quinta-feira, 7 de março de 2013



07 de março de 2013 | N° 17364
L. F. VERISSIMO

Elefante na sala

A única maneira de conviver com um elefante na sala é fingir que ele não está ali. Ignorá-lo. Se algum visitante desavisado perguntar o que um elefante está fazendo na sua sala, a resposta padrão deve ser “Que elefante?”. No Brasil, nos acostumamos a conviver com elefantes na sala.

Exemplo: só quase 30 anos depois do fim do período de exceção inaugurado em 1964 uma comissão começa a procurar a verdade sobre o que realmente aconteceu durante o período. Por quase 30 anos este elefante específico não mereceu atenção e viveu entre nós como um parente apenas vagamente incômodo.

A tal comissão não vai punir, antes tarde do que nunca, os desmandos da época. Os criminosos de então estão anistiados, mesmo identificados não sofrerão castigo ou sequer reprimendas da sua própria corporação. Mas pelo menos o elefante está sendo reconhecido. E citado.

Outros elefantes continuam ignorados, e continuam na sala. Hoje não há nenhuma dúvida de que o cigarro mata e o fumo é a principal causa do câncer no Brasil e no mundo. No caso do Brasil, só o volume de impostos que a indústria do fumo paga ao governo explica que não haja um combate mais aberto e decisivo ao vício assassino.

Em alguns casos, a indústria tem até vantagens fiscais. Já o volume de impostos não pagos pelas religiões organizadas explica a proliferação de igrejas e seitas no país e a presença de pastores evangélicos brasileiros nas listas dos mais ricos do mundo. Mas a isenção dada ao negócio da religião é um dos assuntos intocáveis do país, um elefante enorme cuja presença na sala nem a imprensa nem ninguém se anima a reconhecer.

Potência

Contam que o Stalin, avisado de que determinada decisão iria desagradar ao Vaticano, teria perguntado “E quantas divisões tem o papa?”. Descontando-se a Guarda Suíça, que só existe para fins decorativos, o papa, como se sabe, não tem tropas.

Mas o Stalin se espantaria com a demonstração de poder do Vaticano dada pela cobertura da renúncia do Papa e das especulações sobre o seu sucessor. Páginas e páginas de jornal, horas e horas de televisão – um triunfo de potência desarmada. A União Soviética tinha as divisões. Não tinha as relações públicas da Igreja.

quarta-feira, 6 de março de 2013



06 de março de 2013 | N° 17363
MARTHA MEDEIROS

O que é ser mulher

Sempre que chega essa época do ano, prometo a mim mesma: minhas próximas férias serão tiradas em março. Vou alugar uma choupana em Ushuaia e só volto quando pararem de falar no Dia da Mulher. Apenas para evitar a pergunta que tantos pedem que a gente responda: “O que é ser mulher?”.

Basicamente, ser mulher é ter nascido com os cromossomos XX. Será que isso responde à questão? Responde, só que de modo desaforado. Espera-se que colaboremos: “Ser mulher é ser mãe, esposa, profissional... ”. Alguém ainda aguenta essa churumela?

Se é para refletir sobre o assunto, então sejamos francos: ninguém mais sabe direito o que é ser mulher. Sofremos uma descaracterização. Necessária, porém aflitiva. Entramos no mercado de trabalho, passamos a ter liberdade sexual e deixamos para ter filhos mais tarde, se calhar. Somos presidentes, diretoras, empresárias, ministras. Sustentamos a casa. Escolhemos nossos carros. Viajamos a serviço. Saímos à noite com as amigas. Praticamos boxe. O que é ser mulher, nos perguntam. Pois, hoje, ser mulher é praticamente ser um homem.

Nossa masculinização é um fato. Ok, nenhuma mulher desistirá de tudo o que conquistou. A independência é um ganho real para nós, para nossa família e para a sociedade. Saímos da sombra e passamos a existir de forma plena. E o mundo se tornou mais heterogêneo e democrático, mais dinâmico e produtivo, em suma: muito mais interessante. Mas não nos deram nada de mão beijada, ganhamos posições no grito, falando grosso. E agora está difícil reconhecer nossa própria voz.

“Sou mais macho que muito homem” não é apenas o verso de uma música de Rita Lee, é pensamento recorrente de cérebros femininos. Alguém ainda conhece uma mulher reprimida, omissa, sem opinião, sem pulso? Foram extintas e deram lugar às eloquentes.

Nada de errado, repito. Acumulamos uma energia bivolt e isso tem nos trazido inúmeros benefícios – deixamos de ser um simples acessório, nos integralizamos. Mas essa nova mulher ainda se permitirá um segundinho de “cuida de mim”? Se os homens estão se permitindo ser frágeis, por que não nos permitimos também, nós que temos os royalties dessa condição?

É no amor que a mulher recupera sua feminilidade. É na relação a dois. Na autorização que dá a si mesma de se sentir cansada e de permitir que o outro tome decisões e a surpreenda. É através do amor que voltamos a confiar cegamente, a baixar a guarda e a deixar que nos seduzam – sem considerar isso ofensivo. Muitas mulheres estão desistindo de investir num relacionamento por se julgarem incapazes de jogar o jogo ancestral: eu, provedor; você, minha fêmea.

Os homens sabem que já não iremos nos contentar em receber mesada e ficar em casa guardando a ninhada, mas, na intimidade, que tal deixarmos a testosterona e o estrogênio interpretarem seus papéis convencionais?

Um amor sem tanta racionalidade, sem demarcação de território, sem guerra pelo poder. Amolecer de vez em quando, com entrega, com gosto. É onde ainda podemos ressuscitar a mulher que fomos, sem prejuízo à mulher que somos.



06 de março de 2013 | N° 17363
ARTIGOS - Cláudio Furtado*

A grelha ou a vida?

Homem leva tiro e morre. Motivo da morte: uma briga pela disputa de uma grelha, esta de fazer churrasco, assar salsichão, um pedaço de carne, uma coxa de galinha. Ouvi a notícia na Rádio Gaúcha enquanto seguia para o trabalho, na manhã chuvosa da última terça-feira. Logo me lembrei de uma grelha de churrasco que tenho, lá em casa, meio enferrujada, jogada num canto do pátio. Confesso que me senti mal, perdido, desanimado.

Claro que este crime da grelha não deve ter acontecido assim, no seco. Aqueles velhos e surrados ingredientes, como a bebida, uma disputa amorosa, brincadeiras de mau gosto, podem ter contribuído para a tragédia. Mas vocês já se deram conta como a vida tem valido pouco! Uma advogada me disse, certa vez, no seu trabalho diário com menores delinquentes, que não era rara a afirmação: “Matei o cara porque ele me olhou feio”. O cara, no caso, podia ser um chefe de família, um pai, um trabalhador, que olhou indignado para o guri assaltante. E simplesmente levou um tiro, e morreu.

Recentemente, Zero Hora publicou matéria sobre o crescente número de homicídios no Rio Grande do Sul, um aumento de 17% em relação a 2011.

