domingo, 17 de março de 2013


CARLOS HEITOR CONY

'A igreja está caindo!'

RIO DE JANEIRO - O jovem Francisco pertencia a uma família nobre e rica de Assis, uma cidadezinha na Úmbria, paraíso verde da Itália. Não dava muita bola para a sua classe, gostava de passarinhos, flores, chamava o Sol de "Irmão Sol" e a Lua de "Irmã Lua". Era poeta e místico, gostava de rezar.

Faz parte de sua história e de sua lenda. Estava na pequenina igreja próxima de sua casa quando ouviu a voz do Senhor: "Francisco, a igreja está caindo!". Apavorado, ele parou de rezar e deu o fora, ficou a certa distância, esperando a capelinha desabar.

Foi preciso que o Senhor se explicasse melhor. Nada contra a capela, Francisco entendera mal o aviso, a igreja que estava caindo não era aquela capelinha, era a igreja mesmo, como um todo, que mais uma vez atravessava uma crise daquelas.

Era necessário que alguém consertasse as coisas, fazendo a igreja voltar a seus valores essenciais de amor, humildade e pobreza. E não havia ninguém mais capaz do que o jovem Francisco, que já renunciara às pompas do mundo, para recuperar a mensagem fundamental do cristianismo.

Francisco criou uma ordem. Para não concorrer com outras, chamou-a de Ordem dos Frades Menores. Não quis se ordenar padre, não se julgava digno do ofício divino. Pouco depois surgiu um companheiro, por sinal um português que se chamava Fernando, mas mudou o nome para Antônio, que foi missionário e ficou famoso pelos milagres que fazia -dizem que faz milagres até hoje. É doutor da igreja, pregava aos peixes.

Francisco nada tinha de espetacular. Era, pura e simplesmente, um santo, irmão do Sol e da Lua. Nunca houve um papa que deu a si mesmo o nome de Francisco. O recado que o último conclave recebeu foi bastante claro: a igreja está precisando de alguém para consertar as coisas.

sábado, 16 de março de 2013



17 de março de 2013 | N° 17374
MARTHA MEDEIROS

A bota amarela

Houve um tempo que eu detestava roupas amarelas. O que não deixava de ser estranho, uma vez que essa cor tem uma energia que combina com meu estado de espírito. Mas me fechei para o amarelo de uma forma ranzinza e implicante, e nesse fechamento creio que enclausurei uma parte importante de mim que passou a fazer falta. A parte em que deixo de imitar a mim mesma a fim de permitir que eu me surpreenda.

Explico: durante a vida a gente vai assimilando ideias, cultivando gostos, estabelecendo maneiras de ser, até que vira um ser humano aparentemente acabado: sou desse jeito, prefiro isso, não suporto aquilo, minha turma é essa, daqui não saio. Instalamo-nos numa bolha confortável e já temos as respostas prontas para quem vier bater à nossa porta.

Na hora de enfrentar as demandas do dia a dia, nada mais simples: é só imitar aquela criatura com a qual nos habituamos. Já temos o manual de instruções decorado. Sou desse jeito, prefiro isso, não suporto aquilo etc, etc.

Até que chega um momento em que você se dá conta de que parece um boneco em que deram corda e que vive repetindo as mesmas frases, os mesmos gestos, sem nenhuma reflexão a respeito. Está há anos imitando a si mesmo, pois é fácil e rápido, um modelo pra lá de conhecido. No entanto, você tem uma reserva de imaginação, ainda sem uso, que deve ser acionada para o que, às vezes, se faz necessário: rasgar o manual e escrever uma nova história a partir do zero.

Pois então estava eu, caminhando por uma calçada, de bobeira, quando passei por uma vitrine e vi um desses manequins sem rosto vestindo um casaco colorido, uma calça jeans e uma bota amarela. Meu olhar de Cyborg (ninguém foi criança impunemente) focalizou a bota, deu-lhe ampliação e fez com que ela se destacasse do conjunto.

Eu não enxergava mais nada, só aquela bota amarela. E, como num transe, entrei na loja, pedi meu número e provei a bota, sem ter a mínima ideia onde, quando e com que coragem a usaria um dia. Eu simplesmente saquei meu cartão de crédito e comprei a metáfora da vida que eu pretendia levar dali por diante.

Se não usá-la, poderei colocá-la numa prateleira da parede para que ela me lembre de que não precisamos ter uma cor preferida, que nossas convicções podem ser reavaliadas sem prejuízo à nossa imagem, que o que a gente gostava antes não precisa ser aniquilado em detrimento de nossos novos e frívolos amores, que ninguém perderá sua essência só porque resolveu variar de personagem.

Insistir nas próprias convicções é um perigo. A certeza nem sempre é amiga da sanidade. Se eu fosse uma fashionista, ninguém estranharia, mas não sendo, há quem vá me achar meio maluca desfilando de bota amarela por aí. Não importa. Ela estará me conduzindo justamente ao saudável mundo do desapego de nossas crenças.


17 de março de 2013 | N° 17374
QUASE PERFEITO | FABRÍCIO CARPINEJAR

O amor depois do divórcio

Os promotores de justiça sabem. Os juízes sabem. Os terapeutas sabem. Os massoterapeutas sabem. As faxineiras sabem.

Nunca houve tanta reconciliação. Mais do que casamento e divórcio.

A reconciliação é o amor autêntico. O amor bandido que se converteu à lei. O amor bêbado que largou o álcool. O amor drogado que fugiu dos vícios.

A reconciliação é o amor depois das férias, recuperado da perseguição dos defeitos e da distorção das conversas.

É o amor depois da mentira, depois do tribunal, depois da maldade da sinceridade, depois da carência.

Casais que se prometeram o inferno, que disputaram a guarda na Justiça, que enlouqueceram os filhos com suas conspirações, decidem voltar a morar junto, para temor dos vizinhos, para o susto da parentada.

A reconciliação é uma moda entre os divorciados.

Mal se acostumam com o nome de solteiro e se envolvem com os mesmos parceiros. Mas os mesmos parceiros são outros. Outros novos. A distância elimina a culpa. A falta filtra a cobrança.

Eles experimentaram um tempo sozinhos para descobrir que se matavam por uma idealização.

Enfrentaram relacionamentos diferentes, exageros e excessos, contemporizaram os medos e as rejeições, provaram de frustrações amorosas.

Viram que o príncipe se vestia mal, e o sapo coaxava bonito. Viram que não existe demônio ou santo no amor. Não existe certo ou errado, existe o amor e ponto.

