segunda-feira, 29 de junho de 2026

Desculpe, Zico. Sei que o seu coração deve estar rachado pela lealdade, entre a gratidão e a pátria.

Entendo o quanto você contribuiu para o desenvolvimento do futebol no Japão, que só alcançou uma possibilidade real de título hoje porque você esteve lá antes. As cerejeiras floresceram nos gramados.

Você é o pai da profissionalização do futebol japonês. Ninguém assimilou a sua escolha. Abdicar do calor do Rio de Janeiro para atravessar os mares e atuar pelo inexpressivo Sumitomo Metals (que se sagrou como o multicampeão nacional Kashima Antlers). Você foi pioneiro, movendo o sol para um lugar inexplorado. Emprestou as asas para a Ásia. Ajudou a fundar a J.League em 1993, transformando um esporte então considerado amador e corporativo, que acontecia dentro de fábricas, numa potência.

Já era ídolo incontestável em 1991, e decidiu recomeçar a carreira sem vestiário, sem arquibancadas, sem holofotes. Coisa de gigante, de estadista.

Apenas Pelé, nos Estados Unidos, arcou com tamanho trabalho na popularização da nossa mentalidade competitiva.

Você é um bushi e merece o nosso respeito. Você ganhou estátua. Você ainda é conselheiro do Kashima, do qual foi diretor técnico. Comandou a Seleção Japonesa na Copa do Mundo de 2006. Virou estrela de mangá e anime e capa de games.

Mas não dá para facilitar. Não podemos deixar que o sonho do Mundial japonês se torne o nosso pesadelo.

Não será agora que a Associação Japonesa de Futebol (JFA) vai atingir o ápice de sua Visão 2050, conhecida internacionalmente como "Plano de 100 Anos". O documento estabeleceu metas ambiciosas, entre elas engajar 10 milhões de torcedores (o público já passou de 12,5 milhões nos estádios, somando suas divisões) e conquistar uma Copa do Mundo até 2050. Resta a margem de 24 anos. Não precisamos apressar a realização do grande objetivo.

O beisebol permanece como o esporte preferido entre os japoneses, porém se vê ameaçado. Culpa sua. Tudo culpa sua.

Os invictos samurais azuis enfrentam a invicta Seleção Brasileira na tarde de hoje. Alguém terá que perder no mata-mata, e que não sejamos nós. Alguém terá que dizer adeus, e que não sejamos nós.

Pena que houve o embate precoce, nos 16 avos. Desejávamos torcer para que o Japão batesse o recorde e estreasse nas quartas.

É uma geração que assusta: com Daichi Kamada, cabeça da equipe; com Ritsu Doan, líder das assistências; com Keito Nakamura, motor pelo lado esquerdo; com Ayase Ueda, homem-gol.

Assusta, mas não provoca pânico.

Trago uma notícia alarmante: Ancelotti inventou um time em pouco tempo. O Brasil vem crescendo no torneio, vem melhorando, vem calando dissidências, vem derrubando apostas. Vini Júnior, criado no Ninho do Urubu como você, assumiu o protagonismo e frustrou a crença dos secadores de que não rende o mesmo com a camisa amarela.

Não somos favoritos a nada: isso é uma vantagem. Humildade gera atenção.

Desculpe, Zico, não queria percebê-lo triste neste dilema salomônico. Não há no mundo indivíduo mais tenso e dividido do que você.

De uma forma ou de outra, tentaremos fazer justiça para o nosso lendário 10.

Está no nosso sangue não aliviar nem com quem amamos. É um mal incurável. Compaixão não existe na guerra. 

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