domingo, 24 de fevereiro de 2013



Amor que se compra

Serviços de paquera atraem empresários, que ainda buscam modelos de negócios eficientes

Com a ajuda das redes sociais e da geolocalização, empresários estão tentando mudar a forma como as pessoas, muitas vezes de nichos específicos, encontram amor, sexo casual ou relacionamentos "de fachada" pela internet. Os desafios, entretanto, são atrair mulheres e achar modelos de negócio eficientes.

Em menos de um mês, o aplicativo Pegava Fácil, que permite que usuários do Facebook indiquem com quais amigos virtuais gostariam de "ficar" e avisa aos internautas quando o interesse é mútuo, atraiu 28 mil usuários, sendo 65% homens -mais de 2.000 potenciais casais foram formados no período.

O sistema é uma versão nacional mais comportada do aplicativo americano Bang with Friends (gíria em inglês para "faça sexo com amigos"). Josemando Sobral, 29, fundador da empresa 30ideas, responsável pelo aplicativo brasileiro, diz que algo tão "descarado" quanto o sistema americano não funcionaria no país. "Os brasileiros querem algo mais discreto. Um aplicativo para sexo não funcionaria bem, mas, sim, algo para a 'pegação'."

Sobral destaca que o objetivo é aumentar a base de usuários e faturar com campanhas patrocinadas. Mas, de acordo com Felipe Wasserman, professor do Centro de Inovação e Criatividade da ESPM, há modelos mais promissores.

"A oferta de serviços extras é que pode ser o diferencial para faturar com esse tipo de negócio", argumenta.

Ele diz que o desafio é atrair uma grande quantidade de usuários, para fazer com que o serviço se torne interessante, e tentar convencer uma parcela deles a pagar por certas ferramentas do sistema.

No caso do empresário Airton Gontow, 51, entre 8.500 internautas cadastrados em seu site, 1.700 aceitaram pagar R$ 37,90 por um pacote mensal para usar o serviço Coroa Metade.

O portal, lançado há dois meses, é voltado a mulheres a partir dos 40 anos e a homens a partir dos 45 anos.

"A proporção de assinantes foi menor do que eu imaginava. É que, no começo, o site parecia aquele barzinho lindo que acabou de ser aberto, mas estava sem mulher [frequentando], então as pessoas resolveram voltar depois."

Ele diz que teve a ideia de criar o serviço depois de conversas com amigos de sua faixa etária, que, mesmo sendo extrovertidos, tinham dificuldades para começar relacionamentos.

Uma das tendências dos negócios de relacionamento on-line é o uso da geolocalização, com aplicativos que usam o GPS de smartphones para fazer com que pessoas que estão próximas se encontrem. Um exemplo bem-sucedido desse tipo de aplicação, inclusive do ponto de vista do faturamento, é o Grindr, voltado ao público gay, que permite conversar com usuários que estão nas redondezas.

O sistema, lançado em 2009, tem 4,5 milhões de usuários -131,2 mil no Brasil (o oitavo país com mais cadastrados no aplicativo).

Cerca de 70% da receita do sistema vem da ferramenta paga, com mais recursos. O restante é produto da venda de publicidade, que também pode ser relacionada à localização do usuário.

"Queremos mostrar anúncios que sejam relevantes para as pessoas. Não faz sentido mostrar a propaganda de uma festa em Miami para alguém que está em São Paulo", diz Joel Simkhai, 36, presidente-executivo do Grindr.

ATENÇÃO FEMININA

Um levantamento feito neste ano pela empresa de pesquisas Flurry com 17 milhões de usuários desse tipo de ferramenta, inclusive no Brasil, mostrou que apenas 36% deles são mulheres.

Isso se reflete no volume de tempo gasto nesses aplicativos: enquanto a média para todos os públicos é de oito acessos por semana, com 21 segundos gastos em cada um, os gays fazem 22 acessos semanais e ficam 96 segundos, diz a empresa.

Para Mary Ellen Gordon, diretora da Flurry, esse fenômeno pode estar relacionado ao uso da geolocalização. "As mulheres podem se sentir menos confortáveis com isso por razões de segurança", afirma. "Isso é algo que os desenvolvedores podem resolver, dando [a elas] mais opções sobre quando relevar informações sobre onde estão."

Por causa desse receio, mesmo serviços mais tradicionais de paquera resistem em usar esse tipo de tecnologia em seus aplicativos móveis. "Elas querem ver fotos, visitar perfis de pessoas, mas mostrar a localização é algo que as deixa inseguras", diz Navin Ramachandran, presidente do Match.com para América Latina, que no Brasil opera como ParPerfeito.

E, se buscar um parceiro pela internet ou pelo celular não funcionar, também há empreendedores interessados em ajudar quem pretende fingir um relacionamento.

Em janeiro, a MSsites, de Mato Grosso do Sul, lançou o serviço Namoro Fake, que oferece aos homens a possibilidade de contratar uma "ficante" falsa para exibi-la em seu perfil no Facebook -pagando R$ 99 por mês, é possível escolher uma moça real que vai aparecer como namorada na rede social. A "companheira" fica com metade desse valor.

Por questão de segurança, o cliente não pode entrar em contato diretamente com a mulher. As mensagens são moderadas pela empresa.

De acordo com Flavio Estevam, 32, idealizador do sistema, há atualmente 2.000 meninas cadastradas para servirem de namorada falsa e também uma fila de espera de 2.000 rapazes interessados no sistema.

Ele diz que pretende lançar em junho a versão "namorado fake".

FELIPE MAIA


FERREIRA GULLAR

E a banda passou

Por toda zona sul do Rio, são multidões que já não dançam nem cantam, puxadas por trios elétricos

Passado o Carnaval, me ponho a refletir. No final da década de 1950, o Carnaval de rua, no Rio, havia morrido. À exceção do Cordão da Bola Preta e de um ou outro bloco, quase nada havia. É certo que alguns foliões mascarados, vestidos de palhaço, de urso ou vestidos de mulher, vagavam pela Cinelândia, misturavam-se a um ou outro grupo de gente que brincava na avenida Rio Branco.

Bêbados desgarrados sempre houve e haverá, mas o Carnaval de rua, com banda de música tocando e muita gente sambando, como décadas atrás, isso não havia mais. Por que, não sei, mas lembro das conversas de foliões nostálgicos, lamentando o fim desse tipo de brincadeira carnavalesca.

Foi então que, em Ipanema, surgiu um pequeno grupo que decidiu sair para a rua, batucando e cantando. Parece que a primeira aparição desse grupo foi em 1964, pouco antes do golpe militar que viria instaurar uma ditadura no país. Não era muita gente, não, dez ou 20 pessoas e alguns músicos, creio eu.

Nascia a Banda de Ipanema, inventada por Albino Pinheiro e Ferdy Carneiro, a que aderiram Jaguar, Ziraldo, a turma do Pasquim e do Jangadeiro, mas também Sérgio Cabral e o grupo que militara no CPC da UNE e depois no Teatro Opinião, encabeçados por Thereza Aragão. Com o tempo, outros mais aderiram.

