sábado, 2 de março de 2013



03 de março de 2013 | N° 17360
O CÓDIGO DAVID | DAVID COIMBRA

O QUE REALMENTE UNE OS SERES HUMANOS

Os Beatles e a batata frita unificam a humanidade. Porque todo mundo gosta de Beatles e de batata frita, todo mundo!, o que os torna, uns e outra, casos únicos. Alguém pode lembrar do sexo.

Verdade, o sexo é muito popular, ou não seríamos sete bilhões de bípedes respirantes sobre a superfície do planeta, uma vez que há infartos, dengues, vírus insidiosos, bactérias nefandas, infecções generalizadas, acidentes de carro, de moto, de navio e de avião, afogamentos, pianos que caem do oitavo andar e, principalmente, outras pessoas conspirando contra a nossa vida.

Há tudo isso, e continuamos nos reproduzindo. Por quê? Por causa da boa imagem de que desfruta o sexo. No entanto, afirmo: algumas pessoas NÃO GOSTAM de sexo. Ou não se importam com. Mas todas, todas as pessoas gostam de Beatles e batata frita, até os esquimós, os pigmeus e os norte-coreanos, se por ventura ouvirem os Beatles e trincharem uma batatinha frita.

Pois nesse março que se inicia o primeiro álbum dos Beatles, “Please Please Me”, completará meio século. São 50 anos redondos, mas o meu filho de cinco, quando coloco algo dos Beatles na radio eletrola, ele cessa tudo o que está fazendo, estica o pescoço, ouve em silêncio e depois comenta:

– Música bonita, papai. Bota de novo?

Dom Quixote e 50 tons

Há quem diga que a chamada “Grande Arte” não existe. Que é impossível fazer essa classificação. Uma das provas seriam os romances noir, aquelas obras imortais de Raymond Chandler, David Goodis, Ed McBain, Michael Connelly e Ross MacDonald, esses mestres, entre outros. Pois os romances noir, logo que surgiram, eram considerados subliteratura. Só que hoje foram promovidos à Grande Literatura, com G e L maiúsculos. Assim, a classificação de algo como Grande Arte ou subarte, ou seja o que for, seria impossível. Depende de gosto, do momento, da interpretação do crítico.

Não concordo.

Tenho um critério para definir o que se enquadra em Grande Arte: é o que fica. Quer dizer: independe do contexto. Você pode se emocionar com a leitura de Dom Quixote agora, num domingo ameno de março de 2013, e esse foi o primeiro romance escrito no Ocidente, há mais de quatro séculos. Mas duvido que os 50 Tons de Cinza arrepiem os cabelinhos das nucas das meninas de 2023, duvido mesmo.

Não se mede o que é Grande Arte pelo sucesso, mas por sua universalidade e atemporalidade.

Meu filho adora os Beatles e os filhos dele também vão adorar. Porém, na época, no começo, os contemporâneos tinham dificuldades em ver a grandeza do que testemunhavam. A revista Newsweek escreveu o seguinte sobre John, Paul, Ringo e George em 1964:

“Visualmente, são um pesadelo. Ternos eduardianos apertados e cabelos em forma de tigela. Musicalmente, um desastre: guitarras e bateria detonando uma batida impiedosa, que afugenta ritmo, melodia e harmonia. As letras (pontuadas por gritos de ‘yeah, yeah, yeah’) são uma catástrofe, um amontoado de sentimentos baseados em cartões do dia dos namorados”.

Não é uma preciosidade de crítica bem fundamentada? Estaria pronto a concordar com o jornalista, se não estivesse a uma distância de cinco décadas, olhando tudo do alto e de longe.

Já o New York Daily News meteu-se a fazer uma previsão:

“Bombardeada com problemas ao redor do mundo, a população voltou seus olhos para quatro jovens britânicos com cabelos ridículos. Em um mês, a América os terá esquecido e vai ter que se preocupar novamente com Fidel Castro e Nikita Krushev”.

É difícil enxergar a Grande Arte enquanto ela está acontecendo.

O QUE LER: Beatles - A Biografia

Gostar dos Beatles todos mundo gosta, mas se você AMA os Beatles, leia “Beatles - A Biografia”, de Bob Spitz. O cara escreveu o que se chama de cartapácio sobre os rapazes de Liverpool: quase um milheiro de páginas.

Bob Spitz é um jornalista americano. Pesquisou a história dos Beatles por dois anos e meio e levou outros cinco anos e meio para escrevê-la. Se você for bom em matemática, já calculou que o livro levou oito anos para ficar pronto. Entre as mais de 500 obras sobre o Fab Four, certamente é a mais completa. E bem escrita. Vale o esforço.

Como alcançar o crime zero

Quando os Beatles se apresentaram no programa de Ed Sulivan, em fevereiro de 1964, nenhum único crime foi registrado nos Estados Unidos.

Nenhum!

Pelo menos é o que os americanos divulgaram, na época. Será verdade? Será que todos os criminosos do Grande Irmão do Norte estavam hipnotizados pelos Beatles durante aquele naco de tempo? Acredito. Porque, afinal, todo mundo gosta dos Beatles, inclusive os fora-da-lei.

Imagino que os americanos estivessem comendo batata frita durante o programa do Ed Sulivan, eles adoram french fries. Que momento da Humanidade. As duas preferências universais do homem sendo exercidas ao mesmo tempo. Foram felizes os americanos daqueles dias. Vou agora mesmo pegar umas fritas e ouvir Beatles.

O QUE OUVIR: Rua Ramalhete

Não serei óbvio de indicar um disco dos Beatles, mas vou sugerir que você ouça uma música que os cita: “Rua Ramalhete”, do Tavito, cujo refrão pergunta: “Será que algum dia eles vêm aqui cantar as canções que a gente quer ouvir?” Eles são os Beatles, claro, que embalavam “os bailes no Clube da Esquina”, como diz a canção.

O curioso é que não havia bailes no Clube da Esquina, já que o Clube da Esquina não era clube coisa nenhuma. Era uma reunião de compositores e músicos mineiros, entre eles Milton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges e Fernando Brant. As mães deles perguntavam por onde os meninos andavam e a resposta era sempre a mesma: “Estão lá na esquina, cantando e tocando violão”. Virou Clube da Esquina, disco e movimento musical. Bons tempos da MPB.



03 de março de 2013 | N° 17360
PAULO SANT’ANA

Cristo e Tiradentes

O mundo está dominado por laranjas.

O papa Bento XVI deixou o cargo na quinta-feira, mas teve o cuidado de recomendar ao conclave que eleja um laranja seu para o trono pontifício.

Dilma é laranja do Lula. Aécio Neves tenta ser laranja de Tancredo Neves.

A Arena é laranja do Olímpico. O Grêmio joga os Gre-Nais com laranjas.

Quando Fábio Koff vê se tornar maçante a sua tarefa de dirigir o Grêmio, ele designa Luxemburgo como seu laranja por dois dias.

Há um princípio do Direito Penal que é uma das pedras angulares daquela ciência: “O pensamento não delinque”.

Esse princípio consagra outro subprincípio: “Ninguém pode ser punido pelas suas ideias”.

Temos dois grandes exemplos de homens que foram condenados à morte por suas ideias: Cristo e Tiradentes.

Cristo não cometeu nenhum delito contra os romanos e mesmo contra a cúpula judia que era títere dos romanos. Foi invenção pura dos compatriotas de Cristo que ele “profanou o dia sagrado dos judeus”. Por esse delito inventado é que Cristo foi julgado e condenado à cruz.

