quarta-feira, 7 de maio de 2025


07 de Maio de 2025
INFORME ESPECIAL

O perfil desejado de um papa

Não haverá outro Francisco. Isso é o que mais tenho ouvido nas últimas duas semanas dentro e fora dos muros do Vaticano. Mas é possível idealizar o perfil de seu sucessor. Foi o que os cardeais fizeram na última congregação geral antes do início do conclave.

O grau de detalhes que vieram a público, com rara transparência em se tratando de um período de Sé Vacante, mostra o quanto a Igreja Católica deseja passar uma mensagem de união, em meio a debates sobre a possível divisão da Cúria entre progressistas e conservadores, uma polarização mundana da qual o clero, obviamente, não escapa.

Foi reiterada a consciência de que muitas das reformas promovidas por Francisco precisam ser levadas adiante: o combate aos abusos, a transparência econômica, a reorganização da Cúria, a sinodalidade, o compromisso com a paz e o cuidado com a criação (leia-se meio ambiente).

"A responsabilidade da Igreja nessas áreas é sentida de forma profunda e compartilhada", diz o comunicado da Santa Sé.

Um tema central da reflexão foi o da comunhão, indicada como vocação essencial para o novo Pontífice. "Surgiu o perfil de um Papa que foi pastor, mestre de humanidade, capaz de encarnar o rosto de uma Igreja samaritana, próxima das necessidades e das feridas da humanidade", diz o texto.

Logo, há indicação de que o futuro pontífice seguirá os passos de Francisco - talvez um pouco mais moderado, mas, pelo que se presume do comunicado, não será um conservador.

Estiveram presentes 173 cardeais, incluindo 130 eleitores. Houve 26 intervenções que abordaram múltiplos tópicos. Segue o texto: "Em tempos marcados por guerra, violência e fortes polarizações, há uma forte necessidade de um guia espiritual que ofereça misericórdia, sinodalidade e esperança".

Durante a reunião, o Anel do Pescador (usado por Francisco) e o Selo de Chumbo também foram cancelados. O gesto encerra oficialmente os 12 anos de pontificado argentino. É o fim da era bergogliana. Uma nova começa hoje ou nos próximos dias. Agora, é só esperar a fumaça branca tomar o céu da Cidade Eterna. 

Cardeais brasileiros já estão confinados na Casa Santa Marta

Os cardeais brasileiros que participarão do conclave para escolher o sucessor do papa Francisco deixaram na tarde de ontem o Pontifício Colégio Pio Brasileiro, residência dos religiosos brasileiros em Roma, e chegaram a Casa Santa Marta, no Vaticano, onde ficarão isolados até o fim da votação.

Diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida e da bandeira do Brasil, os religiosos rezaram e cantaram nas escadarias do Colégio antes da partida.

Estavam presentes dom Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus; dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB; dom Paulo Cezar Costa, arcebispo de Brasília; dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro; dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo; dom Sérgio da Rocha, arcebispo de Salvador; e dom Raymundo Damasceno, arcebispo emérito de Aparecida - que, por ter mais de 80 anos, não poderá votar no conclave. O cardeal João Braz de Aviz, que também vota, não estava presente, pois já mora em Roma.

Diante do grande número de cardeais, a Santa Sé solicitou que os religiosos entrem na Casa Santa Marta até, no máximo, a manhã de hoje, horas antes do início oficial do conclave. _

Rodrigo Lopes

terça-feira, 6 de maio de 2025


06 de Maio de 2025
CARPINEJAR

Minhas meias azuis de pinguim

Eu coleciono meias divertidas. Gosto de meias coloridas. Meus pés já anunciam a minha gargalhada.

Talvez seja a idade pesando, porque nunca fui tão fã das cores. Eu me converto pouco a pouco num quadro de Henri Matisse. Sigo o seu mantra: "A cor deve ser libertada da realidade".

Só não imaginava que isso pudesse me constranger. Fui treinar na academia com meias azuis, cheias de desenhos engraçadinhos de pinguim. Estranhei o gratuito charme da recepcionista ao fim da minha sessão:

- Vai vir amanhã? - Sim.

- Te espero. E traga seu sorriso junto: ele é muito bonito. Juro que não entendi. Não tinha dado nenhuma abertura. Apenas cumprimentei, como todos os dias.

Mesmo não compreendendo, e principalmente por não compreender, eu me senti atraente e gostoso por alguns minutos. Observava meus reflexos nos carros estacionados enquanto caminhava: será que estou diferente? Será que a musculação finalmente vem surtindo efeito?

A enganosa comoção e a surpreendente vaidade duraram até eu entrar em casa. Minha esposa me olhou dos pés à cabeça, e me xingou:

- Por que saiu de meias azuis? Tá louco?

- Ué, estavam limpas - respondi com a mansidão da ignorância.

Daí ela me explicou: em corridas temáticas, prevalece um código social de cores.

Meia azul = solteiro. Meia vermelha = comprometido. Meia verde = aberto a propostas.

A gíria visual virou moda entre os mais jovens - e escapou do asfalto para qualquer lugar. Inclusive para onde levanto halteres e a autoestima. Não posso nem mais pôr meias impunemente. Pensei que a grossa aliança na mão esquerda já bastava para não deixar dúvidas.

Minha mulher ficou de mal. Não acreditou na minha inocência desavisada. Ela me colocou na geladeira por uma semana. Desprovido de culpa no cartório, de vibrante Matisse eu me tornei um pinguim bicolor, preto no branco.

Sou bem desligado. Nem desconfiei das indiretas e dos flertes. Os sinais mudam com o tempo e avançam as suas fronteiras. No Havaí, num comportamento que continua vigente, se alguém carrega uma flor na orelha do lado esquerdo, mostra-se comprometido e, se pousa o enfeite do lado direito, revela-se desimpedido.

Sempre foi assim. Na Europa aristocrática, de 1750 a 1850, abrir o leque devagar era interesse, fechar rápido era desagrado, e apoiar no queixo, um convite para a conversa.

Nos anos 1970, o recurso também servia às minorias como forma de driblar a censura e o preconceito. Na cultura LGBTQIA+, existia o hanky code, lenços coloridos nos bolsos das calças. Dependendo do bolso ou do tom, você declarava sua predileção, seu fetiche, suas habilidades na cama. Era uma confissão de alcova sem precedentes.

Veio-me à mente que, na minha adolescência, nos anos 1980, havia a moda de dobrar a barra do jeans para indicar que estava solto na pista. A criatividade não tem limites. O vestuário escreve a legenda das intenções do corpo.

Estou agora na frente do espelho me arrumando para um evento, indeciso com as gravatas. Bate um receio de escolher uma cor que signifique algo que não sei e levar nova reprimenda.

É aquela velha história dos casais: apanhar antes de fazer. Não encontrarei mais paz. Será assim com o boné, com o tênis, com o cinto. Os casados não percebem o quanto correm riscos. Vivem perigosamente. _

CARPINEJAR

06 de Maio de 2025
NILSON SOUZA

Canetas mágicas

Somos criaturas fabuladoras, já disse Vargas Llosa, o escritor peruano que nos deixou recentemente, ele próprio um imenso fabulador. Gostamos de sonhar, de imaginar coisas, de fazer de conta que os seres inanimados têm vida própria e que os seres vivos são imortais. Não somos. No fundo de nosso cérebro sabemos disso, mas é melhor não pensar muito sobre essa condenação à finitude porque ela sempre nos parecerá injusta. Viva a ilusão.

