sábado, 28 de maio de 2011



29 de maio de 2011 | N° 16714
VERISSIMO


Pés em Roma

Os pés da Virgem de Caravaggio estavam errados, os dedões apontavam para onde não deviam

Por um breve momento, quase que entrei para a história da arte com uma descoberta alucinante. Estávamos diante da Madonna di Loreto, também conhecida como Madonna dos Peregrinos, de Caravaggio, na igreja de SantAgostino, em Roma. A Virgem com o menino no colo sendo adorada por um casal de peregrinos.

A Virgem de pé, os peregrinos ajoelhados à sua frente. Caravaggio usava gente do povo nos seus quadros religiosos e, embora não se veja seus rostos, sente-se a devoção simples do casal mal-vestido na sua atitude reverencial diante da visão.

Dizem que essa pintura de Caravaggio foi importante na iconização individual da Virgem à parte do seu papel no drama de Cristo, uma novidade na arte cristã. A própria Virgem do quadro é de uma simplicidade tocante. Não fosse o halo sobre sua cabeça e ela seria apenas uma jovem mulher descalça que passa com o filho no colo.

Mas havia alguma coisa errada no quadro. Os pés, descobri. Os pés da Virgem estavam errados. Os dedões da Virgem apontavam para onde não deviam. Como não existia, que eu soubesse, nenhuma referência a essa distração do pintor nos estudos sobre a sua obra, deduzi que eu era o primeiro a ver aquilo. Quatrocentos anos depois, eu flagrara um erro do Caravaggio!

Seria possível? Durante 400 anos ninguém notara que o dedão do pé direito da Madonna di Loreto era um equivoco anatômico? Se eu era realmente o primeiro a notar o fato, poderia começar a pensar na notoriedade que a descoberta me traria. Talvez publicasse algo a respeito, uma releitura da obra de Caravaggio, que – sendo sabidamente um mestre em anatomia – teria errado os pés da Virgem deliberadamente, para deixar uma mensagem.

Ou então se enganara mesmo. Acontece com qualquer gênio. Um dia ruim, uma ressaca (Caravaggio bebia muito) e quem se importa de que lado é o dedão? De qualquer forma, toda a história da arte pós-renascentista teria que ser revista. Eu daria palestras.

Eu... Mas interrompi meu próprio delírio. Espera um pouquinho. O dedão do pé direito da Virgem está trocado, apontando para fora quando deveria estar apontando para dentro, porque não é o pé direito da Virgem. É o pé esquerdo.

A Virgem era uma mulher que passava, portanto colocava uma perna na frente da outra. Cruzava as pernas. O pé que aparece sob sua túnica do lado direito é o pé esquerdo. Tudo explicado, pensei, decepcionado. Recolhi meu delírio e minha pretensão de corrigir 400 anos de má observação em alguns minutos, e ainda por cima com um olhar apressado de turista. Caravaggio estava certo. Se, claro, a sua Virgem está mesmo com as pernas cruzadas.

Na verdade, os pés que dominam o quadro não são os da Virgem, são os do peregrino, em primeiro plano. As solas sujas dos pés de um homem do povo ajoelhado. Foi a sujeira destes pés que a Igreja achou desrespeitosa e por isso não pagou o quadro que tinha encomendado a Caravaggio.

A maior parte dos quadros de Caravaggio foi comissionada pela Igreja, mas as solas sujas não foram aceitas. Não sei quanto tempo demorou para a objeção ser suspensa e o quadro acabar numa capela lateral da Igreja de Sant’Agostino, mas as solas sujas finalmente estão lá.

Caravaggio talvez não quisesse dizer nada com as pernas cruzadas ou não cruzadas da Virgem, mas, no caso das solas dos peregrinos, a Igreja custou mas entendeu a mensagem.


28 de maio de 2011 | N° 16713
NILSON SOUZA


O avô do pirata

Cada vez que vejo Jack Sparrow, me lembro do Capitão Blood. Há um oceano de distância entre um e outro, mas no meu imaginário eles são parentes próximos. Juntando as pontas, Sparrow – todo mundo sabe – é o afetado comandante do Pérola Negra, o navio fantasma da série Piratas do Caribe, agora em três dimensões.

Peter Blood – talvez nem todos os leitores saibam – é uma espécie de avô de Sparrow. Personagem imaginado pelo escritor Rafael Sabatini, Blood é um médico irlandês desterrado para a Jamaica como escravo, que acaba se transformando em pirata e formando com a sua tripulação de ex-cativos uma imbatível armada flutuante.

O livro é tão empolgante, que nem precisavam ter feito o filme. Sabatini, exímio contador de histórias, especializou-se em romances de aventura de capa e espada. Comecei a ler aquele livro e não pude parar mais.

Em seguida, descolei um segundo volume, A Volta do Capitão Blood. Devorei-o com a mesma avidez e depois fui para O Gavião do Mar, que segue no mesmo embalo – navegadores audazes, bucaneiros sem pátria, mas defensores de causas defensáveis, sempre com toques de coragem, humanidade e humor.

Quando o escritor morreu, em 1950, aos 75 anos, sua mulher mandou gravar na lápide do seu túmulo a primeira frase de um de seus romances mais célebres, Scaramouche: “Nasceu com o dom do riso e a crença de que o mundo estava louco”...

Me diverti muito com as loucuras do Capitão Blood e com suas manobras espirituosas para iludir vilões de todos os calibres. A literatura é um poderoso estímulo à imaginação. Um texto bem escrito tem o poder de cativar, de emocionar, de levar o leitor para o centro da história.

Por mim, nem precisavam ter feito o filme. Mas fizeram. E foi um sucesso mundial, com Errol Flynn interpretando o herói e se consagrando como galã. Mas Johnny Depp também é show no papel de Jack Sparrow. Dizem que ele se inspirou no roqueiro Keith Richards, dos Rolling Stones, para encarnar aquele pirata cheio de trejeitos. Se é verdade, ficou melhor do que o modelo.

E os roteiristas ainda meteram na sua boca frases engraçadas e inteligentes. Como essa, pronunciada no episódio do Baú da Morte: “Nos desonestos pode-se sempre confiar na desonestidade. Honestamente, os honestos é que deveriam ser vigiados, pois nunca se sabe quando farão alguma coisa realmente estúpida”.

Genial. O Capitão Blood ficaria orgulhoso do seu neto.

Lindo sábado para você. Gostoso fim de semana.


28 de maio de 2011 | N° 16713
PAULO SANT’ANA


O trambolho no meio-fio

Vejam se não é fantástico este episódio que está se desenrolando na Rua Liberdade, número 170, Bairro Rio Branco, em Porto Alegre.

Há meses, foi abandonado naquele local, evidentemente que no leito da rua, um carro de marca Mondeo.

Durante três meses, o carro ficou abandonado na rua, o dono do carro ou ladrões o abandonaram na rua.

Até aí, tudo bem. Não sei se durante esses 90 dias houve moradores da rua que telefonaram para a prefeitura para pedir a remoção do carro.

