Redutos da literatura, sebos contam a história cultural de Porto Alegre
Rafael GloriaEm uma época em que livros chegam à porta de casa com poucos cliques e bibliotecas inteiras cabem na memória de um tablet ou celular, os sebos seguem resistindo. Mais do que pontos de venda de livros usados, esses espaços guardam fragmentos da história cultural da cidade, preservam obras fora de catálogo e mantêm viva uma forma de convivência que marcou gerações de leitores, estudantes e intelectuais.
Há décadas, os sebos fazem parte do circuito cultural do Centro Histórico. Tudo começou no início do século passado, quando se tornaram lugares de encontros e formação intelectual. Em uma cidade movimentada, o público na área central circulava por cafés, redações de jornais, livrarias e repúblicas estudantis. Para o historiador Charles Monteiro, professor da Pucrs, a trajetória desses estabelecimentos ajuda a compreender transformações mais amplas na vida cultural da capital gaúcha. “Os sebos sempre foram lugares de encontro. As pessoas iam para conversar, procurar livros e trocar informações. O livreiro conhecia seus clientes, sabia o que eles liam e muitas vezes conseguia encontrar obras específicas”, afirma.
Desde as primeiras décadas do século XX, estudantes que chegavam a Porto Alegre para frequentar cursos preparatórios e universidades encontravam nos sebos uma alternativa mais acessível para adquirir livros. Muitos deles ficavam nas proximidades da rua Riachuelo e da antiga rua da Ladeira, áreas que concentravam pensões estudantis e intensa circulação cultural.
Além de comercializar livros usados, alguns estabelecimentos se especializaram em determinados temas. Um dos exemplos lembrados por Monteiro é a antiga Martins Livreiro, referência para pesquisadores interessados na história do Rio Grande do Sul e de Porto Alegre. “Um lugar importante para quem estudava a história local. Havia um trabalho de seleção e preservação de obras que ajudava a manter viva essa memória”, recorda.
Essa dimensão também é destacada pela presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Roseni Siqueira Kohlmann. Para ela, os sebos exercem um papel fundamental na preservação do patrimônio bibliográfico. “Muitos exemplares que circulam nesses estabelecimentos deixaram de ser comercializados pelas editoras, mas permanecem acessíveis graças ao trabalho de conservação realizado pelos sebistas”, afirma. Segundo Roseni, eles ajudam a preservar edições raras, documentos e obras de interesse histórico, contribuindo para a manutenção da memória cultural ligada ao livro.
A importância dos sebos, porém, vai além da preservação. Eles também ampliam o acesso à leitura ao oferecer livros por preços mais acessíveis e funcionam como espaços de descoberta para leitores de diferentes perfis. “São fundamentais para o ecossistema do livro porque ampliam a vida útil das obras, democratizam o acesso à leitura e ajudam a formar novos leitores”, observa a dirigente.
Ao mesmo tempo, esses estabelecimentos enfrentam desafios semelhantes aos de todo o mercado livreiro. A digitalização dos acervos, o crescimento dos e-books e as mudanças nos hábitos de leitura alteraram profundamente a relação das pessoas com os livros físicos. Para Monteiro, a redução do número de sebos físicos é um sintoma dessas transformações. “Representa a perda de um espaço que era, ao mesmo tempo, de consumo de conhecimento, de encontro e de relacionamento. E também demonstra transformações na cultura letrada, no processo de formação, na digitalização dos livros e na utilização, digamos assim, mais de artigos acadêmicos do que de livros”, avalia.
Ele observa que plataformas de venda online permitiram que muitos sebistas ampliassem seu alcance para todo o país, reduzindo a dependência do público local. Embora isso tenha criado novas oportunidades de negócio, também modificou o papel desses espaços na vida urbana. O sebo deixou de ser apenas um ponto de circulação cultural para se tornar, muitas vezes, parte de uma rede nacional de comercialização de livros.