Ou seja, não houve nenhuma ação de Cristo contra Roma, tanto que quando deram uma moeda romana a Cristo para que ele opinasse sobre ela, ele sentenciou: “Dai a César o que é de César”.

E erradamente condenaram Cristo por sua ideia e, muito pior, pela sua fé.

Com Tiradentes foi o mesmo. Ele era só contra o domínio da coroa portuguesa sobre os brasileiros.

Cristo e Tiradentes pagaram com suas vidas por suas ideias.

Por isso é que o Direito Penal tenta se redimir ao afirmar que “o pensamento não delinque”.

O que quer dizer o seguinte: só pode ser responsabilizado alguém penalmente se cometer uma ação delituosa.

Nunca por pensar, tão somente.

Se fosse por outra forma, se eu concluir que devo matar alguém, fico convicto de que devo matar certa pessoa. No entanto não poderei ser punido se não der início à tarefa de matar.

Só ter a intenção de matar não pode constituir acusação contra ninguém. Ter a intenção de matar só pode agravar meu crime se eu vier a cometer o assassinato.

Imaginar que vai matar alguém, por si só, não é delito.

Por sinal, tentaram impingir sobre Tiradentes a acusação de conspiração.

Eu até vou mais longe nesse meu devaneio sobre Direito Penal: simplesmente a conspiração não constitui delito. Conspiração para matar alguém é querer matar alguém.

Mas se não for deflagrada a mínima ação material para matar aquele alguém, não há delito. Nem tentativa há.

Um delito, em outras palavras, tem de sair da cabeça do autor e desatar-se sobre as mãos dele, para a ação.

Se ficar só na cabeça, não há crime.


02 de março de 2013 | N° 17359
TEMPO REDESCOBERTO

1 – O Autor Sempre é cedo

Conheci Antônio Carlos Resende no melhor lugar: seus livros. Eu já garimpava em livrarias, ainda na adolescência. Foi na Sulina da Borges, atraído pelos títulos. O Rapaz que Suava Só do Lado Direito. Magra, mas não Muito, as Pernas Sólidas: Morena. O Louva-a-Deus. Por que me Olhas, Maria Carolina?.

O autor adiantava-se a García Márquez, no cuidado da primeira frase. A força vinha estampada na capa. Um achado para um jovem que tentava contos, poemas e empacava até no nome para dar a eles. Depois, virava desculpa de não ir adiante. Eu aprendia que é difícil viver e escrever. Mas fui adiante nos romances do Resende e pensei deles o que sentia na vida:

1. Não convém evitar os amores.

2. Os amores são meio loucos.

3. Amores e livros precisam de ritmo.

No ritmo da vida, conheci o Resende pessoalmente bem depois. Fomos apresentados pelo Paulo Hecker Filho, que o conhecia desde muito antes. Inevitável aquele frenesi que a Cláudia Laitano descreve de quem depara com um escritor, fora das páginas.

Eu esperava um homem tímido e encontrei um grande locutor. O Resende fala como se estivesse narrando uma partida de futebol. Pode ser num bar, pedindo o adoçante.

Até hoje, costuma deixar mensagem no meu aniversário. Sinto uma dor enorme quando tenho de apagá-la. É voz no auge. Ele foi também um exímio narrador de futebol, dono de um dos “gooools” mais longos da história do rádio. Narrador do som em si à letra impressa. Completo.

Dos amigos, fica o amor das histórias. A mais marcante até agora foi quando ele completou setenta anos. Eu morava em Paris, e o Resende mandou uma carta. Há quinze anos, escrevia-se carta. Ele contava que tinha se organizado para morar lá, durante seis meses. Queria sentir o clima e escrever um novo livro. Sonhara a cidade, nas leituras da juventude, mas a vida corrida só lhe concedera agora a oportunidade. “Estou pronto”, escreveu, ao final do texto.

Não o assustavam um princípio de enfisema e as sequelas de um antigo infarto. Seguia em busca da grande pegada. Por seis meses, Paris tornava-se uma festa de amizade e letras. Mas, quando me lembrei das agruras de estrangeiro, pensei que ele não fosse resistir. Legalizar papéis, achar apartamento, lavar roupa, falar francês, fazer conexões no metrô. Levar esporro em guichê. Contar francos. Propus-me a ajudá-lo, mas o Resende recusou e se virou sozinho. Nem apelou para o Dionísio Toledo, seu velho amigo, exilado na França desde o final dos anos 1960.

Não, não quis ajuda. Disse que amigos servem para encontrar. Com a mulher, alugou um studio, em Saint-Denis, perto dos drogados e das prostitutas. Quando ia visitá-lo, sentia-me em dívida por não ter avisado. Ele nem aí, observava tudo, agradecido ao destino e anotando cada detalhe para pôr no livro.

O Resende viveu e escreveu. Seis meses, como um guri, maravilhado a cada descoberta da língua e dos costumes. Ouviu música, viu museu, varou parques, leu originais. Não se encolheu ao exílio e nem aos franceses. Com ele, vi um garçom baixar a cabeça pela primeira vez. A Revolução Francesa os havia tornado confiantes com qualquer cliente; ninguém era superior a ninguém por causa de dinheiro ou profissão.

O recente socialismo, dos anos Miterrand, reativara a consciência do valor real de cada um. Mas o Resende não se conformava com chope sem espuma. No café Zimmer, da Praça Chatelet, passou a receita aos profissionais. O conceito teve mesmo de ser revisto. Depois, viajou para Marselha, queria ver o porto. Na volta, maldisse o porto, mas elogiou o progresso da turma. O Dionísio nem acreditava.

Amigo está junto, mesmo quando distante. Não precisa ensinar, mas aprendi com ele que os amores podem ser vividos. Podem também ser escritos, apesar de serem meio loucos. E não carece muito pulmão ou pouca idade para realizar um sonho.

Graças ao Resende, fumo de vez em quando. E tenho muitos planos para quando chegar aos setenta. 


02 de março de 2013 | N° 17359
CLÁUDIA LAITANO

O direito de escolher

Se o destino dela dependesse unicamente do quesito simpatia e da boa impressão causada na opinião pública, a médica Virgínia Helena Soares de Souza já estaria condenada.

Nas fotos que têm ilustrado as reportagens sobre as mortes na UTI do Hospital Evangélico de Curitiba, a médica não parece exatamente a encarnação daquele tipo de pessoa que gostaríamos de ver rondando a nossa cama no hospital – ou mesmo o nosso guarda-sol na beira da praia.

O cabelo muito curto, a maquiagem pesada nos olhos, a boca apertada e o olhar congelado de psicopata de novela das oito contrastam notavelmente com as roupas joviais e coloridas (blusa azul, saia laranja) – compondo a bizarra figura de uma madrasta má fantasiada de Branca de Neve.

Para piorar, Virgínia tem sido descrita como uma profissional detestada pelos colegas, e mesmo a família admite que ela tem “personalidade forte”. Entre as acusações que pesam sobre a médica, já apelidada de Doutora Morte, há monstruosidades como a interrupção do tratamento de um paciente do SUS para permitir que um paciente de convênio ocupasse o mesmo leito e a “precipitação” da morte do próprio marido – a quem ela sucedeu na chefia da UTI do hospital.

Se tudo der certo, e a cota de trapalhadas da investigação tiver se encerrado com a constrangedora transcrição equivocada de um grampo telefônico (a polícia foi obrigada a reconhecer que confundiu a palavra “raciocinar” com “assassinar” em uma gravação divulgada para a imprensa), o destino da doutora Virgínia será definido pela Justiça e não pelas aparências.