O que sei é que agora a Rua Liberdade está sofrendo reformas no seu asfaltamento.

E, para tanto, a EPTC ou a Secretaria de Obras removeu o carro para junto da calçada defronte, ficando o veículo diante de um prédio de apartamentos.

Só que, depois de reasfaltada a rua, restou no leito dela, do outro lado da origem, o carro Mondeo, como um monumento ao descuido do poder público com a ordem urbana nos logradouros.

Pasmem os leitores com o último acontecimento em torno do carro da Rua Liberdade: o condomínio defronte ao qual está estacionado o carro Mondeo agora foi intimado pelas autoridades a retirar dali, com urgência, o carro abandonado.

O raciocínio das autoridades é de que, não havendo donos para o leito da rua, o “dono” presumido será aquele proprietário de imóvel mais próximo da incidência do abandono do carro, no caso o condomínio adjacente.

Ou seja, a fina flor do burocratismo alimentado no terreno fértil da coisa pública lançou a sua sentença: o condomínio, ou seja, o prédio mais próximo do carro abandonado, será responsável pela retirada dele do leito da rua.

É um absurdo tão grande, uma idiotice tão estrepitosa como seria cobrarem de qualquer cidadão os cuidados veterinários a um cão pestilento que recém invadiu o quintal da sua residência.

Notem a estupidez a que se dedica a burocracia: certamente, quando removeram o carro de lugar na rua para asfaltá-la, ali já deveriam a autoridade ou seus agentes saber quem era o proprietário do veículo, para solicitar dele a remoção.

Não o fizeram. E, manu militari, atiraram o carro para a frente do condomínio.

Asfaltaram a rua e agora querem-na livre do trambolho indesejável. A máquina pública, no entanto, se exime de qualquer tarefa na remoção do carro, deseja que ela seja custeada pela iniciativa privada, que nada tem a ver com esse curioso impasse.

Isso se chama, em qualquer lugar civilizado, uma arbitrariedade.

Para a qual devem ter contribuído dezenas de beócios, pessoas que não raciocinam, pois se um deles só tivesse raciocinado, esse carro há muito tempo já teria sido recolhido a um depósito público.


28 de maio de 2011 | N° 16713
ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES


Charamuscas & Picholeios

1. Grandes comemorações estão assinalando no Alegrete o centenário de nascimento de Waldemar Borges, que foi prefeito do município de 1956 a 1959. E que Prefeito! Gauchão simples, fazendeiro, ficou famoso por bordar o mapa alegretense com estradas.

E pela honestidade (aliás, não há até hoje caso de político alegretense desonesto). Mas Waldemar Borges ainda fazia mais: como ele pegou a prefeitura praticamente falida e sem crédito, para comprar qualquer coisa para o serviço público ele empenhava o seu nome pessoal, porque sabia que sua palavra valia mais que um documento escrito. Perdeu muito dinheiro assim: “Não tem dinheiro para fazer aquela ponte no Caverá, Prefeito!”. “Eu tenho. Faz que eu pago”.

E pagava mesmo. E assim gastou uma estância... Grande amigo da minha família (o Aldo meu irmão, foi secretário municipal na gestão Borges). Waldemar Borges morreu em junho de 1999, aos 88 anos. Foi um grande prefeito, mas o que ele era mesmo era um grande gaúcho.

2. O Clube Pitôco, que é quase uma confraria de aficionados ao mais tradicional jogo de cartas do Estado, elegeu e empossou a nova diretoria nesta semana: o presidente é Vitor Borges de Melo; o vice, J.M. Vargas; o primeiro secretário, Eduardo Martins; o segundo, André Goelzer; o primeiro tesoureiro, Juarez Alves; o segundo, J. Fontoura; o diretor social, Juliano Murad. Tudo gente nova, uma verdadeira renovação, diretoria executiva da qual muito se espera.

Os veteranos ficaram para o conselho deliberativo: Bráz Amarillo, João Rodrigues (o Charrua, grande declamador), Leonel Távora (presidente que deixa o cargo), Luiz Nilson, vulgo Peruca, Miguel Fernandes, o único serrano que joga truco, Nei Machado, uma lenda viva do truco, e Vicente Cardoso. Eu, que sou patrono do Clube de Truco Pitôco e que não entro em eleições, dou os mais sinceros parabéns aos novos dirigentes.

3. Recebi um livro sensacional, 1933 A Invasão de Santo Tomé, mais uma obra do escritor e pesquisador Iberê Athayde Teixeira. Por duas vezes gente de São Borja cruzou o rio Uruguai e invadiu a cidade argentina de Santo Tomé, na província de Corrientes no ano de 1933, o que custou ao governo brasileiro uma pesada indenização.

O caudilho que liderou a façanha foi Benjamin Vargas, o famoso Bejo Vargas, sobrinho de Getulio Vargas. Bejo era uma figura incrível: moço, valente, um líder inato.

Seu braço executivo era o Tenente Gregório Fortunato, que mais tarde ficaria famoso na História do Brasil como comandante da guarda pessoal do presidente Getúlio. Iberê tem um jeito gauchesco quase coloquial de escrever, absolutamente delicioso, e o episodio que ele narra era meio tabu na historiografia oficial. Parabéns, amigo Iberê.


28 de maio de 2011 | N° 16713
CLÁUDIA LAITANO


A lebre e a tartaruga

Não é muito bonito, mas é humano: as tragédias mais trágicas são as que nos dizem respeito. O terremoto do Japão parece mais nítido quando consigo distinguir um rosto em meio à multidão, e se esse rosto é parecido com o meu, ou o da minha família, aí, sim, a dor da vítima se torna concreta – e a empatia se estabelece mais intensamente.

(Digo que não é bonito porque um dos mais caros ideais humanistas é exatamente o da fraternidade, essa nobreza de atos e sentimentos que faz com que a gente reconheça e se solidarize com qualquer tipo de sofrimento humano e não apenas com aqueles que se aproximam perigosamente dos nossos calcanhares.)

Pois entre tantos crimes violentos que realizam a fantástica proeza de transubstanciar o sangue das vítimas em pilhas de papel velho nos arquivos emperrados da Justiça brasileira, nenhum me toca mais pessoalmente do que o assassinato da jornalista Sandra Gomide, em 2000.

E aqui peço desculpas a todas as mulheres, e não são poucas, com histórias parecidas que não eram jornalistas, como eu, nem editoras de um jornal, como eu, nem mais ou menos da minha idade e classe social. Gostaria de sentir o barateamento da vida delas como sinto o dessa jornalista que eu não conheci pessoalmente, mas com a qual me identifico como se tivéssemos sido amigas de infância.

Li em algum lugar que existem cálculos que demonstram quanto vale uma vida em diferentes países, levando-se em conta uma série de variáveis, da chance que essa pessoa tem de chegar a uma determinada idade à projeção do patrimônio que ela seria capaz de acumular ao longo do tempo.

Se o valor da vida de uma mulher da minha idade, da minha profissão e, principalmente, da minha nacionalidade pode ser medido pelo “índice Sandra Gomide de impunidade”, estou – estamos – valendo muito pouco, quase nada. Não é uma constatação muito agradável.