Excluindo a questão da droga, responsável maior no ranking das agressões, furtos, roubos, prisões e mortes, arrisco uma lista, sem medo de errar, de situações banais, que resultam em conflitos graves, muitos com vítimas fatais: furto de boné e de pastel (casos recentes acontecidos em São Paulo, com mortes); tumulto entre vizinhos em razão de animais (aquele cachorro que não para de latir durante a madrugada); cortes de galhos de árvores que invadem o terreno alheio; foguetes em dias de futebol, principalmente comemorando gol em Gre-Nal; som elevado (este é comum durante as férias, nas praias). Não vamos esquecer, é lógico, as brigas amorosas, que não ficam atrás na lista dos BOs (boletins de ocorrências policiais).

No trânsito, então, é muito fácil brigar. E é fácil matar, e morrer também. Uma batidinha, um palavrão, um acionamento de alguém ao lado, e pronto, já está aberta a tampa do caixão. Então, meus amigos, vamos seguir o método, praticamente infalível, que tem ajudado muita gente a sobreviver: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10. O segredo é contar até dez naqueles momentos de tensão. Eu já faço parte desta seita. Não quero valer menos que uma grelha enferrujada.

*JORNALISTA


06 de março de 2013 | N° 17363
ARTIGOS - Fernando de Oliveira Souza*

Morrer com dignidade

A medicina é, dentre todas as profissões, a mais envolvida com as fantasias das pessoas leigas, principalmente no que concerne à morte, contra a qual ela luta diuturnamente e sempre acaba perdendo no longo prazo.

Dentre as especialidades médicas, duas são particularmente envolvidas: o emergencista e o intensivista. O primeiro costuma ser o “herói” ao atender pacientes do trauma, por exemplo, que estavam muito bem até o acidente e podem ficar muito mal, “à beira da morte” após o trauma, cabendo a este médico “salvá-los” numa primeira instância.

O intensivista, entretanto, é aquele que lida com todo o tipo de complicações, inclusive daquele próprio paciente “salvo” pelo emergencista e continuamente é exigido em decisões cruciais quanto à vida das pessoas, sendo por isso muitas vezes tachado de vilão.

As UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) foram “gestadas” no final do século 19, durante a guerra da Crimeia (mais uma grande contribuição que as guerras sempre proporcionam à evolução da medicina) e evoluíram sensivelmente durante o século 20, contribuindo significativamente para a diminuição da mortalidade dos pacientes graves.

São definidas como “unidades complexas dotadas de sistema de monitorização contínua que admite pacientes potencialmente graves ou com descompensação de um ou mais sistemas orgânicos e que com o suporte e tratamentos intensivos tenham possibilidade de se recuperar”.

Essa última palavra – recuperar – é que faz toda a diferença. A medicina tem, com todo seu armamentário diagnóstico, plena capacidade de estabelecer critérios de quadros clínicos considerados irreversíveis, sem possibilidade de recuperação do paciente. As UTIs não são para este tipo de paciente, embora muitas vezes as famílias pressionem por sua internação.

São os casos dos pacientes com doenças em fase terminal. Estes pacientes, se pudessem escolher, certamente prefeririam estar entre seus entes queridos, se possível em suas casas, do que num ambiente despersonalizado, portando uma infinidade de tubos e acessos, prolongando seu sofrimento.

Morrer em casa, nestes casos, por que não?, mas principalmente morrer com dignidade.

*MÉDICO E PROFESSOR UNIVERSITÁRIO


06 de março de 2013 | N° 17363
PAULO SANT’ANA

Humildade, governador!

Uma pena que a ideia de que fossem construídos e administrados os próximos presídios gaúchos pela iniciativa privada tenha sido da ex-governadora Yeda Crusius.

Só por isso não vão acontecer.

É que o governador Tarso Genro pretende que os presídios sejam construídos, mas não administrados pela ação privada.

Ora, a iniciativa privada construindo mas não administrando os presídios é a mesma coisa que construí-los e depois entregar a chave do galinheiro para a raposa.

Uma das argumentações para não entregar a administração dos presídios para empresas privadas é a de que atualmente cada preso gaúcho custa ao erário R$ 1 mil, enquanto que um preso administrado por empresa privada custaria R$ 2,7 mil, quase três vezes mais.

Nada mais falacioso. E peço ao governador Tarso Genro que dê especial atenção ao que de agora em diante é escrito nesta coluna.

O promotor de Justiça Adriano Marmitt desmascarou em Zero Hora do dia 3 de março último a tese de que os presos sob regime privado seriam mais caros do que os presos sob regime público.

Ele declarou que hoje o gasto do poder público é baixo porque os presos vivem amontoados, sem receber cuidados essenciais.

Agora escrevo eu: evidentemente que presos tuberculosos e aidéticos, na sua quase maioria, custam mais barato. Evidentemente que presos que convivem com o esgoto nas galerias custam mais barato.

É lógico que presos que não trabalham na prisão custem mais barato.

E é também visceralmente lógico que, se a iniciativa privada vier a administrar os presídios, com presos livres da tuberculose e da aids, eles terão de custar mais caro aos cofres públicos.

Mas será que não enxergam isso? Com a administração privada nos presídios, os presos terão de trabalhar e estudar, custarão mais caro, ora bolas!

Ou seja, os presos custam mais barato porque a administração pública condenou-os à morte por doenças ou à morte por assassinatos dentro das prisões.

A higiene custa caro. A podridão nas galerias custa baratíssimo.

Mas será que o governador Tarso Genro não está vendo que o barato sai caro?

Tarso Genro tem de ter humildade suficiente para recuar e mandar que a iniciativa privada não só construa os presídios como os administre.

O nosso atual governador tem de recuar e acabar com essa ideia de não dar a administração dos presídios para a iniciativa privada só porque a ideia partiu da ex-governadora.

A ideia de administração privada gerir os presídios é luminosa. Até mesmo porque hoje o que acontece? Acontece que quando vai mal a coisa dentro dos presídios, não há como cobrar do administrador público, não há como demiti-lo sequer.

Enquanto que, sob administração privada, com qualquer falha nessa administração, o governo age depressa e pode até sustar o contrato se o quiser e justificar.

Governador Tarso, quem aconselha amigo é, debaixo desses argumentos demolidores: recue, governador.

E consagre-se como o governador que há de redimir o sistema prisional gaúcho.

Felipão convocou o gremista Fernando para a Seleção, ontem. E dizer-se que Fernando foi reserva no Grêmio da estreia na Libertadores...

Aqui se faz, aqui se paga.

terça-feira, 5 de março de 2013



05 de março de 2013 | N° 17362
CLÁUDIO MORENO

Homens e mulheres (19)

(41) Os que pensam que o brasileiro inventou o culto ao traseiro feminino não sabem que esta nobre parte do corpo sempre foi valorizada na tradição cultural do Ocidente – principalmente pelos povos do Mediterrâneo.

