terça-feira, 30 de junho de 2026

30 de Junho de 2026
CARPINEJAR

O medo de perto

Foi nos últimos minutos. Foi de virada. Foi épico. Foi dramático. A Copa enfim começou para o Brasil. E, por pouco, não terminou precocemente.

O Japão achou um gol no primeiro tempo, a partir de um passe bisonho de Danilo. E não ameaçou mais. Passou a partida inteira se defendendo, num ferrolho, numa fortaleza medieval.

O triunfo canarinho veio no sufoco, na adrenalina, no desespero, nos acréscimos, com um arremate chorado de Martinelli.

Aliás, Casemiro e Martinelli juntaram os elos de duas gerações. Um veterano recolocou o time no páreo com uma cabeçada, um atacante mais jovem decidiu a classificação. A experiência e a renovação se completaram.

A torcida deixou a sua voz na tarde de ontem, em Houston, e tem até as oitavas de final, no domingo, para se recuperar da emoção afônica.

Diante de um elenco japonês fabril, organizado e operário, a Seleção Brasileira se mostrou raçuda. A superioridade se originou exclusivamente da superação, não resultou da técnica ou do talento individual.

Não desmoronamos psicologicamente com o golpe. Se não houve beleza, a sobrevivência acabou premiada. Talvez tenha sido a primeira vez que o Brasil apresentou espírito coletivo na competição. Não me refiro a entrosamento, mas ânimo para correr atrás de uma desvantagem que abortaria o sonho do hexa.

Fazia tempo que não revertíamos um placar adverso no mata-mata. Isso não acontecia desde a vitória sobre a Inglaterra, nas quartas de final de 2002. O destino novamente interveio a nosso favor e colaborou com o técnico Carlo Ancelotti. O meio-campista Paquetá se machucou, cedendo espaço para Endrick.

Rayan e Vinícius Júnior ficaram bem abertos, para dar profundidade pelos lados. Bruno Guimarães voltou a brilhar como garçom. Para uma formação atípica em sua história, sem laterais abastecendo ofensivamente, a estratégia vingou, cancelando as tentativas inúteis pelos ataques frontais.

Do que nos lembraremos desses dezesseis avos é do quase gol de placa de Vinícius Júnior. Assim como os famosos gols não feitos de Pelé na Copa - a meia-lua no goleiro uruguaio e o chute do meio de campo em cima da Tchecoslováquia.

Vini, num lampejo de Ronaldinho Gaúcho, pôs caprichosamente a bola entre as pernas do capitão do Japão, Takehiro Tomiyasu, humilhando o zagueiro do Arsenal. Na sequência, entortou mais um defensor e finalizou cruzado.

Suzuki espalmou com as pontas dos dedos, e recebeu a bênção aliada da trave. Por um detalhe, aquela caneta perfeita não escreveu o mais inesquecível verso de suas chuteiras. Kento Shiogai, dos samurais azuis, polemizou dizendo que o Brasil não era como o de antigamente. Não metia medo como outrora. Realmente, ele estava certo. Mas ainda é melhor do que o Japão.

Seguimos com aproveitamento de 100% em confrontos com equipes asiáticas.

O que esperamos é que o sacolejo produza união, que a tensão acirre a coragem, que o ensaio de uma despedida fermente confiança no grupo. Conhecemos o fim de perto, e que seja o nosso promissor início. _

CARPINEJAR

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