Onze anos depois de matar a ex-namorada Sandra Gomide e cinco depois de ter sido condenado, o jornalista Pimenta Neves foi preso esta semana. Sua defesa usou pelo menos 24 recursos para mantê-lo fora da prisão, apelando até mesmo para a Lei de Imprensa – o que não deixa de ser macabramente irônico, levando-se em conta que a vítima também era jornalista.

Muitos juristas, inclusive o presidente do STF, Cezar Peluso, acreditam que a demora em cumprir a condenação de Pimenta Neves é a maior prova de que a Constituição precisa ser alterada urgentemente.

Não concordo com o ditado que diz que a justiça tarda, mas não falha. Tardar e falhar são a mesma coisa – e neste caso resultam em um enorme constrangimento nacional.

Quis o acaso que a prisão tardia de Pimenta Neves acontecesse na mesma época da prisão instantânea do poderoso ex-diretor do FMI por uma denúncia de agressão sexual. O contraste entre a lebre e a tartaruga é tão evidente, e tão vergonhoso, que qualquer comentário soa redundante.

sexta-feira, 27 de maio de 2011


Jaime Cimenti

Pena de morte para Ronald McDonald?

Antigamente quem dava palpite sobre tudo o que era possível e imaginável e era especialista em generalidades eram os cronistas de jornal. Hoje todo mundo dá pitaco geral o tempo inteiro, direto, no bar, em casa, na internet, em todo canto.

Olha só, centenas de médicos norte-americanos condenaram à morte o famoso palhaço fictício Ronald McDonald que, comenta-se, mora num quarteirão com queijo. Pois é, os doutores acham que o palhaço quase tão famoso quanto o Papai Noel vende comida com muito sal, muita gordura, açúcar e um monte de calorias, que a obesidade infantil está complicada e tal, que é preciso melhorar a qualidade de vida etc.

Que culpa tem o Ronald se os gordinhos comem demais?

O McDonalds mandou dizer que não concorda com os doctors e que o Ronald, que por sinal é parecido com o saudoso e imortal mímico francês Marcel Marceau, vai continuar vendendo os lanches mais conhecidos do planeta.

A empresa tem preocupações com a saúde, com o câncer infantil, com a ecologia e vem fazendo modificações em embalagens e cardápios. De repente, uma saída para o impasse seria proporcionar uma dieta para o Ronald, mandando-o para algum spa na França. Ele realmente é meio gordinho, tem um baita bundão e, principalmente, está com centimetragem exagerada na área abdominal. Não sei se ele perderia a graça com menos peso.

O Jô Soares, depois do adelgaçamento, até não perdeu, não acham? Aliás, quem acha gordura engraçado pode curtir as vitrines dos balcões dos açougues e dar sonoras gargalhadas. Resta saber se, para caso de ser aplicada a pena de morte a Ronald, seriam condenados também Birdie, Papaburger e Shaky. Como seria a execução?

Eles receberiam uma injeção letal de quatro quilos de açúcar, teriam que levar na veia vinte litros de milk-shake cada um ou teriam que comer duas cadeiras elétricas gigantes inteiras feitas de chocolate cobertas com chantilly, marshmellow e M&Ms? Seria bem melhor se os amigos de Ronald fossem juntos para o spa?

Ou será que Ronald e os amigos têm direito a serem roliços como baleias, ursos, focas e um monte de gente que anda por aí? Prefiro nem pensar na tristeza de assistir Birdie, Papaburger e Shaky no eventual velório do Ronald. Será que ia ter mais choro que no velório da Lady Di e do Papa João Paulo II? Saúde! Campai! Longa vida, Ronald! Te cuida! Take care of yourself! Ah, que tal uma peruca para o palhaço Carequinha?

Uma linda sexta-feira para você. Gostoso fim de semana

Jaime Cimenti

Retrospectiva da primeira década do século XXI

Dez anos que encolheram o mundo, do jornalista e escritor Daniel Piza, colunista de O Estado de S. Paulo e autor de Machado de Assis - um gênio brasileiro; Contemporâneo de mim - dez anos da coluna Sinopse; Aforismos sem juízo e Amazônia de Euclides é muito mais do que uma simples retrospectiva dos primeiros anos de nosso século XXI.

Na coletânea de artigos, dividida em cinco grandes partes: política e economia; cultura e comportamento; ciência e tecnologia; meio ambiente, metrópoles e esportes, Piza nos ajuda a entender o atentado de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque e seus múltiplos desdobramentos como, por exemplo, a guerra contra o terrorismo desencadeada pelos Estados Unidos.

Piza analisa quais foram os avanços do governo Lula e por que nosso País é visto como um dos mais promissores do planeta. O autor fala do genoma humano e de novas compreensões sobre o ser humano, de novas tecnologias da informação e, principalmente, mostra como as distâncias tornaram-se praticamente inexistentes e como o mundo encolheu, ou, como ficou plano, como escreveu Thomas Friedman.

Quem quiser pensar, refletir e analisar sobre o que ocorreu de importante nestes últimos dez anos tem o livro de Piza como ótimo instrumento para tanto. Não é fácil, por vezes, entender as novas configurações políticas e econômicas e o novo panorama completo do cenário mundial, com todas as mudanças nas artes, no comportamento, na ciência e na tecnologia. O mundo nunca mudou tanto em tão pouco tempo.

Quem não está no mundo apenas a passeio e quer entender como andam e como andarão as coisas está convidado a dar uma parada na correria diária e curtir os textos enxutos, informados e diretos de um dos jornalistas mais antenados e lidos do Brasil. Barack Obama, citado na introdução, resume o espírito do livro de Piza.

Ele disse: um homem pisou na lua, um muro caiu em Berlim, um mundo foi conectado pela nossa ciência e pela nossa imaginação. Não vivemos apenas numa “aldeia global”, como escreveu Marshall McLuhan, vivemos em convívio, influência e comunicação inéditos, com ganhos e perdas, em especial pelas complexidades que andam por aí.

Tudo lembra uma frase de um personagem de Erico Verissimo, o peão analfabeto, mas sábio, Liroca, em O Tempo e o Vento, que repetia: “eta mundo velho sem porteira!” Nas páginas finais de cada parte da obra, quadros com cronologia dos principais acontecimentos do período, relacionados com os temas. Leya, 224 páginas, www.leya.com.br.


27 de maio de 2011 | N° 16712
PAULO SANT’ANA


O espaguete à carbonara

Tenho a vaidade de conhecer a natureza feminina, tanto quanto a conhece com profundidade o poeta Chico Buarque de Hollanda.

Por isso é que tenho a certeza de que estou sendo alvo de assédio sexual por parte de uma colega de ZH.

Vão lá já por uns oito meses que ela me convida para comer em sua casa um espaguete à carbonara.

Volta e meia nos encontramos e ela repete o convite. Inicialmente era para um talharim al pesto.

Ponderei que não gosto nem de talharim nem de molho pesto. Eu só iria se fosse espaguete à carbonara.

