domingo, 27 de junho de 2021


26 DE JUNHO DE 2021
CAPA

"Quando você fica mais velha, começa a se tornar mais forte"

Acqua Movie é rodado no sertão pernambucano e na região do Médio São Francisco. Como foi trabalhar nessas localidades?

Incrível! Foi uma aventura. Uma experiência inesquecível. Não conhecia o sertão. É um lugar lindo. A luz do sertão é um negócio que você se apaixona quando vê. Ficamos um mês sem voltar para casa. Os hotéis eram todos em beira de estrada. Por um lado, foi um pouco difícil, as temperaturas muito altas durante o dia. Lembro que nunca passei tanto calor na minha vida, doía o corpo, sabe. Mas era de uma beleza... O povo é muito acolhedor, generoso e divertido.

Você sente falta de ver mais mulheres retratando suas questões ou contando suas histórias na TV e no cinema?

Sim. Estamos começando a tomar um espaço maior do que já houve, mas ainda é pouco. Ainda é um mundo muito machista. O poder do homens no próprio audiovisual continua maior, e as histórias contadas seguem sendo muito masculinas. Temos um longo caminho pela frente. Não estamos nem perto daquilo que podemos fazer. Mas, comparado a quando comecei, melhorou bastante. Porém, é um meio bastante machista, principalmente as histórias que se contam, com ponto de vista excessivamente masculino. As histórias contadas e feitas pelas mulheres trazem outra vibração para o mundo, justamente o que estamos precisando agora.

Em entrevista de 2018, você já disse que "não tem idade para fazer mocinha". Como você vê o espaço dado a histórias de mulheres maduras no audiovisual?

No Exterior já mudou. Lá, você vê isso muito forte. O Brasil está começando a engatinhar. Na gringa, você vê as séries sendo estreladas por atrizes mais velhas, no caso, não garotinhas ou jovens iniciantes. Com o tempo, você vai ficando com mais poder para decidir o que quer, para bancar aquilo em que acredita. Há grandes atrizes produzindo suas coisas. Acho que o caminho no Brasil também será esse. O mundo está mudando, ainda bem. O Brasil precisa ficar mais adulto. Deixar de ser um país infantilizado, de meninos (risos). Tem que ser de homens e mulheres.

Como foi a chegada aos 50? Como tem sido essa nova fase para você?

Não sei se é uma nova fase. Você vai indo, vai vivendo. Hoje me sinto mais feliz do que era antes. Me sinto mais em paz com as coisas, comigo mesma. Consigo reconhecer melhor a mim mesma, o que é importante. Quando se é mais jovem, você vive, mas não se reconhece. Você não se afirma muito. Quando fica mais velha, começa a se tornar mais forte, a ter mais poder consigo mesma. Aumenta mais a responsabilidade com você. Sente-se mais responsável pelas suas escolhas, pois você já não tem mais a vida inteira pela frente. Tudo ganha uma importância maior. Você pensa: "Não vou perder o meu tempo com isso, pois não me interessa". São escolhas responsáveis em relação a si própria.

Você já comentou que gostou de ficar em sua própria companhia durante o isolamento. Esse sentimento veio com a maturidade?

Sempre tive isso, desde criança. A quarentena, no começo, trouxe mais tempo para mim. Depois foi enchendo o saco (risos). Já deu, não quero mais! Tem gente que não gosta de ficar consigo mesma. Eu gosto.

No geral, como tem sido a pandemia para você?

Tempos difíceis, que exigem que você seja forte. São tempos em que você tem que mostrar a sua força para você mesma, enfrentar e resistir. E atravessar, como se fosse uma guerra. Eu atravessei, como todo mundo atravessou. Procuro ser uma pessoa que encara as coisas conforme vão acontecendo. É preciso ser muito resiliente neste momento, encarar com verdade. Quem é importante para você? Quem não é? Quais relações você quer manter? Esses questionamentos vinham naturalmente durante a pandemia. Espero que esteja acabando essa fase. A pandemia já era difícil, mas estar no Brasil, com tudo o que a gente está passando, faz a coisa ser ainda mais complicada.

O que te ajuda a se manter forte?

Manter a saúde mental e física passa a ser um grande desafio. Eu medito bastante. Mas passei por momentos assim, mais difíceis. "E agora? Estou de saco cheio..." Não! Levanta, vamos fazer exercícios. Fazer exercícios é superação (risos), é difícil para todo mundo.

As atividades físicas ganharam mais importância neste período?

Sempre foram importantes para mim. Esse período é mais difícil para manter saúde mental e física. Por não ir à academia, em tese, tem que ser mais disciplinado. Então, é uma fase que exige mais força. Você está numa guerra? O necessário é sobreviver. Então, vamos fazer o necessário para isso. Procuro ser forte. Nem sempre estou feliz, mas acredito que as pessoas precisam se manter fortes.

Pouco antes da pandemia, você esteve no centro de discussões sobre cancelamento e apropriação cultural por conta de sua fantasia no Carnaval no desfile do bloco Baixo Augusta, de São Paulo, que continha referências indígenas. Hoje como você avalia esse episódio?

Foi um episódio muito fugaz porque as pessoas perceberam rapidamente que foi um equívoco. Estava apoiada por entidades indígenas, tanto que fui autorizada a fazer isso. Talvez as pessoas não soubessem que eu não estava lá pulando bloquinho de Carnaval. Não foi isso. O Baixa Augusta é um bloco ativista. O tema do bloco era Viva a Resistência. A resistência indígena era uma grande questão. Ainda é. Só piorou de lá para cá. Eu, como rainha do bloco, os convidei para estarem comigo. Chamei um indígena que fez o trabalho gráfico no meu corpo. Não estava nem fantasiada de indígena, mas foi esse trabalho que gerou a repercussão. Foi tudo muito rápido, como um sopro.

Não se sentiu cancelada?

Para falar a verdade, me senti bastante acolhida na época. Eu ia no mercado e todo mundo falava: "Ai, amei o que você fez". A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) escreveu uma carta pública dizendo: "Ela é nossa parceira, estava conosco". Houve um esclarecimento. As pessoas são muito superficiais na leitura, muito imediatistas. A internet é assim. Vem rápido e passa logo. Fiquei bem tranquila.

Falando em Carnaval, a festividade não pôde ser realizada este ano por conta da pandemia. Você tem expectativas para a volta da festa?

Não. Minha única expectativa é que o povo brasileiro seja vacinado. Só isso. Que a gente posso alimentar o povo brasileiro, e as pessoas tenham emprego. Carnaval, sinceramente, pode esperar. Todo mundo está com saudade, a gente quer voltar para as ruas. Mas nós só vamos ter razão para comemorar quando tivermos todo mundo bem. Pelo menos vacinados. No momento, não estou pensando no Carnaval.