Na Grécia antiga, uma das representações de Afrodite mostrava a deusa erguendo displicentemente a parte de trás do seu manto para conferir, com ar satisfeito, a beleza de seu traseiro. Não por acaso, essa escultura, em que o próprio olhar da deusa conduzia o olhar do espectador, ficou conhecida como Afrodite Calipígia (“a de belas nádegas”).

Uma das saborosas histórias contadas por Ateneu, cronista de curiosidades, falava de duas irmãs de Siracusa que, para decidir qual delas era mais atraente, abandonaram as sutilezas e foram, sem o menor pudor, mostrar na beira da estrada o que tinham de melhor. Diante do primeiro rapaz que lhes agradou, ergueram – com uma desinibição bem brasileira – a parte de trás das vestes e pediram que ele decidisse qual era o derrière mais bonito. Maravilhado, ele escolheu uma delas, e seguiu o seu caminho com a cabeça tomada por aquela visão.

Ao contar ao irmão mais jovem a causa de sua perturbação, este o convenceu a levá-lo até lá no dia seguinte – e realmente lá estavam as duas, magníficas, com tudo ao vento. Refeita a pergunta – qual a mais bela? –, ele escolheu justamente a outra irmã, o que permitiu que a história terminasse num duplo casamento. Como os dois jovens tinham uma grande fortuna, as duas irmãs, agora ricas, erigiram naquele lugar um templo a Afrodite Calipígia, a quem deviam a sua felicidade e o seu sucesso social.

(42) Um gênero literário muito pouco estudado – talvez por ser tão breve e fugaz – é o grito de guerra, aquele brado que os soldados emitem no instante decisivo em que vão mergulhar no inferno das batalhas.

Ao longo de nossa história, os tipos mais cultivados geralmente ficaram entre o religioso e o patriótico, como “Em nome de Cristo!”, “Pelo rei e por São Jorge!” ou “Pátria e liberdade!”; não seria justo, no entanto, deixar no esquecimento o inusitado grito de guerra do Conde Caetano de Bourbon, pequeno personagem da história espanhola que nem seria mencionado não fosse por sua originalidade.

Casado com a infanta Isabel, filha da rainha Isabel II, nem pôde aproveitar sua lua-de-mel: acabada a cerimônia, o jovem casal estava chegando a Paris quando, na Espanha, uma revolução depôs a rainha-mãe.

Sem hesitar, Caetano despediu-se da jovem esposa e foi se juntar ao exército legalista, que se preparava para uma derradeira e infrutífera tentativa de resistir aos rebeldes – e ali, na batalha na ponte de Alcolea, em Córdoba, à frente de uma unidade de cavalaria, surpreendeu amigos e inimigos ao entrar em combate aos gritos de “Viva minha sogra!”. Seu exemplo, ao que se saiba, não encontrou seguidores.


05 de março de 2013 | N° 17362
PAULO SANT’ANA

O vício da novela

Estive pensando sobre as causas do sucesso estrondoso das novelas na televisão.

A primeira novela da Globo data de 1965, com O Ébrio. Já lá se vão 48 anos.

De lá para cá, não parou mais o sucesso.

Há novelas da Globo que paralisam o país nos últimos capítulos.

Arrolei alguns motivos. Em primeiro lugar, é uma diversão barata, só se gasta energia elétrica para assistir a uma novela.

Em segundo lugar, quando uma pessoa que vê novela começa a assistir pelo primeiro capítulo, vai até o último: portanto, a Globo garante audiência durante toda a novela.

Em terceiro lugar, as novelas da Globo mostram preferencialmente atores e atrizes bonitas. E o povo tem uma tendência de admirar pessoas bonitas.

Em quarto lugar, quando uma pessoa começa a ver uma novela, garante já diversão boa e barata por vários meses, é um contrato de parceria entre o telespectador e a emissora de televisão, um contrato que se firma duradouro.

Em quinto lugar, quando se vai ao teatro, além do espetáculo durar só por uma noite, vai-se ver uma peça e ela termina ali.

Já com a novela é diferente, ela vai durar meses e vai prender a atenção do telespectador durante todo aquele tempo. Porque novela é uma diversão seriada, as histórias que são contadas nela são concatenadas, encaixam-se uma na outra e não há como o telespectador perder um só dia do programa. Depois que ele põe na cabeça o enredo, não pode tirar nunca mais da mente. Vê num dia e fica, assim, obrigado a ver no outro.

Em sexto e último lugar, há que elogiar a qualidade da dramaturgia que a Globo apresenta nas novelas, isso é apreciado e elogiado em inúmeros países.

Mas agora, por último, vou dizer por que nunca assisti a qualquer novela.

É que sempre que estou zapeando na televisão vejo rapidamente cenas de novelas com brigas entre marido e mulher, entre familiares, sempre as brigas, algumas dramáticas, uma choradeira geral, bronca, bronca e mais bronca.

E se a minha vida já é só feita de broncas, como eu me distrairia na televisão, assistindo a mais e mais broncas? Pra me estressar?

Por isso me recuso há 48 anos a ver qualquer novela.


05 de março de 2013 | N° 17362
DAVID COIMBRA

Belas e poderosas

Houve um período da história do papado chamado de “Pornocracia Papal”, ou “Saeculum Obscurum”, que latim é muito mais bonito. Deu-se entre os séculos 10 e 11. Durante grande parte desse tempo que tão longe já vai, mulheres belas e poderosas mandaram na Igreja Católica, donde o termo “Pornocracia”.

Elas não eram prostitutas, como acusavam os preconceituosos contemporâneos e sugere o prefixo “porno”, mas sabiam usar a beleza do corpo e a argúcia da mente, e mulheres que conseguem unir uma a outra qualidades são atraentes e perigosíssimas, por elas move-se o mundo. Assim, as damas do Saeculum Obscurum fizeram e desfizeram papas, que era o que de mais importante se podia fazer e desfazer naquela época.

Uma dessas mulheres era a duquesa Agiltruda, descrita como uma loira lindíssima, de cabelos longos e sensualidade porejante. Não é nome de mulher bonita, sei, mas isso faz mais de mil anos, e as modas de nomes vêm e vão, não duvido que daqui a algum tempo comecem a surgir Agiltrudas por aí, e elas ganhem o Garota Verão.

Mas o que interessa aqui é que Agiltruda odiava um certo papa Formoso, que vivia atrapalhando-lhe os planos de transformar seu filho, Lamberto, em imperador (pelo nome do filho você pode perceber como as crianças sofriam lá no século 10).

Agiltruda era uma mulher rancorosa. Tanto que nem a morte de Formoso (outro nominho) aplacou-lhe a ira. Como vingança póstuma, fez o sucessor de Formoso, Estevão VII, promover o julgamento do papa morto por diversos crimes que ela mesma se encarregou de imaginar. O corpo de Formoso foi exumado, vestido com as vestes papais e sentado no trono para ser julgado.