O pessoal se reunia na praça General Osório, a banda começava a tocar chamando gente, aumentando o bloco que seguia pela Prudente de Morais até a altura do Bar Vinte, se não me falha a memória. Ali dobrava e retornava pela Visconde de Pirajá de volta à praça de onde partira e onde se dispersava.

Àquela altura, já anoitecera e o pessoal bastante animado, especialmente porque, durante o percurso, parava nos bares para tomar cerveja e batidas de limão.

Era comum que, quando chegava à praça, já muita gente ficara pelo caminho, muitos pelos botecos onde enchiam a cara pelo resto da noite.

A Banda de Ipanema era, assim, uma exceção, mas, de certo modo, uma retomada do Carnaval de rua que, talvez pela importância que o bairro tomara, por nele residirem ou frequentarem seus restaurantes e bares, artistas e intelectuais de prestígio, despertava o interesse de gente de outros bairros -e a banda foi crescendo, de ano para ano.

Não demorou muito e aquele pequeno grupo inicial duplicara ou triplicara de tamanho, e com isso o entusiasmo dos carnavalescos crescia contaminando, claro, os moradores do bairro que, no começo, ficavam nas janelas vendo a banda passar.

E com isso ela também se tornou, de certo modo, manifestação política contra o regime militar. Não explicitamente e sim pelo fato mesmo de opor-se à hipócrita seriedade da ditadura: mostrar-se alegre e irreverente já era ser contra os milicos. Os anos se passaram e outras bandas começaram a surgir em diferentes bairros da zona sul do Rio: no Leme, em Copacabana, no Catete, no Jardim Botânico.

Tive que deixar o país e, assim que voltei, já estava eu lá na banda de Ipanema. Havia muita gente nova, mas os antigos companheiros continuavam lá. Em seguida, mudei-me para Copacabana e, com o tempo, deixei de desfilar. Quando voltei a participar, ela havia mudado muito. Fora alguns dos velhos participantes -Albino, Jaguar, Sérgio Cabral-, a banda tinha sido tomada por outra turma, e à frente dela iam alegríssimos travestis, vindos talvez de outros Estados.

A banda crescera bastante, não conhecia quase ninguém, ou não encontrava os amigos em meio a tanta gente. Foi a última vez que desfilei.

Pois bem, acabo de ver na televisão a banda de hoje desfilando pela Vieira Souto, tomada por uma multidão, que mal conseguia caminhar quanto mais sambar. Coisa semelhante ocorre, agora, por toda a zona sul do Rio, do Jardim Botânico a Santa Tereza, de Botafogo à Cinelândia. São multidões que já não dançam nem cantam, puxadas por trios elétricos.

No sábado de Carnaval, aquilo que foi outrora o Cordão da Bola Preta tornara-se uma multidão que encheu a avenida Rio Branco, criando um sufoco: gente apavorada não conseguia sair dali, algumas moças desmaiaram e foram, a muito custo, resgatadas por policiais.

É, a vida muda e, às vezes, para pior.

DANUZA LEÃO

Não chore, Guilhermina

Ser rejeitado pelo Country é o castigo por querer pertencer ao clube mais gagá do Brasil

Passei a detestar clubes desde o dia em que, há muitos anos, presenciei uma conversa entre alguns sócios de um famoso clube do Rio, o Country. Nesse tempo a garotada tinha a mania de roubar carros, dar umas voltas no quarteirão e depois largá-los em qualquer lugar. Detalhe: não eram ladrões, apenas adolescentes brincando de transgredir.

Só que nesse dia a polícia viu, e foi atrás; os meninos, apavorados, entraram no estacionamento do Country (eram filhos de sócios), e a polícia foi atrás. O final dessa história não importa, mas nunca esqueci do que ouvi. Segundo esses sócios, a polícia não tinha o direito de entrar num clube privado, que tal? Foi a partir daí que comecei a detestar clubes e, mais ainda, os que ditam as regras dos clubes.

No Country é assim: a pessoa que pretende ser sócia, em primeiro lugar compra um título -entre R$ 500.000,00 e R$ 1.000.000,00; depois paga o mico de ter seu nome estampado num quadro, e se arrisca a pagar um mico ainda maior, o de não ser aceito (as famosas bolas pretas), e ter que fingir que nada aconteceu.

Ninguém jamais saberá porque a pessoa levou bola preta, e também jamais saberá quem deu a(s) bola(s) preta(s). Esse é um ato de covardia, e como no clube ninguém tem assunto, um prato para os sócios. O alvo predileto dos que votam costuma ser mulheres solteiras e bonitas; eles sabem, intuitivamente, que a elas jamais terão acesso. E tem o grupo das mulheres, que pressiona os maridos para votar contra, porque não querem no clube mulheres solteiras e bonitas, ai ai.

O Country é um clube decadente, frequentado por pessoas -excetuando algumas poucas- tão decadentes quanto. Gente que não tem coragem de se expor, e passa a vida almoçando, jantando, casando, traindo, roubando, dando pequenos golpes dentro da própria família, protegida pelas paredes do clube; lá tudo pode e tudo é perdoado, desde que aconteça entre os sócios. 

É como se fosse um país dentro de outro país, com um presidente, seus ministros, suas fronteiras, suas leis. Não sei onde tem mais mofo, se nos sofás ou nas cabeças desses frequentadores, que adoram seus privilégios: as piscinas, as quadras de tênis, a liberdade de assinar as notas para pagar no fim do mês -quando pagam.

Como os sócios estão, em boa parte, falidos, podem comer seu picadinho -ruim- lembrando dos velhos tempos. Bom mesmo vai ser no dia em que um deles escrever um livro contando as histórias do clube, que devem ser de arrepiar, mas vai ser difícil: quando você fica sócio, passa automaticamente a fazer parte de uma sociedade secreta, tipo uma máfia, onde a ormetà (voto de silêncio) é sagrada. Tudo pode -e põe tudo nisso-, desde que seja só entre eles.

Logo que cheguei de férias soube do affair Guilhermina Guinle, que tentou ser sócia do clube mas foi bombardeada por bolas pretas. Pensei, pensei, e não entendi. Por que uma mulher bonita, charmosa, rica, de sucesso, quer ser sócia do Country? E pensei que, como todos os que já receberam as tais bolas pretas, ela mereceu: é o castigo de querer pertencer ao clube mais gagá do Brasil.

Dá para entender que uma pessoa pague uma fortuna pelo título de um clube em que alguns poucos vão decidir se ela pode frequentá-lo? E é possível alguém querer frequentar um lugar em que é preciso pedir licença para entrar, e essa permissão ser dada -ou não- por um pequeno grupo cujo momento de gloria é a reunião do clube, onde podem dar vazão às suas frustrações e se vingar da vida? Não dá para entender mes-mo.