Seja ela culpada ou inocente, vampira de Curitiba ou vítima da própria impopularidade, o certo é que o episódio pode ter ajudado a confundir ainda mais o debate a respeito do direito a uma morte digna.

Quem assistiu ao filme Amor, de Michael Haneke, Oscar de filme estrangeiro deste ano, deve ter saído do cinema se perguntando como agiria no lugar daquele homem que vê a mulher agonizando ao seu lado. Até onde cada um de nós seria capaz de ir para poupar alguém do sofrimento? E que tipo de comprometimento é legítimo exigir de alguém que esteja ao nosso lado nesse tipo de situação?

A eutanásia é um tema talvez ainda mais difícil de discutir do que o aborto. Se há apenas dois caminhos para a vida, ser ou não ser, a jornada que se encerra com a morte em um hospital pode ser assustadoramente rápida ou dolorosamente lenta. Pode depender da disposição do paciente para testar até o último recurso médico e do tipo de informação que se tem sobre a doença e os tratamentos.

Está circunscrita a condições financeiras, apoio da família, empenho da equipe médica, convicções morais e religiosas e mesmo traços de personalidade do paciente e dos seus familiares.

Fala-se em “eutanásia”, crime previsto no Código Penal, quando a morte de um paciente terminal é provocada por um determinado procedimento, com ou sem consentimento da família, em “distanásia” quando a vida (e o sofrimento) são prolongados artificialmente mesmo sem perspectiva de recuperação e em “ortotanásia” (a morte correta) quando a doença fatal segue seu curso, sem intervenções inúteis.

Não é fácil determinar esses limites e muito menos transformar em lei o direito que cada um deveria ter de escolher as circunstâncias da própria despedida, mas essa é uma discussão que ainda precisa ser feita no Brasil – com bom senso e sem prejulgamentos.


02 de março de 2013 | N° 17359
CAPA

A garota é TOP

Além de valorizar a beleza gaúcha, o Garota Verão aposta no perfil de modelos para o mercado

O manequim 36 e os mais de 1m75cm de altura da maioria das candidatas do Garota Verão 2013 entregam: o perfil do concurso, um dos mais tradicionais do país, mudou. Se nas edições anteriores o objetivo era valorizar a beleza feminina do Estado, neste ano vai além e busca revelar uma top nacional ou até mesmo internacional para o mercado.

A vencedora da final de hoje ganhará R$ 50 mil em trabalhos e passará a integrar o casting da agência Joy Models, de São Paulo. Para Liliana Gomes, diretora-presidente do Grupo Joy no Brasil e jurada do evento, o país só tem a ganhar com o novo formato:

– O Rio Grande do Sul é um grande exportador de modelos para o mundo, muitos nomes saem daqui. E um concurso como esse, que tem o respeito da sociedade, é muito importante, pois dá segurança às meninas que, muitas vezes, são exploradas no início da carreira ao caírem nas mãos de aventureiros.

Às 14h45min de hoje, as 30 finalistas levarão para a beira-mar de Capão da Canoa noções de passarela e beleza. As lições vieram de bookers da agência, que acompanharam as meninas desde as etapas regionais, dando dicas de comportamento, alimentação, cuidados básicos e informações sobre a vida de modelo.

Outra novidade é que o biquíni deixou de ser o traje exclusivo da grande final. As gurias protagonizarão três desfiles de moda, com figurinos casuais, e experimentarão um pouquinho da emoção da correria de um backstage com trocas de roupa e tempo cronometrado.

– O Garota Verão é um concurso clássico. E é muito motivador saber que posso seguir a carreira de modelo depois – disse a representante de Pelotas, Katherine Silveira, no teste de vídeo, a uma banca de jurados composta por importantes nomes da moda nacional e internacional, como Lanny Zenga, diretor da agência One Management New York.

Analisando que as concorrentes têm idade média de 15 a 20 anos, Liliana faz uma comparação do concurso com o vestibular e acrescenta:

– Esta é a chance das meninas serem descobertas e se projetarem. Há 40 anos, as mulheres queriam ser misses. Atualmente, querem produzir mais. E a carreira de modelo é para pessoas inteligentes, independentes e que gostam de viajar pelo mundo.

É exatamente essa proposta que fará as moças tremerem os joelhos e brilharem os olhos, quando a primeira candidata for chamada à arena de 1,6 mil metros quadrados instalada na beira da praia. E a dica para acalmar os ânimos no grande dia vem de uma veterana, Marceli Almeida, que passará a faixa de Garota Verão neste ano:

– Tem que preparar o corpo e a mente. É preciso saber perder.

fernanda.pandolfi@zerohora.com.br


02 de março de 2013 | N° 17359
NILSON SOUZA

Dentuça cinquentona

Mônica faz 50 anos neste domingo. A garotinha dentuça criada por Mauricio de Sousa é uma espécie de Mafalda brasileira, embora lidere a sua turma de meninos e meninas mais pela força bruta do que pelos argumentos e pelo posicionamento político, que eram a característica da genial criação do argentino Quino.

Com Mônica não tem muito diálogo: escreveu, não leu, o coelho de pelúcia canta na orelha do insolente. Mas ela também sabe ser divertida e terna. Por isso conquistou o coração de milhares de leitores infantis – e também de muitos adultos.

A turma da Mônica é um achado, pois reproduz jeitos e trejeitos das crianças e adolescentes brasileiros de todas as classes sociais. Ainda que sejam inspirados nos próprios filhos do autor (e ele tem 10), os personagens transitam por todos os setores da sociedade. Quem nunca falou “elado” como o Cebolinha?

Quem não conhece uma Magali comilona? Quem não convive com um Cascão na escola? Quem nunca identificou um amigo com cara de Anjinho ou Franjinha? E quem não gostaria de ter à mão um Sansão, o coelho azul, para castigar os abusados sem causar-lhes ferimentos?

As histórias de Mauricio de Sousa são quase sempre ingênuas e até um tanto moralistas, mas encantam exatamente pela semelhança com a vida real.

Mônica, apesar do seu temperamento explosivo, é totalmente do bem – tanto que já recebeu o título de embaixadora do Unicef por transmitir valores essenciais de convivência, como a amizade, a solidariedade, o apreço pela educação e pela família. O Fundo das Nações Unidas para a Infância a reconhece como defensora dos direitos das crianças.

Ela e os demais personagens de Mauricio saltaram das tirinhas dos jornais para as revistinhas e agora espalham-se por diversas plataformas, incluindo televisão, cinema, internet, videogames e até mesmo um parque temático que o desenhista mantém em São Paulo.

As histórias em quadrinhos foram – e ainda são – a cartilha de alfabetização de muitas gerações. Este escriba, por exemplo, aprendeu a ler por conta própria, antes de entrar na escola, motivado pela curiosidade de ler os balõezinhos dos gibis que circulavam pela casa paterna.

E que trocávamos na porta do cinema. Os garotos de hoje custam a acreditar que íamos para a matinê (que era como se chamavam as sessões da tarde) com pilhas de gibis debaixo do braço, para trocá-los com outras crianças. Pode parecer meio ridículo, mas garanto que era muito mais saudável do que entrar no cinema com um pacotão de pipocas e um litro de refrigerante. Essa, infelizmente, a Magali venceu.

Bom, mas voltando à aniversariante: Mônica e sua turma de amigos – graças ao talento de Mauricio de Sousa – são dignos representantes da alegria e da irreverência do moleque brasileiro.


