sexta-feira, 15 de março de 2013



15 de março de 2013 | N° 17372
CELSO GUTFREIND

Cutucando Shakespeare

Inventar é diferente de mentir. A mentira restringe; a invenção transcende. A mentira pensa em si; a invenção sente o outro. A mentira encerra o assunto; a invenção abre. Pode não se ver de longe e nem se ouvir na hora, mas chega o dia em que a verdade vigora. No amor, mais ainda. Amantes inventam. Políticos mentem.

São tendências, há exceções, os dias não se repetem. Shakespeare inventava. Além de aproximadamente 38 peças, escreveu 154 sonetos. A maioria para convencer um amigo a casar-se e ter filhos. O motivo circunstancial não impediu que fossem magníficos. Dedicou a sobra – em torno de 30 – ao grande amor.

A “dama morena”, ao que consta, tripudiou o artista enquanto homem. Achava-o feio e inferior. Ela o traía até com o amigo mencionado. O que fazia Shakespeare? Tentava o suicídio? Matava o inimigo? Morria de verdade? Shakespeare inventava. Inventava sonetos. Sonetos de amor. De amor completo com rima, ódio, esperança: De almas sinceras a união sincera/Nada há que impeça. Amor não é amor/Se quando encontra obstáculos se altera/Ou se vacila ao mínimo tremor.

Shakespeare não vacilava. Do obstáculo fazia a novidade, outro soneto, um retrato em branco e preto para colorir a falta. O avesso. O negativo. A outra vida, imaginada, positiva. Certa psicologia o chamou de masoquista. Difícil contestá-la. Certa prosa diagnosticou amor bruxo e bandido, sofrimento e não amor. Difícil rebatê-la. Depois da invenção, a língua de Shakespeare estava aberta a todas as línguas. O ritmo acolhia qualquer comentário. Mas, a cada estrofe, inventava conteúdos. Amante, não mentia: amava.

Há quem encontre condições menos desfavoráveis e não ame um dia sequer. Ou ame mais ou menos. Ou menos e não expresse. Não experimente, não registre. Ou o faça com forma mínima e pouca intensidade, puxado o freio de alma. Para não arriscar os efeitos colaterais de um sofrimento, não conte às ganhas, não ame em cheio. Para não morrer, não viva.

Shakespeare amou por muitos dias. Da vivência deixou uma trintena de peças e um punhado de poemas: Mas em ti o verão será eterno,/E a beleza que tens não perderás;/Nem chegarás da morte ao triste inverno:/Nestas linhas com o tempo crescerás./E enquanto nesta terra houver um ser,/Meus versos vivos te farão viver.

Fizeram. Mas a vida é provisória, o tempo tudo desfaz. Tem menos trabalho com a perna curta da mentira e bem mais com o corpo largo da invenção. Shakespeare não era mentiroso. Era amante, inventor: Amor não se transforma de hora em hora,/Antes se afirma, para a eternidade.

Também inventou esta. Não mentiu.

quinta-feira, 14 de março de 2013



14 de março de 2013 | N° 17371
EDITORIAIS

A OPÇÃO PELA SIMPLICIDADE

Ao eleger um jesuíta latino-americano para o trono de São Pedro, a cúpula da Igreja Católica Romana, representada por seus cardeais, fez uma opção inequívoca pela simplicidade, pela humildade e pela atenção aos pobres – características reconhecidas do argentino Jorge Mario Bergoglio, que adotou o emblemático nome papal de Francisco. Foi uma surpresa mundial, mas também um indício claro de mudança de rumo na maior organização religiosa do planeta, cujo comando sai da Europa e ganha o vigor da renovação.

Escolhido o novo papa, o que realmente importa não é a sua nacionalidade nem a sua origem – e muito menos se ele merece ser rotulado como conservador ou revolucionário. O essencial e desejável é que o novo pontífice tenha sabedoria, saúde e coragem para resgatar o papel da Igreja como referência ética para a humanidade.

Seu desafio é enorme, pois ele assume a administração da Santa Sé num cenário de indisfarçável crise de valores – razão confessa da renúncia de seu antecessor. Bento XVI deixou nas entrelinhas de seus discursos de despedida uma mensagem clara: para recuperar a confiança e o respeito de seguidores e simpatizantes, a Igreja precisa promover uma faxina interna, expurgando a corrupção, a perversão e o mofo de suas engrenagens. Sem forças físicas e emocionais para esta verdadeira tarefa de Hércules, ele a transferiu para o sucessor.

O servo dos servos de Deus, portanto, terá que ser mais do que um pastor em busca de ovelhas desgarradas. Terá, antes de tudo, que ser um grande comunicador, para fazer de seu pontificado uma tribuna de conexão com o novo mundo da informação plena e da reação 


14 de março de 2013 | N° 17371
PAULO SANT’ANA

Argentino ou colorado

Na coluna de anteontem, brinquei que só não queria que o novo papa fosse argentino ou colorado.

Pois não é que o papa saiu argentino...

Mas estou alegre, porque o Papa adotou o meu nome, Francisco. Admira-me que seja o primeiro papa que se chama Francisco, nome de um grandioso santo, São Francisco de Assis.

Com tantos papas italianos, nenhum adotou o nome do Pobrezinho de Assis, isso é espantoso.

Mas não foi só esse meu “azar” na semana, o papa ser argentino.

Meu pior azar na semana foi a derrota lamentável do Grêmio em Caracas.

Fiquei e estou arrasado com essa derrota.

É que, com a vinda de Barcos, supus que o Grêmio deveria ser campeão da Libertadores. Pois se viu em Caracas, anteontem, que não temos time para sermos campeões.

Nossa defesa é furada, Cris é comprometedor e Pará é inconfiável.

Grêmio com time irrazoável e papa argentino é dose dupla nesta semana quase trágica.

Quem não gosta de futebol, ainda assim vai gostar desta notícia espetacular, histórica, nunca antes verificada no mundo, o maior erro de um juiz que se tem notícia.

O Caracas solicitou ao árbitro antes do jogo contra o Grêmio que ele procedesse a um minuto de silêncio em memória do ex-presidente Hugo Chávez.

Ora, Hugo Chávez está e estava sendo velado em Caracas, de onde com mão forte governou a Venezuela por vários anos.

Como pode o árbitro ter se negado, por recomendação da Conmebol, a proceder ao minuto de silêncio?

Pois se negou.

Um minuto de silêncio solicitado ao juiz, seja em memória de um engraxate ou até de Adolf Hitler, tem de ser imediatamente concedido.

Foi um ato arbitrário e violento.

Este juiz e a Conmebol restaram por isso malditos.


14 de março de 2013 | N° 17371
L. F. VERISSIMO

Sem exagero

Fizeram um encontro meu com o Abel Braga quando ele estava treinando o Internacional, e descobrimos uma coincidência. O primeiro jogo que ele viu no Maracanã, ainda garoto, ao lado do pai, foi o último que eu vi, já nada garoto, perto de me casar. Santos e Milan, novembro de 1963.