Cidade Invisível traz questões como pressão do setor imobiliário sobre as áreas naturais e as comunidades que vivem na floresta. O meio ambiente também é assunto em Acqua Movie e é um tema frequente nas suas redes sociais. Qual é a sua relação com essa causa?

Para qualquer pessoa que está conectada com a contemporaneidade, isso passa a ser uma questão fundamental. Uma causa mais urgente. Isso foi entrando na minha vida aos poucos. Por acaso, as obras que fui fazendo e curtindo, tratavam disso.

Quais são os seus próximos projetos?

Tenho A Árvore, que é um projeto belíssimo que fiz na pandemia. Era uma peça e acabou sendo um produto audiovisual. Vou fazer a segunda temporada de Cidade Invisível e depois tem uma série da Globo chamada Fim, da Fernanda Torres, que a gente interrompeu as gravações na metade.


26 DE JUNHO DE 2021
ELIANE MARQUES

O MAL-ESTAR DE AQUILES (DE SOUSA)

Não somos criaturas ternas que atacam apenas em defesa própria. Estamos mais para causar sofrimento, martírio e morte do que para amar o próximo. Segundo Freud, nosso destino será decidido pela condição de até que ponto a vida na cultura suportará os solavancos das pulsões de agressão e de autodestruição. Discutido por ele em O Mal-estar na Cultura (1929-1930), o tema se torna urgente nesta época de desprestígio da palavra e de avanço das imagens mercadológicas com as quais disfarçamos nossa falta estrutural. Fala muito bem disso Cartola de Sousa, que, com o filho Aquiles apoiado na anca, tentava tapar com a mão o calcanhar defeituoso dele em Luanda, Lisboa, Paraíso, da escritora angolana Djaimilia P. de Almeida.

Em Totem e Tabu (1913), o filho da psicanálise conjetura que a humanidade teria partido da horda primitiva, em que a vontade do chefe era ilimitada, às alianças fraternas, mais fortes do que um indivíduo, regidas pela lei simbólica no bojo da qual a vida em comum se tornaria melhor. Desde então se esperaria que, no transcurso histórico, se cumprisse, sem tropeços, a inclusão de um número maior de pessoas no que se chama humanidade. Por isso não se compreenderia como a cultura, que permitiu vida melhor, agora seria causa de sofrimento.

A agressividade vista no outro, mas disfarçada em nós, a exemplo de Cartola a esconder o calcanhar de Aquiles, é o que perturba as relações sociais. À cultura se impõe esforços para o fim de contê-la. O preceito de amar o próximo como a si mesmo, tão inútil como os demais em lograr mudanças face à agressividade, pródiga em inventar rivais para se justificar, constitui um desses esforços.

Para viver a vida de cultura se impõe a renúncia à satisfação das tendências agressivas. Contudo, tal renúncia ocorre cada vez mais entre os membros de um grupo restrito e privilegiado mediante a destinação de sua hostilidade aos considerados estranhos, anormais, outsiders; afinal, certas pessoas sempre poderão se proteger entre si com a condição de que sobrem outras em quem descarreguem os golpes.

Um antigo inconformismo constituiu o terreno em que circunstâncias históricas fizeram germinar a condenação da cultura. Para Freud, o último deles foi o contato dos europeus com povos aos quais atribuíram uma vida plena de felicidade que supostamente seria a eles inalcançável e que, talvez, por isso, digo eu, tentaram destruir, ainda que essa felicidade plena estivesse apenas em suas fantasias de (in)civilizados.

ELIANE MARQUES

26 DE JUNHO DE 2021
JULIA DANTAS

LEMBREMOS DO PAMPA

Agora que finalmente Ricardo Salles está fora do Ministério do Meio Ambiente, é hora de reforçar a preocupação com a preservação dos nossos territórios verdes. No noticiário nacional, muito se fala (como é devido) do desmatamento recorde da Amazônia, das queimadas no Pantanal, do volume nunca antes visto de madeira ilegal sendo transportada no país, mas aqui na nossa região fica quase esquecida a situação igualmente dramática do Pampa.

Conforme dados coletados em 2016 pelo Inpe (aquele mesmo Inpe atacado pelo Ministério do Meio Ambiente por ter feito seu trabalho de divulgação de informações), o Pampa já perdeu mais da metade de seu alcance original, e o ritmo de destruição vem aumentando anualmente.

É possível que nossa pouca atenção se deva ao tamanho do Pampa no Brasil, pequeno em comparação às grandes florestas tropicais: ele ocupa apenas cerca de 2% do território nacional. Isso não diminui sua importância. Embora, somando-se a área total, o Pampa fique atrás de outros ecossistemas nas métricas de biodiversidade, proporcionalmente ele apresenta a maior biodiversidade do país, já que, num único metro quadrado de campo nativo, é possível encontrar 57 espécies diferentes de plantas.

As áreas destruídas do Pampa são geralmente transformadas em áreas de cultivo agrícola, muitas delas em territórios que deveriam ser protegidos por lei. Os avanços das florestas de eucalipto e pinus, além de projetos de mineração, também ameaçam a integridade do bioma que, vale lembrar, abrange territórios de países vizinhos e abriga o aquífero Guarani, uma das maiores reservas mundiais de água doce.

Ao contrário do que acontece na Amazônia, onde muitas terras são arrasadas para dar espaço à criação de gado, aqui o Pampa sofre com a substituição da pecuária pela monocultura de soja. Pesquisadores da UFRGS ressaltam que a presença de gado livre aqui é benéfica, ajudando a manter a vegetação do Pampa equilibrada. Mas as zonas que antes serviam de pasto têm sido desmatadas: no ano passado houve um aumento de 99% no desmatamento em relação ao ano anterior, segundo dados do sistema MapBiomas Alerta. Desnecessário dizer que esse desmatamento costuma ser criminoso, e nada surpreendente dizer que, na conta geral do Brasil, apenas 5% dos avisos de desmatamento resultaram em multa ou embargo.

Para que esse bioma singular seja preservado, é preciso que se faça valer a lei que impõe Reserva Legal de 20% nas propriedades rurais. E, para isso, é necessário um Ministério do Meio Ambiente que esteja, de fato, interessado no meio ambiente.

JULIA DANTAS

26 DE JUNHO DE 2021
J.J. CAMARGO

A VIDA NÃO É PARA DESPREVENIDOS

Que a nossa vida é recheada de perplexidades, estamos todos de acordo, e cada um, se estimulado a catalogá-las, elegerá a seu gosto uma mais absurda do que a outra. A minha, desde que comecei a conviver com doentes de todas as idades e condições sociais e descobri o fascínio de ajudá-los, nada me machucou mais do que a doença na infância.

Nem os religiosos, que ficam aliviados por atribuírem tudo à vontade desse Deus que sabe o que é melhor para seus súditos, tiveram argumentos ou ânimo para tentar dar um sentido ao sofrimento de um pingo de gente que nem viveu o suficiente para identificar o bem e separá-lo do mal, este entendido como merecedor de castigo. Menos ainda entendi quando uma criança nasce com um defeito congênito irreparável que lhe retira qualquer chance de sobrevida, tornando explícito que ela veio ao mundo só para sofrer.