Este amor provisório, inconstante, inacabado e vivo.

Este amor pano de prato, não toalha de mesa, mas que serve para secar a louça e as lágrimas.

Quem era ciumento retorna equilibrado, quem era indiferente regressa atento.

A trégua salva e refina o comportamento. O casal passa a adotar no dia-a-dia aquilo que não admitia fazer e que o outro recomendava. O que soava como crítica antigamente passa a ser conselho.

Gordos emagrecem com exercícios físicos, brabos examinam seus ataques de fúria.

A saudade era um recalque e se transforma em sabedoria. O par percebe que é melhor ser inexato do que inexistente.

Durante a separação, ninguém aceita ressalva e exame de consciência. A separação é soberba, escandalosa, arrogante. Todos gritam e espalham os motivos da discórdia.

Já a reconciliação é humilde, ouvinte, discreta. Os amantes cochicham juras e esquecem as falhas. Baixam as exigências para aperfeiçoar o entendimento. A reconciliação é o amor maduro, o amor que ressuscitou, o amor que desistiu de brigar por besteiras e intrigas.

O amor que é mão dada entre o erro e o perdão. Mas que agora pretende envelhecer de mãos dadas para sempre.


17 de março de 2013 | N° 17374
PAULO SANT’ANA

A um amigo

Meu amigo, escrevo para ti, mandando-te notícias neste dia tão especial.

Quero te dizer que aqui permaneço em minha trincheira, fiel à nossa amizade.

Por onde fores, amigo, irei também trilhando as mesmas ruas.

Talvez já possas ter insinuado que me considero teu amigo para todas as horas, para o tempo do campo árido e sem flores e para o tempo das campinas verdejantes cobertas de lírios.

Amigo, Deus nos uniu por circunstâncias da vida. E noto que teima em não nos separar, por mais difícil e perigosa seja a interpessoalidade, sempre repleta de riscos de rompimentos.

Mas a nossa amizade permanece firme com todas as marés, como um rochedo.

Reparaste, amigo, que nossa obra é rigorosamente a mesma, que eu e tu nos atiramos em nossas vidas inteiras ao mesmo ideal, embora em ofícios diferentes.

Isso me dá o cutuco de que, ao fim de nossas vidas, teremos atingido a mesma e exata meta.

Então olharemos com orgulho o caminho que juntos percorremos.

Eu e tu temos o mesmo destino. Por isso, quando vou ao meu psiquiatra, o assunto entre o terapeuta e mim é sempre tu. E, quando vais ao teu analista, volta e meia o meu nome surge em meio ao diálogo da consulta.

Isso quer dizer que somos inseparáveis um do outro.

Isso quer dizer que de alguma forma a minha vida se amalgamou à tua, que não há como alguém deixar de me ver sem te enxergar.

E isso quer dizer que, quando avistam a tua obra, é inevitável que não me vejam no centro e seio dela.

Isso quer dizer que talvez sejamos a mesma pessoa, apenas nos distinguimos por personalidades diferentes, o que não tem nenhuma importância. Somos um só, indivisíveis.

Aqui na minha trincheira, vai tudo bem. Na tua sei que vai ainda melhor. Amigo, quem pode conhecer-te sem ambicionar ser teu amigo? Não por outra coisa, mas por tua fidelidade.

Amigo, que coisa boa ir dormir todos os dias sabendo que tu velas por mim, assim como velo por ti.

Às vezes, penso que foi Deus quem te pôs no meu caminho. E te pôs na minha trilha para amenizar as minhas dores, para tornar mais propícia a minha existência, para aplacar as minhas mágoas e consolar minhas enfermidades.

E pretendia eu que eu pudesse a ti servir como tu me serves. Acho imodestamente que de longe também te sirvo. Sinto que te incorporaste à minha família, como eu à tua.

Minha amizade contigo, portanto, não passa de uma transfusão de sangue. O que corre nas minhas veias é o mesmo que transita nas tuas. E esta coluna é apenas um dos reflexos que compõem a minha estima por ti.

Vida e saúde para ti, meu amigo, é o que desejo. E é tão grande a nossa amizade, que suspeito envergonhadamente que estou desejando isso também a mim próprio.


17 de março de 2013 | N° 17374
VERISSIMO

A loucura de Deus

Pedro era a pedra sobre a qual se ergueria sua igreja, disse Jesus, no primeiro trocadilho registrado pela História, segundo o Millôr. Mas foi Paulo quem a construiu. O apóstolo propagador levou o Cristianismo a todos os cantos do mundo conhecido e, na sua pregação, definiu o que havia de diferente na nova religião. Opondo-se a Pedro e aos cristãos primitivos de Jerusalém, Paulo marcou a distância entre a nova crença e suas raízes judaicas.

E para marcar sua distância da filosofia grega dominante proclamou o Cristianismo livre do racionalismo e do empirismo. Sapientiam sapientum perdam destruirei a sabedoria dos sábios disse Paulo, referindo-se a todas as formas de pensamento que a religião chegava para deslocar.

Na sua primeira epístola aos Coríntios, Paulo escreveu, pelo menos na minha edição da Bíblia, que a “loucura” de Deus era mais sábia do que a sabedoria de todos os sábios, “loucura” significando o descompromisso da fé com a lógica. Nascia aí a discórdia entre a Igreja e a Ciência que atravessaria os séculos.

Se Pedro foi o pai da Igreja como entidade mística, Paulo foi o pai da Igreja como entidade política e prática, e desde então as duas tradições competem ou se completam na luta contra o secularismo e a razão científica. É a força mística, a “loucura”, da Igreja que a mantém viva até hoje, é a força política que ela mobiliza nas suas batalhas históricas para manter-se relevante. Suas lutas contra heréticos como Galileu eram menos para defender conceitos consagrados como o Universo geocêntrico e mais para preservar poder político ameaçado, o que equivale a dizer que em muitos casos o obscurantismo da Igreja era pragmatismo mal pensado.

A Inquisição não aconteceu como terror contra agentes do Diabo e descrentes da Fé verdadeira, foi uma prolongada encenação de poder, um mise-en-scéne político com turnê internacional. A origem do terror não foi, portanto, a Igreja do simples e místico Pedro mas a do intelectual e craque em marquetchim Paulo

O admirável é que a força mística da Igreja de Pedro tenha sobrevivido a todas as derrotas políticas da Igreja de Paulo. Agora mesmo se discute a relevância de uma Igreja que se posiciona contra o uso de preservativos que podem evitar doenças e morte e contra experiências genéticas que podem salvar vidas - em nome de uma sacralização da vida. Dá quase para dizer que a “loucura” de Deus, fora do contexto em que Paulo a usou como sabedoria superior à razão e à lógica, é loucura mesmo.