Passou uma semana e a minha colega veio toda faceira me anunciar que tinha arranjado uma receita do espaguete à carbonara e que eu podia marcar a noite em que iria saborear, na casa dela, a iguaria.

Fiquei de manejar as minhas datas vagas, e alguns dias depois ela me cobrou novamente de ir à casa dela para o jantar.

Ontem foi uma data decisiva. A minha colega me cobrou com veemência que eu marcasse a data para ir devorar o seu espaguete à carbonara.

Fumei um cigarro para respirar e pronunciar a minha decisão. Eu ando numa fase da vida em que, quando quero respirar, puxo um cigarro para fumar. É a mesma coisa que a gente beber vinho só porque tem de dirigir dali a pouco.

“E daí?”, perguntou ela com um grito.

Eu expliquei que tinha prometido a nosso colega Moisés Mendes que, no dia em que viesse a comer espaguete à carbonara, o levaria junto, ele também adora esse prato.

Pensei que com isso, já que calculo que minha colega tem apenas como pretexto o espaguete, o que ela quer mesmo é ter um romance comigo e pretende por isso me ter sozinho com ela em sua casa, eu iria sair de fininho do convite.

Para minha surpresa, minha colega não só aceitou a companhia do Moisés, de quem ela é amiga (e aí foi o meu erro), como também disse que já tinha comprado o vinho para regar o jantar: Cheval Blanc, tinto francês, uma delícia.

Mas minha colega, que, diga-se de passagem, é uma pessoa apetitosa tanto física quanto intelectualmente, me disse por fim, depois de tudo combinado para o jantar, o seguinte: “Só tem uma condição. Vamos jantar eu, tu e o Moisés em minha casa. Mas, duas horas antes de tu ires embora, o Moisés vai se retirar. Para deixar bem pactuado: o Moisés sairá da minha casa duas horas antes de ti”.

Bingo! Eu tinha acertado na mosca, agora não restava mais nenhuma dúvida: minha colega estava cometendo assédio sobre mim.

Marquei a data para a semana que vem, mas estou queimando neurônios para saber qual a desculpa que vou arranjar para não ir.

Já decidi que não vou. E ando tão mergulhado na abstinência sexual, que não vou a esse jantar mas já estou amargando desde já o remorso de não comer aquele espaguete à carbonara.


27 de maio de 2011 | N° 16712
LUIZ ANTÔNIO ARAUJO - Interino


Um imenso Portugal

O governador Tarso Genro causou furor ao afirmar, em Zero Hora, que o Rio Grande do Sul corre o risco de se tornar “um imenso Portugal” caso não seja aprovado pela Assembleia o pacote de aumento de arrecadação. Referia-se o governador ao fato de que em nenhum lugar o colapso da economia mundial iniciado em 2007 teve consequências mais dramáticas do que em países mediterrâneos como Portugal e Grécia.

Primas pobres da grande família da União Europeia, essas pequenas nações carregam o fardo da industrialização precária e tardia, do atraso na modernização da agricultura e dos baixos índices de desenvolvimento humano em comparação aos vizinhos do Norte.

Desemprego em massa, confisco de direitos sociais e instabilidade política têm sido as faces mais visíveis do drama mediterrâneo. Em qualquer metrópole da Europa Ocidental, pode-se assistir ao drama da imigração em versões portuguesa ou grega. A chegada da crise à Irlanda (outro megaexportador de mão de obra imigrante) fez surgir o termo Pigs, sigla de Portugal, Irlanda e Grécia, em alusão aos Brics.

Não me interessa aqui discutir o prognóstico econômico-financeiro do governador, mas sublinhar a trajetória curiosa da expressão “imenso Portugal”. A ideia de que a colonização portuguesa assumiu a forma de um império ultramarino é relativamente recente na historiografia. Deve-se especialmente a um historiador britânico, Charles Boxer (1904 - 2000), ainda pouco traduzido no Brasil.

Militar de carreira, Boxer assinalou que Portugal e suas colônias constituíram uma rede social interdependente nos séculos 17 e 18. Talvez a noção de unidade subjacente à ideia de império tenha parecido natural a um homem acostumado a servir sob a bandeira britânica.

Boxer pôs a nu o esforço descomunal de um país diminuto e em conflito constante com os vizinhos para estreitar os laços com as colônias, inclusive criando a certa altura um Conselho Ultramarino como órgão administrativo. Para o padre Vieira, o Brasil era “a terra que está além e da outra banda da Etiópia” citada pelo profeta Isaías. Portugal seria o espelho no qual as possessões atlânticas, especialmente a maior delas, deveriam se mirar ao projetar seu futuro.

Com a descolonização, a imagem no espelho se inverteu. Portugal passou a representar a herança maldita, a metrópole à qual eram atribuídos o atraso econômico, o patrimonialismo e o preconceito. A exceção foi o sociólogo Gilberto Freyre, que chegou a louvar no final da vida, sob os auspícios da ditadura salazarista, “o mundo que o português criou”.

“Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal / Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”, cantava o colonizador na peça Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra. Ao fundo, um coro ecoava: “Ainda vai tornar-se um imenso canavial”.

Talvez o governador tenha sido a primeira personalidade brasileira a empregar a expressão “imenso Portugal” em um novo sentido: não mais a potência marítima nem a metrópole voraz e decadente, mas o país pobre, falido e em apuros.

Pela primeira vez, o Brasil pode olhar Portugal com a superioridade da criatura que superou o criador, não para expressar rancor, como o androide Roy de Blade Runner diante do magnata Tyrell, e sim orgulho e alívio por não ter compartilhado o mesmo destino. Resta torcer para que os portugueses encontrem uma saída para seu infortúnio.

quinta-feira, 26 de maio de 2011



26 de maio de 2011 | N° 16711
FIM DA POLÊMICA


Kit anti-homofobia é suspenso

Decisão da presidente Dilma foi tomada após parlamentares da bancada religiosa ameaçarem obstruir pauta no Congresso

Depois de se reunir com deputados da chamada bancada religiosa, a presidente Dilma Rousseff determinou ontem a suspensão da produção e distribuição do kit anti-homofobia em planejamento no Ministério da Educação. Todo material do governo que se refira a “costumes” terá de passar por uma consulta aos setores interessados da sociedade antes de serem publicados ou divulgados.

Segundo o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria Geral), Dilma considerou o material do MEC “inadequado” e o vídeo “impróprio para seu objetivo”.

Amanifestação ocorreu na esteira de uma reunião de Carvalho com a bancada evangélica da Câmara. O grupo de parlamentares chegou a ameaçar o governo com obstrução da pauta no Congresso, colaborar com assinaturas para convocar o ministro Antonio Palocci (Casa Civil) a se explicar sobre sua evolução patrimonial e propor uma CPI para investigar o MEC. Na terça-feira, no plenário, o deputado Anthony Garotinho (PR-RJ) chegou a pedir a demissão do ministro da Educação, Fernando Haddad.

Os ministros da Educação e da Saúde, Alexandre Padilha, serão chamados ao Planalto para conversar sobre o caso.