Li outro dia um conto infantil em que o menino personagem completa 10 anos e ganha de presente de sua fada madrinha, que aparece no meio do seu sonho, uma canetinha insignificante. O garoto fica decepcionado. Se a fada só existe porque ele acredita nela, como tem coragem de aparecer com um presente daqueles? Ele esperava, no mínimo, uma bicicleta. Gentilmente, a fada pede que ele desenhe uma bicicleta com a caneta presenteada. E o desenho se transforma numa bicicleta de verdade.

É divertido, mas ninguém ignora que canetas mágicas com tamanho poder só existem na ficção. Como apelo de marketing até funciona. Magia vende. Porém, as que ostentam comercialmente esse nome servem, no máximo, para executar truques rudimentares como escrever com tinta invisível, limpar manchas ou fazer marcações temporárias em tecidos. Pelo menos era assim, até o aparecimento dessas tais canetas emagrecedoras que estão provocando verdadeira revolução no combate à obesidade.

Agora vamos falar sério: elas vêm carregadas de medicamentos antidiabéticos que imitam a produção de um hormônio regulador dos níveis de açúcar no sangue e redutor da sensação de saciedade. Estão sendo disputadas a tapas por pessoas que têm dificuldade para perder peso. Não passa dia sem notícia de apreensão de contrabando de canetas desse tipo nas fronteiras do país. Realmente operam milagres, mas não para todos. E podem ter efeitos colaterais danosos, tanto que seu uso sem recomendação médica está vetado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Compreende-se a ansiedade de quem já tentou de tudo e continua de mal com a balança. Mas é preocupante que algumas pessoas, para não dizer muitas, acreditem que a caneta emagrecedora é mesmo mágica. Quem dera fosse! Quem dera a fada madrinha realmente existisse! Quem dera estivéssemos todos condenados à vida eterna - com juventude, saúde e essa nossa inesgotável capacidade de fabular! _

NILSON SOUZA


06 DE MAIO DE 2025
TECNOLOGIA

Dublagem com inteligência artificial

é desafio a profissionais do audiovisual

Enquanto a indústria faz uso da tecnologia de forma cada vez mais recorrente, projeto de lei foi aprovado no Senado no ano passado e ainda será votado na Câmara. Para a categoria, é oportunidade de garantir proteção ao trabalho. Uso do recurso foi alvo de recente polêmica

em filme do Oscar - Carlos Redel

Cada vez mais recorrente, o uso da inteligência artificial (IA) para traduzir produções audiovisuais vem desafiando os dubladores a encontrar soluções para garantir a sobrevivência da profissão - e seus direitos autorais.

Em 2024, a plataforma de streaming Globoplay empregou IA no documentário Rio-Paris: A Tragédia do Voo 447 (2024). A série, que tem direção de Rafael Norton, emite um comunicado sobre o uso dessa tecnologia antes de cada episódio.

Na ocasião, a Globo declarou, em nota, que "sempre esteve na vanguarda da inovação tecnológica e não tem sido diferente com a adoção da inteligência artificial (...), sempre de forma ética, com transparência, buscando a qualidade e respeitando a questão dos direitos".

Recentemente, o Prime Video, plataforma da Amazon, utilizou dublagem feita por IA no filme O Silêncio de Marcos Tremmer (2024), coprodução entre Espanha e Uruguai que recebeu críticas pelo resultado pouco natural. O longa-metragem segue no catálogo da plataforma, mas a opção da voz gerada por máquina não está mais disponível.

Depois, o Prime Video anunciou que lançará um programa para gerar dublagens automáticas de seus conteúdos por IA - por enquanto, apenas em traduções para inglês e espanhol e de filmes que não têm dublagem feita por humanos.

Procurada pela reportagem, a assessoria do Prime Video afirmou que a empresa "não vai conseguir participar da pauta no momento".

Sotaque húngaro

O professor Roberto Tietzmann, da Escola de Comunicação, Artes e Design da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), observa que grandes canais do YouTube já utilizam IA na dublagem para chegar a usuários de diferentes países.

Outro exemplo é a recente polêmica com o uso da tecnologia para aprimorar o sotaque húngaro dos atores do filme O Brutalista (2024). Houve repercussão no meio cinematográfico, críticas e até mudança nas regras do Oscar. Mesmo assim, Adrien Brody, protagonista da obra, que teve sua performance aprimorada com IA, venceu a estatueta de melhor ator.

Equilíbrio entre homem e máquina

Foi quase uma validação, um "pode passar" para a ferramenta, segundo Tietzmann:

- Estamos em uma fase de normalização. Por outro lado, tem todas essas questões do trabalho dos dubladores, que está em risco neste momento. São necessárias regulamentação e medidas sindicais para que eles possam seguir com o seu espaço na dublagem. E o público em geral, entre ler uma legenda e ouvir dublado, mesmo com o áudio meio robótico, talvez prefira ouvir dublado.

O professor salienta que, por ser uma tecnologia muita nova, há poucos exemplos mundiais de regulamentação que possam servir como base para o Brasil. Segundo ele, a transformação se assemelha à provocada pelo Google Tradutor: a ferramenta tomou o lugar de algumas pessoas que poderiam fazer o trabalho, mas tradutores seguem existindo. Seria, então, uma questão de encontrar o equilíbrio entre o homem e a máquina. _

Tripé de proteção para os profissionais

Por causa das ameaças à classe, os dubladores correm contra o tempo para defender a aprovação do projeto de lei 2.338/2023, que poderia, segundo eles, mudar o cenário de insegurança.

O texto foi aprovado pelo Senado em dezembro do ano passado, mas ainda precisa passar pela Câmara dos Deputados e pela Presidência para ser sancionado.

Para Angela Couto, uma das porta-vozes da iniciativa Dublagem Viva, o PL oferece um tripé de proteção para os dubladores, com regulação, compensação e rotulação.

Regulação significa detalhar, no momento do contrato, para quais fins a voz do dublador será usada. Compensação é o pagamento dos direitos autorais caso a voz do profissional seja utilizada para alimentar uma IA. E rotulação é sinalizar que determinada obra utiliza IA, incluindo uma ficha técnica detalhada.

- Essa ficha técnica tem que dizer de quem são as vozes utilizadas pela IA e se ela é uma réplica ou sintética. A réplica é a própria voz do dublador, reproduzida. Ou seja, a minha voz transformada para dizer outras coisas. Já a voz sintética é construída a partir de dados biométricos do dublador, falando em português, com a voz do ator original sendo uma "máscara". É um esqueleto falando em português e a máscara cobrindo para parecer que é o próprio ator original. É a junção de duas vozes criando uma terceira - explica Angela.

Propriedade intelectual

Essa transparência, defende ela, é o que os dubladores precisam de maneira mais urgente para proteger suas propriedades intelectuais. De acordo com a dubladora, esse tipo de rotulação já é empregada nos trabalhos realizados com IA na China. Não impede que sejam realizados, mas detalha como o processo é feito, dando os devidos créditos.

- A IA hoje ainda é muito precária, a qualidade é muito ruim (na dublagem). Não prevemos que seja utilizada logo, mas estamos pensando em uma legislação e regras para o futuro. Precisamos vislumbrar essa possibilidade de uma forma positiva, sem fugir ou criando um mecanismo de proibição puro e simples. A gente já faz licença de uso dos nossos direitos. O que não pode é o nosso trabalho ser usado à revelia e sem a devida compensação - complementa Angela. 



06 de Maio de 2025
OPINIÃO DA RBS

Esforços pela aprendizagem

Mais um estudo de grande abrangência mostra o impacto da pandemia no ensino público brasileiro e volta a evidenciar a importância de esforços para a recomposição da aprendizagem. A conclusão, desta vez, é de uma pesquisa divulgada pela ONG Todos pela Educação com base nos resultados das provas do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) aplicadas em 2023. 