Até então, eu não perdia jogo do Botafogo, da Seleção ou do Santos no Maracanã. Morava no Leme e pegava o ônibus Leme-Triagem, atravessava a pé a Quinta da Boa Vista e ia para a arquibancada. Sim, o Santos jogava suas partidas decisivas no Maracanã. O Maracanã enchia para ver o Pelé. Mas, no jogo que o Abel, eu e uma multidão vimos, o Pelé não jogou. O herói da noite foi o Almir. O Pelé da noite foi o Almir.

Volta e meia, vem a discussão. Pelé era mesmo tudo que se diz dele? O Maradona era melhor? O Messi é melhor? Meu testemunho não interessa. Ele reinou quando já havia videoteipe. Seus feitos estão bem documentados. Você não precisa recorrer à literatura para contar às crianças como era o seu futebol – ao contrário das façanhas de gente como Ademir e Zizinho, que ficaram na memória dos velhos e em filmes desbotados, nenhuma das duas coisas muito confiáveis.

E o grande mérito de Pelé é que ele resiste ao videoteipe completo. Se tivesse ficado só em filme, só os seus grandes momentos estariam registrados. Já o videoteipe completo traz tudo: o passe errado, o tombo sentado, a chuteira desamarrada. E Pelé resiste aos detalhes. Ele era bom até amarrando a chuteira.

Com o futebol aconteceu um pouco do que aconteceu com a guerra: quanto mais realista a sua reprodução, mais difícil romanceá-la. Quando só se viam cenas de guerra em quadros épicos em que até os cadáveres colaboravam na composição, ela podia ser glorificada sem contestações, salvo as estéticas.

Fora as gravuras de Goya, não se conhece um quadro sobre a guerra, antes da invenção da fotografia, que não a exaltasse. A fotografia primitiva roubou da guerra a cor e a composição artística , o filme e o teipe dinamizaram o horror, o “zoom” destacou o detalhe. Ainda há quem ame a guerra, mas nunca mais a percepção dela foi a mesma.

E o futebol também mudou, o que só aumentou a dificuldade em julgar jogadores antigos pelas precárias imagens que ficaram deles e pelo que contam – com o inevitável toque romântico do exagero – os que os viram jogar.

Algumas das grandes reputações do passado sobreviveriam aos cinco no meio e à marcação no campo todo de hoje? Pelé pegou o começo do futebol sem espaço. Não só se impôs como deixou o exemplo de como sobreviver no sufoco.

A extrema objetividade (nunca se viu um drible do Pelé apenas pela satisfação do drible, era sempre um espaço conquistado), a antecipação da jogada seguinte antes mesmo da jogada presente começar, a solidariedade, a simplicidade. Melhor do que Maradona, melhor do que Messi, e dou fé.


14 de março de 2013 | N° 17371
CAPA

Vem aí a Trincheira da Cristóvão

Construção da passagem subterrânea de 200 metros de extensão terá início nos próximos dias

Em tempo de obras por toda Capital, mais uma que deve ter impactos sobre o trânsito na região está prestes a começar. Deve ter início nos próximos dias a abertura da passagem subterrânea na Cristóvão Colombo com a Terceira Perimetral.

Assim como as demais trincheiras de Porto Alegre, como estão sendo chamadas as passagens da Anita Garibaldi e da Avenida Ceará, a passagem na Cristóvão será uma arma, ainda que simbólica, na guerra contra o caos no trânsito da cidade. Com 200 metros de comprimento – entre as ruas Carlos Von Koseritz e Honório Silveira Dias, a trincheira da Cristóvão deverá contribuir para a melhora do fluxo dos cerca de 85 mil veículos que circulam pela região diariamente.

– O que determina a necessidade de obra é o congestionamento que se forma nas sinaleiras. E, pelo volume de circulação, a solução no eixo da Terceira Perimetral com a Cristóvão Colombo não é mais viável com sistema semafórico – explica o engenheiro Rogério Baú, coordenador das obras da Copa pela Secretaria de Gestão da prefeitura.

O conjunto de obras que inclui as trincheiras da Anita Garibaldi, Ceará e Cristóvão Colombo, e os viadutos da Bento Gonçalves e da Plínio Brasil Milano, é considerado pela prefeitura uma das principais ações para qualificar a mobilidade urbana para a Copa do Mundo de 2014.

O objetivo das intervenções, segundo a Secretaria de Gestão, é melhorar o trânsito na Terceira Perimetral e nas transversais e qualificar a circulação nas vias onde ocorrerão as obras. De acordo com o engenheiro, por serem muito próximas, as obras têm função complementar:

– Há muito tempo, Anita, Cristóvão e Plínio não são ruas de bairro, mas vias de ligação importantes. São troncais no plano diretor da cidade, e a malha urbana nesse ponto de Porto Alegre só terá êxito com a implantação das três trincheiras – afirma Baú.

Assim como as demais obras da Copa, a previsão de conclusão da trincheira da Cristóvão é de 12 meses. Seu custo estimado é de R$ 12,5 milhões. Até o fechamento desta edição, a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) não havia definido as alterações no trânsito da região necessárias para a realização da obra.

Deve ter início ainda no mês de março a construção do viaduto da Plínio Brasil Milano. Segundo a prefeitura, a licitação já foi concluída. Após a assinatura do contrato, a empresa vencedora poderá dar início aos trabalhos.

bruna.vargas@zerohora.com.br

quarta-feira, 13 de março de 2013



13 de março de 2013 | N° 17370
MARTHA MEDEIROS

Deus em promoção

Pouca coisa me escandaliza, mas fiquei perplexa com o vídeo que andou circulando pela internet, que mostra um culto da Assembleia de Deus conduzido pelo pastor Marco Feliciano – sim, o polêmico presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, o maior para-raios de encrencas da atualidade.

O vídeo mostra o momento da coleta de dízimos e doações, a parte mercantilista da negociação dos fiéis com o Pai Supremo, de quem o pastor se julga uma espécie de contador particular, pelo visto.

Entre frases inibidoras, como “Você vai mesmo ficar com esse dinheiro na sua carteira?”, dirigida a pessoas da plateia, e estimulando que os trabalhadores cedam uma porcentagem do seu salário dizendo “Aquele que crê dá um jeito”, aconteceu: alguém entregou seu cartão de crédito nas mãos do pastor. No que ele retrucou: “Ah, mas, sem a senha, não vale. Depois, vai pedir um milagre pra Deus, Ele não vai dar, e aí vai dizer que Deus é ruim”.

Entendi bem? Deus está à venda? Cobrando pelas graças solicitadas?

Essa colocação do pastor bastaria para abrir uma CPI contra os caras de pau que, abusando da esperança de gente sem muito tutano, arrecadam fortunas e depois vão fazer suas preces particulares em algum resort em Miami. Quem dera houvesse um Joaquim Barbosa para colocar ordem nesse galinheiro falsamente místico, mas quem ousa? Se essa simples crônica já sofrerá retaliações, imagine alguém peitar judicialmente um representante de Deus, ou que assim se anuncia.

Religiosidade é algo extremamente respeitável. Cada um exerce a sua com a intensidade que lhe aprouver, de forma saudável, a fim de conquistar bem-estar espiritual. Todas as pessoas religiosas que conheço, e são inúmeras, nunca precisaram comprar sua fé nem dar nada em troca – conquistaram-na gratuitamente através de cultura familiar ou de uma necessidade pessoal de conforto e consolo que é absolutamente legítima.