Visão dantesca, uma vez que fazia já três estações que havia sido enterrado. Formoso, obviamente, foi condenado. Arrancaram-lhe, então, os trajes papais, amputaram-lhe os três dedos da mão direita com os quais abençoava os fiéis e jogaram-no nas águas turvas do Tibre. Esse episódico ficou conhecido como Sínodo do Cadáver.

Esse sínodo horrendo foi assistido por outras duas mulheres que mais tarde se tornariam tão poderosas quanto Agiltruda: Teodora e sua filha Marózia, então com uns oito anos de idade. Era uma criança, Marózia, mas um dos cardeais que julgava o cadáver de Formoso apaixonou-se por ela. Mais tarde, esse cardeal assassinou um ou dois papas até tornar-se, ele mesmo, papa, sob o nome de Sérgio III. Então, Teodora ofereceu-lhe a filha de presente. Sérgio aceitou, encantado. Marózia tinha 15 anos de idade e uma imensa sede de poder.

Marózia e Teodora continuaram mandando na Igreja mesmo depois da morte de Sérgio. O esporte preferido delas era trocar de maridos e eleger papas. Como disputavam poder, há quem diga que Marózia mandou matar a própria mãe por envenenamento. Depois, seguiu dirigindo o Ocidente até os 42 anos de idade, quando um papa mais esperto prendeu-a nos porões mais profundos do Castelo de Sant’Angelo, aquele lindo palácio redondo que fica ao lado da Basílica de São Pedro. Marózia achou que conseguiria sair daquela enrascada. Não conseguiu. Continuou encarcerada por 54 anos, até que a estrangularam na cela.

Marózia, Teodora, Agiltruda. Três entre tantas. As mulheres, que terão sua data comemorada agora, no dia 8, elas influenciaram até no comando da Igreja Católica, que elegerá um novo papa nos próximos dias. Só do mando do futebol elas continuam apartadas. Mandam nos Céus e na Terra, mas não num campo de futebol. Será que isso é bom ou ruim para o futebol?


05 de março de 2013 | N° 17362
FABRÍCIO CARPINEJAR

Todo cuidado é muito

Ela disse sim. Você somente tem que dirigir ao motel e não estragar a excitação.

Fica indeciso entre puxar ou não puxar conversa. Não fale nada mesmo. É um período tenso, minutos nos quais um beijo vale mais do que mil palavras.

Antes da transa, todo mundo é carente, sensível, atento, telepata. O remorso dorme no desejo e sofre de sono leve.

As respirações dentro do carro já estão cortadas, fatiadas. O negócio é segurar o clima até o quarto. Não se arrisque com frases de efeito e piadas. Faça um carinho, segure na mão, a pele é o único caminho seguro que existe depois do gemido.

Ela pode se arrepender, voltar atrás e pedir para que você a leve para casa. Não dê tempo para pensar. O pecado abomina pausas.

Controle ansiedade, procure o equilíbrio oriental (o todo, não a metade da metade que é cada oposto) e jamais, mas jamais, realize o jogo dos sete erros, uma série de atos altamente broxantes:

1) Não ligue o rádio, principalmente em AM, com as últimas notícias da ronda policial e das votações do Senado.

2) Não ponha suas músicas prediletas e cante alto. Ela não pediu para ir a um karaokê. É muita intimidade vê-lo gritar Joe Cocker de olhos fechados.

3) Fuja de engarrafamento. É fácil desistir preso na primeira e segunda marcha durante dois quilômetros. Ela baterá em seus ombros e comentará com compaixão: “Deixa para a próxima”. Saiba que não existe próxima. É um eufemismo para “nunca mais, querido”.

4) Não é hora de abastecer. Entrar em posto de gasolina mata o prazer. Ainda que seja gasolina aditivada. Melhor parar no acostamento com tanque vazio do que perder sua companhia. Frentista lembra família. Se um dos dois estiver traindo, não terá condições psicológicas de seguir em frente.

5) Não diga “só um minuto” para um pulinho na farmácia. Transar é como uma longa viagem, check-list deve ser feito com antecedência.

6) Não atenda telefone. Conversar com mãe ou filho na véspera do sexo não rende bons fluidos. Interrompe a saudável circulação das fantasias eróticas.

7) Não discuta com a atendente do motel sobre o acréscimo de R$ 20 entre um quarto com banheira de hidromassagem e outro sem. Não seja avarento. Tampouco é o momento de ouvir uma aula sobre as diferenças entre Super Luxo, Luxo, Suíte Tropical, Mini Suíte, Suíte Embaixador e Suíte Imperial. Escolha um quarto rápido. Para não errar, selecione umas das ofertas do meio da lista, nem suntuosa, nem ralé.

O portão abriu. Garantiu o sexo, isso se não apagar o carro ao estacionar na garagem.

segunda-feira, 4 de março de 2013



04 de março de 2013 | N° 17361
KLEDIR RAMIL

Escuta

De uns tempos pra cá, surgiu no Rio de Janeiro uma onda de saraus. Sarau, por definição, é uma “reunião festiva para ouvir música, conversar, dançar”. Nessa nova concepção, vem a ser um encontro de compositores em casas e apartamentos para mostrarem uns aos outros o que andam produzindo.

Um dos pioneiros dessa moda é o gaúcho Totonho Villeroy, que abriu as portas de sua casa no Leblon para agrupar gente talentosa que anda solta por aí. É uma nova cena cultural que já revelou artistas como Maria Gadú.

É mais ou menos como os encontros que aconteciam no apartamento de Nara Leão em Copacabana, nos anos 1960, que geraram a bossa nova e – guardadas as devidas proporções – as noitadas que a gente fazia na “casa da Dona Laura”, mãe da Liane, onde surgiu o Almôndegas.

Essa ideia de um espírito de grupo, sem precisar ser um movimento e nem uma banda, é uma novidade saudável, resultado do instinto de sobrevivência dos artistas, que buscam outros caminhos, depois da falência do antigo modelo das grandes gravadoras. E vem ajudando a entortar os conceitos estabelecidos na forma de se ouvir/consumir música.

Há pouco tempo, em Porto Alegre, fui a um show na Galeria La Photo, onde iriam se apresentar dois sobrinhos meus: Ian Ramil, que está lançando agora seu primeiro CD, e Thiago Ramil, que já está pensando no seu. Escuta – O Som do Compositor foi pra mim uma revelação. A essência é a mesma dos saraus: novos autores, mostrando suas canções, só de voz e violão. Tudo começou também em apartamentos e evoluiu para espaços abertos ao público, não apenas para convidados.

O Escuta se define como um bando sem “unidade estética ou ideológica”, com o objetivo de encontrar “pontos de contato entre uma geração, estabelecer diálogos e descortinar a cena musical da cidade”. E consegue. Traça um panorama animador da nova música porto-alegrense.

É claro, como tenho dois sobrinhos ali, me sinto assim meio “tio” orgulhoso de todos os outros: Gisele de Santi, Romes Pinheiro, João Ortácio, Rodrigo Panassolo, Ed Lannes, Alexandre Kumpinski, Leo Aprato, Clarissa Mombelli, Alécio e Saulo Fietz. Mas independente de meu envolvimento afetivo, posso garantir: a “gurizada” é boa mesmo. E vem mais por aí. A turma não para de crescer, já são mais de 30.