Alguns dos novos pecados capitais publicados pelo Vaticano são surpreendentes. Agora é pecado ficar rico demais. O Vaticano só não especificou quanto é demais, talvez incerto sobre a sua própria riqueza. E perderam a oportunidade de transformar em pecado mortal, passível de uma eternidade no inferno, atender celular no cinema.

As igrejas de Pedro e de Paulo continuam competindo, como se viu na escolha do novo papa (estou escrevendo antes da fumaça branca). O que será mais temível, uma vitória de Pedro e dos simples em extinção ou uma vitória de Paulo e sua sede de relevância e poder, já que para as duas igrejas o descompromisso com a lógica das “loucuras” de Deus é o mesmo?

RUTH DE AQUINO

O que eles têm que nós não temos?

Os argentinos têm cinco prêmios Nobel. Os brasileiros, nenhum. Os argentinos têm dois Oscars. Nós, nenhum. Os argentinos têm vários deuses no futebol. Nós também. Sou muito mais Messi que Neymar. Os argentinos têm uma mulher na Presidência. Nós também. Sou mais Dilma que Cristina. Argentinos e brasileiros amam um churrasco ou uma parrillada. A carne deles é muito melhor, mais saborosa e mais macia. Agora, perdemos não só na carne, mas no espírito. Os argentinos têm um papa.

Por ser jesuíta e andar sem batina de metrô e ônibus, por se recusar a receber carro e casa mesmo sendo arcebispo, por trabalhar com carentes, por não discursar em favor da Cúria e não estar associado às contas suspeitas do Banco do Vaticano, sou mais Jorge Mario Bergoglio que Odilo Scherer. O que mais me conquistou no primeiro papa Francisco, de cara? O sorriso e a concisão ao saudar os fiéis, pedindo a eles sua bênção. Poucas palavras, nenhuma carranca – e o sorriso que ilumina os olhos.

A ascendência conta na personalidade. Bergoglio é um argentino-italiano, enquanto Odilo é um alemão-brasileiro. Na estampa, na postura. Sem entrar no mérito individual, para enfrentar os dilemas da Igreja Católica, os escândalos sexuais e financeiros e a perda de fiéis, falo apenas de uma questão prosaica: simpatia. Não é pop ter um papa que lê Borges e Dostoiévski e aprendeu a cozinhar com a mãe?

Dom Odilo perdeu também por ser favorito. Como os craques dos gramados, sofreu uma marcação cerrada desde antes do conclave, especialmente dos italianos, que queriam seu conterrâneo no trono, o cardeal Angelo Scola. Os carrinhos por trás no arcebispo de São Paulo deixaram o arcebispo de Buenos Aires livre na cara do gol.

Era o homem certo na hora certa. Faz sentido que o primeiro papa de fora da Europa em 1.272 anos tenha sobrenome italiano, ame ópera e seja torcedor apaixonado de futebol – mais exatamente, do clube portenho San Lorenzo, fundado por um padre.
Além do novo papa Francisco, os argentinos têm dois Oscars, cinco prêmios Nobel e Lionel Messi 

Há uma descrição popular bem conhecida da alma de nossos hermanos. Os argentinos são italianos que falam espanhol, mas pensam que são ingleses. Essa última parte da descrição está cada vez mais fora de moda, especialmente depois do recente plebiscito de cartas marcadas nas Malvinas. No arquipélago, um protetorado britânico com menos de 2 mil habitantes, a população continua entrincheirada nos pubs e no “fish and chips”, contra a reivindicação de soberania territorial da Argentina. Melhor dizer então que os argentinos pensam que são europeus. Até na decadência.

Hoje, nosso vizinho está acossado por uma economia em frangalhos, pelo desemprego em alta, pela inflação que provocou uma medida eleitoreira desastrada – o congelamento de preços – e pelo populismo de Cristina Kirchner, a presidente que sonha sair do poder apenas quando puder ser embalsamada. Vivemos agora com a Argentina tempos difíceis, que vão além da rivalidade folclórica e cultural. A Vale acaba de suspender o maior investimento privado da história da Argentina, de quase US$ 6 bilhões, por riscos políticos e econômicos.

Por tudo isso, a declaração espirituosa do novo pontífice – “Foram quase até o fim do mundo para buscar um papa” – se reveste de vários significados. Ele critica o governo Kirchner. A Argentina é bem mais fim do mundo que o Brasil.

O papa Francisco virá ao Rio de Janeiro para a Jornada da Juventude e deverá ser sucesso de crítica e bilheteria, por seu temperamento afável. Bergoglio passou rapidamente de argentino a “latino-americano”, para o Brasil também poder comemorar.

Assim, a gente esquece que nossos vizinhos dão de cinco a zero em prêmios Nobel (dois da Paz, dois de Medicina e um de Química) e dois a zero em Oscar (O segredo dos seus olhos, de Juan José Campanella, em 2010, e A história oficial, de Luiz Puenzo, em 1985). O cinema argentino é mais sofisticado, mais diversificado e tem melhores diálogos que o brasileiro. Escapa de nosso costumeiro trinômio violência, favela e comédia.

No futebol, a disputa é entre Messi e Neymar. O moleque de 21 anos precisa comer muito arroz com feijão para chegar à consistência do argentino. Messi só pensa na bola e na equipe. Aí dá o show da semana passada na goleada do Barcelona contra o Milan. Neymar precisa baixar a bola.

Entrou na roda-viva de festas, boates, casas de shows, publicidade, brinquinhos de diamante, penteados, franjinhas e cabelos coloridos. Na mesma noite, trocou o smoking no Teatro Municipal do Rio de Janeiro por uma fantasia de Kiko, personagem do seriado Chaves, numa festa em São Paulo, onde ficou até as 4 horas da madrugada com a atriz Bruna Marquezine. Discutiu com fotógrafos. Seis horas depois, foi treinar no Santos. Imagina na Copa.