Aliás, seria uma boa ideia desapropriar aquele belo terreno que dá frente para a av. Vieira Souto e fazer ali um jardim público onde os atuais sócios poderiam ir dar seus passeios e falar mal da vida dos outros, sem pagar um só tostão.

O papa se demitiu, os meteoros estão caindo, o mundo se acabando, e o Country continua acreditando em suas bolas pretas. É de chorar.

CARLOS HEITOR CONY

Receita para matar a fome

RIO DE JANEIRO - E assim se passaram dez anos com o PT no poder. Logo no início, quando tomou posse no primeiro mandato, Lula lançou o Fome Zero. Não sei se acabou com a fome, o fato é que dona Dilma quer acabar com a miséria. Faço votos.

Em espírito de colaboração, tomo a liberdade de lembrar um projeto lançado por Jonathan Swift (1667-1745), autor de "As Viagens de Gulliver", doutor em teologia e deão da catedral de St. Patrick.

Preocupado com a fome em algumas regiões da Irlanda, em 1729 escreveu o ensaio "Modesta Proposta para Impedir que os Filhos dos Pobres na Irlanda Pesem sobre seus Pais ou sobre o País, tornando-se Úteis ao Público".

E deu algumas receitas: "Uma criança sadia, bem nutrida é, na idade de um ano, uma nutrição deliciosa, substancial e sã, assada ou cozida, ensopada ou ao forno, podendo ser servida como fricassé ou ragoût. (...) As mães darão de mamar com fartura no último mês, de modo a ficarem carnosos e gordos.

Um menino daria dois pratos em um almoço de amigos; quando a família janta só, a metade dianteira ou traseira daria um prato razoável, temperado com um pouco de pimenta e sal. Em média, um menino que pese 12 libras ao nascer pode, em um ano, se é passavelmente nutrido, atingir 28 libras".

Para confirmar suas preocupações com o problema da fome em seu tempo e em sua cidade, Swift legou todos os seus bens para uma instituição fundada por ele, que abrigava mendigos e loucos.

Na primeira viagem a Lilliput, habitada por pigmeus, Gulliver apaga um incêndio no Palácio Real sem necessidade de chamar o Corpo de Bombeiros. Ele urina em cima das chamas e salva o palácio. Com anos de antecedência, Gulliver dá uma lição aos cariocas que desperdiçam o chamado precioso líquido fazendo da cidade um imenso mictório.

ELIANE CANTANHÊDE

Vai um cafezinho aí?

BRASÍLIA - Imagino o que você, médico (a), engenheiro (a), professor (a) ou arquiteto (a) do serviço público, por concurso, sente ao saber que, no Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), funcionários com o quarto ano do ensino fundamental podem receber até R$ 12.820,51 e os de nível médio, até R$ 19.115,36.

Não sabia? Pois fique sabendo. A mamata é resultado de uma lei local promulgada em 2 de janeiro, pela qual mais da metade dos servidores do tribunal pode ganhar igual aos ministros do Supremo e à presidente da República.

Mas o pior é o que devem sentir os aposentados do INSS. Ou os que pagam impostos -e, portanto, os salários do serviço público. Ou, pior ainda, a grande maioria de brasileiros que não têm alternativa senão recorrer a hospitais e escolas públicas, onde jogam sua vida e o destino dos seus filhos nas mãos de profissionais muitas vezes esfolados por baixas remunerações, altas responsabilidades e estímulo zero.

Em vez de atender pacientes, que tal servir cafezinho? Com todo o respeito a copeiras, ascensoristas, porteiros e motoristas, não parece justo que eles, com o ensino fundamental, ganhem duas, três, quatro vezes mais do que quem ralou no ensino médio, no ensino superior, às vezes até com mestrado ou doutorado, e também trabalha no Executivo, no Legislativo ou no Judiciário.

Alguma coisa está errada, em meio a tanta coisa que continua tão errada. Mas, nesse caso, com uma particularidade que oscila entre ironia e deboche: os Tribunais de Contas, como o próprio nome já diz, existem exatamente para zelar pelo bom uso do dinheiro público e apontar desperdícios e superfaturamentos.

Se um Tribunal de Contas é o primeiro a dar mau exemplo, a garantir desperdício e a permitir superfaturamento de salários pagos pelo público, a quem se queixar?

"Ao papa!", dirão os empanturrados de ira e descrença. Mas nem isso. O papa renunciou, 

sábado, 23 de fevereiro de 2013



24 de fevereiro de 2013 | N° 17353
MARTHA MEDEIROS

Afinados

Uma vez, em uma conversa entre amigos, alguém comentou que jamais conseguiria casar com quem ouvisse Celine Dion. Casar? Eu não conseguiria pegar uma carona com alguém que ouvisse Celine Dion, retruquei, exagerando. E foi nesse tom de brincadeira que continuamos falando sobre nossos eu nunca poderia me relacionar com alguém que....

Puro blábláblá, pois, na hora em que a paixão se apresenta, nossos gostos se adaptam rapidinho, e a gente se pega dançando forró quando queria mesmo era estar num show do Pearl Jam. Ainda assim, essa questão de ter afinidade musical não é absolutamente tola. Gostar de gêneros musicais diferentes não impede um relacionamento, mas, quando há compatibilidade, dois amantes evoluem e transformam-se em dois cúmplices.

Tudo porque a música não é uma forma de ocupar o silêncio, simplesmente. Ela provoca uma experiência física e sensorial. Ela vai buscar você onde você se esconde. E compartilhar isso com quem amamos é roçar no sublime.

Se aquilo que gosto de ouvir estimula as mesmas sensações em quem convive comigo, cria-se um diálogo sem palavras, à prova de mal-entendidos. A música invade e captura o que há de melhor em nós, nossa essência primeira, a que não foi corrompida por racionalizações. E essa sensibilidade refinada, ao ser despertada simultaneamente em um homem e em uma mulher (ou numa plateia inteira, no caso de um espetáculo) gera uma comunhão tão rara quanto mágica.

Muitos filmes já demonstraram como a música pode ser um fator de aproximação entre casais. Para citar dois que concorrem ao Oscar neste domingo, no belíssimo Amor, os protagonistas idosos não eram apaixonados apenas um pelo outro, mas igualmente por música erudita, o que reforçava o laço.

Em O Lado Bom da Vida, duas vítimas de perturbações psíquicas encontram uma forma de serenizar sua ansiedade descontrolada através da dança, fazendo com que seus corpos obedeçam a um ritmo, e sua alma também. A música facilita que identifiquemos um “igual”, ou alguém razoavelmente parecido conosco. E ajuda a fazer esse encontro perdurar.

Não que tenha sido descoberta a fórmula do sucesso das relações – elas se desfazem, mesmo quando há gostos afins.

