sábado, 6 de junho de 2026

 Diretor cultural do Multipalco, Álvaro RosaCosta morou no Theatro São Pedro na infância

Músico, ator e compositor é atual diretor cultural do Multipalco - complexo ligado ao Theatro São Pedro, onde residiu na infância

Músico, ator e compositor é atual diretor cultural do Multipalco - complexo ligado ao Theatro São Pedro, onde residiu na infância

/FABIOLA CORREA/JC
Priscila PaskoO ator, cantor, compositor e sonoplasta Álvaro RosaCosta relembra alguns episódios marcantes de sua infância, enquanto conversa com a reportagem no quintal de sua antiga casa. Com o dedo indicador, ele desenha no ar retas e curvas nas diferentes direções onde ocorreram os eventos. Corredores, vizinhos, janelas, cães, visitas, uma paineira. Foi ali, em 1967, que ele nasceu e morou com os avós e os pais, até 1972.
Desde então, o lugar sofreu mudanças significativas no entorno. Mas o Theatro São Pedro, prédio que acolheu a família de Álvaro por décadas, não deixa de ser o lar onde ele foi criado. ”Moravam outras famílias aqui no teatro. Volta e meia algum vira-lata [pertencente às famílias] passava pelo palco”, conta Álvaro. Os cômodos se distribuíam por diferentes espaços do prédio. O próprio diretor do teatro daquela época, Dante Barone (1907 — 1986), morou no prédio por um período.
A trajetória cíclica do tempo se manifesta de maneira notória na carreira do artista. O vínculo que parecia pertencer ao passado volta repaginado para visitar o presente, pois, desde meados do mês de maio, Álvaro é o novo diretor cultural do Multipalco Eva Sopher, voltado ao fomento da cultura afro-brasileira. “Talvez eu seja o primeiro diretor artístico negro a ocupar este cargo no teatro. Espero que isso abra a porta a outros”, comenta Álvaro. O presidente da Fundação Theatro São Pedro, Luciano Alabarse, ressalta que o olhar de Álvaro será determinante para as ações que serão  implementadas. “Tenho total confiança na sua capacidade de gerar projetos que valorizem nossos artistas negros”.
São 36 anos de carreira contados a partir do recebimento do primeiro cachê dedicados à atuação, no teatro e no cinema, à criação de trilhas sonoras, e à música, como compositor e cantor. São dezenas de prêmios ou homenagens. “Eu parei de contar, mas são mais de 30”, arrisca.
Para o ator, diretor e dramaturgo Nelson Diniz, a diversidade artística de Álvaro, “seja na música para teatro, seja na atuação ou em qualquer outra área, está relacionada à sua curiosidade, à investigação e à inquietação no que se propõe a criar.  Sempre na  linha do desafio,  como deve ser o trabalho de um bom artista”, ressalta Diniz. Os dois são amigos de longa data, dentro e fora dos palcos e das telas.
Há uma década Álvaro integra o coletivo de experimentação em dramaturgia Gompa, atuando na sonoplastia. Assumindo a mesma função, Álvaro também acompanha os ensaios do espetáculo de dança Sambaracotu, dirigido pela coreógrafa Carlota Albuquerque e pela cantora, pianista e compositora Simone Rasslan. A atração, que volta em cartaz após sete anos, também conta com a direção e trilha de Álvaro. Paralelamente, o artista segue produzindo trilhas para diversos grupos teatrais, de dança e para o cinema.
 

Os guardiões do teatro

Alvaro RosaCosta teve primeiras experiências artísticas no Theatro São Pedro: "nunca imaginei que morasse em um teatro; para mim, era a minha casa"

Alvaro RosaCosta teve primeiras experiências artísticas no Theatro São Pedro: "nunca imaginei que morasse em um teatro; para mim, era a minha casa"