16 de março de 2013 | N° 17373
NILSON SOUZA

Sinais de fumaça

Embora alguns cardeais naveguem com desenvoltura nas redes sociais, o Vaticano usou o mais pretérito dos recursos de comunicação para informar ao mundo o andamento do processo de escolha do novo papa: fumaça preta para dizer “nada feito”, fumaça branca para anunciar a esperada notícia. Ou inesperada, pois acabou dando o pouco cotado representante da Argentina.

A internet das fogueiras, pelo que andei lendo, foi inventada por soldados chineses, que se posicionavam ao longo da Grande Muralha e queimavam um preparado asqueroso (esterco de lobo, salitre e enxofre) para produzir a mensagem esfumarada de alerta sobre eventuais ataques inimigos.

Mas foram os índios americanos dos filmes do velho oeste que popularizaram o código morse vaporoso. Eles abanavam tapetes ou cobertores sobre fogueiras e avisavam o restante da tribo, com bolinhas de fumaça de vários tamanhos, de que a cavalaria estava chegando pela retaguarda.

Muito engenhoso, com a desvantagem de que qualquer pessoa alfabetizada na linguagem fumegante podia ler também. Além disso, o sistema dependia de repetidoras para atingir grandes distâncias, o que certamente aumentava o risco de mal-entendidos. Mais ou menos como naquela brincadeira infantil do telefone sem fio: o que se diz no ouvido do colega no início da fila quase sempre chega com ruídos no final – e não poucas vezes a mensagem é completamente deturpada.

Reflito sobre essas precárias formas de comunicação à distância e me dou conta de que não evoluímos tanto assim. Mesmo com a parafernália de equipamentos de que dispomos hoje para a comunicação instantânea, os mal-entendidos continuam.

E não estou me referindo apenas à novilíngua que a gurizada utiliza nas suas mensagens digitais, com absoluta preferência pelas consoantes (BLZ GLR, KKKK!!!). Refiro-me à dificuldade de muitos patrícios para interpretar corretamente um texto escrito, mesmo quando o autor acerta na ortografia e na gramática. O emissor tenta dizer uma coisa e o receptor entende outra, ou não compreende nada. O analfabetismo funcional, infelizmente, é uma realidade brasileira.

Mas a incompreensão não tem fronteiras físicas nem históricas. Cada cabeça, uma sentença – diz o antigo aforismo. Basta pedir a duas pessoas para descrever o mesmo fato ou a mesma paisagem para que se tenha dois relatos completamente distintos. Vemos o mundo e nos expressamos de acordo com nossa bagagem cultural, com nossos conceitos e preconceitos. Vivemos numa Torre de Babel, da qual só se pode entrar e sair pela escada da tolerância.

E de repente a fumaça branca nos traz um argentino humilde e simpático. Que coisa! Que lição!


16 de março de 2013 | N° 17373
VISÃO

Olhar preguiçoso

Má postura diante do computador inibe o bom desenvolvimento da visão das crianças

O uso incorreto de computador, videogame e outros gadgets está comprometendo o desenvolvimento da visão das crianças. É o que sugere um levantamento feito pelo oftalmologista Leôncio Queiroz Neto a partir dos prontuários de 835 crianças, com idade entre seis e 14 anos, atendidas nos últimos 24 meses pelo Instituto Penido Burnier, de Campinas.

Do grupo analisado, 8%, ou 67 crianças, foram diagnosticadas com ambliopia, ou olho preguiçoso. A má postura em frente ao computador dobrou a incidência de olho preguiçoso no grupo, comparada com o índice nacional de 4%.

Segundo Queiroz Neto, o compartilhamento do computador com os pais é uma causa frequente do problema. Ele observa que a posição da tela ajustada para adultos incentiva a criança ficar com a cabeça torta em frente ao monitor.

Com isso, cada olho recebe uma diferente quantidade de estímulo visual. Resultado: as crianças diagnosticadas com olho preguiçoso se queixavam de dor de cabeça, tiveram queda no rendimento escolar e passaram a evitar atividades esportivas.

O especialista explica que o olho humano se desenvolve até a idade de oito anos e precisa receber o mesmo estímulo neste período. O tratamento consiste na oclusão do olho de melhor visão para estimular o desenvolvimento do outro. Se não for feito até a idade de oito anos, o problema se torna irreparável e pode levar à cegueira funcional do olho mais fraco.


16 de março de 2013 | N° 17373
PAULO SANT’ANA

Papa acusado

Levanta-se agora contra o papa recém-eleito a acusação de que ele colaborou com a ditadura argentina.

Há até um livro editado na Argentina que acusa o papa Francisco, ao tempo que era cardeal, de ter entregue aos esbirros da ditadura dois padres jesuítas que foram torturados.

Não é nova a acusação. Por ocasião da II Guerra Mundial, até o papa de então, ao que me parece Pio XII, foi acusado de colaborar com o nazismo e ter sido com ele leniente.

E, com outras ditaduras pelo mundo, a Igreja foi também acusada de colaboracionismo.

O porta-voz do papa eleito declarou ontem que não é verdadeira a acusação que se faz ao pontífice que está por assumir. Repudiou esse grave libelo.

E o papa Francisco, ele próprio se defende, alegando que, como cardeal, “fez o que pôde” no posto para quem sabe defender seus subalternos dos atos da ditadura argentina.

Mas eu pergunto: durante a ditadura argentina, o papa de então se voltou contra ela, pelo menos em pronunciamentos?

Que eu saiba, não. Por sinal, a Igreja tem sido visivelmente omissa em condenar os regimes totalitários. O Vaticano está cercado territorialmente pela Itália, um país solidamente democrático há 68 anos.

Por isso e por ser um Estado independente, tinha de ter a coragem de condenar com veemência a violação dos direitos humanos em qualquer país do mundo, até mesmo nos democráticos, ainda mais nos ditatoriais.

Mas, historicamente, o Vaticano se omite de forma lamentável neste aspecto.

Ora, parece-me essencial que, acima de todos os governos, compete ao Vaticano se levantar contra os ataques aos direitos humanos em qualquer parte do mundo, muito mais talvez quando eles se verificam em países de cultura católica, como aconteceu na Argentina.

O papa eleito declarou que “fez o que pôde” quando era cardeal para se opor à ditadura.

Sinto dizer que tinha de fazer mais do que podia. Tinha o dever talvez até de sair às ruas e incitar seu povo a uma reação pelo menos em reuniões e manifestações populares de repúdio ao totalitarismo.