02 de março de 2013 | N° 17359
CAPA

Leveza e bem-estar

Há cerca de seis meses, a repórter Lara Ely fez uma sessão demonstrativa de Watsu. Confira o relato:

A sensação é de estar flu­tuando. A música de fundo tranquiliza, a luz fraca e o corpo submerso na água aquecida ajudam a aquietar a mente e fazem as tensões físicas, aos poucos, irem embora.

Porém, na primeira vez, isso não acontece assim tão rápido. Ao entrar na piscina e deixar os movimentos do corpo serem guiados pelo profissional com quem fiz a sessão, fui acometida por uma estranha sensação... a dificuldade de desligar do mundo lá fora.

Pensava no dia de trabalho, na tarefas que ainda tinha para cumprir, nas notícias das últimas horas. Mas a terapia requer entrega. Por isso, percebi que precisava intensificar os esforços para resgatar a mente meditativa e deixar o corpo relaxado para melhor usufruir da sessão. Se a pessoa não desliga, dificilmente sente todos os benefícios da terapia.

Quando falo isso, digo que é necessário fechar os olhos e confiar nos movimentos executados levemente dentro da água. Relaxe, você não irá se afogar nem será surpreendido com posições doloridas ou desconfortáveis. Pelo contrário, a proximidade com o profissional traz uma sensação de confiança, leveza e bem-estar que permanecem com você mesmo horas depois de sair da piscina.

sexta-feira, 1 de março de 2013



RUTH DE AQUINO

Bando de loucos

O fanatismo assusta. No futebol, na religião ou na política, os fanáticos arremessam sinalizadores para intimidar o outro, o adversário, o oponente. Às vezes, os sinalizadores calam, às vezes matam. Quando o fanatismo chega ao poder, quando se confunde com um governo, quando é legitimado por um regime, de direita ou de esquerda, chegamos ao perigoso fanatismo de Estado. Esse fanatismo oficial maquia números e fatos, censura, encarcera, tortura, exila e executa.

Quando “a opinião é traição” – e assim é na Cuba de Yoani Sánchez e dos irmãos Castro, um país que não confia em sua própria população para votar –, o medo de pensar diferente se instala em cada criança, cada jovem, cada adulto. Há mais de meio século, o castrismo não dá aos cubanos o direito de se expressar livremente nas urnas, nas ruas ou na mídia.

Seria absurdo supor que, no Brasil, a democracia esteja ameaçada por esses grupelhos com nariz de palhaço que jogaram na blogueira Yoani notas falsas de dólar, xingando e vaiando a moça em vários Estados. Melhor enxergá-los como protestos de jovens desinformados, que nunca foram a Havana, jamais viram documentários com as mazelas da vida cubana, desconhecem o que é viver num lugar onde o Estado determina o que você pode ou não ler e consumir.

Fui a Cuba em janeiro de 1983, há 30 anos portanto. Brasil e Cuba ainda não tinham relações diplomáticas. Nosso passaporte não podia ser carimbado, íamos por Bogotá e voltávamos pela Cidade do México. Achava absurdo esse isolamento. Admirava o esforço da ilha para dar educação e saúde à população. Adorei o povo cubano e suas festas, o sorvete na Coppelia, o mojito na Bodeguita del Medio, a praia de Varadero, as escolas para jovens no campo. Encontrei Fidel no Palácio, com sua farda, o charuto, o rum e o carisma.

Mas o mito acabou ali. Ficou claro para mim o medo dos cubanos na rua. Diziam ser espionados. Ansiavam comprar dólares, escapar ao racionamento, consumir nas “tiendas” reservadas aos estrangeiros. Queriam viajar, prosperar.

Yoani escreveu: “Eles queriam me linchar. Eu queria conversar”. Essa reação me faz temer pelo futuro do Brasil

Quando visitei Cuba, Yoani tinha 7 anos. Hoje, tem 37. Em seu blog, escreveu no último dia 19: “Vivi muitos atos de repúdio (...). Lembro um especialmente violento junto às Mulheres de Branco, quando as hordas da intolerância nos empurraram e até puxaram nossos cabelos. Mas este (na Bahia) foi inédito para mim.

O piquete de extremistas que impediu a projeção do filme de Dado Galvão em Feira de Santana era mais que uma soma de adeptos incondicionais do governo cubano. Todos brandiam o mesmo documento com um monte de mentiras sobre mim, tão fáceis de rebater em uma simples conversa.

Repetiam um roteiro idêntico sem a menor intenção de escutar uma réplica minha. Gritavam, interrompiam, num certo momento ficaram violentos e entoavam slogans que já não são usados nem mesmo em Cuba”. Eram, segundo ela, “robôs programados”, “com as veias do pescoço inchadas”. Yoani escreveu: “Eles queriam me linchar, eu queria conversar”.

O problema não foram as manifestações nem as vaias. Elas fazem parte da democracia. Mas a agressividade planejada para silenciar Yoani. Impedir que alguém fale é coisa de fanático com medo de ouvir, debater, argumentar. Deu vergonha a falta de educação e civilidade.

Os manifestantes transformaram uma pequena notícia – a visita de uma cronista cubana dissidente – em manchete. A blogueira da Geração Y, que condena o bloqueio americano a Cuba, virou meteoro da CIA.

Foi parar na Câmara. O que vimos? Uma mulher magra, de camiseta, com os cabelos enormes jogados para o lado, sem um pingo de maquiagem, um sorriso calmo, cercada por políticos engravatados, seguranças e manifestantes enfurecidos. A reação a Yoani foi de uma desproporção tal que aí, sim, me fez temer pela polarização futura do Brasil.

“Vai embora, vai embora, blogueira imperialista. A América Latina vai ser toda comunista.” Quem gritava essas palavras de ordem na Livraria Cultura de São Paulo eram “umas belezinhas de tênis Nike e camiseta Gap”, disse a jornalista Mona Dorf no Facebook. “Uns 20 delinquentes começaram a gritar e apitar. Uivavam como bichos. Yoani mal balbuciou a resposta sobre o Wikileaks.” Debate interrompido, Mona saiu triste com “o comportamento vergonhoso e fascista dos manifestantes”. Um bando de fanáticos.

O cartaz comemorativo dos dez anos do PT no poder dá um arrepio na espinha por sua estética totalitária. Qualquer um, mesmo simpatizante de Lula e Dilma, percebe a semelhança com peças de propaganda soviética e chinesa. O cartaz estimula a idolatria, apela ao nacionalismo e ao populismo extremados. Não faz jus ao Brasil de hoje nem, espero, ao de 2014.


01 de março de 2013 | N° 17358
EDITORIAIS

O PODER DA PRESSÃO

Sob o protesto isolado do deputado mineiro Newton Cardoso (PMDB), a Câmara Federal aprovou na última quarta-feira projeto do Senado que retira o 14º e o 15º salários dos parlamentares. Na ocasião, o ex-governador de Minas discursou enfurecido contra seus pares: “Estão votando com medo da imprensa, é uma deslealdade com deputados que precisam (dos valores). Eu não falo aqui pelo PMDB, eu não falo aqui em nome de nenhum partido, eu falo aqui em nome daqueles que não têm coragem de falar. Estou nesta Casa há três mandatos, e não recebo nada. Agora, essa verborragia, essa lenga-lenga, isso de dizer que os deputados não precisam de 14º salário é errado”.