ARQUIVO PESSOAL ALVARO ROSACOSTA/REPRODUÇÃO/JC
O primeiro espetáculo que Álvaro RosaCosta participou em sua vida foi no Theatro São Pedro, representando Baltazar, um dos reis magos. Era uma apresentação de final de ano do jardim de infância. “Eu me lembro que saía no meio dos ensaios, descia a escada e ia pra casa”, ou seja, o mesmo prédio. Álvaro contava, então, com cerca de três ou quatro anos de idade. Na estreia, já em cena, o pequeno Baltazar vira os pais sentados na plateia e fora na direção deles. “Minha estreia foi saindo do palco e indo para o colo dos meus pais, Ailton Costa e Ivone Rosa, assistir àquela presepada que eles estavam fazendo lá no palco”, se diverte lembrando.
Em 1939, o diretor do teatro, Dante Barone, procurava um zelador que tomasse conta do teatro. Chegou até o avô de Álvaro, o mecânico Manoel Pedro da Rosa, que morava em Novo Hamburgo. Aceito o convite, Manoel, a esposa Maria de Lourdes Rosa e as duas filhas do casal, uma delas, a mãe de Álvaro, Ivone Rosa, mudaram-se para Porto Alegre para morar no teatro.
Alguns anos depois, após ficar viúvo, o avô de Álvaro se casaria novamente, com Maria Gecilda da Silva Rosa, a “vó Mosa”, que trabalhou como camareira do teatro. E, ali, nasceram o tio de Álvaro, Manuel Luiz, e Álvaro. “Eu nunca imaginei que morasse em um teatro. Para mim, era uma casa. Eu me dei conta onde eu morava na adolescência já”.
Foi neste ambiente, onde circulavam atores e atrizes, cantores e cantoras, luzes, cenários e aplausos, que o artista passou a infância. Álvaro contou com um incentivo adicional: a Escolinha de Arte Infanto Juvenil de Porto Alegre atual Centro de Desenvolvimento da Expressão (CDE) que ficava em um galpão ao lado do teatro, próximo à paineira que até hoje se exibe no jardim interno do local.
Ali, ensinavam desenho, pintura, entre outras atividades manuais. O tio de Álvaro, Manoel Luiz, foi o primeiro aluno do lugar. A Escolinha de Arte se mudou para diferentes lugares nas décadas seguintes, e Álvaro permaneceu como aluno - pelo menos até ingressar no curso de Artes Plásticas, no Instituto de Artes, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A cantora, compositora, pianista e educadora musical Simone Rasslan percebe que a maneira como Álvaro observa o mundo parte, sim, da vivência que ele teve no Theatro São Pedro. Ainda que ele não tenha sido educado com o objetivo de tornar-se um artista, foi o caminho trilhado. “A família também tinha um olhar aguçado para arte, porque convivia naquele espaço. A avó do Álvaro era camareira, ela conversava com as bailarinas russas, entendia o que elas queriam sobre o figurino”, conta Simone.

No limiar da possibilidade

Álvaro RosaCosta soma três décadas de carreira, em especial junto ao teatro

Álvaro RosaCosta soma três décadas de carreira, em especial junto ao teatro

FABIOLA CORREA/JC
A escolha pelas Artes Plásticas e o seu ingresso no curso, em 1986, não foi propriamente uma questão dentro do núcleo familiar do ator, cantor, compositor e sonoplasta Álvaro RosaCosta. Não havia uma cobrança sobre qual carreira ele deveria seguir. Afinal, Álvaro acreditava, na época, que já havia chegado "no topo" de uma condição social, visto que ele seria o primeiro membro da família a conquistar um diploma. "Tanto que, quando eu escolhi o curso, perguntei a eles se queriam que eu investisse em uma carreira que desse dinheiro ou em um na área das artes. Me falaram para fazer o que eu quisesse."
Álvaro se formou Bacharel em Gravura (calcogravura, técnica feita a partir de uma placa de metal) em 1992. "Na gravura eu consegui encontrar esse meio termo entre a escultura e a imagem. Tu passava a manhã inteira produzindo a chapa, gravando, usando ácidos, lidando com elementos bem poderosos. Aquilo me fascinava", lembra Álvaro do processo que, para ele, assemelhava-se à alquimia.
A partir da construção de uma poética própria, novas perguntas foram sendo alimentadas. As respostas, longe de serem definitivas, foram, aos poucos, construindo novas camadas no artista que Álvaro já era e naquele que viria a se tornar. Ele recorda de perguntar, na época, à sua professora de gravura, a pintora, desenhista e gravadora Nilza Haertel (1942 – 2014), qual margem ele teria de criação. Ela respondia que, dentro da técnica, o que os alunos quisessem. “Então eu sempre ficava à beira da possibilidade. Esticar a corda a ponto de uma chapa minha quase virar uma escultura de tão corroída que eu a deixei, era algo que me interessava. Esse limite me divertia.”
É deste lugar que nasce o interesse pela experimentação, traço tão marcante no trabalho de Álvaro e destacado pelas pessoas entrevistadas para esta reportagem, que trabalham ou já trabalharam com ele. "Ele é um artista de múltiplos talentos", diz a coreógrafa Carlota Albuquerque. "Por ele ter formação em artes plásticas, o Álvaro também olha para a cena partindo das imagens. Ele traz imagens do cotidiano, da rua e das que surgem na internet. Ele vai brincando como um quebra-cabeças de possibilidades", explica Carlota, com quem Álvaro já compartilhou diferentes trabalhos.
A música como cena
Interpretando o boêmio Lupicínio Rodrigues em 2014, ao lado de Beto Chedid