Religião é, basicamente, isso: conforto e consolo.

Já os crentes fazem parte de outra turma. São os que acreditam cegamente em pecado, castigo, punição e numa recompensa que só virá depois de algum sacrifício. Quando não pagam em espécie, abrem mão de prazeres terrenos como forma de penitência, para se tornarem dignos da vida eterna – que viagem.

É preciso ser muito iludido para acreditar que pagar a conta de luz é menos importante do que pagar pelo milagre encomendado a Deus através de seus “assessores” – e que, segundo o pastor Marco Feliciano, só será realizado se você não tiver caído na malha fina do Serasa Divino.

O que fazer para tirar os crentes desse transe? Colocar na cadeia esses ilusionistas que se apresentam como pastores? Duvido que ajude. A bispa Sonia e seu marido Estevam Hernandes foram condenados por lavagem de dinheiro e de nada adiantou. Se fossem condenados por lavagem cerebral, quem sabe.



13 de março de 2013 | N° 17370
OLHAR GLOBAL | Luiz Antônio Araujo

Nosso homem no Vaticano

É singular a condição de dom Odilo Scherer, que, ao lado do italiano Angelo Scola, arcebispo de Milão, é um dos dois cardeais a ingressarem como favoritos no atual conclave. Por um lado, é visto como parte da Igreja brasileira, tachada de esquerdista desde o final dos anos 1970. Por outro, é um legítimo homem da era João Paulo II-Bento XVI, marcada pelo viés conservador.

Uma parte da Cúria (leia-se o cardeal camerlengo Tarcisio Bertone, atual secretário de Estado do Vaticano) estaria patrocinando a candidatura brasileira na velha tradição peninsular de “mudar para deixar tudo como está”. E o próprio dom Odilo não contribui para desfazer essa impressão ao assumir a defesa da gestão do Banco do Vaticano, alvo de denúncias de irregularidades, conforme relatado ontem por mais de um jornal italiano. Ao assumir um ônus político desse quilate, considerado pesado demais até por alguns cardeais italianos, o gaúcho de Cerro Largo mostra que está disposto a jogar pesado na disputa da Capela Sistina.

Testemunhos insuspeitos como o de dom Paulo Evaristo Arns, antecessor de dom Odilo na Arquidiocese de São Paulo, sugerem que o brasileiro a chegar mais perto da eleição para papa teria sido dom Aloisio Lorscheider no conclave de agosto de 1978.

O próprio João Paulo I teria votado em Lorscheider. Uma cardiopatia teria afastado o arcebispo de Fortaleza do trono papal. A diferença entre dom Aloisio e dom Odilo é que o primeiro entrou nos conclaves de 1978 como um defensor dos direitos humanos atingidos pela ditadura militar no Brasil. Já o segundo estreia em 2013 como defensor dos executivos de um banco considerado suspeito até mesmo pelas autoridades europeias.


13 de março de 2013 | N° 17370
PAULO SANT’ANA

Glória aos burros!

Tenho o maior respeito pelas pessoas burras.

Porque elas não têm culpa de serem burras. Elas nasceram assim e, pelo que se vê, não têm conserto.

Ninguém tem culpa de ser burro, assim como ninguém tem mérito em ser inteligente: ambos já vieram ao mundo assim.

Mas quero declarar que um dos maiores empecilhos da civilização são os burros.

Eles atrasam as relações humanas e são também o maior fator de não produtividade.

Já notaram que o burro é paciente, resignado e humilde?

O burro tem todas as qualidades, menos a inteligência.

Apesar disso, num mundo em que há muitos burros, é possível que um burro tenha ascensão social.

Por exemplo, uma atividade em que é frequente a prosperidade do burro é a política.

Há burros que assumem os maiores cargos da República. Há burros que conseguem ser governadores e até presidentes da República.

Um dos maiores desastres existentes na sociedade humana se dá quando um burro governa pessoas inteligentes, a revolta entre estes últimos chega à raiva e até ao ódio.

Porque não tem maior desgraça do que alguém ser súdito de um burro.

Entre as diversas espécies de burros, destaca-se uma como a mais irritante: a daquele que além de burro é teimoso.

A gente vai e explica ao burro que ele está (novamente) errado e ele não se convence, explana aí então com mais veemência a sua tese absurda.

Com o burro teimoso, o melhor mesmo é desistir.

Dou exemplo de uma burrice pública que tem milhares de seguidores: os que não permitem que os parques e as praças sejam cercados.

Não adianta explicar que o mais belo e aprazível parque de Porto Alegre é o Germânia, construído pela Goldsztein e entregue à prefeitura, no Jardim Europa. Ele é inteiramente cercado e fechado à noite e só por isso dá gosto visitá-lo e usufruir de suas esplêndidas benesses naturais e de equipamentos.

Mas, quando se prega que os parques têm de ser cercados, sabem o que respondem os burros: “Cercados? Nada de campos de concentração no seio da cidade, os parques têm de ser abertos ao público”.

Ou seja, não entra nas cabeças de chumbo dos burros que se quer fechar os parques à noite para que os vândalos não os destruam e abri-los pela manhã até a tardinha para que eles se ofereçam íntegros e benfazejos à população.

Não adianta, os burros não entendem.

E essa burrice que já dura cem anos destrói todos os dias o Parque da Redenção e outras praças da cidade. Porque 95% das depredações nos parques acontecem durante a noite.

Mas, enfim, glória à burrice triunfante! Para tristeza dos inteligentes e até de um certo orgulho dos burros.


13 de março de 2013 | N° 17370
GRÊMIO

Deu tudo errado

Permite virada do Caracas e volta da Venezuela sem classificação encaminhada na Libertadores. Pior: começa a fazer contas

Com um segundo tempo irreconhecível, repleto de erros de passes e fartura de espaços no meio-campo para o Caracas jogar, o Grêmio dificultou a sua vida no Grupo 8 da Libertadores.

Perdeu por 2 a 1, de virada, na Venezuela. Agora, o jogo contra o Fluminense, na Arena, dia 10 de abril, se transformou em decisão. E das mais tensas e dramáticas, já que o Flu segue líder e o Caracas encostou.

O curioso é que o Grêmio deixou de encaminhar o primeiro lugar no grupo do jeito que imaginava conquistá-lo. Com o gramado esburacado do Estádio da Universidade Central de Venezuela (UCV), a ideia era fazer gols apostando em rebotes e chutes de fora da área. Pois o Grêmio é que levou gol assim, perdendo uma partida na qual poderia ter vencido antes do intervalo.

O Caracas mudou em relação ao 4 a 1 da Arena. Trocou um lateral-direito defensivo, Quijada, por um ofensivo, Amaral. Abriu mão do meia Jesús Meza em nome do atacante Farías. Naturalmente ameaçou mais, empurrado pela escalação. Era vida ou morte para os lanternas do Grupo 8.

Logo no primeiro minuto, um susto. Balão para a área, a zaga rebate com defeito e o pernalta habilidoso Peña pega o rebote. Dida se estica e faz boa defesa no seu canto esquerdo. Pressão, caldeirão, fumaceira? Nada disso, ao menos por enquanto.