16 de março de 2013 | N° 17373
CLÁUDIA LAITANO

Odeio, logo existo

Eles sempre existiram, ainda que não como coletivo organizado e coeso. A maioria vivia isolada, maturando no porão de suas almas atormentadas uma paixão secreta (ou nem tanto). Os “haters”, ou “odiadores”, são uma instituição tão típica da nossa época quanto o smartphone e a barrinha de cereal.

A tecnologia encarregou-se de lhes dar voz e peso, ampliando seu alcance e encurtando as distâncias entre os que cultivam afinidades negativas comuns. Tornaram-se tão importantes como termômetro da fama quanto o número de paparazzi na frente dos hotéis: para cada fã disposto a comprar uma música do seu ídolo corresponde pelo menos um odiador capaz de dizer que nunca antes na história desse país alguém cantou tão mal assim.

Em volume e empenho, provavelmente não existe grupo de odiadores mais atuante do que o do cantor Justin Bieber. Os “bieber haters” não se limitam a ironizar a música, o visual ou a persona pública do guri. Junto com seus discos e o seu rosto nas capas de revistas, eles parecem querer eliminar do planeta o seu topete e tudo o que vem embaixo. São uma presença funesta tão incontornável, que Justin Bieber chegou a dedicar um prêmio a eles no ano passado – o que era para ser uma ironia, mas pode ser entendido também como uma espécie de capitulação. Reconhecimento é tudo o que um “hater” deseja.

Um adulto talvez possa dar-se ao luxo de dedicar ao assunto do ódio na internet a mesma indiferença reservada aos discos de Justin Bieber. (Isso se esse adulto não tiver o excruciante costume de ler as seções de comentários em blogs e sites de notícias.) Para boa parte dos adolescentes de hoje, porém, o odiador virtual é, em certa medida, um personagem tão cotidiano quanto o porteiro da escola.

Na arena onde se desenrola boa parte da sua vida social, a internet, odeia-se muito e apaixonadamente – pessoas, conhecidas ou não, causas, artistas, ideias. Escolhendo alguém ou algo para atacar, o odiador cria um escudo e uma identidade ao mesmo tempo. Odeio, logo existo.

Na escola, uma discussão de colegas que deveria começar e terminar na hora do recreio pode ganhar a dimensão de uma Batalha de Waterloo se for parar no Twitter ou no Facebook – onde a plateia costuma entrar na arena para atiçar leões e mártires e os desdobramentos do embate são sempre imprevisíveis. É nessas horas que adultos e projetos de adultos precisam caprichar no bom senso.

Pais sempre tiveram que ensinar aos filhos a usar a razão, a se controlar, a medir consequências e exercitar a tolerância. A diferença agora é o alcance que grandes ou pequenas trocas de ofensas podem tomar quando se desenrolam na praça pública da rede social, onde a reação de polegares digitando uma resposta desaforada pode ser muito mais rápida do que a de um neurônio processando a informação. (Se inventassem um teclado à prova de impulsos, provavelmente haveria muito menos bobagem na internet.) Responder a um “hater” no mesmo tom é ser dominado e rebaixado por ele.

“Haters”, “trolls” e outras criaturas das trevas estão aí para ficar. São uma doença sem cura, mas talvez seja possível fazê-los sofrer cortando o suprimento daquilo que mais necessitam: atenção.

Ou, no caso do Justin Bieber, simplesmente continuando a fazer sucesso.

rosane.oliveira@zerohora.com.br

Rosane de Oliveira: Cair e não se ajoelhar

Colunista fala sobre a demissão dos ministros Mendes Ribeiro Filho e Brizola Neto

Demitido do Ministério da Agricultura por pressão do PMDB mineiro, que ameaçava apoiar Aécio Neves em 2014 se não ganhasse mais espaço no governo de Dilma Rousseff, o deputado federal Mendes Ribeiro não aceitou o prêmio de consolação oferecido, a fantasmagórica Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Com 109.775 votos na eleição de 2010, Mendes Ribeiro não precisa de favor. Se aceitasse o rebaixamento, estaria se humilhando por nada. A SAE não dá voto nem prestígio. Até hoje não disse a que veio. O ex-governador Moreira Franco a aceitou por falta de coisa melhor, na reforma de ontem, migrou para a empoderada Secretaria de Aviação Civil.

Mendes não caiu apenas porque o PMDB mineiro pediu o cargo para Antônio Andrade. Caiu também porque a presidente não estava satisfeita com seu desempenho, apesar dos elogios dos líderes do agronegócio no Rio Grande do Sul.

 Embora seja esforçado, Mendes não é da área e não tem as respostas técnicas que Dilma exige de seus ministros na hora de apresentar um projeto ou um balanço de resultados. O longo e difícil tratamento contra o câncer no cérebro dificultou sua integração na área. Se Dilma estivesse satisfeita com seu trabalho, teria feito outro arranjo para acomodar os interesses do PMDB.

Mendes caiu também porque era quase uma indicação pessoal de Dilma, com um empurrão do vice-presidente Michel Temer, empenhado em abrir vaga para o suplente Eliseu Padilha. Na eleição, foi uma voz quase isolada no PMDB gaúcho a defender o apoio à dupla Dilma-Temer. A maioria dos líderes peemedebistas ficou entre a neutralidade e o apoio a José Serra. E Dilma sabe que, na reeleição, a influência de Mendes no PMDB gaúcho é limitada.

Por motivos semelhantes e outros adicionais, caiu também o ministro do Trabalho, Brizola Neto. Sem força no PDT e sem experiência de gestão, ele teve uma atuação pálida em um ministério que é a menina dos olhos do trabalhismo. Não conseguiu se firmar como interlocutor das centrais sindicais, tarefa que Dilma precisou delegar ao ministro Gilberto Carvalho.

O acirramento da disputa no PDT, com as sucessivas demonstrações de força do grupo de Lupi e a radicalização pela família Brizola, deixou Dilma sem opção. Mesmo sendo protegido do ex-deputado Carlos Araújo, Brizola Neto perdeu o cargo para Manoel Dias, que tem a bênção da bancada federal.

Confira abaixo, a íntegra da nota publicada pela Presidência da República sobre a saída dos ministros.

Nota à Imprensa

Os ministros da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, deputado Mendes Ribeiro, do Trabalho e Emprego, deputado Brizola Neto, e da Secretaria de Aviação Civil, Wagner Bittencourt, estão deixando seus cargos depois de prestarem importante colaboração ao governo e ao país.

O deputado Antônio Andrade assumirá o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

O Ministério do Trabalho e Emprego será ocupado pelo advogado Manoel Dias.