O levantamento mostra que, mesmo com resultados melhores do que 2021, quando o país e o mundo ainda sentiam os efeitos agudos da crise sanitária, o nível de conhecimento em matemática e língua portuguesa dos alunos do 5º e do 9º anos do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio ainda estava abaixo de 2019.

O estudo "Aprendizagem na Educação Básica: situação brasileira no pós-pandemia" traz ainda avaliações sobre a situação dos Estados e de 26 capitais e outras 20 cidades com mais de 500 mil habitantes. Os gaúchos ficaram acima da média nacional nas três etapas analisadas. Mas, ao mesmo tempo, se observou piora no desempenho em língua portuguesa e matemática em todas as séries. Isso reforça a relevância de direcionar atenção à recuperação dos prejuízos na assimilação dos conteúdos causados pelo grande tempo de escolas fechadas.

A situação da aprendizagem em Porto Alegre colide frontalmente com a vocação que se busca consolidar de uma cidade que tem na tecnologia e na inovação um novo pilar econômico. Para se trilhar esse caminho, é indispensável formar capital humano mais instruído, capaz de ser inventivo e mais produtivo nas tarefas profissionais. Qualificar o ensino da rede pública, por ter a maior quantidade de alunos, é basilar nesse propósito. 

A colunista Rosane de Oliveira noticiou na sexta-feira que a prefeitura pretende instituir uma gratificação aos profissionais da educação que estaria vinculada, ao fim, à melhoria dos indicadores educacionais. Trata-se de uma fórmula conhecida e espera-se que, junto a muitas outras iniciativas, ajude a tirar a Capital da posição embaraçosa em que se encontra. _


06 de Maio de 2025
NOTÍCIAS

STF começa a julgar mais um núcleo da trama golpista

Suprema Corte

Primeira Turma vai definir se aceita denúncia contra sete acusados de atuar na disseminação de desinformação para desacreditar urnas eletrônicas e pressionar a cúpula das Forças Armadas. Grupo inclui militares, ex-integrantes da Abin e dirigente de instituto. Decisão sai até amanhã

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) começa a julgar hoje a denúncia contra mais sete acusados de envolvimento com a tentativa de golpe após as eleições presidenciais de 2022. O grupo é acusado de atuar na disseminação de desinformação.

Dentre os acusados, estão militares, como o major da reserva Ailton Gonçalves Moraes Barros, e ex-integrantes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), além do presidente do Instituto Voto Legal, organização contratada pelo PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, para emitir laudo sobre o sistema eletrônico de votação.

Conforme a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), o objetivo, com as táticas de desinformação, era desacreditar as urnas eletrônicas e o processo eleitoral, bem como constranger membros das Forças Armadas a aderirem à trama. Para isso, o grupo teria utilizado indevidamente a estrutura da Abin.

A Primeira Turma é formada pelos ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia, Flávio Dino e Luiz Fux. Foram agendadas duas sessões para hoje (às 9h30min e às 14h) e uma para amanhã (às 9h30min).

Anteriores

Se a denúncia for aceita, o número de réus pelo plano golpista chegará a 21. A Primeira Turma já tornou réus oito acusados de integrar o "núcleo crucial" - incluindo Bolsonaro - e seis pessoas que respondem, dentre outros, pelas operações em rodovias para dificultar o voto de eleitores no segundo turno no Nordeste. _

Quem são

Ailton Gonçalves Moraes Barros - Major da reserva do Exército, foi expulso do Exército após punições disciplinares. Concorreu a deputado estadual no Rio de Janeiro pelo PL em 2022, apresentando-se como "01 do Bolsonaro", mas não chegou a se eleger. Chegou a ser preso no caso da falsificação de vacinas.

Ângelo Martins Denicoli - Também major da reserva do Exército, foi diretor de monitoramento e avaliação do Sistema Único de Saúde (SUS) no governo Bolsonaro.

Carlos Cesar Moretzsohn Rocha - Engenheiro eletrônico e presidente do Instituto Voto Legal, foi contratado pelo PL para auditar as urnas eletrônicas.

Giancarlo Gomes Rodrigues - Subtenente do Exército, trabalhava na Abin e foi alvo da investigação sobre supostos monitoramentos ilegais de autoridades no órgão ("Abin paralela").

Guilherme Marques de Almeida - Tenente-coronel do Exército, comandou o comando do 1º Batalhão de Operações Psicológicas em Goiânia (GO)

Marcelo Araújo Bormevet - Agente da Polícia Federal que atuou na Abin, onde assessorava o então diretor da agência, Alexandre Ramagem. Também foi investigado pelas supostas espionagens clandestinas.

Reginaldo Vieira de Abreu - coronel do Exército, atuou como chefe de gabinete do general da reserva Mario Fernandes na Secretaria-Geral da Presidência.

Lula demite Cida e nomeia Márcia Lopes para pasta das Mulheres

Mais uma troca

O presidente, Luiz Inácio Lula da Silva confirmou ontem a demissão da ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, e a indicação de Márcia Lopes para o cargo. Cida, cuja saída era esperada desde o início do ano, foi alvo de denúncias de ex-servidoras da pasta por supostos casos de assédio moral e xenofobia.

Ao todo, foram apresentadas cinco denúncias formais, inclusive com gravações de reuniões internas. Os relatos envolvem ameaças de demissão a servidoras, cobrança de trabalho em prazo exíguo, tratamento hostil, manifestações de preconceito e gritos.

Além disso, Lula estaria insatisfeito com as entregas da pasta, considerada estratégica para melhorar a imagem do governo entre as mulheres. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em 2 de abril mostra que a avaliação negativa do governo Lula superou a positiva junto à população feminina.

O perfil

Márcia Lopes foi ministra do Desenvolvimento Social em 2010, no segundo mandato de Lula. Também foi vereadora e secretária de Assistência Social de Londrina (PR).

Filiada ao PT desde 1982, é irmã de Gilberto Carvalho, quadro histórico do PT e ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência no governo Dilma Rousseff. 



06 de Maio de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Direto do Vaticano

Intrigas antes do conclave começar

Não se tem notícia em tempos recentes de períodos pré-conclave tão cheio de intrigas quanto este de 2025. Os cardeais já estão na 10º congregação geral (ainda haverá mais uma, hoje, a última antes de se fecharem na Capela Sistina), mas a sucessão ao papa Francisco acumula episódios de mal-estar e constrangimentos. Publicamente, os cardeais evitam comentar os incidentes, afirmam que todos esses dias estão servindo para que se conheçam melhor. Mas a verdade é que muitos dos integrantes do colégio cardinalício estão desviando da imprensa e de curiosos para evitar assuntos indiscretos.

Primeiro foi o caso do cardeal Giovanni Angelo Becciu, que, mesmo condenado por um tribunal do Vaticano por desvios de fundo de gestão da Secretaria de Estado, dizia que estaria presente na votação. Quase se formou uma rivalidade entre Pietro Parolin e seu compatriota italiano. Foram dois dias de suspense, até que Bacciu renunciou ao voto, afirmando ter decidido "obedecer à vontade de Francisco" e para contribuir pela comunhão e serenidade do conclave.

Passado o susto, outro problema apareceu: o cardeal peruano Juan Luis Cipriani, afastado por abuso sexual por Francisco, apareceu vestido de cardeal na Basílica de São Pedro para se despedir do papa argentino. Arcebispo emérito de Lima, Cipriani já foi o religioso mais influente do Peru, mas foi denunciado por ter molestado sexualmente um jovem, quando ele tinha 16 anos. Francisco o proibiu de usar os trajes de cardeal. Mas Cipriani chegou, inclusive, a participar de algumas das congregações gerais, como "quem não quer nada" - ele tem 81 anos, logo não vota no conclave.