O Grêmio foi se adonando da partida com serenidade, ora trocando passes, ora buscando o lançamento em profundidade para Barcos e Vargas, quando o gramado esburacado impedia algo melhor. O argentino, novamente recuando e achando espaço atrás do volantes, comandava o Grêmio.

Ele poderia ter aberto o placar já aos 7 minutos, ao girar sobre o zagueiro. Em seguida, aos 17, o gol. André Santos cruza com precisão milimétrica para Elano (que levou o terceiro cartão amarelo e não enfrentará o Fluminense) concluir de cabeça: 1 a 0.

Parecia que o Grêmio ia matar o jogo, mas faltou o instinto de liquidar o adversário. O Caracas só conseguia algo quando Otero tentava entrar a drible.

Ou quando Amaral avançava às costas de André Santos. Então, a chance para o azar, quando nem a torcida venezuelana acreditava mais, quieta que estava no estádio. Aos 46, no último lance do primeiro tempo, Peña repete o primeiro, a 1 minuto: chute rasteiro, desta vez no canto direito de Dida. Indefensável: 1 a 1.

O segundo tempo do Grêmio é para esquecer. Desatenção, erros de passes a valer e marcação frouxa. O Caracas agradeceu o presente e foi para cima. O segundo gol, aos 21, parecia futsal: bola de pé em pé até Cure cruzar rasteiro da esquerda e achar Farías dentro da pequena área. Luxemburgo operou mudanças radicais.

Tirou Fernando e colocou Welliton, armando o time em um 4-3-3. Elano, cansado e deixando o volante Guerra livre, deu lugar a Marco Antonio. Por fim, um Vargas apagado (errou um passe que deixaria Barcos na cara do gol) saiu de cena em nome de Willian José. O Grêmio foi à frente, mas sem muita organização.

Agora, a vitória sobre o Fluminense passa a ser mais do que desejada. E o bom seria que Caracas e Huachipato empatassem. Aí, o Grêmio, com 9 pontos, chegaria à última rodada, contra os chilenos (5, nessa situação hipotética), com a certeza de que apenas um time poderia terminar a sua frente – pois Fluminense (que teria os mesmos 7 pontos de hoje) e Caracas (também com 7) se enfrentam.

terça-feira, 12 de março de 2013



12 de março de 2013 | N° 17369
FABRÍCIO CARPINEJAR

Me deixe em paz

Meu filho foge das fotografias.

É alguém alçar o celular para o alto e ele se esconde debaixo de colunas e cortinas. Não aguenta máquinas por perto.

Não me chateio, não obrigo que ele mude de ideia, nem lamento a desistência precoce da vida pública.

Ele não está doente, tampouco é timidez. Não colocarei Vicente em terapeuta para resolver sua retração. Não vou ofendê-lo de bicho de mato e constrangê-lo entre os amigos.

O nome do que sente é estresse. Uma postura defensiva extremamente sadia. Ele está farto de flash, de olhar para cá e ser feliz.

Bombardeamos nossos filhos com a facilidade de imagem. Exageremos na dose. Eles enjoaram, cansaram, taparam a câmera com a mão.

É Instagram. É Facebook. É Twitter. É Tumblr. Temos que alimentar diariamente os demônios das redes e eles são nossas vítimas prediletas.

Vicente entrava no ônibus da escola: foto! Vicente almoçava: foto! Vicente jogava futebol: foto! Vicente bocejava: foto! Vicente pulava na piscina: foto! Vicente chorava bonito: foto!

Coitado. Aos 11 anos, ele tem um acervo fotográfico do tamanho do de Justin Bieber. Desde o nascimento, são centenas de fotos minuto a minuto de sua existência. Não diria que ele possui um álbum, mas já uma fotobiografia.

Minha infância foi de plebeu, com 50 fotos no máximo, todas com roupas de domingo e ao lado dos irmãos. A infância do Vicente é de imperador, uma muralha da China de poses.

Os pais se transformaram em paparazzi alucinados e loucos para demonstrar seu amor digital. Montam guarda nas janelas. Realizam vigília nas portas do banheiro e do quarto.

Encantados com os aparelhos modernos e as versões anuais de Android e iPhone, perderam o pudor e o senso de medida. Seguem seus pequenos nas cenas mais recatadas e pessoais para obter o clique diferenciado, que ficará um luxo com o uso dos filtros.

Não é brincadeira. Subtraímos a privacidade das crianças. Hoje, estão expostas como atores e atrizes mirins, empurradas precocemente para a ribalta. Tudo é festa. Tudo é mostrado.

Os meninos e as meninas não têm sossego. Não podem nos olhar com cara engraçada. Não podem inventar de nos abraçar longamente. Um instante de bobeira, e seus familiares aproveitam o registro para pôr na web.

Vicente rejeita luzes. Ele pede:

– Me deixe crescer em paz.

Bem que ele faz.


12 de março de 2013 | N° 17369
ARTIGOS - Milton R. Mendran Moreira*

O divino Feliciano e os humanos direitos

Dentre os grandes equívocos das religiões, talvez o mais danoso ao ser humano é o de tomar como valores eternos e imutáveis preceitos apenas compatíveis com o tempo em que promulgados. A Bíblia judaico-cristã, por exemplo, está repleta de conteúdos claramente preconceituosos que colidem frontalmente com modernos valores como liberdade e igualdade.

Religiões são a expressão de provisórias necessidades de sobrevivência e de preservação de valores, hábitos e crenças de coletividades humanas postos em confronto com as de outros grupos. Elas são necessariamente sectárias porque visam a proteger aquele agrupamento, aquele gênero, aquela ideologia, aquele sistema de poder, contra interesses que as possam desestabilizar. Religião e poder sempre tiveram íntima conexão, porque as regras de conduta dela emanadas, se destituídas de cogência, perderiam efetividade. Ou seja: não há forma de dar efetiva exequibilidade aos valores e preceitos religiosos que não atribuindo sua origem à autoridade máxima capaz de ser concebida pela mente humana: Deus. Quando transformados em dogmas de fé, quando a promulgação deste ou daquele preceito logra se impor como de efetiva origem divina, ele estará revestido de tudo aquilo que uma norma exige para ser efetiva: seu poder de cogência.

A história da civilização não é nada mais nada menos que o resultado do conflito entre esse pretenso poder divino de ditar normas tidas como eternas e imutáveis e a saga humana de tomar para si o múnus de legislar conforme as especificidades e necessidades de cada tempo. Nessa guerra entre deuses e homens, estes últimos têm se valido de algumas armas que só estágios mais recentes de seu processo evolutivo lhes disponibilizaram. São coisas tais como razão se sobrepondo à fé, direitos humanos com prevalência sobre prerrogativas do mais forte, direitos de minorias ganhando efetividade legal contra privilégios de aristocracias raciais, econômicas e religiosas que não os reconheciam e, mais que isso, os condenavam por manifestamente contrários à presumível ordem divina.

O resultado desse conflito deu origem ao que chamamos Estado democrático de direito. Sua implementação e sedimentação na moderna sociedade se dão apesar da religião e, muitas vezes, contra esta. Diga-se, entretanto, de passagem: contra a religião não significa contra a espiritualidade. Quem, sendo capaz de fugir do dualismo sagrado/profano, cultivar o entendimento de que a verdadeira essência do ser humano reside na sua condição de espírito há de reconhecer, sempre, nas tendências históricas do gênero humano e, logo, do espírito humano, a própria realização de sua identidade plena com o divino.