Mas, entre os momentos que ficarão na lembrança, estarão aqueles em que ambos sabiam com certeza o que o outro estava sentindo quando conectados pela música, uma música que, às vezes, nem estava sendo tocada, mas escutada por dentro, como na hora exata do parto do filho, em que se ouve internamente uma orquestra, ou na hora da decolagem de um voo, quando se ouve internamente uma ópera, ou durante o primeiro beijo, quando se ouve internamente... sinos? Humm, eu escolheria uma trilha sonora menos óbvia, mais inspiradora.

Coisa mais triste quando, ao recordar um amor, a gente tenta lembrar: qual era a nossa música? E não havia.


24 de fevereiro de 2013 | N° 17353
ARTIGOS -Diana Lichtenstein Corso*

Sede de vingança

Não mais nos reunimos em praça pública para ver a cabeça dos culpados rolar ou pender. Mas, sempre que possível, fazemos isso no noticiário e, principalmente, nos cinemas. Nos antigos filmes de caubói, um catártico tiroteio garantia a punição dos bandidos e a saída incólume do herói.

Duros de matar, esses homens a cavalo foram logo substituídos por policiais igualmente solitários. Final feliz requer o chão coberto de corpos dos maus. Em Django Livre, como já fizera em Bastardos Inglórios e em Kill Bill, o diretor Quentin Tarantino arma seu roteiro a partir da nossa sede de vingança contra escravocratas, nazistas e machistas violentos.

Sou uma vingativa confessa, quero ver sangue. Mas fique tranquilo, no sentido figurado. Nada de pena de morte e torturas. Sei que a civilização começou quando alguém abriu mão da retaliação. Na vida real, a morte só deve ocorrer quando inevitável. Porém exorcizo minhas pendências na ficção. Da II Guerra, onde meus antepassados e parentes foram assassinados, gosto de lembrar que existiu o Levante do Gueto de Varsóvia. Como eles, se fosse para morrer, gostaria de levar pelo menos um nazista comigo. Na fantasia sempre somos mais corajosos.

A vingança, seja histórica ou pessoal, funciona de forma parecida com o fim litigioso de um relacionamento amoroso. Sejamos sinceros, não queremos que o outro seja feliz, lhe desejamos a morte lenta e o ostracismo. Todo mundo sabe que odiar é outra forma de amar, às avessas, que o oposto do amor é a indiferença, que o melhor troco é ignorar, genuinamente. Mas isso leva muito tempo para ser possível e mesmo assim sofremos recaídas. A dor deixa cicatrizes e elas são lembretes lavrados na pele, para sempre.

Os protagonistas dos filmes de Tarantino carregam essa insígnia, assim como os judeus tatuados, os escravos marcados, o mesmo ocorre com o maior vilão nazista em Bastardos. Há coisas que não são passíveis de um desfecho elegante, como seria a superação. Nem tudo se consegue esquecer, mesmo porque precisamos garantir que nunca se repita.

Questiona-se a cantilena de afrodescendentes e judeus que estão sempre na defesa e não perdoam os maus-tratos sofridos. Em parte, ela é necessária: preconceitos estão sempre ressurgindo, é preciso ficar em guarda. Porém, nem os descendentes de alemães nem os brancos da atualidade têm culpa pelos absurdos cometidos pelos seus antepassados.

O que fazer, então, com os restos desse ódio vingativo? Tratá-los com o mesmo preconceito que se sofreu seria indigno, igualmente vergonhoso. Mas como conviver com as cicatrizes que latejam, a mágoa que espreita pronta para pular sobre nós, a autocomiseração, que pode não nos orgulhar, mas compõe nosso lado sombrio?

Depurá-lo no cinema é uma forma de eliminar o excesso. É uma sangria do despeito, da tristeza, que permite manter o fluxo da civilidade. Não somos, nem nunca seremos, totalmente civilizados. Potencialmente, somos tanto algozes quanto vítimas vingativas. Haja matinê!

*PSICANALISTA


24 de fevereiro de 2013 | N° 17353
PAULO SANT’ANA

Violência policial-militar

Uma arbitrariedade policial-militar atingiu minha família, às 19h10min da última quarta-feira. Minha mulher estava em companhia de seu sobrinho, trabalhador com 34 anos, nas imediações da Travessa Outeiro com Rua Volta da Cobra, no Partenon.

Preparava-se para entrar no seu carro quando de uma viatura da BM desceram três brigadianos em serviço, entre eles uma policial feminina. A policial feminina revistou detida e asperamente a bolsa da minha mulher. E o aparente chefe da patrulha, um PM loiro, ao ouvir as razões da minha mulher, que, por sinal, é negra, disse a ela “Tu tens é que te f...”, acrescentando “tu tinhas é que estar lavando louça”, num subjetivo rompante racista.

É bom lembrar que os três integrantes da patrulha já chegaram perante minha mulher de armas pesadas em punho. Minha mulher refere que eram metralhadoras, mas deviam ser fuzis.

A seguir, sem nenhum motivo, o policial loiro desferiu um chute violento na perna aleijada por cirurgia vascular do sobrinho da minha mulher.

Temos então no caso dois tipos de violência, o psicológico-moral que sofreu minha mulher e o de violência física no chute que sofreu o sobrinho dela.

Minha mulher chegou em casa aos prantos. Entrei em contato por telefone com o alto-comando da BM. Por sinal, fui atendido gentil e exemplarmente pelo coronel Silanus e pelo tenente-coronel Vasconcelos.

Foi então que pedi só uma coisa ao oficial Vasconcelos: que eu e minha mulher fôssemos levados até diante dos três policiais que inventaram a revista, que eu queria dizer, olhos nos olhos com o policial loiro, o seguinte: “Parem de cometer essas tropelias. Os senhores são servidores dos cidadãos e não seus algozes. Parem com essa violência nas revistas pessoais, imaginem o que vocês não fazem em ocorrências mais sérias. Parem!”.

O tenente-coronel Vasconcelos concordou que no dia seguinte eu e minha mulher fôssemos até a Ouvidoria da BM e que eu me defrontasse com o loiro agressor e minha mulher prestasse queixa.

Uma hora depois, o oficial Vasconcelos me disse que o canal superior a si tinha decidido que minha mulher poderia prestar a queixa, mas que eu não poderia ficar frente a frente com o policial agressor.

Foi quando eu, desanimado, agradeci por tudo e disse ao coronel que, se não podia olhar nos olhos do agressor da minha mulher e do sobrinho dela, então eu desistia de tudo, porque vai dar em nada mesmo.

Mais uma grave violência sofrida cotidianamente pela população vai restar impune. Eu podia, aqui por esta coluna, baixar a crítica em cima da Brigada Militar, assim em comoção como estou.

Mas não vou fazê-lo, eu seria injusto. É que a tarefa policial deriva de Deus, igual à tarefa da medicina. E essa tropelia que cometeram contra minha mulher é uma prova de que assim é a sorte das coisas divinas em mãos humanas.