Não bastassem as presenças incômodas, agora o Vaticano é infestado por fake news e tentativas de influenciar a eleição: circulou que o cardeal Parolin, o favorito nas apostas, estaria doente. A Santa Sé precisou vir a público desmentir a afirmação. Nos últimos dias, um dossiê foi enviado aos cardeais com uma seleção de nomes - uma lista com 20 possíveis papáveis. Sem falar na infame foto de Donald Trump vestido como papa, divulgada pela própria Casa Branca. Diante de tudo isso, a imagem do presidente americano, encarada como anedota pelos cardeais mais sisudos e chamada literalmente de "bobagem" pelos mais vocais, é o episódio mais inocente. _

Juramento de silêncio precede a escolha do papa

Funcionários do Vaticano prestaram juramento de silêncio para o conclave. Ontem, colaboradores eclesiásticos e leigos juraram sobre a Bíblia e assinaram documento comprometendo-se a manter total sigilo sobre tudo o que ocorrer durante as votações. Os cardeais farão o seu juramento na quarta-feira, antes da votação. A Santa Sé reforça a tradição de confidencialidade da eleição papal.

"Prometemos e juramos observar com a máxima fidelidade e com todos, clérigos e leigos, o segredo sobre tudo o que de qualquer forma diz respeito à eleição do Romano Pontífice e sobre o que acontece no local da eleição, direta ou indiretamente no que diz respeito ao escrutínio; não violar de modo algum este segredo, nem durante nem depois da eleição do novo Pontífice, a menos que tenha sido concedida autorização explícita pelo próprio Pontífice; nunca dar apoio ou favor a qualquer interferência, oposição ou qualquer outra forma de intervenção pela qual autoridades seculares de qualquer ordem e grau, ou qualquer grupo de pessoas ou indivíduos, possam desejar interferir na eleição do Romano Pontífice", diz um trecho do juramento.

Na quarta-feira, cada um dos cardeais eleitores colocará a mão sobre a Bíblia e declarará: "Prometo, obrigo e juro. Que Deus e estes santos evangelhos que toco com minha mão me ajudem." Após o último juramento, o mestre de celebrações pronunciará as palavras em latim: "Extra omnes" ("Todos para fora"), marcando o início do conclave. _

Quanto tempo pode levar

Não há uma regra definida para a duração de um conclave. Algumas eleições papais foram resolvidas em um único dia, enquanto outras levaram anos - como no caso do conclave de Viterbo (1268-1271), que durou quase três anos. Nos últimos conclaves, a média de duração caiu para dois dias. Porém, vaticanistas e até cardeais sugerem que a eleição do sucessor de Francisco pode levar de quatro a cinco dias, devido à diversidade de perfis no atual colégio cardinalício. _

A duração das últimas 10 eleições

Papa Pio X (1903) 5 dias

Papa Bento XV (1914) 4 dias

Papa Pio XI (1922) 5 dias

Papa Pio XII (1939) 2 dias

Papa João XXIII (1958) 4 dias

Papa Paulo VI (1963) 3 dias

Papa João Paulo I (1978) 2 dias

Papa João Paulo II (1978) 3 dias

Papa Bento XVI (2005) 2 dias

Papa Francisco (2013) 2 dias

Os horários em que sairá a fumaça da Capela Sistina

O conclave começa amanhã com uma missa chamada pro eligendo Romano Pontefice, ou "para a eleição do pontífice". Será às 10h (5h em Brasília). Depois, haverá um almoço na Casa Santa Marta. Às 16h30min (11h30min em Brasília), os cardeais se deslocarão da Capela Paulina, no interior do Palácio Apostólico, até a Capela Sistina. Os cardeais não votantes (com mais de 80 anos), então, serão convidados a se retirar. É quando as portas da capela serão fechadas para o mundo - inclusive o sinal da TV do Vaticano é cortado neste momento, e os telões espalhados pela Praça de São Pedro são desligados.

Amanhã, só haverá uma votação, cujo resultado provavelmente sairá por volta de 19h (14h em Brasília). Há pouquíssima chance de se ter um eleito nesse primeiro escrutínio - a votação que inaugura o conclave é uma espécie de balizador para as demais, ali se mede, pela primeira vez, concretamente, os favoritos - até lá, é tudo especulação.

Olhos para a chaminé

A partir daí, nos dias seguintes teremos quatro votações - duas por turno. Se no primeiro escrutínio do dia, um nome conquistar os dois terços dos votos, sairá a fumaça branca na chaminé. Caso contrário, haverá uma segunda votação ainda pela manhã. Em caso de definição do próximo pontífice, a fumaça branca poderá sair às 10h15min (5h15min em Brasília), 12h (7h), 17h15min (12h15min) ou às 19h (14h) - esses horários representam os términos das votações. Já a fumaça preta sairá regularmente, se não houver consenso, às 12h (7h em Brasília) ou 19h (14h).

Se até o final do sábado, quarto dia de votações, não houver um eleito, os cardeais poderão interromper os escrutínios para oração no domingo. De 12 a 21 de maio ainda ocorrem votações, caso não se tenha o eleito. E a partir de 22, se persistir o impasse, só ficarão os dois primeiros mais votados, em uma espécie de funil (parecido com o segundo turno de uma eleição convencional).

Nos últimos quatro conclaves, a eleição não passou de três dias - João Paulo I, Bento XVI e Francisco foram eleitos no segundo dia. João Paulo II foi escolhido no terceiro. Nos bastidores, os cardeais comentam que provavelmente, dessa vez, não será nos dois primeiros dias. Muitos apostam no terceiro, a sexta-feira. _

Um lembrete na Praça de São Pedro

Na imensidão da Praça de São Pedro, um monumento atrai, desde 2019, os olhares e o toque de turistas e fiéis. Feita em bronze, idealizada pelo canadense Timothy Schmalz, a escultura Anjos Inconscientes retrata em tamanho natural uma multidão heterogênea de migrantes e refugiados. No seu centro, destacam-se as asas de um anjo, sugerindo a presença do sagrado. A escultura é inspirada em uma passagem bíblica: "Não vos esqueçais da hospitalidade, porque graças a ela alguns, sem saber, acolheram anjos".

A obra foi inaugurada por Francisco, que fez da preocupação com os retirantes uma das marcas de seu pontificado. O Papa desejava que a escultura "lembrasse a todos o desafio evangélico da hospitalidade".

INFORME ESPECIAL

segunda-feira, 5 de maio de 2025


05 de Maio de 2025
CARPINEJAR

Não tem como ganhar o Brasileirão. É impossível. Mais fácil acertar a Mega-Sena.

Faço apenas um pedido: que se pare de colocar o Inter como favorito. É torturar a nossa esperança. Grêmio e Inter jamais levaram a taça na era dos pontos corridos. Criou-se uma longa e penosa maratona para liquidar as chances de igualdade da nossa ilha da fantasia.

O último título brasileiro do Grêmio foi em 1996, há 29 anos. O do Inter, em 1979, há 46 anos. Nas recentes três décadas, os gaúchos são coadjuvantes forçados. O protagonismo nos é negado. Não rende audiência nacional, não gera lucro. A engrenagem do campeonato não contempla o Sul.

Desde 2003, quando se adotaram os pontos corridos, o Internacional acumulou cinco vices: 2005, 2006, 2009, 2020 e 2022. Em três dessas edições, o título escapou na rodada final. Em 2005, houve até tapetão: jogos anulados, partidas repetidas, polêmicas que redesenharam a tabela. No fim, o campeão foi justamente o Corinthians - com direito ao estardalhaço da Máfia do Apito.