Mesmo que reputemos como insuperável o conflito entre religião e Estado democrático de direito, aquela tem insistido em se valer deste para obstaculizar sua caminhada, para anular, pelos próprios mecanismos por ele disponibilizados, o seu avanço. O episódio da recente eleição de um certo pastor deputado Marco Feliciano para presidir, na Câmara dos Deputados, a Comissão de Direitos Humanos, comprova isso.

Apesar de exibir uma biografia de insuspeita submissão a um tipo de fé que confronta com os direitos humanos e prega atitudes de franco boicote à vigência de alguns deles, Feliciano foi guindado pela maioria de seus pares à presidência do órgão.

Que dizer da exitosa pretensão do pastor deputado? Legítima, na medida em que, pela lógica interna de seu meio, ele e seus eleitores se julgam partícipes de uma certa ordem divina, por natureza incompatível com a ordem humana.

Que dizer, no entanto, de um sistema formalmente comprometido com o Estado de direito quando ele próprio unge justamente alguém com esse perfil para presidir uma comissão parlamentar e permanente de direitos humanos? Mais do que incoerente, a atitude é autofágica. No mínimo, nega e nulifica os próprios fundamentos de sua existência. Tristemente, revela que se, formal e institucionalmente, pode-se falar em um Estado democrático de direito, na prática ele não passa de um tênue projeto humano que esbarra ainda nos caprichos e nos poderes dos deuses.

*ADVOGADO, JORNALISTA, PRESIDENTE DO CENTRO CULTURAL ESPÍRITA DE PORTO ALEGRE


12 de março de 2013 | N° 17369
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Três livros

1. Sepé Tiaraju e a Guerra Guaranítica (Editora Callis, São Paulo): Luís Rubira, professor de Filosofia da UFPel, excelente leitor de história e de literatura, apresentou ano passado esta biografia de temperamento histórico, bem documentada e escrita com traços de invenção narrativa, com o bom acréscimo de ilustrações de Sandro Andrade. O livro faz parte de uma coleção chamada “A luta de cada um”, que aborda outros grandes heróis da vida brasileira. Sepé foi objeto de inúmeros relatos, alguns testemunhais, outros ficcionais, todos convergindo em

 sua importância superior. Basílio da Gama, no magnífico O Uraguai, poema épico de 1769, nos dá dele um retrato dramático de grande valor. Luís Rubira entra nessa longa linhagem de escritores com todos os méritos.

2. A Fronteira onde Borges encontra o Brasil (Editora Movimento, cá de Porto Alegre): Carmen Maria Serralta publicou, em 2011, este simpático livro, resultante de conferência que a autora proferiu em Santana do Livramento, a cidade fronteiriça em que andou o grande escritor Jorge Luis Borges, em sua juventude.

Ali assistiu ao assassinato de um homem num bar; ali viu os gaúchos de aspecto primitivo, tão importantes para aquele portenho refinado e cosmopolita. Carmen Serralta nos conduz por caminhos internos da obra de Borges, com grande conhecimento de causa, mostrando os ecos de sua estada na fronteira brasileira. Agradável de ler, inteligente, um guia de grande qualidade para o tema.

3. No Último Minuto – A História de Escurinho: Futebol, Violão e Fantasia (Editora Signi, Porto Alegre): o jornalista Jones Lopes da Silva publicou, em 2011, esta ótima biografia, que revive a figuraça que foi o Escurinho, craque colorado. O texto é de grande qualidade, talvez com algum preciosismo aqui e ali; a pesquisa é nada menos que exemplar; o resultado é uma leitura forte, que repassa a vida do biografado mas, para além dele, a vida das classes populares de Porto Alegre no século 20.

Não tem exagero não: Jones reconstituiu a trajetória da família do jogador, numa vida que se enlaça com a de outros dois heróis populares da cidade, ambos da Ilhota onde Escurinho viveu parte da vida – estamos falando de Tesourinha e Lupicínio Rodrigues.

Não será acaso que Escurinho era bom de bola e de samba, embora não tenha nunca deslanchado carreira musical, apesar de haver tentado, desde muito cedo. Negro de origem pobre com consciência das questões de sua geração, classe e etnia, Escurinho merece a permanência na memória de colorados e gremistas, por motivos opostos. 


12 de março de 2013 | N° 17369
PAULO SANT’ANA

Sobre o papa

Vários ouvintes da Rádio Gaúcha mandaram dizer ontem que, se o papa for gaúcho, desejam que ele seja colorado.

Eu quero dizer que desejo ardentemente que o próximo papa não seja colorado.

Porque eu costumo rezar para o papa. Se ele for colorado, não rezarei para ele, vou, isto sim, secá-lo.

Além disso, se o próximo papa for colorado, peço a ele que não declare isso, esconda seu coloradismo.

Porque, se se declarar colorado, o papa vai encontrar aqui dois terços do Rio Grande se opondo a ele.

Só há dois tipos de papa que não tolerarei: colorado e argentino.

Eu nunca vi uma piada que já tenha nascido mais feita que esta que vou fazer agora. Ela é tão óbvia, que penso que alguém já a tenha lançado antes de mim.

É que, se o papa vier a ser gaúcho como tanto se torce aqui por isso, a chaminé que anunciará o novo pontífice será a da Usina do Gasômetro.

Se o papa for gaúcho e colorado, vai haver um problema: certamente ele visitará depressa o Rio Grande do Sul.

Se ele vier aqui antes da conclusão da reforma do Beira-Rio, é lógico que será recebido na Arena do Grêmio.

Se, no entanto, o papa nos visitar depois da conclusão da reforma do Beira-Rio, só o que faltava era o novo papa, colorado, se apresentar no Beira-Rio, o que causará violentos protestos da torcida gremista.

Só o que faltava também era, além de a Copa do Mundo ser realizada somente no Beira-Rio, o novo papa se apresentar também no estádio colorado: dose dupla eu não suporto.

Só tem uma coisa melhor que o churrasco: o cigarro.

E só tem uma coisa melhor que o cigarro: é o cigarro logo após o churrasco.

Mas, no sábado passado, o cigarro, para mim, passou a ser batido pelo churrasco: é que comi em Montevidéu um baby beef e uma costilla de cordero como nunca tinha comido em minha vida um churrasco mais delicioso.

Aparentemente, nunca atinei para o motivo de a carne uruguaia ser mais deliciosa do que a carne brasileira, mesmo a carne fabulosa que é vendida no Zaffari.

Mas, pensando bem, há motivos para que a carne uruguaia seja mais deliciosa que a brasileira: o pasto uruguaio contém mais proteínas do que o brasileiro e lá no Uruguai só abatem para consumo gado de raça nobre.

Além disso, no Uruguai só abatem o gado com menos de três anos de idade.

