Exportações do RS à União Europeia sobem 53% no primeiro mês de acordo Mercosul-UE

Gabriel MargonarO primeiro mês de vigência do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia trouxe um resultado expressivo para a indústria gaúcha. Em maio, as exportações do Rio Grande do Sul para o bloco europeu somaram US$ 302 milhões, valor 53% superior ao registrado no mesmo período do ano passado, quando as vendas alcançaram US$ 197,4 milhões. O crescimento representa um acréscimo de US$ 104,7 milhões e levou os embarques ao maior patamar para meses de maio desde a pandemia de Covid-19.
Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (15) pelo Sistema Fiergs e indicam que as exportações para a União Europeia também ficaram 41,3% acima da média observada nos meses de maio entre 2021 e 2025. Na série histórica recente, os embarques oscilaram entre US$ 195,7 milhões e US$ 231,6 milhões. Agora, ultrapassaram pela primeira vez a marca de US$ 300 milhões.
Para o economista-chefe da Fiergs, Giovani Baggio, o desempenho deve ser interpretado com cautela, embora seja um sinal positivo para a indústria gaúcha. “É importante destacar que ainda é cedo para atribuir esse crescimento diretamente ao acordo. Não temos elementos suficientes para afirmar que ele foi a causa desse aumento. Mesmo assim, trata-se de um sinal positivo”, afirma.
Segundo ele, o resultado pode indicar o início de uma intensificação das relações comerciais entre empresas dos dois blocos. “As empresas ainda estão conhecendo melhor esse mercado, identificando oportunidades e construindo relações comerciais. A expectativa é de que o fluxo de comércio entre os dois blocos continue se intensificando ao longo do tempo”, diz.
O principal destaque foi o segmento de alimentos, responsável por praticamente metade do crescimento registrado. Sozinho, o setor respondeu por 26,3 dos 53 pontos percentuais de expansão observados nas vendas para a União Europeia.
Dentro desse grupo, o maior impulso veio dos frigoríficos, especialmente do abate de aves, que alcançou US$ 35,6 milhões em maio. A alta é de 218% em relação aos US$ 11,2 milhões registrados no mesmo mês de 2025.
Na avaliação da Fiergs, porém, parte desse desempenho pode estar relacionada às novas exigências sanitárias que a União Europeia passará a adotar a partir de setembro para produtos de origem animal: o bloco europeu anunciou regras mais rígidas relacionadas ao uso de antimicrobianos e à comprovação da conformidade sanitária dos produtos importados.
Embora o Rio Grande do Sul não utilize as substâncias alvo das restrições, empresas exportadoras precisarão demonstrar e rastrear essas condições perante as autoridades europeias. Para Baggio, existe a possibilidade de que frigoríficos e importadores tenham antecipado operações para evitar riscos futuros.
“O que realmente chamou atenção foi o crescimento das exportações de carne de frango. Uma das hipóteses é justamente uma antecipação de embarques por parte dos compradores, buscando evitar possíveis dificuldades a partir de setembro”, explica.
Outro fator que pode ter contribuído para a alta é a base de comparação mais fraca. Em maio de 2025, o setor avícola enfrentava os efeitos do caso de gripe aviária registrado em Montenegro, que levou à adoção de restrições comerciais por parte de alguns mercados. Ainda assim, o economista avalia que o efeito da antecipação dos embarques provavelmente teve peso maior sobre o resultado.
Crescimento foi além dos frigoríficos
Mesmo retirando da conta os embarques dos ramos frigoríficos, as exportações da indústria de transformação gaúcha para a União Europeia somaram US$ 264 milhões em maio. O valor permaneceu 28,9% acima da média observada para os meses de maio entre 2021 e 2025, indicando que o desempenho não ficou restrito ao setor de proteínas animais.
Depois dos alimentos, os segmentos que mais contribuíram para a expansão foram celulose e papel, tabaco, químicos e madeira.
A indústria de celulose e papel registrou crescimento de 182%, passando de US$ 8,2 milhões para US$ 23 milhões. Já o setor madeireiro avançou 239%, enquanto os produtos químicos cresceram 41,1%.
Segundo Baggio, alguns desses setores podem encontrar na Europa uma alternativa diante das dificuldades enfrentadas em outros mercados. “O setor madeireiro merece atenção especial porque foi bastante afetado pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos. A Europa pode se tornar uma alternativa importante para esses produtos”, observa.
Ele também destaca o potencial do setor de couro e calçados - que cresceu 18,1%. “O calçado gaúcho possui maior valor agregado e não compete diretamente com os produtos de baixo custo produzidos em países asiáticos. Por isso, encontra melhores oportunidades em mercados com maior poder aquisitivo, como o europeu.”

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