A Secretaria de Aviação Civil será dirigida pelo ministro Wellington Moreira Franco, que deixará a Secretaria de Assuntos Estratégicos.

A presidenta Dilma Rousseff agradeceu a dedicação, o empenho e os inestimáveis serviços prestados pelos ministros Mendes Ribeiro, Brizola Neto e Wagner Bittencourt em suas áreas. Eles continuarão contando com seu apoio e confiança.

A presidenta deseja bom trabalho a Antônio Andrade, Manoel Dias e Moreira Franco nas importantes missões que passarão a desempenhar.

As posses dos novos ministros ocorrerão neste sábado pela manhã, tendo em vista a viagem da Presidenta da República ao Vaticano.

Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

sexta-feira, 15 de março de 2013


MOISÉS NAÍM

Cinco livros sobre o poder

"O poder de comandar frequentemente provoca falhas no pensar", diz Barbara Tuchman

Ando pensando muito atualmente sobre como o poder está mudando no mundo de hoje. Estes são cinco livros velhos que me vêm ajudando a entender tendências novas.

Thomas Kuhn, "A Estrutura das Revoluções Científicas" (1962): Kuhn argumenta que a ciência nem sempre avança por meio do acúmulo gradual de conhecimentos, na chamada "ciência normal".

Periodicamente a normalidade é subvertida por revoluções que derrubam o edifício intelectual inteiro da física ou biologia, por exemplo. Assim, a "ciência normal" regularmente desaba sob o peso de informações que as teorias recebidas não explicam e pelas revelações de novas explicações. A isso damos o nome de "mudança de paradigma".

Embora o livro seja sobre ciência, implicitamente trata de como o poder flui de uma facção para outra, rival.

Barbara W. Tuchman, "A Marcha da Insensatez - De Troia ao Vietnã" (1985): o que têm em comum a Guerra de Troia, a fragmentação da Santa Sé, a perda das colônias americanas da Inglaterra e a Guerra do Vietnã? A insensatez.

De acordo com esta historiadora, esses quatro fiascos foram movidos por indivíduos determinados a promover políticas contrárias a seus interesses e que obstinadamente rejeitaram opções melhores. Por quê? Porque "o poder de comandar com frequência provoca falhas no pensar".

Gabriel García Márquez, "O General em Seu Labirinto" (1990): Simon Bolívar conheceu o poder. Quando morreu, aos 47 anos, tinha libertado seis nações e sido chefe de Estado de cinco delas. No entanto, ele morreu sem poder, consumido pela tuberculose, frustrado por suas derrotas políticas.

Neste magistral relato fictício da arrastada morte de Bolívar, o Nobel de Literatura Gabriel García Márquez escreve que "o desespero, a doença e a morte inevitavelmente derrotam o amor, a saúde e a vida". Um livro belo que revela tanto sobre a condição humana quanto sobre a natureza fugaz do poder.

John Arquilla e David F. Ronfeld, "The Advent of Netwar" (1996) (A chegada da guerra de redes): Os autores são visionários: prenunciaram que redes ágeis, descentralizadas e adaptáveis de combatentes não tradicionais criariam desafios inusitados às organizações militares. Descreveram esses novos conflitos como "guerras de redes" e previram que se tornariam o modo dominante de conflito no século 21. Para eles, as estratégias militares tradicionais "provavelmente se mostrarão insuficientes para lidar com conflitos não lineares, de multidões, da era da informação, na qual elementos sociais e militares se misturam estreitamente". Se você tiver alguma dúvida quanto a essa previsão, pergunte ao Taleban.

Felipe Fernandez-Armesto, "Os Desbravadores: Uma História Mundial da Exploração da Terra (2006): o autor narra a fascinante história das explorações do mundo.

O livro é a história de como, nos últimos 5.000 anos, exploradores ousados impelidos por motivações humanas básicas - especialmente a busca do poder uniram o mundo.

@moisesnaim

BARBARA GANCIA

Um papa para neutralizar o populismo

Já existiu um garoto-propaganda mais influente na cultura ocidental do que Jesus Cristo?

"MARISA, PODE colocar as brejas pra gelar!" Penso que deve ter sido a única vez na vida em que soltaram rojão lá em São Bernardo diante de um placar final favorável à Argentina.

Já imaginou se, no lugar do jesuíta com pinta de Pio 12, tivessem escolhido dom Odilo Scherer? O papa brasileiro viraria herói nacional, um novo Ayrton Senna. E Lula arriscaria cair para segundo plano.

Não é nada fácil ser mais popular do que um papa. Pense só: quem consegue competir com a força da imagem do símbolo cruz? Por acaso o logo da Apple? Existe garoto-propaganda mais influente no Ocidente do que Jesus? Pergunte a Woody Allen se os judeus não estão correndo atrás do prejuízo até hoje.

E que valor teria um discurso do Lula dizendo ser o novo Abraham Lincoln diante da voz de um papa brasileiro sacudindo seu dedinho com o anel de Pedro, dançando abraçado ao padre Marcelo e dizendo: "Nananina, Jesus não concordaria com nada disso do que Lula está dizendo". Não é da oposição merreca do PSDB que estamos falando, né não?

Por um motivo ou outro, como já disse aqui, não necessito de intermediários em minha interlocução com Cristo. Tampouco preciso que essa ponte seja feita por uma instituição como o Vaticano, que tem o péssimo hábito de descuidar de suas finanças e foi liderada até recentemente por um deslumbrado teutônico de sapatinhos vermelhos de verniz da Prada cuja melhor amiga e confidente vem a ser Gloria von Thurn Und Taxis, figura carimbada em São Paulo por anos a fio e muy amiga do artista plástico Ivald Granato, meu chapinha.

O ex-marido de dona Gloria, um dos irmãos Flick, herdeiro da Mercedes-Benz, alugava um apartamento da minha família, na Suíça, só para alojar seus empregados domésticos nas férias.

Ela faz parte do grupo íntimo de Bento 16 e é do tipo que tem visões da Virgem de Guadalupe antes mesmo de tomar o primeiro Steinhäger da noite, uma espécie de Baby Consuelo da Baviera. Quisera estar inventando tudo isto.

Mas voltando à felicidade de Lula, mesmo não tendo sido dom Odilo o escolhido, há razão para preocupação por parte da esquerda latino-americana.

O Vaticano acertou sua jogada de marketing. Chutou para escanteio seu lixo e chamou para o centro do campo a preocupação com o avanço das igrejas televangélicas que lhe roubam fiéis e fazem qualquer tipo de acerto com o populismo para ocupar o poder na América Latina.