Além de mais delicioso, é mais tenro.

segunda-feira, 11 de março de 2013



11 de março de 2013 | N° 17368
ARTIGOS - Paulo Brossard*

Algo de podre no reino do petróleo

No início de 2005, a refinaria Pasadena Refining System, de Pasadena, no Texas, foi adquirida pela empresa belga Astra Oil Company, pela quantia de US$ 42,5 milhões; em setembro de 2006, a Astra alienou à Petrobras 50% da refinaria mediante o pagamento de US$ 360 milhões, ou seja, vendeu metade da refinaria por mais de oito vezes o que pagara pela refinaria inteira, um ano e meio antes. Não seria de estranhar, por conseguinte, que a Astra Oil Co. pretendesse vender os 50% que permaneciam no seu patrimônio.
Ocorre que, por desentendimentos cuja natureza ignoro, a Astra ajuizou ação contra a Petrobras e nela a Petrobras teria sido condenada e, mercê de acordo extrajudicial, pagou à Astra US$ 820 milhões, pondo fim ao litígio. Somadas as duas parcelas, US$ 360 milhões em setembro de 2006 e US$ 820 milhões em junho de 2009, a Astra Oil Co. embolsou da Petrobras US$ 1,180 bilhão por uma refinaria que em 2005 lhe custara US$ 42,5 milhões.

Este o resumo do caso, do começo ao fim, havido entre a Astra Oil Co. e a Petrobras. Inépcia? Leviandade? Gestão temerária? Prevaricação? Outras causas? Não sei, o que sei é que o insólito fenômeno rompe todos os critérios atinentes a qualquer negócio e particularmente em relação a uma empresa que, embora de natureza privada, pertence à nação, sua maior acionista.

Ora, não é de supor-se que o representante de uma das maiores empresas do país, afeita a lidar com milhões e bilhões, pudesse ser um parvo, um bonifrate, um pateta. No entanto, os números são constrangedores. De uma refinaria adquirida por US$ 42,5 milhões, em 2005, 50% dela no ano seguinte foi alienada por US$ 360 milhões e os outros 50% também transferidos à Petrobras mediante o pagamento de US$ 820 milhões; somados os dois pagamentos, vale a repetição, atingem a US$ 1,180 bilhão.

Dir-se-á que para zerar todos os litígios teria entrado o “valor estratégico”... capaz de assegurar a duplicação da capacidade da refinaria e revelar os segredos do fundo do mar no Golfo do México, mas sabe a chacota. Não surpreende que, quando se conheceram os números do negócio, estes como o valor “estratégico” passavam a ser contestados.

Este o caso até onde sei e o que sei é o que tem sido divulgado. Com efeito, ele vem sendo abordado pelos meios de comunicação e até agora não se sabe de nenhuma providência que tivesse sido tomada. O assunto não é agradável, mas nem por isso pode ser mantido sob o comodismo do silêncio. Repito a sentença do Padre Vieira, “a omissão é um pecado que se faz não fazendo”.

É evidente que a senhora presidente da República tem todas as condições para o cabal esclarecimento da singular operação. Entre nós, quando se fala em comissão, esta terá de ser de “alto nível” e, quando se trata de inquérito, ele há de ser “rigoroso”.

Ora, quando o substantivo precisa da bengala do adjetivo, o remédio é outro. Sempre entendi que os inquéritos não podem nem devem ser “rigorosos”, nem flácidos; respeitadas as garantias de defesa, a diligência, a isenção, a tempestividade e a obediência aos prazos legais substituem com vantagem o rigor. Nada de rigorismo ou lassidão, bastam legalidade e pontualidade; em uma palavra: a exação.

PS.: Estava a escrever este artigo, quando fui lembrado da passagem dos 60 anos da morte de Stalin, ocorrida a 5 de março, fato que mereceria uma reflexão.

*Jurista, ministro aposentado do STF



11 de março de 2013 | N° 17368
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

Paineiras

Mais uma vez, elas estão floridas e, a cada ano, provocam uma crônica e um outono. São mais metafísicas do que reais. Elas inventam a nova estação de março, assim como a luz ilumina a clareira de um bosque. É uma luz cambiante, que percorre todos os matizes que vão desde o tom vivo da carne ao rosa-pálido dos poentes de Porto Alegre. O formato de suas flores lembra as orquídeas que às vezes se prendem às paineiras, como se houvesse uma transmissão de essências.

Os acúleos ferozes servem para proteger os ramos, que são taças a celebrarem o tempo que trará alívio às tardes de fogo. Um tempo em que sentimos não a morte da natureza, mas, ao contrário, a vivaz mutação das sombras que a cada dia se tornam mais longas, projetando nossa figura para além das calçadas, dos jardins e das praças. Até os cães descobrem-se maiores.

Todas as paineiras, por direito de beleza e simbolismo, deveriam crescer livres no pampa, respirando os ventos do Sul. Mas a generosidade é tanta que insistem em permanecer entre nós da cidade, ainda que sejam dispostas em corredores ao longo das ruas, a exercerem uma função coletiva e ornamental.

Cada paineira, entretanto, é única. Se observadas de perto, suas harmoniosas assimetrias constituem um desenho irretocável, límpido, perfeito, inconfundível. Por vezes, os ramos surgem em meio ao tronco; noutras, nos cimos inalcançáveis. Em alguns casos, eles se cruzam, criando novas formas orgânicas.

As paineiras mereceriam figurar em nossas representações simbólicas não apenas como um soberbo espécime vegetal, mas como metáfora em ação, lembrando-nos de que o outono existe. E se o outono existe para nós, aqui do Sul, é porque de certeza o merecemos. Algo de bom fizemos, para sermos abençoados com essa estação que, uma vez por ano, restitui nosso centro espiritual e emocional.

Porque o outono é mais do que uma estação, é mais do que um descender da temperatura. É o outono que assegura nossa sensibilidade e nos abre as portas para a percepção do que existe de belo e justo sobre a terra.

E o que provoca tudo isso? Olhe para cima, ao caminhar pela cidade.

Não perca tempo.

Elas duram pouco.


11 de março de 2013 | N° 17368
PAULO SANT’ANA

A castidade

Santo Agostinho, um dos pais da doutrina católica, disse uma vez, certamente quando ainda era jovem, embora já fosse santo, o seguinte, fazendo uma prece a Deus: “Senhor, dai-me castidade e moderação, mas não por enquanto”.

Pois o Senhor, que sempre faz o que pode, deu-me castidade e moderação agora, aos 73 anos.

Nunca é tarde. Olho para as mulheres hoje sem nenhuma ambição, tendo a certeza de que nunca mais poderei desfrutá-las.

É verdade que meu passado intenso de traquinagens, quando hoje fito as mulheres bonitas, volta-me à mente. Mas eu, sem nenhuma disposição, em face de minhas atuais limitações erógenas.

Deus sabe o que faz, Santo Agostinho pedia a Deus para ser virtuoso só depois de velho.

Isso por ser impossível a um jovem ser virtuoso. Aliás, foi exatamente por isso que São Francisco de Assis foi mais importante para a Igreja Católica do que Santo Agostinho.

Meu pai me registrou como Francisco Paulo Sant’Ana, ele próprio me disse, porque era muito católico e entendia que São Paulo e São Francisco eram os dois maiores santos da Igreja Católica.

E São Francisco foi mais significante para a Igreja porque conseguiu ser virtuoso, casto e resignado desde a juventude.