Interpretando o boêmio Lupicínio Rodrigues em 2014, ao lado de Beto Chedid

MIRELE PACHECO/PMPA/JC
Na adolescência, a música passou a estar mais presente na vida de Álvaro. Ele aprendeu a tocar violão nos veraneios em Capão Novo, no litoral norte gaúcho, mais precisamente, no Posto 4. Era ali que acontecia a "efervescência da arte". "Tinha música o tempo todo. Shows diários, atividade de teatro e de dança. Os veranistas de praias vizinhas iam até lá para ver de perto a função toda", conta.
O artista ainda cursava Artes Plásticas quando, em 1989, ingressou no Coral Rio dos Sinos, em São Leopoldo. Além de partitura, aprendeu outras línguas, para que pudesse cantar em alemão, italiano e latim. Em 1990, ele começa a trabalhar profissionalmente como ator no teatro, principalmente em musicais. Apenas neste ano, foram 240 apresentações. Por essa razão, Álvaro trancou um ano da faculdade de Artes Plásticas. Em 1994, ingressou como diplomado no Departamento de Artes Dramáticas (DAD), na Ufrgs. Permaneceu até 1998, mas não foi possível continuar, pois estava envolvido em sete diferentes trabalhos.
A estreia de Álvaro na criação de trilha para teatro aconteceu em 1997, com Chapeuzinho Amarelo, de Camilo de Lélis e Arthur Pinto. O resultado exitoso refletiu em mais dois trabalhos no mesmo ano: A bela e a fera (Ronald Hadde), da Cia. Teatro Novo, e O bandido e o cantador (Patricia Fagundes), com trilha executada ao vivo. Neste último, Álvaro recebeu o primeiro prêmio, o de Melhor Trilha Sonora pelo Festival Vale dos Sinos.
E, desde então, somam-se dezenas de trilhas e cenas sonoras produzidas para diferentes grupos teatrais do Rio Grande do Sul. Entre as premiações, o Açorianos de Melhor Trilha Sonora Original (2004) por Travessias, direção de Lígia Rigo; Prêmio Quero-Quero de Melhor Trilha Sonora Original (2006) por A Tempestade e os Mistérios da Ilha, direção de Jezebel de Carli; Prêmio Açorianos de Melhor Trilha Sonora Original (2018) por Inimigos na Casa de Bonecas, com direção de Camila Bauer; Prêmio Tibicuera de Melhor Trilha Sonora Original (2022) por Amazônia, um olhar sobre a floresta, direção Camila Bauer; ou ainda Prêmio Tibicuera de Melhor Trilha Sonora Original (2025) por Vampirices, de Guilherme Ferrêra.
Há dez anos, Álvaro integra o Gompa, coletivo de teatro experimental. Os projetos do grupo, assim como apresentam possibilidades criativas, também impõem desafios. Foi o caso do primeiro trabalho do artista no coletivo, na peça Chapeuzinho Vermelho, com texto do francês Joël Pommerat, e direção de Camila Bauer. "Além da trilha executada ao vivo, eu controlava quatro microfones e mais um drone que eu inventei de colocar em cena. Era um desafio técnico impressionante. Foi uma das peças que eu menos assisti, eu mais ouvia", conta o artista. No espetáculo Inimigos na casa de bonecas (2017), direção de Camila Bauer — prêmio International Ibsen Scholarship 2017, da Noruega — Álvaro atuou e criou a trilha simultaneamente.
A diretora Camila Bauer conta que após a experiência de Chapeuzinho Vermelho, a dinâmica proposta por Álvaro acabou sendo adotada em vários trabalhos do Gompa, com o sonoplasta operando de dentro da cena. "O Álvaro topa os desafios de resolver musicalmente questões que, às vezes, são complexas. É alguém que faz trilhas pensando na relação da música com a cena, e não como um elemento isolado". Camila acrescenta que, com a entrada da cantora, compositora e performer Paola Kirst no coletivo, que também realiza o trabalho de sonoplastia, o jogo de improvisação da música se fez mais presente ainda.
O amigo e parceiro de trabalho de Álvaro há mais de 30 anos, o ator, diretor e dramaturgo Nelson Diniz, lembra que o sonoplasta criou trilhas para diversos espetáculos nos quais trabalhou como ator. "E, quando criamos a Cia InCoMoDe-Te, Álvaro estava lá desde da sua fundação, produzindo a sua cena sonora, como ele costuma chamar suas trilhas. Há um rigor e uma busca pela perfeição que fazem dele o imenso artista que ele é".
 