Talvez até precisem, mas certamente a maioria dos trabalhadores brasileiros precisa muito mais. Como o país não pode proporcionar tal regalia a todos, não há por que favorecer apenas os parlamentares. Simples assim. Ao alinhar-se pelo fim desse privilégio, a imprensa apenas refletiu o pensamento do público, que também vem sendo manifestado inequivocamente nas redes sociais. Pode parecer uma lenga-lenga para o deputado mineiro, mas é, na verdade, uma forma de pressão legítima e democrática sobre governantes, homens públicos e autoridades.

Mobilização virtual semelhante levou o contestado presidente do Senado, Renan Calheiros, a se comprometer com medidas de austeridade e transparência no início de seu mandato. Pressionado pelo abaixo-assinado online que pede seu impeachment, o senador alagoano procurou reconquistar a simpatia do eleitorado, anunciando medidas administrativas de enxugamento de custos, que já foram inclusive aprovadas pela mesa do Senado.

Entre as principais mudanças, estão a extinção de funções de chefia e assessoramento, a ampliação da jornada de trabalho dos servidores, o corte de regalias para atendimento médico e laboratorial, criação de conselhos de transparência e controle social, divulgação de proventos e pensões de ex-servidores e várias outras destinadas a reduzir gastos desnecessários e a manter os cidadãos informados. A providência é mais do que oportuna, considerando-se que os parlamentares brasileiros são os segundos mais caros do mundo entre 110 países pesquisados pela ONU.

Diante de tais fatos, parece não haver dúvida de que a liberdade de expressão, potencializada pelo acesso das pessoas às novas tecnologias de comunicação, fortalece a cidadania. Certamente merece ressalva o fato de o Legislativo ser o poder mais exposto à fiscalização dos cidadãos e também o mais suscetível a pressões, uma vez que os parlamentares dependem da reiterada aprovação dos eleitores para se manter em seus cargos.

Mas também os demais poderes, assim como autoridades, servidores públicos e mesmo setores privados, têm demonstrado sensibilidade em relação a mobilizações populares e campanhas articuladas pelas redes sociais. Até mesmo ditaduras cedem diante desta nova força de comunicação, como se viu recentemente na chamada Primavera Árabe, que derrubou déspotas encastelados no poder há décadas.

Então, por que não usá-la para aperfeiçoar a democracia e combater a corrupção?


01 de março de 2013 | N° 17358
PAULO SANT’ANA

Obrigado, Rolim

Como já escrevi, recebi mais de uma centena de manifestações de solidariedade, pelas agressões que uma patrulha da BM cometeu contra familiares meus.

O companheiro e bacharel em Direito Marcos Rolim, que escreve neste jornal com rara acuidade sobre conduta policial, direitos humanos e penitenciarismo, mandou-me uma mensagem percuciente:

“Escrevo para manifestar minha solidariedade diante do abuso de autoridade, violência e racismo que atingiram teus familiares. Infelizmente, situações como essas integram o cotidiano das abordagens realizadas pelos policiais brasileiros. Não por todos, mas por um número expressivo deles. O fato não diz respeito, portanto, a ‘ocorrência isolada’, como se costuma dizer quando eles são tornados públicos. Não. O que ocorreu com teus familiares diz respeito a um padrão que tem, inclusive, se firmado nos últimos anos.

As razões são muitas. Elas começam no perfil de recrutamento, nos baixos salários e na formação deficiente; se desenvolvem com as violações dos direitos dos próprios policiais dentro de suas corporações. Muito frequentemente, eles são tratados de forma desrespeitosa e mesmo humilhante e terminam reproduzindo esse tipo de comportamento no tratamento dos cidadãos.

Por outro lado, a atividade desses policiais não é efetivamente fiscalizada por um órgão de controle externo e as corporações tendem a responder de forma a consagrar a impunidade das condutas violentas (em geral também aplaudidas pelo senso comum). O Ministério Público, a quem compete esse tipo de controle, possui outras prioridades e, na prática, pouco incide sobre as corporações policiais.

Nas democracias avançadas, existem inspetorias especializadas dedicadas exclusivamente a essa função. Elas regulam fortemente o cotidiano da atividade policial. Só para dar um exemplo, Nova York possui o Civilian Complaint Review Board (CCRB), com 170 funcionários, dos quais 110 são inspetores. Essa estrutura recebe 8 mil queixas por ano relativas a uma força policial de 40 mil servidores numa cidade com 8 milhões de habitantes.

Não só assegura uma resposta efetiva a todos os casos – incluindo punições e desligamentos –, como vai determinando alterações no cotidiano da atividade policial de tal forma que se evite a reprodução de práticas violentas e desrespeitosas. O Brasil precisa avançar para a formação de estruturas do tipo, totalmente autônomas, capazes de qualificar nossas polícias. Enquanto não tivermos algo assim, o corporativismo será dominante e casos como o que relataste continuarão vitimando a cidadania, especialmente as pessoas mais humildes e as minorias.

O que deveriam perceber é que cada vez que um policial trata mal uma pessoa ou viola seus direitos, é a confiança nas polícias que é abalada. O problema é que, quando o povo não confia em suas polícias, também não as informa. Ora, a principal ferramenta para o trabalho policial é a informação.

Um policial sem informações trabalha às cegas. A maior e a mais eficiente fonte de informação para as polícias é a população. Por isso, as polícias mais eficientes do mundo são aquelas que aprenderam a tratar bem as pessoas e a manter com elas relações tão próximas quanto possível. Aqui, ainda levaremos muito tempo para compreender coisas tão elementares como essas. Um forte abraço do (ass.) Marcos Rolim”.


01 de março de 2013 | N° 17358
DAVID COIMBRA

O discurso do papa

Não sei ao certo se as pessoas dão muita importância à Igreja Católica ou se as pessoas não dão nenhuma importância à Igreja Católica. Essa dúvida me dilacera.

A cobertura alentada e emotiva que a imprensa ocidental faz acerca da renúncia do papa leva a pensar que, sim, as pessoas dão importância à Igreja Católica. Não dessem, os veículos não gastariam tanta tinta e papel em artigos sobre os cardeais e tantos euros em diárias de seus correspondentes em Roma. Mas será que essa mesma imprensa e seu pio público consumidor sentem diferença entre a gestão de um papa e outro? Suspeito que não.

Baseio minha suspeita na maneira como as diretrizes papais são recebidas pelos fiéis e pelos infiéis. Por exemplo: quando o papa fala que as pessoas não devem usar camisinha nas relações sexuais, ocorre um fenômeno interessante: só quem se importa com o discurso do papa são as pessoas que não se importam com o papa. Quer dizer: os que não são católicos, nem são religiosos, talvez sejam até ateus, são esses que vão protestar no Vaticano.

Aquelas mulheres seminuas que mostram os seios balouçantes na Praça de São Pedro e gritam contra o reacionarismo da Igreja, elas não vão à Igreja, nem seguem os preceitos da Igreja e estão pouco se lixando para as leis da Igreja. Mas reclamam da Igreja.

No entanto, aquelas outras mulheres, as carolas que se postam devotamente na mesma Praça de São Pedro, olhando esperançosas para a sacada dos aposentos do papa, só que com os seios pudicamente cobertos e os pulsos enrolados por contas de rosários, essas mulheres que vão à missa, rezam para seus santos protetores e veneram o pontífice, essas ouvem o discurso do papa contra o uso da camisinha, balançam a cabeça afirmativamente e, à noite, na alcova, fazem sexo usando camisinha.

Dá para entender? Isso acicata ainda mais a minha dúvida: as pessoas se importam ou não com o papa e a Igreja, afinal?