Santo Agostinho rogava a Deus para ser casto só depois de velho.

Era esperto esse Santo Agostinho. Ao mesmo tempo, cabe uma reflexão: será que era lícito a Deus exigir que Santo Agostinho fosse casto em sua plena virilidade?

Tanto não era, que o grande Agostinho se dignou pedir ao Senhor que permitisse que ele desse curso à sua virilidade. Por enquanto, como orava Santo Agostinho, quando ainda jovem.

Por falar em santos, ocorre-me o que aconteceu com São Pedro, o apóstolo de Cristo.

Encarcerado pelos romanos, em Roma, foi condenado à morte.

Interessante é que São Pedro teve tempo, em sua peregrinação, para ir da Palestina até Roma, milhares de quilômetros de distância. E, como pregava o cristianismo, foi condenado à crucificação pelos romanos.

Os romanos intentaram a crucificação por considerarem-na o maior suplício que poderiam impor a um vivente. Então, Pedro, condenado, fez um último pedido aos seus carrascos: que eles o crucificassem de cabeça para baixo.

O último pedido de Pedro foi atendido pelos romanos. E Pedro assim quis porque, em sua fidelidade a Cristo, queria sofrer mais que o Nazareno na cruz, de cabeça para baixo.

Podia existir maior exemplo de amor a Cristo? Pois queria sofrer mais que ele.

Isso tudo é verdade, isso tudo aconteceu, tanto que estive em Roma e lá existem dois locais – ou um – em que se pode ver até hoje os cubículos em que estiveram encarcerados São Pedro e São Paulo. Se não me engano, quando Pedro e Paulo foram crucificados, o imperador era Nero.

Por sinal, a crucificação é algo extremamente supliciante. Tanto que a palavra cruciante, que quer dizer torturante, deriva exatamente de cruz.

E, até hoje, quando uma pessoa sofre muito na vida por algum motivo, diz-se que “carrega a sua cruz”.


11 de março de 2013 | N° 17368
L. F. VERISSIMO

Bolívar seria fã

O baseball é aquele esporte em que os jogadores passam mais tempo ajustando o boné do que jogando. E o cricket consegue ser ainda mais chato. Claro, esta é a opinião de um preconceituoso assumido, que prefere a plasticidade e a ação contínua do futebol.

E, mesmo sendo jogos aborrecidos, o baseball e o cricket têm histórias curiosas, num contexto que tem menos a ver com esporte do que com política, imperialismo e os paradoxos do colonialismo cultural.

Os dois países americanos em que o baseball é mais popular, além dos Estados Unidos, são Cuba e Venezuela. Fidel foi jogador de baseball, Chávez não sei se jogou, mas era fã. Nos dois países mais anti-Estados Unidos da região, o esporte nacional é o mais típico dos esportes dos Estados Unidos. É verdade que o gosto pelo baseball antecede os acidentes históricos que deram no antagonismo de hoje.

O baseball de Cuba teve origem na ocupação do país pelos americanos no fim do século 19. Sobreviveu ao fim da ocupação e, mais tarde, ao fim da influência norte-americana, com a expulsão de Batista e a ascensão de Fidel. O baseball cubano nunca ligou para a História.

Na Venezuela, não houve ocupação norte-americana, mas houve anos de intenso colonialismo cultural numa elite e numa classe média voltadas para exemplos e hábitos norte-americanos, parte da mentalidade desafiada pelo bolivarismo chavista. Mas a popularidade do baseball permaneceu intocada. Bolívar, presume-se, também seria fã.

O cricket e o futebol são – simplificando – os esportes da aristocracia e do proletariado inglês. Era de se esperar que, em todo o “commonwealth” que restou do imperialismo britânico, o cricket fosse execrado como símbolo da presença imperial e da prepotência do homem branco. Mas por toda a Ásia e a Oceania, até em lugares em que o império nunca esteve, o cricket é popular.

Seus melhores jogadores são ídolos nacionais. Suas regras e excentricidades, como partidas que duram uma tarde inteira com intervalo para o chá, são as mesmas da ex-metrópole. E os times do ex-império constantemente humilham times ingleses, e ninguém chama de vingança. Vá entender.

Agora, que são chatos, são.

domingo, 10 de março de 2013


FERREIRA GULLAR

O acaso e o jogo

A função do técnico é tornar a ação dos jogadores inteiramente previsível, ou seja, anular o acaso

Já falei aqui da influência do acaso em tudo o que fazemos e no que a vida faz da gente.

Observei que, no amor como na arte, ele influi decisivamente, mas, apesar disso, para que não pensem que vejo a vida como um mero jogo de acasos, sobre o qual não exerceríamos qualquer influência, afirmo que, na maioria das vezes, o acaso é neutralizado ou aceito pela nossa necessidade, ou seja, o acaso não é tudo.

Até na poesia é assim: se é verdade que a primeira palavra que escrevo na página em branco surge, às vezes, sem que eu saiba por que, ela já determina a segunda palavra, a terceira e, assim, à medida que o poema ganha corpo e sentido, só entra nele a palavra necessária. No fundo, o que fazemos quase todo o tempo é transformar o casual em necessário.

Pois bem, outro dia percebi que o mesmo -ou quase o mesmo- ocorre nos esportes, onde o fator casual é, sem dúvida, decisivo. Pense só nisto: o tiro de escanteio, num jogo de futebol. Quantos jogadores dos dois times estão dentro da área? Sete? Oito? Dez? Como saber na cabeça de qual deles a bola cairá?

Se for na cabeça de um jogador do time que bate a falta, pode ser gol; se for na cabeça de alguém do outro time, o gol pode ser evitado. O fato é que o grau de imprevisibilidade, nestes casos, é enorme.

Por isso, o escanteio é um dos momentos mais críticos de qualquer partida de futebol, uma vez que é quando há menos possibilidade de controlar o acaso.

Claro, o escanteio é um exemplo extremo, mas, durante todo o jogo, 11 contra 11, é impossível prever tudo o que pode ocorrer. A verdade, porém, é que quem der menos chance ao azar, isto é, ao acaso, ganhará a partida.

No tênis, numa partida individual, o acaso terá, sem dúvida, menos chance, embora a coisa não seja tão simples como pode parecer; é que, se aqui a ação dos jogadores é mais previsível do que no futebol, com tanta gente atuando, em compensação, por serem apenas dois os tenistas, têm menos controle sobre os fatores de espaço e tempo implicados em cada lance. Ainda assim, o controle sobre a probabilidade é maior.

Caso bastante especial é o do vôlei, quando duas equipes de seis jogadores disputam o controle sobre uma bola num campo dividido por uma rede.

Por suas características, parece que o vôlei é o esporte em que se tem maior possibilidade de neutralizar o acaso, ou seja, a probabilidade. Advirto o leitor que estou pensando essas coisas, agora, pela primeira vez. Estou "sacando" quase como um jogador de vôlei e espero confirmar o meu saque.

Se estou pensando certo, o vôlei, de todos esses esportes, parece ser aquele em que o técnico melhor consegue anular consideravelmente o incontrolável e, consequentemente, a ação do adversário. Isso se deve, creio eu, às características desse esporte e fundamentalmente ao fato de estar a quadra, que não é muito grande, dividida por uma rede.