Os parlamentares evangélicos já haviam transmitido a indignação da presidente sobre o material que trata de homofobia. Os deputados Garotinho, Ronaldo Fonseca (PR-DF) e o líder do PR na Câmara, Lincoln Portela (MG), consideraram que o material se tratava de “uma apologia ao homossexualismo”.

Disseram que “trazia cenas e desenhos de sexo anal e oral”, com “uma didática muito agressiva” e se mostraram “preocupados com a maneira virulenta com que esse material está sendo apresentado”.

Apesar da pressa do Planalto em receber os parlamentares e atender ao pedido de suspensão das publicações e dos vídeos, Gilberto Carvalho disse que “não houve recuo” do governo em relação à política de discussão sobre homofobia e que “não tem toma lá, dá cá”.

Para o ministro, os parlamentares das bancadas religiosas anunciaram que não iriam mais promover a convocação do ministro Palocci porque acharam que essa era a atitude mais conveniente, e não por terem sido atendidos pelo governo.

Os parlamentares, na saída do Planalto, no entanto, avisaram que não iriam mais ajudar a convocar Palocci, pelo atendimento do pleito sobre o corte na divulgação do material sobre homofobia.


26 de maio de 2011 | N° 16711
LETICIA WIERZCHOWSKI


No tempo do afiador de facas

Cruzava por uma rua com o meu filho mais velho quando ouvimos um barulhinho característico – raro hoje em dia –, mas que evocou a minha infância. Foi assim meio sem pensar que eu disse: “Olha o afiador de facas!”. Meu filho olhou-me com espanto: afinal, quis saber ele, eu estava falando do quê?

Hoje em dia, quase ninguém mais espera o afiador de facas. Creio que a maioria das pessoas simplesmente compra uma faca nova quando a sua perde o fio, ou então as facas de hoje possuem um “fio eterno”. Seja lá como for, é raro a gente ouvir a musiquinha do afiador, como a gente ouvia antes, quando eu era menina – aquelas notas entravam pela janela, e lá se ia a minha mãe pela porta.

Ante o espanto do meu menino, fiz uma pequena e saudosa digressão sobre a minha infância. Naquele tempo, havia o afiador de facas, havia o moço que vendia casquinhas (outro barulhinho típico, mas, dessa vez, eram as crianças que ficavam eufóricas), havia o vendedor de puxa-puxas.

Havia, de fato, a rua, e a nossa interação diária e pacífica com a rua onde a gente morava. Todo mundo brincava na calçada depois da aula, e a gente ganhava nossas próprias moedas para comprar casquinhas e puxa-puxas. Meu filho ouviu a história com um sorriso, um lampejo de curiosidade perpassou seus olhos bonitos, e voltamos, ambos, à vida real.

Ele quer ganhar um negociozinho eletrônico no seu aniversário, e reatamos, ainda na rua, nossas tratativas a respeito. Dentro de mim, no entanto, confesso que ficou uma tristeza... Não que meu menino tenha demonstrado inveja da minha infância pendurada no portão, mastigando puxa-puxas.

Mas, afinal, quem pode sentir saudades daquilo que não conhece? Jogar os filhos criados nas metrópoles brasileiras na calçada, com uma bola e algumas horas de liberdade, pode soar-lhes tão estranho como abrir, no meio da floresta, a gaiola de um bichinho criado em cativeiro.

Hoje, eles têm a internet, têm o iPad, têm computadores nas salas de aula, têm os videogames, os DVDs, os celulares. Eles têm o mundo num toque de dedos. Trancados em casa, com suas portarias 24 horas, com as cercas elétricas e o diabo a quatro, eles podem ir a qualquer lugar, e usam e abusam da virtualidade. Mas nós… Nós tínhamos a rua, a calçada, as praças. Nós tínhamos o aqui e o agora.

Olhei meu filho uma vez mais, seus olhinhos brilhavam na expectativa do presente. Seu aniversário está chegando, e ele é um garoto inteligente e estudioso. Pratica esportes no clube, mas nunca jogou bola na rua. Enfim, talvez tudo esteja certo – e as puxa-puxas eram mesmo o paraíso da cárie dental... Afinal de contas, nós humanos sempre fomos assim: metade nostalgia do passado, metade ânsia de futuro.


26 de maio de 2011 | N° 16711
PAULO SANT’ANA


A sina policial

Eu às vezes fico pensando no meu azar: não sei por que o Estado em que nasci é o que paga menos aos seus funcionários públicos e o clube pelo qual torço é justamente aquele que maiores dificuldades financeiras tem para formar um time à altura de sua tradição.

Neste caso do projeto que o governador Tarso Genro está enviando à Assembleia Legislativa, referente à previdência dos funcionários públicos gaúchos, recebi de várias entidades representativas de brigadianos muitas mensagens contrárias.

Mas o mérito do projeto esta coluna já discutiu. O que me importa agora é que os brigadianos declaram que não existe no Brasil nenhuma Polícia Militar que pague menos a seus servidores médios que a Brigada Militar.

Então, vejam que, entre 27 Estados brasileiros, os PMs que percebem os menores vencimentos são os gaúchos.

Porque, durante quase um século, os vencimentos dos brigadianos e, por conseguinte, dos policiais civis foram sempre miseráveis.

Eu sei disso porque meu pai foi oficial da Brigada Militar no século passado e o que percebia como salário era infamante: não dava para alimentar e vestir os seus filhos.

Foi sempre assim, gerações e gerações de policiais militares foram se sucedendo e nenhum governo pagou salários dignos aos brigadianos.

E agora me chega a notícia, pelas mãos dos próprios brigadianos, de que eles são os PMs pior pagos no Brasil.

Que sina! Que cruz!

Não dá para crer que Estados pobres como Alagoas, Paraíba e Piauí paguem melhor seus policiais que o Rio Grande do Sul.

Que desvario isso!

O tenente-coronel José Riccardi Guimarães, presidente da Associação dos Oficiais da BM, tem dito em seus discursos que os PMs gaúchos estão sempre com fome ou sono: os que não fazem bico estão com fome, os que fazem bico estão com sono e os que não fazem bico e não estão com fome não são bem encarados porque devem estar obtendo recursos de maneira ilícita.

Ninguém preconiza que os policiais gaúchos possam algum dia vir a ser ricos ou se equiparar às classes melhor remuneradas dos servidores estaduais.

Mas é brutal que, ao entrar para a Brigada Militar ou para a Polícia Civil, os policiais façam um voto de miséria.

Basta ser policial no RS para enfrentar as piores condições de vida impostas pelo salário indigno e a sobrevivência aviltante.

E, com essa inflação galopante que reajusta todos os dias os preços nos gêneros alimentícios e de sobrevivência básica, é urgente que o governo estadual se programe para conceder aumento de vencimentos aos policiais gaúchos.

Ou se prepare para a mais dramática crise salarial que já (sempre) viveram os nossos policiais.


