Agro forte, indústria fraca: o desafio das cidades agrícolas gaúchas

Claudio MedagliaRepórterMunicípios do Interior gaúcho que lideram a produção de soja, milho e outras commodities agrícolas convivem com um paradoxo: apesar da riqueza gerada no campo, grande parte do valor econômico acaba deixando essas regiões antes de se transformar em emprego, arrecadação e diversificação produtiva local.
O cenário se repete em cidades de forte perfil agropecuário da Região Central do Rio Grande do Sul, onde o setor primário sustenta a economia, mas ainda convive com baixa industrialização e limitações logísticas. Para especialistas e gestores municipais, o desafio das próximas décadas será justamente ampliar a capacidade de agregar valor ao que já é produzido no campo.
Para o coordenador do Centro Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário (Ceema) da Unijuí, Argemiro Luís Brum, existe uma diferença importante entre crescimento econômico e desenvolvimento regional. “Crescer não é sinônimo de desenvolvimento”, afirma o economista.
Segundo Brum, municípios fortemente agrícolas muitas vezes permanecem excessivamente concentrados na atividade agrícola, sem consolidar cadeias de processamento, serviços e tecnologia capazes de reter parcela maior da renda gerada pelo agro. “O protagonismo agrícola não basta. É preciso transformar isso em desenvolvimento real”, diz.
Um dos exemplos desse cenário é Tupanciretã, município reconhecido pela força da produção de soja. A cidade lidera o ranking gaúcho da cultura e possui o maior PIB agropecuário do Estado, segundo o prefeito Gustavo Terra (PP).
Apesar disso, a participação industrial ainda é reduzida. Conforme o prefeito, 74,1% do Valor Adicionado Fiscal (VAF) do município está ligado ao setor primário, enquanto a indústria representa apenas 0,6%.
Terra afirma que parte da dificuldade está ligada à infraestrutura. Sem alternativas ferroviárias eficientes e distante dos principais corredores logísticos, o município perde competitividade na disputa por investimentos industriais.
Segundo ele, a dependência quase total do transporte rodoviário encarece operações e favorece a instalação de indústrias em cidades localizadas às margens da BR-158 ou mais próximas de estruturas ferroviárias e portuárias. “Tupã acaba ficando em desvantagem”, afirma o prefeito, ao citar a distância de 21 quilômetros da BR-158 e os custos extras de frete.
Terra cita a implantação da Soli3, em Cruz Alta, como exemplo das dificuldades enfrentadas por municípios mais afastados dos principais corredores logísticos. Segundo ele, a cooperativa local Agropan chegou a participar das tratativas iniciais do empreendimento, mas o investimento acabou sendo direcionado para o município vizinho.
“Cruz Alta fica à beira da BR-158. E a malha ferroviária passa do lado”, afirma.
A nova indústria é desenvolvida por Cotrijal, de Não-Me-Toque; Cotripal, de Panambi; e Cotrisal, de Sarandi; e prevê processamento de soja para produção de biodiesel, óleo e farelo. Para o presidente da Cotrijal, Nei César Manica, a agroindustrialização representa um passo importante para ampliar a retenção de renda nas regiões produtoras.
“A agroindústria amplia a retenção de renda, reduz custos logísticos e fortalece toda a cadeia produtiva”, afirma.
“Ou as cerealistas e cooperativas verticalizam seus negócios, ou a produção segue saindo daqui para ser industrializada em outros locais”, acrescenta Terra.

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