Por conta desse meu condicionamento emocional, a história contada pelo Milton Meier, um dos precursores da cirurgia cardíaca pediátrica no Brasil, exigiu que eu me desse um tempo antes recontá-la, porque, como vocês verão, ela não é para desprevenidos.

O Milton Meier, a grande unanimidade afetiva da Academia Nacional de Medicina, começou a atender o Julio desde que ele tinha 15 dias de vida, quando se descobriu que ele batera à porta desse mundo arroxeado e arfante, por um defeito cardíaco em que lhe faltava um dos ventrículos, encaminhando-o para uma sucessão de procedimentos cirúrgicos, arriscados, dolorosos e meramente paliativos, sem expectativa real de chegar à vida adulta.

Como o Milton é o tipo de médico que todos queremos ter, aquele que nunca desiste do paciente, entregou-se à abnegada tarefa de dar ao Julinho a vida mais digna e longa que seu grande talento cirúrgico pudesse oferecer. Em um tempo marcado pela esperança ilimitada dos pais, encantados pela gana de viver do filhote, ele foi submetido a quatro cirurgias, buscando reparar as incorreções da natureza relapsa.

Na primeira infância, Julio chegou a ter um período de melhora, mas com limitações: apenas andava, enquanto os outros meninos corriam. Se agachava quando os outros pulavam. Quando completou oito anos, e já tendo sido submetido à cirurgia dos dois lados do peito, estava azulado outra vez e novamente tinha que ser operado. Como já crescera nele, além de pernas e braços, a noção do perigo, arriscou-se a questionar: "Tio, será que eu saio desta?".

Meio desconcertado, Milton respondeu: "Dessa o quê, Julio?" Titubeante, como se contasse um segredo, Julio perguntou-lhe, baixinho: "Eu vou morrer nessa operação?". Hesitou um pouco e acrescentou: "Tio, eu não quero morrer!".

Ainda não foi daquela vez. Viveu mais alguns anos. Muito poucos. Apesar de cada vez mais limitado, era uma criança alegre. Frequentava a escola, depois o curso ginasial, era inteligente e muito bom aluno. Julio lia muito, gostava de ver bons filmes. Aproveitava cada instante como se fosse o ultimo, intuindo que seria.

Um dia, Milton soube que Julinho estava na UTI, e a mãe ligara pedindo-lhe que fosse vê-lo. O filho estava outra vez azulado, como nascera. As artérias do pulmão não suportaram mais a pressão elevada e entraram em falência. Julio estava morrendo? e só tinha 14 anos. Aquela idade em que todos tivemos a deslumbrante certeza de que a vida estava apenas começando!

E Milton, no comando dessa narrativa, com grande esforço, modulou a voz para contar o resto dessa história. E transferiu o choro para o final, quando não lhe faltou companhia: "Poucas vezes fui a enterros de pacientes. Nunca me conformei com a morte, jamais de uma criança. Fui ao enterro do Julio. Muito triste, fui falar com os pais. Quando abracei a mãe, falei ?Não tenho o que dizer para você?. ?Mas eu tenho?, ela retorquiu entre lágrimas. ?Você me deu o Julio por 14 anos!? Somente para ouvir esse agradecimento já valeu a pena ter vivido!"

J.J. CAMARGO

26 DE JUNHO DE 2021
HISTÓRIA

A OBRA

O livro Retratos de Camafeu: Biografias de Escritoras Sul-rio-grandenses reúne as histórias de vida de nove autoras do Rio Grande do Sul que produziram suas obras entre os séculos 19 e 20. Praticamente desconhecidas da historiografia literária, tanto brasileira como gaúcha, essas mulheres viveram em diferentes cidades do Estado: Porto Alegre, Cachoeira do Sul, Pelotas e Rio Grande. Embora não se conhecessem, em um ponto convergiram: todas tiveram versos, charadas e textos em prosa publicados no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, editado em Lisboa.

Em uma sociedade como a rio-grandense, em que a voz do homem sempre soou mais alto, e a produção feminina foi relegada ao silêncio, ter espaço em um periódico estrangeiro poderia ter concedido a elas destaque e visibilidade. No entanto, isso não aconteceu e foi necessário que um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e da Universidade de Caxias do Sul (UCS), sob a liderança da Pontifícia Universidade Católica do RS (PUCRS), desenvolvesse um projeto interinstitucional sob o patrocínio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) a fim de recuperar as autoras. Assim, no volume há as biografias dessas autoras, em capítulos escritos por especialistas integrantes do projeto.

Cecil Jeanine Albert Zinani traz à tona Anália Vieira do Nascimento (Porto Alegre, 1854-1911), professora, poeta e exímia criadora de logogrifos, um tipo de passatempo bastante comum em periódicos do século 19. Salete Rosa Pezzi dos Santos escreve sobre Andradina América Andrade de Oliveira (Porto Alegre, 1864; São Paulo, 1935), que dividiu a sua vida profissional entre a escrita literária, o jornalismo e o magistério, sendo lembrada, especialmente, pelo polêmico livro epistolar Divórcio?, de 1912, em que discute a questão da indissolubilidade do casamento.

Maria Eunice Moreira lança um olhar sobre a obra e a vida de Cândida Fortes Brandão (Cachoeira do Sul, 1862-1922), que também se dedicou, em sua cidade natal, ao magistério, à poesia e ao jornalismo, em especial contribuindo para o jornal cachoeirense O Comércio. Viviane Viebrantz Herchmann aborda Ibrantina Cardona (Nova Friburgo/RJ, 1868; São José do Rio Pardo/SP), única das nove mulheres que não nasceu no Rio Grande do Sul, embora tenha vivido no Estado a infância e a adolescência. Morou ainda em Santa Catarina, Minas Gerais e São Paulo, escrevendo livros de poesia e textos a favor da emancipação feminina e da educação como forma de progresso da sociedade.

Regina Kohlrausch recupera os dados biográficos de Luísa Cavalcanti Guimarães (Pelotas, 1869-1891) e Júlia César Cavalcanti (Pelotas, 1871-1890), irmãs de vida breve, vitimadas pela tuberculose, o que não impediu que ambas se dedicassem à poesia, além de redigirem artigos em que defendiam os direitos da mulher e a instauração da República no Brasil.