26 de maio de 2011 | N° 16711
L. F. VERISSIMO


A quem interessa

Seguindo a velha regra que já ajudou a identificar tantos culpados, na ficção e na vida – pergunte sempre a quem mais interessa o crime –, seria possível imaginar o próprio Sarkozy disfarçado de camareira entrando naquele quarto para tentar o Strauss-Kahn. Que, como se sabe, assedia sexualmente qualquer coisa com duas pernas.

A ninguém aproveitou mais a desmoralização do provável candidato socialista a sua sucessão do que a Sarkozy. Mas as teorias conspiratórias sobre uma possível armadilha para o grande Kahn, que já eram improváveis, não resistiram às provas coletadas e não parece haver mais dúvidas (pelo menos no momento em que escrevo) de que a camareira foi forçada a fazer o que não queria, como tantos países emergentes constrangidos pelo FMI. E que o Sarkozy não estava por perto.

As multidões que protestam nas ruas da Espanha contra os políticos em geral e as medidas de austeridade do governo em particular (nos moldes das impostas pelo FMI a economias subdesenvolvidas e que o Strauss-Kahn criticava quando era do outro lado), como as manifestações recentes na Inglaterra e na França, são uma reação à proposta indecorosa de que a maioria sacrifique-se para resolver uma crise da qual não é culpada.

No caso do estouro das finanças que há dois anos reverbera pelo mundo, está claro quem são os culpados e a quem aproveita o crime.

O capital financeiro não precisa sacrificar nada e ainda é subsidiado, e cria dificuldades para resolver as crises com dívidas incontroláveis que assolam a Espanha e outros países – com as quais os bancos também lucram.

Uma curiosidade liga as manifestações na Europa com as revoltas nos países árabes. Nos dois casos, pelo que se ouve, são as redes sociais que estão convocando e organizando os movimentos populares.

Quando se esperava que o resultado da interligação do mundo por uma malha eletrônica fosse um enclausuramento geral – todo mundo preso à sua telinha –, houve o contrário. A internet botou todo o mundo na rua!

quarta-feira, 25 de maio de 2011



25 de maio de 2011 | N° 16710
ARTIGOS - Marco Maia*


Parceria em tecnologia

O incremento das relações bilaterais entre o Brasil e a Coreia do Sul oferece ao Brasil e ao Rio Grande do Sul, em particular, a oportunidade de estabelecermos novos modelos de parcerias nos quais o intercâmbio de conhecimento tecnológico esteja no centro desses acordos.

Em recente viagem à Coreia, onde pela primeira vez o Brasil participou da reunião do G-20 Parlamentar – encontro dos Legislativos de 20 países que, juntos, somam mais de 85% do PIB mundial –, constatamos a disposição dos coreanos em firmar acordos com o Brasil nas mais diversas áreas, incluindo a transferência de tecnologias.

Este interesse fica evidente no entusiasmo com que se referem ao atual nível de desenvolvimento econômico brasileiro (aliás, sua admiração e curiosidade pelos fatores de sucesso do governo do ex-presidente Lula está presente em qualquer conversa que trate sobre o Brasil).

Os coreanos veem em nosso país um parceiro capaz de compartilhar um mercado consumidor com poder de compra e que detém riquezas naturais capazes de sustentar um crescimento econômico de longo prazo, o que gera segurança para a instalação de suas indústrias em solo brasileiro.

Neste momento, em que o governador Tarso Genro prepara-se para liderar uma missão que levará empresários gaúchos àquele país, atentarmos para acordos que incorporem conhecimento tecnológico à nossa indústria é essencial e pode significar o alvorecer de uma nova fase para a economia do nosso Estado.

Os coreanos estão dispostos a investir e a compartilhar sua experiência em setores vitais para o desenvolvimento de nossa infraestrutura, como o metalmecânico (a capacidade produtiva de sua indústria automobilística e naval é impressionante, assim como a de suas fábricas de trens de alta velocidade e metrôs) e o eletrônico (seu domínio das tecnologias da informação, por exemplo, os colocam entre os líderes mundiais nesse mercado).

Para absorvermos parte da experiência e do conhecimento coreano é fundamental uma mudança da postura passiva de meros anfitriões de indústrias que nos oferecem produtos acabados ou de exportadores de commodities para uma atitude ativa, em que a absorção de tecnologia seja condição primária.

Isso representará um salto de qualidade para nossa indústria, agregando valor a nossos produtos, impulsionando novos ganhos e gerando melhores condições de trabalho e de vida para os gaúchos.

*Deputado federal (PT-RS), presidente da Câmara dos Deputados

Lindo dia para você. aproveite. Hj não há crônicas da Martha no ZH


25 de maio de 2011 | N° 16710
ARTIGOS - Eduardo K. M. Carrion*


Ativismo judiciário

Arecente decisão do STF sobre união homoafetiva reavivou entre nós o debate em torno do papel do Poder Judiciário no que se refere ao processo de interpretação/aplicação da lei. Falou-se mesmo em “Constituição ‘conforme’ o STF”. Nos últimos anos, o STF e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sobretudo, têm sido alvo de críticas reiteradas em decorrência de julgamentos sobre matérias controvertidas.

Em questão a própria supremacia da Constituição e o status do Judiciário como instrumento dessa supremacia. O debate já é antigo em outros quadrantes. Nos Estados Unidos, por exemplo, desde o século 19, opõem-se “constitucionalistas”, que priorizam o princípio da constitucionalidade, e “democratas”, que realçam o princípio da representação. A atualidade dele entre nós decorre em grande parte dos novos referenciais da Constituição de 1988.

A confluência entre supremacia constitucional afirmada e procedimentos de controle da constitucionalidade das leis aperfeiçoados muda em grande parte o papel do Poder Judiciário, impondo, por vezes, um ativismo judiciário inusitado até então.

Se falássemos em modelos ou “tipos ideais” de magistrado, como Dworkin pretendeu fazê-lo, o STF estaria hoje mais próximo de um Juiz-Hércules ou de um Juiz-Hermes do que de um Juiz-Júpiter.

Simplificadamente, Juiz-Júpiter, juiz estritamente legalista, confinando-se a uma atitude mais passiva, predominante no Estado liberal; Juiz-Hércules e Juiz-Hermes, mais próprios do Estado social, que, embora atuantes nos limites da lei, assumem uma função mais ativa no exercício da jurisdição, inclusive de regulação social ou de mediação social, com nuanças próprias entre eles. Não se trata de modelos exclusivos, podendo haver perfeitamente a convivência entre eles, dependendo do momento e da matéria jurídica.

Remanesce de qualquer forma o risco do “governo dos juízes”, que deve ser igualmente evitado. Mas a velha lição de O Federalista, obra clássica da literatura política, permanece atual: “Todavia, esta conclusão não deve significar uma superioridade do Judiciário sobre o Legislativo.

Somente supõe que o poder do povo é superior a ambos; e que, sempre que a vontade do Legislativo, traduzida em suas leis, se opuser à do povo, declarada na Constituição, os juízes devem obedecer a esta, não àquela, pautando suas decisões pela lei básica, não pelas leis ordinárias”.