A centralização do poder da CBF no Sudeste pesa dentro e fora de campo. A transmissão privilegia quem está mais perto da vitrine (é impressão minha ou o Galvão Bueno torcia ao invés de narrar?).

Curiosamente, somente times do Sudeste venceram a disputa até agora no novo modelo de competição: Cruzeiro (2003, 2013, 2014), Santos (2004), São Paulo (2006, 2007, 2008), Corinthians (2005, 2011, 2015, 2017), Fluminense (2010, 2012), Flamengo (2009, 2019, 2020), Palmeiras (2016, 2018, 2022, 2023), Atlético Mineiro (2021) e Botafogo (2024).

Não só o Inter ou o Grêmio, mas também representantes do Nordeste tampouco obtiveram título nesse regulamento - as glórias estacionaram na década de 1980 (Sport em 1987 e Bahia em 1988). Veja o caso do lanterna Sport, por exemplo. É o plantel mais prejudicado, com três evidentes falhas de atuação dos juízes, incluindo um pênalti controverso que resultou na sua derrota de 2 a 1 para o Palmeiras (o Comitê Consultivo de Especialistas Internacionais da CBF confirmou o equívoco na marcação).

Além de se aplicar no Brasil um sistema europeu de todos contra todos, beneficiando os clubes milionários - que contam com estrelas e peças de reposição -, matando a diversidade, ainda paira nos nossos estádios o flagelo histórico dos erros de arbitragem.

Na vitória do Corinthians sobre o Inter - no vira, vira, vira lobisomem -, pode até parecer que o Colorado foi ajudado pelo VAR em dois gols anulados. Mas é o contrário: o VAR precisou intervir para corrigir o que o árbitro ignorou. Eram duas faltas claras no início das jogadas. Qualquer juiz atento teria assinalado de imediato.

O roteiro do absurdo irrompeu aos 21 minutos, quando Wesley acabou agarrado por Yuri Alberto dentro da área. Pênalti, a meu ver, escandaloso. Os braços foram enganchados, como se Capitão Gancho invadisse a nau. O mineiro Paulo Cezar Zanovelli nada marcou. E o VAR? Nem chamou.

Depois, com Bruno Henrique expulso, Alan Patrick lesionado e o Inter resistindo ao empate de 2 a 2, veio o golpe derradeiro: pênalti inventado nos acréscimos. Romero afastou a bola - primeiro a bola - e só em seguida teve contato com Matheus Bidu. O VAR convocou, o árbitro reviu, e não teve dúvida. Sempre tem dúvida quando é a nosso favor.

São dois pesos, duas medidas. É de enlouquecer resquícios de racionalidade. Contra o Fortaleza, David Luiz atingiu Rogel com o pé na cabeça. Nada. Contra o Palmeiras, Richard Ríos levantou a sola em Fernando. Nada de novo. Pisão na cara? Siga o confronto. Sem padrão, sobra o prejuízo. E o prejuízo é sistemático.

Era de se esperar perder para o Corinthians desse jeito, com o Itaquerão lotado e a estreia de Dorival Júnior no Brasileirão.

Vivemos um faz de conta. Se não somos Palmeiras, Flamengo ou Corinthians, jogamos contra 13: o adversário, o juiz e o VAR. No apito inicial, já começamos com dois a menos.

Resta-nos mirar as copas - Libertadores, Copa do Brasil. No mata-mata, não dá tempo de prolongar a injustiça. No Brasileirão, cabe-nos alcançar o G4 e esquecer mais uma edição como todas as outras. _

A derrota para o Corinthians

Carpinejar


05 de Maio de 2025
RECONHECIMENTO

RECONHECIMENTO

O que motiva descendentes a obterem a cidadania

Gaúchos com origens no país europeu contam suas histórias e o que mudou após a documentação. Processo para obtenção ficou mais complexo após uma decisão do Conselho de Ministros da Itália, que restringiu acesso. A decisão traz apreensão a quem está na fila e precisa ser aprovada até 27 de maio

Marcos Cardoso

Uma estimativa do Consulado Geral da Itália em Porto Alegre aponta que aproximadamente 4 milhões de gaúchos são descendentes de italianos, o que dá a eles o direito de reconhecer a cidadania italiana. O número representa 36,7% da população do Estado - estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de 10,8 milhões de pessoas vivendo no RS.

Esse processo, garantido pela lei 91 de 1992, pode ser feito de algumas formas diferentes. Via consulado, de forma judicial - quando há um processo contra o governo italiano -, e até mesmo indo ao país europeu. No entanto, em meio às celebrações dos 150 anos da imigração italiana no Estado, buscar esse direito, que é obtido desde o nascimento, tornou-se mais complexo desde o final de março.

No mês passado, o Conselho de Ministros da Itália aprovou o chamado "Pacote Cidadania", um conjunto de medidas legislativas propostas pelo Ministério das Relações Exteriores e Cooperação Internacional para reformar a regulamentação sobre cidadania. A medida restringiu as condições de naturalização por direito de sangue, limitando a obtenção da cidadania italiana a duas gerações. Após passar por comissões, o projeto deve ser votado no plenário do Senado italiano, possivelmente até 8 de maio, e depois vai ser encaminhado para a Câmara, onde precisa ser aprovado até o dia 27 de maio.

Para Vania Herédia, doutora em História das Américas, esse movimento do governo italiano é uma forma de negar o passado, uma vez que rompe com a história que se construiu ao longo desses 150 anos, baseada em uma identidade coletiva.

- Quando o Estado fornece a cidadania, ele é responsável por esse cidadão. Então, temos que ver o que está acontecendo com o Estado italiano neste momento, que tem um governo bastante voltado para a perda de direitos, para a população se dar conta do momento que o mundo está passando na questão geopolítica, não só em relação à Itália, mas à comunidade europeia.

Legado

E basta circular pelo RS, em especial na Serra, para perceber os legados deixados pelos imigrantes vindos da Itália desde 1875. Seja na identidade cultural, com o jeito de falar e os costumes, além da própria religião e a gastronomia. Vania, que foi professora da Universidade de Caxias do Sul (UCS), afirma que os descendentes se sentem mais italianos do que brasileiros:

- Se tu perguntares a origem, eles (os descendentes) não vão dizer que são brasileiros, vão dizer: "Sou de origem italiana". E o fato de ter essa identidade faz com que eles se sintam parte de uma história. Essa restrição da cidadania abre uma fratura em relação ao passado e ao presente.

Vania acredita que são diversos os fatores que levam os descendentes a buscarem a cidadania. Entre eles, se a busca por oportunidades no país de origem dos antepassados, conhecimento cultural e um resgaste da história familiar. _

As heranças de família

Em 1994, Rangel Redaelli, 46 anos, obteve a cidadania italiana. A família sempre manteve viva a ligação com as raízes, inclusive, é uma das fundadoras de Nova Milano, berço da imigração italiana no RS. Três anos após obter a cidadania, teve a primeira oportunidade de ir ao Velho Continente e ter um contato maior com a história.

Um ano após a viagem a passeio, foi morar na Itália. Publicitário, conseguiu um estágio. Fixou residência em Bréscia, por onde ficou por cinco anos. O momento é descrito por ele como "um divisor de águas na vida", uma vez que foi a época em que passou a mergulhar na história da imigração.