É gente nova botando a roda pra girar. Com talento.


04 de março de 2013 | N° 17361
PAULO SANT’ANA

O pai da criança

Vou transcrever abaixo, em homenagem ao grande Dorotéo Fagundes e seu excelente programa das manhãs de domingos na Rádio Gaúcha, Galpão do Nativismo, a estrofe inicial do poema mais lindo de toda a obra genial de Jayme Caetano Braun:

A maior das gauchadas

Que há na Sagrada Escritura

– Falo como criatura –

Mas penso que não me engano,

É aquela em que o Soberano

Na sua pressa divina

Resolveu fazer a china

Da costela do paisano.

A inveja não tem limites. Agora estão vindo à tona pessoas que declaram que desde 2010 “namoram” o centroavante Barcos para contratá-lo para o Grêmio.

Pura inveja. Eles dizem que namoram Barcos há muito tempo. Só que Fábio Koff não namorou nem noivou com Barcos, foi desde logo arrastando o argentino para o altar. Eles namoraram e Koff casou, que é o que interessa.

Eles “namoraram” Barcos como namoraram Fred e tantos outros. Tudo balela. Pura invencionice, que tem o único fito de tentar desvalorizar quem teve o lance de indicar Barcos e ir, sem namoro, contratá-lo, o que foi operacionalizado por Rui Costa.

Que caras de pau! Os namoradores! Há os que namoram e há os que casam. Há os que bolinam e há os que levam para a cama.

Perguntem ao Fábio Koff, esse dirigente sobrenatural, quem foi que insistiu para que ele comprasse Barcos. Perguntem e terão uma surpresa.

Perguntem a Fábio Koff quem é o pai dessa criança, terão uma surpresa.

Mas, quando obtiverem a resposta, tenham a certeza que toparão com alguém que entende de futebol.

Eu estava vendo anteontem um documentário sobre outro gênio, o jornalista e dramaturgo Nélson Rodrigues.

E o assisti em gravação, pessoalmente, dizer o seguinte: “Muita gente gravita em torno do futebol por ele ser apaixonante. Mas a maioria das pessoas que gravita em torno do futebol, cerca de 99%, não entende nada de futebol. São curiosos e palpiteiros. Raramente se encontra entre eles quem entenda de futebol”.

Assino embaixo do que escreveu Nélson Rodrigues. Para entender de futebol é preciso escrever numa coluna um só nome, Dario, Dario, Dario, umas 800 vezes, implorando que o Grêmio contratasse Dario.

E o Grêmio não contratou. O Inter foi lá e trouxe Dario.

E Dario foi responsável por mudar a história do futebol gaúcho, sagrando o Colorado como octocampeão regional e tricampeão brasileiro.

Isto é que é entender de futebol. O Rio Grande inteiro foi testemunha dessa coluna histórica. 

RUBENS RICUPERO

Signo de contradição

Ao revelar sua fragilidade, Bento 16 alcançou mais corações que no uso dos meios do poder de papa

Se vivemos em tempos sem fé e se a Igreja Católica é irrelevante e fala sozinha, segundo se apregoa, como explicar a fixação de manchetes de jornais e TV na renúncia de um papa octogenário?

Em razão do ineditismo do gesto, da sensação criada por escândalos romanos, até se compreenderia o impacto do choque inicial.

Mas, dia após dia, semanas a fio, o fascínio da história convida a buscar outros motivos.

Um deles seria a carência de uma figura paterna, sobretudo em época pobre de grandes homens, quando os líderes são, por toda a parte, mornos e insossos. Mesmo desse ponto de vista, Bento 16 se enquadra de modo diferente.

Ele não é, como o antecessor, um grande papa político, cujo papel enérgico teria sido decisivo na queda do comunismo.

Tampouco tem aquele ar bonacheirão de avô bem humorado e contador de histórias de João 23.

Seu jeito é mais do mestre escolar de sorriso tímido. Todo seu pontificado não foi mais que uma lição repetida com infinita paciência.

Nisso me lembra Julius Nyerere, o fundador da Tanzânia, que conheci bem em Genebra. Um dos raros heróis da independência africana capaz de criar um país que superou os ódios tribais, Nyerere só aceitava um título -o de Mwalimu, o singelo professor que tinha sido e jamais cessou de ser.

Nyerere ensinou que não é o exercício absoluto do poder que constrói, mas sim o exemplo da abnegação, a capacidade de se impor limites, de deixar o poder quando o julgavam insubstituível.

Da mesma forma que seu vizinho Mandela, soube sair no momento em que todos queriam que ficasse.

Não foram os grandes líderes da guerra e da paz -Churchill, Roosevelt ou de Gaulle- os gigantes morais que dominaram o século.

O ensinamento do perdão e da reconciliação de Mandela e a pregação da não violência até o sacrifício da própria vida por Gandhi ou Martin Luther King se mostraram muito mais fecundos e duráveis que os efeitos do poder.

Ninguém exerceu o poder de modo mais brutal e absoluto que Stálin, do qual nada ficou a não ser a maldição dos descendentes de suas incontáveis vítimas. O próprio ditador confessou, num instante de melancolia, que, no final, quem ganhava sempre era a morte.

Ao confessar que em horas difíceis "o Senhor parecia dormir", ao revelar sua fragilidade, Bento 16 fez mais pela nova evangelização, alcançou mais corações que no uso dos meios do poder centralizado de pontífice.

Abrir mão da "glória de mandar", da vã cobiça "dessa vaidade a quem chamamos fama", faz parte do processo pelo qual o grão de trigo tem de morrer para poder dar fruto.

Sinal de contradição, Jesus legou à igreja a herança de continuar a ser a força dos fracos, a grandeza dos pequenos e humildes.

Ao encarnar de novo o signo de contradição, Bento 16 nos dá esperança de que tinha razão François Mauriac ao dizer pouco antes de morrer: "Às vezes penso que somos os últimos cristãos, mas depois me pergunto -será que somos os últimos cristãos ou seremos os primeiros?"


04 de março de 2013 | N° 17361
L. F. VERISSIMO

Dama de computador

Depois de saber que o Chico Buarque também fica jogando paciência no computador em vez de trabalhar, me senti desagravado. Eu não estou perdendo tempo ou protelando o momento de começar a escrever, quando jogo paciência. Estou, digamos assim, fazendo alongamento do músculo cerebral.

Ou distraindo o cérebro enquanto a verdadeira criação se dá em outro nível, no inconsciente. E se isso parecer conversa de vagabundo para se justificar, agora tenho um argumento irrespondível: o Chico Buarque faz a mesma coisa!