*Professor titular de Direito Constitucional da UFRGS e da FMP


25 de maio de 2011 | N° 16710
DIANA CORSO


Mães de pequenas misses

Semana passada, nos Estados Unidos, uma mãe perdeu a guarda da filha por ter declarado num programa de televisão que fazia aplicações de botox na sua pequena de 8 anos, visando a suprimir rugas (sic). Como se vê, a paranoia do envelhecimento exige ações cada vez mais precoces! O objetivo da senhora era tornar a menina competitiva em concursos de beleza infantis.

Esse tipo de mulher protagoniza um popular programa de tevê a cabo Pequenas Misses (Discovery Home & Health), um reality show que acompanha a trajetória obstinada de mães para transformar crianças em versões da Barbie, com maquiagem pesada, penteados improváveis, manicure e até depilação.

As entrevistadas quase sempre são mães obesas, que apresentam visíveis sinais de abandono pessoal. Elas organizam sua vida em torno dos tais certames, nos quais suas bonecas de corda as representam, pequenos avatares, marionetes a serviço da frustração materna.

É fácil indignar-se e ficar contente com a merecida punição de uma delas, pois é explícita no programa a monstruosidade dessas destruidoras de infância. Partilho desses sentimentos. Porém, em sua coluna da Folha de S. Paulo, corajosamente, Rosely Sayão se pergunta: “Será que os pais do programa são muito diferentes daqueles que enchem a agenda dos filhos com aulas de todos os tipos?

Dos que procuram definir o futuro dos filhos do modo como eles arquitetam?”. É diferente, conclui, mas sabemos que é evocativo.

A seu modo, essas senhoras cujo próprio corpo abandonou a cena são abusadoras. Possuem com suas fantasias o corpo das filhas como um pedófilo que goza em preencher com seus desejos sexuais o vazio da criança que ainda desconhece os dela. Em ambos casos temos o adulto reinando absoluto, e a infância transformada em objeto passivo.

Mas por que esse circo de horrores tem audiência garantida? Horroriza e fascina essa cena de submissão infantil porque de algum modo nos identificamos com seus protagonistas. Na verdade sabemos que é inevitável na criação de um filho que os pais acabem projetando sobre ele seus desejos e frustrações. Não há nada anormal nisso, ele precisa confrontar-se com essas forças, mas apenas enquanto os parâmetros que usará para construir seus próprios ideais.

Assistimos aliviados, pois nos salvamos dessa! Frente a essas mães totalitárias a nossa é um exemplo de democracia! Mas também nos hipnotiza, pois quem não desejou tornar-se a encarnação das fantasias da mamãe? Assim teríamos a garantia do seu amor? A mãe da pequena miss representa nossos piores pesadelos e inadmissíveis desejos.


25 de maio de 2011 | N° 16710
PAULO SANT’ANA


Impunidade

Uma turma do Supremo Tribunal Federal mandou ontem que fosse imediatamente recolhido à prisão o jornalista Pimenta Neves, que matou no ano 2000 a sua namorada, a também jornalista Sandra Gomide.

Ele executou pelas costas a sua namorada. Foi um assassinato covarde e premeditado, além de que teve motivo fútil.

Só em 2006, seis anos depois, foi condenado a 15 anos de prisão.

Por estranha causa, ele nunca esteve preso depois de condenado.

Isso só pode ter sido omissão dos juízes que julgaram seus recursos.

Não tem explicação uma coisa dessas. Aqui, ao nosso redor, há casos de réus de homicídio que vão para trás das grades durante anos, em prisão somente preventiva, sem condenação.

Com Pimenta Neves se dá o contrário. Está há cinco anos condenado e nunca ficou só um dia na prisão.

Nunca vi tanta injustiça a depor contra a Justiça.

E, por ter mais de 70 anos, em breve seu crime prescreverá e ele vai acabar não cumprindo mais de um ou dois anos de prisão.

Um escândalo jurídico nacional.

Há muito tempo não me acontecia, mas muito já me aconteceu no passado.

Ocorre que ontem duas pessoas se comunicaram comigo, suplicando que eu lhes arrumasse um emprego.

Perguntei a uma delas: o que te levou a me procurar?

Ela respondeu que eu sou uma pessoa muito bem relacionada, que alguém das minhas relações podia empregá-la.

Para esse tipo de coisa sou completamente atrapalhado. Não sei como fazer. Não sei nem como pedir a alguém que arrume emprego para outra pessoa.

Mas fico penalizado com a situação dessa mulher.

Ela está há tempo sem emprego, mas foi durante mais de 20 anos secretária de médicos. Ou seja, ela é pessoa que tem experiência, tem currículo.

Mas, quando perdeu o último emprego, não encontrou mais nenhuma ocupação.

Deve ter idade em torno de 47 anos, conhecia-a justamente nos consultórios médicos.

E, porque a conheci é com ela tive cordiais relações, é que me apiedo.

Ela me escreveu que, desesperada, andou até planfleteando junto a um prédio do INSS, propaganda para um advogado, quando ganhava R$ 20 por dia.

Eu não sei o que fazer, mas ela acabou jogando sobre mim uma cruz: esta notícia de que ela está desesperada atrás de uma colocação.

O que eu acho digno nesse tipo de pessoa é que ela não está pedindo dinheiro, não está rogando outra ajuda que não seja um emprego.

Ou seja, quer trabalhar. Será demais e indevido querer trabalhar para seu sustento?

E todas as portas se fecham para ela. Como se sentirá uma pessoa neste caso? Amassada, é a resposta. Quase louca de impotência, vendo a miséria bater todos os dias à sua casa.

Imagino quais tenham sido as reações dela, a partir de que até para mim recorreu, lembrando-se de que era minha conhecida.

Mas eu me culpo por não ter solução para ela.

E será que alguém tem? Ela diz que aceita qualquer serviço.

terça-feira, 24 de maio de 2011



Deus na Janela

Havia dois irmãos que visitavam seus avós no sítio, nas férias. Felipe, o menino, ganhou um estilingue para brincar no mato. Praticava sempre, mas nunca conseguia acertar o alvo. Certa tarde viu o pato de estimação da vovó... Em um impulso atirou e acabou acertando o pato na cabeça e o matou. Ele ficou chocado e triste!

Entrou em pânico e escondeu o pato morto no meio da madeira! Beatriz, a sua irmã viu tudo mas não disse nada aos avós.

Após o almoço no dia seguinte, a avó disse: "Beatriz, vamos lavar a louça" Mas ela disse: " Vovó, o Filipe me disse que queria ajudar na cozinha". E olhando para ele sussurrou: "Lembra do pato?" Então o Felipe lavou os pratos.

Mais tarde o vovô perguntou se as crianças queriam pescar e a vovó disse: "Desculpe, mas eu preciso que a Beatriz me ajude a fazer o jantar." Beatriz apenas sorriu e disse, "Está bem, mas o Filipe me disse que queria ajudar hoje", e sussurrou novamente para ele, "Lembra do pato?"