- Na Serra, ficou uma cápsula do tempo, coisas que se transformaram na Itália, algumas para o lado não tão bom de perdas de questões culturais, aqui ficaram congeladas. Nós temos hábitos e uma história congelada de 150 anos que lá pode ter se perdido. Por mais que eles mantenham, ela vai se misturando com outras histórias. _

Para entender as raízes

Assim que pisou na Itália para realizar o processo de reconhecimento da cidadania italiana, há sete anos, Guilherme Scolaro Viana, 31 anos, despertou o "jeito italiano", como define. Um processo que foi facilitado, pois uma prima da mãe já havia reunido os documentos necessários. Assim, o caxiense precisou pagar a tradução da sua parte e aguardar o reconhecimento, processo que fez no país europeu.

Ele optou por fazer o processo na Itália, onde morou de janeiro a março de 2018.Após a experiência, passou a entender mais as raízes. Ele não chegou a ter contato com possíveis parentes italianos, mas buscou entender mais sobre os costumes locais.

- Eu não tinha ainda despertado esse jeito italiano antes de ir para lá. Depois que fui, vi algumas diferenças e semelhanças, principalmente, com cultura e tudo que a liga. Tu te sentes muito parte daquilo porque é tua origem, a tua vida começou lá, parece que desenvolve outros gostos que ainda não tinha. 

A frustração na fila

Foi no início dos anos 2000 que a jornalista Rosângela Longhi, natural de Bento Gonçalves e moradora de Caxias, teve o primeiro contato para entender como reconhecer o direito à cidadania. No entanto, questões pessoais e financeiras pesaram naquele momento.

No início de março de 2025, Rosângela estava feliz. Naquele momento, o Consulado-Geral da Itália em Porto Alegre havia anunciado a convocação das pessoas que estão na fila com as inscrições entre 16.001 e 17.000, e o seu número é o 17.420, ou seja, estava próximo de um chamado.

No entanto, no final do mesmo mês, com a aprovação do "Pacote Cidadania", os atendimentos no consulado em Porto Alegre foram suspensos. Há sete anos na fila, ela não esconde a tristeza com o momento:

- Muita frustração, porque eu venho acompanhando a fila do consulado desde 2018, e teve momentos em que a fila parou, deu uma murchada, agora deu uma informatizada, agilizou. Eu estava muito animada. Agora, o jeito é esperar. _


05 DE MAIO DE 2025
GPS DA ECONOMIA - Marta Sfredo

Respostas capitais - José Alfredo Graça Lima

Vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), participou da reformulação das regras multilaterais de comércio e da criação da própria Organização Mundial do Comércio (OMC).

"Os EUA não fabricam uma televisão há mais de 50 anos, "

Em quase 50 anos como diplomata, José Alfredo Graça Lima ocupou diversos cargos no Ministério das Relações Exteriores no Brasil e no Exterior. Representou o país em negociações no Mercosul e com a União Europeia e chefiou a representação brasileira na UE, em Bruxelas. Agora, está tão perplexo como boa parte da humanidade com a "truculência unilateral" de Donald Trump. Como bom negociador, acredita nesse poder e vê nas tentativas de acordo uma esperança.

Qual a sua avaliação dos primeiros cem dias do governo Trump, alguma surpresa?

A truculência do unilateralismo. O principal parceiro comercial deixa de lado as suas obrigações multilaterais para ameaçar. A China é o alvo principal, mas também todos os países que exportam para os EUA. Eram um parceiro não apenas confiável, mas de última instância. Todos os países comerciavam com os EUA, o que na verdade era responsável pelo déficit comercial americano, atendendo às necessidades de mercado em expansão. É o que tornava os americanos mais ricos, até porque o déficit comercial era compensado pelas exportações de serviços. Essa lógica era perfeitamente conhecida, mas escapa da compreensão de um presidente populista que fala para operários de indústrias decadentes.

Os recuos dão esperança?

A negociação de acordos bilaterais aponta para um cenário muito menos pessimista do que se previa. Não é uma solução satisfatória, em vista da operacionalidade do sistema multilateral. Até o momento, funciona com base no tratamento de nação mais favorecida, o que poderá deixar de acontecer, com grande prejuízo para o comércio global. Mas é absolutamente impossível determinar, neste momento, quais serão os termos negociados, o que deixa os agentes econômicos incertos. O fato de existir negociação, representando tentativa de resposta ao unilateralismo truculento, não deixa de trazer esperança para um comércio com mais fluidez.

O que pode estar na mesa?

Pode haver casos em que se estabeleçam cotas, com comércio administrado, como está sendo buscado (pelo Brasil) para aço e alumínio. De novo, não é o ideal, mas evita ruptura do comércio. O Brasil é privilegiado no sentido de que uma parte pouco significativa das exportações está integrada a cadeias de valor. Exportamos alimentos, parte de um comércio direto. Os bens perecíveis não devem sofrer barreiras, porque a demanda por alimentos, por produtos agrícolas, é inelástica. Você paga o preço que tiver de pagar. Os consumidores de baixa renda, como sempre, pagam a conta, assim como as indústrias que dependem de insumos e de máquinas a baixo preço.

O Brasil está pronto para aproveitar essa oportunidade?

Vai depender de dois fatores. O primeiro é se vai ter oferta exportável para cobrir as necessidades chinesas, que são grandes. Os chineses já compram cerca de 80% da soja que o Brasil produz. Tenho certeza de que os agricultores não devem perder em qualquer arranjo, e a China é um dos países que está negociando ativamente, embora fique nas entrelinhas. Outro é que os EUA estariam pressionando os países para não importar da China o que a China exportava aos EUA. E muitos produtos chineses continuam sendo objeto de processos antidumping, de medidas compensatórias. Em condições normais, e admito que não estamos em condições normais, o comércio entre o Brasil e a China não vai ser afetado.

O que se pode esperar?

A definição do regime comercial dos EUA é, neste momento, obra de ficção. Mas existe um precedente. Quando as tarifas americanas foram elevadas ao ponto mais alto de sua história, com a lei Smoot-Hawley, em 1930, contribuindo para disseminar e agravar a Grande Depressão, houve mitigação por acordos de reciprocidade bilaterais que os americanos passaram a negociar, inclusive com o Brasil. Mas os acordos tinham tratamento de nação mais favorecida e cláusulas foram aproveitadas depois no capítulo comercial da Carta de Havana, que se tornou o Gatt (Acordo Geral de Tarifas e Comércio) em 1947. Era um embrião de um sistema multilateral mais aberto, com tarifas reduzidas, perspectiva de crescimento do comércio com redução de barreiras, ao menos tarifárias.

Qual a sua tese sobre a meta de Trump?

Não tenho. A julgar pelo discurso, o que Trump quer é reindustrializar os EUA. Mas as indústrias intensivas em mão de obra estão produzindo muito mais e melhor fora dos EUA. Os EUA não fabricam uma televisão há mais de 50 anos, e por boas razões. Os investidores preferem criar cadeias de valor que são benéficas para todo mundo, menos para os desassistidos pela globalização, que não por acaso são os eleitores de Trump.

Trump quer reindustrializar, mas não oferece crédito. Qual a explicação?

Hesito um pouco em usar o termo, sem ofensa nenhuma, mas é um tanto esquizofrênico, mesmo. O presidente pode fazer discursos, mandar recados, fazer ameaças, mas vemos frequentemente o segundo escalão, os secretários de Comércio, do Tesouro, introduzirem certa racionalidade onde está faltando. Trump também não hesita em voltar atrás, em recuar em muitas decisões tomadas.

Há prazo para romper cadeias de valor?

O prazo seria os 90 dias, que se esgota em julho. Se o Brasil se comprometer a reduzir tarifas para o etanol e permitir maior acesso, não seria ruim para a economia. Afetaria o setor, mas para o consumidor seria boa notícia. A indústria manufatureira do Brasil tem baixa produtividade, porque o país importa pouco. Há muita taxação para proteger essas indústrias de uma concorrência que consideram predatória. É preciso reconhecer que o Brasil é um país fechado. Sei que é politicamente improvável reduzir tarifa, mas está na hora de revisar. E essa talvez seja uma oportunidade para que aconteça com um custo político reduzido.