Um continente, diga-se, que a despeito da globalização, prefere insistir em variações paternalistas de modelo chavista ou peronista liderados por "pais dos pobres" carismáticos, dos quais a população continua a exigir garantias de emprego, educação, saúde, enfim, de tudo menos reformas que combatam a corrupção e em que primitivos sistemas de referendos e cooperativas sejam substituídas pela economia de mercado e instituições que formem democracias representativas de base sólida.

Espertinho esse Vaticano. A eleição do papa argentino não tem como não lembrar a eleição do papa polonês, Karol Wojtyla, que coincidiu com o nascimento do movimento Solidarnosc na época da ruína da União Soviética e culminou na ruína do comunismo.

Hoje, o planeta está mais fragmentado e a Igreja Católica não exerce o mesmo poder de antes. Porém, sobre o terreno mais valorizado de toda capital do mundo ainda há uma igreja. Ou seja, no mínimo, o Vaticano possui a carteira de imóveis mais invejável do cosmos. E não se deve subestimar uma "empresa" com mais de 1 bilhão de clientes e cuja marca é mais reconhecida do que Ford, Apple e Coca-Cola. Poderia ter sido pior. Mas eu ainda tremeria se fosse o Lula.


GASTÃO VIEIRA
TENDÊNCIAS/DEBATES

Ora, direis, contar estrelas

A três meses da Copa das Confederações, a quase totalidade dos hotéis não aderiu à classificação de estrelas feita pelo governo

Quem já passou pelo inconveniente sabe como é difícil conter a frustração: o turista chega ao destino de férias dos seus sonhos depois de meses planejando uma viagem; paga por um hotel que se anuncia como três, quatro ou até mesmo cinco estrelas; e, no final, encontra acomodações de qualidade muito inferior ao que fora anunciado.

Durante mais de uma década, esse constrangimento foi lugar-comum no Brasil. Sem regras claras de classificação, o setor hoteleiro do país viu-se vítima de uma verdadeira grilagem de estrelas, distribuídas por hotéis, pousadas, resorts e flats de acordo com os critérios de cada um.

O resultado foi uma perda gradual da confiança do turista na hotelaria brasileira. As estrelas passaram a ser vistas como simples referência aproximada ou, pior, como mais uma dessas regras que "não colam" no Brasil. Isso causou problemas à imagem do país no exterior e uma competição desleal entre empresas que zelavam pela qualidade de seus serviços e outras que se aproveitavam do descontrole.

A situação começou a mudar em 2008, quando foi sancionada a Política Nacional do Turismo (lei nº 11.771), prevendo o estabelecimento de normas de classificação dos meios de hospedagem por regulamento posterior. Essas finalmente foram instituídas pelo decreto nº 7.500/2011, que criou o Sistema Brasileiro de Classificação de Meios de Hospedagem, o SBClass. Ele trouxe de volta as estrelas à hotelaria brasileira e deu ao Ministério do Turismo a exclusividade na sua distribuição.

O SBClass foi estabelecido após uma série de estudos, que analisaram experiências de 24 países. Em 2010, mais de 300 especialistas foram consultados em uma série de oficinas, que terminaram em seis cursos de capacitação e 26 avaliações-piloto. Seus critérios nada têm de arbitrário, portanto.

Além disso, pensando numa concorrência justa, as estrelas do SBClass são definidas de acordo com sete categorias de estabelecimento. Assim, resorts não competem com hotéis, pousadas não competem com hotéis históricos.

Os critérios também são distribuídos de acordo com uma matriz, de forma que alguns itens são, por assim dizer, "de série" -todo hotel cinco estrelas precisa ter TV por assinatura nos quartos-, enquanto outros são "opcionais" -nem todo hotel cinco estrelas precisa ter piscina.

O custo da classificação é baixo: menos de R$ 900 por três anos de registro, dependendo do estabelecimento. Ele inclui a placa com as estrelas e a visita do Inmetro, órgão que fechou uma parceria com o Ministério do Turismo para vistoriar o cumprimento dos critérios.

Apesar de tudo isso, a adesão dos hotéis ao sistema tem sido incrivelmente baixa. Somente três dezenas se registraram até agora para ganhar estrelas, num universo de cerca de 6.260 que integram o Cadastur, o cadastro oficial de empresas de turismo do governo brasileiro.

Na prática, isso significa que sites de viagem continuam vendendo estabelecimentos sem classificação oficial (e, em alguns casos, gato por lebre) e que hotéis legitimamente estrelados ainda estão competindo em desvantagem. O mercado ainda está recebendo a sinalização errada, a três meses da Copa das Confederações.

Acredito que a razão para o aparente desinteresse seja o desconhecimento do SBClass por parte das empresas. Há uma mitologia em torno dos critérios de classificação que não resiste ao menor escrutínio: muitos dos critérios são eletivos e muitos dos obrigatórios são itens que os hotéis já possuem.

Há também, possivelmente, resistências localizadas em algumas cidades de hotelaria antiga, mas que não são maiores do que o desejo do setor de ser competitivo e jogar limpo com o cliente.

Embora o decreto que criou o sistema dê ao ministério a prerrogativa de retirar estrelas de hotéis não cadastrados, preferimos convencê-los a aderir. Mas a proximidade dos grandes eventos requer que esse processo seja acelerado. Afinal, o maior interesse de todos, independentemente do número de estrelas, é que o turista volte, sempre.

GASTÃO VIEIRA, 66, é ministro do Turismo

Jaime Cimenti

Vaticano

Estive no Vaticano duas vezes. Na primeira vez, eu tinha onze anos e não atinei muita coisa, até porque me senti meio tonto nos subterrâneos da Basílica, onde estão os túmulos de alguns Papas. Com a ajuda de um guia do Touring Club, meu pai me ensinou sobre a colunata de Bernini e outros detalhes arquitetônicos e me levou ao Museu do Vaticano. Vinte anos depois, voltei ao Vaticano. Aos trinta e um, depois de visitar a Praça, a Basílica e o museu, me sentei para descansar, pensar sobre o local e observar o que meus olhos fascinados contemplavam.

A Basílica, as colunas, os monumentos, as estátuas, as esculturas e tudo mais me passaram, acima de tudo, uma sensação de eternidade. Fiquei pensando sobre uma instituição única, de dois mil anos, presente em quase todo o mundo, com milhões de fiéis.