Francisco das Neves Alves examina a poeta, contista, cronista, dramaturga, jornalista e editora Julieta de Melo Monteiro (Rio Grande, 1855-1928), autora de vasta obra espalhada por periódicos e livros, muitos dos quais editados em parceria com a irmã Revocata Heloísa de Melo. Paloma Esteves Laitano atenta para Maria Clara da Cunha Santos (Pelotas, 1866; Rio de Janeiro, 1911), que morou em várias cidades brasileiras, em todas elas dedicando-se à literatura, ao jornalismo, à música e às artes plásticas. E Mauro Nicola Póvoas analisa a pequena obra, esparsa em jornais, de Tercília Nunes Lobo (Rio Grande, 1854-1917), que cultivou poemas em que há o predomínio de uma temática melancólica e a preferência pelo uso do soneto.

O volume Retratos de Camafeu: Biografias de Escritoras Sul-rio-grandenses será lançado no Seminário Internacional de Escrita Feminina: Perspectivas Histórico-Literárias, organizado pela Biblioteca Rio-Grandense, de Rio Grande, e pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Furg. O evento, que será realizado de forma gratuita e remota, entre 28 e 30 de junho, conta, em sua programação, com importantes pesquisadores de instituições brasileiras e portuguesas. Veja mais em casaletras.com/sief.

Retratos de Camafeu: Biografias de Escritoras Sul- rio-grandenses

Maria Eunice Moreira (org.), Coleção Rio-Grandense, Biblioteca Rio-Grandense, 168 páginas, disponível em versões impressa e digital em issuu.com/bibliotecariograndense 

MARIA EUNICE MOREIRA MAURO NICOLA PÓVOAS

26 DE JUNHO DE 2021
CINEMA

DEPOIS DE CORRER PELO MUNDO, SAGA ACELERA NO ESPAÇO

Mesmo derrapando de novo na verossimilhança, "Velozes & Furiosos 9" deve agradar aos fãs de desafios mirabolantes

É como se os produtores da franquia Velozes & Furiosos, ao ouvirem a icônica frase presente na abertura da clássica série Star Trek ("O espaço, a fronteira final"), pensassem: "Vamos atravessá-la. Porém, com um carro tunado". E aconteceu, conforme os muitos memes que circulam há anos pela internet previam. Uma pena que o trailer do nono filme da saga tenha estragado a surpresa e entregado a viagem sideral antes da estreia.

Infelizmente, o empresário bilionário Elon Musk, ao arremessar seu Tesla para fora da Terra, acabou com a chance de alguém dizer que a franquia cinematográfica liderada por Vin Diesel, audaciosamente, chegou onde nenhum automóvel jamais esteve. Mas, mesmo perdendo a piada com referência às viagens do Capitão Kirk, não deixam de ser absurdos os rumos tomados pela saga. E isso não é necessariamente ruim.

Mais uma vez empacotado com o tema "família", Velozes & Furiosos 9 (veja salas e horários na página 6) começa apresentando um irmão de Dominic Toretto (Diesel), Jakob (John Cena), que jamais havia sido mencionado durante os outros oito filmes. Mas, entre tantas concessões feitas pelos fãs para seguirem imersos na frágil verossimilhança da franquia, esta não é, nem de longe, a mais difícil - os retornos de Letty (Michelle Rodriguez) e, agora, de Han (Sung Kang) do mundo dos mortos estão aí para provar.

O problema é que Jakob está jogando no lado dos vilões, colaborando como espião para uma organização que quer dominar o mundo e, para isso, precisa de um dispositivo supertecnológico - sim, este mesmo enredo já esteve presente na saga anteriormente, mas é o ponto do filme que menos importa, acredite. O pano de fundo é apenas o start para explodir com tudo e reunir o time dos mocinhos novamente, inclusive trazendo de volta personagens que ficaram pela franquia.

O roteiro, escrito pelo novato na saga Daniel Casey e por Justin Lin, que também é diretor e velho conhecido da franquia, sendo responsável por cinco dos nove filmes - e, veja só, ele também comandou o filme Star Trek: Sem Fronteiras (2016) -, sequer se preocupa em ter alguma coerência. Desde que a franquia abraçou o exagero e aprendeu a rir de si mesma, a trama principal consiste, basicamente, em ver até onde vai a criatividade da equipe que comanda a produção. E vai longe.

Família

Neste novo passeio pelo mundo dos carros de 10 segundos (e foguetes, agora), para explicar a relação de Dom e Jakob, Justin Lin decidiu intercalar, entre as muitas explosões, diversos e longos flashbacks, contando para o público, depois de 20 anos - o primeiro Velozes & Furiosos é de 2001 -, o passado do personagem de Vin Diesel e, consequentemente, de seu irmão esquecido. Tudo com muito drama familiar.

Esse esforço para tentar humanizar os personagens principais da saga, apesar dos muitos clichês, se faz cada vez mais necessário, uma vez que, a cada novo capítulo, os desafios que eles enfrentam se tornam mais mirabolantes e praticamente impossíveis. Inclusive, a questão é abordada no próprio filme, com Roman (Tyrese Gibson) suspeitando de que ele e seus amigos, na verdade, são mais que humanos, já que conseguem escapar de situações que pessoas comuns jamais conseguiriam. É de se pensar.

Dentro deste cenário, Vin Diesel e sua trupe rodam por vários países para caçar Jakob e atrapalhar os seus planos maléficos. E, como dizem, o destino não é o que importa, mas, sim, a viagem. E neste ponto Velozes & Furiosos 9 não decepciona. Em seus 145 minutos - o mais longo da série, mas que não aparenta, pelo seu ritmo frenético -, o filme traz momentos grandiosos e que desafiam qualquer lógica, como Dom conseguindo pendurar o seu carro em um cabo e se balançar através das montanhas no melhor estilo Homem- Aranha. Apesar de bobo, tudo é feito com muito esmero, aliando efeitos especiais de primeira e um grande desempenho físico dos dublês e atores. Há um nítido carinho pela saga no meio de tanta testosterona.

Por outro lado, as performances dos artistas no quesito interpretação não devem agradar aos que procuram por algo além de explosões e velocidade. Enquanto o elenco tem nomes consagrados e premiados, como Charlize Theron e Helen Mirren - que, por sinal, parece se divertir horrores pilotando carros e aplicando golpes -, que conseguem se destacar, mesmo com o material raso que têm, o restante derrapa. Com frases curtas e que buscam ser sempre impactantes, mas que dificilmente contam com uma conclusão, os atores e atrizes andam na corda bamba da vergonha alheia. Porém, ninguém ali tem pretensão de ganhar um Oscar. Não com este filme, pelo menos.

Apesar de seus diversos problemas básicos de roteiro e de desrespeito à física, Velozes & Furiosos 9 entrega aos seus fãs uma continuação de sua escalada à megalomania e com uma trilha sonora empolgante - com direito a Anitta. O resultado é divertidíssimo para quem estiver aberto a abraçar o absurdo e dar boas risadas ao descobrir que não existe limite para o que é possível fazer com um carro.

Agora que a porteira para fora da Terra foi aberta, o que será que os últimos dois capítulos da saga entregarão? O único problema é que, no espaço, não dá pra ouvir o ronco dos motores...