Mas o secretário da Segurança Pública e o governador, se dignarem-se a tomar atenção por esse fato, haverão de por alguma forma atenuar a onda de violência arbitrária cometida por esses esbirros e beleguins contra a indefesa população.

Se assim agem contra uma dona de casa e seu sobrinho, pensem no que têm feito de violência a torto e a direito por aí, todos os dias. Todos os dias.

Cumpro reconhecer que os patrulheiros da BM são instruídos por seus superiores para se tornarem cordiais, polidos e educados quando das abordagens aos cidadãos nas ruas. E que uma parte deles obedece a essas instruções. Só a parte ruim desobedece.


24 de fevereiro de 2013 | N° 17353
QUASE PERFEITO | FABRÍCIO CARPINEJAR

Veterano da despedida

“Estava namorando há quase sete meses com uma mulher que não achamos tão fácil por aí. Eu sou mais emotivo do que ela. Gosto de abraçar, beijar, ficar junto, porém ela não é assim. Terminamos no final de semana. Na verdade, ela me deu um pé na bunda por incompatibilidade de gênios. Queria que me ajudasse, pois agora ela está pedindo pra voltar. Ela me magoou muito, e não gosto mais dela como antes. Estou indeciso porque já tive outro relacionamento em que terminei com a minha ex oito vezes. Foi um inferno, e eu não quero que isso se repita. Obrigado desde já, Rafael”

Querido Rafael,

Você adora discutir o relacionamento, acredito que se sente valorizado na hora de brigar (tanto quanto no sexo).

Toda briga engrandece seu passe. Com uma discussão de relacionamento, temos o poder de terminar ou reatar. Há uma adrenalina na gritaria, feita de reinícios, reprises, acusações, defesas, beijos com gosto de lágrima e ecos intermináveis.

Julgar o outro sempre é uma forma de se perdoar e se elogiar. Ela é fria, e, portanto, você é quente. Ela não abraça, não beija muito, não se derrete, portanto, você é que oferece afeto e não é reconhecido.

Entende? Você é o certo, e, portanto, ela é errada. Você é o santo, e, portanto, ela é o monstro insensível. O maniqueísmo destrói afetos.

Não deve ser bem assim o romance. Precisamos dar um desconto, concorda?

A cobrança é uma competição oculta. Fomenta uma rivalidade difícil de controlar. Espera o erro dela para logo denunciar, ela espera sua denúncia para logo pedir as contas, e assim os humores se esgotam com rapidez.

Você terminou oito vezes seguidas com a ex. O que me sugere que o barraqueiro é você, não a atual namorada. Não vem dizer que discute porque não tem saída, a discussão é sempre a sua saída.

Por algum motivo, carrega a suspeita de que ninguém é capaz de amá-lo sinceramente. Talvez você se ache feio, ou com pouca experiência, ou em desvalia financeira. A DR serve para testar o amor de sua companhia. As conversas sérias são maneiras de examinar se ela realmente terá paciência para conviver e quais as verdadeiras intenções. Abre um inquérito das últimas declarações com o claro objetivo de desmascarar suas pretendentes.

Diz que não gosta tanto dela como antes porque simplesmente frustrou seu plano, desistiu de brigar e rompeu o namoro. Não tolerou o permanente ataque de nervos por melhores condições e caiu fora. Você ficou falando sozinho.

Ela não foi aprovada no grande concurso público de suportar suas ofensas até o fim. Alguém suportaria?

É impossível conviver com o inimigo. Mude de lado, por favor.


24 de fevereiro de 2013 | N° 17353
VERISSIMO

Quarteto

Senhoras e senhores, obrigado. Antes de mais nada, quero pedir desculpas pelo atraso. Tivemos um pequeno problema nos bastidores, um desentendimento, e o resultado é o que veem aqui no palco, um quarteto de cordas reduzido a dois.

Nosso violoncelista não concordou com a mudança do programa de hoje, parte do meu projeto de popularização da música de câmara, com a substituição do quarteto número 8 em si menor, Opus 59 de Beethoven, por um arranjo para cordas de Ai, se Eu te Pego, e se recusou a entrar no palco.

O mesmo aconteceu com nosso segundo violino, que também não concordou com a mudança e está neste momento a caminho de um hospital. Respeito democraticamente o direito de todos de discordarem de mim, apesar de ser o líder do grupo, mas não admito que insultem a minha mãe. No fundo, o que se discute é a adaptação da música erudita aos tempos modernos, já que o público para os clássicos tem diminuído assustadoramente e é preciso reagir.

Os acontecimentos desta noite são apenas o, digamos assim, ápice – a erupção do furúnculo, se me permitem uma imagem nojenta – de uma situação que se prolonga desde que eu expus ao grupo meu plano para a renovação do nosso repertório e das nossas apresentações.

Já tinha havido resistência à minha ideia de entrarmos os quatro no palco de bicicleta, com máscaras de macacos. Ninguém se manifestou então, mas sei que houve descontentamento e que começou uma campanha para me desmoralizar, inclusive me chamando de louco pelas costas. Houve até o acidente do violoncelo que caiu na minha cabeça, que o violoncelista jurou ter sido mesmo um acidente, o que não explica o fato de ele estar segurando seu instrumento como um tacape.

Também foi mal recebido meu convite para a Ivete Sangalo dar uma canja conosco, tocando o instrumento que quisesse no quarteto número 14 em sol maior de Mozart, desde que mostrasse as pernas. Mas não tínhamos tido um motim até esta noite.

De certa forma, foi bom que isso acontecesse. Pelo menos, as coisas agora estão às claras, as posições estão definidas e estamos livres de mesquinharias como a de espalharem o boato de que eu toco com playback enquanto os outros três tocam ao vivo, e de minha suposta opção sexual pelo bestialismo, com preferência por galinhas.

Também acabam as frases desaforadas e as ameaças escritas nas minhas partituras. Quero agradecer de público o nosso violista – palmas para ele, por favor – que permaneceu fiel e está aqui no palco comigo. Sua lealdade se deve ao seu bom caráter e ao fato de que, com a ausência dos outros, a renda do concerto desta noite será dividida por dois e não por quatro, como acontece normalmente, e ele estar comprando uma lavadora.

Enfim, senhoras e senhores, obrigado pela sua paciência. As outras modificações no programa são menores. O Dvorak será tocado com ritmo de axé e reservamos uma surpresa para o final, quando receberemos no palco Ernani, o cachorro cantor, que se juntará a nós no Vivaldi. E vocês devem ter notado que tanto eu quanto o violista estamos nus, o que acrescenta um toque naturalista à nossa apresentação, em contraste com o costumeiro formalismo dos quartetos de cordas, que ninguém aguenta mais.

Então, vamos lá. Ai, se Eu te Pego.

FLÁVIA YURI OSHIMA

Não estresse: você tem mais tempo do que pensa

Um novo livro ensina a usá-lo bem – sem estresse nem ansiedade

Se seu dia está curto demais para tantas tarefas, há uma solução simples, embora de aplicação difícil: mude-se para Vênus. Lá, o dia dura 243 vezes a duração do dia na Terra – é o tempo que o planeta demora para dar a volta sobre seu próprio eixo. Imagine só.