Eu, francamente, gostaria de me importar. Gostaria que o papa, como indica o nome, fosse um pai universal a quem ouvisse com devota atenção a fim de beber de sua sabedoria. Um pai. Sim, gostaria que ele fosse de fato um pai que me dissesse o que fazer, que separasse o certo do errado. Queria muito isso e acho que o mundo precisa disso. O mundo precisa de um pai. Mas como acreditar em um pai que manda fazer sexo sem camisinha?


01 de março de 2013 | N° 17358
ARTIGOS - Vinicius Wu*

Internet e cidadania

A internet e as demais Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) estão promovendo uma profunda alteração na forma como as pessoas se relacionam com a política e a administração pública. Governos e governantes, partidos e dirigentes políticos, movimentos sociais e seus ativistas, em todo o mundo, procuram compreender e incidir sobre essa nova realidade.

A busca por novas linguagens, capazes de difundir valores e ideias, mobilizar e criar novas identidades através da web, aproxima Hugo Chávez de Yoani Sánchez, Barack Obama de Bento XVI. E, acredite, o Rio Grande começa a ocupar uma posição de destaque nesse contexto.

Importantes cidades brasileiras, dentre as quais São Paulo – a maior do país –, iniciam a implantação de experiências de participação cidadã através da internet inspiradas no Gabinete Digital do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. A experiência gaúcha, que já recebeu quatro prêmios nacionais e um prêmio especial do Banco Mundial, serve de referência para novas administrações municipais empenhadas em promover a aproximação entre Estado e sociedade civil.

Trata-se do retorno do Rio Grande do Sul a uma posição de destaque no terreno da governança democrática, a exemplo do ocorrido na década de 90, quando o Orçamento Participativo se tornou referência mundial, inspirando expe- riências semelhantes em diversas partes do mundo. Ao iniciarmos a implantação do Sistema de Participação Popular, no ano de 2011, definimos – como um de seus objetivos – recuperar a posição de vanguarda do Estado em termos de participação cidadã.

Além de São Paulo, importantes cidades, como Niterói (RJ), Caruaru (PE) e Ribeirão Preto (SP) estão a firmar parcerias com o governo gaúcho visando ao intercâmbio de experiências de participação apoiadas em tecnologias da informação e comunicação. São iniciativas em gestação, que poderão observar os limites e avanços que conquistamos e, da mesma forma, teremos muito a aprender com cada uma delas.

Trata-se de um importante reconhecimento que estimula o aperfeiçoamento da experiência gaúcha. Recentemente, o Estado do Rio Grande promoveu a maior consulta pública digital já realizada no país. Pretendemos, agora, avançar na abertura de dados e informações públicas, colocando o debate sobre transparência em outro patamar. Mas os resultados ainda são tímidos se considerarmos o enorme déficit de legitimidade que paira sobre a política e o Estado contemporâneos.

A internet possibilita transferir a qualquer terminal de computador o debate acerca dos principais temas da gestão pública. Realizar as possibilidades decorrentes dessa mudança tão expressiva é o desafio que se abre para os governos deste início de século.

*SECRETÁRIO-GERAL DE GOVERNO E COORDENADOR DO GABINETE DIGITAL

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013



28 de fevereiro de 2013 | N° 17357
EDITORIAIS

ÁGUAS AGITADAS

Ao se despedir dos católicos na Praça de São Pedro, na sua última aparição pública como papa, Bento XVI voltou a sur- preender a todos os que o ouviam, não só por explicar com clareza os motivos de sua renúncia mas também por se referir, ainda que metaforicamente, aos pecados da Igreja que de certa forma contribuíram para a sua retirada precoce. Ainda que a cada instante surja uma teoria nova para justificar sua abdicação, parece inquestionável que o líder religioso já não tem energia e saúde para desempenhar a contento as atribuições eclesiais e administrativas que o cargo exige.

O papa de 85 anos fala baixo, movimenta-se com dificuldade e contabiliza uma série de moléstias debilitadoras, entre as quais a insuficiência cardíaca que o obriga a usar um marca-passo.

Os problemas da idade, apontados por ele mesmo como causa maior da sua decisão, foram reafirmados ontem: “Nesses últimos meses, senti que as minhas forças tinham diminuído e pedi a Deus com insistência, na oração, que me iluminasse com a sua luz para me fazer tomar a decisão mais justa, não para o meu bem, mas para o bem da Igreja”.

Mas os problemas da Igreja parecem ser ainda mais graves, como se pode interpretar pela referência que Bento XVI fez às dificuldades enfrentadas durante o seu papado. “O Senhor nos deu muitos dias de sol e ligeira brisa, dias nos quais a pesca foi abundante, mas também momentos nos quais as águas estiveram muito agitadas e o vento contrário, como em toda a história da Igreja, e o Senhor parecia dormir.”

Águas agitadas! A metáfora remete inevitavelmente aos escândalos que a Igreja vem enfrentando nos últimos anos, notadamente os casos de abuso sexual envolvendo sacerdotes, a corrupção no banco do Vaticano, o vazamento de documentos reservados da Santa Sé e a disputa fratricida pelo poder na cúpula da organização religiosa.

Ao lado desses episódios, alinham-se desafios que dividem os católicos e que certamente exigirão muita energia e sabedoria do comandante supremo da Igreja. Provavelmente, o sucessor de Bento XVI tenha que administrar polêmicas recorrentes, como o fim do celibato obrigatório, o acesso de mulheres ao sacerdócio, o uso de preservativo, a união entre homossexuais e as experiências médicas com células-tronco, entre outros que contam com a oposição radical do Vaticano.

Embora seja reconhecido como conservador e como defensor intransigente da doutrina católica, Bento XVI deixa como legado final uma tênue abertura para a modernização da Igreja. Suas referências claras ou simbólicas às turbulências enfrentadas, assim como o relatório que encomendou sobre o vazamento de documentos confidenciais, certamente servirão de subsídios para o sucessor que deverá ser escolhido no conclave programado para os próximos dias.

Diante de tais fatos, é de se esperar que a corajosa retirada do papa e sua opção pela transparência propiciem ao Vaticano uma oportunidade para passar a limpo hipocrisias históricas, para remover estruturas enferrujadas e para revitalizar a religião preferencial de expressiva parcela da humanidade.



28 de fevereiro de 2013 | N° 17357
ARTIGOS - Pedro Westphalen*

Assim caminha a democracia

Num mundo interconectado pela tecnologia – em que temos a possibilidade do conhecimento dos fatos em escala planetária e em tempo real –, a imprensa tem garantido papel de destaque, levando à opinião pública denúncias, críticas, descobertas científicas, informações políticas, econômicas, enfim, possibilitando às pessoas serem agentes ativos no processo social.

Assim é que soubemos da tragédia que abalou a cidade de Santa Maria e nos mobilizamos, todos. Assim conhecemos o resultado dos pleitos eleitorais de todos os lugares e as ações de lideranças políticas e civis. Assim nos chegam notícias da queda de um meteorito na Rússia, dos conflitos no Oriente, da renúncia do Papa, da cotação dos alimentos, dos índices de crescimento ou estagnação, do que pensam os outros países a nosso respeito. Informação é conhecimento e conhecimento é poder.

Jamais devemos esquecer que por longos períodos históricos ele permaneceu trancafiado por uma minoria, temerosa de que as camadas populares pudessem acessá-lo. E que dessa negação brotaram – e ainda brotam – preconceitos detonadores de sangrentas guerras. Que tal negação chegou ao obscurantismo de lançar mulheres sábias nas fogueiras.