Como os jogadores têm de passar a bola por cima dela, isso possibilita bloquear-lhes a ação e evitar que a bola caia do lado de cá da quadra. O bloqueio é, por isso mesmo, um recurso decisivo e, consequentemente, a cortada, que procura superá-lo e fazer o ponto.

Nisso tudo, o técnico tem papel fundamental, bem mais que, por exemplo, no futebol, cujo campo é grande demais, tornando imprevisível o deslocamento dos jogadores adversários.

O tamanho do campo, combinado com o número de jogadores em ação, influi decisivamente na impossibilidade de o técnico prever como o adversário se comportará e, por isso mesmo, como deve ele orientar os jogadores de seu time para chegarem ao gol, evitando, ao mesmo tempo, que o outro o consiga antes ou mais vezes.

A influência desses fatores é determinante e de tal modo que, em função dela, por exemplo, enquanto no tênis o saque favorece a quem saca, no vôlei é o contrário: quem saca mais provavelmente perde o ponto.

Em face de todas essas "sacações", concluo afirmando que, nesses diversos esportes, a função do técnico é tornar a ação dos jogadores inteiramente previsível, do seu e do time adversário, ou seja, anular o acaso. Mas isso nem Deus consegue.

DANUZA LEÃO

Triste país

Tem horas que nem sei o que dizer. Será que esse país não vai ter jeito nunca?

Lembro bem; era um domingo de sol em outubro ou novembro de 1955, e acordei com o rádio noticiando que o hotel Vogue estava pegando fogo.

O Vogue era na Princesa Isabel, no Rio, e no andar térreo funcionava a boate mais famosa da cidade.

Era lá que se encontravam os políticos (a capital da República ainda era aqui), as beldades e o high society em geral. Não havia jantar, coquetel, festa, que não terminasse no Vogue, onde as crooners eram Linda Batista e Araci de Almeida, olha que luxo; às vezes aparecia Dolores Duran para dar uma canja.

Só saiamos de lá com o sol raiando, e vivíamos intensamente os anos dourados, onde se nem todos eram felizes, todos pareciam ser. Foi a melhor boate que o Rio já teve.

No dia do incêndio a cidade inteira foi para a porta do hotel. Ou pelo menos todos os amigos dos que lá moravam. A agonia foi lenta, durou horas. As escadas do hotel eram forradas de madeira, o que ajudou o fogo a rapidamente chegar ao último andar (eram 12).

Como num incêndio não se pode usar o elevador, e pelas escadas em chamas ninguém podia descer, ficaram todos em seus quartos esperando por um milagre, o que não aconteceu. Chegaram os bombeiros, mas suas escadas iam só até o 4º andar; um boêmio muito conhecido na época, o Dantinhas, teve sangue frio para conseguir se salvar.

Ele pegou os lençóis, amarrou um no outro, molhou, para que os nós não se desfizessem, se vestiu inteiro -conta a lenda que não se esqueceu nem de botar a pérola na gravata- e desceu pelos lençóis até encontrar, mais abaixo, a escada dos bombeiros.

Foi o único que se salvou (e quando chegou na rua não falou com ninguém; foi para um bar ali perto, onde tomou uma garrafa de uísque inteira).

Os recém casados Glorinha e Waldemar Schiller foram encontrados abraçados, mortos, dentro da banheira, e duas pessoas se jogaram da janela, entre elas um cantor americano que fazia o show do Vogue naquele momento. Foi uma tragédia que abalou o Rio de Janeiro; quem viu nunca esqueceu.

Promessas foram feitas pelo chefe do Corpo de Bombeiros, pelas autoridades; aquilo havia sido uma lição, nunca mais nada de parecido aconteceria. Pois esta semana, 57 anos depois, a história se repetiu.

Um prédio no Leblon pegou fogo -e a tragédia só não foi maior porque o prédio tinha apenas quatro andares. Mas um casal não resistiu às chamas, se atirou e morreu- ela com 33 anos, ele com 57; eles pareciam muito felizes.

A assessoria do Corpo de Bombeiros declarou que no Rio existem apenas três unidades que têm plataformas e escadas; escadas tão curtas que nem chegam ao quarto andar. E o hidrante não tinha água, claro.

Dizer o quê? Que o Brasil continua o mesmo de 57 anos atrás, que ninguém faz nada para melhorar os serviço mais elementares, que os bueiros explodem, as escadas dos bombeiros são pequenas, mas que, segundo nossos dirigentes, o Brasil -o Rio, sobretudo- está bombando?

O governador declarou que o socorro foi de padrão internacional, que tal? Claro, ele deve estar comparando com Paris, onde passa a maior parte do tempo; já o nosso prefeito só pensa em carnaval, em samba, em alegria. Eu preferia ter um prefeito e um governador mais sérios, que cuidassem mais da nossa cidade e de seus habitantes.

Aliás, não me consta que o prefeito esteja estudando uma solução para os blocos, que este ano passaram de todos os limites; ele acha que é legal uma cidade animada.

Tem horas que nem sei o que dizer. Será que esse país não vai ter jeito nunca? As escadas dos bombeiros eram e continuam sendo pequenas? Então, feche-se o Corpo de Bombeiros, por sua inutilidade.

E aproveitando o embalo, fecha-se Brasília.


CARLOS HEITOR CONY

O papa e as papaias

RIO DE JANEIRO - Na primeira visita de João Paulo 2º ao Brasil, em julho de 1980, o cardeal Eugenio

Sales indicou meu nome para integrar a comitiva papal. Pude, assim, acompanhar o pontífice desde Roma até as diversas capitais que visitou, inclusive Manaus, que foi a última. Já estávamos instalados no avião que levaria o papa de volta a Roma quando, estranhamente, houve atraso no voo.

Ficamos sabendo que dom Hélder Câmara, arcebispo de Recife/Olinda, tinha uma encomenda para Sua Santidade, e que seu avião estava atrasado. Esperou-se o famoso homem de Deus, que afinal chegou e subiu a bordo para se despedir e presentear o papa.

Durante sua estada na capital pernambucana, o papa hospedou-se no Palácio Episcopal, quando provou pela primeira vez a preciosa papaia nacional. Gostou muito, quis mais, foi servido abundantemente pelo seu amigo e hospedeiro. Daí que dom Hélder decidiu presenteá-lo com um caixote de papaias maduras.

O papa pediu ao monsenhor Romeo Pancirolli, mais tarde bispo, um de seus secretários, que o caixote não fosse para a despensa do Palácio Apostólico, onde morava, mas fosse diretamente para seus aposentos particulares. Dom Hélder vibrou.

Chegando a Roma, no dia seguinte fui apanhar umas fotos da viagem com Arturo Mari, fotógrafo oficial e pessoal de João Paulo 2°, cujo estúdio ficava ao lado da Redação do "L'Osservatore Romano", bem em frente a uma das janelas laterais do quarto de Sua Santidade. Era manhã e Arturo pediu cuidado ao pisar na calçada embaixo da janela. 

Algumas pessoas já tinham derrapado nas papaias esborrachadas. A Comlurb do Vaticano ainda não havia passado. Alguém, daquela janela pontifical, havia se livrado do valioso e saboroso presente que o papa recebera do Brasil.