que milhares de pessoas passaram pela feira entre o sábado e o domingo. A maioria, lógico, espia muito e compra pouco. Mas muitos não resistiram a levar para casa pelo menos uma lembrança - um romance, uma biografia, um livreto infantil - ou a tomar um chope gelado neste fim de semana de clima ameno, sol a pino e vento primaveril.

Otimismo

Mesmo com tamanho reduzido e filas de barracas a menos, por cautela diante da pandemia, os primeiros movimentos dão margem a muito otimismo. O livreiro Rafael Guimaraens, da Editora Libretos, disse que está surpreso com a volta maciça do público.

- Achei que o pessoal estaria temeroso, mas vieram com tudo. O sol e a brisa deram o clima ideal para o pessoal sair de casa. Está super - define Guimaraens.

A Libretos vendeu 150 livros em dois dias, número definido como ótimo pelo editor. Em 2018, por exemplo, foram apenas 30 exemplares no primeiro dia e menos de cem em dois dias.

Feira do Livro é também sinônimo de reencontro anual com amigos. Rafael Guimaraens estava de bate-papo, na tarde de domingo, com o repórter fotográfico Luíz Ávila, que elogiou a cautela dos frequentadores.

- Ninguém sem máscara, até as crianças respeitam. Pudera, um ano e meio de vírus, alguma coisa a gente tem de aprender. O distanciamento é impraticável na praça, mas estamos ao ar livre e cada barraca tem sortimento de álcool para os clientes. É com alívio, quase um suspiro, que a gente constata: estamos vivos - celebra Ávila.

Biografia

Além de conversas deliciosas, de chope gelado, de churros na sobremesa e de músicos ao ar livre, a feira é feita também de livros, claro. De todo tipo, para todos os gostos. Entre os lançamentos, um que está vendendo como pão-quente em fim de tarde é a biografia do empresário Clóvis Tramontina - Valor, Força e Coragem, editada pela AGE.

- É nosso carro-chefe este ano, e a renda será toda destinada pelo autor para entidades beneficentes. O movimento está muito bom, o sábado foi excelente nas vendas de todos os livros, a gente não esperava tanto - comemora Marcelo Ledur, um dos dirigentes da AGE.

HUMBERTO TREZZI


01 DE NOVEMBRO DE 2021
CLAÚDIA LAITANO

Anos Gilberto Braga

Para dimensionar a importância de Gilberto Braga na teledramaturgia brasileira, basta tentar lembrar o nome de qualquer outro autor de novelas associado à queda de um presidente da República.

Anos Rebeldes (1992) não inventou os caras-pintadas nem os protestos contra o governo Fernando Collor, que acabaram culminando no impeachment, mas era ao som de Alegria, Alegria, música da abertura da minissérie, que os estudantes do início dos anos 1990 protestavam, talvez inspirados pelo que estavam assistindo na TV naquele momento. Em horário nobre e com elenco global, Anos Rebeldes levou para a sala de jantar da família brasileira referências à tortura e outras delicadezas impostas ao país, alguns anos antes, pela ditadura militar - e nem as profecias mais sombrias feitas naquela época teriam sido capazes de prever o tipo de gente que estaria no poder 30 anos depois.

Gilberto Braga, que completaria 76 anos hoje, lançou moda (Dancin? Days), ilustrou a Lei de Gerson (Vale Tudo) e criou alguns dos melhores mocinhos e vilões da televisão brasileira. Durante décadas, os espectadores vibravam quando viam seu nome nos créditos: sua assinatura era uma espécie de chancela de qualidade, mesmo em uma plataforma com uma margem tão estreita para o exercício de uma marca autoral.

Além de tudo aquilo que, com justiça, vem sendo lembrado nos últimos dias, merece destaque o papel de Gilberto Braga na adaptação de livros para a televisão. Depois de estrear na Globo, em 1972, com um Caso Especial baseado no romance Dama das Camélias, do francês Alexandre Dumas Filho, o autor enfileirou adaptações de clássicos da literatura brasileira. Isso porque, entre 1975 e 1982 (ou seja, no auge da minha fissura por telenovelas), o horário das seis era reservado para adaptações literárias.

A estreia de Gilberto Braga nessa faixa foi com Helena (1975), baseada em Machado de Assis, seguida alguns meses depois por Senhora (1975), sobre o romance de José de Alencar. No ano seguinte, Gilberto Braga emplacou um dos maiores sucessos da emissora: Escrava Isaura (1976), versão do romance de Bernardo Guimarães. Depois vieram Dona Xepa (1977) e Lua Cheia de Amor (1990), ambas baseadas na peça de Pedro Bloch, e Força de um Desejo (1999), folhetim de época inspirado em três romances do Visconde de Taunay. No meu ranking particular, a melhor adaptação literária com sua assinatura não é uma novela, mas a minissérie Primo Basílio (1988), baseada no romance de Eça de Queiroz.

Escrevendo no Brasil, Gilberto Braga pode ter sido a única ponte entre espectadores e livros que eles nunca tiveram a chance (ou a vontade) de ler. Em um país que lê tão pouco e em que uma escrava branca que toca piano e fala francês é a representação mais conhecida da escravidão, não é pouca coisa.

CLAÚDIA LAITANO