Pensei na minha infância e juventude em Bento Gonçalves, onde fui batizado e crismado. As missas eram longas, em latim, os sermões idem e a mão de minha mãe teimava em apertar a minha quando tentava sair antes da hora.

A mão de um menino irrequieto que não gostava muito de cerimônias, pompas, solenidades e formalidades. Bom, tinha o aroma do incenso e os sons buliçosos das campainhas dos coroinhas, que, elegantes, vestiam vermelho e branco e, depois da missa das dez, tinha o passeio no centro, a compra do Correio do Povo e uns olhares para as gringuinhas lindas da cidade.

Quando elas olhavam de volta ou sorriam, aí a presença de Deus ficava ainda mais nítida e luminosa na Capital Brasileira do Vinho. Depois de trocarem ideias sobre os rumos da Igreja, os cardeais elegeram um novo Papa, em segredo. Nessas poucas linhas não dá para escrever e falar muito sobre dois mil anos de Igreja Católica, mas fico pensando que a Igreja é comparável ao mar, com sua infinitude, seus movimentos e ondas eternos, seus momentos de calma e de tempestade, suas tradições e renovações, seus pastores e fiéis e seus mistérios. Tomara que o Papa Francisco consiga modernizar e reformar a Igreja, tomara que a simplicidade, a caridade e o verdadeiro espírito cristão prevaleçam.

Tomara que Jesus Cristo, São Francisco de Assis, Madre Teresa, Irmã Dulce e outros gigantes sigam iluminando, feito faróis, os caminhos da barca, que segue navegando no infinito, com a realidade, a fantasia, a fé, os temores, a esperança e a desesperança e a vida e a morte de nós, humanos, pequenas estrelas de um céu sem limites. (Jaime Cimenti)


15 de março de 2013 | N° 17372
ARTIGOS - Gustavo Schifino*

Respeito ao consumidor

Se você escrever “Eu amo a Apple” em sua barra de pesquisa, receberá cerca de 3,5 milhões de resultados. Caso a declaração de amor seja dirigida a outras marcas que investem bilhões de dólares em publicidade a cada ano, como é o caso de Citibank, AT&T Wireless e ExxonMobil, o retorno não será tão significativo ou estimulante como contabiliza a Apple. É uma daquelas situações em que dinheiro, decididamente, não compra amor, menos ainda um “like” ou a fidelidade do consumidor. E esta sexta-feira é o Dia do Consumidor, que, com as redes sociais, conquistou mais voz e força.

O consumidor se desfez da posição de quietude no pós-compra e adotou um posicionamento definitivo, deixando claro quando gosta, ou não, de um produto ou mesmo de um atendimento. A expansão do uso de plataformas móveis de comunicação, como celulares e smartphones, modificou a forma como as empresas se relacionam com os clientes. Se antes a mensagem era transmitida como uma via de mão única, agora o atendimento precisa se concentrar em ouvir os consumidores. Este posicionamento transforma o varejo – e quem adota boas práticas, investe em qualificação da equipe e possui transparência ganha destaque.

Comparar preços e expressar sua opinião dá força ao consumidor e é um estímulo para que as lojas tenham cada vez mais qualidade e dedicação no atendimento direto, fator decisivo na fidelização de um cliente. Todos querem ser bem atendidos e buscam espaços que tenham a ver com o próprio estilo de vida.

Nessa relação, as práticas sustentáveis também são fundamentais. A população está cada vez mais bem informada e se preocupa com o ambiente. Métodos que causam menor impacto são temas importantes para o consumidor contemporâneo e carimbam a relação entre loja e cliente com o selo de atitude correta.

Nota fiscal, cumprimento de prazos, controle de validade, selos de certificação, boa qualidade e bom atendimento são itens pelos quais todos nós, consumidores, pagamos. Ao menos, quando não recorremos a falsificações, informalidade, aos produtos de origem desconhecida e à pirataria. Para o varejista responsável, é preciso uma troca com um consumidor responsável, que estimula e prestigia o comércio e a indústria legais.

Assim, no mês em que comemoramos o dia daquele que sustenta o nosso desenvolvimento, parabenizamos e agradecemos a força que ele imprimiu a sua voz e reforçamos que o respeito é a base das relações.

*EMPRESÁRIO, PRESIDENTE DA CDL PORTO ALEGRE


15 de março de 2013 | N° 17372
PAULO SANT’ANA

Papeando sobre papas

O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio entrou no conclave como cardeal e saiu dele como papa.

Já o cardeal italiano Angelo Scola, apontado em todas as pesquisas como o favorito para ser papa, entrou no conclave como papa e saiu dele novamente como cardeal.

Certamente o novo papa, enquanto era apenas cardeal e viajou para Roma para participar do conclave, teve uma premonição: achou que deveria ser o papa.

Essas coisas acontecem assim: todos os 115 cardeais, quando se dirigiram ao conclave, tiveram a premonição de que sairiam dele como papa.

Chegou a vez da América do Sul e das três Américas de ter um papa.

Foi um reconhecimento da Igreja para o continente americano, que tem o maior número de católicos em todo o mundo.

Um dia há de haver um papa africano, dia chegará em que haverá um papa asiático em homenagem a São Paulo, que foi quem catequizou aquele continente.

Só que vai ser impossível que Roma eleja alguma vez um papa africano ou asiático com sobrenome italiano, como aconteceu anteontem.

Os cardeais elegeram agora um papa argentino, porém com sobrenome italiano.

Pergunta: será que Bento XVI, que agora está recolhido em seu tugúrio de Castel Gandolfo, continua santo, apesar de ter renunciado ao pontificado?

Digo isso porque se chama a todo papa de Sua Santidade. Será que também se chama o papa emérito de santidade?

Será que Bento XVI imitará o ex-presidente Lula e continuará dando as cartas, embora nominalmente não seja o governante?

Noticia-se desde ontem que o papa Francisco, sempre quando ainda era bispo ou cardeal, demonstrava humildade ao andar de metrô em Buenos Aires.

Andar de metrô em Buenos Aires é fácil, eu queria ver Francisco sofrer agruras, andando de ônibus em Porto Alegre.

Repito: dia haverá em que a Igreja elegerá uma papisa.

É preconceituoso que as mulheres freiras não tenham acesso à honra cardinalícia.

Mas eu já li certa vez que não é necessário ser cardeal para ser eleito papa, qualquer católico pode ocupar o trono de São Pedro.