
11 de novembro de 2007
N° 15415 - Moacyr Scliar
Plano B: vocês, por acaso, têm um?
O plano B aos poucos vai entrando na rotina do Brasil. E vai entrando porque o plano A freqüentemente não existe ou não funciona
O pequeno avião deveria sair de Ribeirão Preto, onde estive para a Feira do Livro, por volta das 9h30min, com destino ao Rio de Janeiro. Mas não saiu. Já estávamos todos sentados, com os cintos de segurança afivelados, os celulares e os laptops desligados quando veio o desanimador aviso: a aeronave estava com um problema técnico, os passageiros deveriam desembarcar e aguardar.
Desembarcamos, e formou-se a habitual concentração de gente na frente do guichê da companhia; seguiram-se as habituais perguntas, não raro formuladas em tom irritado. Ao que o encarregado dava as habituais respostas: vamos esperar, estamos tomando providência, temos de consultar os nossos superiores.
Eu olhava o encarregado, um homem ainda jovem que, para seu azar, tinha de se desincumbir dessa patética missão. Claramente não sabia o que fazer ou o que dizer; tentava aparentar uma segurança que obviamente não tinha. Tanto que a meu lado um homem resmungou:
- Esses caras não têm um plano B.
Estava feito o diagnóstico: se há coisa que caracteriza a gestão brasileira é a ausência do plano B. Um avião pode apresentar defeito, obviamente. E isto é tão previsível que os responsáveis pela linha aérea já deveriam ter se perguntado: o que é que a gente faz se o avião estragar?
Como é que a gente resolve o problema dos passageiros? Mas esta questão não havia sido formulada, ou, se por acaso havia sido formulada, nenhuma resposta fora encontrada ou providenciada.
É lendário o espírito de improvisação dos brasileiros, mas a tecnologia é implacável: não dá para improvisar uma bateria de avião (a peça que estava com defeito). Resultado:
muitos passageiros começaram a ir embora, a maioria com destino a São Paulo, onde, teoricamente, poderiam encontrar outros vôos. Três horas depois, e subitamente, os restantes (entre os quais eu me encontrava), fomos chamados para a sala de embarque. E aí o avião partiu.
A expressão plano B não nasceu aqui. Já era utilizada no jargão militar do governo americano e da CIA, para designar uma alternativa a um plano já traçado, alternativa a que se recorreria em caso de imprevisto, por exemplo, condições climáticas desfavoráveis para um ataque aéreo. Depois o sentido se alargou; plano B passou a seu nome de revistas, de manuais e até de uma banda de rock.
Como possível efeito da globalização, o plano B aos poucos vai entrando na rotina do Brasil. E vai entrando porque o plano A freqüentemente não existe, ou, existindo, não funciona.
A noção de planejamento não fez muito sucesso ao sul do Equador, e a certa altura "plano", no Brasil, era uma palavra ameaçadora, como aconteceu no Plano Cruzado.
Mesmo admitindo a necessidade de planejamento nem todos concordam com o plano B. Perguntado se teria um caso a CPMF fosse rejeitada, o presidente Lula respondeu: "Se começarmos a trabalhar com um plano B, significa que não estamos dando prioridade ao plano A". Ou seja: é vencer ou vencer, porque, acrescentou Lula, "Não tem como prescindir de R$ 40 bilhões".
Há uma consideração paralela, desta vez no plano pessoal, em que o excesso de planejamento talvez seja tão ruim quanto a falta deste. Dá para planejar, por exemplo, a vida emocional? Dá para garantir que todos os objetivos e metas serão atingidos?
Os artistas de Hollywood, que se tornaram famosos pela instabilidade de suas vidas, introduziram um plano B nos casamentos.
Ficou famoso o acordo pré-nupcial entre Michael Douglas e Catherine Zeta-Jones, que envolvia uma compensação de milhões de dólares em caso de separação (e, caso não houvesse separação, uma garantia mínima de US$ 3 milhões anuais para ela).
Quando o contrato de casamento torna-se parecido com um contrato comercial, a pergunta é: e o amor, onde é que fica?
Amor e plano B são compatíveis? Afinal de contas, o amor não é um avião que sai atrasado. E mesmo que seja: qual a importância do tempo para quem está enamorado?
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