 CARLOS REDEL


26 DE JUNHO DE 2021
DAVID COIMBRA

Aquelas velhas madrugadas

O Doctor Jeckyll tinha uma cabeça de onça pendurada em cima da escada que levava para o segundo piso da casa. Era exatamente embaixo daquela onça que o Professor Juninho se posicionava. Ele pegava uma cervejinha long neck no bar e ficava ali, com um meio sorriso de Monalisa intrigando quem entrava. Intrigava as mulheres, óbvio. A gente se distraía e, quando voltava a cabeça para conversar com ele, já havia uma moça ao lado, rindo e comentando:

- Ai, Professor...

O Doctor Jeckyll tinha a cerveja mais gelada da cidade e o melhor som. Só clássicos do rock?n?roll. Ficava ali no Largo da Epatur. Às vezes nós saíamos do bar e deparávamos com a feira sendo montada e as donas de casa já se acercando para comprar chicória e couve-flor. Vou dizer: se tem uma coisa de que um noctívago não gosta é de estar na rua quando o sol nasce. É o princípio do Conde Drácula: o sol faz o boêmio derreter. Lembro daquela música belíssima do Chico:

"Eu faço samba e amor até mais tarde

E tenho muito sono de manhã".

É um hino da boemia. Um diamante. Conta com precisão o que sente o boêmio.

Já fui boêmio. Seria ainda, se a vida não tivesse me empurrado para outro lado, para o lado das manhãs. Mas não lamento. A vida, quando decide que você tem de seguir por um caminho, você obedece, vai sem reclamar e tenta aproveitar a paisagem.

É o que faço. E, fazendo assim, até me esqueço de alguns detalhes de como era naquela época. Imagine que eu não saía da cama antes das 10 horas. Como diz na música do Chico:

"Não sei se preguiçoso ou se covarde

Debaixo do meu cobertor de lã

Eu faço samba e amor até mais tarde

E tenho muito sono de manhã".

Bem, eu era exclusivamente um jornalista de jornal. Chegava à Redação depois do almoço e, antes de começar a trabalhar, ia direto para o bar, tomar um café restaurador. Então, reencontrava meus companheiros da noite, o Juninho, o Ricardo Carle, a Mariana Bertolucci e outros mais. Sentindo a cabeça ainda mareada, nós prometíamos que naquele dia iríamos cedo para casa. Mas aí voltava a entrar em ação o princípio do Conde Drácula: quando o sol se deitava no Guaíba, nós nos assanhávamos:

- Vamos? - Vamos! E íamos.

Está certo, éramos jovens. Hoje não teríamos preparo físico para aquelas jornadas. A noite foi perdendo sua força à medida que a idade avançou. Mesmo assim, estava acostumado a tomar chopes cremosos com os amigos, a compartilhar churrascos, a frequentar restaurantes.

Até que a vida empurrou a mim, e a todos os outros bilhões de terráqueos, para outro lado. A vida noturna foi mutilada pela pandemia. E eu, agora, mesmo tendo tomado as duas doses da vacina contra a peste, mesmo estando vivo e bem, eu, agora, sabe o que me aconteceu? Como diria Mario Quintana, "perdi um jeito de sorrir que eu tinha". Estou desasado, receoso, sem naturalidade para usufruir dos prazeres da noite, ainda que seja uma noite breve.

Novas e agressivas cepas, variantes malvadas, esse vírus não nos deixa em paz. Não voltarei aos meus tempos de viver na madrugada, é claro, isso já passou, mas quero poder beber chopes cremosos com os parceiros sem medo de ser contaminado pelo garçom. Maldito corona! Até quando vai nos aprisionar? Até quando atormentará o mundo? Como perguntou o Chico naquela bela canção:

"Será que é tão difícil amanhecer?"

DAVID COIMBRA

26 DE JUNHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

INDEPENDÊNCIA REAFIRMADA

São tranquilizadoras as palavras do novo superintendente da Polícia Federal no Rio Grande do Sul, Aldronei Antônio Pacheco Rodrigues, em entrevista concedida aos repórteres Adriana Irion e Humberto Trezzi, publicada na edição de sexta-feira de Zero Hora. Ao assegurar que "a PF não será amordaçada", o novo chefe local da corporação reafirma que eventuais pressões políticas não surtirão efeito em relação a investigações sensíveis que envolvam pessoas ligadas ao poder. Reforçar o compromisso com essa autonomia significa passar à sociedade o claro recado de que se trata de uma instituição de Estado, a serviço do país, e não de um governo, seja ele qual for.

Em pleno ano de 2021, poderia soar estranha a necessidade de rea- firmar essa condição. São notórias, entretanto, pressões atuais de quem gostaria de ter um maior controle sobre a corporação que, para o bem da sociedade, estão fadadas a fracassar. Uma prova inconteste da independência da PF foi a Operação Lava-Jato, que desnudou o maior esquema de corrupção da história do país e culminou com a prisão de políticos poderosos e grandes empresários que, antes, pareciam intocáveis. As apurações sobre a promiscuidade que teve a Petrobras como epicentro alcançaram políticos de um grande número de partidos, dos mais variados matizes ideológicos, inclusive pessoas ligadas ao governo de então.

Mas está correto Aldronei Rodrigues ao reforçar que, como instituição, a PF seguirá cumprindo o seu dever e, diante de qualquer tentativa de cercear-se o trabalho de investigadores e delegados, o resultado produzido será uma reação e mais empenho de seus agentes. A confirmação dessa independência, a despeito de eventuais tentativas de intervenção, está na constatação de que apurações incômodas a aliados do governo federal seguem em curso. Não poderia ser diferente para um órgão que tem grande admiração dos brasileiros e goza de extrema credibilidade, notadamente pelo combate à corrupção nos últimos anos, como mostra especialmente a Lava-Jato.

O amadurecimento do país passa pelo fortalecimento e atuação independente de suas instituições, algo que ainda é mais importante quando uma das principais missões a serem executadas é a luta contra malfeitos com dinheiro público, uma chaga no Brasil. Com o emprego da inteligência, da tecnologia e o senso de dever de seus membros, a PF, nas palavras de Aldronei Rodrigues, mostra que permanecerá firme em um de seus mais importantes objetivos, o de apurar e expor desvios, independentemente dos poderosos de turno.

 


26 DE JUNHO DE 2021
+ ECONOMIA

Um novo "chocolate de Gramado"

Tem empresa nova no mercado de chocolates de Gramado. A Miróh Chocolate Makers nasce com pretensão nada modesta: fazer um dos melhores chocolates do Brasil. É resultado de parceria do casal Ricardo Campos, chocolatier, e Ariane Raudenberg com a família Zieger, de Santa Catarina.