A imprensa está para a contemporaneidade do mundo assim como a liberdade enquanto valor mais profundo. Atividade humana na construção de si mesma, ela erra e acerta, assim como a humanidade inteira caminha: em movimentos espirais ascendentes. Rumo ao futuro. Evoluindo. Saber é poder. Nas democracias, ele emana do povo e em seu nome deve ser exercido. O parlamento gaúcho reconhece esta dinâmica e busca constantemente aprimorar sua relação com o cidadão e com os meios de comunicação.

Atividade humana que é, algumas vezes erra e, outras tantas, acerta. Queremos a imprensa apontando nossos erros. Precisamos disso para o amadurecimento desta instituição. Igualmente queremos a imprensa informando nossos acertos, que não são poucos. Precisamos disso para renovar nossas forças e seguirmos o caminho espiral ascendente da democracia.

dessa negação brotaram – e ainda brotam – preconceitos detonadores de sangrentas guerras. Que tal negação chegou ao obscurantismo de lançar mulheres sábias nas fogueiras.

A imprensa está para a contemporaneidade do mundo assim como a liberdade enquanto valor mais profundo. Atividade humana na construção de si mesma, ela erra e acerta, assim como a humanidade inteira caminha: em movimentos espirais ascendentes. Rumo ao futuro.

Evoluindo. Saber é poder. Nas democracias, ele emana do povo e em seu nome deve ser exercido. O parlamento gaúcho reconhece esta dinâmica e busca constantemente aprimorar sua relação com o cidadão e com os meios de comunicação. Atividade humana que é, algumas vezes erra e, outras tantas, acerta.

Queremos a imprensa apontando nossos erros. Precisamos disso para o amadurecimento desta instituição. Igualmente queremos a imprensa informando nossos acertos, que não são poucos. Precisamos disso para renovar nossas forças e seguirmos o caminho espiral ascendente da democracia.

*PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL


28 de fevereiro de 2013 | N° 17357
PAULO SANT’ANA

Agradeço a solidariedade

Recebi uma montanha de e-mails de pessoas que se solidarizaram comigo em face da agressão física e verbal, além de racismo, que sofreram membros da minha família na semana passada.

Muita gente condenando as atitudes da patrulha da Brigada Militar que produziu as ofensas, mas mais gente ainda protestando por já ter sido maltratada por integrantes da BM, quando de revistas e abordagens.

Se não houver uma providência por parte do comando da PM no sentido de mudar a ação de prepotência dos agentes, que caracteriza infindável número de abordagens, esse absurdo persistirá. Infelizmente alguns PMs acham que são donos do mundo por portarem fuzis ostensivos, já por si intimidatórios.

Por sinal, esqueci-me de citar um detalhe além dos desmandos que cometeu aquela patrulha: os seus integrantes, fato que se repete aos milhares no cotidiano, esconderam os crachás que são obrigados a manter colados nas fardas, de tal sorte que meus familiares que foram vítimas de seu arbítrio não puderam identificá-los para usar em provável queixa. É uma atitude que se repete todos os dias sob os olhos dos oficiais superiores da PM.

Ainda sobre o mesmo tema, cheguei só ontem de Santa Catarina e encontrei sobre minha mesa uma mensagem do secretário da Segurança gaúcha, Airton Aloisio Michels:

“Prezado Sant’Ana: sobre tua correta e digna crônica na ZH deste domingo, com legítimo aguardo de minha atenção e do governador (que a tudo sempre acompanha, especialmente na segurança pública), sobre o fato que narras, me permito registrar:

1. Ainda na noite de terça-feira (e não na quarta, mas isso não importa), tomei conhecimento do fato através do comandante da Brigada Militar, o qual me informou dos acontecimentos e, também, das providências apuratórias que o episódio demandava e já por ele determinadas;

2. Asseguro-te (não sem lamentar) que outras denúncias da natureza da que vitimou teus familiares já me foram informadas e a todas temos dado atenção investigatória legal e devida, mas, admito Sant’Ana, que as tenho recebido mais do que devia, pois, de fato, ainda temos uma minoria de policiais militares que não compreenderam que os tempos são outros e, de qualquer sorte, o abuso de autoridade não se justifica em tempo nenhum;

3. Não ‘jogues a toalha’ (e esta é a única discordância com tua coluna), vai em frente, precisamos apurar e punir os maus servidores para o bem da sociedade e, mais ainda, da própria BM.

Finalmente, Sant’Ana, observo que as imperfeições ortográficas deste meu texto se devem ao fato de que, no momento, só tenho acesso a um aparelho desatualizado; ademais, não se trata de uma resposta, ou pedido de publicação ao teu texto, que não comporta contradita, salvo tua eventual desistência, como apontei.

Um abraço (estava assinado) do Airton Aloisio Michels, secretário de Segurança Pública do RS”.


28 de fevereiro de 2013 | N° 17357
L. F. VERISSIMO

Slogans

Durante 15 anos, trabalhei como redator na MPM Propaganda. No fim dos 15 anos, sabia tanto sobre como funciona ou deixa de funcionar a publicidade quanto no meu primeiro dia. Amiúde (sempre quis usar a palavra “amiúde”!), me surpreendia com o resultado de uma campanha publicitária ou de marquetchim. Não entendia como, muitas vezes, boas campanhas não davam resultado enquanto outras, medíocres, tinham efeito imediato. Mas mesmo sem, literalmente, saber o que eu estava fazendo durante os 15 anos, foram 15 anos, alguma coisa eu aprendi.

Aprendi, por exemplo, que o bom slogan publicitário é o que com poucas palavras tem mais de um sentido. Quando eu estava lá, a MPM ganhou a conta da Riocell, uma empresa de celulose que, do outro lado do Guaíba, o rio que não é rio, mandava maus odores sobre Porto Alegre, revoltava a população e provocava críticas ferozes da imprensa.

Dependendo da direção do vento, o cheiro de ovo podre era mesmo insuportável. Para se defender, a Riocell começou a instalar um sistema antifedor – filtros, ou coisa parecida – e contratou a MPM. Para melhorar a sua imagem. Bolamos uma campanha convidando os porto-alegrenses a visitarem a fábrica e descobrirem o que estava sendo feito para acabar com o mau cheiro e ouvir as explicações dos seus técnicos.

O slogan da campanha era “Conheça o outro lado”. O outro lado do Guaíba e os argumentos contra os ataques que a Riocell sofria, o outro lado da questão. Hein? Hein? Está bem, não era genial. Mas funcionou.

Se alguém me pedisse (ninguém pediu) um exemplo perfeito do duplo sentido que vende, eu responderia sem hesitar: o nome do xampu anticaspa Head and Shoulders, ou “cabeça e ombros”.

Como sabe quem tem, a caspa não é um problema só dos cabelos, é também dos ombros, quando se está vestindo roupa escura. E em inglês, quando se quer dizer que alguma coisa é muito superior a outras, se diz que está cabeça e ombros acima das outras, “head and shoulders”. O xampu vende sua eficiência contra a caspa nos cabelos e nos ombros e ao mesmo tempo a sua superioridade sobre as outras marcas, com um sutil autoelogio.

Isto tudo é para comentar o slogan – se é que é um slogan para durar e não uma frase de ocasião – do PT, “O fim da miséria é apenas um começo”. Não sei se o slogan acabará como exemplo de propaganda enganosa ou se a realidade vai confirmá-lo, mas de um ponto de vista puramente publicitário é ótimo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013



27 de fevereiro de 2013 | N° 17356
MARTHA MEDEIROS

Infiltrações

“Aqui tudo parece que é ainda construção, e já é ruína”.