Ainda assim, há algo que permanece difícil de reproduzir no ambiente digital. Entre as estantes, não circulam apenas livros, mas histórias. Dedicatórias esquecidas, anotações nas margens e marcas deixadas por antigos leitores transformam cada exemplar em um objeto único. “Muitos livros comprados em sebos carregam camadas de leitura deixadas por outras pessoas”, explica Monteiro. “São vestígios de uma experiência de leitura que vai passando de leitor para leitor.”
O universo do sebo, segundo Mauro Scheuer, da Ladeira Livros
Ao longo de três décadas trabalhando com livros, Mauro Scheuer, da Ladeira Livros, entende que os sebos funcionam também como espaços de memória, encontro e observação da vida cotidiana. Pelos balcões passam os mais variados tipos de pessoas com diferentes anseios e desejos. Foi dessa convivência que nasceu Croniquetas do Atendente, livro em que reuniu episódios inspirados nas situações presenciadas na livraria. "O livro abre espaço para as pessoas falarem", resume.
Enquanto os funcionários embalam encomendas, cadastram exemplares ou organizam estantes, clientes entram para procurar livros, pedir indicações ou simplesmente conversar. Alguns compartilham opiniões sobre política, literatura ou filosofia. Outros contam passagens da própria vida. Há quem chegue apenas para trocar uma ideia. "Quando as pessoas chegam ao sebo, elas se mostram, conversam e acabam revelando alguma coisa de si", conta.
Mas existe um segundo universo que alimenta as histórias do livreiro: as visitas às bibliotecas particulares colocadas à venda. Nesses encontros, diz ele, os livros funcionam como pistas biográficas. "As pessoas contam suas histórias a partir dos livros. Você consegue enxergar parte da vida do dono a partir do que ele comprou". Ao longo dos anos, Mauro passou a enxergar as bibliotecas como retratos de trajetórias. Um economista deixa rastros de debates sobre questão agrária e economia rural. Um professor revela suas leituras de formação. Certos títulos aparecem repetidamente em coleções de uma mesma geração, registrando modas editoriais, interesses acadêmicos e hábitos de leitura de determinada época.
Foi justamente nesse universo de encontros, despedidas e conversas improváveis que surgiram algumas das histórias mais curiosas acumuladas ao longo da carreira. Uma das que mais gosta de contar aconteceu no final dos anos 1980, quando ainda mantinha uma banca de livros na Ufrgs. Um colega sebista indicou uma senhora que desejava vender alguns volumes em um antigo apartamento da Duque de Caxias. O local era escuro, quase vazio, e a proprietária parecia viver apenas cercada por alguns santos e uma estante de clássicos da literatura. Depois de negociar os livros, a mulher começou a fazer comentários sobre a vida pessoal do livreiro, mencionando um sítio que seus pais tentavam vender. "'Tu és uma pessoa muito boa. Tua mãe e teu pai querem vender um sítio, mas tem uma pedra no meio do caminho'. Depois me orientou a pedir para minha mãe pegar uma pedra e jogá-la para o lado, porque assim conseguiriam vender o terreno. Falou outras coisas também, algumas sem sentido, e disse que estava vendendo os livros porque estava 'desencarnando'. Achei tudo muito estranho, mas liguei para minha mãe e repassei o recado. Um tempo depois, eles venderam o sítio. Resolvi voltar ao apartamento para agradecer. Bati na porta, ninguém atendeu. Foi quando um vizinho me disse que aquele apartamento estava desocupado havia mais de 20 anos", revela. "Eu sou materialista dialético, marxista de formação, mas essa história eu nunca consegui explicar direito", lembra, entre risos.
Ao mesmo tempo, Mauro observa que o trabalho mudou. Se antes boa parte das avaliações acontecia presencialmente, hoje muitas negociações começam com fotografias enviadas pelo WhatsApp. As vendas também migraram para o ambiente digital. Atualmente, cerca de 60% dos livros vendidos pela Ladeira saem pela internet. Mauro lamenta a perda de sociabilidade provocada pela digitalização das vendas, mas reconhece que as plataformas online se tornaram fundamentais para manter o negócio funcionando. Depois da pandemia, das enchentes de 2024 e do esvaziamento comercial do Centro Histórico, elas passaram a representar uma parcela importante do faturamento da livraria. "Por incrível que pareça, a Amazon está salvando a minha livraria", afirma. "As pessoas acham engraçado. Dizem: 'o cara é de esquerda, conta histórias esotéricas e defende a Amazon'. E eu respondo: a vida é feita de contradições."