Com investimento inicial de R$ 3,5 milhões, os sócios pretendem abrir o Ateliê Miróh na primeira semana de julho, em frente ao Lago Negro. Terá loja, fábrica, confeitaria, adega de cacau climatizada e sala de aula de cursos para chocólatras. Vai fazer chocolate a partir da amêndoa de cacau, com verificação de qualidade e sustentabilidade, em vez de ser produzido com base em outro produto pronto. A Miróh trabalhará apenas com fazendas sustentáveis, com boas relações entre empregador e funcionários.

- Existem locais em Gana e Costa do Marfim que pagam US$ 200 (cerca de R$ 1 mil) por ano para famílias que trabalham com cacau. Para nós, não fazer parte desse sistema é uma questão social, de empatia e respeito ao ser humano - afirma Campos.

foi o valor de uma nova venda do Ultra, que deve assumir o controle da Refap, de Canoas. O grupo se desfez da ConectCar, depois de já ter repassado uma rede de farmácias e estar concluindo a negociação da subsidiária Oxiteno. Tudo para poder bancar o valor estimado de R$ 7,5 bilhões da refinaria gaúcha sem excesso de endividamento.

MARTA SFREDO


26 DE JUNHO DE 2021
INFORME ESPECIAL

Um "cala a boca" para a hipocrisia

No começo da semana, escrevi sobre a fúria de Jair Bolsonaro diante de uma pergunta sobre o uso de máscaras. Em resumo, afirmei que o presidente não foi o primeiro e nem o último a querer que seus críticos calem a boca. Mas é, sem dúvida, o mais barulhento e violento.

Ao lembrar que políticos sonham com o silêncio dos que os fiscalizam, não pretendi, em nenhum momento, minimizar a atitude descabida do presidente. Apenas coloquei-a em um contexto mais amplo. O que Bolsonaro fez é injustificável.

Vamos, porém, aos fatos. Lembro, de um politico, aqui no mesmo no Rio Grande do Sul, que, não faz muito, pagava um assessor para, entre outras missões, patrulhar e tentar desmoralizar jornalistas pelas redes sociais. O jagunço virtual fazia o que o chefe mandava. Era implacável na suas campanhas difamatórias, recheadas ora de uma falsa ironia intelectualoide, ora de acusações distorcidas e falsas. Enquanto o chefe, que não tem qualquer afinidade ideológica com Bolsonaro, posava de democrata.

Um outro político, de um outro partido, adorava ligar para a direção e pedir a cabeça de jornalistas. Obviamente, nunca foi atendido. E assim sucessivamente. Da esquerda à direita, passando pelo centro.

Se o descontrole autoritário do presidente é chocante, a hipocrisia de muitos que o condenam também é. Quando era o seu político de estimação a bater (e, muitas vezes depois, esconder a mão), aplaudiam. Agora, se surpreendem e redigem textões no Facebook. É apenas isso que desejo afirmar, sem relativizar as críticas à brutalidade de Jair Bolsonaro.

TULIO MILMAN

26 DE JUNHO DE 2021
CARTA DA EDITORA

Uma nova seção sobre agronegócio

Na semana em que a Expointer 2021 foi anunciada para os dias 4 a 12 de setembro, com a retomada do formato presencial (com limitação de público), a jornalista especializada em agronegócio Gisele Loeblein inaugurou em suas colunas de ZH e GZH uma seção que conversa justamente com o momento atual de retomada no Rio Grande do Sul. Profissão Agro é um espaço para entrevistas com especialistas, profissionais e executivos de empresas que possam mostrar o universo de oportunidades de carreira no setor.

Diante de novos recordes produtivos, no país e no Estado, a geração de empregos ligados à agricultura e à pecuária se intensificou. No RS, o primeiro trimestre de 2021 foi o melhor em 14 anos no que diz respeito ao saldo positivo de vagas no setor: foram 26.504, conforme o Departamento de Economia e Estatística. Segundo Gisele, descontada a relação com a sazonalidade (no período de safra são recrutados mais trabalhadores), o cenário se mantém promissor, com chances se multiplicando para além da propriedade. Um exemplo é a indústria de máquinas e implementos, que gerou, nos três primeiros meses, 1.447 vagas a mais do que em igual período de 2020.

- Por meio da seção Profissão Agro, que sairá todas as segundas-feiras em ZH, vou apresentar ao leitor áreas que estão aquecidas, dicas para quem se interessa em uma vaga e iniciativas das companhias, como as de inclusão e diversidade, por exemplo - conta Gisele.

A estreia foi no dia 21, tendo como entrevistada Sheila Fonseca, vice-presidente de Recursos Humanos da AGCO América Latina, companhia que tem em seu portfólio marcas como Massey Ferguson e Valtra. Na edição da próxima segunda-feira, Gisele publica a conversa que teve com a PhD em genética e que faz análise de DNA do solo Juliana Marcolino, da empresa Biotrop.

DIONE KUHN

sexta-feira, 25 de junho de 2021

25 DE JUNHO DE 2021
DAVID COIMBRA

As lições da desgraça de Moro

Sergio Moro não caiu em desgraça por causa das mensagens hackeadas. Nem por causa da sua atuação na Lava-Jato. Sergio Moro caiu em desgraça porque deixou a magistratura para ingressar no governo Bolsonaro.

Essa decisão foi um erro tão estrondoso que comprometeu não apenas sua própria imagem; comprometeu a luta contra a corrupção no Brasil.

Sergio Moro, em certo momento, havia se tornado um símbolo. Ele representava a mudança: o Brasil agora tinha um sistema que punia quem cometia ilícitos, não importando de quanto dinheiro ou poder o infrator usufruísse.

Foi exatamente aí, nessa unção de Sergio Moro, que o mecanismo da corrupção encontrou a fresta na muralha que o cercava. Porque desmoralizar um homem é muito mais fácil do que derrotar um sistema imparcial, que funciona por si, como uma máquina. O homem pode ser destruído; o método fica.

Assim, Moro foi elevado a uma estatura que não possui. Olhe bem para ele. Olhe. Ele não tem carisma. Ele é uma figura quase anódina. Até porque foi treinado para se comportar de acordo com os ritos processuais. Moro é a própria formalidade. Nunca fez uma declaração arrebatada, nunca perdeu a linha, nunca emocionou ninguém com um discurso ou um gesto. Mesmo assim, os inimigos da Lava-Jato o promoveram a líder de uma complexa conspiração política, tendo inclusive a suposta participação de órgãos da inteligência dos Estados Unidos.

Peço mais uma vez: olhe para Moro. Observe-o bem. Você acredita que este homem, só com sua vontade, conseguiria derrubar um governo que estava havia 12 anos enraizado no poder e, de quebra, desmontar uma histórica articulação entre o Estado e as grandes empreiteiras, uma engrenagem que funciona no país inteiro há cinco séculos? Esse discreto juiz de primeira instância tinha tamanha força?

Não. A resposta é não. Moro só é super-homem nos bonecos de Olinda.