Há muitos jogos no meu computador, com vários graus de complexidade, mas até agora só aderi à paciência, o mais fácil. Um dia tentei jogar dama no computador. Eu fui bom em dama quando era garoto. Nunca progredi da dama para o xadrez, talvez pela mesma razão que me impediu de gostar de matemática, entrar em labirintos e pensar muito profundamente sobre os buracos negros.

(Dizem que dama é xadrez para as almas simples). Joga-se dama de computador não contra o computador, mas contra outro jogador que esteja na linha, movimentando-se uma peça no tabuleiro e esperando que o adversário, em alguma parte do mundo, movimente uma sua. Mas não consegui ir além de duas ou três peças movimentadas. Estava jogando bem, mas tive que parar.

Até agora não sei explicar minha sensação diante daquele adversário que eu não via, que não sabia onde estava ou que cara tinha, embora estivéssemos, para todos os efeitos, cara a cara. Era como jogar com um fantasma. Mais do que isto: era como ter minha casa invadida por um membro daquela estranha seita, talvez escrava, cuja única função na vida é ficar esperando desafios anônimos no jogo de dama. Era isto: a sensação de uma cidadela invadida e de uma intimidade indesejada cada vez que o outro movimentava uma peça.

Abandonei o dama no meio do jogo e cliquei no paciência. Jogando paciência você às vezes se sente sacaneado pelo computador, que geralmente permite uma vitória a cada cinco ou seis tentativas. Mas pode ao menos ter certeza de que não é nada pessoal.

Crônica-Vovô

A Lucinda, que tem quatro anos e meio, frequentemente nos premia com abraços e beijos extemporâneos. Mas também tem seus dias rebeldes, quando a qualquer aproximação de avô ou avó a fim de agarramento, ordena: “Me deixem em paz”

No outro dia, cheguei perto dela pensando num abraço e, se tivesse sorte, alguns beijos e ouvi seu aviso:

– Não se atreva.

Não se atreva! É claro que obedeci.

domingo, 3 de março de 2013


DANUZA LEÃO

Um homem fiel

Viver à beira do precipício é o maior combustível para uma paixão, e muitos confundem insegurança com sentimentos mais profundos

As mulheres são curiosas. Outro dia ouvi de uma amiga a seguinte pérola: "não é nem que eu esteja assim tão apaixonada, mas estou com XXX porque ele é incapaz de me trair".

A certeza com que ela disse isso -e a felicidade-, me levaram a pensar: será que essa é mesmo a maior qualidade que se pode querer de um homem? Que ele seja incapaz de nos trair? É um caso a pensar.

Naturalmente nenhuma mulher está querendo que o homem com quem pretende compartilhar a vida saia atrás da primeira mulher que passar pela frente; mas é preciso que o homem que se ama seja capaz de quase tudo, e nesse quase tudo está incluída a capacidade de achar graça em muitas mulheres; aliás, em quase todas. E é essa capacidade que põe a mulher louca -por ele.

Está-se falando de amor, claro, e qual a mulher que consegue amar sabendo que o homem que ama é incapaz de traí-la, que ela pode passar a vida fazendo qualquer coisa -ou nada- que vai ser amada da mesma maneira?

O que conserva o amor em altíssima temperatura é a incerteza, é a dúvida. Será que ele foi mesmo a um jantar de trabalho? Será que foi mesmo ao futebol? E quando o celular tocou e ele disse que não podia falar, que ligava depois, não seria uma mulher?

Claro que era, ela vai pensar. E vai viver no fio da navalha, sem certeza alguma do que está se passando, razão mais do que suficiente para não conseguir dormir, para viver atenta, prestando atenção a tudo, sobretudo aos silêncios.

Viver à beira do precipício é o maior combustível para uma paixão, e muitos confundem insegurança com sentimentos mais profundos.

Uma mulher que não tem muita certeza da fidelidade do seu parceiro nunca será vista precisando pintar a raiz dos cabelos ou sem pelo menos um pouquinho de maquiagem. Ela sabe que vive sempre por um fio, e nada melhor para alguém se sentir viva do que saber que a qualquer momento pode ganhar -ou perder- a vida, o dinheiro, o homem amado.

Estabilidade? E alguém tem estabilidade em alguma coisa? Se alguém achar que tem, além de ser um ingênuo, vai perceber que é a morte em vida.

Que você seja a pessoa mais rica do mundo, mais bonita, mais poderosa, pode acontecer de um dia, em um minuto, perder tudo.

Se houver uma revolução, o mais rico de todos pode ficar pobre -e até ser preso; se a mais linda tiver a pouca sorte de passar num desses bueiros que no Rio às vezes explodem, corre o risco de ir para o hospital para cuidar de suas queimaduras, e dizem que dor maior não há; e o poder- bem, basta ler os jornais, qualquer um, de qualquer país, para ver que se trata de uma gangorra.

Faça um exercício de memória e lembre dos nossos governantes do passado, que saíram debaixo de escândalos, e onde eles estão agora, poderosíssimos de novo; nesse ramo, mais do que em qualquer outro, tudo acontece, inclusive o impossível.

É essa certeza de não poder saber nada sobre o futuro que pode, às vezes, trazer uma notícia maravilhosa -embora seja raro-, ou acabar com suas ilusões e até com seu mundo.

Complicado, mas esse talvez seja o sal da vida.


FERREIRA GULLAR

De volta à avenida

O desfile é um acontecimento único no mundo, demonstração da criatividade do brasileiro

Depois de vários anos, voltei, no domingo de Carnaval, à passarela do samba, para assistir ao desfile das escolas, a convite do amigo Eduardo Paes, prefeito do Rio. O que me afastara desse desfile foi, entre muitas outras coisas, o som altíssimo dos alto-falantes, que não apenas me deixava atordoado como me impedia de ouvir a escola cantar.

Isso não mudou, até piorou.

A impressão que tive, desta vez, foi que o som estava mais alto do que antes. Já temendo isso, levei algodão para tapar os ouvidos e o fiz, mas não adiantou muito. Devo, porém, admitir que, não os houvesse tapado, não teria ficado muito tempo ali.

Entendo que, dado o tamanho da passarela, com vastas e altas arquibancadas, os alto-falantes tornam-se necessários, uma vez que, sem eles, uma boa parte dos espectadores não seria tocado mais intensamente pelo espetáculo.

Isso pode, porém, ser resolvido sem ampliar o som de modo insuportável, com acontece agora. Bastaria erguer, naquelas arquibancadas, postes com alto-falantes. Desse modo, creio, teríamos um espetáculo menos estressante e mais fiel à natureza mesma do desfile que, no passado, não contava com esse sistema de som.

O resultado é que, naquela época, se ouvia os foliões cantando o samba, no momento mesmo em que passavam diante de nós. Hoje, não se ouve voz alguma, a não ser a do puxador do samba, num berreiro atordoante.

Neste domingo, houve um momento em que o som dos alto-falantes falhou e foi uma maravilha: não durou dois minutos, mas foi o suficiente para ouvirmos a escola cantando e, num impulso, o público inteiro aplaudiu.