Daria para trabalhar, pegar um cineminha, encontrar os amigos, cuidar do cachorro, levar os filhos à escola, tirar uma soneca depois do almoço, ler um livro, assistir à sessão da tarde na TV... Deve ser por isso que nunca se viu um venusiano reclamar de estresse.

Diante das 5.832 horas do dia de Vênus, é compreensível que os terráqueos se queixem tanto de seus dias de 24 horas. Segundo a escritora americana Laura Vanderkam, porém, reclamamos de barriga cheia. Seu livro 168 hours. You have more time than you think (168 horas. Você tem mais tempo do que pensa), ainda não lançado no Brasil, tornou-se best-seller defendendo duas teses incomuns em obras sobre organização do tempo. A primeira é que somos bem menos ocupados do que imaginamos. A segunda é que a melhor maneira de aproveitar bem o tempo é não se preocupar tanto assim com ele.
>>A doença da pressa

Nossa vida é tão corrida que livros sobre como administrar o tempo se tornaram um gênero à parte nos últimos anos (leia a lista abaixo). Em geral, eles partem de uma premissa: o dia é curto para tantas tarefas. A melhor maneira de lidar com isso, segundo eles, é preenchê-lo como os hotéis ocupam suas vagas na alta temporada.

De forma rigorosa, cumprindo todas as tarefas de trabalho sem procrastinar e planejando o tempo restante para aproveitar cada segundo com a família, ou aprendendo um hobby, ou praticando esportes. O resultado desse planejamento rigoroso é, muitas vezes, mais estresse – pois mesmo as atividades prazerosas descritas acima acabam se transformando numa lista de tarefas.

Laura Vanderkam vai contra essa corrente tarefeira. Ela começa por verificar, de forma empírica, que a premissa segundo a qual temos pouco tempo não é verdadeira. Para isso, ela recorre a dois tipos de pesquisa. A primeira é feita pelo governo americano. Há 40 anos ele faz um estudo chamado Pesquisa sobre Uso do Tempo (Atus, na sigla em inglês). 

A outra fonte são universidades que fazem o mesmo tipo de levantamento. Em geral, os métodos são parecidos. Milhares de participantes mantêm um diário do que fazem a cada hora – como o sistema de cobrança de horas de advogados. É comum os relatórios chegarem com registros que, somados, formam um dia de 28 ou 29 horas. A conclusão é simples: achamos que gastamos mais horas do que realmente gastamos nas atividades do dia a dia.

Como tocar seu plano B sem descuidar da atividade principal

Essa conclusão é reforçada quando a cotejamos com outras estatísticas. Elas não estão disponíveis para o Brasil, mas nosso comportamento não está tão distante do americano. Nos Estados Unidos, o sono continua durando em média oito horas por noite, como há 40 anos. Mesmo mães de crianças com idade abaixo de 6 anos dormem entre 8h6min e 8h31min.

O Centro de Políticas para Trabalho e Vida dos Estados Unidos diz que apenas 1% da população tem trabalhos de carga extrema – como são chamados os empregos que demandam mais de 60 horas de trabalho por semana.

Em média, o americano que tem filhos, mesmo reclamando de sobrecarga, trabalha tanto quanto o personagem da série dos anos 1940 Papai sabe tudo (aquele que chegava cedo em casa, jogava o chapéu no mancebo e dizia: “Querida, cheguei!”) – entre 35 e 43 horas por semana. Dados da Universidade de Maryland, que faz o mesmo levantamento há 20 anos, mostram que aqueles que dizem trabalhar entre 60 e 69 horas por semana trabalham, na verdade, cerca de 53 horas. Quem diz ficar entre 70 e 80 horas na labuta raramente chega ao teto das 60 horas.

Dado que temos mais tempo do que pensamos, como aproveitá-lo melhor? Como fugir da armadilha da lista de tarefas que transforma os momentos de lazer em obrigação? A resposta de Laura Vanderkam está no título de seu livro: 168 horas. O número é o produto das 24 horas do dia pelos sete dias da semana.

Este é seu ovo de Colombo: Laura sugere que planejemos a semana, não o dia. Em vez de uma lista rígida de afazeres cronometrados, teremos um elenco de prioridades que podem ser espalhados, maleavelmente, ao longo de sete dias. Numa lista rígida de tarefas, ficamos frustrados quando não conseguimos realizar uma. Num cronograma flexível, temos os seis dias restantes da semana para acomodar o que ainda não foi feito. Dito assim parece simples. Na prática, montar uma estratégia de bom uso do tempo exige reflexão, coragem e autoconhecimento.



23 de fevereiro de 2013 | N° 17352
NILSON SOUZA

Sala dos adjetivos

O homem da feira ecológica que frequento aos sábados, que sabe do meu ofício por ouvir falar, me pergunta como é uma redação de jornal. Primeiro apelo para o humor autodepreciativo:

– Sabe um hospício?

Logo percebo que ele não acha graça e também me dou conta de que não estou sendo politicamente correto. Então, vou para a comparação.

– É como esta feira. Temos as nossas bancas que chamamos de editorias, todas interligadas para que o cliente saia satisfeito com o seu cesto de notícias fresquinhas e de qualidade.

E explico que repórteres, fotógrafos, redatores, revisores, editores e diagramadores trabalham em grupos direcionados para áreas específicas, embora todos sejam movidos pelo mesmo combustível do jornalismo. Conto que temos editorias de Política, Economia, Esporte, Geral, Mundo, Variedades, Cultura, Opinião, Fotografia, Arte, Diagramação e outros núcleos voltados para cadernos e seções especiais. Como o homem não parece estar distinguindo banana de berinjela, tento traduzir.

A editoria de Política é uma espécie de garimpo da verdade – uma incessante e laboriosa busca de quase inexistentes pedras preciosas em meio ao cascalho da disputa pelo poder. A Economia lida com cifras e negócios, explica, por exemplo, por que os preços da feira variam de sábado para sábado, pois seu principal foco são as pessoas por trás dos números.

O Esporte, como bem definiu um veterano da minha profissão, é a editoria da paixão – onde se processa a alquimia diária de transformar o fanatismo em objetividade. A Geral, já diz o nome, é como aqueles armazéns antigos de secos e molhados – tem de tudo, faz tudo, e o freguês sai sempre satisfeito. Mundo, vasto mundo, vai do asteroide ao Papa – e se ele se chamasse Raimundo seria uma rima, jamais uma solução para os dilemas da religião. Arte, cinema, literatura – tudo que alimenta o espírito e encanta a alma é tratado pelo pessoal do Segundo Caderno e suas sucursais, sempre com requinte e elegância.