Escutar com os ouvidos da plateia

Com Simone Rasslan e Beto Chedid, na peça Xaxados e Perdidos; RosaCosta e Rasslan são companheiros há quase 30 anos

Com Simone Rasslan e Beto Chedid, na peça Xaxados e Perdidos; RosaCosta e Rasslan são companheiros há quase 30 anos

TIAGO COELHO/DIVULGAÇÃO/JC
O processo de criação das trilhas de Álvaro não se dá em outro espaço que não seja o próprio palco, pelo menos a construção da essência do que o trabalho pede. A diretora Camila Bauer conta que o músico se faz presente na sala de ensaio, mantendo o diálogo, a escuta com outros elementos, como a atuação, o texto, a cenografia, o figurino e a dança.
Para Álvaro, não poderia ser diferente. "Procuro acompanhar o máximo possível os ensaios, acho isso importante não só para criar, mas, principalmente, para se comunicar. O que eu faço não é só música para teatro, é sonoridade. Exploro as sonoridades no espaço cênico". Álvaro parte da premissa de que diretores e atores, em geral, já sabem qual objetivo almejam. A sua presença, portanto, torna-se fundamental para alinhar tal entendimento.
É justamente a premência desta participação ativa que faz o sonoplasta sair do palco para, às vezes, operar o som sentado entre a plateia. "Eu quero ter a mesma sensação de que o público está tendo. Eu quero que ele ouça o que eu estou ouvindo", explica Álvaro.
Uma porta, para o músico, pode facilmente se converter em um instrumento, comenta a cantora, compositora e pianista Simone Rasslan. "Tudo é sobre sonoridade com o Álvaro. Ele está o tempo inteiro pesquisando o som. Às vezes, dirigindo, ele bate no volante do carro, produzindo percussão com qualidade sonora", conta Simone que é, também, companheira de Álvaro há quase 30 anos. São diversos projetos realizados juntos em todos estes anos de convivência, mesmo naqueles em que os dois não estejam oficialmente compartilhando.
O espetáculo Casa, idealizado por Simone e a sua filha Madalena, com quem divide o palco, contou com o desenho e operação de som e direção de palco de Álvaro. Trata-se de um show intimista que mescla canções da MPB, propondo a casa como um espaço poético. Simone comenta que, apesar de estarem apenas ela e Madalena em cena, Álvaro acaba sendo o "terceiro músico do espetáculo". "Ele é quem nos vai dizer as verdades, e isso é sempre muito tenso. Dizer verdades é só para quem pode e para quem a gente realmente respeita, já que não é agradável de escutar. É muito bom que seja ele, porque é muito amor que vem daí, né?".
Em 2009, Simone idealizou o espetáculo Xaxados e perdidos, que, anos depois, também resultaria em um álbum (2012). Nele, constava um repertório das origens da música popular brasileira, fruto de uma pesquisa sua. Álvaro foi um dos arranjadores. O trabalho foi contemplado em três categorias do Prêmio Açorianos de Música de 2012: o de melhor arranjador (junto a Beto Chedid e Simone Rasslan), melhor disco de MPB e disco do ano.
 

O erro como presente no processo artístico

Simone faz uma analogia do perfil de criação de Álvaro com a ideia de um artista buscar a escultura na pedra bruta, ou seja, encontrar as alternativas no caminho. “Inclusive o erro é muito importante para ele. A possibilidade de errar e encontrar uma nota musical que não estava sendo esperada, e isso ser um encontro, uma descoberta. É muito inspirador.”
Pergunto a Álvaro se a sua relação com o erro modificou no decorrer dos anos. Ele diz que sim, e lamenta que a maioria das pessoas acredite que o erro seja um problema a ser eliminado. “No teatro e na música, o erro, para mim, é um presente. Eu conto com ele, eu sei que vai ter erro. Dizer que tu vai fazer um espetáculo ao vivo e não errar é comer comida sem sal. É não estar atento à possibilidade de mudança”, defende. É esta espécie de metodologia, digamos, que empresta um sotaque característico ao trabalho de Álvaro.