Aprendendo a se adaptar, com André Gambarra, da Livraria Avenida
O livro chegou dentro de um saco de linhagem, carregado por um homem que estacionou uma carroça no Centro de Porto Alegre. Era uma manhã de sábado, no fim dos anos 1990. André Gambarra ainda dava seus primeiros passos como livreiro quando o vendedor entrou oferecendo um lote de livros usados.
"Comprei tudo por cerca de R$ 50,00. Havia revistas jurídicas, alguns volumes de literatura e livros sem grande aparência de valor", lembra. Só mais tarde, enquanto limpava os exemplares, percebeu que um deles era diferente. Tratava-se de uma primeira edição de Mensagem, de Fernando Pessoa. Mais do que isso: o volume trazia uma dedicatória assinada pelo próprio poeta português.
"Foi uma emoção. Eu lembro de chamar o Zeca Poli (histórico livreiro da cidade) para olhar e perguntar que edição era aquela", recorda Gambarra. "Quando percebemos o que tínhamos nas mãos, sabíamos que era algo muito raro." A história se tornou uma das mais conhecidas no meio na época. O exemplar acabou adquirido por um professor universitário e colecionador.
Atualmente, André é um dos sócios da Livraria Avenida, instalada e próxima à Santa Casa, e também atua na organização de leilões especializados em livros raros, fotografias e documentos antigos. Mas a trajetória começou muito antes, em um Centro que ele descreve como diferente daquele que existe hoje.
Antes de abrir sua própria livraria, Gambarra passou por alguns dos principais endereços do mercado livreiro gaúcho.Também acompanhou de perto um período em que Porto Alegre concentrava dezenas de distribuidoras e livrarias.
"Era um ecossistema inteiro do livro", lembra. "Tínhamos mais de vinte distribuidoras atuando na cidade, cada uma trabalhando com editoras diferentes. A Sulina era fortíssima, a Globo tinha várias filiais, havia a Livraria Lima, a Vozes, a Livraria do Advogado."

Cachorra Geralda vive entre os livros e é tratada pelos tutores como uma das "sócias" da Livraria AvenidaTÂNIA MEINERZ/JC
A memória do livreiro é povoada por cenas que hoje parecem pertencer a outra cidade. Aos sábados, o Centro fervilhava. Na Rua Riachuelo, leitores circulavam entre sebos, estudantes de RPG ocupavam a galeria em que ficava a antiga livraria Planeta Proibido, advogados saíam carregando pilhas de livros jurídicos e grupos de amigos terminavam a tarde em cinemas, pizzarias e bares. "Era muito vivo. A gente fechava a livraria e ainda tinha um monte de coisas para fazer no Centro. Saía às oito da noite tranquilamente", recorda.
Essa circulação também aproximava livreiros. Compras de bibliotecas inteiras viravam motivo de brincadeiras e disputas amistosas. "Um comprava um acervo e já ligava para o outro para provocar", conta, rindo.
Ao longo do tempo, o livreiro teve que ir se adaptando às mudanças. E assim nasceu uma nova frente de atuação de Gambarra. Durante a pandemia, com as portas fechadas e o movimento reduzido, ele começou a investir em leilões online de livros e objetos de colecionismo. O primeiro evento foi montado com exemplares do próprio acervo. Depois vieram fotografias antigas, cartões-postais, documentos, autógrafos e livros raros trazidos por colecionadores e outros livreiros. Hoje, os leilões reúnem participantes de diferentes regiões do país. "Um leilão de livros não se sustenta sozinho. Precisa de uma rede de pessoas garimpando material, identificando obras interessantes e colocando elas em circulação", diz
Entre os itens mais disputados estão primeiras edições, exemplares autografados, obras modernistas e documentos relacionados à história do Rio Grande do Sul. Para Gambarra, os leilões acabaram se tornando uma extensão natural do trabalho realizado nos sebos: encontrar livros que desapareceram das livrarias e recolocá-los em circulação.