A criptonita de Moro foi sua vaidade. Ele acreditou que era o salvador da pátria. E, pior, acreditou que, depois de fustigar os políticos como jamais aconteceu na história do Brasil, poderia se consagrar tornando-se um deles. Posso ver Moro chegando a Brasília e os políticos, juízes e empreiteiros esfregando as mãos de contentamento.

Essa é uma história cheia de lições. Uma delas, sobre o cuidado que devemos tomar nas decisões estratégicas. Erros cometemos todos os dias, mas um único deslize estratégico pode causar dano irreparável e comprometer uma vida. Pense bem, portanto, quando você estiver com vontade de fazer uma mudança de rumo brusca. O melhor é ponderar, ouvir opiniões, ser cauteloso.

Outro ensinamento que essa história nos dá é a respeito do Brasil. O Brasil se adapta, mas não muda. Como a água, que toma a forma do recipiente que a contém, o Brasil "evolui" de acordo com a evolução dos tempos, sem jamais deixar de ser o que sempre foi. O Brasil é maleável, flexível e, ao mesmo tempo, inamovível. No Brasil é inútil lutar. Porque, no fim, eles vencerão.

DAVID COIMBRA

25 DE JUNHO DE 2021
SELEÇÃO

BB abre concurso para preencher 2,2 mil vagas

O Banco do Brasil abriu ontem inscrições para processo seletivo que visa à contratação de 2.240 escriturários, nas funções de agente comercial e agente de tecnologia, além da formação de cadastro reserva para os cargos. As vagas estão distribuídas entre todos os Estados brasileiros e o Distrito Federal. Para atuação no Rio Grande do Sul, são 154 contratações.

A maior parte é destinada ao cargo de escriturário agente comercial, e são somente 240 para agente de tecnologia. A remuneração inicial para ambas as funções é de R$ 3.022,37 para uma jornada de trabalho de 30 horas semanais.

Para participar, é necessário ter Ensino Médio completo e realizar a inscrição pelo site da Fundação Cesgranrio (gzh.rs/concBB) até as 23h59min de 28 de julho. A taxa custa R$ 38.

Candidatos que comprovarem inscrição no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, integrarem família de baixa renda ou forem doadores de medula óssea em entidades reconhecidas pelo Ministério da Saúde poderão solicitar a isenção da taxa de inscrição até 1o de julho.

A seleção será realizada por meio da aplicação de provas objetivas eliminatórias e classificatórias, além de um exame de redação de caráter eliminatório. As avaliações objetivas serão compostas de 70 questões de múltipla escolha, sendo 25 de conhecimentos básicos e 45 específicos - cujos conteúdos estão descritos no edital.

Conforme o cronograma, a aplicação das provas ocorrerá em 26 de setembro. No Rio Grande do Sul, os candidatos poderão realizar as avaliações nas cidades de Porto Alegre, Passo Fundo, Caxias do Sul, Santa Maria ou Pelotas.


25 DE JUNHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

O BRASIL PÓS-SALLES

Se há algo a lamentar sobre a queda do agora ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, é o fato de ela não ter ocorrido antes. Nunca, na história contemporânea nacional, o país teve uma imagem externa tão desgastada. No centro desse processo de desagregação de valor, estão a catastrófica gestão da pandemia e a percepção de descaso no tratamento dos recursos naturais sob o abrigo da soberania nacional, mas que importam a todo o planeta. O mundo olha com perplexidade para o Brasil.

Ricardo Salles colecionou, ao longo da sua gestão de dois anos e meio, omissões e atitudes claramente desvinculadas do compromisso de sustentabilidade no longo prazo, com impactos nocivos aos interesses do país. Não se trata aqui da condenável ideologização exagerada do tema, mas de uma relação direta e mensurável entre o valor dos produtos e serviços nacionais e a exigência cada vez maior dos mercados, internos e externos, de cuidado com os ecossistemas naturais que dão sustentação à vida na Terra. Salles tornou-se uma espécie de antiministro, com iniciativas desastrosas como a que levou ao congelamento do Fundo Amazônia, financiado por Alemanha e Noruega, para custear ações de preservação, o desmonte de órgãos ambientais e a perseguição a servidores que tentavam cumprir o dever.

Como ponto para reflexão, cabe ponderar que, apesar de tudo, Salles não caiu pelo que fez e deixou de fazer com as florestas, seus habitantes e a exuberante fauna nacional, e sim por ter comprado brigas políticas e desavenças institucionais com a Polícia Federal (PF) e com o Supremo Tribunal Federal (STF). Ao deixar o poder, o ex-ministro, amparado pelo presidente Jair Bolsonaro, fez um movimento estratégico para evitar complicações com o cerco legal que se fecha ao seu redor, depois de tentar proteger, usando o cargo, bandidos que desmataram a Amazônia. O processo em que é investigado por supostamente facilitar a exportação de madeira ilegal agora vai para a primeira instância.

Mas a queda de Salles, por si só, significa pouco na perspectiva de um compromisso racional e sério com o meio ambiente. Afinal, a diretriz é ditada pelo presidente da República. É preciso que seu sucessor assuma, urgentemente, discurso e práticas compatíveis com o papel de protagonismo do Brasil nas questões ambientais e climáticas. Cuidar da natureza faz bem à economia. Gera inovação, novas tecnologias, empregos, renda e, principalmente, perspectiva de futuro para as gerações vindouras.

 


25 DE JUNHO DE 2021
+ ECONOMIA

Aceleração digital expôs hackers

Não é só coincidência que a intensificação de ataques hackers, a maioria do tipo que "sequestra" sistemas digitais para cobrar resgate na liberação, conhecido como ramsonware, esteja ocorrendo durante a pandemia de covid-19.

Conforme Gustavo Gonçalves, diretor da Scunna, empresa que atua há 33 anos com foco em soluções de segurança da informação, ao serem forçadas a acelerar a digitalização, as empresas deram prioridade à disponibilidade do serviço, deixando a segurança para depois:

- A transformação digital a fórceps, sem planejamento, acabou abrindo brechas para os atacantes. Ao permitir que as pessoas trabalhassem de forma remota e com equipamento próprio, as empresas compraram risco.

Antes que o home office virasse uma necessidade, detalha Gonçalves, empresas tinham em seus sistemas internos várias camadas de segurança e ferramentas que barravam tentativas de ataque antes que fossem atingidas.

- Quando tira o usuário da empresa e coloca em casa, é como se deslocasse uma pessoa de zona segura de guerra e largasse no campo de batalha, sem estar preparada - compara.

Em todos os últimos casos públicos, diz Gonçalves, do Tribunal de Justiça do Estado ao Grupo Fleury, dono dos laboratórios Weinmann, passando pela JBS e pela Colonial Pipeline, nos Estados Unidos, têm em comum o código malicioso Sodinokibi. Essa estratégia ataca os chamados "usuários privilegiados", por ter credenciais de administração do sistema, o ponto mais frágil da estrutura.