Então a Beatriz foi pescar e Filipe ficou para ajudar. Após vários dias o Filipe sempre ficava fazendo o trabalho da Beatriz até que ele, finalmente não agüentando mais, confessou para a avó que tinha matado o pato.

A vovó o abraçou e disse: "Querido, eu sei... eu estava na janela e vi tudo, mas porque eu te amo, eu te perdoei. Eu só estava me perguntando quanto tempo você iria deixar a Beatriz
fazer você de escravo!"

Qualquer que seja o seu passado, ou o que você tenha feito... (mentir, enganar, seus maus hábitos, ódio, raiva, amargura, etc ).... seja o que for... você precisa saber que Deus estava na janela e viu tudo como aconteceu. Ele conhece toda a sua vida ... Ele quer que você saiba que Ele te ama e que você já está perdoado.

Ele está apenas querendo saber quanto tempo você vai deixar o diabo fazer de você um escravo. Deus só está esperando você pedir perdão, Ele não só perdoa, mas Ele se esquece.

É pela graça e misericórdia de Deus que somos salvos. Vá em frente e faça a diferença na vida de alguém hoje. Lembre-se sempre: Deus está na janela e sabe de tudo! "A vontade de Deus nunca irá levá-lo aonde a Graça de Deus não irá protegê-lo."


Não estamos sozinhos!

Uma garotinha foi para o quarto e pegou um vidro de geléia que estava escondido no armário e derramou todas as moedas no chão. Contou uma por uma, com muito cuidado, três vezes. O total precisava estar exatamente correto. Não havia chance para erros.

Colocando as moedas de volta no vidro e tampando-o bem, saiu pela porta dos fundos em direção à farmácia Rexall, cuja placa acima da porta tinha o rosto de um índio.

Esperou com paciência o farmacêutico lhe dirigir a palavra, mas ele estava ocupado demais. A garotinha ficou arrastando os pés para chamar atenção, mas nada. Pigarreou, fazendo o som mais enojante possível, mas não adiantou nada. Por fim tirou uma moeda de 25 centavos do frasco e bateu com ela no vidro do balcão. E funcionou!

- O que você quer? - perguntou o farmacêutico irritado. - Estou conversando com o meu irmão de Chicago que não vejo há anos -, explicou ele sem esperar uma resposta. - Bem, eu queria falar com o senhor sobre o meu irmão -, respondeu Tess no mesmo tom irritado. - Ele está muito, muito doente mesmo, e eu quero comprar um milagre.

- Desculpe, não entendi. - disse o farmacêutico.- O nome dele é Andrew. Tem um caroço muito ruim crescendo dentro da cabeça dele e o meu pai diz que ele precisa de um milagre. Então eu queria saber quanto custa um milagre.

- Garotinha, aqui nós não vendemos milagres. Sinto muito, mas não posso ajudá-la. - explicou o farmacêutico num tom mais compreensivo. - Eu tenho dinheiro. Se não for suficiente vou buscar o resto. O senhor só precisa me dizer quanto custa.

O irmão do farmacêutico, um senhor bem aparentado, abaixou-se um pouco para perguntar à menininha de que tipo de milagre o irmão dela precisava. - Não sei. Só sei que ele está muito doente e a minha mãe disse que ele precisa de uma operação, mas o meu pai não tem condições de pagar, então eu queria usar o meu dinheiro.

- Quanto você tem? - perguntou o senhor da cidade grande. - Um dólar e onze cêntimos -, respondeu a garotinha bem baixinho. - E não tenho mais nada. Mas posso arranjar mais se for preciso.

- Mas que coincidência! - disse o homem sorrindo. - Um dólar e onze cêntimos! O preço exato de um milagre para irmãozinhos! Pegando o dinheiro com uma das mãos e segurando com a outra a mão da menininha, ele disse:- Mostre-me onde você mora, porque quero ver o seu irmão e conhecer os seus pais. Vamos ver se tenho o tipo de milagre que você precisa..

Aquele senhor elegante era o Dr. Carlton Armstrong, um neurocirurgião. A cirurgia foi feita sem ônus para a família, e depois de pouco tempo Andrew teve alta e voltou para casa.
Os pais estavam conversando alegremente sobre todos os acontecimentos que os levaram àquele ponto, quando a mãe disse em voz baixa:

- Aquela operação foi um milagre. Quanto será que custaria?A garotinha sorriu, pois sabia exatamente o preço: um dólar e onze cêntimos! - Mais a fé de uma criancinha. Em nossas vidas, nunca sabemos quantos milagres precisaremos. Um milagre não é o adiamento de uma lei natural, mas a operação de uma lei superior.


24 de maio de 2011 | N° 16709
FABRÍCIO CARPINEJAR


Cúmulo do azar

Se nascer fosse por sorteio, não estaria aqui. Nunca venci nenhum. Nem rifa na escola. Muito menos de galeto de igreja.

Acho que me faltou traquejo popular, arruda, figa, reza braba, assistir ao Silvio Santos e seu baú da felicidade. Careci de treino. Quando pequeno, não jogava bingo com cinamomos. Quando adolescente, rompi corrente de cartas e e-mails, os remetentes não me perdoaram e amaldiçoaram minha caixa postal.

Não levei TV, geladeira, máquina de lavar das contribuições mensais para entidades carentes. Por mais que levante a carteira de sócio no estádio, a camiseta do time não pousará em meu armário.

O vizinho Geraldo arrebatou uma bicicleta de rede de lojas. Minha mãe arrecadou um liquidificador do Pão dos Pobres. O tio Otávio foi escolhido para uma viagem a Porto Seguro com acompanhante.

Há sempre alguém perto de mim que teve um tiquinho de bênção, um naco de fortuna, uma fatia de torta do destino.

Não desprezaria grampeador, caixa de lápis de cor, passeio no Cisne Branco. Qualquer prêmio para esnobar aos amigos e familiares. Qualquer oferta, para dizer que os dias não são iguais.

Mas sou um azarado. Vivo colocando cupons em arcas transparentes nos shoppings, guardando notas e números, conferindo extrações da Caixa Federal, mas carro zero não entrou em minha garagem. Sorteio de livros em lançamentos não vem para mim, sorteio de ingressos na rádio não encontra meu nome. Numa festa de aniversário, todos receberam brindes, menos eu. Sequer ganhei um final de semana num motelzinho de estrada.

A sorte não brinca comigo. Eu me vejo como resultado da insistência. Não espero facilidades e recompensas do acaso. Trabalho desde cedo para me aposentar tarde.

O que não merecia é ser traído pelas promoções de restaurantes e locadoras.

Minha ambição era completar 10 locações para merecer um filme grátis. No momento em que partia para o último X, a locadora fechou. Aquilo me magoou. Quase depredei o local. Fui contido pelos amigos imaginários.

No restaurante Parrila del Sur, repeti o feito. Talvez demore meses para preencher os quadradinhos, sei lá; quando fui descontar a dezena, não existia mais a oferta. Arre, é muito olho-gordo, coincidência lazarenta.

Triste mesmo é ver que fui sorteado apenas pelo Imposto de Renda para a malha fina.