Sobre o que um artista quer falar

Álvaro RosaCosta atuando como convidado no Concerto da Orquestra de Câmara da Ulbra, em 2023

Álvaro RosaCosta atuando como convidado no Concerto da Orquestra de Câmara da Ulbra, em 2023

EVANDRO OLIVEIRA/ARQUIVO/JC
São distintas as linguagens exploradas por Álvaro no decorrer de três décadas de carreira. Durante a conversa, ele reflete, cogitando que, talvez, tenha "abandonado um pouco o palco do teatro" como ator. Ultimamente, tem atuado mais em cinema do que em teatro. Ele acredita que está em busca do que dizer. "É impressionante: uma vida inteira a gente tentando descobrir o que a gente é, qual é a nossa essência, de onde a gente vem, o que a gente quer realmente falar". É o tipo de questão que tem acompanhado o artista.
E, quando Álvaro tem a oportunidade de externar isso, acontece algo como Sambaracotu. Ele se refere ao espetáculo de 2019, dirigido por ele (trilha sonora também), Carlota Albuquerque e Simone Rasslan, e que, na época, contou com o Canoas Coletivo de Dança. O trabalho será retomado no final do segundo semestre deste ano com novas cenas e intérpretes. A proposta leva ao palco a dança urbana influenciada por elementos do samba, do coco e do maracatu. O sonoplasta já está participando dos ensaios.
Após algum tempo de estrada, Álvaro percebeu que a sua maneira de compor tinha a ver com a dança, uma referência ao trabalho de Carlota Albuquerque, que pensava as trilhas dos seus espetáculos em camadas. Por sua vez, Carlota, enxerga o mesmo contraponto no trabalho de Álvaro, definido pela coreógrafa como um artista visionário. "É muito raro uma pessoa como ele, porque, como artista, o Álvaro tem o olhar sensível de um diretor,  a inquietação do ator e a amplitude do músico e de um corpo bailarino. É maluco dizer isso, mas ele é puro movimento.  A trilha do Sambarocotu é genial ".
Foi a partir desta trilha sonora e da produzida para o espetáculo Amazônia — um olhar sobre a floresta (2019), do Projeto Gompa, que Álvaro recebeu a atenção dos curadores da Quadrienal de Praga um dos maiores eventos internacionais dedicados à cenografia desde 1967 para participar do evento, em 2023. Em parceria com Elton Panamby (Maranhão), Dori Sant'Ana (Espírito Santo) e Rinaldo Santos (Rondônia), com a supervisão de Gregory Slivar (São Paulo), Álvaro apresentou a obra EncruzOdu. A instalação exibia um tabuleiro sobre o qual público lançava as sementes enviadas por cada componente do grupo. A partir deste movimento, uma câmera disparava os sons criados pelos artistas. Álvaro enviou as sementes da paineira do Theatro São Pedro.
Até chegarmos à praça do complexo cultural para a sessão de fotos, na parte externa, pelo caminho, Álvaro indicava a localização de antigos galpões que ficavam instalados ao lado do teatro e dos prédios que não existiam mais ou que passaram a existir desde a chegada da sua família ao teatro, no final da década de 1930. Os registros fotográficos feitos pelo seu avô, Manoel Pedro da Rosa - e já compartilhados por Álvaro publicamente em uma rede social - exibem os bastidores da vivência da sua e de outras famílias que contribuíram para a manutenção de um dos espaços culturais mais prestigiados do Brasil. Pessoas que foram atravessadas, mas que, provavelmente, também atravessaram a arte.
Encerramos a entrevista, concedida no foyer do Multipalco Eva Sopher. Como um bom anfitrião, Álvaro me acompanha até próximo à escadaria que dá acesso à rua Riachuelo e nos despedimos. O artista, por sua vez, permanece no teatro. Ou melhor, em casa.
* Priscila Ferraz Pasko (1983 - Porto Alegre) é jornalista freelancer na área cultural, escritora, pesquisadora e Mestranda em Artes Visuais (PPGAV-UFRGS), com ênfase em História, Teoria e Crítica de Arte. É autora do livro de contos "Como se mata uma ilha" (Zouk, 2019) - Prêmio Açorianos 2020 na categoria conto.

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