Com a OMC débil, violação às regras tem efeito prático?

Tem, sim. O Gatt continua sendo a constituição do comércio internacional. Pode ser violado, como está sendo, mas existe. A OMC serve como foro de discussões. A ausência do órgão de apelação gera incentivo a medidas unilaterais. Vai à consulta, a panel (espécie de julgamento), tem decisão, mas sem órgão de apelação, o país fica livre para não cumprir. Não quer dizer que o sistema esteja comprometido, ou que a organização tenha se tornado irrelevante. _

GPS DA ECONOMIA


05 de Maio de 2025
NOTÍCIAS - Anderson Aires

NOTÍCIAS

Este é o maior patamar de avanço para o período em 13 anos. Juro alto e desequilíbrio entre oferta e demanda ajudam a explicar o movimento

Porto Alegre

Preço do aluguel residencial sobe 17,99% em um ano

Esse é o maior patamar de avanço para o período em 13 anos. Juro alto, desequilíbrio entre oferta e demanda e atividade acima do esperado são alguns dos fatores que ajudam a explicar esse movimento, segundo especialistas e integrantes do setor. O dado faz parte de levantamento do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis (Secovi-RS) e considera apenas residenciais que estão disponíveis para locação.

A economista-chefe do Secovi-RS, Lucineli Martins, afirma que a pressão no preço da locação responde a uma série de movimentos do setor imobiliário. Como a moradia é uma necessidade básica, o aluguel é afetado por alguns fatores, como quantidade de imóveis disponíveis, empregabilidade, crescimento ou retração da economia e facilidades ou dificuldades de financiamentos e juros. Ela destaca uma combinação de boa empregabilidade, crescimento do PIB acima do esperado no Estado e no país, redução na oferta de unidades para locação e aumento dos juros para financiamentos. Com isso, a compra deixa de ser uma opção para uma parcela da população, o que afeta o mercado de aluguel.

- Com uma maior dificuldade na hora da compra, a opção para muitos é a locação. E quando se tem uma maior procura por determinado serviço ou bem e uma menor disponibilidade desse, a tendência é de que ocorra a chamada lei da oferta e da procura. Por isso, os preços dos aluguéis tendem a aumentar - explica ela.

Ela destaca que, com menos funding, alguns bancos aumentaram as taxas ou o tamanho da entrada para financiar imóveis, o que também desestimula as compras e aquece a locação.

- Tem um próprio efeito de valorização dos aluguéis porque há uma diminuição da disponibilidade dos imóveis do estoque existente - destaca Marzulo.

Futuro

A economista-chefe do Secovi-RS afirma que novos movimentos e impulsos no setor podem provocar alguma descompressão. Alguns desses fatores são a inclusão de uma nova faixa no Minha Casa, Minha Vida e ajustes em outras faixas do programa habitacional. Já Marzulo afirma que o cenário menos favorável para a compra em algumas classes sociais dá sinais de continuidade nos próximos meses. Mas lembra que existe um limite para o avanço de preços.



05 de Maio de 2025
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes

Direto do Vaticano

O que eleições anteriores dizem sobre o atual conclave

A eleição de Jorge Bergoglio, o papa Francisco, foi surpresa só para quem não acompanhava debates internos da Igreja Católica. Em 2013, o argentino já era conhecido entre os cardeais, algo, aliás, que os atuais membros enfrentam com dificuldade neste conclave, devido à grande renovação empreendida por ele próprio.

É claro que o resultado dos votos na Capela Sistina é sigiloso, mas, com o tempo, conhecidos vaticanistas (especialistas em Vaticano), como John Allen, Austen Ivereigh e Marco Politi, acabam descobrindo os bastidores.

Sabe-se que Bergoglio ficou em segundo lugar no conclave de 2005. Foram quatro votações entre 18 e 19 de abril: Joseph Raztinger, o decano e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, sempre fora favorito. Mas o argentino também sempre fora seu adversário. Na quarta votação, Ratzinger teria recebido entre 84 e 92 votos, superando os 77 necessários (dois terços do total).

A certa altura, Bergoglio, inclusive, teria pedido que seus apoiadores não insistissem em seu nome para não dividir a Igreja. Havia outros votos para os cardeais Carlo Maria Martini e o então arcebispo de Milão, Dionigi Tettamanzi. Ratzinger, eleito, adotou o nome de Bento XVI.

Em 2013, foram cinco votações em dois dias, 12 e 13 de março. No último, Bergoglio teria obtido entre 85 e 90 votos, a maioria. O argentino, que já havia despontado anteriormente, agora se consolidava, conforme conta o jornalista Gerard O?Connell, no livro The Election of Pope Francis. Bergoglio teria recebido cerca de 35 votos no primeiro escrutínio, crescendo de forma contínua até alcançar a maioria no quinto. O segundo colocado foi o italiano Angelo Scola. Houve votos dispersos para o canadense Marc Ouellet e, inclusive, para o gaúcho dom Odilo Scherer, atual arcebispo de São Paulo.

O que é possível projetar

A polarização entre setores progressistas e conservadores, na Igreja Católica, é muito mais fruto dos dois últimos pontificados (Bento XVI e Francisco) do que resultado do atual estado das coisas no mundo.

Quando Ratzinger foi eleito, a Igreja Católica vinha de um período longo (26 anos) com um só papa, João Paulo II, um polonês - o primeiro Pontífice não italiano desde 1522. Foi um papa que enfrentou profundas divisões geopolíticas, como o fim da Guerra Fria. Era carismático e global, embora conservador na ortodoxia. Ratzinger, seu braço direito, era a garantia de continuidade: o favorito da Cúria. A sua eleição era a defesa da ortodoxia, temor da relativização da fé e continuidade teológica.

A renúncia de Bento XVI, em meio a escândalos de pedofilia no clero e crises na governança, como no Banco do Vaticano, exigia mudanças. A Cúria estava fragmentada e sob questionamento. A força dos cardeais reformistas, o chamado G8, que já havia se expressado em 2005, se consolidou em 2013. Os cardeais optaram por um papa que garantisse estabilidade com inflexão.

Não há dúvidas de que Francisco foi uma mudança brutal na história, o que torna muito difícil sua sucessão. Esse tensionamento é o que começa a ser desenhado no atual conclave: uma polarização, ainda que não desejada, entre a Igreja de Bento XVI e de Francisco. _

Cardeal dom Jaime celebra missa em Roma

Arcebispo de Porto Alegre e presidente da CNBB, cardeal dom Jaime Spengler celebrou ontem uma última missa na Igreja de São Gregório Magno, em Roma. A cerimônia segue uma tradição da Santa Sé em que, no período antes do conclave, a maioria dos cardeais brasileiros que escolherão o sucessor de Francisco celebra missas em suas paróquias na capital italiana. Como o papa é o bispo de Roma, os cardeais, ao serem criados, tomam posse do título de uma igreja na cidade.

As missas pré-conclave costumam atrair a atenção do público e da imprensa porque a homilia, durante a celebração, é a última manifestação pública dos cardeais antes de ingressarem na Capela Sistina na quarta-feira.

- Nesse período em que vamos escolher o sucessor de Pedro, devemos valorizar a comunhão. Não a divisão. Façamos isso com espírito de diálogo e oração - disse na cerimônia.

Brincalhão

Dom Jaime, que também é presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), apareceu de surpresa, antes da sua celebração, quando ocorria uma missa de Primeira Eucaristia. Brincalhão, subiu ao altar e colocou o solidéu vermelho sobre a cabeça de alguns meninos do grupo. Um dos garotos brincou:

- Você será papa.