Nos últimos anos, porém, os desafios se multiplicaram. Depois da pandemia, veio a enchente de 2024. Durante semanas, o livreiro precisou subir 14 andares de escada para acessar o estoque e atender pedidos feitos pela internet. "Foi muito mais impactante para nós do que a pandemia", afirma. Até hoje, clientes entram na livraria para contar histórias de bibliotecas perdidas na água. Muitas editoras, distribuidoras e profissionais do mercado editorial também foram atingidos.
Ao mesmo tempo, Gambarra acompanha outras transformações. O crescimento das vendas online, a popularização dos e-books e o esvaziamento gradual do Centro mudaram a rotina dos sebos. A galeria onde funciona a Livraria Avenida já teve supermercado, lojas e um fluxo constante de pessoas. Hoje, muitos espaços permanecem vazios. Ainda assim, ele não acredita no desaparecimento do livro físico. "Penso que o livro vai continuar existindo. Talvez com tiragens menores e edições mais cuidadas. Mas vai continuar."
Uma livraria-sebo especializada em castelhano, com Miguel Gómez, da Calle Corrientes
Quando abriu a Calle Corrientes Livros no final dos anos 1990, Miguel Angel Gómez apostou em algo raro para Porto Alegre: uma livraria especializada em livros em castelhano. Quase trinta anos depois, o espaço continua reunindo leitores interessados na literatura hispano-americana, na cultura gauchesca e nas conexões culturais entre o Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Argentina.
A ideia surgiu após um período de desemprego. Um amigo livreiro argentino sugeriu que ele abrisse uma livraria e ajudou a fornecer os primeiros exemplares. Miguel acreditava que a proximidade geográfica e cultural com os países vizinhos poderia formar um público interessado nesse tipo de acervo. "Eu pensei que em Porto Alegre não existia uma livraria em castelhano. O gaúcho tem essa proximidade com o Uruguai e com a Argentina, além da cultura gauchesca compartilhada", lembra.
Ao longo dos anos, a livraria construiu uma clientela própria. Professores, estudantes de espanhol, pesquisadores e leitores em busca de literatura latino-americana passaram a frequentar o espaço. Entre os temas mais procurados estão autores como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, além de obras sobre cultura guarani, Missões Jesuíticas, Guerra do Paraguai e tradição gauchesca.
Além da livraria e sebo, os eventos literários desempenham papel fundamental na sobrevivência do negócio. Miguel participa há décadas da Feira do Livro de Porto Alegre e considera o evento seu principal período de vendas. Também mantém presença na Feira do Livro de Santa Maria, cidade que reúne estudantes, trabalhadores e pesquisadores de diferentes áreas. "A feira coloca o livro na rua. Passa todo tipo de gente", resume.
Uma parte importante do seu trabalho também é apresentar novos leitores à literatura em espanhol. Quando alguém chega à livraria querendo começar a ler em castelhano, Miguel costuma sugerir um caminho gradual. "Eu sempre indico começar pelos contos. Se a pessoa começa por um romance e encontra dificuldade, pode acabar desistindo", explica.
Como acontece com muitos livreiros, parte do cotidiano também é formado por pequenas histórias. Miguel conta que há um frequentador da Feira do Livro de Porto Alegre que, todos os anos, passa em sua banca para repetir a mesma frase: "Lembra daquele livro que comprei contigo? Ainda não li".
Vestígios que viajam no tempo
Nos sebos, leitores encontram obras afetivas ou raras, constroem bibliotecas e, muitas vezes, cruzam com vestígios deixados por desconhecidos: dedicatórias, fotografias, anotações e objetos esquecidos entre as páginas.
