Com Selic a 14,25%, quanto rendem R$ 10 mil na poupança, CDB e Tesouro Direto?

Gabriel MargonarA redução da taxa Selic de 14,50% para 14,25% ao ano, anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na última quarta-feira (17), pouco alterou as estratégias recomendadas para quem busca aplicações mais conservadoras. Apesar do terceiro corte consecutivo dos juros, especialistas ouvidos pelo Jornal do Comércio avaliam que o cenário segue amplamente favorável à renda fixa, enquanto a Bolsa ainda exige cautela e horizonte de longo prazo.
Simulações da XP Investimentos mostram que uma aplicação inicial de R$ 10 mil pode chegar a R$ 17.954,24 em cinco anos no Tesouro Selic 2031 (vencimento em 1º de março de 2031). No mesmo período, um CDB que renda 100% do CDI levaria o montante a R$ 17.913,53, enquanto uma LCI ou LCA com retorno equivalente a 85% do CDI acumularia R$ 17.589,34. Já a poupança, opção mais popular entre os brasileiros, faria os mesmos R$ 10 mil se transformarem em R$ 14.137,34.
Conforme o professor de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Marco Martins, a queda de 0,25 ponto percentual teve efeito limitado sobre as recomendações para os investidores. “A Selic está caindo, mas a taxa de juros real, acima da inflação, continua bastante elevada. Ainda vivemos um cenário de juros reais altos, então o investidor deve priorizar estratégias mais simples”, afirma.
Segundo ele, a renda fixa segue sendo a alternativa mais favorável em um ambiente marcado por incertezas externas, inflação ainda elevada e redução gradual dos juros. Ainda assim, para quem deseja investir em ações, Martins recomenda limitar a exposição a uma parcela menor do patrimônio e manter uma carteira diversificada.
“A Bolsa sempre envolve mais incertezas e, neste momento, temos tanto fatores externos quanto internos que ainda geram cautela. A queda da Selic ainda é pequena. Com juros reais elevados, fica difícil recomendar uma exposição maior à renda variável”, avalia.
Pós-fixados ganham destaque
Na avaliação do economista e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), Gustavo Inácio de Moraes, o corte da Selic reforçou a atratividade dos investimentos pós-fixados. “A redução foi extremamente discreta. E a tendência é de novos cortes, mas sem reduções significativas, principalmente porque a inflação ainda permanece acima do teto da meta”, diz.
Embora os títulos indexados à inflação, como os IPCA+, continuem sendo uma alternativa, Moraes observa que eles perderam parte da atratividade diante do aumento das incertezas relacionadas aos combustíveis, ao cenário geopolítico e aos preços dos alimentos.
“Nesse contexto, recomendamos que o investidor prefira títulos pós-fixados atrelados à Selic. Mesmo com a queda recente, a taxa continua elevada e esses investimentos seguem apresentando vantagem em relação a outras aplicações”, destaca.
Para ele, os papéis do Tesouro Selic disponíveis no Tesouro Direto são uma das principais opções para os investidores mais conservadores. A recomendação é priorizar vencimentos mais curtos, até 2027, devido às incertezas sobre a trajetória futura da economia.
É importante destacar que esses valores são estimativas baseadas em premissas simplificadas, como manutenção de taxas médias futuras, reinvestimento contínuo dos rendimentos e ausência de mudanças tributárias ou macroeconômicas relevantes. Na prática, os retornos reais podem variar conforme o comportamento da Selic, do CDI e das condições de mercado ao longo do período.
Outro ponto relevante é que o retorno do Tesouro Selic pode variar caso o investidor venda o título antes do vencimento, já que o preço de mercado oscila conforme as expectativas de juros.
Poupança ainda lidera entre os brasileiros
Apesar da menor rentabilidade (conforme mostra o gráfico acima), a poupança continua sendo a aplicação mais utilizada no País. Dados da 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, da Anbima, mostram que 22% da população possui recursos na caderneta, à frente dos títulos privados (7%) e dos fundos de investimento (5%).
Entre os próprios investidores, entretanto, a participação da poupança vem diminuindo. Em cinco anos, o percentual de pessoas que mantêm recursos na modalidade caiu de 75% para 61%, enquanto os títulos privados avançaram de 8% para 20%. Moraes considera que a permanência na caderneta é justamente um dos principais erros dos investidores.
“A poupança oferece baixa rentabilidade e sua principal vantagem, que é a liquidez, pode ser encontrada em outros produtos mais rentáveis. Os bancos oferecem CDBs com liquidez diária ou mensal que permitem acesso rápido aos recursos e costumam render mais”, afirma.
Marco Martins acrescenta que outros erros frequentes são concentrar todo o patrimônio em um único ativo e investir sem conhecer os riscos envolvidos. “Nunca se deve desrespeitar o próprio perfil de investimento e nunca investir em algo que não se entende. Muitas vezes, o investidor procura soluções fáceis sem compreender os riscos envolvidos”, ressalta.
Embora parte do mercado associe uma Selic de um dígito ao aumento do interesse pela renda variável, os especialistas afirmam que não existe um número mágico capaz de tornar automaticamente as ações mais atrativas.
“A atratividade da renda variável depende muito mais das perspectivas para as empresas e para a economia do que de um nível específico da Selic”, conclui Martins.

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