Conversava com um amigo sobre o vexame que foi a abertura daquele buraco no conduto Álvares Chaves na semana passada, durante um dos temporais mais enérgicos ocorridos em Porto Alegre, e nos veio à lembrança essa parte da letra da música Fora da Ordem, do Caetano Veloso.

Não é o caso de tratar desse assunto isoladamente (por mais absurdo que seja o fato de um investimento tão alto numa obra de drenagem resistir apenas quatro anos), mas de analisarmos o contexto todo: vivemos num país maquiado, em que se as coisas “parecerem” benfeitas, já está ótimo.

A Arena também serviria como exemplo de uma obra entregue às pressas para cumprir calendário, mesmo sem condições básicas de uso. Mas também não pode ser visto como um caso isolado. Há outras tantas em andamento, todas com prazo máximo de 15 meses para serem concluídas (até o início da Copa), e me pergunto: o corre-corre não comprometerá o bom acabamento de viadutos, pontes, prédios e estradas?

Com a intenção de viabilizar orçamentos, não se estará sacrificando a qualidade do material empregado? Os funcionários em atividade estão bem preparados ou fazem um serviço matado, a toque de caixa? Dá pra confiar na espinha dorsal do Brasil?

Há que se ter cuidado com infiltrações. De todos os tipos, aliás. Com a infiltração de inconsequentes em meio a uma torcida, capazes de disparar um artefato com poder destrutivo em direção a outras pessoas, sem levar em conta que o gesto poderá ferir gravemente alguém ou até mesmo matar – como matou o garoto boliviano de 14 anos.

Com a infiltração de médicos e enfermeiros sem ética dentro de hospitais, que desligam aparelhos que mantêm vivos os pacientes, a fim de “desentulhar a UTI”. Com a infiltração de políticos desonestos nas entranhas do poder, que mesmo acusados por crimes diversos assumem cargos de presidência de instituições.

Por fora, bela viola. O Brasil hoje é visto como um país moderno e estável. É uma aposta mundial considerada certeira, um candidato VIP a juntar-se às superpotências. Mas como andará o esqueleto desse país que se declara tão sólido? Na verdade, o Brasil é um jovem com osteoporose precoce, um país descalcificado, que fica em pé à custa de aparências, comprometido com sua imagem pública, mas que segue com uma infraestrutura em frangalhos.

Aqui pouco se investe seriamente em educação, em treinamento de pessoal, em qualificação de mão de obra, em fiscalização, em responsabilidade social, tudo o que alicerça de fato uma nação. Nossa mentalidade “espertinha” faz com que não gastemos muito dinheiro com o que fica oculto, com o que não dá para exibir. O resultado? Por dentro, pão bolorento.


27 de fevereiro de 2013 | N° 17356
UMA RARA OCASIÃO

Vivendo a despedida de um papa

Enquanto outros pontífices saíram da Santa Sé apenas após deixar a vida, Bento XVI terá a oportunidade, hoje, de dar adeus
Despedida. Essa é a palavra que intriga católicos, jornalistas, padres, cardeais, fiéis e infiéis. Por quê? Porque papa não se despede.

– Papa apenas morre – disse ontem um padre brasileiro, em Roma.

Ou, no máximo, sofre um atentado, agoniza em público e... morre. Como João Paulo II. Mas não, papa não se despede.

É essa situação inusitada – a despedida de um papa vivo – que Roma e o mundo viverão hoje, a partir das 10h (6h em Brasília). Quando o pastor de branco, ungido para ser o 265º sucessor de Pedro, aparecer na praça do Vaticano, esse sopro de inquietação vai cortar, com o vento do inverno romano, centenas de milhares de pessoas ao longo da Via della Conciliazione. É uma inquietação travestida de espanto. Surpresa como a que tomou até o arcebispo emérito de Salvador, dom Geraldo Majella Agnelo, um dos cardeais que elegerão o sucessor de Bento XVI.

– O Papa está que não se aguenta fisicamente – confidenciou ontem, em entrevista a ZH, em seus aposentos no Colégio Pio-brasileiro, em Roma.

Na versão oficial, o Sumo Pontífice está o cansado – o peso dos 85 anos, a hipertensão, o marca-passo.

– Mas, da cruz, não se desce – alertou, com veemência, dias atrás, o cardeal polonês Stanislaw Dziwisz, secretário particular de João Paulo II.

Se o seu antecessor padeceu na cruz até o último suspiro, por que Joseph Raztinger descerá dela? Seriam motivos os escândalos que transformaram pastores de Cristo em lobos capazes de abusar de crianças? Ou a corrupção nas entranhas do clero? São perguntas que vão pairar nas mentes das 200 mil pessoas que deverão se despedir, na Praça de São Pedro, hoje, pela primeira vez em 598 anos, de seu papa.

O último que desceu da cruz foi Gregório XII, no século 15, para encerrar o cisma do Ocidente, quando a Igreja teve dois papas. Por iniciativa própria, livre de pressões, o mais recente foi Celestino V, em dezembro de 1294.

Desde que foi eleito, em 2005, Ratzinger se colocou como “um humilde operário da vinha do senhor”. Não foi peregrino como o antecessor. Fechou-se na Cúria Romana, acusam alguns. Mais cerebral do que espetaculoso.

O fato é que Bento XVI abre um precedente que põe em xeque o futuro da Igreja em questões como a infalibilidade do papa e até a própria sucessão .

RODRIGO LOPES | ENVIADO ESPECIAL/CIDADE DO VATICANO

Próximos passos

A um dia da renúncia, o Papa se prepara para se retirar em oração e estudos. Será “papa emérito”. Leia o que virá agora:
- Após duas semanas, o Vaticano indicou ontem o próximo título de Joseph Ratzinger: “Sua Santidade Bento XVI, Papa Emérito”.
- O Papa se prepara para a audiência-geral de hoje, seu último encontro com os fiéis. Também organizará seus papéis nos cômodos que irá deixar. Vai separar os documentos sobre o papado dos pessoais.
- Para a última audiência, 50 mil ingressos foram reservados, sem mencionar a multidão na Praça São Pedro.
- Ratzinger fará um passeio mais longo que o habitual no papamóvel.
- Seu secretário, Georg Gänswein, lerá mensagens de todo o mundo.
- Em seguida, haverá audiência na Sala Clementina para pessoas como o presidente eslovaco Ivan Gasparovic.
- O Papa concluirá suas tarefas amanhã às 19h locais (16h de Brasília).
- Bento XVI, após a renúncia, vestirá uma batina branca papal diferente da utilizada pelos papas. Não usará sapatos vermelhos, mas marrons.
- Na manhã seguinte, o decano do Colégio de Cardeais, Angelo Sodano, fará discurso de despedida, e cada cardeal se despedirá separadamente.
- No mesmo dia, Sodano enviará convites aos cardeais para as “congregações” prévias ao conclave. Devem começar depois de segunda-feira.
- O Papa irá para o heliporto do Vaticano às 16h. Viajará a Castel Gandolfo, 25 quilômetros ao sul de Roma, residência de verão do Papa, onde passará dois meses, antes de ir viver em um mosteiro no Monte do Vaticano.
- Chegará à residência de verão e, da varanda, saudará os fiéis: será sua última aparição como chefe da Igreja.
- Às 20h, a Guarda Suíça encerrará o serviço reservado ao Papa. A polícia fará a segurança do Papa Emérito.
- O conclave será iniciado a qualquer momento, antes do dia 15 de março.
- O novo papa será escolhido até a Páscoa, em 31 de março.