Crédito rural fica mais seletivo no RS após alta da inadimplência

Claudio MedagliaRepórterA combinação de perdas climáticas sucessivas, aumento dos custos de produção, queda nos preços de commodities e endividamento acumulado começa a produzir reflexos mais evidentes sobre o acesso ao crédito rural no Rio Grande do Sul. Bancos, cooperativas de crédito e cooperativas agropecuárias relatam aumento da percepção de risco no campo, crescimento da procura por renegociações e processos de concessão mais criteriosos, em um momento em que a inadimplência do setor atinge os maiores níveis da série histórica recente.
Dados divulgados pelo Banco Central na última semana mostram que a inadimplência do crédito rural para pessoas físicas chegou a 7,4% em abril. No Rio Grande do Sul, o quadro é ainda mais preocupante. Segundo a autoridade monetária, cerca de R$ 40 bilhões em operações rurais no Estado apresentam algum tipo de problema, o equivalente a aproximadamente 35% da carteira ativa gaúcha.
O cenário reflete os efeitos acumulados de uma sequência de estiagens e enchentes que atingiram o Estado nos últimos anos, mas as instituições ouvidas apontam que os desafios vão além do clima. A deterioração das margens dos produtores, pressionadas pelo aumento dos custos de produção e pela queda dos preços agrícolas, também contribui para o enfraquecimento da capacidade financeira do setor.
Uma cooperativa agropecuária gaúcha, que pediu para não ser identificada, relata que muitos produtores enfrentam dificuldades para cumprir os custos de produção e que a concessão de crédito já se tornou mais seletiva nas instituições financeiras.
A percepção converge com a da cooperativa de crédito Cresol.
"A capacidade financeira e de liquidez dos nossos agricultores tem se espremido cada vez mais", afirma o presidente do Conselho de Administração, Cledir Magri.
Segundo ele, produtores que anteriormente possuíam reservas e margem para absorver períodos de adversidade perderam essa condição após anos consecutivos de frustração de safra.
"É visível e perceptível que os produtores gaúchos diminuíram muito a capacidade financeira nesse último ciclo, não só por questões climáticas, mas também pela relação entre aumento dos custos de produção e redução dos preços dos produtos."
A Cresol, presente em 20 estados brasileiros, também observa aumento na procura por renegociações e maior dificuldade dos produtores em honrar compromissos financeiros.
"Quando fazemos esse recorte no Rio Grande do Sul, percebemos que esse aumento é maior. Há uma busca maior dos agricultores para estabelecer processos de renegociação", afirma Magri.
Segundo ele, as dificuldades aparecem em praticamente todas as principais cadeias agropecuárias, incluindo soja, milho, trigo, feijão, arroz e leite.
A Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (FecoAgro/RS) também percebe um ambiente mais restritivo para novos financiamentos e renegociações. Segundo o diretor-executivo da entidade, Sérgio Feltraco, a combinação de perdas climáticas, pressão sobre os preços das commodities e juros elevados tem ampliado as exigências impostas pelas instituições financeiras.
Conforme Feltraco, o movimento afeta especialmente produtores que ampliaram áreas de cultivo por meio de arrendamentos, com destaque para a cadeia da soja.
Para o superintendente de Varejo do Banco do Brasil (BB) no Rio Grande do Sul, Ricardo Sehn, a alta da inadimplência é atribuída principalmente aos eventos climáticos que atingiram os produtores gaúchos. Apenas no BB, foram renegociados R$ 36,5 bilhões em operações por meio da MP 1.314/2025. Os produtores gaúchos responderam por 89% das contratações da linha com juros controlados disponibilizada pela instituição.
Segundo Sehn, mais de 7 mil produtores tiveram o fluxo de caixa ajustado por meio das renegociações. Além disso, linhas emergenciais beneficiaram mais de 8 mil produtores, com desembolsos de R$ 962 milhões.
Embora nenhuma das instituições ouvidas relate retração relevante na oferta de recursos, todas reconhecem que o ambiente de crédito se tornou mais rigoroso.
No BB, houve aperfeiçoamento dos modelos de análise, com maior atenção ao fluxo de caixa, às garantias e ao histórico financeiro dos produtores.
"Importante também manter e reduzir os níveis de inadimplência atuais, pois caso sigam em elevação, podem afetar diretamente as novas contratações", afirma Sehn.
No Sicredi, o aumento das operações problemáticas reforçou a necessidade de processos mais criteriosos na concessão do crédito rural. De acordo com o diretor de Desenvolvimento de Negócios da Central Sicredi Sul/Sudeste, Edison Neuwald Silva, a cooperativa revisa constantemente suas políticas para refletir os cenários econômico, climático e produtivo.
"Quando necessário, ajustamos critérios, reforçamos garantias e aperfeiçoamos parâmetros de análise, sempre com foco em manter a saúde da carteira e a capacidade de atendimento ao agro gaúcho", afirma.

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