Para o professor e escritor Luís Augusto Fischer, esses espaços carregam uma experiência que vai além do livro em si. “Os sebos são livrarias, coleções vivas de livros, que implicam a presença física de leitores indo até lá, especulando, indagando, se surpreendendo com as descobertas”, afirma. Ao mesmo tempo, observa que a revolução digital transformou profundamente a relação das pessoas com a leitura. Se antes era preciso comprar um livro ou encontrá-lo em uma biblioteca, hoje grande parte dos textos circula em formato digital. “Os sebos padecem do mesmo destino das livrarias em geral: ficar como uma possibilidade, não como uma necessidade imediata”, diz. Talvez seja justamente por isso que os sebos preservem algo difícil de reproduzir em uma tela. Entre seus corredores, livros continuam funcionando como cápsulas de memória.
As histórias a seguir mostram como um livro usado pode guardar muito mais do que o texto impresso em suas páginas.
Fernando Bachega, professor universitário
A história que ficou conhecida entre nós como “a história do casal da foto” começou quando eu estudava para concursos e frequentava sebos do Centro de Porto Alegre em busca de livros de química. Sempre gostei de livros mais antigos, tanto pela qualidade dos textos quanto pelo próprio objeto físico. Foi assim que encontrei obras de Otto Alcides O’Weiler, professor da Ufrgs e uma figura importante para a química e para a vida intelectual do Rio Grande do Sul.
Eu já conhecia o nome dele porque havia visto alguns de seus livros durante a graduação, no interior de São Paulo. Ao encontrar aquelas obras nos sebos, comecei a pesquisar mais sobre sua trajetória. Descobri um intelectual que produziu livros de enorme relevância para o ensino de química no Brasil. Ao mesmo tempo, me chamou atenção como sua bibliografia estava, aos poucos, desaparecendo das salas de aula e da memória acadêmica.
Comentei isso com um colega de universidade, professor da área de química analítica. Eu havia comprado em um sebo um dos livros de O’Weiler e contado a ele sobre meu interesse em saber mais sobre o autor e sua história. Algum tempo depois, esse colega encontrou em outro sebo uma edição semelhante do mesmo livro e a levou para o laboratório.
Enquanto folheávamos o exemplar, encontramos uma fotografia esquecida entre as páginas. Era a foto de um casal sorrindo. No verso, havia apenas uma inscrição: “Março de 74”. Aquilo despertou imediatamente nossa curiosidade. Quem eram aquelas pessoas? Como aquela foto tinha ido parar dentro de um livro e, décadas depois, em um sebo?
Uma aluna sugeriu que publicássemos a imagem nas redes sociais. Fizemos isso e a história começou a circular. Pessoas compartilharam a foto em grupos de Facebook e WhatsApp, até que alguém reconheceu o casal.
Pouco tempo depois, descobrimos que eram André Porto e sua esposa, Beatriz. Eles entraram em contato e confirmaram que eram as pessoas da fotografia. Convidei os dois para visitar a universidade, recuperar a foto e conversar conosco. Eles aceitaram.
O encontro acabou se tornando um pequeno evento. Colegas foram recebê-los, muitas pessoas apareceram para ouvir suas histórias e até a reitora passou pela mesa em que estávamos conversando. Foi então que surgiu a coincidência mais bonita de todas: o livro onde a foto havia sido encontrada tinha sido comprado por eles quando ainda eram estudantes de Otto O’Weiler. Sem saber, a busca por informações sobre aquele professor acabou nos levando justamente a dois de seus ex-alunos.
Eles nos contaram como era conviver com O’Weiler: um professor rigoroso, mas também muito atencioso com os estudantes. Foi uma forma inesperada de conhecer melhor uma figura que eu admirava e que parecia estar se apagando da memória coletiva.
Marcelo Cunha, professor
“Uma história que sempre me marcou aconteceu por volta de 2004. Uma amiga estava no Beco dos Livros, na Rua Riachuelo, quando me ligou dizendo que estava com um livro meu nas mãos. Fiquei sem entender, até que ela explicou que havia encontrado, em um sebo, um exemplar de Borboleta, de James M. Cain, com meu nome escrito à mão na contracapa: “Marcelo Cunha, 1984”.