O cardeal riu e disse que não. Ao final, abençoou fiéis que estavam nas portas da igreja. _

Capela Sistina se prepara para a votação

Fechada ao público desde o dia 28 de abril, a Capela Sistina está sendo preparada, internamente, para receber os cardeais que irão eleger o próximo papa, a partir de quarta-feira.

Na sexta-feira, a chaminé foi instalada no telhado, o que atraiu os olhares de quem estava na Praça de São Pedro.

No sábado, o Vaticano divulgou imagens internas da igreja, que mostram operários organizando os assentos dos cardeais e a parte interna do aparelho que servirá para a queima dos votos (acrescidos de substâncias químicas), que farão a fumaça subir branca ou escura.

A Capela Sistina tem suas paredes pintadas com afrescos de Michelangelo, como o Juízo Final e a Criação do Homem, as mais conhecidas obras do italiano. _

Orientações e discrição

Todos os cardeais receberam orientação do Vaticano para ingressar na Casa Santa Marta entre terça-feira à noite e, no limite, a manhã de quarta, antes da missa que será celebrada Pro Eligendo Romano Pontifice ("Elegendo o Pontífice Romano"), marcada para as 10h (5h pelo horário de Brasília). Após a celebração, haverá um intervalo e os cardeais votantes ingressarão na Capela Sistina em procissão às 16h30min. Nesse dia, haverá apenas uma rodada de votação.

Neste período pré-conclave, os cardeais brasileiros têm optado pela discrição à medida em que se aproxima o início da votação, optando por evitar entrevistas. _

INFORME ESPECIAL

sábado, 3 de maio de 2025



03/05/2025 - 14h00min
Martha Medeiros

Essa reconexão pessoal promovida pelos finais de romance não deveria assustar

É triste perder alguém, mas a separação só será desesperadora se você estiver perdido de si mesmo, se já nem souber mais quem é.

O problema é que muitas pessoas, ao saírem de um relacionamento, não se querem de volta.

A relação acabou de comum acordo, disseram. A gente sabe que não é bem assim, sempre tem um que lidera o desfecho e o outro concorda, mas, ainda assim, são finais civilizados. Decidida a separação, vem a fase do “quem fica com o quê”, que pode ser complicada quando se trata de um longo casamento, mas se era um namoro em casas separadas, é só cada um buscar suas roupas, livros e seguir a vida em frente. 

Seria menos sofrido, realmente, se a questão da devolução ficasse restringida apenas a coisas materiais. O problema é que muitas pessoas, ao saírem de um relacionamento, não se querem de volta. Não aceitam ser devolvidas para elas mesmas. Relacionamentos suprem carências. Casais não trazem apenas objetos para dentro da relação: trazem seus parentes, seus amigos, seu universo profissional.

Novos olhares e abraços. Infelizmente, na hora de separar, essa turma entra no inventário. Por mais que o afeto se mantenha, terminará a convivência. Você não será apenas a ex-mulher ou o ex-marido de alguém. Será também ex-cunhado, ex-genro, ex-nora, ex-madrasta, ex-padrasto. Mesmo tendo ampliado sua rede de contatos, precisará de equilíbrio emocional para voltar para si mesmo e ser bem recebido por aquele que você era antes da relação iniciar.

Nosso RG traz foto, assinatura e um número, mas essa é apenas a parte burocrática da nossa identidade. A matéria-prima que nos constitui vem de alegrias, traumas, aprendizados, bullying, conquistas e rejeições, enfim, tudo o que foi vivido antes de crescer e escolher alguém para compartilhar sua história. Não dá para iniciar uma relação esvaziado disso tudo. A pessoa que não consegue lidar com o adulto que se tornou, e que não preserva o lugar dentro dela que deveria chamar de “casa”, vira uma sem-teto hospedada na vida alheia.

Toda separação é uma devolução. Você é devolvido para si. Com mais bagagem e mais lembranças, mas tem que retornar ao seu eu essencial. Você é o seu próprio lar, diz a música. É triste perder alguém, mas a separação só será desesperadora se você estiver perdido de si mesmo, se já nem souber mais quem é. 

Machistas inseguros chegam a ponto de entrar em surto diante do rompimento e cometem feminicídio: no Rio Grande do Sul, seis mulheres foram assassinadas por seus ex-parceiros na última Sexta-Feira Santa. Tudo o que o criminoso consegue com essa violência é arranjar um novo lugar para morar: atrás das grades, onde aprenderá na marra a conviver consigo próprio.



03 de Maio de 2025
CARPINEJAR

Quem ronca não sabe que ronca

Não enxergamos os nossos defeitos. Como evoluir se não reparamos as nossas falhas? E não é por mal, é porque estamos viciados em nos proteger, condicionados a nos defender.

Parece que, com o erro exposto, deixaremos de ser amados. Entramos numa desvalia emocional, como se estivéssemos perdendo valor na hora da repreensão.

Não admitimos o ciclo natural do aprendizado, de absorção das críticas para o constante aperfeiçoamento. Se alguém próximo faz um comentário sobre algo para mudar em seu comportamento, você aceita de primeira?

Dificilmente. Você vai refutar, vai discutir, vai - talvez num processo compensatório - tentar encontrar um problema no outro para neutralizar o que você toma como um ataque. Ou seja, você não analisa os seus erros, o que precisa transformar em si para o bem da sua saúde emocional.

Você passa a vida inteira procurando aprovação, não transformação. Esta é a grande senha para o amadurecimento: quando você não quer mais a aprovação e finalmente acolhe a transformação, caminho que só pode ser feito a partir da aceitação.

Ao aceitar quem você é, reconhecer seus pontos fracos, você começa a se transformar, adquirindo novas habilidades. A equação matemática seria:

ACEITAÇÃO = TRANSFORMAÇÃO

Assim você combateria a fórmula:

APROVAÇÃO = RESISTÊNCIA À MUDANÇA

Ao se preocupar excessivamente com a opinião de terceiros, com o que fica na vitrine, com a sua reputação e imagem pública, sempre se sentirá ofendido com a verdade ou com observações alheias. Entenderá qualquer avaliação de sua postura como condenação (muito mais do que um julgamento). Oferecerá uma relutância mal-humorada e indisposta de acatar o contraditório, o contraponto, vivendo uma idealização de si, numa couraça impenetrável. Não se conhece - e odeia quem se mostra íntimo, capaz de apontar as suas imperfeições.

Uma ilustração desse modus operandi, inconsciente e involuntário, de não naturalizar as limitações - do ego cego - é o ronco.

Quem ronca não sabe que ronca. Não escuta o seu ronco. Seu ronco atrapalha quem está ao lado. Ele não sabe o quanto pode ser uma britadeira, o quanto pode ser enervante, o quanto pode ser insuportável, o quanto pode tirar o sono dos demais - já que não ouve o seu próprio defeito. Ele não testemunha a sua aterrorizante apneia, a sua falta de ar, o seu afogamento seco. Não sofre com aquilo que causa ao redor. Envolvido em sua cortina de dormência, sequer suspeita que a sua presença é nociva para os seus afetos.

É provável que rebata as advertências achando que são exagero, drama, perseguição ou ausência de apoio e compreensão. O maior prejudicado acaba sendo ele mesmo. Não percebe que a sua saúde está em risco com a baixa oxigenação do cérebro e a possibilidade de uma parada cardiorrespiratória.

Quando não conseguimos identificar o que devemos retificar, somos nossos maiores malfeitores. Somos, simultaneamente, vítimas e carrascos. _

CARPINEJAR