Mas nada tira o brilho desse espetáculo único no mundo, que é o desfile das escolas de samba. Falo de cadeira, porque comecei a assisti-lo em 1956, quando me enamorei da carioca Thereza Aragão. O desfile ainda era na avenida Presidente Vargas, depois passou para a Rio Branco e, finalmente, para a Marquês de Sapucaí, ainda com arquibancadas desmontáveis, de madeira.

A passarela atual -mal apelidada de sambódromo- foi invenção de Darcy Ribeiro, que convidou

Oscar Niemeyer para projetá-la. Nenhum dos dois nunca havia assistido a um desfile.

A praça da Apoteose foi imaginada por Darcy como o lugar onde o desfile de cada escola se encerraria como apoteótico espetáculo de dança. Disse a ele que isso jamais aconteceria e não aconteceu: a praça da Apoteose, apesar do nome pomposo, tornou-se o lugar de dispersão, como tinha que ser.

O que piorou muito, nestes últimos anos, foi a letra dos sambas-enredo. Isso já vinha ocorrendo e se acentuou a partir do momento em que os traficantes de drogas passaram a mandar nas escolas de samba e a impor seus comparsas como autores dos sambas. O principal sintoma disso foi o aumento do número de parceiros: de um ou dois compositores passaram a cinco, seis, sete.

Outro fator foi a necessidade de desfilar com tempo determinado, o que provocou a aceleração do ritmo, e o samba virou marcha. Este ano, à exceção talvez do samba da Vila Isabel, que teve Martinho da Vila como um de seus autores, os outros são péssimos.

As letras, além de banais, são desconexas, frases soltas, incongruentes, sem sentido algum. A melodia às vezes escapa, mas nada que se compare aos sambas-enredo do passado. Tanto que ninguém os decora nem os canta durante o desfile, como antigamente. O que salva o desfile hoje em dia são as baterias que, quando passam, empolgam o público e o fazem sambar.

De qualquer modo, o desfile das escolas de samba é um acontecimento único no mundo, demonstração da criatividade do povo brasileiro. Um espetáculo belo e empolgante, a que nenhum outro se compara, realizado a céu aberto com a participação apaixonada da plateia.

E há mais: a criatividade dos carnavalescos que inventam alegorias belíssimas, em que a inventividade plástica e cromática se soma muitas vezes à poesia e ao humor.

Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, nos anos 1960, revolucionaram as alegorias e as fantasias, abrindo caminho para as inovações de um Paulo Barros, que hoje encanta o público com suas invenções surpreendentes. Neste ano não deixou a desejar e, sim, pelo contrário, arrebatou a plateia com um extraordinário navio fantasma, que me pareceu alcançar o nível da melhor arte contemporânea.


JOSÉ SIMÃO

Ueba! Nação corintiana é surreal!

E o partido da Marina?

O Brasil tem pouquísssimos partidos, tava precisando de mais um mesmo!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Pensamento do dia: eleição no Vaticano é conclave e eleição no Congresso é conchavo!

E o Papa diz que cardeais envolvidos em escândalos sexuais não devem participar do conclave. Lei do Pinto Limpo! No Brasil, Lei da Ficha Limpa. Na Itália, Lei das Mãos Limpas. No Vaticano, Lei do Pinto Limpo. Sendo que nenhuma funciona.

Continua a SACRANAGEM! E o surreal da semana: embate dos advogados do caso Corinthians-Bolívia. O advogado do "de menor" da Gaviões: "Vou provar que meu cliente é culpado". E o advogado de acusação boliviano: "Vou provar que o corintiano acusado é inocente".

Só a nação corintiana para provocar esse surrealismo: advogado de defesa condena e advogado de acusação, inocenta! E esta notícia: "Cirurgia plástica pode deduzir do Imposto de Renda".

Oba! A Marta, o Amaury Jr. e o Silvio Santos vão ter isenção vitalícia. E a Ângela Bismarchi, isenção para as próximas oito encarnações! Então eu também vou fazer uma plástica: desentortar o pingolim! E tenho uma amiga que fez tanta plástica que, quando breca, a boca abre! Uma freada, uma risada! Aí o povo pergunta: "Do que essa motorista tanto ri?". E ela: "Não tô rindo! Tô brecando!".

E o que vou declarar no IR? Declaro que o Crocs da Dilma é cafona, que o Aécio é baladeiro e que a minha vizinha tá dando pro porteiro. E eu já disse: os impostos no Brasil não são altos, nós é que somos baixos. Rarará!

E esta piada pronta: "Time peruano vai usar Viagra para reduzir efeitos da altitude em Cusco". Peru, Viagra e Cusco. Isso não é um jogo, é uma suruba! Uma hora o Viagra vai bater. E eles vão estar em campo! E carrinho por trás vira estupro e marcação homem a homem é assédio sexual.

E o partido da Marina? O Brasil tem pouquísssimos partidos, tava precisando de mais um mesmo! Adorei o nome do partido: Rede! Um partido que não é posição nem oposição. Então não é rede, é muro! Rede porque ficam todos deitados balançando, ora pro governo, ora pra oposição! Nhenc, nhenc!

Barulho de rede com gancho enferrujado! E como disse um amigo: o partido da Marina é um PSD que não come carne! Rarará! E o programa do partido: desodorante de andiroba, xampu de cupuaçu e camisinha de polpa de buriti. E a Marina tá a cara da Mãe do Macunaíma. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

ELIANE CANTANHÊDE

Coincidência ou teto?

BRASÍLIA - Lula, em 2002 e 2006, e Dilma, em 2010, tiveram no primeiro turno o mesmo índice de votação: em torno de 43% dos votos totais, contando nulos e brancos. O que variou foi o percentual dos adversários tucanos. Serra teve 21% em 2002 e 30% em 2010. Alckmin atingiu 37% em 2006, no rastro do mensalão.

A lembrança, que assanhou oposicionistas na semana passada, foi lançada pelo "ex-blog" do ex-prefeito, ex-governador e bom analista de pesquisas Cesar Maia, do DEM, junto com uma provocação: "Coincidentemente, nas três eleições de Lula, Lula e Dilma obtiveram no primeiro turno 43% dos votos totais. Coincidência? Ou teto para 2014?".

Se for teto, isso sugere que o resultado deverá, ou poderá, se repetir no ano que vem. Há, porém, dois fatores a serem considerados, até porque, em política e em eleições, tudo pode, menos certezas de véspera.

Um dos fatores é que Lula foi "o cara" em 2002, 2006 e 2010, como candidato ou como carregador de Dilma. Na próxima eleição, ele continuará protagonista, mas já não estará sozinho. Aos 43% que ele teve e que carregou para sua candidata, acrescente-se o que a própria Dilma amealhou por méritos próprios ou mesmo pela força do cargo. Em 2014, poderá haver uma soma: Lula mais Dilma.