Provavelmente eu tinha emprestado aquele livro e nunca mais o recebi de volta. Imagino que ele tenha passado por outras pessoas até parar em um sebo. Vinte anos depois, caiu justamente nas mãos de uma amiga querida. Ela comprou o exemplar e quis me devolver, mas pedi que ficasse com ele. Achei bonito pensar que aquele livro tinha viajado pelo tempo e, de certa forma, voltado para mim.
Outra história parecida aconteceu quando um amigo me enviou a foto de uma edição antiga de O Príncipe e o Mendigo. Eu havia ganhado aquele livro como prêmio em um concurso de redação na escola. Ao abrir o exemplar, ele encontrou a dedicatória da escola com meu nome. Era exatamente o meu livro, que em algum momento eu tinha passado adiante. Mais uma vez, um livro reaparecia anos depois, carregando consigo um pedaço da minha própria história.”

Espaços como a Calle Corrientes seguem como nicho importante de mercado, resistindo ao advento crescentes das vendas onlineFABIOLA CORREA/JC
Sabrina Dalbelo, poeta
Certa vez, eu estava me preparando para uma oficina com o escritor Marcelino Freire, de quem já fui aluna, sou leitora e com quem mantenho uma relação de amizade no campo literário. Como eu queria aproveitar a oportunidade para autografar alguns livros, resolvi procurar em sebos de Porto Alegre títulos dele que ainda não tinha.
Saí correndo pela Rua da Praia, entrando em sebo após sebo, até encontrar dois livros. Um deles era Nossos Ossos. O preço era o normal de um sebo, mas, quando abri o exemplar, descobri que ele já estava autografado. Achei aquilo muito estranho e curioso: alguém tinha deixado em um sebo um livro autografado pelo próprio autor.
Levei o exemplar para a oficina e, quando mostrei o livro ao Marcelino, ele deu risada e disse: “Amiga, esse livro era para ser seu”. Acabamos tirando uma foto para registrar o momento. O autógrafo era dedicado a uma tal Patrícia, e brincamos que ela não sabia o que tinha perdido. Foi um daqueles encontros improváveis que só os sebos conseguem proporcionar.
Luís Francisco Wasilewski, pesquisador teatral
Frequentei muitos sebos em Porto Alegre. Comprava bastante no Beco dos Livros, na Rua Riachuelo, e também era cliente da Livraria Aurora. Quando tinha 17 anos, muitas vezes faltava ao cursinho pré-vestibular, do qual não gostava, para passar as tardes nos sebos do Centro.
Como eu já trabalhava com pesquisa teatral, adquiri muitos livros sobre teatro nesses lugares e também comecei a colecionar programas de espetáculos. Cheguei a ser tema de uma reportagem da Zero Hora por causa dessa coleção. Um dos itens que encontrei no Beco dos Livros foi o programa da peça Emily, sobre a vida de Emily Dickinson, dirigida por Miguel Falabella e estrelada por Beatriz Segall em 1984. Mais tarde, no mestrado e no doutorado, estudei o Teatro Besteirol, movimento do qual Miguel foi um dos principais expoentes, e acabei me aproximando dele por conta da pesquisa que desenvolvi na USP.
Também descobri um excelente sebo em Passo Fundo durante a Jornada Nacional de Literatura de 1999. Gostei tanto que, durante um período, chegava a viajar até a cidade apenas para comprar livros. Foi lá que encontrei a edição do Teatro Completo de Qorpo Santo, organizada por Guilhermino César, obra que dialogava diretamente com a pesquisa de iniciação científica que eu realizava na UFRGS.
Edgar Aristimunho, escritor
Uma das coisas mais fascinantes para quem compra livros em sebos é encontrar bibliotecas inteiras, muitas dessas acervos completos que os herdeiros vendem da pessoa já falecida, porque essas bibliotecas revelam em seu conjunto o gosto e as preferências do antigo dono da biblioteca, como ele lia, como formava o seu acervo. Então é curioso encontrar essas caixas empilhadas em alguns sebos. Encontrar essas relíquias só é possível quando se tem uma amizade mais próxima com o livreiro.* Rafael Gloria é jornalista, mestre em Comunicação (Ufrgs) e editor do site Nonada Jornalismo.





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