- A regra básica é monitorar, monitorar, monitorar e responder aos incidentes. Lembra quando se usava corrente ou trava na direção do carro? Não era para ter certeza de que o veículo não seria roubado, era só para que o ladrão procurasse um que não tinha. É um desestímulo. Quem adota as medidas básicas, que chamamos de "segurança higiênica", faz o mesmo. Tem tantos mais frágeis, que os hackers vão adiante - diz.

MARTA SFREDO

quinta-feira, 24 de junho de 2021


24 DE JUNHO DE 2021
DAVID COIMBRA

Medo de injeção

Se você parar para ver os telejornais, inevitavelmente assistirá às reportagens sobre a vacina contra a covid-19. E, nessas reportagens, verá meia dúzia de vezes a cena daquela agulha entrando no braço de quem se vacina. É uma agulha comprida. Terá... o quê? Uns quatro centímetros? Por aí. E os enfermeiros introduzem-na inteira no músculo da pessoa, antes de premer o êmbolo da seringa.

Contei, outro dia, na rádio, que a Marcinha não pode ver essa cena. Quando vê, ela geme, "ai!", e vira o rosto para o lado.

Foi eu contar isso e vários ouvintes me mandaram e-mails dizendo que eles também têm problemas com a visão de agulhas penetrando braços indefesos. Trata-se do ancestral medo de injeção, que nos assola desde a infância.

Fiquei pensando se, diante daquela cena, alguns não desistem de tomar a vacina por medo da picada. Porque tem de haver um motivo psicológico profundo para os que se negam a se vacinar, que não são tão poucos assim.

Até entendo que o princípio da vacina pode ser assustador. Afinal, um simulacro da doença é inoculado em você a fim de alertar o seu sistema de defesa. Isso é perturbador. Na Revolta da Vacina, de 1904, até cabeças privilegiadas, como a de Ruy Barbosa, se rebelaram contra essa ideia. Em discurso no Senado ele vociferou:

"Assim como o direito veda ao poder humano invadir-nos a consciência, assim lhe veda transpor a epiderme. Logo, não tem nome, na categoria dos crimes do poder, a temeridade, a violência, a tirania a que ele se aventura, expondo-se, voluntariamente, obstinadamente, a me envenenar, com a introdução no meu sangue de um vírus em cuja influência existem os mais fundados receios de que seja condutor da moléstia ou da morte!"

Mas isso foi há quase 120 anos. De lá para cá, as pessoas se acostumaram a tomar vacinas. O meu filho, quando nasceu, estava nos meus braços depois de ter tomado seu primeiro banho, quando a enfermeira veio de lá com uma injeção GIGANTE.

- O que é isso? - perguntei, receoso.

- Vacina.

E, em seguida, sem me dar muita atenção, ela simplesmente tomou a perninha do menino e lhe enfiou aquela lança, tão grande que acho que poderia atravessá-lo. Meu filho, obviamente, começou a chorar, chocado com aquela primeiríssima agressão do mundo exterior, enquanto eu tentava consolá-lo, embalando-o. Quando finalmente consegui fazer com que ele se acalmasse, a enfermeira voltou com outra injeção.

- Mais uma vacina? - me surpreendi.

- Mais uma - ela disse, e rapidamente tomou a outra perninha do menino e PÁ!, deu-lhe outra agulhada. E o meu filho, mais uma vez, caiu num pranto entremeado de soluços, constatando, tão cedo, que aqui é mesmo um vale de lágrimas.

De lá para cá ele tomou dezenas de vacinas. Dezenas. Aí é que está: todo mundo toma vacina. Por que esse drama, agora, com a necessária vacina contra a covid-19? Vocês não entenderam ainda que todo mundo tem de se vacinar para podermos sair juntos dessa enrascada? Chega de medinho! Chega de frescura! Vai se vacinar, rapaz!

DAVID COIMBRA

24 DE JUNHO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

ESCLARECIMENTOS NECESSÁRIOS

Em nome da transparência que precisa pautar a administração pública, devem ser investigados a fundo e esclarecidos todos os detalhes e pontos obscuros da negociação que envolve a aquisição pelo governo federal da vacina indiana Covaxin, fabricada pela Bharat Biotech. As tratativas em torno do imunizante tiveram uma série de pontos que fugiram ao usual, conforme o observado nos contratos com os outros laboratórios. Há, além disso, o grave relato de um servidor do Ministério da Saúde que, em depoimento ao Ministério Público Federal (MPF), disse ter sido pressionado para agilizar os trâmites que envolviam a compra, deixando de observar normas existentes. Cioso de sua responsabilidade, resistiu e expôs a situação.

É estranha a agilidade que o governo imprimiu às negociações com a Covaxin, diante da lentidão predominante nas negociações com os demais fornecedores de vacinas, sobretudo a Pfizer, empresa de grande credibilidade e reconhecida pela qualidade de seus produtos. A questão dos preços, da mesma forma, é intrigante e necessita ser aclarada. Documentos do Ministério das Relações Exteriores indicam que o valor da dose seria 1.000% superior ao sugerido pelo próprio laboratório seis meses antes. Era a mais cara entre as oferecidas ao país e sequer estava aprovada para uso pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Chama ainda atenção o fato de ter sido a única tratativa que tinha um intermediário. Ou seja, os contatos não ocorriam diretamente entre o governo federal e a fabricante indiana, mas passavam por uma empresa brasileira, cujos sócios são os mesmos de outra companhia envolvida em um negociação que causou prejuízos milionários aos cofres públicos.

Soube-se agora que um deputado federal, irmão do servidor pressionado por um superior, avisou o presidente Jair Bolsonaro do ocorrido. O mandatário da República teria prometido mandar a Polícia Federal investigar o caso, e se espera que o presidente demonstre que iniciativas tomou a partir das informações a ele levadas. Tão incorreto quanto prejulgar é não investigar. O MPF viu indícios de sérias irregularidades e pediu uma apuração em âmbito criminal. A CPI da Covid também vai se debruçar sobre o episódio.

Mesmo que o pagamento, conforme o Ministério da Saúde, ainda não tenha sido efetivado, sempre que há recurso público envolvido é preciso transparência máxima e fiscalização dos órgãos de controle, para que quaisquer dúvidas sejam dirimidas e os cidadão saibam que o dinheiro de seus impostos é bem empregado, ainda mais quando à frente está o combate a um mal que já vitimou mais de 500 mil brasileiros. Não são recomendadas conclusões precipitadas. A politização do caso também é inoportuna. Mas é imprescindível jogar luz sobre os fatos e conhecer as condutas dos envolvidos, até para que, após o fim das investigações, chegue-se a conclusões solidamente embasadas. Acima das disputas políticas, deve pairar o respeito aos ritos legais para um esclarecimento pleno do que verdadeiramente ocorreu.

OPINIÃO DA RBS