E chegamos ao meu chão, que é a editoria de Opinião. Ocupamos, eu e meus colegas de juntar letrinhas, a sala dos adjetivos – um depósito de munições gramaticais que podem ser utilizadas para criticar, elogiar, reivindicar, defender e acusar. Quanta responsabilidade!

Meus colegas da Fotografia capturam imagens que valem por milhões de palavras, produzem e editam vídeos que são verdadeiros curtas-metragens do cotidiano. Na Arte, estão os artistas, ilustradores, chargistas e produtores de infográficos, que facilitam o entendimento de qualquer complexidade. Os diagramadores botam ordem na casa, juntam as peças do quebra-cabeça e dão um formato harmônico e compreensível ao cesto de frutas, verduras e hortaliças do jornal impresso ou virtual.

Em meio a tudo isso, ainda há espaço para as sempre oportunas mensagens dos leitores, para os engenhosos artigos dos colaboradores, para a infalível previsão do tempo, para o saboroso almanaque do passado, para divertidos quadrinhos, para os inteligentes colunistas e até mesmo para as generosas biografias dos que já não mais as poderão ler.

A Redação, senhor feirante, é como o seu universo de barracas interligadas – com diligentes trabalhadores oferecendo fatos recém-colhidos para o atencioso público.

Os adjetivos, como pode ver, são a oferta do dia.


23 de fevereiro de 2013 | N° 17352
PAULO SANT’ANA

O tempo de meu pai

Nunca me sai da lembrança aquele dia em que fui até o cemitério para assistir ao cadáver de meu pai, entre quatro velas de cera.

Pensei comigo, por mais que meu pai me tenha maltratado, o que seria de mim sem ele.

Era estranho o que eu sentia. De certo modo, eu me sentia libertado dos maus-tratos que ele me infligira durante toda a minha infância e adolescência. Por outro lado, a dependência que sentia por ele me jogava num destino incerto.

E dali a pouco meu pai desceria para a sepultura. Seu fêmur, suas vísceras, seus maxilares, seus rins e seu coração estariam cobertos pela terra e os vermes o devorariam.

Eu estava pensando nisso porque no tempo de meu pai não havia tantos assaltos e crimes outros em nosso meio. Eram três ou quatro assaltos por ano em Porto Alegre, imaginem.

O que acontecia todos os dias eram batedores de carteiras que atacavam nos bondes principalmente, nos ônibus raramente. Nas calçadas das casas da Cidade Baixa e de outros bairros, as pessoas deitavam-se em cadeiras preguiçosas, nas praças havia o bulício da criançada conduzida por seus pais.

Não havia qualquer risco em deixar as portas e as janelas das casas abertas. De ladrão, não se ouvia quase falar. Nunca também se ouvira falar naquele tempo, quase nunca, em um assalto a banco ou a restaurante.

E, no tempo de meu pai, como era o trânsito da cidade, hein? Olhem, podiam ser vistas nas ruas charretes sendo puxadas por cavalos e carroças por burros.

Era quase bucólica a paisagem da cidade. Em muitos bairros da Capital, havia imensos campos com bois pastando e muitas criações de porcos. Porto Alegre apenas engatinhava no rumo de vir a ser uma metrópole.

Essas eram as coisas boas da cidade. Mas havia as ruins. A cidade era infestada de mosquitos, uma praga. Uma vez apareceu por aqui o saudoso secretário da Saúde Lamaison Porto, que se encarregou de combater a praga dos mosquitos. Não era moleza enfrentar à noite os mosquitos, eles infernizavam o sono dos habitantes.E havia também espalhados e encravados nas casas os percevejos, um inseto asqueroso. Pois nunca mais ouvi falar de percevejos em Porto Alegre. A praga foi debelada.

E só de vez em quando surge lá pela minha casa um bandinho de mosquitos: o ar condicionado liquidou de vez com os mosquitos. Ratos? Ouvia-se falar muito mais de ratos naquele tempo. Por sinal, não havia residência que não tivesse ratos. Eram uma festa para os gatos.

A saúde pública teve grandes avanços a partir do tempo de meu pai. Hoje, por exemplo, não ouço mais falar nem leio pelos jornais sobre a lepra. E, antigamente, a lepra era temível. Havia um leprosário em Itapuã, zona sul aqui de Porto Alegre, que era mais temido que a Casa de Correção, o Presídio Central daquele tempo.

Havia muita coisa melhor do que hoje no tempo de meu pai. Mas havia também muita coisa pior.

No balanço geral, o progresso foi bom e foi ruim para nós. Mas a vida precisa andar e faz-se imprescindível o progresso. Se bem que ele tirou um pouco do valor da inocência e da poesia.


23 de fevereiro de 2013 | N° 17352
CELSO GUTFREIND

A favor da insônia

Precisamos dormir. Privar-se de sono é tortura. Dormindo, as crianças crescem. Os adultos se recuperam. Todos são a favor do sono, inclusive a medicina, com seu arsenal. Remédios para dormir representam uma fatia enorme do mercado. A ciência a ampara, o repouso agradece. Sonhar é fundamental. Só não sou contra a insônia. Tentei encontrar aliados e achei um. O Chico Buarque. Ele canta: Preciso não dormir/ Até se consumar/ O tempo da gente.

Tentei convencer alguns insones, mas não fui muito feliz. Cheguei a cantarolar a segunda estrofe: Preciso conduzir,/ Um tempo de te amar,/ Te amando devagar e urgentemente. Desafinei, vai ver foi isso. Mas o corpo é sábio. Ao inventar diarreia ou vômito, precisa devolver o que lhe fez mal. Ao doer, sinaliza as providências necessárias. Com a insônia, também.

Todas as histórias são de amor, disse o Mario Quintana. Ele estava acordado. Eu o parodio sem sonolência: todas as insônias são de amor. Se o corpo não dorme, é porque a alma espera descobrir por quê. Pode ser o sentimento por alguém. Ou por uma causa cuja consequência ultrapassou os limites da tolerância. Na vigília, a insônia solicita medidas. O Chico concorda: Pretendo descobrir/ No último momento/ Um tempo que refaz o que desfez,/ Que recolhe todo sentimento/ E bota no corpo outra vez.

Entregar-se ao sono forçado pelo sonífero pode, no último momento, não descobrir o que desfez. Um corpo não dorme. A alma, sim. Como devolver a alma ao corpo? Como refazer? Neste caso, sou contra o sono. E a favor da insônia. Só não insisto. Insistir, radicalmente, pode não ser uma boa. O radicalismo nunca é bom, mas dizer “nunca” pode, às vezes, ser radical. O Chico sabe disso: Prometo te querer/ Até o amor cair/ Doente, doente.../ Prefiro, então, partir/ A tempo de poder/ A gente se desvencilhar da gente.

