segunda-feira, 29 de junho de 2026

29 de Junho de 2026
CLÁUDIA LAITANO

Friolência

Mudei eu ou mudou o frio? O minuano da razão sopra no meu ouvido que o inverno gaúcho é isso aí mesmo - e que ao contrário das chuvas de 2024 provavelmente não se pode colocar esse martírio invisível na conta das mudanças climáticas. Ou pode?

Mudei eu então. De idade, algumas dezenas de vezes, e de país, nos últimos cinco anos. O fato é que em algum momento, seja por falta de prática ou excesso de quilometragem nos ossos, desaprendi a invernar com o devido estoicismo em Porto Alegre. Dentro ou fora de casa, já não há japona que me acuda ou aquecedor que me baste.

Desde que me mudei para os Estados Unidos, em 2021, tenho voltado todos os anos para passar uma temporada na casa de cá. Essas visitas eram sempre em março, quando o verão ainda combate, e as cobertas só saem do armário para que os ácaros tomem banho de sol. 

Este ano, por motivos de verão texano (mais quente, mais abafado e mais longo do que o verão gaúcho, se é que vocês me acreditam) e Copa do Mundo (torcer com os amigos daqui sempre foi a melhor parte de qualquer Copa), decidi vir em junho e ficar até o final de julho. Afinal, que mal pode fazer um friozinho subtropical para quem já se acostumou com a neve na porta de casa? (Sim, também neva na parte do Texas onde eu moro.) Subestimei um fato empiricamente comprovado por todos os gaúchos expatriados: há invernos muito mais rigorosos, mas só o nosso rengueia o cusco.

O problema prático mais óbvio é a calefação insuficiente. Aquele split que salva da agonia as noites de Forno Alegre sente-se moralmente desobrigado de trabalhar com o mesmo empenho no inverno. Fica ali, preguiçoso, soprando um arzinho morno que não aquece direito o ambiente nem justifica o gasto extra na conta de luz. Poderia pensar que o problema é só comigo se todo mundo que eu encontro não reclamasse das mesmas coisas: as roupas que não secam, o ar que não aquece, os lugares públicos mais gelados do que o frigorífico do súper. 

Eu sabia de tudo isso, claro, mas perdi um pouco o traquejo. Precisei sair para comprar um par novo de pantufas, aceitar um convite para comer um mocotó e repetir 17 vezes por dia a palavra "encarangado" para começar a descongelar o modo "friolência gaúcha" no meu termostato particular. Torçam por mim.

Agora, enquanto escrevo, bate um solzinho na minha janela. É um dia gelado de um céu muito azul e luminoso. E só quem já encarangou muito por aqui sabe exatamente o que isso significa.

...

Faça frio ou faça chuva, vou estar com Kátia Suman, Luís Augusto Fischer e Diego Grando amanhã, às 20h, no Bar Ocidente (Osvaldo Aranha, 960), na abertura oficial das comemorações do aniversário do Sarau Elétrico - que, muito gauchamente, estreou em uma fria noite de inverno, há 27 anos. Passa lá! _

CLÁUDIA LAITANO

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