O outro fator é a economia. Nas festas de 33 anos do PT, 10 no Planalto, os aplausos vão para o governo Lula, como se ninguém se lembrasse do governo Dilma ou não quisesse azedar o bolo com o "pibinho" de menos de 1% de 2012, a inflação dando as caras, o fiasco da Petrobras, a maquiagem de dados... Não é o que se projeta, mas, em tese, pode haver uma diminuição: Lula menos Dilma.

E os demais candidatos são determinantes. Nas contas de Maia, Heloísa Helena só teve 6% dos votos totais em 2006, mas os evangélicos fizeram a diferença nas outras eleições. Garotinho chegou a 16% em 2002, e Marina, a 18% em 2010. Lula e Dilma venceram no final. Mas tiveram de enfrentar a pedreira do segundo turno.

sábado, 2 de março de 2013



03 de março de 2013 | N° 17360
MARTHA MEDEIROS

Entreouvidos por aí

“De todas as pessoas que eu conhecia, ela era a candidata menos provável de eu vir a ter uma história. Extremamente carola, cheia de nove horas, o oposto do meu estilo. Sou um cara moderno, livre, desimpedido em todos os sentidos.

Sempre gostei de mulheres bem resolvidas, e ela me parecia uma menininha à espera de um anjo salvador. No entanto, quando dei por mim, ela estava sob as minhas asas. Não era o que eu buscava na vida, não era mesmo. Não sei como chamar isso”.

“Se cruzassem nossos perfis em qualquer rede social, daria um curto-circuito. Ele não gosta de nada do que eu gosto, e eu tenho aversão ao jeito que ele se comporta. Mas, desavisados, numa festa trocamos um beijo que fez alguma coisa acender, e desde então é briga atrás de briga. Ambos se perguntam: o que justifica essa nossa insistência?”

“O Caetano tem uma música que diz: mexe qualquer coisa dentro doida. É bem assim que me sinto. É do departamento das loucuras inexplicáveis. Sou bonita, inteligente, bem educada. Sei que agrado, não ficaria sozinha jamais, a não ser que quisesse.

No entanto, estou há dois anos namorando um colega de faculdade que me esnoba, mas não me deixa, e eu vou arrastando esse relacionamento na esperança de que ele amadureça. Tem nome um troço desses? Carência, doença, masoquismo?”

“Namoro uma mulher bem mais velha que eu. Minha mãe torce o nariz. Meus amigos me chamam para a balada a fim de que eu conheça umas garotas da minha idade. Ela própria acredita estar empatando a minha vida. Meu terapeuta acha que está tudo bem do jeito que está, e eu também acho, mas ninguém a minha volta parece compreender. Às vezes nem eu compreendo”.

“Meu casamento durou apenas quatro anos. Não conseguíamos viver bem, era um desgaste emocional que fazia ambos sofrerem. Decidimos terminar de comum acordo e nós dois estamos agora respirando melhor, com a vida mais destravada. Até já estou saindo com outro cara, mas quando toca o celular, fico torcendo para que seja meu ex. Queria entender o que se passa comigo”.

“Já fui casado e sei bem o que é uma relação saudável, bacana, estruturada. Estaria com ela até hoje se não tivesse enviuvado. Achei que nunca iria me recuperar do baque, mas anos depois comecei outra relação séria, só que era o oposto do primeiro casamento: um tumulto, parecia que falávamos idiomas diferentes, ninguém se entendia, mas a atração era incontrolável e estamos juntos até hoje, nem eu nem ela temos coragem de sair fora, mesmo sem entender o que nos faz ficar”.

“Sabe relação ioiô? Vai e volta, vai e volta? Nenhum dos dois têm mais paciência pra isso, é ridículo. Se não conseguimos nos acertar até aqui, qual a esperança de um milagre acontecer? Teimosia, é o nome disso. Se não é teimosia, não sei o que é”.

Quando a gente não sabe o que é, é amor.


03 de março de 2013 | N° 17360
VERISSIMO

Bolero

“Dormir avec vous madame
Dormir avec vous
C´est um merveilleux programe
Demandant surtout
Um endroit discret madame”

Charles Aznavour

Enfim um bolero, nest pas madame? Fui eu que subornei a orquestra. Agora podemos dançar juntos, eu sentindo os seus seios contra o meu peito, você sentindo as minhas medalhas. O bolero favorece a minha perna mecânica, ao contrário do tango, que também cultivo, mas só em teoria, senão eu caio na primeira rabanada.

O bolero também nos permite falar um no ouvido do outro, ao contrário dessas danças modernas, nas quais a única comunicação possível entre os pares é o sinal metafórico. Nenhuma conversa é tão privada e discreta quanto a de um homem e uma mulher dançando um bolero, o homem cuidando para não engatar os lábios num brinco ao mordiscar o lóbulo, onde a mulher é mais tenra, a mulher se permitindo dizer baixinho tudo que jamais diria em público, principalmente ao alcance dos ouvidos do marido. Existe um marido, pois não, madame?

Deve haver um marido, senão nada disto este salão, este bolero, seus seios contra o meu peito e a minha ereção tem sentido. O essencial numa sedução não é o sedutor nem a seduzida, é o marido. Todo o drama, toda a aventura, toda a glória e o prazer de uma sedução está centralizada no marido enganado.

Um caso sem marido é como um merengue sem recheio, uma casca farofenta encobrindo o nada. Seu marido está nos vendo? Está seguindo nossos passos, salivando como um cão raivoso? Sinto seus olhos na minha nuca, talvez medindo-a para um golpe de cutelo, como o que mata os touros que se recusam a morrer pela espada. Sim, também já fui toureiro.

O que a gente não faz para impressioná-las, hein madame? Posso desafiar o marido para um duelo, se lhe convier. Sim, sou do tempo dos duelos, quando a honra se lavava com sangue, nem que fosse apenas o sangue de um arranhão. Madame já adivinhou que sou um homem antigo.

Para mim, nada é mais apropriado do que um bolero acabar num duelo. Posso mandar seu marido para um hospital. Assim nem ele ficaria sem sua honra nem nós ficaríamos sem um marido enganado vivo para apimentar nossa união.

Como eu perdi minha perna? Foi numa dessas guerras, não me lembro mais qual. Foi em Waterloo, foi no Somme, foi no desembarque em Omaha Beach, quem se lembra? E tudo para impressioná-la, madame. Eu ainda não a conhecia, nem sentira os seus seios contra o meu peito, e já estava matando e morrendo e construindo civilizações para impressioná-la. Esta sedução não começa aqui, madame, começou há milhares de anos, quando nós descemos das árvores para a savana e passamos a andar de pé, com a genitália exposta.

Como isto não as impressionou muito, recorremos a outros meios de sedução. Brigas, guerras, atos de bravura e audácia intelectual, boleros. Tudo para dormir com você, madame. Dormir com você. Fazermos um programa maravilhoso num lugar discreto.

Champanhe, alguns canapês, cortinas de veludo cerradas, um disco de vinil na vitrola (sou um homem antigo). Não queremos outra coisa além de dormir com você. Nunca quisemos. E... glubz! Desculpe madame. Acho que engoli o seu brinco.