Não se pode exigir demais do corpo. Ele fica enfermo. Melhor, então, dormir, nem que à base de medicação. O diabo é que a droga remenda furo, tapa buraco, não resolve. Por isso, recomendo: corpo e alma sabem o que fazem ao fazer a insônia. Ela veio para refazer o afeto. Se puder ser enfrentada, oferece a chance verdadeira e única de restabelecê-lo. De esquecer. Lembrar. Renovar. Sejamos claros com as noites em claro. Estamos falando de amor, ou seja, achar, perder, guardar. O Chico, desperto, concorda: Depois de te perder/ Te encontro com certeza,/ Talvez num tempo da delicadeza,/ Onde não diremos nada;/ Nada aconteceu.

Nada aconteceu, além da insônia. Com sua pacienciosa abertura de espaço para descobrir onde o amor tropeçou. Para reerguer a parte mais preciosa da canção e, afinado com ela, apenas seguir como encantado ao lado teu.

Cláudia Laitano está em férias e retorna no dia 2 de março


23 de fevereiro de 2013 | N° 17352
BOA FORMA

Sedentarismo de academia

Mais do que praticar exercícios físicos, para garantir a boa forma é preciso manter-se ativo o dia inteiro

Você seguiu direitinho as recomendações do médico (e da Organização Mundial de Saúde): 30 minutos de exercícios físicos por dia, de segunda a sexta. Está satisfeito consigo mesmo, com a saúde garantida, correto? Não completamente.

Um estudo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) começa a indicar que uma pessoa que se exercita apenas poucos minutos e passa o resto do dia sentada ou envolvida em atividades que não demandam muito movimento tem a mesma condição de saúde de alguém que não faz exercício nenhum, mas fica zanzando de um lado para o outro o dia todo.

Até 10 anos atrás, os cientistas se fixavam somente nos benefícios do tempo do exercício físico – aquele vôlei, futebol, academia, corrida e caminhada, todos esportes de grande intensidade, mas que consomem somente de 5% a 8% do tempo que uma pessoa passa acordada.

No entanto, a boa forma também resulta das atividades corriqueiras do dia a dia: cozinhar, passear com o cachorro, se levantar da mesa do trabalho para pegar um cafezinho, caminhar até a padaria para comprar pão etc.

Na última década, países como Austrália, Estados Unidos e Inglaterra têm fixado sua atenção ao que as pessoas fazem nas horas em que não praticam esportes. No Brasil, há alguns estudos que relatam o tempo que adolescentes ficam na frente do computador, da TV e do videogame, mas ainda não havia um perfil completo sobre como as pessoas se movimentam rotineiramente nos seus deslocamentos, no lazer, no trabalho e na escola.

Em dissertação de mestrado, Grégore Mielke, pesquisador do comportamento sedentário da UFPel, apresentou um estudo feito com quase 3 mil moradores de Pelotas, mas aplicável a outras cidades de médio porte. Os resultados são surpreendentes: um quarto dos entrevistados fica mais de oito horas e 10% passam 12 horas ou mais por dia sentados. E quanto mais velha for a pessoa, menor será o comportamento sedentário.

O próprio conceito de sedentarismo muda, avalia Mielke:

– É possível que uma pessoa pratique muita atividade física, mas seja sedentária se ficar sentada na maior parte do tempo, sem se movimentar e só se exercitar meia hora por dia. E isso pode se reverter em uma pior condição de saúde.

Sedentarismo, portanto, significa se movimentar pouco durante o dia. E outra coisa, bem diferente, é ser fisicamente ativo. Assim, Mielke dividiu os entrevistados em quatro grupos:

1. Fisicamente ativos e não sedentários

2. Fisicamente ativos e sedentários

3. Fisicamente inativos e não sedentários

4. Fisicamente inativos e sedentários.

Integrantes dos grupos 2 e 3 teriam os mesmos gastos energéticos durante o dia. Mas antes de cancelar a academia, preste atenção ao que diz Mielke:

– Gosto de fazer uma analogia: comer muita fruta ou verdura não anula os efeitos de comer muita gordura. O que eu quero dizer com isso é que os caminhos metabólicos para o gasto energético são diferentes e não se deve abandonar nenhum hábito saudável para o organismo. O problema é que se tomou que 30 minutos de atividade física seriam uma cápsula de saúde e a pessoa não precisaria fazer mais nada. E isso não é verdade.

julia.otero@zerohora.com.br


23 de fevereiro de 2013 | N° 17352
PALAVRA DE MÉDICO | J.J. Camargo

O encanto da descoberta

Com turma nova sempre há uma certa inquietude no ar. Não importa quantas vezes tenha se repetido o ritual. O imprevisível, ao descobrir-se, e o medo contido de desagradar explicam o frisson inicial, mesmo que tenhamos envelhecido nessas incontáveis estreias.

Naquela turma, o começo pareceu promissor, os olhos brilhantes e ligados, a economia de gestos revelando concentração, as sacudidas positivas de cabeça apontando concordância, e o riso espontâneo prometendo intimidade no futuro. Melhor não se podia esperar.

Quando saímos do assunto técnico da aula para a discussão de um tema de relação médico/paciente, a adesão foi completa. Ninguém podia duvidar, iríamos nos entender. Os anos ensinaram a reconhecer quando a exultação no final da aula se deve a encantamento pelo aprendizado, e não a alívio pelo fim do martírio.

Fora de questão, tínhamos acertado a mão.

Quando toda a turma já tinha saído, uma aluna ainda arrumava calmamente a sua mochila. Ao se aproximar, abriu os braços e me envolveu. Ficamos um tempo assim. Como a iniciativa do abraço não tinha sido minha, fiquei esperando pelas palavras. Que escorreram rápidas, quando já se afastava: “Obrigada por me ensinar!”

Recordei esta história, um dia desses, quando falei numa assembleia de professores, para discutir o papel dos que ensinam, suas vicissitudes e apreensões, suas angústias e responsabilidades, suas expectativas de reconhecimento atropeladas por decepções repetidas, sem que nada consiga embargar o fascínio que nos move e que nasce do brilho do olho dos que escutam.

E não pensem que a alegria é proporcional ao nível intelectual dos aprendizes. Nada disso. A euforia é cria da descoberta. O entusiasmo é fruto do novo. E a empolgação é babá da esperança. E em qualquer idade.

Todo professor apaixonado sabe intimamente que fazer parte disso é dádiva do destino, que nos colocou no caminho de mentes vorazes por aprender, mais e mais, porque essa roda não tem fim. Mesmo que tantas vezes se cometa a injustiça de retardar esse deslumbramento.

O grande mestre Paulo Freire estava no sertão de Sergipe, em uma nova jornada de trabalho com um grupo de camponeses muito pobres, que começavam a ser alfabetizados.

“Como estás João, tudo bem?”

João se calou, tirou o chapéu, olhou o horizonte e por fim disse: “Não consegui dormir. Toda a noite sem pregar os olhos!” Mais palavras não saíram da sua boca, até que ele murmurou: “Ontem eu escrevi meu nome, pela primeira vez!”

J. J. Camargo é cirurgião torácico e chefe do Setor de Transplantes da Santa Casa de Misericórida*